LE COURRAYER (PEDRO FRANCISCO)

LE COURRAYER (PEDRO FRANCISCO)

LE COURRAYER Pedro-Francisco (1681-1776) nasceu em Ruão a 17 de novembro de 1681, entrou na congregação de Santa Genoveva e foi professor de filosofia e de teologia, ao mesmo tempo que bibliotecário da abadia. Foi apelante da bula Unigenitus e, em 1723, sustentou sobre a validade das ordenações anglicanas uma tese que suscitou vivas polêmicas. Le Courrayer retomou e sustentou sua opinião, que foi censurada por vinte e dois prelados reunidos por ordem do rei em Santa Genoveva a 22 de agosto de 1727. Os prelados condenavam trinta e duas proposições que tinham por objeto o sacrifício da missa e o sacerdócio, os sacramentos, a Igreja, as cerimônias, o primado do papa. O abade de Santa Genoveva excomungou seu subordinado, que se submeteu e que, a 3 de dezembro de 1727, escreveu ao cardeal de Noailles, o qual o havia condenado por um mandamento de 31 de outubro, para lhe dar conta de sua submissão. As teses de Le Courrayer espalharam-se na Inglaterra e na Universidade de Oxford; esta lhe enviou cartas de doutor, que Le Courrayer aceitou a 1º de dezembro de 1732. Em seguida Le Courrayer retirou-se para Londres e recebeu um canonicato em Oxford. Morreu em Londres a 16 de outubro de 1776. Em um testamento, datado de 3 de fevereiro de 1774, declarava querer morrer membro da Igreja católica, « mas sem aprovar várias opiniões e superstições que foram introduzidas na Igreja romana e que se ensinam nas escolas e nos seminários e que se apresentam como artigos de fé. »

Pode-se dizer que toda a obra de Le Courrayer tem por objeto a questão das ordenações anglicanas, que foi resolvida em nossos dias pela bula Apostolicæ curæ de 13 de setembro de 1896. Já uma carta anônima, datada de 5 de fevereiro de 1722 e publicada nas Mémoires de Trévoux de abril de 1722, p. 708-729, havia contestado a validade das ordenações anglicanas por causa das mudanças introduzidas no pontifical romano, mas foi Le Courrayer quem verdadeiramente suscitou as polêmicas com sua Dissertation sur la validité des ordinations des anglais et sur la succession des évêques de l'Église anglicane, 2 vol. in-12, Bruxelles, 1723, com as peças justificativas dos fatos alegados nessa obra. O escrito, aparecido primeiramente sob o véu do anonimato, quer provar a validade das ordenações anglicanas, que todas se ligam a Parker, o qual foi verdadeiramente bispo. Journal des savants, janeiro de 1724, p. 7-15, e fevereiro, p. 71-80; Mémoires de Trévoux, março de 1724, p. 389-433. A obra foi traduzida para o inglês com um prefácio por um sacerdote inglês.

Imediatamente começam as discussões mais acaloradas: Le Courrayer envia Éclaircissements ao Journal des savants, abril de 1724, p. 240-246. As Mémoires de Trévoux, de agosto de 1724, p. 1349-1361, publicam um Prélude de la réfutation du livre entier du P. Le Courrayer, cujo autor é o P. Hardouin, S. J. Le Courrayer escreve uma Lettre à M..., auteur de l'extrait de la dissertation sur les ordinations, in-12, 1724. Mémoires de Trévoux, agosto de 1724, p. 1393-1418. Logo aparecem as Lettres d'un théologien à un ecclésiastique de ses amis sur une dissertation touchant la validité des ordinations anglicanes, in-12, Paris, 1724. É obra do P. Gervaise, que censura Le Courrayer por sustentar que a Igreja pode mudar a forma da ordenação e que declara insuficiente a ordenação dos ingleses, porque ela confunde o episcopado e o presbiterato para estabelecer o presbiterianismo. Journal des savants, dezembro de 1724, p. 792-797, e Mémoires de Trévoux, fevereiro de 1725, p. 319-350.

O P. Hardouin entra diretamente em cena em La dissertation du P. Le Courrayer sur la succession des évêques de l'Église anglicane et sur la validité de leur ordination réfutée par le P. Hardouin, jésuite, 2 vol. in-12, Paris, 1724-1725. A primeira parte examina a questão de fato e sustenta a tese, hoje demonstrada falsa, de que Parker foi sagrado sem nenhuma cerimônia e em circunstâncias ridículas, até mesmo escandalosas, numa taverna de Londres; que, aliás, Barlow, o consagrante de Parker, não tinha o direito de consagrar; por fim, expõe algumas reflexões sobre diversos pontos do livro de Le Courrayer. Journal des savants, fevereiro de 1725, p. 116-124, e maio de 1726, p. 328-335; Mémoires de Trévoux, março de 1725, p. 469-495, e junho de 1726, p. 989-1030. Quase ao mesmo tempo, o P. Lequien, professor de teologia da ordem dos frades pregadores, publicava Nullité des ordinations anglicanes ou Réfutation d'un livre intitulé : Dissertation..., 2 vol. in-12, Paris, 1725. Para Lequien, o ordinal anglicano é obra do poder secular representado pelos reis da Inglaterra e, por conseguinte, não tem valor algum. Journal des savants, setembro de 1725, p. 546-564, e outubro, p. 640-648.

Um beneditino escreve a Le Courrayer uma Lettre sur son traité des ordinations des anglais, in-12, Paris, 1726, para lembrar-lhe as condições necessárias da validade dos sacramentos e a desaprovação, por parte da Igreja romana, das mudanças introduzidas no rito anglicano, e também o cuidado que a Igreja sempre teve de reordenar os sacerdotes da Inglaterra que fizeram sua abjuração. Mémoires de Trévoux, junho de 1726, p. 1132-1136, e Journal des savants, julho de 1725, p. 436-437. Os ataques se multiplicam: o decano Fennell, na Irlanda, publica um Mémoire ou Dissertation sur la validité des ordinations, 2 vol. in-12, Paris, 1726, e mostra a invalidade das ordenações anglicanas pelo relato completo da história da Reforma na Inglaterra. Journal des savants, agosto de 1726, p. 473-477. As Observations importantes sur le livre du P. Le Courrayer, in-12, Paris, 1726, apontam os numerosos erros contidos nesse escrito, sobretudo a respeito do sacrifício da missa, que deixa de ser um sacrifício real.

Le Courrayer já se havia defendido em algumas Lettres et Remarques, mas, no fim de 1726, publicou um longo trabalho intitulado Défense de la Dissertation sur la validité des ordinations des anglais contre les différentes réponses qui y ont été faites avec les pièces justificatives des faits avancés dans cet ouvrage, 4 vol. in-12, Bruxelles, 1726. Le Courrayer quer responder em particular aos ataques do P. Lequien e, contra ele, mostrar « a impossibilidade moral da suposição e da corrupção de uma infinidade de atos »; contesta as afirmações do P. Hardouin a respeito da história da taverna e da ordenação de Barlow, da qual não se fala antes de 1604, e ataca vivamente ... mostra que a validade das ordenações anglicanas reconhecida pela Igreja católica será um obstáculo a menos para a reunião dos anglicanos. » Journal des savants, fevereiro de 1727, p. 67-75. O P. Hardouin publicou, nas Mémoires de Trévoux de maio de 1727, p. 597-815, um artigo intitulado Deux exemples des falsifications remarquées dans la Défense du P. Le Courrayer; a esse escrito, Le Courrayer respondeu com uma Lettre au sujet de la nouvelle accusation de faux qui lui est intentée par le P. Hardouin dans les Mémoires de Trévoux de mai. O P. Hardouin acrescentou um escrito mais completo: Défense des ordinations anglicanes réfutée par le P. Hardouin, de la Compagnie de Jésus, 2 vol. in-12, Paris, 1727; o jesuíta queixa-se « de ares desdenhosos, de golpes altivos, cheios de orgulho, de cólera e de ódio e das mais grosseiras injúrias. » Contenta-se em transcrever palavra por palavra as passagens que quer refutar, para responder-lhes em seguida. Journal des savants, dezembro de 1727, p. 707-711.

Mas os bispos da França já haviam condenado as teses de Le Courrayer em seus mandamentos. Vinte bispos reunidos em Paris, sob a presidência do cardeal de Bissy, haviam examinado a obra a 22 de agosto de 1727, e um decreto do Conselho de Estado se seguira a 7 de setembro. Depois vêm os mandamentos do cardeal de Noailles (31 de outubro), do arcebispo de Cambrai e do bispo de Soissons (15 de setembro), dos bispos de Évreux (18 de setembro), de Luçon (1º de outubro), de Boulogne (10 de outubro), de Laon (20 de outubro), de Noyon (4 de novembro), de Poitiers (3 de dezembro), de Beauvais (8 de dezembro), de Mâcon (18 de dezembro), de Montpellier (25 de janeiro de 1728), de Bayeux (15 de fevereiro). O P. Le Courrayer submeteu-se e o cardeal de Noailles pôde anunciar que o Padre, por uma carta de 11 de março de 1727, « condenava sinceramente todos os erros condenados e censurados, assim como as expressões de suas obras que exprimem ou favorecem os erros. » Journal des savants, abril de 1728, p. 225-232.

Entretanto, a publicação dos escritos prosseguia; o P. Teodorico de Saint-René, carmelita des Billettes, antigo professor de teologia e antigo comissário geral de sua ordem na Inglaterra e na França, publicava a Justification de l'Église romaine sur la réordination des Anglais épiscopaux ou Réponse à la dissertation et à la défense de la Dissertation...; de seu lado, Francisco Vivant, sacerdote, doutor, cônego, chanceler, vigário geral de Paris, com a aprovação do abade de Targny, editava La vraie manière de contribuer à la réunion de l'Église anglicane à l'Église catholique ou Examen des différents endroits des deux livres intitulés l'un : Dissertation.. l'autre : Défense de la dissertation, in-4°, Paris, 1728. O escrito quase não fazia mais que citar o P. Le Courrayer. Journal des savants, novembro de 1728, p. 697-700. O abade de Santa Genoveva desautorizou seu subordinado e, em 1728, publicou um pequeno escrito dirigido aos religiosos de sua congregação (1º de fevereiro de 1728), no qual lamenta a partida de Le Courrayer e, por sentença de 30 de janeiro, lançou contra ele uma excomunhão; em seguida, encontram-se as cartas de submissão que Le Courrayer havia enviado ao cardeal de Noailles (11 de março, 25 de março, 30 de outubro e 3 de dezembro de 1727) e a carta que escrevera ao abade de Santa Genoveva. Todas essas cartas estão na Bibliothèque nationale, ms. fr. 20 973, f° 43 sq., e na Bibliothèque Sainte-Geneviève, ms. 738, f° 45 sq.

Le Courrayer quis justificar-se. Este último manuscrito, f° 3-35, contém um longo Mémoire concernant la relation historique que prépare le P. Le Courrayer; é datado de 10 de maio de 1728 e dividido em 8 artigos que contam as fases principais da polêmica e os trabalhos compostos pró e contra. Le Courrayer explicou ele próprio os motivos de sua fuga para a Inglaterra. Bibliothèque nationale, Lat., 11 996. O Mémoire de Le Courrayer apareceu em 1729, com um longo prefácio no qual o autor explica e justifica sua conduta, sem entrar nos detalhes da controvérsia doutrinal. O escrito intitula-se Relation historique et apologétique des sentiments et de la conduite du P. Le Courrayer, chanoine régulier de Sainte-Geneviève, avec les pièces justificatives des faits avancés dans cet ouvrage, 2 vol. in-12. Amsterdam, 1729. Mémoires de Trévoux, agosto de 1730, p. 1356-1372. O doutor de Oxford pretende permanecer bom católico, embora não adote « as diferentes doutrinas que prevalecem nas escolas ou entre os teólogos católicos ... que fazem do cristianismo uma seita filosófica tanto menos razoável quanto começa por pedir o sacrifício da razão...; ele não deixa de ser católico ao recusar escravizar-se a esse jugo... »

Entretanto, o P. Lequien completou seu trabalho em La nullité des ordinations anglicanes démontrée de nouveau, tant par le fait que par le droit, contre la Défense du R. P. Le Courrayer, docteur d'Oxford et chanoine régulier de Sainte-Geneviève, 2 vol. in-12, Paris, 1730, Mémoires de Trévoux, agosto de 1730, p. 1470-1490, e setembro, p. 1517-1536; Journal des savants, setembro de 1730, p. 580-589; Bibliothèque raisonnée des ouvrages des savants de l'Europe, t. iii, p. 88-109. Le Courrayer respondeu no Supplément aux deux ouvrages faits pour la défense de la validité des ordinations anglicanes, pour servir de dernière réponse au nouvel ouvrage du P. Lequien et aux censures de quelques évêques de France, in-12, Amsterdam, 1732. Bibliothèque raisonnée, t. vii, p. 355-374.

Refugiado na Inglaterra, Le Courrayer publicou a Histoire du concile de Trente, écrite en italien par Fra Paolo Sarpi, et traduite de nouveau en français, avec des notes critiques, historiques et théologiques, 2 vol. in-fol., Londres, 1736, publicada também em Amsterdam, 2 vol. in-4°, 1736, e em Basileia, 1738, traduzida para o alemão, o inglês e o italiano. Num longo prefácio, Le Courrayer faz a apologia de seus sentimentos e conta as perseguições que o espírito de intolerância lhe suscitou. A obra é dedicada à rainha da Inglaterra, de quem faz o elogio, porque ela ama a religião. Le Courrayer pretende que a absolvição não é mais que uma declaração e acusa o concílio de Trento de ter inventado vários artigos de fé. É uma obra herética, explicada por um comentário herético. Mémoires de Trévoux, março, abril de 1737, p. 472-505, 569-607.

As Nouvelles ecclésiastiques de 22 de setembro de 1736, p. 149-150, apoiando-se numa Lettre du sieur Legros, apontam os erros de Le Courrayer e aprovam as cartas dos bispos de Senez e de Montpellier contra ele; assinalam, como preservativo ou contraveneno contra essa obra, o Traité des principes de la foi catholique de Duguet, 3 vol. in-12, Paris, 1736. Le Courrayer respondeu a esses ataques com a Défense de la nouvelle traduction de l'Histoire du concile de Trente contre les censures de quelques prélats et de quelques théologiens, in-12, Amsterdam, 1742, Bibliothèque raisonnée, 1742, t. xxviii, p. 92-116, e replicou a vários mandamentos, entre outros aos do arcebispo de Embrun e do bispo de Montpellier. Dom Gervaise tomou a defesa do concílio de Trento em L'honneur de l'Église catholique et des souverains pontifes défendu contre les calomnies, les impostures et les blasphèmes du P. Le Courrayer, répandues dans sa traduction de l'Histoire du concile de Trente par Fra Paolo, et dans les notes qu'il y a ajoutées, 2 vol. in-12, Paris, 1742. Essa obra é escrita num estilo incisivo, vigoroso, cheio de força, e ataca sobretudo o prefácio e as notas contraditórias desse autor « metade católico, metade protestante, cônego regular de Santa Genoveva e doutor de Oxford, francês e inglês. » Mémoires de Trévoux, abril e junho de 1744, p. 583-617, 1050-1083.

Os outros escritos de Le Courrayer passaram despercebidos; ele fora o editor de um Recueil de lettres spirituelles sur divers sujets de morale et de piété du P. Quesnel, 3 vol. in-12, Paris, 1721; na Inglaterra, publicou uma tradução francesa, com notas, da Histoire de la réformation de Jean Sleidan, 3 vol. in-12, La Haye, 1767-1769. Guilherme Bell publicou em inglês, depois da morte de Le Courrayer, uma Déclaration de mes sentiments sur différents points de doctrine, in-12, 1787. Atribuiu-se a Le Courrayer a Réfutation de l'apologie d'Érasme, resposta à tese do P. Marsollier que, em 1713, havia defendido a ortodoxia de Erasmo. Mémoires de Trévoux, junho de 1714, p. 954-972.

Michaud, Biographie universelle, art. Courrayer, t. ix, p. 353-354; Hoefer, Nouvelle biographie générale, t. xxx, col. 243-245; Quérard, La France littéraire, t. iv, p. 62; Haag, La France protestante, t. vi, p. 482-484; Moréri, Le grand dictionnaire historique, art. Quien, no qual o abade Goujet aprova Le Courrayer e critica o P. Le Quien; Picot, Mémoires pour servir à l'histoire ecclésiastique pendant le XVIIIe siècle, édit. de 1855, t. ii, p. 209-215; Journal et mémoires de Mathieu Marais, avocat de Paris, sur la Régence et le règne de Louis XV (1715-1737), t. iii, p. 241-243; Bibliothèque raisonnée des ouvrages des savants de l'Europe, t. iii, p. 88-109; t. vii, p. 355-374; t. xxviii, p. 92-116; Lebreton, Biographie normande, t. ii, p. 443-444; Oursel, Nouvelle biographie normande t. ii, p. 90; Guilbert, Mémoires biographiques et littéraires, t. ii, p. 100-103; Journal des savants e Mémoires de Trévoux, loc. cit.; a Collection Languet, que se encontra na biblioteca municipal de Sens, fornece peças interessantes sobre Le Courrayer, em particular nos t. xxv e xxvi.

J. Carreyre.

Autor original: J. Carreyre

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