JUÍZES (LIVRO DOS)

JUÍZES (LIVRO DOS)

JUÍZES (LIVRO DOS). Sob esta rubrica não estudaremos apenas o livro do Antigo Testamento que leva esse nome, mas ainda a porção da história de Israel compreendida entre a instalação em Canaã e o estabelecimento da realeza. Esse « período dos Juízes » é de grandíssima importância para a vida religiosa de Israel. Encontrar-se-á, pois, aqui uma das fatias da História da religião judaica. I. Fontes da história dos Juízes. II. O meio (col. 1835). III. História dos Juízes (col. 1838). IV. A religião na época dos Juízes (col. 1851).

I. As fontes da História dos Juízes. 1° Alguns documentos profanos, inscrições e baixos-relevos de Ramsés III, inscrição de Teglat-Falasar I, relato da viagem de Wenamon, egípcio, pelas costas da Síria, são utilizáveis para o conhecimento do meio israelita do período dos Juízes, mas não mencionam de forma alguma Israel. Este só é mencionado na estela de Minefta, o faraó do êxodo segundo uma das duas hipóteses relativas a esse acontecimento. Estamos, pois, reduzidos aos documentos sagrados; estes estão contidos no livro dos Juízes e em I Sam., i-viii. Às informações fornecidas sobre esses escritos pelo Dictionnaire de la Bible, t. iii, col. 1846-1859 e t. v, col. 1129-1145, bastará acrescentar algumas observações.

2° Pode-se considerar como adquirido que Jud. e I Sam., i-viii, foram compostos com o auxílio de documentos antigos, mais ou menos integralmente reproduzidos pelo redator inspirado. Esse caráter de compilação literária era imposto pelo assunto: os fatos relatados espaçam-se, pelo menos para o período dos Juízes, por um século e talvez por três; o redator de nossos livros não pôde ser testemunha de todos e, como as diferenças de estilo não permitem pensar que, sozinho, tenha sempre redigido seu relato segundo recordações orais, ele deve ter utilizado relatos compostos antes dele e mais próximos dos acontecimentos do que ele próprio poderia estar. Mas, por mais certo que pareça esse fato, tanto mais só se chega a simples probabilidades quando se trata de determinar as etapas do trabalho redacional, de um lado, e, de outro, o caráter e a origem dos documentos antigos utilizados. Sobre esses dois pontos, os trabalhos críticos não passaram da etapa das tentativas e das aproximações. Essa incerteza decorre em grande parte de que não se possui, para esse período, ressalvado o cântico de Débora, que é contemporâneo da batalha que canta, nenhum documento datado.

3° No que concerne ao trabalho redacional que utilizou esses documentos anteriores, algumas constatações parecem mostrar que ele não foi executado de uma só vez, mas em duas ocasiões diferentes. Em primeiro lugar, com efeito, as fórmulas cronológicas devidas à redação (ver o quadro em L. Desnoyers, La période des Juges, Paris, 1922, p. 382) não são as mesmas de uma ponta à outra do relato, mas se repartem em dois grupos: em Jud., iii, 8-viii, 28, as datas se encontram empregadas de preferência com as expressões « Benê-Israel », « a terra esteve em repouso », e o termo « Juiz » não é usado nem para Aod, nem para Débora, nem para Gedeão. A partir de Jud., x, 2, até I Sam., viii, 1, o termo « Juiz » volta com uma regularidade perfeita — e sempre com Israel por complemento. Em segundo lugar, notam-se traços de acréscimos que parecem testemunhar que o livro dos Juízes não atingiu de um só golpe a sua forma definitiva: os dois apêndices, Jud., xvii-xxi, não estão ligados ao corpo do livro; terminando Jud., xv com a fórmula ordinária das conclusões, o c. xvi, que se refere também a Sansão e termina com uma nova fórmula de conclusão, parece um acréscimo; ix, que narra a história de Abimelec, vem igualmente depois da conclusão da história de Gedeão; x, 6-xii, 6, que narra a história de Jefté, foi intercalado na lista dos Juízes Menores, da qual Jefté fazia primitivamente parte. Em terceiro lugar, enfim, ainda que essa constatação seja mais delicada e mais incerta, poder-se-ia sem dúvida encontrar na introdução geral ao Livro dos Juízes, ii, 14-19, um retoque redacional devido ao autor do discurso de Samuel em I Sam., xii e da introdução particular a Jefté e Sansão em Jud., x, 1-16.

Dessas constatações, umas totalmente materiais, outras mais hipotéticas, poder-se-ia tirar a conclusão de que o nosso Livro dos Juízes, ao qual talvez estivessem primitivamente ligados fragmentos conservados em I Sam., i-viii, só atingiu aproximadamente a sua forma atual em duas etapas. Teria havido primeiro um Livro israelita dos Libertadores do norte, que um redator judeu teria retomado e completado com o auxílio de documentos do sul. Esse redator poderia ter escrito já no fim do século IX, visto que os documentos por ele utilizados parecem ser anteriores a essa data. Mas, se a sua obra constitui realmente uma fusão de um escrito israelita com documentos judeus, talvez fosse melhor pensar que ele escreveu sob o reinado de Ezequias, pois essa época foi marcada por certa atividade literária (cf. Provérbios, xxv, 1; relatos em prosa de Isaías, xxxvi-xxxix), atividade que favoreciam sem dúvida a vinda dos sacerdotes e profetas do Norte escapados à morte e à deportação, e seguramente a aplicação dos judeus em recolher, com o nome de Israel, as tradições, recordações e escritos dos israelitas em grande parte desorientados e dispersos. O Livro dos Juízes composto por esse redator teria sido idêntico, com pouca diferença, ao Livro que possuímos.

4° No que concerne aos documentos antigos que a redação utilizou, a maioria dos críticos modernos se aplicou a relevar o que estimavam ser traços de duplo relato, depois, tendo seus resultados lhes parecido suficientemente sólidos, a estabelecer a existência de uma dupla série de relatos relativos aos mesmos fatos e às mesmas personagens, enfim, a vincular essas duas histórias paralelas aos documentos J e E do Pentateuco. A bem dizer, a dualidade de documentos só parece evidente para a história de Gedeão-Yeroubbaal e provável apenas para o segundo apêndice, Jud., xx, xxi. Nos outros casos, parece que se analisaram os textos com a preocupação antecedente de explicar sempre por um duplo relato os choques da redação atual.

Por outro lado, ao vincular os relatos antigos às histórias hipotéticas J e E, os partidários dessa conjectura detiveram-se a meio caminho de suas pesquisas críticas. J e E, com efeito, mesmo que tivessem sido definitivamente constituídos no século IX ou VIII antes de Jesus Cristo, não teriam sido, de fato, senão compilações; assim, para ser completo, o trabalho crítico deveria buscar, na medida do possível, as épocas e os meios em que teriam sido redigidos os documentos recolhidos mais tarde nas compilações J e E. Não é este o lugar de instituir tal inquérito. Digamos apenas que se poderiam repartir esses relatos entre os meios levíticos, proféticos e laicos, e que há toda razão para pensar que a maior parte dos relatos antigos teria sido redigida bastante cedo, o mais tardar sem dúvida no primeiro meio século que se seguiu ao cisma das dez tribos (por volta de 933); a datar de Acab, rei de Israel, e de Josafá, rei de Judá, a literatura histórica acusa um matiz profético sensível; ora, esse matiz, a bem dizer, está ausente dos relatos dos Juízes; ele só aparece praticamente em I Sam., i-iii. A composição de alguns dos relatos sob Salomão e Davi, ou mesmo no curso do período dos Juízes, permanece provável.

5° O valor histórico dos relatos não deriva apenas de sua antiguidade; decorre também do fato de que vários deles reproduzem simplesmente recordações locais que se prendiam a um túmulo, a um altar, a uma festa religiosa ou a uma denominação topográfica. Quanto à cronologia do período dos Juízes, não poderia ser fixada enquanto não se conhecer com certeza a data do êxodo. A instituição dos Juízes cessa com o aparecimento de uma realeza duradoura em Israel, por volta de 1040 antes de Jesus Cristo. Se se coloca o êxodo sob o faraó Minefta, por volta de 1225, o período dos Juízes não teria durado muito mais de um século; se se coloca o êxodo na época da correspondência de El-Amarna, teria durado cerca de três séculos. Sobre essa questão ainda pendente, digamos apenas que os dados cronológicos do Livro dos Juízes apoiam a hipótese da duração mais longa.

II. O meio. 1° O meio étnico. Os hebreus do período dos Juízes viam-se misturados a uma população indígena, que os massacres da conquista haviam dizimado, mas não exterminado. A leste do Jordão, as suas possessões formavam enclaves nos territórios dos moabitas e dos Benê-Ammon, ou então ocupavam territórios amorreus e gesuritas. A oeste do Jordão, os indígenas repartiam-se em numerosos clãs: amorreus, cananeus, hititas, ferezeus, heveus, gergeseus, cedemitas, rafaim, jebuseus. Desses indígenas, uns, reduzidos ao estado de servos ou escravos, viviam na casa de seu senhor israelita, para o qual trabalhavam; outros, considerados como gêr, estrangeiros domiciliados, residiam ao seu lado e se beneficiavam de sua proteção; outros, enfim, possuíam bairros nas aglomerações povoadas de hebreus, campos no meio das terras israelitas e até, em mais de um lugar, cidades e aldeias, quer autônomas, quer tributárias, onde continuavam a viver como seus pais ali viviam antes da conquista. Essas diversas possessões permaneceram em grande parte em suas mãos durante todo o período dos Juízes e mesmo até o tempo de Davi e de Salomão.

Todavia, graças às duas grandes vitórias alcançadas por Josué, os cananeus haviam perdido quase toda a coesão. Jamais haviam formado uma nação única; agora esfacelados e muito desigualmente distribuídos pelo território de que os conquistadores se haviam apoderado, estavam menos que nunca em condições de se reunir todos para repelir ou esmagar seus adversários. Mas ainda eram ricos, poderosos, bem armados nas cidades, e por toda parte se mostravam dispostos a defender o que lhes restava de bens e de liberdade. A densidade e o poder dessa população cananeia variavam muito conforme as diversas regiões. Duas delas ainda estavam solidamente ocupadas pelos antigos habitantes: a planície de Jezrael ou de Esdrelon e as alturas vizinhas ao norte e ao sul, depois a região montanhosa, de Gazer a Jerusalém. As praças-fortes não submetidas formavam nesses dois pontos uma dupla barreira que cortava em três as possessões hebraicas e que retardará notavelmente a união das tribos em um corpo de nação. Ao sul de Judá, as tribos de Caleb, Cenez, Caim e Jerameel, que parecem ter sido de origem edomita, ocupavam boa parte dos Négebs, inclusive a cidade de Hebron. Mas estavam unidas a Judá e se fundirão definitivamente com ele no tempo de Davi. No curso do século XII antes de Jesus Cristo, enfim, os filisteus estabeleceram-se na planície costeira, do Carmelo ao sul de Gaza, com seus congêneres os Zakkalas, os cretenses e os Plêthis. Não tardaram a penetrar na região montanhosa e, nas cidades das fronteiras, misturaram-se à população hebraica.

Os hebreus não viveram à parte desses pagãos. Casamentos os uniram a eles, apesar da proibição da Lei, e travaram com eles relações amistosas para se iniciarem na civilização do país. Os conflitos e as guerras que os separaram e por vezes os opuseram uns aos outros puderam retardar essa fusão, mas não a detiveram. Essa longa sobrevivência dos cananeus e a data tardia de sua sujeição definitiva mostram até que ponto a Terra prometida, finalmente passada às mãos dos hebreus, continuava a ser, apesar das hecatombes da conquista, uma terra profundamente cananeia. Os dois povos viveram vários séculos lado a lado, partilhando as mesmas ocupações, vergando sob os mesmos flagelos, inebriando-se com as mesmas esperanças materiais e não repugnando misturar o seu sangue. As consequências dessa fusão íntima e prolongada foram talvez vantajosas para o desenvolvimento material de Israel; foram desastrosas para a sua religião.

Segundo a imagem da Escritura, Is., v, 1,2; Jerem., ii, 21; Ps., lxxix, 9-17, essa bela vinha de Israel, de longos ramos folhudos, de cepa generosa, de raízes ávidas sorvendo seu suco em todos os sentidos, essa vinha luxuriante que Javé acabava de plantar com amor em seu próprio domínio, não podia tirar dessa terra imperfeitamente preparada por aqueles que haviam recebido a missão de fazê-lo senão uma seiva carregada de muitas impurezas. Não é de surpreender que devamos vê-la por vezes definhar, « dar uvas verdes em vez de uvas », murchar e atrofiar-se a tal ponto que se a julgaria prestes a perecer. O espantoso é que Israel, que ela simboliza, tenha podido sobreviver apesar de todos esses contatos perniciosos, superar o contágio que o penetrava por toda parte, assimilar largamente todos os elementos que não contrariavam a sua natureza e, mesmo em parte maculado pelos resíduos impuros que se lhe apegavam, acabar por permanecer vivaz, fecundo e rico em frutos escolhidos.

2° O meio social. Estabelecidas em definitivo no país de Canaã, que era principalmente um país de cultura, misturadas por toda parte, pela simples vizinhança e em muitos lugares por casamentos, a uma população dedicada desde longa data ao trabalho da terra, as tribos hebraicas deviam fatalmente abandonar a grande vida pastoril para se aplicar à agricultura. Foi durante o período dos Juízes de Israel que se operou essa transformação grave e profunda. Foi preciso para isso um tempo notável, talvez o tempo de várias gerações, pois os hebreus, chegados ao país como migrantes e conquistadores, não tinham, em sua maioria, nem o gosto nem a prática desse gênero de trabalhos. Sem dúvida, no Négueb ao tempo dos patriarcas, na terra de Gessen durante a estada no Egito e no oásis de Cades durante a estada no deserto, hebreus se haviam dedicado à agricultura. Mas os que chegaram a Canaã representavam a geração nascida na península do Sinai, onde haviam devido viver, em parte notável, a vida dos nômades. Além disso, Canaã tinha suas produções particulares. Assim, não há praticamente dúvida de que os novos possuidores da Terra prometida tiveram de aprender muitas coisas sobre os processos agrícolas com os cananeus.

Por outro lado, estes haviam conseguido reservar para si quase todo o comércio interno; era a tal ponto que « cananeu » se tornará sinônimo de « mercador »; haviam conservado as melhores cidades das planícies, por onde passavam as grandes estradas, e faziam delas outros tantos entrepostos defendidos por sólidas muralhas; se perderam as da planície do litoral, notadamente esse grande mercado que era Gaza, no extremo sul de Canaã, foram os filisteus, e não os hebreus, que lhas tomaram. O comércio internacional por caravanas era uma empresa de que se ocupavam sobretudo estrangeiros de origem nômade, árabes, ismaelitas, madianitas. Enfim, o comércio marítimo e a grande pesca eram açambarcados pelos fenícios, egípcios, egeus e filisteus. Os hebreus se dedicavam, pois, quase todos à vida agrícola; é apenas no extremo sul de Judá e em algumas regiões da Transjordânia que alguns deles levavam ainda a vida pastoril.

Essa mudança social acarretou consequências importantes. A vida sedentária diminuiu a significação das tribos, obrigadas a se desmembrar para viver nas cidades e aldeias; a sua população misturou-se um pouco mais do que no deserto; seus xeques, em vez de serem potentados monárquicos, formaram aristocracias municipais; seus interesses ocasionais aproximaram-nas por grupos geográficos e econômicos: tribos galileias, tribos da Montanha de Efraim, tribos do país de Judá, tribos da Transjordânia. Foi apenas na hora de perigos consideráveis, no tempo de Débora, para libertar a planície de Jezrael da hegemonia cananeia, no tempo de Saul e de Davi, para expulsar os filisteus, que as tribos se uniram todas ou quase todas. Mas essas uniões foram apenas efêmeras. Guardando as tribos ciosamente o seu particularismo, os conflitos que as opunham não eram raros: esmagamento de Benjamim a propósito do ultraje feito ao levita, Jud., xix-xxi; intervenção de Efraim para proibir a Rúben que erguesse um altar, Jos., xxii, 9-34; destruição de Siquém por Abimelec, Jud., ix, 46; massacre de efraimitas pelos galaaditas de Jefté, Jud., xii; lutas de Judá e de Israel sob Davi e, enfim, a sua secessão definitiva após a morte de Salomão. A união realizada por Moisés ao criar a confederação do Sinai sob a proteção de Javé, o Deus único, não pôde manter-se quando o povo de Israel se tornou sedentário.

3° O meio religioso. O grande acontecimento religioso do período dos Juízes foi a entrada em contato da religião de Javé com a religião cananeia. Dele devia nascer mais de um perigo de contágio para o javismo. Este conseguiu escapar a isso e permanecer essencialmente conforme ao que Moisés o fizera sob a inspiração de Deus. Mas, tanto quanto podemos julgar, os que o professavam em sua pureza primitiva já não eram mais que uma elite, quando muito eram uma minoria. A massa dos hebreus começou desde então a ceder ao atrativo da religião indígena, a imitar-lhe práticas, a assimilar-lhe crenças. Foi nessa época que se esboçou esse javismo de mau quilate que quase comprometeu em várias ocasiões o destino religioso de Israel e contra o qual os profetas se ergueram mais tarde com energia indignada.

A religião cananeia, tal como a haviam feito vários séculos de sedentarismo e de vida agrícola, era uma religião da Natureza fecunda. O Baal era o senhor do solo; Astarte e Aserá parecem ter sido as deusas da reprodução das plantas, dos rebanhos, dos homens. Como os cananeus deviam recorrer sem cessar a esses protetores celestes, haviam multiplicado por toda parte os seus santuários. Estes são os lugares altos da Bíblia. Um « lugar alto » completo comportava um terreno sagrado, um altar de rocha, pedras erguidas, um ou vários postes sagrados (aserás), água viva ou a de uma cisterna, de uma bacia ou de jarras, fossas para oferendas, mesas de oferendas, frequentemente uma caverna, uma árvore sagrada e alguns edifícios mais ou menos amplos para as necessidades do culto, em particular para a refeição do sacrifício.

Além dos ritos comuns a todas as religiões semíticas, os cananeus ofereciam sacrifícios humanos, quer sacrifícios de recém-nascidos, quer sacrifícios de fundação, e praticavam também a prostituição sagrada, à qual se votavam hierodulos homens e mulheres. Não parecem ter colocado, de ordinário, ídolos em seus lugares altos; mas possuíam em abundância plaquetas de argila com uma imagem da deusa nua. Nem suas ideias, nem suas cerimônias religiosas nos são bem conhecidas. Entrevê-se ao menos que consideravam o mistério da geração, da fecundidade e da fertilidade como dependente do poder e da bondade de seus deuses. Nada lhes custava em matéria de oferendas e de sacrifício para obter deles essa bênção, que assegurava a perpetuidade das famílias e o bem-estar do agricultor. Assim, quando os hebreus invasores se instalaram por sua vez em Canaã e tiveram de se adaptar à vida agrícola, que os recursos do país lhes impunham, prevê-se bastante bem de que sedução pérfida se viram logo assaltados. Não era apenas o exemplo dos cananeus que os chamava a participar de todos esses ritos novos para eles, mas demasiado apropriados às piores aspirações da natureza humana para não lhes terem sorrido desde o início; deviam ser ainda mais, talvez, as mil vozes tentadoras que subiam dessa terra ardente e generosa, onde esses fugitivos do deserto, o país da sede e da fome, iam encontrar toda sorte de bens que lhes amoleceriam o coração, perturbariam os sentidos e os levariam quase fatalmente a fazer da religião revelada por Deus a Moisés, julgada doravante demasiado austera, uma religião fácil, em que se exibiriam ritos grosseiros, em que se insinuariam até por vezes as torpezas de Canaã.

III. História dos Juízes. Não cabe entrar aqui no pormenor da história dos Juízes; encontrá-lo-á na Bíblia, nos comentários e nas histórias. Bastará assinalar as situações gerais e a importância religiosa ou política dos fatos que nos são conhecidos.

1° Caráter geral da atividade dos Juízes. A falta de entendimento, que o ciúme e o interesse particular mantinham de maneira demasiado habitual entre as tribos, não era apenas um obstáculo ao seu desenvolvimento político; ao confinar cada uma delas na busca egoísta de suas próprias vantagens, dispersava também as forças da nação e tornava esta menos capaz de escapar aos perigos quase incessantes que lhe faziam correr os estrangeiros que a cercavam e os que viviam no meio dela. Era, no entanto, para Israel questão de vida ou de morte chegar a conquistar definitivamente Canaã sobre os indígenas numerosos e, em muitos lugares, poderosos que ali ainda se encontravam, bem como defender o seu território contra as tentativas de pilhagem ou de conquista vindas de fora. Essa dupla tarefa era premente. Num quadro sintético que resume sem dúvida fatos bastante numerosos, a Bíblia nos mostra esses inimigos lançando-se um após outro sobre as tribos para lhes arrancar uma parte de suas conquistas ou devastar a terra que exploravam: amorreus, arameus, cananeus, moabitas, fenícios, nômades dos arredores, Benê-Ammon e, enfim, filisteus, sublevam-se ou acorrem à presa. Jud., i, 34; x, 8-12.

Os israelitas, depois de terem primeiro cedido sem coragem, defendem-se o melhor que podem e muitas vezes muito bem; impõem-se mesmo esquecer por vezes as suas dissensões para se unirem por regiões, a fim de esmagar os revoltados ou de repelir os invasores. Mas se, no conjunto, foram vitoriosos, não alcançaram, durante o período dos Juízes, uma dessas vitórias consideráveis que põem fim para sempre a uma situação incerta. No dia seguinte a um êxito obtido graças ao auxílio de Deus e à união de suas forças, voltavam ao seu isolamento melindroso com a esperança de gozar tranquilamente a segurança reconquistada; depois um novo inimigo surgia em outro ponto, e era-lhes preciso recomeçar a sofrer e a combater. Essa alternativa incessante de paz efêmera e de lutas demasiado frequentes lançava os espíritos numa inquietação quase habitual. Estava-se cansado de ter tantas vezes de deixar o arado para empunhar a espada; quase nunca se provava a doçura tão invejada de banquetear-se sem preocupação à sombra das árvores do pomar; não se sabia de antemão que desgraça imprevista ia sobrevir, mas experimentava-se como que uma certeza angustiante de que uma viria seguramente. Houve, pois, horas muito negras para os hebreus durante esses dois ou três longos séculos, em que tiveram de penar e combater ainda para assegurar a posse definitiva e o pacífico usufruto dessa terra que suas armas lhes haviam aberto. Quantos esforços, sofrimentos e misérias, quando haviam acreditado que lhes bastaria apresentar-se às fronteiras para que Javé lhes entregasse Canaã, submetida de antemão e para sempre a seus senhores predestinados! A decepção era por vezes dolorosa, e a massa do povo não a explicava.

Mas as almas piedosas, permanecidas fiéis à religião revelada por Javé a Moisés, indicavam-lhe a razão: Israel abandonava o seu Deus ou juntava ao seu culto, numa aproximação monstruosa, os cultos dos Baais, de Astarte e de Aserá. Todas as desgraças que se abatiam periodicamente sobre as tribos decorriam dessa infidelidade religiosa; voltar a Javé sem partilha era, pois, a condição única, mas a condição necessária da paz e da prosperidade. Os Baais espalhavam tantas larguezas, Astarte e Aserá atraíam por tantos encantos que, de início, não se dava muito crédito a esses pregadores importunos. Mas, com o tempo, agravando-se a situação e permanecendo infalivelmente estéreis as tentativas feitas para remediá-la, escutavam-se com ouvido menos distraído as objurgações dos javistas e o eco cada vez mais distinto que elas despertavam nas almas. Recordavam-se as libertações passadas, que só haviam sido devidas à assistência do alto; a ideia da antiga aliança entre Javé e seu povo retomava a sua força; reclamava-se do Deus da nação o auxílio que ele lhe devia nos perigos e, para obtê-lo, amaldiçoavam-se os falsos deuses e voltava-se a Javé como ao único Deus que contasse. A vitória sobre os inimigos seguia essa conversão, de que era a recompensa.

À frente desses levantes religiosos e nacionais, cuja lembrança nos chegou no Livro dos Juízes, encontrava-se sempre um inspirado, javista fiel que se revoltava com o extravio de seus irmãos e patriota exaltado que sofria com o aviltamento de seu país. Homem ou mulher, chefe de clã obedecido ou banido desprezado, particular sem renome ou herói adorado do vulgo, era suscitado por Javé de maneira súbita e dava de repente como que um ponto de apoio material às aspirações até então vagas e tímidas da multidão, que tardava em decidir-se. Ora se revelava por uma ação de brilho, como o assassínio audacioso de um inimigo; ora se impunha como um chefe que devolvia ânimo aos mais covardes; ora, enfim, reerguia a esperança lânguida por não sei que irradiação do divino que a reanimava. Quase todos se assemelharam a chefes militares que arrastavam subitamente em seu séquito os combatentes de uma ou de várias tribos; alguns, porém, limitaram-se a proezas individuais. Cumprida a sua obra, deixavam em geral essa espécie de ditadura que haviam exercido por inspiração divina e com o consentimento de todos. Mas conservavam, em virtude de sua missão e em razão de seu êxito, um prestígio considerável. Numa época sem dúvida avançada desse período, vários adquiriram mesmo uma autoridade muito vizinha do poder real hereditário (Gedeão, Samuel, talvez Jefté). Aqueles dentre eles cuja lembrança os Livros santos nos guardaram são-nos conhecidos de maneira muito desigual; de uns sabemos os feitos; de outros mal conhecemos o nome.

Todos levam na história o nome de »'<5/é/, que lembra o dos « suffetes » de Cartago e que se traduz por « Juiz ». Essa tradução usual poderia, se não se tomasse cuidado, dar uma ideia pouco exata de seu verdadeiro caráter. Que tenham podido fazer justiça, como indica o sentido que damos a esse termo « Juiz », isso não parece duvidoso; o papel de árbitro é com frequência desempenhado no Oriente por aquele que qualidades eminentes — santidade, bravura, finura, conhecimento dos usos tradicionais — designam à escolha dos litigantes. Mas essa magistratura, quando os Juízes a exerceram, não era na realidade senão uma consequência secundária de seus altos feitos. O seu nome de $6fét indica antes de tudo que foram desses homens que tomam em mãos e fazem triunfar a causa da justiça, e, no caso deles, essa causa era assegurar o esmagamento dos opressores de Israel e a libertação desse povo. A ideia essencial do título de « Juiz », que parece ter-lhes sido especialmente atribuído por um dos redatores sagrados, aparece com mais nitidez para nós na designação de « salvador », que se encontra nos textos antigos. Assim, os « Juízes » foram « Libertadores » ou, melhor ainda talvez, « Ditadores ». Vêem-se aparecer ora numa tribo, ora noutra, um pouco ao sabor das necessidades. Se a sua ação podia interessar por repercussão o conjunto do povo, tinha sobretudo por resultado principal tirar dele uma porção mais ou menos notável do perigo localizado que o oprimia. Por isso nunca houve governo dos Juízes sobre todo o Israel; não se sucederam como reis dos quais cada um teria escolhido uma nova residência; se se assemelham e receberam tardiamente o mesmo título, é porque a desgraça dos tempos necessitava com demasiada frequência o aparecimento de um salvador.

Embora tornadas sedentárias, as tribos viveram então muito a sua vida individual; não formavam nem um reino, ainda que embrionário, nem uma feudalidade confederativa. A grande unidade que Moisés sonhara e realizara em parte havia quase desaparecido; subsistia apenas na religião e nas recordações do passado; mas pouco a pouco tendeu então a renascer mais estreita do que nunca sob a influência de perigos mais consideráveis e de aspirações cada vez mais nítidas à realeza. O mérito dos Juízes não é tê-la estabelecido; o seu tempo ainda não o permitia; mas ao menos, se alguns a esboçaram num território restrito e por curta duração, todos trabalharam para prepará-la de longe, impedindo o desaparecimento de sua tribo e nela reavivando, pela restauração da independência local, o sentimento de pertencer a uma mesma nação e a um mesmo Deus.

2° Os diferentes Juízes. 1. Otoniel, filho de Cenez, Jud., iii, 7-11, é o único Juiz de Judá que nos é conhecido. Bateu um certo Cusã-Risataim, rei arameu de Aram dos dois rios (Eufrates e Cabur). 2. Aod, filho de Gera, Jud., iii, 12-30, libertou as planícies de Jericó e as primeiras encostas orientais da montanha de Efraim, que oprimiam os moabitas que ali se haviam estabelecido e delas exigiam tributos periódicos. Apunhalou seu rei Eglon, sublevou seus compatriotas e, tendo ocupado os vaus do Jordão, massacrou numerosos inimigos. Benjamim não foi o único a aproveitar-se desse massacre: Israel inteiro devia tirar proveito dele. A posse dos vaus, que guardavam Gilgal e Jericó, assegurava aos hebreus o domínio de uma das mais importantes passagens que punham em comunicação os países do leste e os do oeste do Jordão. Limpas as planícies de Jericó, bastava-lhes fazer boa guarda nos vaus para impedir uma nova invasão vinda do leste; e se, do lado do oeste, um inimigo se tornasse demasiado premente, podiam atravessar o rio e buscar um refúgio momentâneo nas montanhas de Galaad. I Sam., xiii, 7; II Sam., xvii, 21 sq. Tanto quanto sabemos, essa posição importante permaneceu por muito tempo em poder de Israel, sem que os moabitas, tornados prudentes por essa severa lição, fizessem novos esforços para dela se apoderar.

3. Débora, Jud., iv, v, realizou um feito muito mais extraordinário na planície de Jezrael. Essa planície, muito fértil e muito comercial, estava ainda em boa parte nas mãos dos cananeus, que possuíam em redor numerosas praças fortificadas: Acre, Dor, Haroset, Citrom, Naalol, Betsã, Jeblaã, Taanac, Megiddo. Em seguida, sem dúvida, às invasões dos hebreus dessa região, os antigos habitantes coligaram-se para esmagar seus inimigos. O seu chefe efetivo era Sísera (seu nome parece ser hitita), príncipe de Haroset; possuía numerosos carros, terror dos hebreus, que deles estavam desprovidos.

Desta vez, a salvação veio por uma mulher. Muito verossimilmente originária da tribo de Issacar, Jud., v, 15a, e casada com um certo Lapidote, Débora exercia entre os hebreus uma espécie de magistratura extraordinária, que tocava ao mesmo tempo a profecia e a justiça. Conservou-se por muito tempo o culto, depois a lembrança, de uma « Palmeira de Débora » que se encontrava a meio caminho entre Betel e Ramá e junto da qual ela costumava proferir suas sentenças inspiradas. De todas as regiões de Israel vinha-se consultá-la; assim, conhecia ela em pormenor a pesada opressão que recaía sobre as tribos vizinhas da grande planície. Sua fé ardente não lhe permitia partilhar o desespero nem aprovar a inação de seus compatriotas. Julgou que havia chegado a hora de pôr-lhe um termo. Para ajudá-la nessa tarefa, convocou junto de si um certo Baraque, filho de Abinoão, natural de Cades de Neftali, e intimou-lhe, da parte de Javé, a ordem de reunir os combatentes das duas tribos galileias de Neftali e de Zabulon no monte Tabor para esmagar os cananeus que Javé ia entregar-lhe. Esse Baraque havia sido pessoalmente maltratado pelos cananeus, que o haviam detido por algum tempo; sofrera; não possuía a fé de Débora: só se decidiu a aceitar essa missão se a profetisa se comprometesse a ficar a seu lado para lhe fazer conhecer o dia em que o anjo de Javé daria a vitória; pois, naqueles tempos antigos, não se travava combate sem ter tomado o parecer da Divindade « pelas sortes, pelos profetas ou pelos sonhos ». Essa hesitação de Baraque, essa condição posta à sua aceitação, feriram a piedade de Débora; ela predisse a esse libertador demasiado timorato que uma mulher, e não ele, teria a honra de dar a morte ao chefe dos inimigos.

A coalizão israelita reunia todas as tribos vizinhas da planície: Neftali, Zabulon, Issacar, Maquir, clã importante de Manassés, depois Efraim e Benjamim, que obedeciam a Débora. Esta havia chamado Rúben e Galaad, Dã e Aser; mas estes últimos desinteressaram-se da causa de seus irmãos e não vieram ao combate. Quanto a Judá, Simeão e Levi, também não apareceram: Levi estava demasiado disperso, e Judá e Simeão demasiado distantes para que se tivesse pensado em pedir-lhes apoio. O encontro deu-se entre o Tabor e as praças de Megiddo e Taanac. Uma tempestade súbita, desencadeada por Javé, semeou a desordem e depois o pânico nas fileiras cananeias, que se debandaram. Sísera foi morto por uma mulher cenita, Jael, junto de quem se refugiara e que lhe cravou na cabeça, a golpes de maço, uma estaca de tenda. Esses fatos heroicos e sangrentos foram cantados por Débora num magnífico poema, que é um dos mais belos monumentos da literatura lírica dos hebreus. Os últimos versos, como os primeiros, dessa ode guerreira são para a glória de Javé. É que Javé é de fato o verdadeiro triunfador dessa memorável jornada. Inspirou a uma mulher a ideia da coalizão, venceu as hesitações de um chefe que duvidava do êxito, reanimou a dedicação de cada um à causa de todos. Viu-se-o acorrer do Sinai, onde reside, e atravessar às pressas as montanhas de Seir e de Edom para trazer aos seus o socorro de seu braço poderoso. Desencadeia a tempestade que assusta os cavalos; derrama a chuva que encharca a planície onde os carros se atolam e faz transbordar os rios que os arrastam; suas próprias estrelas parecem combater a seu lado. Como previu e combinou o ataque, dá-lhe o sinal, e algumas horas bastam a seus fiéis mal armados para quebrar a força de um inimigo temível. A vitória é tão inteiramente dele que é ainda uma mulher, uma mulher que nem sequer é israelita, quem dá o último golpe no inimigo, matando Sísera.

Assim, o cântico de Débora, composto em meio a esses acontecimentos, ainda vibra todo de entusiasmo religioso que, no dia seguinte à jornada do Tabor, agitava esse pequeno povo, admirado ele próprio de sua vitória. Israel sentia que seu Deus era mais poderoso que os outros deuses, e sempre tão poderoso quanto nos dias de Moisés, de quem não cessava de comemorar e de celebrar os altos feitos. À altivez de ter tal Deus juntava-se um reconhecimento jubiloso pelo último testemunho de sua beneficência incansável. Exaltava-se-o, agradecia-se-lhe — mas, melhor ainda, amava-se-o. Amava-se-o — a palavra é do poeta hebreu, Jud., v, 31, e é quase uma surpresa para nós constatar que, desde a aurora de uma história em que o temor de Deus ocupará lugar tão grande, um sentimento afetuoso amolecia por vezes essas almas ferozes e as prendia a Javé por laços mais doces que os do terror. E amavam-se também melhor uns aos outros. O sentimento da unidade nacional não se havia dissipado quando as tribos se desmembraram para colonizar os territórios conquistados. Nada prova melhor a sua sobrevivência do que a ação de Débora: como profetisa, ela resolvia as divergências surgidas no seio de várias tribos; como Juiz, conseguiu sublevar todo o norte do país. O cântico, que não tem elogios bastantes para os que se haviam dedicado à causa comum, nem sarcasmos bastantes para os que dela se haviam desinteressado, supõe também esse sentimento ancorado no fundo dos corações. O perigo e a vitória não o manifestaram apenas à luz do dia, souberam torná-lo muito mais vivo. As tribos vitoriosas compreendiam que, depois do auxílio de Javé, fora o fato de se terem coligado que lhes assegurara o êxito. Oprimidas enquanto haviam vivido afastadas umas das outras, haviam esmagado os cananeus assim que se uniram. Puderam bem, passado o dia da vitória, voltar ao seu isolamento ciumento; nem por isso conservavam menos a lembrança brilhante do que haviam podido realizar, cerradas em torno de Javé invencível, e, se ainda não o desejavam, entreviam ao menos o tempo em que, reunidas de novo sob o comando de um só chefe, poderiam marchar para novos triunfos.

Qual foi o dia seguinte dessa vitória retumbante? Não se sabe ao certo. Todavia, como ela devia deixar um traço profundo na lembrança dos israelitas, pode-se bem supor que havia posto para sempre um termo à supremacia dos cananeus nessa região. Deve ter havido ainda alguns sublevações parciais; os Juízes menores, dos quais não sabemos que inimigos combateram, poderiam ter tido de lidar com indígenas em conflitos locais. Mas os cananeus não se sublevaram mais em massa. Débora, que acabava de renovar os feitos de Josué vencedor das duas ligas cananeias, foi, pois, mais feliz que este; desferira um golpe tão rude em seus adversários que eles jamais se reergueram. Dizimados, privados de carros, foi-lhes preciso ceder sob o impulso da infiltração hebraica e, se conservaram as praças fortificadas, a planície e as colinas ao redor abriram-se mais largamente aos tenazes invasores. Na população mista que disputava as vantagens dessa região, os cananeus, que permaneciam citadinos e mercadores, viram-se por toda parte cercados de perto pelos camponeses e agricultores israelitas.

1. Gedeão, filho de Joás, Jud., vi-ix, teve também de lutar pela libertação da planície de Jezrael. Os pilhadores nômades da Transjordânia, madianitas, cedemitas, amalecitas, vinham ali saquear as colheitas dos hebreus. Estes não ousavam enfrentá-los. Dir-se-ia que, ao tornarem-se homens do campo, haviam perdido suas qualidades de homens de guerra; o curso regular da vida agrícola parecia ter abafado o seu antigo ímpeto conquistador, abatido sua coragem diante do perigo e apagado pela metade a lembrança dos feitos de seus primeiros Juízes. Também não haviam conservado melhor o fervor religioso que esses heróis haviam outrora inspirado a seus pais. À medida que se dedicavam de maneira mais ampla e com mais gosto aos trabalhos do campo, resistiam cada vez menos firmemente ao atrativo dos cultos cananeus. Os Baais, as Astartes e as Aserás, de quem a terra de Canaã fora durante longos séculos o domínio indiscutido, retomavam sorrateiramente de Javé, pelo interesse e pela volúpia, o que este lhes havia arrebatado por sua força terrificante. Não só envolviam os hebreus numa espécie de atmosfera pagã, visto que toda a vida agrícola estava impregnada de práticas nascidas da crença no império soberano dessas divindades sobre as produções do solo, mas conseguiam angariar devotos entre os fiéis de seu austero rival: aqui, algum indivíduo esgueirando-se furtivamente do altar de Javé, o Deus de seu povo, a quem teme, para o altar do Baal, que sabe tão bem multiplicar a semente e o rebanho; ali, grupos mais consideráveis, aldeias inteiras mesmo, que frequentavam abertamente o santuário público do Baal do lugar e não admitiam que um israelita demasiado fervoroso viesse perturbar o seu culto e ultrajar o seu deus. Em Ofra, um altar do Baal, erigido sobre uma eminência que tinha ares de fortaleza, fazia o orgulho e recebia as piedosas visitas dos habitantes; os pais de Joás, pai de Gedeão, e o próprio Joás contavam-se entre os adeptos da idolatria. Jud., vi, 25-27.

Tais eram as disposições religiosas e a situação material dos hebreus da planície de Jezrael e de seus arredores. Sem aparecer como das mais graves, o seu estado não deixava de ser muito penoso, tanto mais que a sua cegueira não lhes permitia ver de onde viria a salvação. O abatimento atingia mesmo os que haviam permanecido fiéis; os melhores, como esse Gedeão que devia pôr um termo a essa aflição, já manifestavam um começo de mau humor contra Javé. Jud., vi, 13. Perdera-se bem o entusiasmo nacional e religioso que havia levantado os espíritos e os corações no tempo de Débora! Javé, no entanto, não abandonava os seus; suscitou-lhes um salvador na pessoa de Gedeão, filho de Joás. A fé corajosa de Gedeão assinalou-o a seus compatriotas. Foi favorecido com uma aparição do Anjo de Javé, destruiu o altar do Baal de Ofra e edificou um altar a Javé; este último feito religioso valeu-lhe o sobrenome de Jerubaal (« Que Baal se defenda! »). Não era preciso, aliás, nada menos que uma ordem formal de Javé para decidir o jovem a atacar os madianitas. Deveria tê-lo feito para cumprir a vendeta legal, visto que esses pilhadores lhe haviam matado dois irmãos. Não ousara. Mas sua docilidade à ordem divina levou-o a agir. Seus altos feitos são narrados longamente. Quer se distingam duas vitórias nesses relatos, quer se queira reconhecer apenas uma (sobre essa questão, ver L. Desnoyers, La Période des Juges, p. 392-396), o êxito de Gedeão foi dos mais brilhantes e a sua importância política das mais consideráveis: teve por resultado um primeiro ensaio de monarquia.

Pois os israelitas, desejosos de reconhecer o serviço prestado por Gedeão à causa comum e mais ainda talvez de assegurar para o futuro o benefício dele, propuseram a seu chefe de um dia que o permanecesse doravante: seria durante a vida seu senhor e seu filho, depois seu neto, o seriam depois dele. Sem a palavra, era a realeza hereditária que os israelitas da montanha de Efraim e da planície de Jezrael queriam estabelecer. A necessidade de um laço estreito e duradouro entre as tribos impunha-se ao seu espírito; era uma nova etapa rumo à organização dos grupos distintos num corpo de nação mais estreitamente unido. Mas era também uma nova etapa no abandono das instituições tradicionais. Estas tinham e teriam sempre em Israel os seus partidários obstinados, a cujos olhos a independência do nômade e a independência da tribo guardavam o prestígio tenaz de um ideal social que nada devia fazer abandonar. A antiga ordem de coisas não remontava até os gloriosos ancestrais da época patriarcal? Os xeques das diversas tribos haviam desmerecido tanto nas guerras ou falhado no exercício da justiça que fosse preciso reduzir a sua autoridade e subordiná-los ao poder soberano de um único senhor? Este não se empenharia em apagar as tradições que cada tribo guardava como uma herança preciosa? Por que, enfim, destruir uma organização em que Javé era o verdadeiro chefe único e que ele sancionara de certo modo por inumeráveis benefícios? Entre os partidários irredutíveis do passado e os partidários de uma transformação sugerida pelas circunstâncias presentes, Gedeão, a quem se oferecia o poder, mostrou-se, como sempre, bastante hesitante. Decidiu-se por um compromisso.

Não, ele não aceitaria substituir Jahvé: só Jahvé devia ser o chefe. Mas pediria ao menos a seus homens que lhe dessem uma parte de seu butim; sobre um manto estendido no chão, cada um deles consentiu em lançar um anel de ouro. Dos mil e setecentos siclos de ouro que assim recolheu, mandou fazer um efod; esse efod, colocou-o num santuário que abriu em Ofra, e Ofra, com esse oráculo que permitia consultar Jahvé antes de resolver uma contenda ou de empreender uma guerra, com o harém de Gedeão principescamente povoado, com seus setenta filhos, Ofra parecia bem uma espécie de capital e Gedeão, quase um rei. É assim que, de modo assaz insidioso, pela vontade de uma parte dos habitantes e graças à indecisão de um chefe bem-sucedido, esboçou-se em Israel um primeiro ensaio de realeza. Pois, se não se quer discutir por causa de uma palavra, não é verdadeiramente a realeza que aí nasce? Olhe-se para aqueles que haviam detido o poder antes de Gedeão. Haviam-no recebido diretamente de Jahvé, para um fim determinado, de maneira transitória, com um caráter todo pessoal. Moisés promulga o javismo, arranca as tribos da servidão egípcia e as conduz através do deserto até as portas de Canaã; Josué lhes abre a Terra prometida; os Juízes as libertam de uma opressão momentânea. Depois cada um deles, cumprida a sua obra, desaparece; se continua a desempenhar um papel que o coloca acima dos outros, é unicamente por efeito de uma prorrogação de seu prestígio ocasional; com ele, em todo caso, seu poder se esvai. Aqui, ao contrário, o povo oferece diretamente a autoridade suprema; o eleito não a aceita, mas a exerce; faz que seja sancionada por uma espécie de imposto, conserva-a por toda a vida, pode-se mesmo dizer que a explora, e ela é tão inteiramente sua que a lega a seus filhos entre seus outros bens e que seus filhos a detêm depois dele sem nova intervenção nem divina nem humana, mas pelo simples jogo da hereditariedade.

A dizer a verdade, sem ter tomado o título, Gedeão comportava-se como rei. Se não governava à maneira de um rei, vivia como chefe ou príncipe cuja autoridade não era contestada. Esta poderia mesmo ter sido mais considerável do que de início seríamos inclinados a admitir. Acabamos, com efeito, de ver Gedeão à frente de contingentes levantados em toda a Montanha de Efraim, numa parte da planície de Jezrael e nas colinas da Galileia, o que supõe sem dúvida muita generosidade naqueles que responderam ao seu apelo, mas pelo menos outro tanto de prestígio naquele que o havia lançado. Além disso, no epílogo que vai seguir, constataremos que até a grande cidade de Siquém, o verdadeiro centro de Efraim, uma das metrópoles antigas onde o elemento cananeu se mantivera poderoso, reconhecia muito nitidamente o seu poder, e ele não era contudo senão um membro de Abiézer, o menor clã de Manassés. Enfim, a história de Abimelec vai nos ensinar que a autoridade de Gedeão era tão bem reconhecida que não se a discutia, mesmo sob essa forma estranha de um poder transmitido coletivamente a todos os seus filhos, e que um deles não terá senão uma palavra a dizer para fazê-la transformar em autoridade real. Podemos lamentar que os textos de que dispomos não sejam mais completos sobre a origem, a extensão, a força e a duração desse principado; eles nos ajudam contudo a entrever o lugar importante que convém atribuir a Gedeão no desenvolvimento da centralização das tribos.

Gedeão viveu o resto de seus dias em Ofra. O santuário que ele tão corajosamente edificara e que se frequentou ainda por muito tempo depois dele testemunhava a sua piedade reta e firme; a autoridade que exercia, a consideração de seus concidadãos, para não dizer a docilidade de seus súditos; as numerosas mulheres de seu harém, a sua prosperidade; seus muitos filhos, a bênção do alto. Morreu cheio de dias, após uma velhice feliz, e foi sepultado no túmulo de Joás, seu pai. Suas vitórias permaneceram famosas em Israel; Isaías e um salmista cantarão a jornada « de Madiã » (Is., IX, 3; X, 26; Ps., LXXXIII (Vulg., LXXXII), 10), em que Gedeão, repelindo os nômades vindos para a pilhagem, lhes tirara toda ideia de voltar para a conquista. Deixou a memória de um homem piedoso com reflexão, hesitante por natureza mas dócil quase a contragosto às inspirações de sua fé, e dotado, quando enfim sabia ter chegado a hora de agir, de uma coragem tenaz até o pleno sucesso. Um dos últimos redatores de sua história escandalizou-se com o efod que ele mandara fabricar; talvez se possa supor que esse objeto religioso permaneceu efetivamente em uso no santuário de Ofra até uma época em que esse gênero de consulta, suplantado pela consulta dos profetas, já não respondia às crenças nem às práticas. Mas, em contrapartida, não se poderia louvar o bastante o gesto de bravura realizado por Gedeão quando derrubou o altar de Baal, em que toda a sua aldeia sacrificava, para substituí-lo por um altar de Jahvé. Foi o gesto não somente de um convicto, mas de um apóstolo; nesse período primitivo, Gedeão aparece como um campeão do monoteísmo.

À sua morte, os laços dessa realeza nascente eram ainda tão frouxos e a organização do poder tão rudimentar que, a princípio, se limitou a deixar a autoridade indivisa nas mãos dos filhos de Gedeão, que residiam em Ofra. Ora, Gedeão tivera em Siquém uma esposa de segunda categoria, aparentada a um clã bastante influente da cidade, e que lhe dera um filho chamado Abimelec. Este fez executar os outros filhos de Gedeão, exceto o mais novo, Jotão, e tornou-se rei do principado de Siquém; reinou três anos. O elemento cananeu da antiga metrópole cansou-se logo desse rei hebreu e revoltou-se contra ele. Abimelec destruiu Siquém de alto a baixo, mas pereceu pouco depois diante de Tebes. Afora a intervenção de Jahvé vingador, duas razões principais explicam esse fracasso. Primeiro, o fato de que, à morte de Gedeão, nenhum de seus filhos tenha sido designado pessoalmente para sucedê-lo; depois, a ingerência de um partido cananeu ainda poderoso nos negócios políticos de Israel. Este segundo fato sobretudo é significativo; mostra até que ponto a conquista imperfeita do país de Canaã entravava o desenvolvimento normal da nação hebraica.

Nessa Montanha de Efraim, onde ela no entanto se estabelecera mais solidamente, seus inimigos hereditários subsistiam; misturavam-se a ela numa proporção que por vezes lhes dava a preponderância ou os incitava a tentar reconquistá-la; israelitas abraçavam suas querelas e se alistavam em suas fileiras; mesmo na religião, israelitas e cananeus caminhavam lado a lado e simpatizavam; o perigo da absorção de Israel por Canaã não estava inteiramente conjurado. Não podemos avaliar com exatidão a influência que devia exercer sobre o conjunto do país ocupado a presença, em muitos lugares, e notadamente nos grandes centros urbanos, desses focos de « canaanismo »; entrevê-se ao menos que ela fazia obstáculo à influência em geral mais sadia dos meios do campo, onde o elemento cananeu se opunha com menos êxito ou mesmo se assimilava ao elemento israelita. Por isso é justo reconhecer que a ação de Abimelec, por mais brutal que tenha sido, acarretava um resultado feliz para o destino de Israel. Abimelec havia confundido numa extermínio cego tanto hebreus como cananeus; mas, destruída Siquém, era uma outra página da história dessa capital que começaria com a sua próxima reconstrução. Na nova Siquém, as lembranças que remontavam a Josué e à era heroica e piedosa da conquista reataria facilmente sua trama por um instante rompida; a tradição cananeia do clã famoso dos Benê-Hamor ali estava quebrada para sempre. Assim, a obra da ocupação da Terra prometida por Israel, que mãos mais puras realizavam laboriosamente, era por vezes rapidamente adiantada por mãos ensanguentadas.

5. Jefté, Jud., X, 6-XII, 7, tentou também ele estabelecer um principado monárquico no país de Galaad, a leste do Jordão. Banido e chefe de bando, Jefté foi solicitado pelos xeques de Galaad, ameaçados pelos Benê-Amon, a tomar a direção de suas tropas. Só aceitou com a condição de tornar-se « príncipe ». Alcançou uma vitória completa, mas ela lhe custou sua filha única, que ele sacrificou em holocausto a Jahvé, em execução de um voto imprudente. Não é somente o grande proprietário afortunado que possui em abundância campos e rebanhos, o pai de família cujo harém encerra numerosas esposas que lhe deram muitos filhos, o guerreiro intrépido que protege os pobres de seu clã, o juiz instruído e sagaz que segura a balança com mão firme; é também o homem que sabe que merece sua felicidade, o fiel que parece viver mais perto de Jahvé do que dos homens e o justo que cumpre seu dever para ser abençoado por seu Deus.

7. Sansão, Jud., XIII-XVI, não fornece à história geral senão uma anedota e à história religiosa senão um exemplo. Contudo, se suas façanhas solitárias não tiveram sobre os acontecimentos uma repercussão apreciável, ele não é de todo sem significação para o historiador. Por alguns traços de seu caráter e alguns incidentes de sua vida, ajuda-nos a conhecer melhor o seu tempo. Seu isolamento revela-lhe a atonia geral; seu javismo rigoroso, a persistência da fé nos meios populares; sua sensualidade, a estranha liberdade dos costumes; seu casamento e suas frequentações entre os filisteus, a facilidade e a extensão das relações de Israel com as populações em meio às quais vivia. Até suas aventuras amorosas nos revelam, sob uma luz um tanto crua, todo um aspecto da vida de então. Ao olhar essas cenas de um pitoresco ingênuo, compreende-se melhor as queixas das almas austeras, bem como as proibições da Lei a respeito dos contatos demasiado fáceis com as mulheres infiéis, e adivinha-se melhor a que fraquezas morais e religiosas se expunham os que se submetiam tão de bom grado ao encanto das pagãs. Sansão pode muito bem não ter desempenhado na história senão um papel de segunda ordem, não ter exercido sobre seus compatriotas senão uma ação indireta e remota; ele personifica um aspecto importante da vida moral de uma época.

Sabe-se que a interpretação mítica da pessoa, das façanhas e das aventuras de Sansão suscitou toda uma literatura tão interessante pela multiplicidade dos pormenores relatados quanto medíocre pela solidez dos resultados obtidos. Para alguns, tudo é lendário e mítico nessas narrativas; para outros, que se impressionam com a exatidão dos quadros que ali representam a vida dessa população mista dos confins hebraicos, se muitos traços têm a verossimilhança do real, vários só devem a sua existência ao folclore mitológico. E como a diferença dos tempos já não permite pôr em primeiro plano o Hércules grego, que seria antes um descendente de Sansão, e como o Melqart tírio só se assemelha a Sansão na mitologia grega que o aproximou de Hércules, é ao herói babilônico Gilgamés que hoje se pede que sirva de protótipo a Sansão. Existem, com efeito, entre eles diversos pontos de semelhança, de que se poderá fazer uma ideia pelo estudo bastante matizado de C. F. Burney, The Book of Judges, Londres, 1920, p. 391 sq. Mas essas aproximações, quer se as creiam numerosas ou quase raras, sugerem as seguintes reflexões. Primeiro, não é de admirar que entre dois heróis antigos possam encontrar-se pontos de contato, pois mesmo aquele que é lendário só é imaginado e descrito com o auxílio de traços copiados, ao menos, da realidade. Por outro lado, a simplicidade tão viva das narrativas relativas a Sansão explica-se afinal muito melhor por fatos reais do que por uma depuração de dados mitológicos, depuração que se deveria supor infinitamente feliz, uma vez que não se exige nada menos que uma sagacidade de penetração penosa para encontrar-lhe os vestígios. Além disso, a descrição do meio onde viveu e operou Sansão oferece tal nitidez e tal cunho de exatidão que só se explica pela utilização de lembranças precisas, quer tradicionais, quer confiadas muito cedo à escrita. Na época da realeza, em que os filisteus estavam inteiramente repelidos para fora do território de Israel, não se teria imaginado que eles tinham sido os senhores dele; a memória desses tristes tempos sobrevivia, pois, ainda e, com ela, a memória de algumas ações brilhantes que mal lhe haviam interrompido e não haviam dissipado a temerosa inação.

Enfim, se evidentemente não se pode provar que todas as anedotas e todos os pormenores dessa história pertencem à realidade, podem-se assinalar ao menos alguns que se explicam muito naturalmente pelas circunstâncias e que não há razão de ligar à mitologia: o nome de Sansão, que deriva com efeito de Semes, « Sol », explica-se otimamente pela influência « cananeia » do santuário de Bet-Semes*, nas vizinhanças do qual viviam os pais de Sansão; os longos cabelos dele, que lembrariam os raios do sol, lembram muito melhor o voto da cabeleira, prática guerreira atestada pelo cântico de Débora e prática ascética atestada pela história de Samuel; o episódio do leão despedaçado e o das raposas capturadas têm seu equivalente em fatos reais que são assinalados em outras circunstâncias e nada têm de mítico; as fraquezas de coração de Sansão, não há necessidade de recorrer a Hércules ou a Gilgamés para explicá-las; enfim, sua força não está de tal modo ligada à sua longa cabeleira que se deva desconhecer o elemento moral muito acentuado das narrativas.

As façanhas de Sansão foram demasiado isoladas para terem tido um resultado material apreciável na história. O herói não conseguiu levantar seus compatriotas contra os filisteus, e estes, que continuavam temidos no país de Judá, não tardarão a penetrar na Montanha de Efraim. Mas, enquanto o povo hebreu não se sentia encorajado a retomar, com suas forças reunidas, a obra individual de Sansão, não deixava sem dúvida de sublinhar ao menos a significação religiosa das proezas desse Juiz. Sansão impunha aos inimigos de Israel um certo terror de Jahvé, de quem tinha sua força invencível; era também para seus correligionários um exemplo vivo do cuidado que Jahvé tem de sustentar os seus enquanto são fiéis ao seu dever, bem como do aviltamento em que os deixa cair desde que se tornam esquecidos de suas promessas. Além disso, Sansão não é sem piedade. No retrato que a Bíblia esboça dele, dá a impressão de um homem a quem enche de alegria sem cessar a confiança na força que lhe vem do alto. Daí tira essa segurança de si, provocante e alegre, que o leva às empresas mais arriscadas, com a certeza de sair delas com honra. A constância do sucesso acaba, porém, ajudando-lhe o coração, por inebriá-lo; brinca demais com o perigo, do qual sempre se safou, para não acabar encontrando nele a sua perdição. Mas, até em sua queda, desperta compaixão; sua última fraqueza, longamente retardada, só escapa à sua lassidão e custa a sua fé, e ele é quase comovente na humildade de sua oração para obter de novo, em vista de uma façanha suprema, o vigor que Deus lhe retirara.

8. Eli, o velho sacerdote do santuário da arca, é incluído entre os Juízes por I Sam., XV, 18. Mas nenhuma façanha lhe é atribuída pela Bíblia.

9. Samuel, efraimita ou levita do país de Zufe (sobre as origens de seu pai, Elcana, ver L. Desnoyers, La période des Juges, p. 210, n. 2), foi o último dos Juízes e instituiu o regime monárquico em Israel. Desde a infância, foi favorecido com comunicações divinas e, como os sacerdotes de Silo, Eli e seus dois filhos, se desacreditavam junto ao povo, aquele por sua fraqueza, estes por suas desordens, Samuel foi logo considerado o verdadeiro representante de Jahvé junto a Israel. Com sua dupla qualidade de profeta e de levita, Samuel aparece, nesse período longínquo, como um precursor de Jeremias; nele, como neste último, as duas principais forças religiosas que tantas vezes se opuseram no curso da história de Israel já se unem harmoniosamente. É um desses personagens de transição que Deus reserva a seu povo nas horas de crise e que, apropriando-se de ideias e aptidões ordinariamente divididas entre vários partidos, se acham assim preparados para utilizar os últimos recursos de uma ordem de coisas que vai acabar e para preparar os começos laboriosos de uma ordem nova que está a nascer.

Depois da tomada da arca pelos filisteus, I Sam., IV, e de sua instalação em Quiriat-Iarim, cidade povoada de cananeus e de hebreus, I Sam., VII, 1-3, começa um período obscuro. A única figura que nele se destaca, e ainda com um relevo mal marcado, é a de Samuel. Ele aparece aí um pouco à maneira dos antigos Juízes, guerreiros a princípio, depois personagens venerados e influentes. Uma vez, pôs-se à frente de israelitas reunidos em Mispá para uma cerimônia expiatória e deu caça a um partido de filisteus que perseguiu, espada nas costas, até Betcar; nessa circunstância, como em várias outras, uma tempestade súbita lançou o pânico nas fileiras inimigas, e Samuel ergueu uma pedra, « a Pedra do socorro », para comemorar o auxílio oportuno que lhe havia prestado Jahvé fazendo rolar seu trovão. I Sam., VII, 5-12. Foi aí, ao que parece, o único sucesso militar de sua judicatura; esta prosseguiu daí em diante na calma. A arca residia em Quiriat-Iarim sob os olhos, se não sob o poder, dos filisteus; o santuário de Silo estava vazio e talvez até destruído. Samuel residia na cidade de Ramá. Sendo nazireu, isto é, consagrado a Jahvé pelo voto de sua mãe, vivia ali como homem de Deus e empregava uma atividade incansável a serviço da religião e do povo. Havia construído ali um altar, sem dúvida logo frequentado em toda a redondeza, e, dali, irradiava pela vizinhança para dirimir as contendas em nome de Jahvé e para manter os israelitas na fidelidade a seu Deus; após longos anos de distância, renovava o ministério de Débora, a profetisa. Essa judicatura ambulante o conduzia, uma vez por ano, aos três santuários de Betel, Gálgala e Mispá, isto é, ao território de Benjamim e à porção meridional da Montanha de Efraim. Mas devia ser conhecido muito mais longe; no tempo de Davi, vê-se que vai sacrificar em Belém, I Sam., XVI, 1-5, e uma tradição antiga sabia que, perto do fim de sua vida, seus filhos Joel e Abias gozavam de alguma autoridade até na cidade santa de Berseba, ao sul de Judá. I Sam., VIII, 1-2. Ao exercício dessa judicatura, juntava o de sua profissão de vidente; recorria-se a ele mediante um pequeno presente, pão, uma moeda por exemplo, para reencontrar objetos perdidos. I Sam., IX, 7-8.

Tudo isso fazia que fosse cercado por todos de respeitosa consideração. Vinha-se pedir-lhe conselho; honravam-se de tê-lo como presidente dos banquetes sagrados; os nabis, esses javistas buliçosos, testemunhavam-lhe deferência e o encaravam como um dos seus, como um apóstolo da causa santa que defendiam com tanto vigor. Samuel nos aparece como o homem mais em evidência nessa data e sobre quem parecia repousar o destino de Israel. E no entanto chegou um momento em que o povo não olhou mais para Samuel como o homem da situação e reclamou um rei. Samuel indignou-se com esse pedido. A realeza era considerada uma instituição pagã, Deut., XVII, 14; I Sam., VIII, 20; desejá-la era desconfiar de Jahvé, que até então ele próprio salvara o seu povo, e expor-se a lamentar mais tarde a tirania do senhor que se reclamava loucamente. Mas o povo não quis render-se a essas razões. Por ordem de Deus, Samuel cedeu e prometeu procurar o rei que, com o auxílio do alto, uniria as tribos e libertaria o território.

— 3º Aspecto geral do período dos Juízes. O período dos Juízes foi para Israel uma época muito rude, quase toda cheia de conflitos cotidianos e frequentemente entrecortada por verdadeiras batalhas. Os conflitos habituais não irrompiam somente entre israelitas e cananeus, que viviam quase por toda parte porta a porta e nem sempre se entendiam. Surgiam também entre tribos, entre clãs, entre aldeias israelitas, e acarretavam por vezes deslocamentos individuais, migrações de grupos importantes e até encontros sangrentos. Não que nunca soasse uma hora de trégua. Na vizinhança de um povoado ou de uma região em plena efervescência, aldeias ou cantões inteiros podiam viver numa segurança pacífica, esquecendo quase, ao ver de longe as perturbações que os poupavam, as misérias que, em breve talvez, os atingiriam a eles mesmos. As grandes guerras com o estrangeiro tampouco eram contínuas. Os arameus, os moabitas, os cananeus, os nômades saqueadores, os Benê-Amon, todos esses inimigos que haviam posto sucessivamente à prova o vigor do jovem povo que Moisés lançara sobre Canaã, haviam recebido lições severas; ao menos depois de uma grave derrota, ficavam na reserva e curavam suas feridas. Alguns anos de distensão se sucediam; as tribos respiravam mais à vontade e prosseguiam na tranquilidade a obra de seu estabelecimento. Mas, no conjunto, os textos dão a impressão de que houve então menos felicidade que inquietação, menos gozos que desejos, menos idílios que combates.

Um sopro de anarquia passava, por outro lado, sobre as tribos de Israel. Só cessava quando um perigo comum impunha a elas um pouco de abnegação. Sacrificavam então sua animosidade, seu ciúme, seu egoísmo à causa nacional. Depois, logo, deixavam cair por si mesmas ou derrubavam com mão brutal as organizações centralizadoras que haviam criado num ímpeto de fraternidade, e seus Juízes se sucediam sem conseguir manter a união nem fundar uma monarquia duradoura. Os filisteus iam precipitar o advento dessa centralização que as tribos se haviam esforçado em retardar. Dir-se-ia que Deus sempre precisou violentar seu povo para conduzi-lo ao caminho em que queria vê-lo manter-se e andar. A necessidade de sacudir, sob pena de decadência irremediável, o jugo pesado da dominação filisteia obriga Israel a agrupar estreitamente todas as suas forças. Samuel, que, apesar de sua boa vontade e de seus desejos, permanece o homem de outra idade, é por sua vez obrigado a ceder o lugar a jovens heróis mais decididos, mais empreendedores, mais valorosos que ele. Saul, com sua brusca energia, Davi, com sua sedução arrebatadora, saberão tirar do povo que Jahvé lhes confia mais recursos do que ele jamais quisera despender e conseguirão impor-lhe mais disciplina do que jamais quisera suportar.

É justo, contudo, reconhecer que, por mais dotados que tenham sido, Saul e Davi chegavam na hora propícia à sua obra. Agruparão sob sua autoridade todas as tribos hebraicas; mas estas, no tempo dos Juízes, já haviam tentado vários ensaios de união parcial e assim se haviam preparado para a sua centralização geral. Em regiões diversas, por durações variáveis, Débora, Gedeão, Jefté, Samuel não haviam dirigido um vão apelo ao sentimento da união nacional. Ao dar suas provas, e de modo brilhante, esse sentimento se afirmara mais; exasperava-se surdamente ao encontrar-se diante de perigos que não podia conjurar. Mas êxitos e fracassos contribuíam para desenvolvê-lo. Saul e sobretudo Davi terão o mérito de lhe dar toda a sua amplitude. No dia seguinte à conquista, quando começa o longo período do estabelecimento em Canaã, mal se percebem senão tribos dispersas, absorvidas em sua instalação; o período dos Juízes mostra grupos de tribos, cuja existência ocasional não é senão efêmera; com os primeiros reis, todas as tribos unidas formarão um só Estado, como serviam a um só Deus.

— IV. A religião. 1º O enfraquecimento da religião popular. Os cananeus não haviam desaparecido do país conquistado pelos hebreus; o javismo tampouco conseguirá sufocar a religião pagã; imperfeita no domínio religioso, a vitória de Israel será empanada por numerosas e lamentáveis concessões. O povo eleito, seu Deus, sua religião e suas aspirações nacionais conservarão, no seio de um grupo fiel de almas incorruptíveis, seus caracteres essenciais fixados pela revelação; mas a religião da massa sofrerá transformações, umas superficiais, outras mais profundas, que eram de natureza a contrariar a obra de Moisés e a comprometer o destino de Israel.

— 1. As causas do enfraquecimento religioso. Elas se deixam facilmente entrever.

O atrativo da civilização cananeia, que é superior à dos hebreus, a sedução de uma terra que maravilha a estes por sua fertilidade, uma vaga superstição a respeito dos deuses agrícolas honrados no país, uma ponta de desconfiança quanto às aptidões de Jahvé para tudo o que diz respeito às coisas da terra, a esperança de que, servindo a Jahvé à maneira de um Baal, se o obrigará a ser tão generoso quanto esse deus vencido, enfim o encanto perverso das práticas licenciosas do culto da Natureza e da Fecundidade, todas essas causas parecem concertar-se para dar de todos os lados um assalto tenaz à consciência religiosa de Israel. Passou-se com a religião popular o que se passava com os costumes: os contatos entre israelitas e cananeus eram demasiado multiplicados e muitas vezes demasiado estreitos para que não se estabelecesse com o tempo, nessa população mista, uma espécie de religião híbrida que continuava a ser certo javismo, mas que se carregara ao mesmo tempo de ideias e práticas tomadas do meio pagão e só pode ser encarada como uma deformação da religião revelada por Deus a Moisés. Pode-se, portanto, dizer que na realidade existiam duas religiões de Jahvé. Uma, cuja existência se constatará sem dificuldade em alguns meios escolhidos ou, na pior das hipóteses, em alguns indivíduos isolados, permanecia conforme à verdadeira tradição; era o javismo autêntico. A outra, praticada pela massa do povo, embora numa medida que não podemos avaliar, não era mais que um javismo abastardado. A aproximação da religião de Jahvé e da religião dos deuses cananeus operou-se nas formas exteriores e nas ideias.

— 2. Enfraquecimento nas formas exteriores do culto. Grande número de objetos e lugares sagrados cananeus que não haviam sido destruídos na conquista foram apropriados ao culto de Jahvé. Santuários, lugares altos, altares, dólmens e cromlechs, árvores e fontes, estelas e pedras erguidas, a que um costume imemorial imprimia um caráter religioso, continuaram a beneficiar-se desse prestígio quase indelével, numa época e entre populações em que a crença religiosa, qualquer que fosse, impregnava profundamente os espíritos. Forçavam quase a veneração, uma veneração semissupersticiosa e temerosa a princípio, mais familiar e mais confiante depois, enraizada com o tempo e mais cara que a vida. Vários, talvez muitos, dos lugares altos cananeus que não haviam sido arruinados foram ocupados pelos hebreus e permaneceram mais ou menos tais como eram; os que se ergueram em honra de Jahvé lhes assemelhavam-se sem dúvida muito. Ali também se viam o altar, a pedra erguida, a aserá, a árvore sagrada; os mais importantes tinham sua sala para os banquetes sagrados. Os israelitas pouco exigentes instalados nos santuários cananeus e até certos israelitas semifiéis que só frequentavam santuários autênticos de Jahvé, mas julgavam mais vantajoso recorrer ao ritual em uso no país, começaram, uma vez bem estabelecidos em Canaã, a introduzir no culto do Deus de Israel certas práticas do culto dos Baals e das Aserás. Era quase uma fatalidade desde que não se atinha mais, com rigor sem fraqueza, ao ritual antigo.

Nesses cultos antigos, em que as oferendas feitas à Divindade eram muito mais multiplicadas do que o são em nossos dias, nesse país de Canaã, onde não havia, nem no solo nem em circulação, uma quantidade apreciável de metais, mas onde toda a riqueza consistia em frutos da terra e em gado que se tinha diretamente da liberalidade divina, o principal ato religioso era levar ao santuário, para oferecê-los ao deus e partilhá-los com ele e com seus sacerdotes, animais do rebanho, frutos do pomar e produtos dos campos. A quantidade da oferenda devia ser fixada pelos rituais; mas bem se pode pensar que os peregrinos se aplicavam, na maioria, a ultrapassá-la para espicaçar a generosidade de seu deus e obter dele bênçãos mais abundantes; quando a emulação, a ostentação ou o fervor ajudavam, vê-se logo a que profusão podiam chegar as oferendas. Por isso o caráter agrícola dos ritos do javismo afirmou-se ainda mais do que nas antigas prescrições mosaicas; o abuso do culto exterior, tantas vezes atacado pelos profetas, começou desde então a exibir-se nos santuários. O calendário das festas seguiu com rigor mais meticuloso a série regular das colheitas, assim como o movimento da lua, esse astro benfazejo que facilitava a guarda noturna do pastor e derramava sobre a terra a umidade fecundante sem a qual a vegetação teria definhado. As assembleias revestiram um aspecto campestre mais marcado. A páscoa, refeição comemorativa de nômades migrantes ou fugitivos que imolam um recém-nascido de seu rebanho, sobrecarregou-se com os ritos de uma festa das primícias da terra e coincidiu com o início da colheita das cevadas; sete semanas depois, festejava-se a colheita dos trigos e, no fim do outono, quando se haviam colhido os frutos das árvores e vindimado a vinha, uma alegria ruidosa acompanhava a última festa, o luig por excelência, que punha fim ao ano agrícola desabrochando as almas e desbridando os sentidos por causa dos trabalhos interrompidos e dos benefícios recebidos.

Comprazia-se também em enfeitar os santuários e em complicar as oferendas. O altar tradicional de torrões de terra ou de pedras brutas foi por vezes substituído pelo altar construído de pedras aparelhadas ou formado de um bloco sobre o qual se passara o ferro para talhá-lo. Às « » modestas vítimas tiradas do rebanho de gado miúdo, carneiros e cabras, podia-se acrescentar mais correntemente agora os touros, as novilhas e os vitelos gordos. Os holocaustos foram se multiplicando; os banquetes sagrados, em que se compensava de uma vez por todas as longas privações e em que não se poupava nem o ëèkar nem o vinho forte de Canaã, assemelharam-se a bebedeiras.

— 3. Enfraquecimento nas ideias religiosas.

Em consequência da aceitação de certas ideias e da introdução de certas práticas características do paganismo cananeu, produziu-se uma contaminação mais profunda do javismo, que atacava princípios mais essenciais da religião revelada por intermédio de Moisés. É a própria noção de Jahvé que teve de sofrer primeiro com o novo estado de coisas. A semelhança dos cultos prestados a Jahvé e aos Baals levava muitos hebreus a já não distinguir nitidamente os caracteres desses deuses. Para os seus olhos obscurecidos, Jahvé perdia aquela grandeza distante e temível com que, no Sinai, velara o seu ser divino; continuava sempre, é claro, a ser o Deus exclusivo da nação, cuja glória e prosperidade assegurava, disso se tinha certeza; mas misturava-se também mais, pensava-se, à vulgaridade dos pequenos interesses de seus fiéis, estendia ouvido paciente a suas queixas, a suas recriminações, a seus desejos de riqueza e de alegrias materiais. A preocupação moral de obedecer-lhe deu lugar à preocupação interesseira de corrompê-lo. Imaginava-se-o então exigente em matéria de oferendas, guloso, se ouso dizer, de vítimas gordas no ponto, tornado sorridente e posto de bom humor pelos manjares suculentos que se amontoam diante dele, e enfim, sobretudo, pois é isso que se espera, restituindo bem depressa e ao cêntuplo os presentes que lhe foram feitos. Daí a honrar Jahvé pelas práticas mais características e menos imitáveis da religião cananeia só havia um passo, e esse passo foi dado. Não o foi então, contudo, mesmo nos meios mais atingidos pelo contágio, com uma decisão que teria feito o javismo cair ao nível de uma religião cananeia mal disfarçada.

Todavia, não se pode duvidar de que a prostituição sagrada se tenha insinuado aqui e ali no culto prestado a Jahvé por israelitas ignorantes ou perversos, como o poderiam testemunhar as antigas proibições relativas a esse ponto. Mas é provável que, muitas vezes, essa desordem constituísse uma homenagem propriamente idólatra aos Baals e às Aserás ou que, despojada de sua significação religiosa, não fosse mais que devassidão. É com semelhante reserva que convém assinalar a fabricação de ídolos, imagens ou representações simbólicas de Jahvé, cuja proibição, que remontava a Moisés, deve ser considerada um dos pontos mais notáveis do javismo primitivo. Os textos falam pouco disso para o período dos Juízes; só mencionam expressamente o ídolo de Miquéias, o efraimita. O efod de Gedeão não parece de modo algum ter sido uma estátua de Jahvé, como pretendem demonstrar demasiados críticos por deduções as menos satisfatórias; sabemos que o efod era um instrumento para tirar as sortes sagradas; o que se acrescenta a isso não passa de conjectura. Quanto à expressão tão frequente « na presença de Jahvé », implica que se cria Jahvé mais particularmente presente num santuário, com as sortes ou na arca, como é natural, uma vez que se trata de lugares ou de objetos onde manifestava sua vontade e seu poder: ela não prova por si mesma que se estivesse então diante de um ídolo.

Sacrifícios humanos foram oferecidos ocasionalmente, talvez bastante cedo, em honra de Jahvé, à imitação do baalismo e apesar da proibição tradicional no javismo. Não se trata aqui, compreende-se, da imolação dos prisioneiros de guerra, que reclamava o rigor impiedoso do hêrém; semelhantes execuções, por mais rituais que fossem, pertenciam às leis da guerra tal como se fazia numa época em que a religião penetrava os atos coletivos do clã e da tribo. Mas o sacrifício humano propriamente dito, por motivos de ordem religiosa, praticou-se seguramente então em homenagem a Jahvé. Neste ponto, todavia, só temos um exemplo a fornecer e nos guardaremos de generalizá-lo. Mas esse exemplo é típico e, aliás, dos menos contestáveis. É o de Jefté, que imola de sua própria mão a filha única em seguida a um voto. Jud., XI, 34-40. Com certeza, o fato de se ter instituído uma festa anual para celebrar periodicamente a memória dessa imolação mostra à evidência até que ponto ela havia impressionado os espíritos e, por conseguinte, quão excepcional era esse sacrifício. Nem por isso deixa de ser verdade que javistas fervorosos, como era esse Jefté, podiam decidir-se a servir seu Deus da maneira como seus vizinhos pagãos honravam os seus, e que essa devoção, que se desviava longe da religião autêntica, provocava por vezes nos espíritos uma mistura equívoca de horror e admiração.

Mencionemos enfim o uso dos terafim, que deviam servir de oráculos domésticos, e a introdução, ou antes a difusão, nessa época dos Juízes, das práticas de feitiçaria e de necromancia tão caras a toda a antiguidade. Os filisteus, que se entregavam à adivinhação, contribuíram talvez também para espalhar o uso dela no país que ocupavam e sobretudo nas regiões onde, como entre os danitas, se misturavam pacificamente aos hebreus. Saul, provavelmente por instigação de Samuel, promulgará um pouco mais tarde um decreto de expulsão contra os feiticeiros e os evocadores de mortos; mas sabe-se que quase não será obedecido, tanto gosto tinha o povo por essas práticas, e que ele próprio irá secretamente pedir a uma necromante que lhe levante, sobre a sorte que o aguardava, um canto do véu que Jahvé obstinadamente mantinha abaixado. I Sam., XXVIII, 7-25.

Se esses diversos pormenores representam com bastante exatidão os diversos traços das deformações sofridas pelo javismo na massa do povo hebreu no decorrer do período dos Juízes, importa contudo não encarar este quadro de conjunto como a imagem da vida religiosa de todo o país hebreu num mesmo momento. Na realidade, os traços deste quadro deviam aparecer mais esparsos. A « canaanização » das ideias e dos ritos não se operava em toda parte de maneira nem de ritmo uniformes. Aqui, a sensualidade podia dominar, ao passo que ali dominava a preocupação da terra e do rebanho.

Nos santuários frequentados num raio de várias léguas, o culto se havia enriquecido sem dúvida em razão da afluência dos peregrinos; podia permanecer mais próximo de seu tipo hebraico em certos santuários isolados e nos cantões onde os javistas, mais numerosos que os cananeus, mantinham estes à parte. Além disso, essa transformação, quando se operava, não avançava em toda parte com passo igual. Ora rápida, ora lenta, ora passageira e logo conjurada, ora profunda e logo definitiva, levou, a bem dizer, vários séculos para contaminar todo o país de Israel. Mas parece ao menos que essa obra nefasta estava mais que esboçada quando terminou o período dos Juízes, depois de meados do século XI antes de Jesus Cristo.

— 2º As forças de resistência do javismo. Apesar de uma adaptação parcial que facilmente se constata, Israel conseguiu não se fundir num Canaã simplesmente renovado, como haviam feito os diversos elementos de população que se tinham estabelecido no país no curso dos séculos anteriores à sua chegada; permaneceu ele mesmo, guardou a sua individualidade, constituiu em Canaã um povo novo. Essa estabilidade impressiona o historiador. Não se pode deixar de sentir que Deus velou sobre Israel para assegurar a sua sobrevivência e o cumprimento de seu destino; ajudou-o, em momentos difíceis, a permanecer um povo independente e a evitar, em sua religião, os desfalecimentos irremediáveis. As forças que foram postas em obra para obter esse resultado poderiam reduzir-se a três: o sentimento da unidade nacional; a ação dos levitas e a influência dos santos desses antigos tempos.

— 1. O sentimento nacional. Foi a mais geral das forças de resistência que o javismo autêntico opunha à ação nefasta da religião cananeia. As tribos hebraicas tinham consciência de que existiam mais laços entre elas do que entre elas e os outros povos, de que possuíam em comum um fundo de ideias e aspirações idênticas, de que a ajuda recíproca no tempo da conquista ou na hora de um novo perigo fora e continuava a ser para cada uma um dever, de que sua verdadeira destinação enfim só se realizaria por sua união completa e duradoura. Ora, esse sentimento nacional, que penetrava assim o mais íntimo da vida de Israel, derivava antes de tudo de uma ideia religiosa: a de que se era « o povo de Jahvé ». Considerável no domínio político, muito ativa no domínio moral, a influência desse sentimento foi particularmente benéfica no domínio religioso. A ideia de que a religião de Jahvé era o bem próprio e reservado de Israel nos parece uma ideia estreita; temos mesmo dificuldade em compreendê-la, porque o cristianismo nos familiarizou com a concepção alta e nobre da religião universal. Mas quem não vê que, partilhando com toda a antiguidade essa ideia de religião nacional, o Israel antigo estava mais em condições de conservar o seu monoteísmo? Pois, se suas crenças ainda o encerravam como em barreiras que impediam os outros povos de misturar-se a ele, encontrava nelas também uma proteção, já que o defendiam contra a tentação de aproximar-se deles.

Por isso o período dos Juízes, o dos começos da realeza e mesmo, pode-se dizer, a história inteira de Israel nos mostram que, todas as vezes que o sentimento nacional se exasperava sob a pressão de um perigo que ameaçava um grupo ou a totalidade das tribos hebraicas, era para salvar a honra de Israel, mas era em nome da unidade religiosa que se levantava para enfrentá-lo; a cada sobressalto nacional correspondia um renascimento religioso. Viram-se muitos exemplos disso por ocasião dos fatos lembrados acima. A guerra só se fazia em nome e com o auxílio de Jahvé; por isso a vitória, que correspondia à fé das tribos, era verdadeiramente um triunfo para Jahvé, um renascimento para a religião de Israel, uma derrota para as religiões pagãs.

— 2. Os levitas. Representantes oficiais do javismo mosaico, detentores das taras ou instruções divinas, guardiões das orações e dos ritos tradicionais, consultores titulares e, de direito, exclusivos do efod-oráculo. Trabalharam sem demasiados desfalecimentos para conservar o javismo em sua integridade e em sua unidade. Se tiveram êxito numa parte importante, deveram-no primeiramente ao fato de que a massa do povo queria antes de tudo permanecer fiel a Jahvé, o deus da nação; uma vez que se queria servi-lo, recorria-se àqueles que, melhor que outros, podiam indicar-lhe os meios. Deveram-no também a esta circunstância providencial de que, sozinhos entre os hebreus, não possuíam grandes territórios em Canaã. Assim, aqueles dentre eles que não haviam podido obter algum desses benefícios invejados que se transmitiam de pai para filho, como eram, por exemplo, o santuário renomado de Silo na Montanha de Efraim ou o de Dã perto das fontes do Jordão, não hesitavam em tornar-se levitas errantes; caminhavam de cidade em cidade, de povoado em povoado, procurando onde colocar-se, onde explorar, em seu proveito e no da cidade ou do particular que os contratasse, a experiência religiosa hereditária em sua casta. Como eram apreciados, eram bem acolhidos; se as ofertas de salário, de sustento e de consideração lhes agradavam, instalavam-se a título de gér ou de estrangeiro domiciliado na tribo que se tornava assim sua pátria por algum tempo; se lhes ofereciam ou se esperavam coisa melhor alhures, retomavam o caminho e iam buscar fortuna mais longe. Cf. Jud., XVII e XVIII; XIX. Esses ambulantes do javismo tradicional, da mesma maneira que o farão para as suas ideias os confrades errantes da Idade Média, levavam e propagavam assim por todo o país povoado de israelitas as crenças, os ritos, as orações, as práticas, as decisões de um javismo de bom quilate, e contribuíam, na medida em que eles próprios lhe eram fiéis, para fazê-lo melhor conhecido entre seus irmãos e conservá-lo indene das infiltrações da religião cananeia.

— 3. A ação de personalidades religiosas. Outros javistas, que não pertenciam à tribo de Levi, secundavam os levitas com sua fé arrebatadora e o prestígio de seus altos feitos.

Uma Débora, um Gedeão, um Samuel não eram somente heróis e artífices de vitória; foram personalidades religiosas poderosas, cuja fé, palavra, ação e santidade contrabalançaram a influência nefasta do paganismo cananeu e mantiveram ou reavivaram a influência benfazeja da religião nacional. Ao lado desses javistas que seu papel assinalou à história, existiam outros que ela só menciona em poucas palavras ou que esqueceu por completo. Dispersos na massa, alheios às suas faltas, obscuramente fiéis às práticas e aos costumes antigos, eram, no seio do povo, como o fermento do javismo autêntico. Os textos quase não falam deles. Mas aqui ou ali, no entanto, encontram-se esses pequenos fatos significativos que bastam para pôr em luz as disposições íntimas dessas nobres almas. Os pais de Sansão e os de Samuel, o velho sacerdote Eli e sua nora, mulher de Finéias, são exemplos de piedade profunda e de tenaz apego a Jahvé. Pode-se bem pensar que semelhantes fiéis não faltavam então em Israel, e vê-se bastante que, modesta e silenciosa, sua ação não foi de medíocre eficácia para a conservação, ao longo dos séculos e em meios muitas vezes refratários, do espírito javista e dos costumes tradicionais. Era entre essas famílias que o fervor da religião suscitava vocações em que o javismo antigo reaparecia sob formas ainda mais acentuadas.

Durante o período dos Juízes, os nabis populares não nos são assinalados longamente pelos textos de que dispomos. Só a partir da realeza nascente é que começarão seu papel, cujo vigor intrépido decuplicava a benfeitoria. Na falta dos nabis, cabe assinalar os nazireus, isto é, os « consagrados ». Sansão e também Samuel, sem dúvida, são os seus representantes para o presente período. O homem consagrado o era às vezes por seus pais « » desde antes de seu nascimento. Devia, em geral, trazer toda a cabeleira e talvez abster-se de bebidas fermentadas. Havia nisso mais que uma abstinência de penitente, mais que uma fantasia de asceta. Na realidade, na submissão voluntária a essa dupla prática, exprimia-se a intenção, mas uma intenção sem dúvida então das mais confusas, de manter, no serviço de Jahvé, formas exteriores consagradas por certas tradições cuja origem seria preciso buscar nas idades mais recuadas. A cabeça rapada talvez e, mais seguramente, o uso das bebidas fermentadas marcavam, com efeito, a aceitação dos costumes próprios das populações sedentárias; renunciar a isso era voltar em certa medida aos costumes mais antigos, aos do tempo em que os patriarcas, pais da nação, e os antepassados contemporâneos da revelação mosaica levavam ainda em grande parte a vida nômade ou conservavam ao menos, no culto do Deus a quem serviam, práticas rituais todas penetradas da simplicidade e da austeridade do deserto.

Esses poucos pormenores que nos fornecem textos demasiado parcimoniosos provam suficientemente que a verdadeira religião não estava, no tempo dos Juízes, timidamente escondida em alguns santuários bem fechados e, melhor ainda, que não havia desaparecido, como por vezes se dá a entender demais. Na realidade, a vida javista, ora desabrochando, ora tornando-se obscura, penetrava, insinuava-se, mostrava-se ou adivinhava-se por toda parte; e por toda parte tinha ainda bastante vigor e austeros atrativos para contrabalançar a influência exercida pela vida pagã, que se exibia odiosamente nessa terra sensual de Canaã.

3º A vida religiosa. Graças à influência dos princípios e à ação dos homens de que acaba de se falar, a unidade do javismo se mantivera em Canaã no tempo dos Juízes, unidade bem notável se a pomos em paralelo com a fragmentação religiosa que repartira o Canaã pagão entre suas múltiplas divindades locais: um só e mesmo Deus, um culto uniforme, prescrições morais e rituais de teor e de obrigação idênticos para todos os hebreus fiéis ao seu dever, eis o que esse país, por exíguo que fosse, ainda não vira no curso de sua longa história. Faltava-lhe, contudo, ainda alguma coisa. Teria sido ver o culto centralizado num santuário único e todos os hebreus irem ali levar suas homenagens e suas oferendas a Jahvé. Embora não seja esse um ideal cuja altura ou importância nossa época ou nossas ideias nos façam apreciar muito, era-o para essas idades recuadas, cujas vistas religiosas diferem em mais de um ponto tão profundamente das nossas. Essa unidade cultual devia, em suma, exprimir e salvaguardar ao mesmo tempo a unidade do Deus servido, a unidade das crenças e dos ritos, a unidade do próprio povo na ordem nacional.

Mas, durante o período dos Juízes, se se fizeram alguns ensaios nesse sentido, como, por exemplo, a tentativa efraimita em favor do santuário de Silo (Jos., XXII, 9-34), a realidade permanecia ainda extremamente distante do ideal quase atingido no tempo de Moisés. A unidade cultual, com efeito, achava-se estorvada pela multiplicidade dos lugares santos que se frequentam, pela obscuridade em que parece mergulhada a arca, pela extensão do território hebreu que complica as peregrinações ao centro, pela sobrevivência de práticas religiosas particulares a famílias ou a cidades, enfim pela ereção de novos altares que os mais santos personagens erguem em honra de Jahvé. Essa situação religiosa não corresponde ao que teria sido se as leis do Pentateuco atual tivessem sido observadas. Tirou-se daí a conclusão de que essas leis não estavam formuladas, como se a prática numa nação não fosse de fato senão o decalque da lei na realidade. Digamos antes que a lei mosaica não tinha então nem toda a amplitude nem toda a autoridade que adquirirá mais tarde, que representava um ideal sacerdotal que as populações pouco instruídas e nem sempre bem dispostas não se preocupavam muito em seguir, que os pormenores propriamente religiosos que se podem extrair de narrativas de batalha não poderiam representar por si sós toda uma situação religiosa e, enfim, que grande número dessas narrativas teve por autores personagens que, não pertencendo aos meios sacerdotais, nem sempre atribuíam importância de primeiro plano às questões propriamente sacerdotais.

O próprio sacerdócio não apresentava o aspecto que lhe dão as ordenações mosaicas. Quanto à oblação do sacrifício, em particular, permanecia-se mais ou menos nos costumes patriarcais, nos quais o xeique, reunindo em si todos os poderes que mais tarde se dissociarão, considerava-se o sacrificador em sua família. Aos levitas, contudo, pertencem como próprias funções sacerdotais que ninguém lhes contesta: só eles interrogam o éfode-oráculo, e só eles tocam e carregam a arca. Eram essas duas funções criadas especialmente pelo javismo mosaico, daquelas inovações religiosas que a era patriarcal não havia conhecido e cujo exercício os chefes de família não se arrogavam. Só com o tempo, graças ao prestígio do templo de Jerusalém, ao apoio da realeza e ao favor das reviravoltas políticas, é que os sacerdotes chegarão efetivamente a possuir a categoria e as funções que lhes atribuem os códigos mosaicos.

4° As ideias religiosas. — As ideias religiosas dos meios javistas na época dos Juízes não parecem ter ultrapassado o nível em que se encontravam no tempo de Moisés. Não aparece então nem revelação, nem grande ideia diretriz nova, nem mesmo uma forte personalidade religiosa; Samuel só desempenhará o papel que o põe fora de série nessa época na instituição da realeza. «A palavra de Jahvé era rara naquele tempo.» I Sam., iii, 1. O javismo vive em virtude do princípio divino que o anima, arrastado pelo impulso que Moisés lhe havia dado, sustentado pelo apego daqueles que lhe permanecem fiéis. Mas, tanto quanto podemos ver, ele não se desenvolve; resiste às forças adversas que o assaltam; subsiste com seus traços essenciais; é muito, dadas as circunstâncias.

Mas, se as crenças que ele impunha não eram muito mais desenvolvidas do que em suas origens, algumas delas, no entanto, ganharam então espontaneamente um pouco mais de importância ou, ao menos, de relevo. É sobretudo, ao que parece, a noção de Jahvé que, durante esse período, adquire maior precisão. Não é muito contestável que simples javistas, alheios ao meio levítico, onde a fé podia ser mais esclarecida, entrevejam então de modo mais explícito a concepção do monoteísmo. Não que suas ideias tivessem sido clarificadas por uma metafísica que não teria encontrado lugar em seu espírito; mas, mesmo ainda envolvidas nas maneiras de ver e de falar correntes naquela época, elas testemunham a elevação das convicções religiosas desses privilegiados da fé. Jefté, por exemplo, que fala do deus Camós, benfeitor de seu povo, como fala de Jahvé, benfeitor de Israel, não tem, contudo, a intenção de igualar esses deuses. Jud., xi, 24-28 e especialmente v. 21, 24, 27. Qualquer poder que atribua ao deus de Moab nos negócios dos moabitas, pretende muito bem que Jahvé, que não fez menos pelos seus, saberá obrigar o deus dos pagãos a respeitar os direitos dele. Para Jefté, Jahvé é o Deus de Israel; era a ideia antiga sancionada pelo pacto do Sinai; mas Jahvé estende seu poder para além das fronteiras do país que escolheu para si, e conseguirá resolver uma controvérsia que nem os homens nem Camós podem deslindar; mostra assim que não está no mesmo nível de seu rival, benfazejo sem dúvida, mas fraco e de uma espécie medíocre, que não é a sua. Há nessa crença de um javista que era um fervoroso cego, mas que, ao mesmo tempo, não passava de um soldadão, os elementos grosseiros e mal definidos da fé na transcendência do Deus dos hebreus.

A crença de Gedeão é menos rudimentar. Para ele, Jahvé aparece bem como Deus. A seus olhos, o Baal de Ofra, cujo altar vai derrubar e cuja asêrâ vai queimar, em seguida a uma visão noturna, evidentemente nada tem de deus; ele o despreza, insulta-o de bom grado. Pois, se hesita um instante em executar o seu golpe de audácia, não é por temer a vingança desse deus em quem não crê; é por temer as represálias dos baalistas, entre os quais contava parentes. Do mesmo modo, a atitude de seu pai, que enfrenta a multidão em fúria e que exige a morte do sacrílego, não passa, no fundo, de um desafio injurioso ao Baal: um deus que não sabe defender-se a si mesmo, que não toma em mãos a sua própria causa, não é senão um deus imaginário. Jud., vi, 25-32. Para os verdadeiros javistas e mesmo em parte para a massa, Jahvé era, pois, o único Deus que verdadeiramente contava. Por conseguinte, tudo o que os adoradores dos falsos deuses atribuíam de direitos e de poder às suas vãs divindades, o javista pensava muito bem que o seu Deus também o possuía. Sobre os bens da terra e do estábulo, Jahvé exerce tanto poder quanto o mais generoso Baal. Quanto aos sacrifícios humanos, e aos sacrifícios de crianças em particular, nos quais os baalistas deviam gabar-se de superar os fiéis de Jahvé por sua generosidade odiosa e cruel, o israelita sabia responder que o seu Deus não era menos exigente do que os deles. Jefté podia convencê-los disso imitando-os. Mas os hebreus retrucavam com mais nobreza, opondo a bondade de Jahvé à sede de sangue do Baal. Pois Jahvé também reclamava dos seus a oblação do primogênito do homem, como a oferta do primogênito do animal do rebanho. Mas, mostrando com isso o seu horror ao derramamento religioso de sangue humano, devolvia-os, logo que oferecidos, em troca de uma vítima de resgate que não os valia.

Jahvé testemunhava ainda o seu apego a seu povo pelas teofanias. As que relata o Livro dos Juízes são concedidas por intermédio do «Mensageiro (ou Anjo) de Jahvé» ou «de Deus». Esse personagem mostra-se à Casa de Israel, Jud., ii, 1-5; a Gedeão, Jud., vi; aos pais de Sansão, Jud., xiii. É também mencionado no cântico de Débora, Jud., v, 23, mas talvez, em razão da sobrecarga que ele traz ao verso, se devesse ler simplesmente «disse Jahvé», suprimindo «o Anjo de»; por outro lado, convirá restituí-lo, segundo o grego Alexandrinus, em Jud., iv, 8 (Barac e Débora). Nas duas teofanias de que são favorecidos Gedeão e os pais de Sansão, o mensageiro de Jahvé tem forma humana; conversa como um hóspede, mas recusa-se a comer a refeição que lhe é oferecida.

É somente quando ele desaparece de modo misterioso que seus interlocutores compreendem enfim que não tiveram de tratar com um homem, mas com um ser divino, cuja vista os expõe à morte. Nesses diversos casos, trata-se claramente de uma manifestação divina. Mas a natureza do mensageiro e sua relação com Jahvé permanecem bastante obscuras. Não só aqui, mas nas outras passagens em que aparece (só é mencionado para o período antigo da história de Israel), ora parece ser o próprio Jahvé que se manifesta, ora parece ser distinto de Jahvé. Por isso não é inverossímil que se deva distinguir, nas crenças que a ele se referem, duas ideias, de início distintas, que depois se fundiram. Nos períodos muito antigos pensava-se que Jahvé entrava em relação com os homens, ou manifestando-se pessoalmente a eles sob forma sensível, ou enviando-lhes, como faz um rei com seus súditos, algum mensageiro às suas ordens que o representava. Mas veio um tempo em que, tornando-se mais escrupuloso o respeito pela divindade, repugnou dizer que Jahvé, o ser inacessível e imaterial, tomava uma forma humana. Sob a inspiração dessa reserva, ter-se-iam retocado os relatos, orais ou escritos, fazendo intervir, mesmo ali onde primitivamente o próprio Jahvé aparecia, um mensageiro que tomava o seu lugar, falava, mandava e permanecia misterioso como ele. Essa maneira de ver poderia justificar-se por várias passagens em que Jahvé e seu anjo aparecem alternadamente (ver, por exemplo, Jud., vi, 14, 16, 23, Gedeão; xiii, 22, Manué) e por outras em que o acréscimo de «Anjo de» a «Jahvé», seja no hebraico, seja no grego, indica suficientemente o retoque intencional. Sobre essa questão, ver Gunkel, Genesis, 4e édit., p. 187; Lagrange, L'Ange de Jahvé, dans licime biblique, 1903, p. 212 sq.

Enfim, no que concerne à grande ideia religiosa que inspirou a redação do Livro dos Juízes em particular, a saber, que a opressão era um castigo da impiedade, o retorno a Jahvé um resultado da opressão, e a vitória a consequência do retorno a Jahvé, essa ideia histórico-religiosa não estava tão ausente do espírito dos hebreus desse período quanto às vezes se pretende. Sem dúvida ela não ocupa, por assim dizer, nenhum lugar nos relatos antigos utilizados pela redação; estes se limitam antes a narrar os acontecimentos, com preocupações religiosas sem dúvida, mas não com a intenção de sublinhar o caráter de castigo que os redatores atribuem, em suas introduções, às diversas opressões. Praticamente só Jud., v, 8: «ele (ou: escolheu?) escolheu outros deuses: então a guerra estava às portas», poderia, em um texto antigo, servir para apoiar a tese geral do Livro dos Juízes. Mas esse sentido, que nem a Vulgata nem o siríaco seguem, não está estabelecido de modo seguro, pois o texto está claramente em mau estado. Todavia, se essa tese não é apresentada pelos relatos antigos, não há motivo para duvidar de que estivesse ao alcance dos espíritos religiosos daquele tempo; ela domina toda a história da Antiguidade, para a qual uma calamidade, de qualquer natureza que fosse, era um castigo da divindade, e para a qual havia um só meio de aplacar a ira desta, a saber, servi-la melhor. Aliás, a ideia da retribuição do mal está suficientemente posta em luz por um texto antigo, Jud., ix, 16-20, 56, 57, a propósito de Abimeleque e dos siquemitas, e esse é um ponto de vista moral e religioso quase não diferente da tese dos redatores mais recentes do Livro dos Juízes.

I. Textos e Versões.

1° Texto hebraico. — Salvo quanto ao Cântico de Débora, Jud., v, o texto hebraico do Livro dos Juízes é relativamente melhor que o dos Livros de Samuel e, para as partes históricas, que os de Josué e dos Reis. Encontrar-se-á em Burney, The Book of Judges, 2e édit., p. cxxiii, cxxiv, uma lista das alterações e acréscimos que podem ser considerados estranhos ao texto primitivo e devidos a negligências de escribas ou à inserção de glosas.

2° Texto grego. — A edição mais completa e mais recente está contida em Brooke e Mac Lean, The Old Testament in Greek according to the Text of Codex Vaticanus, t. I, The Octateuch; part. iv, Joshua, Judges and Ruth, Cambridge, 1917. Essa edição foi precedida por The Book of Judges in Greek according to the Text of codex Alexandrinus, Cambridge, 1897, pelos mesmos dois autores. Essa dupla edição indica por si só a questão que o texto grego dos Juízes levanta. Esse texto é, de fato, representado por dois grupos de traduções que, segundo o parecer dos dois editores citados, provavelmente não representam nem uma nem outra o verdadeiro texto dos Setenta; este só poderia ser estabelecido por uma crítica textual que soubesse utilizar as diversas traduções, os restos das Héxaplas e o texto hebraico.

Os dois grupos de traduções gregas se repartem assim: 1° Alexandrinus A, Coislianus, Basilico-Vaticanus, Sarravianus, para os unciais; para os cursivos: o texto de Lagarde, em Librorum Veteris Testamenti canonicorum pars prior, Gœttingue, 1883, que se crê representar a revisão de Luciano, o da Poliglota de Alcalá, dos mss. 54, 59, 75, 82 de Holmes e Parsons, da edição veneziana — Aldina — e dos mss. 120, 121 de Holmes; 2° Vaticanus B, codex do British Muséum Add. 20 002, para os unciais; treze mss. de Holmes e Parsons e o texto impresso na Catena Nicephori, Leipzig, 1773. Essa classificação se deve a Lagarde (Septuaginta Studien, part. i, 1891) e a Moore. Quanto ao valor desses dois grupos, as conclusões gerais são assim resumidas por Burney, loc. cit., p. cxxvii: A e B representam traduções distintas de dois originais hebraicos diferentes, que apresentavam variações de detalhe importantes; aquele que B seguiu é mais próximo de nosso texto hebraico; aquele que A seguiu apresenta muitas leituras melhores; mas há todo motivo para crer que a tradução mais recente, seja A ou B, utilizou a mais antiga; a de A foi remanejada e contém vários doublets. Segundo as citações dos Padres, Moore tentou datar os dois principais grupos de versões; para ele, A seria a primeira em data. Mas esse juízo precisaria ser revisto.

3° Vulgata, Peshittà, Targum.

Essas três versões são muito próximas de nosso texto hebraico.

4° Outras versões. — Ao grupo grego A se ligam a armênia, a Vetus Latina, a siro-hexaplar e a etíope; ao grupo B, os poucos fragmentos conhecidos das versões sahídica e boaírica.

II. Comentadores. — 1° Padres. Orígenes, In Judices, P. G., t. xii, col. 345-350; In Judices homiliæ, ibid., col. 951-930 e em P. Batiffol, Tractatus Origenis (?), Paris, 1900; Adnotat. in Jud., P. G., t. xviii, col. 37-40; S. Efrém, In librum Jud., dans Opera, Roma, 1737, t. i, p. 308-330; S. Agostinho, Locutiones in Heptat., l. VII; Quæst. in Heptat., l. VII, P. L., t. xxxiv, col. 541-548, e 791-824; Teodoreto, In Jud., P. G., t. lxxx, col. 485-518; Procópio de Gaza, In Jud., ibid., t. lxxxvii a, col. 1041-1080; S. Isidoro de Sevilha, Quæst. in Jud., P. L., t. lxxxiii, col. 379-392.

2° Idade Média. Beda, P. L., t. xciii, col. 423-430; S. Paterio, Expositio, l. VI, t. lxxxix, col. 785-730; Rábano Mauro, t. cviii, col. 1109-1200; Valafrido Estrabão, Glossa, t. cxiii, col. 521-540; Ruperto, De Trinitate et operibus ejus. In libr. Jud., t. clxvii, col. 1023-1060; Hugo de São Vítor, Adnot. elucidatoriæ in libr. Jud., t. clxxv, col. 87-95; Hugo de Saint-Cher, Postilla, Colônia, 1621, 1. p. 195-214; Nicolau de Lira, Postilla, Veneza, 1588, ii; 1, Dionísio, o Cartuxo, Opera, Colônia, 1533, t. ii.

3° Modernos. 1° Católicos. Tostat, Opera, Colônia, 1613, t. v c; Arias Montanus, De varia republica, seu comment, in libr. Jud., Antuérpia, 1592; Marcellinus Evangelista, In libr. Jud., Veneza, 1598; Serarius, Judices et Ruth explanati, Mogúncia, 1603; Bonfrère, Josue, Judices, Ruth commentario illustrati, Paris, 1631 (reproduzido no Cursus Script. Sacræ de Migne, t. viii, col. 525-1114; Magalian, In Judices, Lyon, 1626; Villaroèl Judices commentariis.... illustrati, Madri, 1635; Vega, Comment., in Judices, 3 in-fol., Lyon, 1671; Fellibien, Pentateuchus historicus, Paris, 1704; Helbig, In lib. Josue, Judicum, Ruth, Colônia, 1717; Calmet, Commentaire, 2e édit., Paris, 1724, t. ii; Clair, Les Juges et Ruth, Paris, 1878; F. von Hummelauer, Comment, in lib. Jud. et Ruth, Paris, 1889; Neteler, Das Buch der Richter, 1900; Lagrange, Le livre des Juges, Paris, 1903; Zapletal, Das Buch der Richter, 1923.

2° Protestantes. Entre os modernos citemos Rosenmüller, Leipzig, 1835; Studer, Das Buch der Richter, 1835, 2e édit., 1842; Bertheau, Leipzig, 1845; Cassel, Das Buch der Richter, Bielefeld, 1865, 2° édit., 1887; Bachmann Das Buch der Richter, c. I-IV, 1868; Keil, Comment. über das A. T., t. iii a, Josua, Richter und Ruth, Leipzig, 1863, 2e édit., 1874; Black, The Book of Judges, Cambridge, 1892; Oettli, Deuteron., Josua und Richter, Munique, 1893; Budde, Richter und Samuel, Giessen, 1890; Moore, Judges, Edimburgo, 1895; Budde, Das Buch der Richter, Friburgo em Brisgóvia, 1837; Nowack, Richterbuch, 1900; Lias, The Book of Judges, Cambridge, 1902; Cooke, The Book of Judges, 1913; Burney, The Book of Judges, 2e édit., Londres, 1920.

III. Trabalhos. — Buhl, Kanaanäer und Hebräer, Leipzig, 1911; Breasted, Ancient Records of Egypt, t. iv, Chicago, 1907; L. Desnoyers, Histoire du peuple hébreu, t. i, La période des Juges, Paris, 1922; Dhorme, Les livres de Samuel, Paris, 1910; Driver, Notes on the Hebrew Text and the Topography of the Books of Samuel, 2e édit., Oxford, 1913; E. König, artigo Judges (Book of the) em Dictionary of the Bible, t. ii, p. 809-820; Lagrange, Études sur les religions sémitiques, 2e édit., Paris, 1905; Maspero, Histoire ancienne des peuples de l'Orient classique, t. ii, Paris, 1897; Moore, The Book of Judges, texto crítico, Leipzig, 1900, e tradução inglesa policrômica, W. Max (1898); Müller, Asien und Europa nach altägyptischen Denkmälern, Leipzig, 1893; H. P. Smith, The Book of Samuel, Edimburgo, 1899; W.R. Smith, The religion of the Semites, 2e édit., Londres, 1894; Stade, Geschichte des Volkes Israël, t. i, Berlim, 1887; Vincent, Canaan d'après l'exploration récente, Paris, 1907; Guthe, Geschichte des Volkes Israël, Tubinga, 1914; Kittel, Geschichte des Volkes Israël, Gotha, 1909.

L. Desnoyers

Autor original: L. Desnoyers

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