KILWARDBY Roberto, dominicano inglês, arcebispo de Cantuária. Nascido no condado de Leicester durante os primeiros anos do século XIII, já tinha cumprido uma bela carreira universitária como mestre em artes em Paris quando entrou na ordem dos frades pregadores, verossimilmente entre 1240 e 1245. A notícia de N. Trevet descreve perfeitamente a nova orientação que tomou então a vida intelectual de Kilwardby: Ante ordinis ingressum : Parisiis rexerat in artibus; cujus in his peritiam, prœcipue quoad grammaticam et logicam, redacta in scriptis edocent monumenta. Post ordinis vero ingressum studiosus in divinis scripturis originalibusque sanctorum Patrum, libros Augustini fere omnes aliorumque doctorum plurium, per parva distinxit capitula, sententiam singulorum sub brevibus annotando... Annales, ed. Hog, p. 278.
Em 1218, Kilwardby ocupou a cátedra de teologia dos pregadores de Oxford, e foi durante treze anos um dos mestres mais brilhantes da Universidade, então em plena atividade sob a influência dos mendicantes. Em 1261, foi eleito provincial da Inglaterra; permaneceu nesse encargo até 1272, proporcionando à ordem, por sua atividade e sua santidade, uma extensão e um prestígio consideráveis. Desde 1270, a sé de Cantuária estava vacante; contra as intrigas em curso e o candidato do rei, Gregório X nomeou Kilwardby, por sua própria autoridade, em 11 de outubro de 1272; em 26 de fevereiro de 1273, o novo primaz foi consagrado e, em 6 de março, recebia o pálio. Ao contrário de certos prelados, Kilwardby teve pouca parte nos negócios políticos; estava aliás bem visto na corte de Eduardo I, a quem coroou com a rainha Leonor em 1274. Dedicou-se inteiramente à visitação de sua diocese e de sua província; os Annales monastici estão repletos de menções de suas visitas. Em 1274, está presente no concílio de Lião, onde defende o poder pontifício. Grande protetor de sua ordem, continua a favorecer-lhe a expansão, em particular em Londres, onde construiu um novo convento. Generoso para com os pobres, pacificador dos espíritos e mediador nas querelas, tinha grande reputação de santidade. Entre os sínodos que reuniu, os de 1273 e 1277 marcaram desenvolvimentos importantes na representação do baixo clero.
Em 18 de março de 1277, por ocasião de sua visita à universidade de Oxford, pronunciou a famosa condenação de trinta proposições, entre as quais várias refletiam o ensino aristotélico de seu confrade Tomás de Aquino; foi o começo de um conflito que devia durar longos anos. Em 12 de março de 1278, Nicolau III o nomeava cardeal-bispo de Porto e Santa Rufina, o que implicava a renúncia à sé de Cantuária e a residência em Roma. Mais ainda que o desejo de honrar o primaz, houve sem dúvida algum descontentamento com sua obra; parece bem, em todo caso, que a ordem dominicana, já oficialmente ligada às doutrinas de Tomás de Aquino, viu nisso um bom meio de afastar um poderoso adversário. Em 25 de julho, Kilwardby partiu para a Itália; já muito idoso, adoeceu ao chegar à corte pontifícia, em Viterbo, e ali morreu em 11 de setembro de 1279.
Kilwardby desempenha, no desenvolvimento do pensamento filosófico e teológico do século XIII, um dos papéis mais representativos: a condenação de 18 de março de 1277, fazendo eco à de 7 de março, pronunciada em Paris por Estêvão Tempier, colocava o arcebispo dominicano à frente da oposição conduzida pelo agostinismo tradicional contra o movimento aristotélico-tomista. É que, por sua formação e sua atividade científicas, Kilwardby se ligava às antigas orientações agostinianas; sua grande reputação e sua posição faziam dele um temível adversário das novidades tomistas. O documento mais significativo nesse caso é a famosa carta que dirigiu a seu confrade Pedro de Conflans, arcebispo de Corinto, personagem influente, residente na corte romana, para legitimar sua intervenção rigorosa contra as doutrinas de Frei Tomás; vemos nela claramente suas tendências e suas ideias pessoais.
(Essa carta a Pedro de Conflans é sem dúvida a primeira reação explícita de Kilwardby diante do tomismo triunfante; pois, a julgar por suas obras anteriores, não parece que ele se tenha dado conta da inevitável luta que se preparava entre a corrente agostiniana e a nova corrente aristotélica. Certamente, se frequentava com devoção santo Agostinho, tinha também adquirido um conhecimento muito extenso das obras de Aristóteles: os primeiros mestres dominicanos de Oxford, e em particular seu predecessor imediato Ricardo Fishacre, lhe tinham transmitido sua admiração pelo filósofo. Mas, se se julga por várias questões importantes de seu comentário ao Lombardo, Kilwardby julgou poder conciliar as doutrinas em conflito, sobrepondo, por exemplo, o iluminismo agostiniano ao experimentalismo aristotélico; mesmo onde aceita da maneira mais ampla o vocabulário e os quadros da metafísica de Aristóteles, não parece ter percebido profundamente o sentido e o alcance deles. Não se podia, contudo, ao que parece, levar mais longe do que ele, com os recursos de uma grande erudição e de uma larga inteligência, o esforço para unir Aristóteles e Agostinho: é que o empreendimento estava votado, ao menos então, ao fracasso. Um estudo aprofundado das obras de Kilwardby permitirá um dia precisar sua posição e sua doutrina, filosóficas ou teológicas; elas são, com efeito, todas inéditas, salvo sua carta a Pedro de Conflans.
Sem nos determos aqui em suas numerosas obras filosóficas, comentários dos livros tanto físicos quanto lógicos de Aristóteles, cuja lista se encontrará em Echard, Scriptores, t. i, p. 376-377, citaremos suas obras importantes do ponto de vista teológico: 1º Seu volumoso comentário dos: Oxford, Merton College, 131; Worcester, Chapter Library, F 43; Toulouse, bibl. mun., 61 (o livro II). 2º Uma coleção de Quaestiones em Bordeaux, Bibl. munic., 131. 3º Das Quœstiones de conscientia, em Oxford, Bodl. 333; Londres, Harl., 106. 4º Um tratado De relatione, em Oxford, Merton College, 131, e Balliol, 3. 5º Uma Epistola ad novitios de excellentia ordinis prœdicatorum, conservada pelo escrito que João Peckham, O. M., consagrou à sua refutação; o tratado de Peckham foi editado por F. Tocco, quistione della povertà nel XIV, Nápoles, 1910, p. 219-275.
6º Um tratado De anima facultatibus, inspirado em santo Agostinho, em Oxford, Balliol, 3. 7º Importa assinalar o tratado De ortu scientiarum, que constitui uma muito interessante introdução à filosofia. Ver a esse respeito L. Baur, Dominicus Gundissalinus, De divisione philosophiæ, Munster, 1903, p. 368-376. Deve-se sem dúvida vincular a esse trabalho dois opúsculos De divisione philosophiæ, Oxford, Merton, 261, e De divisione scientiarum, Oxford, Bodl., Digby, 220. 8º Enfim, Kilwardby produziu uma série de tabulae sobre a Bíblia, sobre santo Agostinho, sobre certas obras dos Padres, sobre as Sentenças, das quais resta, como testemunho de seu sucesso, grande número de manuscritos.
I. FONTES. O texto das proposições condenadas em Oxford em 1277 é editado em Denifle, Chartularium Universitatis Parisiensis, t. i, p. 558-559. A carta a Pedro de Conflans foi publicada por F. Ehrle, Beiträge zur Geschichte der mittelalterlichen Scholastik II. Der Augustinismus und der Aristotelismus in der Scholastik gegen Ende des XIII Jahrhunderts, em Archiv für Literatur und Kirchengeschichte des Mittelalters, 1889, t. v, p. 614-632; um complemento importante e correções desse texto foram dados por A. Birkenmajer, Vermischte Untersuchungen, zur Geschichte der mittelalterlichen Philosophie, Munster, 1922, p. 36-69: Der Brief R. Kilwardbys an Peter von Conflans und die Streitschrift des Ægidius von Lessines. Para a biografia: Nicolas Trevet, Annales, ed. Hog, Londres, 1845, p. 278-279; Annales monastici, 4 vol., ed. Luard, Londres, 1864-1869, passim; H. de Cotton, Historia anglicana, ed. Luard, Londres, 1859, p. 371; Registrum epistolarum Fr. J. Peckham, ed. Ch. T. Martin, Londres, 1882-1885, passim.
II. Trabalhos. Além dos antigos bibliógrafos ingleses, Leland, Commentarii de scriptoribus britannicis, p. 286-286, e Tanner, Bibliotheca britannico-hibernica, p. 455-457, encontra-se uma notícia fundamental em Quétif-Échard, Scriptores ordinis praedicatorum, 1719, t. i, p. 374-380; depois, recentemente, R. Palmer, The Provincials of the friar-preachers or Black-Friars of England (extrato do Reliquary quarterly journal), s. l. ii. d., p. 4-6, e um bom artigo de T. F. T(out), em Dictionary of national biography, nova ed., t. xi, 1909. Sobre o papel doutrinal de Kilwardby, ver antes de tudo P. Mandonnet, Siger de Brabant, 2ª ed., Lovaina, 1911, passim; depois H. M. Martin, Quelques premiers maîtres dominicains de Paris et d'Oxford et la soi-disant école dominicaine augustinienne, em Revue des sciences philosophiques et théologiques, 1920, t. ix, p. 556-580; B. Hauréau, Histoire de la philosophie scolastique, t. ii b, p. 28-33; L. Thorndike, History of magic and experimental science, Nova York, 1923, t. II, c. xxxviii.
M. D. Chenu.
Autor original: M. D. Chenu
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