LA LUZERNE (César-Guilherme, cardeal de), nasceu em Paris, a 17 de julho de 1738, de uma das primeiras famílias da Normandia. Dotado das mais belas qualidades de espírito e de coração, fez brilhantes estudos teológicos no seminário de Saint-Magloire, depois na casa de Navarra. Sua carreira eclesiástica anunciava-se como devendo ser das mais frutuosas, quando foi interrompida pela Revolução. Em 1762, fora nomeado vigário-geral de Narbonne e, em 1765, agente-geral do clero. Luís XV deu-lhe, em 1770, a sucessão do Sr. de Montmorin na sé de Langres. Foi chamado a pronunciar a Oraison funèbre de Charles-Emmanuel III, roi de Sardaigne, Paris, 1773, e, no ano seguinte, a Oraison funèbre de Louis XV, Paris, 1774. Ávido de desenvolver a vida religiosa em sua diocese, publicou uma Instruction sur le rituel de Langres, Besançon, 1786, e uma Instruction pastorale sur l'excellence de la religion, Langres, 1786; 7ª ed., Paris, 1824.
Em 1788, seu clero o escolheu para representá-lo nos Estados Gerais; tomou parte ativa nos debates dos Estados Gerais e da Constituinte, que presidiu no fim de agosto de 1789. Para contrabalançar a influência do terceiro estado, que obtivera uma dupla representação e o voto por cabeça, tentou fazer aceitar a formação de duas Câmaras, uma composta do clero e da nobreza, a outra do terceiro estado; seu projeto foi apoiado por Lally-Tollendal e Mounier, mas, em suma, encontrou pouca simpatia. Não foi mais feliz na defesa do projeto de empréstimo sobre os bens do clero, para prevenir a bancarrota do Estado sem chegar ao confisco desses bens. Foi igualmente sem sucesso que combateu a Declaração dos Direitos, proposta por Lafayette: via nela um meio de perturbação e de revolta, e o princípio dela era rejeitado pela religião. Mirabeau o refutou em suas Trois lettres à ses commettants. Durante esses debates, La Luzerne se mostrara mais moderado, mais inclinado às reformas políticas do que a maioria de seus colegas do episcopado. Mas, vendo que toda intervenção seria inútil, deixou a Assembleia após as jornadas de 5 e 6 de outubro de 1789 e retirou-se para sua diocese, primeiro em Clairvaux, depois em Langres. Continuou, no entanto, a acompanhar de muito perto os acontecimentos e a dirigir seu clero com grandíssima sabedoria.
Depois da votação da Constituição civil do clero, aderindo à Exposition des principes redigida pelo Sr. de Boisgelin, publicou um Examen de l'instruction de l'Assemblée nationale, sur l'organisation prétendue civile du clergé, Langres, 1791; uma Instruction aux curés et autres prêtres de son diocèse qui n'ont pas prêté le serment, Langres, 1791, instrução que foi adotada por trinta e três bispos; uma Instruction pastorale sur le schisme de France, Langres, 1791. Nessas obras, rejeita o juramento imposto pela lei de 26 de dezembro de 1790, que procurava fazer o clero sancionar a subversão da hierarquia eclesiástica. Será menos estrito em relação aos outros juramentos, impostos ao clero não juramentado, de 1792 a 1799: não vê razão válida para recusar prestar o juramento de liberdade-igualdade (15-18 de agosto de 1792), o juramento de submissão às leis da República (10 de setembro de 1795), de ódio à Realeza e de fidelidade à República (5 de setembro de 1797): são aí questões de política, nas quais os princípios relativos à constituição divina da Igreja não estão em jogo. As instruções relativas à atitude a tomar diante desses diferentes juramentos foram enviadas do exílio.
O bispo de Langres, diante das discussões dos partidos, tivera de deixar sua diocese, para refugiar-se na Suíça, depois na Áustria e na Itália. No estrangeiro, não esqueceu sua diocese, dirigindo-a tanto quanto podia, mostrando-se muito caridoso para com os sacerdotes emigrados e para com os prisioneiros franceses, doentes de tifo, em Veneza. O fim do período revolucionário não o trouxe de volta à França: não que fizesse oposição à concordata, como os bispos refugiados na Inglaterra; deu ao sumo pontífice a demissão pedida, mas sua fidelidade ao Antigo Regime o reteve na Itália até 1814. Luís XVIII devolveu-lhe o título de duque e par, obteve-lhe a dignidade cardinalícia em 1817, escolheu-o como ministro, fazendo-o assim tomar parte nas negociações da concordata de 1817, e devolveu-lhe sua sé de Langres. Morreu em Paris, a 27 de junho de 1821.
Suas obras são muito numerosas: são sólidas, brilhantes; La Luzerne é um dos melhores apologistas da Igreja no início do século XIX. Uma edição incompleta de suas obras foi publicada em Lyon e Paris, em 1847, em 10 vol. in-8°. Deixando de lado as obras puramente políticas, assinalaremos apenas as que têm interesse religioso: Sermon sur les causes de l'incrédulité, prêché à Constance le jour de Pâques 1795, Constance, 1795, Paris, 1818; Considérations sur divers points de la morale chrétienne, 5 vol. Venise, 1799; Paris, 4 vol., 1829; Dissertations sur la vérité de la religion, sur les prophéties, sur l'existence et les attributs de Dieu, sur la spiritualité de l'âme et sur la liberté de l'homme, sur la loi naturelle et sur la révélation en général, 6 vol., Langres, 1802-1810; Explication des évangiles, 5 vol., Lyon, 1807; Considérations sur l'état ecclésiastique, 1810; Dissertations morales lues à Venise, à l'académie des Filaretti et dans l'athénée de cette ville, Paris, 1816; Dissertation sur les Églises catholique et protestante, Paris, 1816; Sur la déclaration de l'assemblée du clergé en France en 1682, Paris, 1821. Obras póstumas: Dissertation sur le prêt de commerce, Dijon, 1823, contra a qual Bonyon escreveu uma Réfutation..., Clermont, 1824, e um Examen..., Clermont, 1826. Dissertation sur les droits et devoirs respectifs des évêques et des curés dans l'Église, editada por Migne, 1844.
Cortois de Pressigny, archevêque de Besançon, Éloge de M. le cardinal de La Luzerne, prononcé à la Chambre des Pairs, Moniteur du 26 juillet 1821; Notice sur M. de La Luzerne, em Ami de la religion et du roi, t. xxviii, p. 225-233; Mahul, Annuaire nécrologique, 1821, p. 239; Michaud, Biographie universelle, 2e édit., t. xxii, p. 661-662; Hœfer, Nouvelle biographie générale, 1859, t. xxix, col. 38-42; Hurter, Nomenclator, 3e éd., t. v, p. 850-851; J. Charonnet, Mgr de La Luzerne et les serments pendant la Révolution, Paris, 1918.
L. Marchal.
Autor original: L. MARCHAL
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