KIRCHER João, teólogo e pastor luterano, convertido ao catolicismo, morto pouco depois de 1640. As informações históricas não abundam sobre esse personagem. Originário de Tubinga, deve ter estudado teologia na universidade dessa cidade e exercido o ministério pastoral em Württemberg; em 1638 passa ao catolicismo e se retira para a Hungria, onde o arcebispo de Gran lhe confiou algum emprego, quer no ensino, quer no ministério. Tendo sua conversão sido atribuída por certos protestantes a motivos pouco confessáveis, dos quais se encontra um eco em L. M. Fischlin, Supplementa ad memoriam theologorum Wirtembergensium, p. 176, Kircher decidiu-se a publicar um opúsculo latino em que expunha as razões de fundo que justificavam sua passagem ao catolicismo: M. Joannis Kircheri ætiologia, in qua migrationis suae ex lutherana synagoga in Ecclesiam catholicam vertit et solidas rationes succincte exponit et perspicue, doctisque omnibus et judicandi dexteritate pollentibus, pie, accurate et modeste considerandas proponit auctor. Viena, 1640.
O raciocínio de Kircher é simples: em teoria, a Igreja deve ser ao mesmo tempo uma sociedade de direção à qual se possa ligar para aspirar à vida eterna; numa sociedade desse gênero é preciso que se encontrem a certeza e a ordem. Ora, procurar-se-ia em vão uma e outra na Igreja luterana, ao passo que se encontram ambas na Igreja católica. O luteranismo gostaria de dar a certeza pela Escritura, da qual dá leitura a seus fiéis; mas da Bíblia não pode garantir nem o texto, nem a tradução, nem o cânon, nem a exegese; ao contrário, a Igreja católica, por sua simples duração, por sua infalibilidade, por sua identidade com a Igreja apostólica, basta para dar àqueles que vêm a ela plena certeza; que se acrescente a essa consideração a da anarquia que reina no mundo luterano, em contraste com a ordem que se manifesta no catolicismo, e ter-se-á neste último a mais inteira confiança. Tudo isso está condensado em dez capítulos, nervosos, substanciosos, sem floreios, verdadeiro modelo de séria apologética.
O escrito causou grande impressão no mundo luterano. Vários teólogos tentaram refutá-lo. Calovius de Königsberg opôs a Kircher um Examen antikircherum, Schragmuller um Antikircherus, mas sobretudo o célebre J. D. Dorsch, professor em Estrasburgo, julgou dever atacar o convertido num volume compacto: M. J. Kircherus devictus, sive hodegeticus catholicus, quo ostenditur M. J. Kircherum Tubinga Wurtembergicum migrationis suae ex synagoga, quam vocat, lutherana in Ecclesiam catholicam institutione ivisse, non quo eundum est, Estrasburgo, 1641. A própria truculência dos ataques mostra que Kircher tinha acertado. Este último, aliás, não deve ter tido conhecimento do livro estrasburguês; a este uma resposta será feita, alguns anos mais tarde, por Wagnereck, professor em Dilingen: Anti-Dorscheus, sive conversionis ad fidem catholicam causæ M. Joannis Kircheri Tubinga-Wirtembergici defensæ, Dilingen, 1653. A magra plaquete de Kircher, depois de ter dado origem às 871 páginas in-12 de Dorsch, fazia finalmente brotar as 484 páginas in-4º de Wagnereck. Todo esse conjunto não deixa de ter interesse para o estudo da controvérsia entre católicos e luteranos em meados do século XVII.
Encontrar-se-á uma tradução alemã da obra de Kircher em Mons. A. Raess, Die Convertiten seit der Reformation nach ihrem Leben und aus ihren Schriften dargestellt, t. v, Friburgo-em-B., 1867, p. 546-590. Ver também Bayle, Dictionnaire critique; Moréri, Le grand dictionnaire; Allgemeine deutsche Biographie, t. xvi, p. 6-7.
E. Amann.
Autor original: E. Amann
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