LAMY (BERNARDO)

LAMY (BERNARDO)

LAMY Bernardo (1640-1715). Nascido em Le Mans em junho de 1640, entrou no Oratório a 17 de outubro de 1657 e foi sacerdote em 1667. Estudou teologia e em seguida a ensinou em Angers. Teve sempre uma inclinação marcada pelas ideias cartesianas, e foi preciso uma ordem formal do rei (30 de janeiro de 1675) ao reitor da Universidade para impedir Bernardo Lamy de ensinar o cartesianismo. Acusaram-no até de sustentar proposições ímpias contra o rei e contra os magistrados. Para se defender, o P. Lamy publicou Extraits des écrits d'un professeur de l'Oratoire, dictés vers le commencement de l'année 1671 dans le collège d'Angers, pour lui servir de justification contre les calomnies qu'on a répandues contre lui qu'il a enseigné dans ces mêmes écrits une proposition impie. Sustentava aí a ideia cartesiana de que a essência dos corpos era a extensão atual. Um novo decreto de 4 de dezembro de 1675 condenou os escritos do P. Lamy e proibiu-o de ensinar e de pregar em todo o reino. O superior do Oratório ordenou-lhe que se dirigisse a Saint-Martin-de-Misère, no Delfinado; mas, depois de oito meses de interdito, sob o bom testemunho do bispo de Grenoble, M. Le Camus, veio a 14 de agosto de 1676 ensinar no seminário de Grenoble, e foi aí que compôs a maior parte de seus escritos. Voltou ao seminário de Saint-Magloire em 1686; mas em 1689 a publicação de sua Harmonie évangélique obrigou o superior do Oratório a enviá-lo a Rouen, onde permaneceu até sua morte, ocorrida a 29 de janeiro de 1715.

O Journal des savants de 18 de março de 1715 julga assim o oratoriano: O P. Lamy não era desses sábios « que fazem de sua ciência um Deus »; juntava a uma profunda erudição as virtudes sacerdotais. Todo o seu tempo era repartido entre o estudo e os exercícios de piedade.

O P. Lamy estreou na produção literária com certo número de trabalhos relativos seja à retórica (L'art de parler, 1670, Réflexions sur l'art poétique, 1678), seja às ciências exatas: mecânica, álgebra, geometria. Essas diversas disciplinas, aliás, ele as voltava para a formação religiosa do espírito. Expõe longamente esse ponto de vista em seus Entretiens sur les sciences en général, dans lesquels, outre la méthode d'étudier, on apprend comme on doit se servir des sciences pour se faire l'esprit juste et le cœur droit et pour se rendre utile à l'Église; on y donne des avis importants à ceux qui vivent dans des maisons ecclésiastiques, in-12, Grenoble, 1683; Lyon, 1684; Bruxelles, 1684. A obra compreende sete conversações e é dedicada ao bispo de Grenoble. Uma segunda edição, aumentada de um terço, apareceu em Lyon em 1694 e uma terceira, ainda aumentada, apareceu em Lyon em 1706, com quatro novas conversações em que domina a nota moral. Rousseau fez o elogio deste escrito em suas Confessions, l. VI, onde diz « que o leu e releu cem vezes ». Ver Journal des savants, de 4 de dezembro de 1684, p. 219, de 3 de janeiro de 1695, p. 55-57, do suplemento do último de julho de 1707, p. 331-333.

Mais tarde, a pedido do P. de Sainte-Marthe, superior geral do Oratório, o P. Lamy voltou-se para as ciências eclesiásticas e antes de tudo para o estudo da Sagrada Escritura. Em 1687, havia publicado em Grenoble uma obra importante, que foi frequentemente reimpressa com numerosos acréscimos, na França e no estrangeiro. É o Apparatus ad Bibliam Sacram, in-fol., Grenoble, 1687. Não era a princípio senão um conjunto de mapas e de quadros indicando os principais fatos narrados na Bíblia. Uma nova edição, publicada em 1689, teve grande sucesso, e o P. Lamy decidiu acrescentar as provas de suas asserções. Foi o Apparatus biblicus seu Manuductio ad Sacram Scripturam, tum clarius, tum facilius intelligendam omnibus quœ in Apparatu biblico desiderari possunt; nova editio ornata et locupletata, in-8°, Lyon, 1696. Journal des savants de 4 de junho de 1696, p. 253-257. É o escrito mais esmerado do P. Lamy; foi editado em 1708 em Iena e em Mogúncia; em 1709, em Amsterdã e, em 1724, muito aumentado, em Lyon. O abade de Bellegarde o havia traduzido para o francês, in-8°, Paris, 1697, Journal des Savants, de 27 de maio de 1697, p. 229-230, à revelia do P. Lamy, que desautorizou essa tradução muito imperfeita e encorajou a do abade Boyer, in-4°, Lyon, 1699. A tradução publicada em 1709 em Lyon é a mais completa; foi revista e aumentada pelo próprio P. Lamy e apareceu sob o título Introduction à l'Écriture Sainte où l'on traite tout ce qui concerne les Juifs, leur origine, toute la suite de leur histoire selon l'ordre des temps, la forme de leur république, leurs lois, leurs coutumes, leurs années, la Terre sainte, Jérusalem, leur Temple, le Tabernacle, les fêtes, les sacrifices, leurs poids, leurs mesures, leurs monnaies, les fausses divinités, les animaux, les plantes, les pierreries, les maladies dont il est parlé dans l'Écriture, avec l'histoire du texte original, des versions, des polyglottes et des paraphrases, enrichie de plusieurs figures... Nouv. édit. rev. et augm., in-4°, Lyon, 1709. Esta introdução foi colocada à frente do Grand dictionnaire de la Bible, impresso em Lyon, in-fol., 1724. E. du Pin, Bibliothèque des auteurs ecclésiastiques du XVIIe siècle, t. v, p. 347-355.

A obra seguinte é de inspiração mais teológica: Démonstration de la vérité et de la sainteté de la morale chrétienne, in-12, Paris, 1685. Esta primeira edição, dedicada a Harlay, arcebispo de Paris, compreende apenas duas conversações ou diálogos em que o autor mostra 1° que só Deus pode tornar o homem feliz; 2° que só pode ser feliz aqui embaixo aquele que quer sinceramente conhecer a vontade de Deus e cumpri-la. Em seguida, a obra foi consideravelmente aumentada e formou 5 vol. in-12, Rouen e Paris, 1709-1711, sob o título: Démonstration ou preuves évidentes de la vérité et de la sainteté de la morale chrétienne, obra que compreende, em cinco conversações, toda a moral. Nesse escrito, o P. Lamy combate os céticos de todos os tempos, as diversas formas do racionalismo e as seitas filosóficas: estoicos, epicuristas, Spinoza, Montaigne, Hobbes.

Não temos de insistir aqui sobre uma obra do P. Lamy, publicada em 1689, e que é sobretudo de ordem escriturística: Harmonia sive concordia quatuor Evangelistarum in qua vera series actuum et sermonum D. J. N. C. instituitur, in-12, Paris.

Várias opiniões exegéticas, que pareceram singulares naquela época, notadamente a tese de que a última Ceia de Jesus não foi uma refeição pascal e a que diz respeito à identificação das três Marias (a Madalena, a irmã de Lázaro, a pecadora), provocaram vivíssimas polêmicas e suscitaram de parte a parte numerosos escritos mais interessantes para a história da exegese do que para a da teologia. Refere-se também à exegese a grande obra De tabernaculo fœderis, de sancta civitate Jérusalem et de templo ejus, in-fol., Paris, 1721, com belíssimas estampas.

O P. Lamy deixou dois manuscritos consideráveis: uma história da teologia escolástica sob este título: Historica disquisitio de theologorum opinionibus, em que tratava severamente os escolásticos, pois suas aventuras de Angers o haviam tornado muito pouco simpático ao que ele chama de seu jargão; e um tratado De Jesu Christo Homine-Deo.

Michaud, Biographie universelle, t. xxiii, p. 91-92; Hœfer, Nouv. biogr. générale, t. xxix, col. 294-298; Quérard, La France littéraire, t. iv, p. 498-499; Chaudon et Delandine, Diction. hist. crit. et bibliogr., t. ix, p. 485-487; Moréri, Le grand dictionnaire historique, édit. de Paris, 1759, t. vi b, p. 106-108; Ellies du Pin, Bibliothèque des auteurs ecclésiastiques du XVIIe siècle, t. v, p. 346-354; P. Desmolets, à frente do De Tabernaculo fœderis, escreveu uma Vita Bernardi Lamij, Congregationis Oratorii presbyteri; Jean Leclerc, Bibliothèque universelle et historique, année 1687, t. vii, p. 201-226 et 1689, p. 554-560, et Bibliothèque choisie, année 1701, t. XI, p. 394-101; Nicéron, Mémoires pour servir à l'histoire des hommes illustres, t. vi, p. 96-120; B. Hauréau, Histoire littéraire du Maine, t. ii, p. 117-165; Mémoires domestiques pour servir à l'histoire de l'Oratoire, de Louis Batterel, publiés par A. P. M. Ingold et E. Bonnardet, t. iv, p. 365-408; Perraud, L'Oratoire de France, p. 280 sq. Dumont, L'Oratoire et le cartésianisme; Journal de tout ce qui s'est passé à l'Université d'Angers, 1879.

J. Carreyre.

Autor original: J. Carreyre

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