LEFÈVRE D'ÉTAPLES (TIAGO)

LEFÈVRE D'ÉTAPLES (TIAGO)

LEFÈVRE D'ÉTAPLES Tiago (Jacobus Faber Stapulensis), humanista e escritor eclesiástico francês (1450? - 1536). Embora este autor seja conhecido sobretudo por seus comentários bíblicos, merece um lugar neste dicionário. Escrever sua história é redigir um dos capítulos importantes da história da teologia no século XVI. Representante mais em evidência, ao mesmo tempo que Erasmo, e talvez antes dele, do primeiro humanismo cristão, Lefèvre exerceu, não apenas na França, mas além das fronteiras, uma influência que se soma à do autor dos Colloques. Como este, lançou em circulação grande número de ideias novas, que contrastavam com os hábitos de pensamento tradicionais. Essas inovações valeram-lhe, como a Erasmo, a fama de ter sido, ao menos em nosso país, o precursor da Reforma.

E, como aconteceu que vários dos discípulos de Lefèvre acabaram passando ao protestantismo, compreende-se que, desde as origens, o nome de nosso autor tenha sido envolvido na história da Reforma na França. Muitos escritores fizeram dele, sem maiores explicações, o primeiro dos protestantes franceses; somente sua timidez natural, sua idade avançada, as circunstâncias que cercaram seus últimos anos, acrescentam eles, o impediram de romper abertamente com a Igreja romana, da qual estava, de fato, separado havia muito tempo. No mesmo sentido convergiram protestantes e católicos; e, para estes últimos, tinham ilustres predecessores na pessoa dos doutores da Sorbonne que foram os implacáveis adversários de Lefèvre. Convém aceitar esses juízos apenas sob benefício de inventário, e há motivo, sem dúvida, para recolocar Lefèvre d'Étaples em seu verdadeiro lugar, como se acabou por recolocar Erasmo. Reformista, ele o foi, mas não reformado; evangelista, mas não luterano. Homem de justo meio, ele o foi; tentou, de início, fazer predominar sábias máximas que todo católico podia aceitar e que os mais moderados dentre os reformadores não podiam rejeitar. Mas, na assustadora confusão das coisas que se seguiu à primeira explosão do luteranismo, os homens de justo meio podiam ainda fazer-se ouvir? Finalmente ultrapassado pelo movimento que contribuíra para criar, mas que foi incapaz de dirigir, Lefèvre acabará no isolamento, quase no abandono, rejeitado por uns, superado por outros, suspeito a todos. Nem por isso deixa de ser uma das figuras mais interessantes e mais simpáticas dos primeiros tempos do humanismo francês.

Em vez de adotar aqui a divisão clássica — vida, obras, doutrinas —, procuraremos seguir as diferentes etapas de sua longa carreira, remetendo à bibliografia os detalhes técnicos relativos aos títulos completos de suas principais obras. Estudaremos sucessivamente: I. O renovador do aristotelismo. II. O filólogo cristão (col. 134). III. O comentador da Bíblia (col. 136). IV. O reformista em ação e suas tribulações (col. 144).

I. O RENOVADOR DO ARISTOTELISMO. — Sobre a família de Lefèvre, sua infância, seus primeiros estudos, até mesmo a data de seu nascimento, falta-nos toda precisão. Era muito idoso, quase centenário, dizia-se, quando morreu em 1536; admitamos que tenha nascido entre 1440 e 1455, em Étaples (Pas-de-Calais), cujo nome conservou. Quando escreve em latim, assina Faber Stapulensis; seus contemporâneos o chamam indiferentemente Lefèvre, Faber ou Fabri, que é a mesma palavra. Começamos a descobri-lo quando está em Paris, por volta de 1475, aluno de Hermonyme de Esparta, que lhe ensina o grego; tornou-se mestre em artes, mas, se fez estudos de teologia (e os fez, pois se tornou sacerdote), nunca conquistou o barrete de doutor. Mais tarde, seus adversários saberão muito bem censurá-lo por, sendo simples literato, ter-se metido em questões propriamente teológicas.

Uma viagem que faz à Itália entre 1486 e 1492 decide sua primeira vocação. Em Pavia, em Pádua, em Roma, encontra os representantes do humanismo italiano, ocupados então em recuperar o texto original e, mais ainda, o sentido verdadeiro de Aristóteles. Incompletamente conhecido dos escolásticos da Idade Média, acessível apenas em traduções muito defeituosas, obscurecido mais que esclarecido por indefinidos comentários que lhe fizeram perder o caráter primitivo, o filósofo grego tornara-se irreconhecível; tratava-se de devolver-lhe, com sua antiga simplicidade, a significação que teve de início. É o que se empenham em fazer, com zelo, na Itália, e é o que Lefèvre vai empenhar-se em fazer, de volta a Paris e fixado, por longo período, no colégio do cardeal Lemoine, onde ensina.

Logo se forma em torno dele um grupo de alunos, aos quais comunica seu ardor pela ressurreição da antiga filosofia; há franceses, dos primeiros: Clichtoue, um dos mais amados, Bovelles, Molinier, Fortunat, mais tarde Guillaume Briçonnet, que é do colégio de Navarra, e Farel, um dos últimos a chegar; há estrangeiros: Jean Solidi de Cracóvia, os dois Amerbach de Basileia, Beatus Rhénanus de Sélestat. E, quando o mestre os formou, os discípulos vêm em seu auxílio para as publicações de textos filosóficos que vão suceder-se durante mais de quinze anos. Josse Clichtoue e Bovelles estão aqui entre os bons operários da primeira hora.

Não se trata ainda de publicar o texto grego, empreendimento prematuro, mas de versões mais exatas que as traduções correntes, de breves introduções que situem o assunto dos tratados do Estagirita, de curtas paráfrases que, pela aproximação de textos paralelos, façam ressaltar o pensamento do mestre, enfim, de exposições de feitio mais pessoal, nas quais o filósofo antigo serve de ponto de partida para considerações mais modernas. Assim é que aparece em 14(12 uma paráfrase sobre os oito livros da Física, que nas edições seguintes conterá também uma introdução à Metafísica, e, desde cedo também (a data é difícil de precisar), dois diálogos sobre a Física e quatro sobre a Metafísica.

Em 194, introdução aos Magna Moralia; em 1496, introdução aos dez livros da Ética a Nicômaco; em 1497, três traduções latinas dessa última obra, acompanhadas de uma Introdução moral à Ética de Aristóteles; em 1503, reedição da tradução da Lógica por Boécio, com paráfrases; em 1506, comentários sobre a Política e a Econômica; em 1508, introdução à Política. Se outras preocupações vêm interpor-se nos anos seguintes, a produção aristotélica não cessa de todo, e Vatable publica ainda em 1518, sob a direção de Lefèvre, uma nova versão das obras do Estagirita relativas à física. Mas não é apenas na restauração filológica do aristotelismo que se trabalha nesse meio de que Lefèvre é a alma: é a própria filosofia que se trata de renovar, é a dialética que se quer podar de toda a vegetação parasita que se desenvolveu sobre o tronco primitivo, é a exposição das ideias mestras que se pretende tornar mais clara, mais simples, menos bárbara. Que contraste entre as produções da jovem escola e os pesados comentários, todos eriçados de subdivisões indefinidas e todos blindados de silogismos, que saem no mesmo momento dos prelos escolares.

Para chegar à elegante sobriedade que recomenda, Lefèvre atribui ao estudo das ciências uma virtude especial. A preocupação com a cultura científica anda a par com a da filologia. Ele se dedica à matemática e ele próprio a ensina; publica exposições a respeito: aritmética e música em 1496; texto e comentário do tratado sobre a esfera de Jean d'Holywood (Joannes de Sacrobosco) em 1497; dois livros de astronomia em 1503; os Elementos de Euclides em 1517; fica bem entendido que a matemática não é aqui cultivada por si mesma, mas pela formação que dela se espera. É frequentando-a que Lefèvre adquirirá, para si, essa sobriedade na exposição, essa elegância na demonstração que o colocam acima de todos entre os humanistas de seu tempo. Convém, não menos, assinalar o ardor com que a jovem escola se lança ao estudo das ciências e a audácia com que Lefèvre tenta, desde 1500, numa obra original, Introductio in terminorum cognitionem, a classificação das diversas disciplinas.

Se se pensa na estreita dependência em que se achava então a teologia em relação à filosofia, nunca se notaria o bastante que visões novas deviam introduzir, mais cedo ou mais tarde, no estudo das ciências sagradas as novas maneiras de raciocinar e de pensar que introduzia a jovem escola de que Lefèvre era o chefe. A dialética complicada que constituía então o essencial da ciência teológica não deveria ceder lugar, um dia ou outro, a procedimentos mais simples, mais evidentes, a outros meios de penetrar, tanto quanto possível, nos mistérios de Deus? O retorno à Antiguidade mostrara-se fecundo quando se tratava de filosofia; não o seria ainda mais no dia em que se pensasse em empregá-lo no domínio da teologia?

II. O FILÓLOGO CRISTÃO. — Aliás, o primeiro humanismo francês é de início quase exclusivamente erudição e literatura; mas aquele que era seu inspirador tinha uma alma profundamente religiosa demais para não se aperceber do que havia de um tanto vão nas pesquisas em que se demoravam ele próprio e seus discípulos. Quanto aos sentimentos de piedade que Lefèvre possuía, podemos crer em Farel. Passado ao protestantismo mais radical, às negações mais ferozes, e perguntando-se como pôde crer em sua juventude nas idolatrias dos papistas, o inovador justifica-se invocando os exemplos que teve então, e especialmente o espetáculo que lhe dava Lefèvre da ciência mais leal e mais clarividente associada à piedade mais simples e mais comovente. O modo como esse sábio celebrava a santa missa ou lia suas horas causara em sua alma de adolescente a mais viva impressão. Ver Épître à tous seigneurs..., edit. de Neuchâtel, 1865, p. 17.

Tal aplicação às coisas de Deus devia levar, mais cedo ou mais tarde, Lefèvre e seu grupo a estudar mais especialmente as questões religiosas, a aplicar às obras da Antiguidade cristã os mesmos métodos que preconizavam no estudo da filosofia antiga. Ora, nesse domínio, o trabalho de desobstrução era ainda mais indispensável do que no primeiro. Sem dúvida a Idade Média não ignorara os Padres da Igreja; mas, em primeiro lugar, só conhecia um número relativamente restrito deles, e os que estudava, utilizava-os sobretudo para reforçar a argumentação dialética, muito mais do que para adquirir um conhecimento do passado cristão. Esse passado, representava-o facilmente sob as cores do presente, e não sentia necessidade de saber até que ponto os dogmas, as práticas, os sentimentos que conhecia correspondiam aos ensinamentos, às lutas, aos hábitos dos antigos. Tendo tomado o hábito de voltar em todas as coisas às fontes antigas de nossos conhecimentos, o humanismo não podia negligenciar essa fonte do conhecimento cristão que constitui a patrística.

Lefèvre, aqui, não era de modo algum um iniciador, e não se esperou por ele para estudar como filólogo os Padres da Igreja; é preciso reconhecer, não obstante, a parte enorme que ele e seu discípulo Clichtoue vão tomar imediatamente nesse domínio ainda pouco explorado. Em 1498 aparece a Theologia vivificans. Note-se seu subtítulo: cibus solidus. É uma edição latina dos três grandes tratados atribuídos ao Areopagita, Cœlestis hierarchia, Ecclesiastica hierarchia, Divina nomina, e das dez cartas (Lefèvre publica onze) do mesmo autor. A isso se acrescentam onze epístolas de santo Inácio (as sete clássicas na recensão longa e as quatro que só são conhecidas em latim) e a carta de são Policarpo. Em 1504 são publicadas, sob o título muito significativo Pro piorum recreatione, as seguintes obras: o Paraíso de Heráclides (adaptação latina da História Lausíaca, ver P. L., t. LXXIV, col. 243-342); a Carta de Clemente a Tiago, que se lê no início da tradução rufiniana das Recognições clementinas, e as próprias Recognições; uma Carta (apócrifa) de Anacleto. O prefácio é datado de 10 de fevereiro de 1503 (na realidade 1504; nessa época, na França, o ano começava na Páscoa).

Em 1507 aparece a Theologia Damasceni, tradução do De fide orthodoxa; em 1510, o pseudo-Hegesipo, que é atribuído a santo Ambrósio; no mesmo ano ainda, as Obras de santo Hilário; em 1513, a versão vulgata do Pastor de Hermas (num volume de conteúdo muito misto intitulado Liber trium virorum et trium spiritualium virginum); em 1520, as Obras de são Basílio (Hexameron, Adv. Eunomium, oração fúnebre de Gregório de Nazianzo sobre são Basílio, sermões e regras monásticas). Se se acrescenta a essa obra de publicação empreendida pelo próprio Lefèvre aquela, não menos importante, que Clichtoue levava a bom termo, ver t. III, col. 237 sq., notar-se-á quão considerável é a parte desses dois homens no renascimento da Antiguidade cristã.

Convém, aliás, não esquecer que, se faz reviver o passado da Igreja, não são apenas os séculos mais remotos que Lefèvre empreende dar a conhecer. Ao contato do Areopagita, seu gosto natural pela teologia mística desenvolveu-se ainda mais. Daí a ideia de pôr ao alcance dos contemporâneos as obras místicas mais importantes. É a essa inspiração que devem a luz do dia, em 1490, quatro livros de Raimundo Lúlio; em abril de 1505, os escritos herméticos; em dezembro do mesmo ano, o primeiro volume das Contemplações de Raimundo Lúlio; em 1510, o tratado de Ricardo de São Vítor sobre a Trindade e o Libellus de officio missæ de Bernon, abade de Reichenau; em 1513, os diversos opúsculos de piedade contidos no Liber trium virorum acima mencionado; em 1514, a edição das obras de Nicolau de Cusa. À mesma veia pertencem ainda os Agones martyrum mensis Januarii, nos quais Lefèvre foi auxiliado por Farel e nos quais começava a publicar os atos dos mártires que se propunha completar posteriormente pelos Feitos dos confessores; do mesmo modo ainda, num gênero um pouco diferente, as Contemplationes idiotæ, aparecidas em 1519, meditações piedosas de um monge anônimo (na realidade Raymond Jordan, cônego regular de Santo Agostinho, morto em 1381). E mencionemos ainda a publicação, em 1509, de diversas obras apologéticas dirigidas contra os maometanos.

Tal é o balanço do trabalho realizado por Lefèvre no domínio daquilo que podemos chamar a filologia cristã. Se nada tem de muito original, se consistiu sobretudo em pôr ao alcance do público douto obras até então mais ou menos acessíveis, nem por isso deixa de ter alcance considerável. A teologia positiva ainda está por nascer, e ainda não se cogita da história dos dogmas; mas começam a amontoar-se os materiais que permitirão mais tarde a constituição dessas novas disciplinas. A obra escriturística de Lefèvre, mais estreitamente envolvida nas controvérsias da época, arrisca-se por vezes a fazer esquecer a importante contribuição fornecida pelo grande humanista à patrística. Ocupou, contudo, muito menos lugar em sua vida; só começa a apaixoná-lo a partir de 1509, e por longo tempo ainda os trabalhos sobre a teologia histórica caminharão lado a lado com os que dizem respeito à Bíblia.

III. O COMENTADOR DA ESCRITURA. — 1° Trabalhos escriturísticos. Desde o ano de 1507, Lefèvre estava instalado em Saint-Germain-des-Prés, de que seu amigo Guillaume Briçonnet acabava de ser nomeado abade e que empreendia reformar. É possível que, a partir desse momento, o humanista tenha deixado seu ensino no Colégio do cardeal Lemoine. O que é certo é que as novas condições de sua vida não tardaram a influir sobre a evolução de seu pensamento e a marcha de seus trabalhos. No início de sua carreira, é a filosofia que sobretudo o preocupou; insensivelmente, outros estudos monopolizaram sua atenção. A Theologia vivificans lhe revelou o mundo do pensamento cristão antigo; pouco a pouco também os estudos filosóficos desaparecem de sua obra. Mas os sentimentos dos Padres não são, longe disso, a fonte primeira da doutrina católica. É mais acima que é preciso remontar, às santas letras do Antigo e do Novo Testamento.

Na abadia de cuja vida participa em parte, e onde os esforços de Briçonnet tendem a fazer reviver uma observância mais exata, a salmodia ocupa um lugar considerável. Que serviço seria prestar-lhes mostrar aos monges, aos sacerdotes, aos clérigos obrigados por ofício à recitação das Horas os tesouros ocultos que encerra o saltério que têm incessantemente nas mãos e que, para a maioria, é um livro selado! Tais são as ideias que Lefèvre exprime na carta-dedicatória do Psalterium quincuplex, que aparece em 1509, dedicado ao cardeal Briçonnet. As duas tendências de Lefèvre nele se refletem da melhor forma. O filólogo quer restituir, na medida do possível, um texto ao mesmo tempo inteligível e seguro. Tal como se lê no breviário oficial, o saltério é, em muitos lugares, obscuro, por vezes incompreensível. É vão pensar por ora em substituí-lo por uma nova versão do texto original, mas, sendo este texto recebido, é lícito fazê-lo compreender comparando-lhe outras traduções existentes.

Em três colunas, na primeira parte do livro, Lefèvre dispõe os textos do psalterium gallicanum, do romanum, do hebraicum, devidos todos os três a são Jerônimo. Na segunda parte aparecem, em duas colunas, o texto antejeronimiano e um texto novo (textus conciliatus) estabelecido pela comparação das lições fornecidas por todas essas testemunhas. Na sequência de cada salmo figuram, na primeira parte, as notas críticas geralmente breves que permitirão captar o sentido com mais facilidade. Tal é o trabalho do filólogo: uma primeira tentativa, infelizmente não continuada, de tornar inteligível um texto sagrado que tantas circunstâncias contribuíram para deformar. A obra está longe de ser perfeita; Lefèvre não sabe suficientemente o hebraico para empreender uma tradução direta; seu método todo empírico não lhe permite quase remontar à lição primitiva. Contudo é honra do humanista francês ter empreendido uma tarefa diante da qual tantos outros recuaram depois.

Mas compreender materialmente o texto não lhe basta. Essa inteligência toda exterior é sem proveito para a alma. O místico que se desenvolve nele quer fazer os outros aproveitarem suas experiências. Para que recitar os salmos, se essa oração inspirada não fala ao coração.

Ela lhe falará tanto melhor quanto mais por toda parte se reencontrar o Cristo. E eis Lefèvre esforçando-se por encontrar, tarefa fácil em certos lugares, bem mais árdua em outros, as aplicações ao Salvador da salmodia hebraica. Para o Sl. I: Psalmus de Domino, enim David Christo est qui habet clavem et qui claudit et nemo aperit; e o Sl. CL, tanto quanto: Laudate dominum in sanctis ejus; ex hebræo in Deo et Agno sedenti in throno quem, revelata facie, conspiciunt beati. Isso dá a ideia de todo o comentário. Pouquíssimas referências aos comentadores anteriores. É a alma de Lefèvre, mística, entusiasta, que se derrama em meditações pessoais, sóbrias aliás, contidas, moderadas, de uma graça toda francesa. Nenhuma controvérsia, nenhuma discussão. Este livro, escrito às vésperas dos formidáveis acontecimentos que vão transtornar a Europa cristã, é o mais tranquilo, o mais belo que se possa imaginar.

Editado o Saltério, e depois de uma viagem às margens do Reno em 1509, que o põe em relação, em Colônia, com os Irmãos da Vida Comum, Lefèvre empreende um trabalho de outra importância, o Comentário sobre as epístolas de são Paulo, que aparece em 1512, dedicado a Guillaume Briçonnet, o abade de Saint-Germain, tornado bispo de Lodève. O mesmo espírito aí se encontra que no Psalterium. O humanista se marca nisto: ao texto das epístolas canônicas acrescenta em apêndice diversos trechos apócrifos: Epístola aos Laodicenses, Cartas de Paulo a Sêneca, Paixão dos apóstolos Pedro e Paulo (supostamente) redigida por Lino. Muito mais importante é a inovação que consiste em publicar em duas colunas, em caracteres grandes, o texto da Vulgata, assinalado assim como o texto oficial, e em caracteres menores uma tradução nova feita diretamente sobre o grego. Essa maneira de proceder devia parecer ousada; é justificada pela tranquila afirmação do prefácio: que a versão corrente das epístolas paulinas não é obra de são Jerônimo — Apologia: quod vetus interpretatio epistolarum beatissimi Pauli quæ passim legitur, non sit translatio Hieronymi. Essa afirmação, que se sabe não estar ainda definitivamente aceita hoje, permite a Lefèvre tomar com o texto oficial todas as liberdades necessárias.

Observemos, aliás, que o texto por ele substituído à Vulgata não vale muito mais do que esta. Mas o que se deve reter é a facilidade com que, desde o início, a crítica textual dos livros santos se emancipa do controle dos teólogos. É um humanista, simples mestre em artes, que toma, a respeito de um texto oficial, essa liberdade. O fato é grávido de consequências. Sóbrio, preciso, despojado das referências aos autores antigos que tão frequentemente sobrecarregam as obras desse gênero, o comentário acompanha de bastante perto o texto, esforça-se por pôr em luz o sentido histórico, mas tende de bom grado à parênese. Estudaremos mais adiante as principais ideias teológicas que nele se revelam.

Embora só tenha aparecido em 1522, o Comentário dos quatro Evangelhos não difere sensivelmente em seu espírito do de são Paulo. Contudo, graves acontecimentos se desenrolaram no intervalo que separa as duas publicações. A revolta de Lutero começou na Alemanha; em 10 de dezembro de 1520, a bula de Leão X foi queimada em Wittenberg; em abril de 1521, na dieta de Worms, Lutero recusou retratar o que quer que fosse; os cismas se multiplicam, a guerra religiosa vai eclodir. Eis o estado geral da Europa, com o qual não se deixa de preocupar muito no círculo em que vive agora Lefèvre. Desde 1520 ele está instalado em Meaux, junto de Guillaume Briçonnet, nomeado para a sé episcopal dessa cidade em 1516 e que, de volta de uma missão a Roma, toma a sério seu papel de bispo. A reforma da Igreja, que há tanto tempo tantas vozes reclamam, o novo prelado queria começá-la em sua diocese. Cerca-se, pois, dos homens que julga mais aptos para realizar seu desígnio. Lefèvre veio um dos primeiros, em 1520, e diremos mais adiante como procura, com o «grupo de Meaux», fazer passar para a realidade as belas intenções e os generosos desígnios de Briçonnet.

Mas o velho humanista é mais feito para o trabalho silencioso do gabinete do que para a ação. Se se desempenha com zelo das funções de vigário-geral que o bispo lhe confiou, resta-lhe tempo suficiente para compor obras de erudição, e eis que aparecem em 1522 os Commentarii initiatorii in quatuor evangelia. É ainda uma obra de sábio, mas visivelmente, no espírito de Lefèvre, as preocupações filológicas de outrora estão em recuo. Nenhuma tentativa de correção do texto recebido; somente no fim de cada capítulo, antes de passar ao comentário, o autor alinha annotationes breves circa litteram, nas quais a comparação com o original permite esclarecer o texto da Vulgata. Em contrapartida, o comentário se enriqueceu; sobretudo se aprofundou. O Evangelho não é a fonte jorrante de toda piedade, de toda vida interior, de toda verdade? O prefácio é um ditirambo em honra da «boa nova, verbo de Cristo, verbo de Deus, evangelho de paz, de liberdade e de alegria, evangelho de salvação, de redenção e de vida. Evangelho de paz, que nos tira da guerra perpétua, de liberdade depois da duríssima servidão, de redenção depois do pavoroso cativeiro. Aqueles que não amam o Cristo e sua palavra, como poderiam ser cristãos? Fazer amar essa palavra santa é o primeiro dever dos pontífices e muito especialmente daquele que é chamado o primeiro, o soberano...; que seja de todos os cristãos o único estudo, a única consolação, o único desejo: conhecer o evangelho, seguir o evangelho, promover por toda parte o evangelho.»

É, pois, a tarefa que Lefèvre reserva especialmente a si: dar a conhecer o Evangelho; e não somente sua letra morta, mas seu espírito que vivifica. E sem dúvida não deixa de ter interesse procurar restituir a ordem mesma dos acontecimentos e da vida do Salvador; mas de que serviria esse conhecimento histórico, se não conduzisse, sob a direção do Espírito Santo que guia o leitor crente, às considerações morais, as únicas úteis para a salvação? É assim que a explicação do Evangelho se torna uma contínua parênese, à qual conduz aliás muito naturalmente a interpretação alegórica dos detalhes.

Em vão, aliás, Lefèvre tenta distinguir o que chama de sentido espiritual do sentido alegórico; inevitavelmente acaba por voltar a este. Compreende-se que, em sua opinião, tal busca só possa realizar-se sob a influência contínua do Espírito Santo. Et tant humana ratio ntulta, ttoltda et qum : ma, hum, mus lemerarta suis diaceptationibus ac ratiociniis posse illam eruere, suam propriam ignorans incapacitatem, quia uerba Spiritus non sensu nostro, non ratione nostra capiuntur.... sed fide et Spiritu desuper immisso ratione potentiore atque capaciore. In Ev. Joan., viii, 27, § 72. É o que dirá ainda mais claramente o comentário sobre a IIª Petri, iii, 16, que data de alguns anos mais tarde: «Para termos a inteligência das divinas Escrituras, precisamos de um mestre, o Espírito Santo, que secretamente inspira as almas dos humildes e dos verdadeiros fiéis. Pois, se não somos guiados por ele, só podemos decair da firmeza da fé e da vida que nos faz viver em Jesus Cristo.» In Epist. IIam Petri, iii, 16, 22. Teremos de nos explicar mais adiante sobre a importância que se deve atribuir a esse princípio de interpretação da Sagrada Escritura.

Não separemos do Comentário sobre os Evangelhos, apesar de sua data um pouco mais tardia, o Comentário sobre as epístolas católicas, aparecido em 1527, mas que já estava, ao que parece, composto em 1525. Mesmo método, mesma inspiração, mesmo resultado; parece difícil encontrar entre essa produção e o São Paulo aparecido quinze anos antes uma diferença apreciável. No máximo poder-se-ia dizer que o velho humanista está cada vez mais seguro de seu método, cada vez mais persuadido da excelência de suas meditações sobre a Sagrada Escritura.

2° PRINCIPAIS IDEIAS TEOLÓGICAS DE LEFÈVRE. — O momento parece, pois, chegado de lançar um olhar de conjunto sobre a produção escriturística de nosso autor. Se se pensa que ela veio à luz no momento mesmo em que se desenrolavam na Alemanha os acontecimentos religiosos que se sabe, na época mesma em que as ideias luteranas começavam a penetrar na França e nos próprios meios em que se movia Lefèvre, é indicado procurar nela se, e até que ponto, reflete as ideias que Lutero acaba de lançar em circulação? Ora, se é certo que Lefèvre exerceu sobre Lutero uma incontestável influência (é provável que este tenha tido o São Paulo nas mãos já em 1513, e anotou o Psalterium quincuplex), é muito mais difícil notar uma reação do teólogo de Wittenberg sobre o humanista francês, que no entanto o conheceu.

Ao simples ponto de vista da compostura exterior, a obra de Lefèvre se diferencia desde logo da do grande reformador. Em nenhuma parte, nele, essas reivindicações odientas, essas críticas apaixonadas em que até um Erasmo se deixa por vezes arrastar. A exposição permanece sempre serena, quase desprendida e, se as alusões aos abusos da época não faltam, as exortações que os combatem são sempre inspiradas pela caridade, sustentadas por esse otimismo robusto que constitui o fundo do humanismo, e segundo o qual o conhecimento da verdade acabará bem um dia por triunfar de todas as resistências. Por outro lado, em Lutero, o conjunto da pregação reformista é integrado, desde o início, numa gigantesca construção lógica cuja base é a doutrina da justificação pela fé sem as obras. Nada mais alheio ao espírito de sistema do que a maneira de Lefèvre. Disse-se que a dogmática «tradicional raramente o guia.» Graf, Jacobus Faber Stapulensis, p. 29. Se se quer dizer com isso que nosso autor raramente se refere de maneira expressa aos ensinamentos da teologia tradicional, é incontestável. Mas não é necessário, para pôr-se em regra com a dogmática, reportar-se a ela a cada momento; o essencial é nada deixar escapar que contradiga, seja no conjunto, seja no detalhe, a doutrina ensinada pelos representantes autorizados da Igreja.

Ora, se se interroga Lefèvre sobre os pontos principais que, a partir de 1517, vão ser mais acerbamente controvertidos entre luteranos e católicos, deve-se reconhecer (e o protestante Graf é constrangido a confessá-lo) que sua posição é a do catolicismo mais autêntico. Não podemos pensar em dar aqui todas as referências; encontrar-se-ão abundantes no trabalho de Graf e no de Imbart de la Tour. Indiquemos apenas os pontos principais. Antes de Lutero, Lefèvre, desde 1512, exprimiu a ideia da justificação pela fé, e o faz nos próprios termos de são Paulo; a ela volta naturalmente no comentário dos evangelhos: «Tua salvação não são tuas obras, mas as obras do Cristo. Tu não podes salvar-te, mas só o Cristo te salvará; não a tua cruz, mas a cruz dele. Somos salvos por sua graça e sua bondade sobre-eminentes.» In Matth., x, 38, § 103. Em quase todas as páginas de sua obra irrompe o hino à bondade, à liberalidade divina, exprime-se a ideia de que nossa salvação não é de modo algum obra de nossas forças, mas da bondade de Deus. Essa linguagem, embora lhe faltem as precisões escolásticas, nenhum teólogo católico poderia desaprová-la, e encontram-se em Lefèvre tantas páginas em que se afirma a doutrina de que a fé só é verdadeiramente digna de seu nome se opera pela caridade.

Eis algo mais significativo. Explicando a passagem de são Paulo: Arbitramur justificari hominem per fidem sine operibus legis, Rom., iii, 28, Lefèvre escreve em termos próprios: «Mas dir-se-á: Se não somos justificados pelas obras da lei, é então em vão que trabalhamos.» Não, certamente, não é em vão. Pois, se não trabalhamos, quando temos faculdade e oportunidade, perdemos a graça da justificação, e muito mais ainda se fazemos coisas viciosas e contrárias à lei; é preciso, pois, que façamos todo o bem possível, e isso com insistência, para reter a justificação, e não somente para retê-la, mas para aumentá-la em nós. Não vás crer que estás imediatamente justificado porque tens a fé. Nada disso. Pois não é nem a fé (tomada isoladamente) que nos justifica, nem as obras. «Os demônios creem», diz o apóstolo Tiago. Mas somos justificados tanto pela fé quanto pelas obras; por estas de maneira mais remota, por aquela de maneira mais próxima; estas são menos, aquela é mais necessária.

Pois pelas obras sem a fé ninguém jamais foi justificado. Mas, ao contrário, há os que são justificados pela fé sem as obras. De fato, não é nem a fé, nem as obras que justificam; elas preparam para a justificação, pois é Deus somente quem justifica os circuncisos a partir da fé, ex fide, os incircuncisos pela fé, per fidem... Assim, pois, as obras são como uma preparação, limpam o caminho, purgantia viam; a fé é o termo e, por assim dizer, a entrada na posse divina.» Entende-se que isso foi escrito antes da explosão do luteranismo, mas encontrar-se-iam no Comentário dos Evangelhos (1522) passagens não menos significativas. «A primeira justificação se faz pela fé, pois esta é uma luz; a segunda pela caridade, pois esta é um calor, mas um calor unido à luz. Pois, se o amor, se a caridade não está imediatamente unida à fé, não nos prende a ela e ao autor da fé, não justifica ninguém; não se pode chamá-la verdadeiramente amor e caridade.» In Joan., i, 23, § 12. Ver também o desenvolvimento sobre as boas obras a propósito de Joa., iii, 18, § 27, e muitas outras passagens.

E essas obras não consistem apenas na prática das virtudes cristãs obrigatórias: podem ser essas obras de supererrogação, obras de penitência e outras contra as quais Lutero se levantou com a violência que se sabe. Sem dúvida, diz Lefèvre, elas não podem por si mesmas justificar-nos: «Vestir um cilício, afligir o corpo pela disciplina, domá-lo pela fome, pela sede, pela abstinência, cansá-lo com peregrinações, não é, propriamente falando, fazer penitência, mas dar sinais exteriores de penitência.» In Ep. ad Hebraeos., vi, 6, § 22 examinatio. Concluir-se-á que se devem desprezar essas mortificações voluntárias? Não, diz Lefèvre: «Então, essas macerações da carne, os jejuns, as vigílias, a nudez, a pobreza, não se deve estimá-las? Deus não o permita! Quando é preciso, é necessário aplicá-las à carne e a golpes redobrados, assim como se dá a espora ao cavalo recalcitrante... E mesmo quando a carne não é rebelde, não contestarei que haja vantagem em empregá-las. O Apóstolo castigava seu corpo por esses meios, querendo em tudo conformar-se ao Cristo, para não ser excluído de sua companhia. Contudo, não era nessas mortificações que punha o essencial de sua salvação, mas na graça do Cristo... E tu dirás: Sou pecador, uso o cilício, jejuo, faço abstinência, recebo a disciplina, rezo, derramo abundantes lágrimas, rolo-me no pó para que Deus tenha piedade de mim. Fazes bem. Mas farás melhor ainda quando, cumprindo tudo isso, não olhares mais para ti mesmo, nem para tuas obras, mas só para Deus.» In Epist. ad Coloss., iii, 5, § 13. E eis um texto do Comentário sobre os Evangelhos: «Se por um pecado mortal se ofendeu a Deus, embora Deus possa conceder o perdão à oração, nesses casos, contudo, a oração, a meu ver, não basta; é preciso juntar-lhe a expiação segundo a ordenação da Igreja, que é a própria ordenação de Deus, quero dizer, a ordenação da Igreja que instituiu para isso o sacramento da reconciliação e os outros meios simbólicos de justificação, alias symbolicas justificationes.» In Matth., vi, 12, § 53. Sobre a instituição divina da confissão, ver mais adiante, col. 13.

Tampouco ataca Lefèvre, mais do que as obras de penitência, as instituições monásticas enquanto tais. Quando se oferece ocasião, dirá sua palavra, com sua moderação costumeira, contra os abusos que nelas podem insinuar-se. O que critica acima de tudo é o espírito de corpo exagerado, que provoca entre as «religiões» rivalidades por vezes bem lamentáveis; contra o que se levanta é o orgulho monástico, tão pronto a desprezar os seculares de toda ordem. Dessas críticas, das quais a Imitação de Jesus Cristo ofereceria mais de um exemplo, não se deveria concluir que ele rejeita os votos de religião. O celibato, ele o diz abertamente, é mais perfeito que o matrimônio, «e é preciso preferi-lo a este, tanto por causa da maior pureza que dá quanto da maior liberdade de espírito que deixa.» In I Cor., vii, 25 sq., § 48 sq.; mas, como diz são Paulo, nem todos são capazes de seguir esse conselho. Discretamente, Lefèvre acrescenta que o fato de a Igreja impor o celibato a certas categorias de pessoas não deixou de ter inconveniente. Ver In I Tim., iv, 2, § 12: Apostolicum ritum nuptiarum retinuerunt Græci neque mutare voluerunt; agamiam acceptaverunt aliae Ecclesiis, unde plurimi per deteriorem incontinentiam lapsi in pedicas inciderunt diaboli.

O segundo ponto de importância capital em que Lutero insistiu é a doutrina da graça. Sabe-se com que violência exagerou e levou aos extremos as teses agostinianas sobre a queda original, a decadência do livre-arbítrio, a repartição da graça, a predestinação. Sobre todos esses pontos tão característicos, Lefèvre permanece nas soluções médias que a reflexão teológica fizera prevalecer. Mal o comentário de Rom., v, 12 sq., aflora a doutrina do pecado original, e a concupiscência, da qual o exegeta fala a propósito de Rom., vii, 14, § 58, nada tem de comparável à que descreve Lutero. Nada vale aqui tanto quanto a transcrição do texto: Non itaque si quis vir mulier sit conceptus, continuis fit ut addictus sit peccato, ut carnem habeat peccati sed quos benedictio aut omnino non praevenit aut non sanavit. Ut certe leprosi cum lepra filii concipiuntur et nascuntur sed potentiali, quae se suo tempore manifestat actualis, sic omnes filii Adam cum peccato carnis et concipiuntur et nascuntur, non actuali sed potentiali, quod suo tempore suas vires in corpore promit et multiplicat concupiscentias contra spiritum suscitat. Omnes dico Adam, quos benedictio filii et gratia aut omnino non praevenit aut non sanavit.

Quanto ao livre-arbítrio, o pecado de origem não o suprimiu. A graça, para nos levar ao bem, exige nosso livre consentimento. E é com o mesmo otimismo, de que já tivemos muitas provas, que Lefèvre interpreta o temível texto de são Paulo: Ergo cujus vult miseretur et quem vult indurat. Rom., ix, 18; ver § 82 do comentário.

Com maior razão ainda explica ele, da maneira mais ampla do mundo, a palavra do apóstolo: Deus vult omnes homines salvos fieri, I Tim., ii, 4; cf. § 8 do comentário.

Não menos característica é a atitude que adota Lefèvre a respeito do dogma do purgatório. Não somente não pensa em contestá-lo, mas pretende rever as provas sobre as quais os teólogos o estabelecem. Com a obsessão que tem de nada adiantar que não possa fundar-se na Escritura, chega a descobrir no próprio Evangelho textos que provam o dogma tradicional. É assim que interpreta do purgatório o reus erit gehennae ignis de Mt., v, 23, § 33, e o crucior in hac flamma, da parábola do mau rico, Lc, xvi, 24, § 141. Este último desenvolvimento mereceria ser estudado em detalhe por quem quisesse dar-se conta exata das ideias de Lefèvre sobre a escatologia.

Enfim, no que diz respeito à doutrina dos sacramentos, não se vê em nenhuma parte que Lefèvre se levante contra os ensinamentos tradicionais. No máximo poder-se-ia dizer que, nessa matéria, toma maior liberdade com as teses teológicas que, em muitos pontos aliás, eram menos rígidas que hoje. Nunca se deve esquecer que foi a Reforma que forçou a dogmática cristã a precisar, em coisas sacramentais, muitos conceitos que haviam permanecido um tanto vagos. Em nenhuma parte Lefèvre se exprime sobre o número dos sacramentos, e isso nada tem de extraordinário num comentador da Sagrada Escritura. Sobre sua eficácia, eis, ao que me parece, o que se poderia encontrar nele de mais comprometedor. É a passagem relativa ao texto de Tg, v, 14, sobre a unção dos enfermos. (Queira-se recordar que o Comentário sobre as Epístolas católicas é de 1525, se não de 1526).

«O apóstolo nos diz aqui o que se deve fazer pelos que são atingidos por doenças corporais: que se mandem vir os presbíteros, isto é, os anciãos da Igreja, que rezarão pelo doente e que primeiro o consolarão e o abrandarão pelo óleo espiritual, isto é, pela misericórdia de Deus. O apóstolo não lhes proíbe tampouco empregar o óleo material como sinal da unção espiritual sobre os que têm confiança na misericórdia de Deus. Mais ainda, encoraja-os a fazê-lo, seguindo o velho rito apostólico de que se trata no evangelho: os apóstolos, pregando a penitência, está escrito, expulsavam os demônios e ungiam de óleo os doentes, que com isso eram curados; isso, penso, acontecia ainda naquele tempo (de Tiago), em que permaneciam o fervor da fé e a devoção do espírito que as curas produziam... Hoje, ai de nós, os doentes nos mostram qual é a fraqueza de sua fé: é o mais tarde possível, quando não é tarde demais, que chamam os anciãos da Igreja, seniores Ecclesiae, para aconselhar e consolar sua alma, para fortalecê-la contra os ataques do maligno... Quando o estado é desesperado, em lugar dos anciãos da Igreja que o apóstolo Tiago indica e que devem ser homens cheios de espírito e de fé, anunciando em toda a pureza o verbo de Deus e o evangelho da salvação, chamam-se sacerdotes quaisquer (assim se chamam os que administram os sacramentos), fazem a unção nesses moribundos, mas nada ou quase nada do que prescreve o apóstolo.» In Jac., § 39.

Sem dúvida pode-se tirar desse texto conclusões desagradáveis sobre o sentimento de Lefèvre; contudo, as expressões empregadas permanecem, a rigor, suscetíveis de uma interpretação ortodoxa. O mesmo se pode dizer da passagem relativa à confissão que se segue imediatamente e que convém dar em seu texto. Depois de ter assinalado, a propósito de Tg, v, 16, a prática antiga da confissão mútua que os primeiros fiéis faziam de suas faltas, Lefèvre acrescenta: Nunc autem remissa fide aut prorsus in plurimis quam suum verbum suum extincta, Christus Jesus per et spiritum suscitet, est alius confessionis peccatorum modus, quem etiam sua misericordia acceptet, et parum nunc fit aut quod hic Jacobus monet, aut quod Christus ipse prœcipit. Ibid., § 40. E, no entanto, no Comentário dos Evangelhos, a propósito de Jo, xx, 23, diz-se claramente: «Como serão remetidos os pecados se não são conhecidos, como serão conhecidos se os homens não os confessam? Assim, pois, quando o Senhor fala dessa maneira, insinua que é preciso fazer a confissão dos pecados. A manifestação dos pecados é, pois, de direito divino: est ergo peccatorum manifestatio juris divini.» In Joan., § 146.

Tampouco sobre a doutrina eucarística Lefèvre se separa do ensinamento tradicional. É inútil multiplicar as passagens em que afirma a presença real; e, se a palavra transubstanciação não se encontra sob sua pena, isso não quer dizer que seja rejeitado o dogma que ela exprime. Não sei realmente por que se quis, e isso vem de longe, procurar vestígios da ubiquidade luterana em passagens nas quais Lefèvre afirma simplesmente que o Cristo está presente corporalmente em toda parte onde quer, In Joan., xx, 19 sq., § 146, cf. In Joa., iv, 19-20. Essas passagens são a expressão mesma do dogma da presença real. Não há tampouco que insistir no fato de que nosso exegeta exige, para que o sacramento opere, a fé do comungante. Todos os teólogos o disseram, na esteira de santo Agostinho. E, quanto a pretender que nega a realidade do sacrifício da missa porque afirma, na esteira da Epístola aos Hebreus, vii, 27, o caráter único e definitivo do sacrifício da cruz, é preciso realmente ignorar, para tirar essa conclusão, os princípios mais elementares da dogmática católica.

Assim, em todos os pontos principais em que vai exacerbar-se, a partir de 1520, a discussão entre luteranos e católicos, encontramos Lefèvre mais próximo da dogmática tradicional do que das inovações de Wittenberg. Até mesmo a doutrina da invocação dos santos é afirmada por nosso humanista. Sem dúvida ele critica, e por uma vez com bastante verve, a superstição que só vê nos santos distribuidores de graças temporais, especializados neste ou naquele serviço que a oração do fiel obtém infalivelmente deles: «Pedes aos santos, escreve ele, que te concedam um único grão de trigo? crias uma nova Ceres. Uma só medida de vinho? é um novo Baco. A saúde de teu rebanho? eis um novo Pã... A tranquilidade das ondas? eis um novo Netuno. Em todas as coisas, honremos menos os instrumentos de Deus... do que o próprio Deus servindo-se desses instrumentos. » In Marc, xvi, 17 sq., § 104. « Lefèvre, diz Imbart de la Tour, nem por isso deixa de conservar a fé na intercessão deles, como na reversibilidade dos méritos. Ninguém falou melhor da Virgem « sem pecado » e de sua maternidade divina. Também aqui o grande humanista não pretende suprimir a tradição doutrinal, mas espiritualizá-la. » Les origines de la Réforme, t. III, p. 150.

E, no entanto, é preciso reconhecer que a leitura dos comentários de Lefèvre, mesmo dos primeiríssimos em data, não deixa de criar não sei que vago mal-estar. Analisando-o, vê-se que provém tanto do que diz o nosso exegeta quanto do que ele não diz. Nele, como dissemos, nada de recriminações violentas contra os abusos da Igreja, mas uma perpétua comparação entre a realidade presente e o ideal que prescreve o Evangelho. E esse perpétuo contraste acaba por deixar no leitor a ideia de que existe uma oposição absoluta entre o estado da Igreja presente e a verdadeira doutrina cristã. Seguindo o exegeta, chegar-se-ia a convencer-se de que falta algo de essencial à instituição cristã presente para realizar a obra — que Cristo quisera ver cumprir-se por meio dela. E, por outro lado, Lefèvre não apela à Igreja para operar as mudanças necessárias, muito diferente nisso daqueles que, no curso do século XV, preconizaram a reforma. Um Gerson, um d'Ailly exprimem-se talvez com mais energia sobre os abusos a combater, as desordens a reprimir. Mas a luta contra todas as contrafações será conduzida, pensam eles, pela própria Igreja e em nome do princípio eclesiástico. Essa ideia quase desaparece na obra de Lefèvre. Mal se suspeitaria, lendo-o, que existe uma instituição de direito divino, depositária da doutrina cristã, dispensadora das graças divinas, guardiã das formas tradicionais do culto.

Quase só se vê nele o crente, isolado diante de Deus, haurindo na leitura das Santas Letras a inspiração necessária à sua vida religiosa, diretamente iluminado, como salientamos de passagem, ver col. 138, pela operação do Espírito Santo. E sem dúvida esse estado de espírito não é novo, constata-se em grande número de místicos do século XV. Esse retorno ao Evangelho fora do controle da Igreja nem por isso é menos perigoso. E a tranquila segurança com que Lefèvre repete que bastará esclarecer as almas dos crentes para que se reformem a fé e os costumes não deixa de inquietar, sobretudo no momento em que se fazem ouvir, na instituição eclesiástica, os estalos precursores da ruína. No dia em que os princípios que ele deduz no silêncio tranquilo de seu retiro penetrarem nas massas, podem-se esperar catástrofes. Ora, vamos ver Lefèvre empenhar-se resolutamente em divulgá-los.

IV. — O reformista à obra e suas tribulações. Facilidades especiais se ofereciam para isso ao humanista convertido ao evangelismo. No grupo que cerca Briçonnet, vamos vê-lo desempenhar, durante alguns anos, um papel preponderante. Mas logo os acontecimentos se desenvolverão num sentido um pouco diferente do que ele previra; envolvido, não sem razão, nas suspeitas que excita « o grupo de Meaux », Lefèvre não terá mais outro recurso senão desaparecer.

1° O « grupo de Meaux ». Desde 1520, Lefèvre se reunira em Meaux ao novo bispo Guilherme Briçonnet; alojado primeiro no palácio episcopal, será nomeado, em 11 de agosto, administrador da leprosaria, e em 1º de maio de 1523, vigário-geral da diocese. Não era o único a ter-se reunido em Meaux ao bispo reformador em quem o evangelismo depositava suas esperanças, e que, com o zelo de um Francisco de Sales ou de um Carlos Borromeu, empreendia a reforma de sua diocese. Outros sábios haviam acompanhado o velho humanista: Gérard Roussel, a quem Briçonnet confiará a paróquia de Saint-Saintin; o helenista Vatable, compatriota de Lefèvre; dois teólogos também, Martial Mazurier, diretor do colégio Saint-Michel em Paris, e Pierre Caroli, cônego de Sens; Michel d'Arande, enfim, que se tornará mais tarde bispo de Saint-Paul-Trois-Châteaux. Vê-se por vezes juntar-se a esses nomes o de Farel (Graf, p. 62). É uma inexatidão. Farel pode ter feito a Meaux visitas mais ou menos longas; não estava ali instalado de maneira estável.

Não podemos estudar em detalhe os meios de que Briçonnet pretende servir-se para reformar sua diocese; digamos apenas que ele atribui à pregação das verdades cristãs do Evangelho, como dizia seu círculo, uma importância capital. Se Mazurier e Caroli foram, com o próprio bispo, os agentes efetivos desse anúncio da boa nova, Lefèvre, a quem a idade avançada veda os meios de ação violentos, trabalhará à sua maneira pela mais ampla difusão da palavra de Deus.

2° A vulgarização da Escritura. Até agora ele se dirigira aos letrados. Redigidos em latim, o Psalterium, o São Paulo, os Comentários dos Evangelhos que não tardarão a aparecer, os Comentários das epístolas católicas, que paralelamente se preparam, não podem atingir a massa. À obra de exegese deve suceder a obra de tradução. Essa tradução da Bíblia começa-se a reclamá-la em certos meios mais abertos ao « evangelismo », e especialmente no pequeno círculo que se agrupa em torno da mãe do rei, Luísa de Saboia, e da irmã do rei, Margarida de Angoulême, que vai tornar-se duquesa de Alençon, depois rainha de Navarra. Esta última, em contínua correspondência com Briçonnet, pede que lhe forneçam um texto melhor da Bíblia francesa do que a edição de Jean de Rély executada sob Carlos VIII a partir das Bíblias « históriadas » da Idade Média. Lefèvre põe-se, pois, à obra; a 8 de junho de 1523, aparece a versão francesa dos quatro evangelhos, com um epístola exortatória à frente e este lema: Christus dixit : Praedicate evangelium omni creaturae. Qui crediderit et baptizatus fuerit salvus erit.

O lema, a epístola, é um programa, melhor dizendo, um manifesto: « Necessidades do povo cristão, há tempo demais privado da palavra de Cristo, ordem do próprio Deus, que quis que o Evangelho fosse anunciado a todos, tradições do sacerdócio judeu, que dava a conhecer e ler a Lei, dos evangelistas e dos apóstolos, que escreveram para o povo, da Igreja primitiva, que traduziu nas diversas línguas da época, tentativas análogas nos outros países: todas essas razões são invocadas para justificar a nova obra. Como Erasmo, Lefèvre proclama a necessidade de cada cristão conhecer a regra universal, que é a palavra de Deus. Quem proibiria aos filhos de ter, ver e ler o Testamento de seu Pai? » Imbart de la Tour, t. III, p. 127.

É também o sentido da epístola exortatória que precede a tradução das Epístolas, dos Atos e do Apocalipse, a qual aparece em 8 de novembro do mesmo ano. Quer isso dizer que Lefèvre pretenda entregar a Escritura ao julgamento e à discussão das multidões? Alguns o pretenderam, assim como o Índice publicado pela Sorbonne em 1551, que qualifica a epístola exortatória aos evangelhos de epístola luterana; acusam Lefèvre, não sem aparência de razão, de ter inscrito nesses prefácios os próprios princípios da reforma protestante: nenhuma outra regra de fé senão a santa Escritura, nenhuma salvação senão por Cristo; liberdade absoluta em que se encontra cada cristão de procurar ele mesmo na Escritura a regra de sua vida religiosa. O autor da tradução francesa tomou, contudo, suas precauções para não ser compreendido às avessas. A leitura do Novo Testamento não deverá ser feita pelos pastores senão a aqueles e a tais pessoas em que se possa apenas edificar e ninguém ofender ». Lefèvre declara em termos próprios que só publicou a tradução completa « admoestando a todos que ninguém seja curioso ou abuse de seu sentido ». 2ª epístola exortatória. O verdadeiro meio de aproveitar a Escritura é lê-la com fé, com simplicidade, com humildade: « É preciso honrar a Santa Escritura naquilo que se entende, dando graças Àquele que dá o entendimento. E naquilo que não se entende, crendo-o segundo o sentido do espírito de Deus e não segundo o nosso. » Ibid.

Depois do Novo Testamento, o Saltério; termina de ser impresso em 17 de fevereiro de 1525 e começa, como os livros precedentes, por uma Epistre : comment on doibt prier Dieu brièvement et chrestiennement; cada salmo é acompanhado de um argumento, para rezar e entender de algum modo o que se reza. Não é, com efeito, urgente abrir a todos o sentido desse livro selado, fazer com que, em vez de « balbuciar » palavras, cada cristão que assiste ao ofício perceba as belezas edificantes das orações que a Igreja põe em seus lábios? Ainda não se trata da liturgia em língua vulgar, mas já os amigos de Lefèvre empreendem, timidamente aliás, deslatinizá-la, e fazem o povo cantar, em francês, o símbolo de Niceia e o Pai-nosso. Ignoramos a parte que Lefèvre tomou nessas inovações litúrgicas, muito racionais talvez, mas tão perigosas em vista das circunstâncias em que eram produzidas.

Mas conhecemos a parte considerável que ele quis tomar na reforma da pregação. Não bastava a Briçonnet impor aos párocos a regularidade dos sermões; era preciso ainda colocá-los em condições de cumprir esse dever de seu cargo. Sua instrução teológica mal os preparava para isso. Resolveu-se, no bispado de Meaux, pôr-lhes nas mãos um manual onde encontrassem inteiramente prontas as suas instruções dominicais. Desse pensamento saiu um pequeno livro anônimo, mas que há todas as razões para atribuir em grande parte a Lefèvre: Les Epistres et Evangiles des cinquante et deux dimanches de l'An avecques briefves et très utiles expositions d'ycelles. O livro não traz data; pode ter aparecido nos primeiros meses de 1525. Graf pretende (e foi também, em novembro de 1525, a opinião da Sorbonne) que aqui, mais claramente do que em qualquer outro lugar, exprimem-se as ideias da Reforma: a Escritura só como regra de fé; o direito de cada cristão examinar, segundo essa regra, tudo o que se lhe ensina e rejeitar o que não achar conforme a ela; a salvação pela fé só; a rejeição da invocação dos santos etc. Loc. cit., p. 79-86, numerosas referências.

Na realidade, as ideias aqui expressas não diferem muito sensivelmente das que encontramos precedentemente. Parece indicado recorrer aos grandes comentários para fazer a exegese dessas breves reflexões. Ora, o estudo paralelo do texto latino e da explicação francesa mostraria, ao que parece, que muitas vezes a diferença é quase imperceptível entre as duas expressões do pensamento de Lefèvre. Mal se poderia dizer que a alusão aos graves acontecimentos que se desenrolam na Europa, e que têm seu contragolpe na França e especialmente na diocese de Meaux, se faz mais nítida e ligeiramente mais agressiva. As coisas, com efeito, tomaram subitamente em 1525 um aspecto de catástrofe: vamos ver como Lefèvre será arrastado pela torrente; mas constatemos, para não voltar a isso, que os acontecimentos em nada mudarão a resolução tomada pelo velho humanista de pôr a Escritura ao alcance de todos.

Em 1528, fará aparecer em Antuérpia a tradução francesa do Antigo Testamento, exceto o Saltério, e isso com a aprovação do inquisidor de Lovaina, dada em 20 de junho de 1528. Assim, toda a Bíblia está agora em francês; só falta publicá-la num único conjunto, o que acontece em 1530, quando aparece em Antuérpia La Bible en francoys translatée selon la pure et entière traduction de sainct Hierosme, conférée et entièrement revisitée selon les plus anciens et plus corrects exemplaires, com um privilégio do imperador Carlos V, dado em Malines em 4 de julho de 1530; 2ª edição em 1534 com um privilégio imperial dado em Bruxelas em 21 de novembro de 1533. Ver a esse respeito uma curiosíssima carta do núncio, Jerônimo Aleandro, a um secretário de Clemente VII, em Herminjard, Correspondance des réformateurs, t. II, p. 386-388. Embora o nome de Lefèvre não figure em nenhuma dessas duas últimas traduções da Bíblia, não se pode duvidar de que ele seja realmente o autor delas. Observar-se-á apenas, é um sinal dos tempos, que a partir de 1527 ele deixou de se fazer imprimir na França.

O comentário latino sobre as Epístolas católicas é editado em Basileia; foi em Antuérpia, com a aprovação, aliás, das autoridades civis e eclesiásticas, que apareceram as duas últimas obras do velho humanista francês.

3° A infiltração luterana em Meaux e na França. Aliás, a partir de 1522, multiplicavam-se na França os sintomas da penetração das ideias luteranas. O entusiasmo que se mostrava em Meaux pelas ideias evangélicas devia ser singularmente favorável à infiltração, nessa diocese, das doutrinas de Lutero. No palácio episcopal de Briçonnet, não se deixava de ler as publicações vindas da Alemanha, e mesmo as cabeças mais sólidas resistiam mal ao seu domínio. Sem dúvida o próprio bispo, Lefèvre e Vatable pretendiam repelir toda ideia, ainda que remota, de cisma; talvez não fosse o mesmo em todos os membros do grupo. Caroli, em particular, parece ter caído desde cedo nas inovações religiosas mais arriscadas, e logo se saberia que Guilherme Farel passava à Reforma e se retirava para Basileia, 1523. Ora, a secessão de Farel não acarreta a ruptura definitiva e imediata entre ele e seu velho mestre. Mais ainda, Guilherme esforça-se por arrastar Lefèvre ou, pelo menos, comprometê-lo. De Basileia, põe-no a par dos acontecimentos religiosos da Alemanha, faz-lhe chegar a abundante literatura teológica que floresce em torno da Reforma, tenta pô-lo em contato com os evangélicos de Lião. Ver sobretudo Herminjard, Correspondance des réformateurs, t. I, n. 85, 98, 103.

Esta última carta, dirigida a Farel por Lefèvre, é extremamente importante. O antigo discípulo havia dado conta a seu mestre das teses pregadas em Breslávia por João Hess sobre a graça, a liberdade cristã e o casamento dos padres, e Lefèvre lhe responde com uma aprovação, aliás bastante vaga: mirum est quam consono spiritu de verbo Dei, de Christi sacerdotio, de matrimonio omnia dicantur. Assim, Farel arrastava pouco a pouco o « grupo de Meaux » para a órbita dos inovadores suíços e estrasburgueses e sobretudo de Zuínglio e de Ecolampádio. Não era apenas em Meaux que se fazia sentir a propaganda luterana; toda a França, pode-se dizer, entrava em fermentação. E seria um erro, Imbart de la Tour o fez notar com muita justeza, dizer que o movimento, partido de Meaux, se espalhou dali pelo resto do reino. De fato, as doutrinas alemãs infiltravam-se por toda parte, e não seria difícil assinalar-lhes os propagadores e determinar-lhes as vias de penetração. É impossível erguer nas fronteiras de um país divisórias tão estanques que as ideias não consigam atravessá-las.

Não é objeto deste artigo escrever a história da penetração do luteranismo na França; quer-se apenas marcar aqui a parte de responsabilidade que cabe a Lefèvre e ao seu grupo no desenvolvimento das ideias protestantes. Resumir-se-á da melhor maneira o papel do velho humanista dizendo que, sem o saber, ele preparou o terreno onde deviam prosperar os germes vindos de outras partes. Seduzido por seu sonho evangélico, persuadido de que não havia inconveniente algum em semear a mãos cheias as santas reflexões que lhe inspirava a leitura dos livros sagrados, não compreendeu que, numa época conturbada, é indispensável a quem quer guiar os outros ter ele mesmo uma ideia bem definida. Ao certo, que queria ele? Reconduzir as almas a Deus pelo Evangelho. Belo programa, com certeza, mas que podia ser compreendido de diversas maneiras. Lutero também pretendia não fazer outra coisa; os primeiros reformadores da Suíça e dos países renanos também não tinham na boca senão a restauração do Evangelho, e logo se via o que entendiam por isso. Em todo o centro da Europa ressoava agora o grito de Los von Rom; o mesmo grito não tardaria a ressoar na França. O retorno ao Evangelho seria, pois, a ruptura definitiva com a Igreja tradicional? « O velho mestre, diz Imbart de la Tour, sonhava com um renascimento pacífico. Era outra coisa bem diferente, uma revolução religiosa que começava. » Loc. cit., t. III, p. 169.

4° A reação. Mas a França não estava inteiramente desarmada. Na falta da autoridade régia hesitante e indecisa, na falta do episcopado, onde as ideias reformistas não deixavam de exercer certa sedução, dois grandes corpos iriam tomar a defesa da religião tradicional: a Faculdade de teologia (digamos a Sorbonne, para abreviar) e o Parlamento de Paris. Cabe àquela assinalar os perigos, a este tomar contra eles as medidas eficazes.

1. Primeiros ataques da Sorbonne contra Lefèvre. Ora, havia já vários anos que o velho humanista era vigiado pela Sorbonne e muito especialmente pelo síndico Noël Béda. Incapaz de compreender as aspirações novas do humanismo nascente, este último, que conseguira exercer no seio da Faculdade uma ação considerável, perseguia com ódio pessoal tudo o que se afastava um pouco que fosse da escolástica de sua época. Esse conservadorismo estreito fora visto em ação, em 1514, quando a Sorbonne tomara, na « querela de Reuchlin », a posição que se sabe. Lefèvre não deixara, nessa ocasião, de tomar o partido do humanista alemão, e sua intervenção fizera a Faculdade recuar diante de uma condenação. Ver Imbart de la Tour, t. II, p. 358. Mas desde esse momento Lefèvre se assinalara aos rancores de Béda. O São Paulo, aparecido em 1512, fora examinado de perto, e em 1515 Clichtoue tivera de escrever uma Apologie para defender seu mestre. Cf. acima, t. III, col. 242.

A publicação feita por Lefèvre, em 1517, de um pequeno trabalho de exegese reacendeu as querelas. Em sua Disceptatio de Maria Magdalena et Triduo Christi, o humanista mostrava que a identificação feita na Igreja latina desde o tempo de são Gregório Magno entre Maria de Magdala, a pecadora de que se trata em Lc, vii, e uma Maria irmã de Lázaro e de Marta repousava, enfim, sobre uma confusão e que era preciso distinguir cuidadosamente essas três personagens. Não foi preciso mais para desencadear uma verdadeira tempestade. « Um cônego de Saint-Victor, Marc Grandval, tomou violentamente Lefèvre a partido, 22 de agosto de 1518; por sua vez Béda interveio em nome da ortodoxia ameaçada, 1º de julho de 1519. » Imbart de la Tour, loc. cit., p. 560; Graf, p. 55. João Fisher, bispo de Rochester, foi chamado em socorro, enquanto, mais uma vez, Clichtoue, contra os teólogos, vinha em auxílio de seu mestre. Lefèvre, aliás, era capaz de defender-se a si mesmo. Em 1518 fazia aparecer uma segunda edição parisiense de sua dissertação De Maria Magdalena, triduo Christi et ex una ex tribus Maria. O final era novo. Lefèvre criticava ali outra tradição cara à baixa Idade Média, a dos « três maridos » que teria tido sucessivamente santa Ana e a das « três Marias » a quem ela teria dado à luz. Béda havia replicado a este segundo opúsculo, ao que Lefèvre respondia com uma Disceptatio secundo de Magdalena, et de tribus et unica, 1519. Essa polêmica virulenta sobre assuntos tão mínimos testemunha os extremos a que se chegava muito depressa.

Por ora, a Faculdade recusou seguir seu síndico, mas Béda alcançou seus fins em 1521. Uma determinação foi tomada em 1º de dezembro a respeito da Madalena única. Texto em Duplessis d'Argentré, Collectio judiciorum, t. iia, p. VII. Os considerandos merecem ser assinalados: a pregação pública da tese de Lefèvre pode criar escândalo no povo; sobretudo, poderia levar a pôr em dúvida outras práticas ou instituições sancionadas pela Igreja desde a mais remota antiguidade. Nil certum aut indubitatum in tota Ecclesia demum relinqueretur, si cuique pro suo arbitrio impune liceret hujusmodi traditiones sanctorum Patrum per Ecclesiam receptas rejicere aut calumniari; em consequência, a assembleia declarava que o pensamento de são Gregório Magno, segundo o qual há uma só Maria Madalena, irmã de Marta e idêntica à pecadora de Lc, vii, deve ser abraçado e retido, como conforme ao evangelho de Cristo e aos santos doutores, de acordo com o rito da Igreja católica. Os escritos em sentido contrário não podem ser tolerados, scripta adversus hanc sententiam nullatenus esse toleranda.

Béda quis ir mais longe, e fazer punir Lefèvre como herege pelo Parlamento. Mas Francisco I interveio; conhecia e estimava Lefèvre; sobretudo, estava sob a influência de sua irmã Margarida de Angoulême, toda dedicada ao humanismo evangélico. Prevenido por Budé do que se tramava, confiou a seu confessor, Guilherme Petit, o exame do opúsculo de Lefèvre. Guilherme declarou que a obra nada continha de contrário à ortodoxia, que se tratava exclusivamente de uma questão crítica, na qual devia ser permitido a cada um seguir e expor sua opinião. O rei ordenou, pois, ao Parlamento que não inquietasse Lefèvre.

Mesma atitude do governo em 1523. Mal haviam aparecido, os Comentários latinos sobre os Evangelhos são examinados sem benevolência pelos doutores da Sorbonne. Extrai-se deles toda uma série de proposições que, aliás, reproduzem bastante mal o sentido óbvio das frases do autor. Ver a lista em Duplessis d'Argentré, loc. cit., p. x e xi. Instado a retratar essas teses, Lefèvre recusa-se e acaba por obter do rei que avoque diretamente ao seu tribunal a querela pendente entre ele e a Faculdade. Numa carta cheia de louvor ao velho humanista, « uma das glórias da França », o rei proíbe à Faculdade suprimir o livro ou proceder ulteriormente contra ele. Texto em Toussaint du Plessis, Histoire de l'Église de Meaux, Paris, 1731, t. II, p. 282.

2. A luta aberta contra Lefèvre. Mas os acontecimentos se precipitavam. Se talvez estivessem errados em acusar ruidosamente Reuchlin, Erasmo e o próprio Lefèvre de não serem senão os precursores da Reforma, os teólogos tinham o direito, e mais ainda o dever, de assinalar a invasão das ideias luteranas na França. A própria corte, na primavera de 1523, começava a inquietar-se: fora dada ordem de queimar os livros de Lutero; em outubro do mesmo ano, a regente Luísa de Saboia, para pedir-lhe os meios de extirpar a heresia, escrevia à Faculdade de teologia. A Faculdade aproveitou com presteza a ocasião e, em 7 de outubro de 1523, transmitia sua resposta. Propunha certo número de medidas de salvação pública, mas não podia deixar de fazer notar que a repressão do erro teria sido desde o início mais eficaz se a autoridade régia não tivesse ela mesma interrompido diversos processos « por várias avocações de causas concernentes à Fé, como de um livro composto por Mestre Jacques Fabri (Lefèvre) e dos do dito Berquin, que são coisas, no juízo de todas as pessoas sábias e não mal afeiçoadas, muito perniciosas e perigosas para aqueles que são causa delas. Pois é por invenções sutis defender os Delinquentes e alimentar os erros e heresias. » Ver o texto em Duplessis d'Argentré, op. cit., t. IIb, p. 3 e 4.

A evolução da política de Francisco I que, durante o ano de 1524, se aproxima do papa Clemente VII, era bem feita para encorajar os defensores da ortodoxia na luta contra uma heresia que se afirmava cada vez mais empreendedora. Nas últimas semanas de 1524 e no início de 1525, os luteranos, disseminados pelo território francês, já não se contentam em professar pacificamente suas opiniões: tornam-se agressivos com relação às práticas católicas. Em Meaux, um aviso do bispo prescrevendo um jejum é rasgado e substituído por um cartaz em que o papa é tratado de Anticristo; fórmulas de orações são igualmente feitas em pedaços. Guilherme Briçonnet via-se incapaz de conter nos limites que traçara o movimento de Reforma. Suspeito aos católicos, logo submetido a um inquérito, nem por isso deixa de ser considerado pelos luteranos como um inimigo.

A situação de Lefèvre em Meaux tornava-se também cada vez mais difícil. Tornou-se insustentável no verão de 1525, por ocasião da viva reação antiprotestante cujo sinal seria dado pelo desastre de Pavia, 25 de fevereiro de 1525. Desde o outono de 1524, o partido da regente estava tomado; única depositária, após a captura de Francisco I, da autoridade régia, ela vai conduzir, de comum acordo com o Parlamento e a Sorbonne, uma luta vigorosa contra o luteranismo invasor. No fim de março, o Parlamento cria uma comissão de quatro juízes-inquisidores, que recebem do papa, em 20 de maio, os poderes apostólicos.

Imediatamente o grupo de Meaux é visado; os juízes-inquisidores vêm à diocese para apurar contra os numerosos hereges que ali se descobrem; o próprio bispo é intimado a comparecer; Caroli, Mazurier, Roussel e Lefèvre têm decretada a prisão.

3. A retirada de Lefèvre para Estrasburgo. Nessas conjunturas, era impossível a Lefèvre contar com as intervenções que, duas vezes já, o haviam subtraído às represálias da Sorbonne. Francisco I estava prisioneiro na Espanha, aonde Margarida fora juntar-se a ele para negociar sua libertação. A rapidez com que o Parlamento conduzia a repressão podia fazer temer um desfecho fatal; o grupo de Meaux só tinha um meio de se esquivar: a fuga. No fim de outubro de 1525, Lefèvre, Caroli, Michel d'Arande e Roussel refugiam-se em Estrasburgo.

Na falta de suas pessoas, começa-se imediatamente o processo de suas obras. Os juízes-inquisidores haviam apreendido em Meaux exemplares das Épîtres et Evangiles pour tous les dimanches de l'année; transmitiram-nos para exame à Sorbonne, que, em 6 de novembro de 1525, proferiu seu veredicto: 48 proposições textualmente extraídas do livro eram censuradas, a maioria como heréticas, as outras como falsas, temerárias, perigosas. Em consequência, a Sorbonne concluía com esta condenação geral, que encerrava: « O dito livro, falando mal das boas obras, pretendendo que a satisfação pelos pecados não é necessária para a salvação, que as leis humanas e as sanções eclesiásticas não têm valor algum, rejeitando de modo cismático o culto dos santos e suas festas, com as exposições católicas da Santa Escritura, e sob pretexto da própria Divina Escritura que ele puxa aqui e ali num sentido herético, escandaliza não medianamente o povo cristão e traz cismas que serão indesraigáveis, toma a peito relembrar os erros acima indicados, as heresias dos maniqueus, dos valdenses, dos wiclefitas e dos luteranos; está em contradição manifesta consigo mesmo, pois inculca de maneira contínua a ideia de que nada se deve pregar ao povo senão o Evangelho e pois, por outro lado, quase não há exortação, contida no dito livro, que não seja contrária ao Evangelho, porque são invenções diabólicas e contrafações heréticas as que ali se encerram. E, portanto, a dita obra merece ser publicamente queimada diante desse mesmo povo no meio do qual se tentou difundi-la, com todos os livros que se lhe assemelham, e aqueles que a compuseram, ou a fizeram ler e pregar (isto é evidentemente endereçado a Briçonnet): essas pessoas devem em todo caso, para reparar o escândalo, condená-la publicamente e execrá-la, e especialmente os erros acima enunciados. » Duplessis d'Argentré, loc. cit., p. 35 a 40.

Contudo, do fundo de sua prisão, Francisco I havia, em 12 de novembro, enviado ao Parlamento a ordem de suspender o processo em favor de Lefèvre e de seus amigos. A regente transmitia essas ordens a quem de direito, declarando que não toleraria que Lefèvre fosse molestado ou perseguido sem razão. Ver as referências às peças de arquivo em Imbart de la Tour, t. III, p. 250-251. Nada adiantou. Em 29 de novembro, o Parlamento dava permissão aos juízes-inquisidores de começar o processo de Lefèvre. E os processos desse gênero não são vãos simulacros; várias execuções têm lugar no inverno de 1525-1526. Não era, pois, prudência exagerada a fuga de Lefèvre e de seus amigos.

Em Estrasburgo estavam perfeitamente a salvo. No momento em que ali chegavam, a Reforma estava no auge, a missa já se dizia em alemão, ou mesmo já não se dizia; em várias igrejas o serviço evangélico já fora introduzido; os religiosos começavam a deixar seus conventos, certos padres haviam-se casado. Assim, os fugitivos encontraram boa acolhida junto aos chefes do movimento reformista estrasburguês, especialmente junto a Capiton. Julgaram, contudo, dever guardar um incógnito, aliás bastante transparente. Essa medida de precaução lhes parecia necessária para que, se voltassem à França, não se lhes pudesse censurar compromissos com personagens que estavam desde então em ruptura aberta com a Igreja. Por sua vez, os reformadores estrasburgueses não parecem testemunhar pelos « evangelistas » de Meaux um entusiasmo muito grande. Capiton escreve a Zuínglio em 20 de novembro: « Farel, Jacques d'Étaples, Gérard Roussel..., todos os meus hóspedes franceses, e te saúdam... A tirania dos teólogos os expulsou da França. » Zuinglii opera, edit. Schulthess, t. vii, p. 438. Isso não é muito comprometedor.

Mas, embora permanecessem mais ou menos à margem do movimento reformista, as pessoas de Meaux não deixavam de observar com muito interesse, digamos mesmo com simpatia, a maneira como se realizavam em Estrasburgo várias de suas ideias favoritas. Quanto a Lefèvre, não temos informações positivas, mas a correspondência de Roussel, tanto com Briçonnet quanto com Nicolas Lesueur, o eleito de Meaux, é particularmente instrutiva. Se faz, ao menos quando se dirige ao bispo, algumas leves reservas sobre as reformas mais radicais, Roussel não exprime menos sua admiração pela maneira como se anuncia em Estrasburgo o puro Evangelho e como se celebra o novo culto; e essa admiração não deixa de ser muito inquietante. Ver Herminjard, Correspondance des Réformateurs, t. I, p. 406, 411, 433. Não se poderia, pois, negar que a estada das pessoas de Meaux em Estrasburgo tenha contribuído para acentuar ainda mais neles a tendência reformista. A acentuação das ideias « protestantes » no Comentário de Lefèvre sobre as Epístolas católicas explica-se, desde então, perfeitamente. Sobre a estada em Estrasburgo, ver A. Clerval, Strasbourg et la Réforme française, em Revue de l'Histoire de l'Église de France, t. vii, 1921, p. 139-160.

4. Lefèvre em Blois. Em 17 de março de 1526, em Bayonne, Francisco I foi trocado por seus dois filhos mais velhos, cuja presença na Espanha garantiria a execução do tratado de Madri. Poucos dias depois, o rei estava em Paris. Ao mesmo tempo que fazia suspender o processo contra Berquin, tomava as medidas necessárias para que Lefèvre e Roussel pudessem voltar à França. Mas a estada em Meaux já não era possível.

Estreitamente vigiado pelo Parlamento e pela Sorbonne, seriamente assustado com o rumo que o movimento reformista tomara em sua diocese, Briçonnet já só pensava em fazer-se esquecer. Paris não era mais segura para Lefèvre; a maneira como o Parlamento agia com relação a Berquin, apesar das vigorosas intervenções do rei, mostrava o que se podia temer do zelo dos magistrados. Era no círculo imediato do soberano que a segurança era mais completa; Lefèvre foi instalado no castelo de Blois, residência ordinária da corte, e encarregado do cuidado da biblioteca e, ao mesmo tempo, da educação dos « filhos da França ». Pouco tempo depois, Roussel, nomeado esmoler de Margarida, veio juntar-se a ele; ela acabava de casar-se, em 24 de janeiro de 1527, com o rei de Navarra e residia, aliás, na corte da França. Assim os dois amigos se reencontravam, e parece que trabalharam juntos, durante a estada em Blois, na tradução das homilias de são João Crisóstomo sobre os Atos dos Apóstolos. Foi ainda em Blois que Lefèvre preparou a versão francesa do Antigo Testamento de que falamos, col. 146.

Mas, se a pessoa de Lefèvre estava a salvo, sua obra não deixava de continuar a atrair as iras dos teólogos. Não havia que levar muito em conta os ataques do cartuxo Pierre Le Couturier, Petrus Sutor, que em 1523 recolocara em pauta a questão do triplo casamento de santa Ana, e que em 1525 se exercitara contra as traduções da Bíblia: De translatione Bibliae et reprobatione interpretationum novarum. De consequência mais grave eram as críticas veementes que fazia de Lefèvre (e de Erasmo) o síndico da faculdade de teologia, Béda. Em 28 de maio de 1526, apareciam Annotationum Natalis Bedae... in Jacobum Fabrum Stapulensem libri duo et in Desid. Erasmum Roterod. liber unus qui ordine tertius est. Primus in Commentarios ipsius Fabri super Epp. B. Pauli. Secundus in ejusdem Commentarios super IV Evv. Tertius in Paraphrases Erasmi super eadem quatuor Evv. et omnes apostolicas Epp. O prefácio terminava com estas palavras: « Se a seita dos miseráveis luteranos tivesse tirado seu nome, como devia ser, de seu primeiro fundador, não sei se teria sido preciso chamá-la luterana, de Lutero, ou antes fabrista, de Lefèvre. »

Erasmo, desde 14 de junho, levara essa querela ao Parlamento, depois ao rei. Sua intervenção levou Francisco I a tomar mais uma vez a defesa de Lefèvre. Em 3 de agosto, escreve ao Parlamento que submeteu a juízes especiais o exame dos livros dos dois autores atacados, e que não toleraria a circulação dos panfletos de Béda. Foi preciso tempo para levar a acordo o vingativo síndico, e o rei teve de, em 18 de março de 1527, citar a Sorbonne perante si para pedir-lhe contas de seus ataques contra seus protegidos. Ver, para as referências às peças de arquivo, Imbart de la Tour, t. III, p. 257-259. Assim, os últimos meses de 1526 e o início de 1527 veem Francisco I voltar a essa política de conciliação que é propriamente a sua. Para ele não se trata de favorecer o luteranismo, e enganam-se pesadamente, entre os contemporâneos, os que veem nele um protetor naturalmente designado da Reforma protestante; várias execuções de hereges declarados tiveram lugar nesse momento, o que mostra bem que o rei não toleraria os ataques dirigidos contra a instituição católica. Mas Francisco I entende que se separe nitidamente a causa do humanismo cristão da da heresia; de nenhuma maneira permitirá que, sob pretexto de defender a fé, os farejadores de heterodoxia ataquem personagens recomendáveis por seu saber e sua piedade.

As complicações da política interna vão forçá-lo, contudo, nos últimos meses de 1527, a sofrer as injunções mais ou menos disfarçadas dos defensores titulares da fé católica. Em julho, o Parlamento insiste na necessidade de extirpar a heresia; no fim de dezembro, a Assembleia do clero ainda faz subir o tom dessas demandas, e os concílios provinciais que se realizam ao longo de 1528 insistem na mesma ideia. O da província de Sens, reunido em Paris de 3 de fevereiro a 9 de outubro, formula a doutrina católica diante do protestantismo, mas se preocupa ao mesmo tempo em organizar a repressão e começar a verdadeira reforma da Igreja. Notar-se-ão as alusões bastante transparentes que encerra o prefácio aos métodos e às tendências dos humanistas. Mansi, Concil., t. XXXII, col. 1156 E. E não é impossível que os teólogos do concílio tenham pensado em tais expressões de Lefèvre ao redigir os diversos decretos dogmáticos, e sobretudo ao assinalar as proposições condenáveis mais em voga entre os inovadores. Ver Mansi, col. 1178-1179; haveria interesse em comparar esta última lista com as proposições extraídas pela Sorbonne das « Épîtres et Évangiles des dimanches ».

Aliás, para que ninguém o ignorasse, Béda esforçava-se por comprometer Lefèvre tanto quanto lhe era possível. Em fevereiro de 1529, aparecia sob o nome do síndico uma Apologia adversus clandestinos lutheranos, destinada a pôr em evidência as heresias de que, a seu dizer, regurgitava toda a obra de Lefèvre. Em dois pontos sobretudo o humanista errara: sobre a honra devida aos santos e sobre a justificação pela fé sem as obras. Além disso, Lefèvre parecia negar também a cooperação que a vontade humana dá à graça divina, e considerar o homem, nas mãos de Deus, como um ser puramente passivo. Claramente, Béda chamava contra seu adversário os rigores do braço secular; a glória do rei, o bem do reino exigiam que se tirasse dos hereges, francos ou larvados, uma vingança retumbante.

5. Lefèvre em Nérac. Sua morte. Não eram violências verbais. Em 17 de abril de 1529, Berquin subia à fogueira, da qual a proteção de Francisco I e a amizade de Margarida de Navarra haviam sido impotentes para arrancá-lo. Essa execução não era isolada. Lefèvre compreendeu, ou seus amigos lhe fizeram compreender, que a própria corte de Francisco I já não era para ele um lugar de todo tranquilo. Em 1529 ou 1530 (é impossível precisar a data) o ancião retirava-se para Nérac, onde Margarida mantinha agora ordinariamente sua corte. Ali pelo menos, em terra navarresa, estava completamente a salvo das perseguições da Sorbonne e do Parlamento.

O zelo de Béda só pôde derramar-se contra a protetora de Lefèvre. Exerceu-se igualmente contra Roussel, que, sempre esmoler de Margarida, antes de tornar-se, em 1535, bispo de Oloron, voltou a pregar a quaresma no Louvre em 1533 e 1534. Terminará, aliás, por ter de haver-se com o síndico, num processo terrível que, em junho de 1535, o condenará ao exílio e a fazer reparação pública. Lefèvre já não será diretamente envolvido nessa agitação, o que não quer dizer que se desinteressasse dos assuntos religiosos da França.

Foi em Nérac que recebeu, em abril de 1534, a visita do jovem Calvino. Não é inútil relatar o que diz dessa entrevista do futuro reformador com o velho humanista Florimond de Raemond. « Calvino, diz este, esquiva-se e escoa-se até Nérac para ver Roussel e o Fèvre, ambos muito queridos e favoritos da rainha de Navarra: esse bom ancião, diz Beza, falando do Fèvre, viu com bons olhos esse jovem, como que pressagiando que devia ser o autor da restauração da Igreja na França. » (Ver o texto latino na edição de Calvino do Corpus Reformatorum, J. Calvini Opera, t. XXI, p. 123). Não diz que foi visitar Roussel... Calvino comunicou-lhe seus escritos e o projeto de sua Institution, impresso em Angoulême, descobre-lhe o desígnio que tinha de restabelecer a Igreja em sua primeira pureza, dizendo que era preciso arrasar tudo, rente ao pé, rente à terra, para construir um novo edifício. Roussel, como disse muitas vezes, todo espantado de que uma malícia tão velha pudesse ter caído em alguém tão jovem, procurou trazê-lo à razão, dizendo que, na verdade, era necessário limpar a casa de Deus, escorá-la, mas não destruí-la; que, enfim, ele e os outros se sepultariam sob a queda e os escombros daquela que pensavam arruinar. Vi memórias escritas da mão de Roussel, sobre a opinião de Calvino a respeito da Ceia, que mostram bastante quão afastado estava de seu amigo.... O Fèvre deixava-se levar mais pelas opiniões de Calvino, que quis, contudo, reter por temor de que esse espírito fervente pusesse tudo em desordem, dando-lhe na despedida este conselho: regular suas opiniões pelas de Melanchthon. » Histoire de la naissance, progrès et décadence de l'hérésie de ce siècle, Rouen, 1623, l. VII, c. XVII, p. 921-922.

Sabe-se que, em 23 de agosto de 1535, João Calvino redigia a carta dedicatória da Institution chrétienne ao rei Francisco I. Mas seria realmente exagerar o alcance da anedota precedente ver, como faz Graf, um laço qualquer entre os conselhos do velho Lefèvre e a publicação do célebre manifesto. Ao contrário, compreende-se da melhor maneira todo o significado das palavras do velho humanista se se nota que, justamente nessa data de abril de 1534, negociações são iniciadas, por intermédio do rei Francisco I, entre Melanchthon e a Igreja romana, para o reconhecimento de certo número de reformas indispensáveis. Roma, nesse momento, mostrava-se pronta a reconhecer algumas das demandas dos reformadores moderados. Está proibido pensar que a corte de Nérac estivesse a par das negociações conduzidas pela corte da França? Compreender-se-ia então todo o sentido da palavra de Lefèvre a Calvino: regular suas opiniões pelas de Melanchthon. Os conselhos do humanista não teriam, em suma, diferido senão na aparência das advertências dadas a Calvino por Roussel.

O Sr. Imbart de la Tour fez notar com muita finura que essas negociações pacíficas foram precisamente atravessadas pelos esforços do grupo de Farel; mostrou como o caso dos cartazes (outubro de 1534) foi justamente organizado para despertar, por uma provocação retumbante, as querelas religiosas prestes a adormecer. A Navarra não conheceu a sangrenta reação que foi trazida por esse triste caso. Lefèvre, contudo, deveu, como outros bons espíritos, lamentar essa explosão que parecia pôr termo às esperanças de todos os reformistas. E é nesse sentido, ao que nos parece, que se deve compreender uma anedota relativa a seus últimos momentos, que parece bem difícil rejeitar completamente.

Foi contada pelo rei e pela rainha de Navarra a Thomas Hubert Léodius, ministro do eleitor palatino Frederico II, que se encontrava em Paris em 1538. Por ocasião de uma visita que o rei e a rainha de Navarra faziam ao eleitor, veio-se a falar da morte de Lefèvre, e eis o que o rei teria dito: « Um dia a rainha mandou avisá-lo de que queria jantar com ele, com alguns outros sábios em cujas conversas ela tomava o maior prazer. Ora, durante a refeição, Lefèvre foi tomado de súbita tristeza e pôs-se a chorar. Instado a dizer a causa e repreendido pela rainha, que se queixava de encontrar nele a tristeza quando viera buscar ali a alegria, acabou por responder: « Como poderia eu estar alegre, ou alegrar os outros, eu, o mais culpado dos seres que a terra já carregou? » — « Mas que grande crime pudestes cometer, perguntou a rainha, vós, que sempre levastes uma vida tão santa? » — E ele: « Cheguei à idade de 101 anos, tendo conservado a virgindade, e não me lembro de ter cometido coisa alguma que me faça temer deixar este mundo, salvo uma só coisa que, espero, pode ser expiada. » E, às instâncias da rainha, acabou por explicar, em meio às lágrimas: « Como poderei comparecer diante do soberano tribunal de Deus, eu que instruí pura e sinceramente no santo Evangelho de seu Filho grande número de pessoas que, tendo seguido minha doutrina, suportaram com constância mil tormentos e a própria morte. E eu, pobre doutor sem constância, fugi; na minha idade, cumulado de dias como eu estava, não deveria ter temido morte alguma; a morte, deveria tê-la desejado ardentemente, e dela me subtraí às escondidas; vergonhosamente abandonei o mandamento do meu Deus. » A rainha teria tentado tranquilizá-lo, falando-lhe da infinita misericórdia de Deus; os presentes iam no mesmo sentido. Um pouco reconfortado, disse enfim: « Não me resta, pois, senão partir para Deus, depois de ter feito meu testamento, que não se deve mais adiar, pois sinto que Deus me chama. » E, com os olhos fixos na rainha: « Senhora, disse, instituo-vos minha herdeira, mas delego minha biblioteca a vosso pregador Gérard (Roussel). Quanto às minhas roupas e ao que eu possa ter de outros bens, deixo-os aos pobres. »

« Mas, Jacques, disse-lhe a rainha sorrindo, eis uma herança que mal me enriquece; que me resta dela? » — « O cuidado de repartir aos pobres. » « Juro-o, afirmou ela, isso me agrada mais do que se meu irmão, o rei da França, me fizesse sua herdeira. » Estas palavras serenaram-no um pouco: « Mas, disse, preciso de repouso. Continuai e passai bem. » E foi deitar-se num leito próximo dali. Julgavam-no adormecido, quando, aproximando-se dele, notou-se que havia entregue sua alma a Deus. » Texto latino em Hubert Thomas Leodius, Annalium de vita et rebus gestis.... Friderici II libri XIV, Frankfurt, 1624, p. 229-230.

O fundo do relato, apesar das críticas muito vivas a que o submeteu Bayle, Dictionnaire historique, art. Fèvre, poderia ser autêntico. As gravíssimas preocupações que o fracasso de toda a política reformista deve ter causado a Lefèvre bem podem ter-se traduzido, em seus últimos momentos, em ansiosas interrogações, em escrúpulos de consciência. Mas de que natureza eram esses escrúpulos? Que o ouvinte dos soberanos de Navarra tenha traduzido à sua maneira, e no sentido favorável à Reforma, palavras que tinham outra significação, nada tem de surpreendente. Dir-se-á o mesmo de uma nota rabiscada no verso de um bilhete escrito por Michel d'Arande, bispo de Saint-Paul-Trois-Châteaux, a Farel para anunciar-lhe a morte de Lefèvre. Essa nota, pretendeu-se, é da mão de Farel. Admitindo, o que não está demonstrado, a exatidão dessa afirmação, dever-se-á ver no relato que esse papel fornece a reação pessoal do fogoso reformador ao relato da morte de seu velho mestre.

Eis o texto da nota em questão: « Jacques Lefèvre d'Étaples, sofrendo da doença que o levou, ficou, durante alguns dias, tão assustado com o pensamento do juízo de Deus que não cessava de repetir que estava tudo acabado para ele: « Incorri, dizia, na morte eterna por não ter ousado confessar publicamente a verdade. » Noite e dia não cessava de fazer ouvir esse lamento. Gérard Roussel exortava-o a tranquilizar-se e a pôr sua confiança em Cristo; Lefèvre respondia: « Estamos condenados; mantivemos oculta a verdade que devíamos professar e atestar diante dos homens. » Era terrível ver um ancião tão piedoso presa de tais angústias e a tal ponto aterrorizado pelo temor do juízo divino. Mas, finalmente, libertado de todo temor, voltou a esperar e foi-se para Cristo. Texto latino em Herminjard, Correspond. des réformateurs, t. III, p. 400. (Aproximar disto a apreciação da Chronique de Froment sobre a morte de Briçonnet, f° 160; segundo Imbart de la Tour, loc. cit., p. 484, n. 1).

Vê-se que há entre os dois relatos de Léodius e de Farel divergências bastante notáveis. Testemunham, contudo, cada qual à sua maneira, os escrúpulos de que teria sido assaltado, em seus últimos momentos, o velho humanista. Mas sobre que ponto recaíam essas inquietações de consciência? Tal é a questão a resolver e, francamente, não é a escritores tendenciosos que se deve recorrer para obter a resposta. Retenhamos apenas que, em seu leito de morte, Lefèvre foi assistido por esse Gérard Roussel, desde algum tempo bispo de Oloron, e que, isso é certo quanto a ele, morrerá como bom católico. A data exata da morte de Lefèvre é desconhecida, deve situar-se nos primeiros meses de 1536. A idade de 101 anos que o relato de Léodius atribui ao humanista não tem garantia alguma de exatidão.

Conclusão. De tudo o que precede, reter-se-á esta impressão: é muito delicado apreciar as ideias e as tendências de Lefèvre, muito difícil dosar de maneira precisa sua parte de responsabilidade no desenvolvimento do protestantismo na França. Que suas críticas, que seu recurso imprudente à Escritura só tenham contribuído para preparar o terreno onde se desenvolveriam as sementes luteranas, parece difícil contestar. Que tenha aderido de maneira íntima ao conjunto das doutrinas da Reforma, que tenha considerado uma ruptura definitiva com o estabelecimento eclesiástico como a única condição de sucesso das ideias reformistas, ainda que sem realizar ele mesmo o passo libertador, é o que nos parece mais difícil de provar. Semelhante a tantos outros escritores místicos desse século XV, com o qual tem tanta afinidade, organizou sua vida religiosa, intelectual ou moral sem levar suficientemente em conta a tradição e a autoridade. Mas não se liga diretamente à Reforma protestante. « Entre o movimento luterano e o movimento fabrista, escreve muito justamente o Sr. Imbart de la Tour, há paralelismo, e não relação de causalidade. Em definitivo, é bem a Lutero que a Reforma francesa, como aliás toda a Reforma, deve seu advento. » Op. cit., t. III, p. 423.

I. Obras de Lefèvre. Encontrar-se-á uma enumeração muito completa no apêndice II do trabalho de K. H. Graf, p. 222-237. Esse autor assinala ano por ano os trabalhos conhecidos e identificados de Lefèvre; depois de dar por completo o título da edição princeps, acrescenta imediatamente os dados principais relativos às reedições. Passaremos rapidamente sobre as obras filosóficas, remetendo para o pormenor a esse excelente repertório. Eis, por ordem de data, a série das obras de Lefèvre: 1492: In VIII Physicos Aristotelis libros paraphrasis, Paris, reeditada em 1501, 1504, 1510, 1510 (Cracóvia), 1511 (Friburgo), 1521 (Paris), 1528. Figura, além disso, na grande edição das paráfrases sobre toda a filosofia natural que apareceu aos cuidados de Vatable em 1528 e em grande número de edições posteriores. 1494: Ars moralis in magna moralia Aristotelis introductoria, Paris, reeditado em 1499. 1496: 1. Artificialis introductio in X libros morales Aristotelis, Paris; reeditada em 1501 (Viena), 1502 (Paris), 1506 (Paris), 1511 (Leipzig), e em Paris em 1511, 1512, 1528, 1531, 1537, 1545, e também em diversas coletâneas. 2. Arithmetica decem libris demonstrata; musica libris demonstrata quatuor; epitome in libros arithmeticos divi Severini Boetii; rythmimachiae ludus qui et pugna numerorum appellatur, Paris; reeditado em 1514, 1530 (Basileia), 1553 (Basileia). 1497: 1.

Decem librorum moralium Aristotelis tres conversiones : prima Argyropili, secunda Leonardi Aretini, Byzantini, tertia versio antiqua, Paris, reedição em 1505, 1510, 1516, 1528, 1535, 1541 (Friburgo). 2. Textus de Sphaera Joannis de Sacrobosco cum commentario (a data não está fixada com certeza, depois de 1496, antes de 1499); reeditado com frequência com outros comentários de astronomia e de matemática. 1498 : Theologia vivificans. Cibus solidus : Dionysii diuina nomina, coelestis hierarchia, ecclesiastica hierarchia, mystica theologia, undecim epistolae; Ignatii undecim epistolae; Polycarpi epistola una, Paris; Graf viu com seus próprios olhos um exemplar; reeditada em 1502 (Veneza), em 1515 (Paris, com um comentário de Clichtoue); as epístolas de Inácio e de Policarpo foram impressas à parte em 1520 (Basileia), 1527 (Estrasburgo).

1499 : Remundi Lullii libri IV : 1us de laudibus B. V. Mariae qui et ars intentionum appellari potest; 2us de natali pueri parvuli; 3us clericus Remundi; 4us phantasticus Remundi, Paris. 1500 : Artificiales nonnullae introductiones (obras de Lefèvre, reunidas por Clichtoue, introdução aos tratados lógicos de Aristóteles), Paris; a edição de 1505 contém além disso : Introductio in terminorum cognitionem et De artium scientiarumque divisione; reeditada em 1518 (Rouen), 1520 (Paris), 1526 (Paris), 1534 (Paris), 1535 (Lião). 1503 : 1. Logicorum libri recogniti Boetio Severino interprete, et Paraphrases in eosdem cum adjectis annotationibus, Paris; reedições em 1510, 1520, 1531, 1537, 1543, 1588 (Veneza). 2. Astronomicon theoricum corporum coelestium, Paris.

1504 : Pro piorum recreatione.... Paradysus Clementis, Heraclidis, Epistola Clementis, Recognitiones Petri apostoli, Complementum epistolae Clementis, Epistola Anacleti, Paris. 1505 : 1. Pimander, Mercurii liber de sapientia et potestate Dei; Asclepius, ejusdem Mercurii liber de voluntate divina; item Crater Hermetis a Lazarelo Septempedano, Paris (Lefèvre revisou a tradução que Marsílio Ficino havia dado do Poimandrès e do Asclepius. O Crater Hermetis é uma obra moderna de um certo Luís Lazarelus, dedicada ao rei Fernando). 2. Primum volumen contemplationum Remundi (Lullii) duos libros continens. Libellus Blaquerne de amico et amato, Paris. 1506 : Politicorum libri VIII, commentarii; Oeconomicorum duo, commentarii, Paris; reedit. em 1526, 1543. 1507 : Theologia Damasceni, Joannis Damasceni de orthodoxa fide liber, tradução latina do texto grego, Paris, frequentemente reeditada nas obras do Damasceno; com um comentário de Clichtoue, Paris, 1511, reedit., 1512, 1513.

1508 : 1. Introductio in Politica Aristotelis et Oeconomicum Xenophontis a Raphaele Volaterrano translatum, Paris; reed., 1512, 1516 (com um comentário de Clichtoue); publicada também com a Artificialis Introductio in Ethicen, Viena, 1513, Estrasburgo, 1514. 2. Georgii Trapezontii dialectica (o prefácio é de 1508); edições em 1510 (Estrasburgo), 1532 (Paris), 1541 (Lião), etc. 1509 : 1. Psalterium Quincuplex, gallicum, romanum, hebraicum, vetus, conciliatum, Paris; reedit. em 1513 (com algumas adições) e em 1515. 2. Ricoldi O. P. contra sectam Mahumeticam non indignus scitu libellus; cujusdam diu captivi Turcorum, provinciae Castrensis septem, de vita et moribus eorundem alius non minus necessarius libellus. Adjunctus est insuper libellus de vita et moribus Judaeorum, Paris (sobre esse Ricoldus, ver Fabricius, Bibliotheca latina mediae et infimae aetatis, edição de Hamburgo, 1746, t. VI, p. 258-259); reedit. em 1511, 1514, 1520 (Sevilha), 1608 (Roma).

1510 : 1. Egregii patris et clari theologi Ricardi quondam devoti coenobitae sancti Victoris... super divina Trinitate theologicum opus, hexade librorum distinctum, XX capitulis et decadibus. Adjunctus et commentarius artificio analytico metaphysicam et humanum sensum transcendentem apicem sed rationali modo complectens intelligentiam, Paris. 2. Bernonis Abbatis libellus de officio missae quem edidit Romae, Paris (sobre esse Bernon, abade de Reichenau, ver Diction. d'archéologie chrétienne, t. II, col. 820 sq.); reedit. em 1511 (Estrasburgo), 1518 (Paris). 3. AEgesippi historiographi fidelissimi et disertissimi et inter christianos antiquissimi Historia de Bello Judaico, sceptri sublatione, Judaeorum dispersione et Hierosolymitano excidio, ab Ambrosio Mediolan. antistite e graeco in latinum inductum ejusdemque nunc primum sub tribus congruentiarum; cum Josephi libris etiam de Gestis Macchabaeorum, Paris.

Opera complura Hilarii episcopi hoc in libro compressa : De Trinitate contra Arrianos libri XII; Contra Constantium haereticum lib. I; Ad Constantium imperatorem l. II; Contra Auxentium arrianum, l. I; Auxentii blasphema plena epistola l. I; De synodis contra arrianos habitis l. I; Ad Apram filiam D. Hylarii epistola l. I; In psalmos David commentarii l. II; In ev. Matthaei, l. I, Paris. (Não é fácil precisar a parte exata que cabe a Lefèvre nessas duas edições de textos). 1512 : Sancti Pauli epistolae XIV ex Vulg. editione, adjecta intelligentia ex graecorum commentariis J. Fabri Stapulensis.... Accedit ad calcem Linus episcopus de passione Petri et Pauli ex graeco in lat. conversa, Paris; reedit. em 1515, 1517, 1531, 1531 (Colônia).

1513 : Liber trium virorum et trium spiritualium virginum : Hermae Pastoris, l. I; Uguelini monachi Visio, l. I; Fr. Roberti sermonum et visionum, l. III; Hildegardis Scivias visionum l. II; Elisabethae virginis coenobitae Sconaugiensis sermonum ac visionum ad fratrem suum Egbertum, abbatem S. Florini, l. VI; Mechtildis virginis studiorum piorum l. V. 1514 : Accurata recognitio trium voluminum operum clarissimi P. Nicolai Cusae card., Paris. 1515 : Agones martyrum mensis januarii primo libro contenti, Paris. 1517 : 1. Euclidis Megarensis geometricorum elementorum libri XV (com comentários antigos e modernos), Paris; reedit. em 1537 (Basileia), 1546 e 1558 (Basileia). 2. De Maria Magdalena et triduo Christi disceptatio, Paris; editada também em Haguenau, 1518.

1518 : De Maria Magdalena et triduo Christi disceptatio, ad primos concionatoribus verbi divini utilis; 2ª edit. De Maria Magdalena, triduo Christi et ex tribus una Maria disceptatio, Paris, 1518; e também 1519 (com uma epístola de Clichtoue), 1520. Ex Physiologia Aristotelis libri XXVIII, tradução latina das principais obras aristotélicas relativas à física; publicada sob o nome de Vatable; mas Lefèvre certamente contribuiu para a edição.

1519 : Contemplationes idiotae, Paris (o autor dessas contemplações é um cônego regular de Santo Agostinho chamado Raimundo Jordan; ver Fabricius, Bibl. latina med. et inf. aetatis, edição de Hamburgo, 1735, t. IV, p. 519); reeditadas em 1530, 1535, etc. 1520 : Basilii Magni Caesariens... opera plane divina, variis locis sedulo collecta... recognita et compressa, Paris (contém traduções do Hexameron, do Tratado contra Eunômio, dos Sermões e das Regras monásticas segundo Rufino); reeditado em 1523 (Paris), 1523 (Colônia). 1522 : Commentarii initiatorii in quatuor evangelia, Paris; reeditado em 1523 (Basileia), 1526 (s. l.), 1541 (Colônia).

1523 : Tradução francesa do Novo Testamento : a primeira parte, os Evangelhos, aparece em 8 de junho de 1523; a segunda, Epístolas, Atos, Apocalipse, em 6 de novembro de 1523, na casa de Simon de Colines (que tinha sua casa em Paris e uma filial em Meaux); 2ª edit. na casa do mesmo Colines, 1524. Para as numerosas edições seguintes ver os trabalhos relativos às traduções francesas da Bíblia. 1525 : 1. Tradução francesa do Saltério, na casa de Simon de Colines; reedit. em 1530 (s. l.). 2. Les Epistres et Evangiles des cinquante et deux dimanches de l'an avecques briefves et très utiles expositions d'ycelles; reeditado por E. Dolet em Lião, 1542. 1527 : Jacobi Fabri Stapulensis, theologi celeberrimi, commentarii in epistolas catholicas, Basileia; reedit. em 1540 (Antuérpia). 1528 : Tradução francesa do Antigo Testamento, Antuérpia, em 4 vol.; contém todo o Antigo Testamento, com exceção do Saltério. 1530 : La saincte Bible en français translatée selon la pure et entière traduction sainct Hierosme, conférée et entièrement revisitée selon les plus anciens et plus correctz exemplaires, Antuérpia, com privilégio imperial; reedit. 1534 (Antuérpia), igualmente com privilégio imperial; essa edição é ainda reimpressa em 1541 (Antuérpia).

II. FONTES. Além das obras de Lefèvre, que constituem a fonte principal, encontrar-se-ão informações, aliás muito pouco abundantes, nas seguintes obras : A.-L. Herminjard, Correspondance des réformateurs dans les pays de langue française, Genebra e Paris, 1866 e anos seguintes, t. I, n. 3, 20, 21, 23, 24, 25, 29, 30, 85, 98, 103, 104; t. II, n. 202, 363; t. IV, n. 99 (cf. n. 103 do t. I); as obras de Noël Béda e dos outros adversários de Lefèvre, assinaladas no decorrer do artigo; Toussaints Duplessis, Histoire de l'Église de Meaux avec des notes ou dissertations et les pièces justificatives, Paris, 1731, 2 vol.; Les actes de la Sorbonne, em Duplessis d'Argentré, Collectio judiciorum, t. II, Paris, 1728, e melhor no Liber conclusionum, inédito; Farel, Epistre à tous seigneurs et peuples et pasteurs, publicada por volta de 1518; edit. de Genebra, 1865 (na sequência de Du vrai usage de la croix de Jésus-Christ); Teodoro de Beza, Icônes, id est verae imagines virorum illustrium, 1580; Florimond de Raemond, Histoire de la naissance, progrès... ...progrès et décadence de l'hérésie de ce siècle, Rouen, 1623, sobretudo l. VII, c. XVII.

III. TRABALHOS. As notícias literárias de Ellies Du Pin, Bibliothèque des auteurs ecclésiastiques, séc. XVI; Fabricius, Bibliotheca latina mediae et infimae aetatis, Hamburgo, 1734, t. II, p. 418 sq., e outras são todas muito incompletas e absolutamente insuficientes. A primeira monografia séria é a de K. H. Graf, Essai sur la vie et les écrits de Jacques Lefèvre d'Étaples, Estrasburgo, 1842, retomada e muito remodelada em dois longos artigos da Zeitschrift für die historische Theologie, 1852, t. XXII a, p. 1-86; 165-237 : Jacobus Faber Stapulensis, Ein Beitrag zur Geschichte der Reformation in Frankreich; é a esse trabalho que se referem as nossas remissões. Para memória : De Sabatier Plantier, J. Lefèvre d'Étaples, Cahors, 1870; Barnaud, Jacques Lefèvre d'Étaples, Montauban, 1900.

Há sobretudo o que colher nas obras gerais relativas à Reforma na França; mencionemos apenas E. Doumergue, Jean Calvin, les hommes et les choses de son temps, Lausanne, 1899 e anos seguintes, sobretudo t. I, l. II, c. iv e v; apêndices : Le protestantisme fabrisien, p. 78-112; l. IV, c. II, Nérac, e Doumergue faz naturalmente de Lefèvre o pai do protestantismo francês. Em sentido inverso, P. Imbart de la Tour, Les origines de la Réforme, Paris, 1905 e anos seguintes, sobretudo t. II, l. III, c. II e III; l. IV, c. III; t. III, l. I, c. II; l. II, c. I, II, reagiu, talvez com demasiada força, e mostrou o caráter singular de Lefèvre. Para a história do movimento intelectual, ver também L. Delaruelle, Études sur l'humaniste français Guillaume Budé, Paris, 1907; A. Humbert, Les origines de la théologie moderne, Paris, 1911, p. 148-165; a bibliografia do art. Clichtove.

E. Amann.

Autor original: E. Amann

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