LABADIE João, herético francês, chefe da seita dos labadistas, nasceu em Bourg, perto de Bordéus, a 13 de fevereiro de 1610. Seu pai, tenente da cidadela de Bourg-en-Guyenne, enviou-o ao colégio dos jesuítas de Bordéus, onde se distinguiu por suas qualidades intelectuais. Após a morte do pai, entrou na Sociedade de Jesus, na qual, contudo, nunca foi professo. Ordenado sacerdote em 1635, dedicou-se à pregação e ao ensino da filosofia. Seu talento e sua piedade lhe valeram grande sucesso; mas já se extraviava nas fantasias da mais louca mística. Querendo levar a vida austera de são João Batista, entregou-se a mortificações exageradas que atentaram contra o equilíbrio de sua razão: julgou ter visões, revelações, uma missão a cumprir; novo precursor, estava encarregado de reformar a Igreja. Por fim, caiu gravemente doente.
Convalescente, pediu para deixar a Sociedade de Jesus. Após alguma resistência, seus superiores o dispensaram dos votos. O P. Jacquinot, provincial da Guyenne, deu-lhe seu exeat, a 17 de abril de 1630: Ab omni vinculo liberum ob valetudinem ipso prie/il, dimisimus. Espírito inquieto e turbulento, Labadie nunca saberá fixar-se e, a partir desse momento, levará uma vida muito agitada, semeando por toda parte a desordem e a divisão. Seus costumes, mais ainda que suas doutrinas, farão com que seja expulso de todo lugar onde procure fixar-se. É assim em Abbeville, onde abusa da confiança das bernardinas (1644), em Bazas, onde as ursulinas são suas vítimas, em Toulouse, onde o arcebispo, M. de Monchal, lhe confiara a direção de um convento de religiosas da terceira ordem de São Francisco. «O novo são João Batista ensinou às suas boas filhas, relata Goujet, uma doutrina abominável e fez com que praticassem em sua presença, dando ele mesmo o exemplo, ações que o pudor não permite contar. Tudo o que se censura de mais horrível nos discípulos do quietista Molinos, ele lhes ensinava e lhes fazia praticar, e os excitava por seu próprio exemplo.» Cf. Hœfer, Nouvelle biographie générale, t. xxvur, c )1. 317.
Teve de fugir para escapar às perseguições e refugiou-se num eremitério de carmelitas em La Graville, perto de Biza;, a 1º de novembro de 1649, onde tomou o nome de João de Jesus Cristo. Excitou os monges contra seu superior, e a força teve de intervir. Foi seu último feito como católico. A 16 de outubro de 1650, João Labadie abraçava a Reforma em Montauban. Já em Abbeville emitira sobre a graça e a liberdade, a predestinação, doutrinas que o aproximavam dos protestantes; a leitura da Instituição cristã de Calvino, que fez entre os carmelitas de La Graville, o separou definitivamente do catolicismo. Os protestantes fizeram grande caso dessa recruta. «Não creio, diz o pastor Garis oli, que desde Calvino e os primeiros reformadores um homem tal tenha sido ganho para a Reforma.» Cf. Realencijldopâdie, t. xi, p. 192.
Essa segunda parte da vida de Labadie será tão agitada quanto a primeira, e pelas mesmas razões: quererá reformar o protestantismo, como quisera fazer com o catolicismo, e seus costumes privados não serão melhores. Após oito anos de pregações, tem de deixar Montauban e buscar fortuna alhures: em Orange, depois em Genebra, 1659, onde um grupo de jovens escolhidos se forma em torno dele: Pierre Yvon, de Montauban, Pierre Dulignon, François Menuret, que se tornarão seus colaboradores. Em Middelbourg, 1666, prende a si outros discípulos, entre outros Anne-Marie Schurmann e Antoinette Bourignon. Entra em discussão com de Wolzogue, professor e ministro da igreja valona de Utrecht, autor de Philosophia sacrée scripturse interpres, exercitaiio paradoxe; Labadie o acusa de racionalismo. Constrangido pelo sínodo de Naarden a retratar-se, Labadie recusa-se; é deposto de seu cargo de Middelbourg e exilado. Anne-Marie Schurmann obteve para ele e seus discípulos um refúgio junto à condessa palatina Elisabeth, abadessa de Herford, que acolheu toda a comunidade. A desconfiança e a oposição das comunidades evangélicas da Alemanha o forçaram a partir. Labadie refugiou-se em Altona, onde morreu dois anos depois, em 1674.
«É um grande problema, diz Moréri, saber se Labadie era um velhaco ou um hipócrita de boa-fé, que se entregava a visões e a idéias de perfeição acima da natureza humana. Era realmente eloqüente, e sua eloqüência foi em parte causa de seus sucessos. Mas era sectário, e à ambição do sectário juntava o gosto dos prazeres; e a maneira como buscava esses prazeres nem sempre estava de acordo com seus princípios. Esses princípios desembocavam numa religião sem nenhuma regra de fé exterior, sendo a própria Escritura declarada inútil, sem sacramento e sem prática religiosa.
Eis algumas das idéias mestras de seu ensino: 1. Deus pode enganar os homens e efetivamente os engana às vezes. Apresenta como prova o caso de Acab, em que se diz que Deus lhe enviou seu espírito de mentira para seduzi-lo. 2. A Sagrada Escritura não é necessária para conduzir os homens no caminho da salvação. A ação do Espírito Santo é suficiente: este age diretamente sobre as almas, revela-lhes o que é necessário para que possam fazer sua salvação. 3. O batismo não tem eficácia própria. Deve ser conferido numa certa idade, porque esse sacramento marca que se está morto para este mundo e ressuscitado em Deus. 4. A nova aliança nos coloca num estado de liberdade perfeita. Não temos mais necessidade de lei e de cerimônias: é um jugo do qual Jesus Cristo nos libertou. 5. É indiferente observar o domingo; Jesus Cristo não fez nenhuma observação a esse respeito. 6. Há duas Igrejas: uma composta dos degenerados, a outra dos regenerados. 7. Não há presença real de Jesus na Eucaristia: a Ceia é uma simples comemoração. 8. A vida contemplativa é o cúmulo da perfeição: o homem cujo coração está calmo entretém-se familiarmente com Deus e vê nele todas as coisas. Para chegar a isso, é preciso praticar a renúncia, a mortificação dos sentidos, a oração mental. 9. Jesus Cristo estabelecerá seu reino sobre a terra durante mil anos e converterá todos os homens sem exceção.
Antes de abraçar o protestantismo, Labadie publicou uma Introduction à la piété dans les mystères, paroles et cérémonies de la messe, Amiens, 1640, e Odes sacrées sur le très adorable et auguste mystère du saint Sacrement de l'autel, Amiens, 1642. De 1650 até o fim de sua vida, publicou grande número de obras. Nicéron, em suas Mémoires, t. xviii, p. 407-411, assinala trinta e uma. Três foram impressas em Montauban: Déclaration des sentiments de Jean Labadie, ci-devant prêtre, prédicateur et chanoine d'Amiens, 1651; Lettre de Labadie à ses amis de la communion romaine, en suite de sa Déclaration, 1651. É uma apologia da religião reformada e uma justificação de sua mudança de religião. La pratique des deux oraisons mentale et vocale, contenue en trois lettres, 1656. Nela expõe os sentimentos de espiritualidade que queria introduzir entre os protestantes.
Entre as outras obras, cumpre citar uma nova apologia pessoal: Déclaration de Jean de Labadie, contenant les raisons qui l'ont obligé de quitter la communion de l'Église romaine, pour se ranger à celle de l'Église réformée, Genebra, 1666. Obras de espiritualidade: Le héraut du grand roi Jésus, Amsterdam, 1667; Le véritable exorcisme, ou l'unique moyen effectif de chasser le diable du monde chrétien, Amsterdam, 1667; Manuel de piété, Middelbourg, 1668; Points fondamentaux de la vie vraiment chrétienne, Amsterdam, 1670; Les saintes décades des quatrains de piété chrétienne, Amsterdam, 1670; Abrégé du véritable christianisme théorique et pratique, Amsterdam, 1670; L'empire du Saint-Esprit sur les âmes, Amsterdam, 1671; Traité de soi, ou le renoncement à soi-même, Herford, 1672. Sobre a Igreja: L'idée d'une bonne Église, Amsterdam, 1667; Le discernement d'une véritable Église, Amsterdam, 1668; La puissance ecclésiastique bornée à l'Écriture et par elle, Amsterdam, 1668; Traité ecclésiastique selon les sentiments de Jean Labadie, Amsterdam, 1668.
Moréri, Grand dictionnaire historique, 1725, t. iv b, p. 1-2; Nicéron, Mémoires, 1732, t. xviii, p. 386-411; t. xx, p. 140-169; Michaud, Biographie universelle, 2ª edição, t. xx, p. 246-248; Hœfer, Nouvelle biographie générale, 1858, t. xxviii, col. 315-319; Prot. Realencykl 3ª edição, t. xi, p. 191-196; Kirchenlexikon, t. vii, col. 1273-1275; Maucduit, Avis charitable à Messieurs de Genève, touchant la vie du sieur Jean Labadie, ci-devant jésuite dans la province de Guyenne, et après chanoine à Amiens, puis janséniste à Paris, de plus illuminé et adamite à Toulouse et ensuite carme et ermite à La Graville, au diocèse de Bazas, et à présent ministre au dit Genève, Lyon, 1664; Dom Antoine Sabre, Lettre écrite au sieur Labadie, sur le sujet de sa profession de la religion prétendue réformée, Bazas e Paris, 1651; Lettre d'un docteur en théologie (Arnauld) à une personne de condition et de piété, sur le sujet de l'apostasie du sieur Labadie, datada de 1º de março de 1651; Défense de la piété et de la foi de la sainte Église catholique, apostolique et romaine, contre les mensonges, blasphèmes et impiétés de Jean Labadie, apostat, par le sieur de Saint-Julien, Paris, 1651; Motifs qui ont obligé Antoine de La Marque de sortir de la maison du sieur Jean Labadie, et où est découverte sa vie privée et sa manière d'enseigner, Amsterdam, 1670; Galbanum jésuitique, ou quintessence de la sublime théologie de l'archi-coacre Jean de Labadie; suivi des justes Éloges du sieur Jean de Labadie (em holandês), Cologne, 1668; M. Gœbel, Geschichte des christlichen Lebens in der rhein-westphälischen evang. Kirche, Coblença, 1852; H. van Berkum, De Labadie en de Labadisten, Sneek, 1851; H. Heppe, Geschichte des Pietismus der reformierten Kirche, namentlich der Niederländer, Leyde, 1879; A. Ritschl, Geschichte des Pietismus, Bonn, 1880; M. Bajorath, Jean de Labadies Separationsgemeinde und Zinzendorfs Brüder-Unität, em Theologische Studien und Kritiken, 1893, p. 125-166.
L. Marchal.
Autor original: L. MARCHAL
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