JUDEUS (Controvérsias com os). — Trata-se aqui apenas de um esboço: esboço incompleto, porque um assunto tão vasto não poderia ser aprofundado em algumas páginas; esboço incompleto, porque muitos textos, sobretudo orientais, ainda não foram publicados. Não se tratará da literatura relativa ao judeu-cristianismo e à questão da Páscoa, nem da polêmica dos judeus contra os cristãos, mas unicamente da polêmica dos cristãos contra os judeus. A divisão adotada é a da própria história do judaísmo pós-cristão. — I. Das origens ao triunfo da Igreja (313). O cristianismo e o judaísmo se separam, e o judaísmo toma parte, numa certa medida, nas perseguições contra os cristãos. — II. De 313 a 1100. O Estado, tornado cristão, começa a legislar contra os judeus; em geral, a aplicação das leis é antes benigna (col. 1876). III. De 1100 a 1500. A legislação antijudaica se agrava; os judeus são tratados com maior rigor e finalmente expulsos de quase todos os países da Europa ocidental (col. 1887). IV. De 1500 a 1789. Os judeus vivem no abatimento, mas aos poucos sua sorte se suaviza; a fermentação dos princípios que a Revolução francesa fará prevalecer prepara para eles tempos propícios (col. 1889). V. De 1789 aos nossos dias. É a época da emancipação civil, depois das lutas do antissemitismo (col. 1909).
Obras de conjunto. Não existe nenhum trabalho de conjunto satisfatório. Para a bibliografia, ver C. J. Imbonati, Bibliotheca latino-hebraica sive de scriptoribus latinis qui contra Judœos vel de re hebraica utcumque scripsere, Roma, 1694 (cheio de inexatidões); J. C. Wolf, Bibliotheca hebræa, Hamburgo, 1715, t. ii, p. 96-144; J. A. Fabricius, Delectus argumentorum et syllabus scriptorum qui veritatem religionis christianœ adversus atheos, epicureos, deistas seu naturalistas, idololatras, Judœos et mahummedanos lucubrationibus suis asseruerunt, Hamburgo, 1725 (cuidado); A. C. Mc Giffert, Dialogue between a Christian and a jew, Marburgo, 1889, p. 12-17 (defeituoso); J. Juster, Examen critique des sources relatives à la condition juridique des Juifs dans l'empire romain, Paris, 1911, p. 27-54, e Les Juifs dans l'empire romain, leur condition juridique, économique et sociale, Paris, 1914, t. i, p. 60-119 (numerosas informações, não ultrapassa o período dos Padres). Para o estudo das ideias, ver, com as três obras (superficiais) de K. Werner, Geschichte der apologetischen und polemischen Literatur der christlichen Theologie, 2ª ed., Ratisbona, 1889, 1. p. 2-84; Der heil. Thomas von Aquino, 1, Ratisbona, 1858, t. i, p. 623-663; Geschichte der neuzeitlichen christlich-kirchlichen Apologetik, 2ª ed., Ratisbona, 1889; J. Martin, L'apologétique traditionnelle, Paris, 1905, 3 vol. (interessante, um tanto sistemático); O. Zöckler, Geschichte der Apologie des Christentums, Gütersloh, 1907 (incompleto). Para o conhecimento do meio e das condições históricas em que se desenrolou a controvérsia, ver o historiador judeu H. Grätz, Geschichte der Juden, Leipzig, 1860-1875, 11 vol., trad. francesa abreviada de L. Wogue e M. Bloch, Paris, 1882-1897, 5 vol.; F. Vernet, Juifs et chrétiens, no Dictionnaire apologétique de la foi catholique, Paris, 1915, t. ii, col. 1651-1764.
I. DAS ORIGENS AO TRIUNFO DA IGREJA (313). — 1° Os escritos. 1. Escritos conservados. Toda a polêmica antijudaica está em germe no Novo Testamento, sobretudo em são Paulo; a carta aos Gálatas pode ser considerada o primeiro monumento dessa literatura. Cf. E. F. Scott, The apologetic of the New Testament, Nova York, 1907; E. Monier, Les débuts de l'apologétique chrétienne. L'apologétique des apôtres avant saint Jean, Briguais, 1912, p. 3-43. Além do Novo Testamento, chegaram até nós, no todo ou em parte: Αἱ διαθῆκαι τῶν ιβ' πατριαρχῶν, Os testamentos dos doze patriarcas, P. G., t. ii, col. 1037-1150, e, melhor, ed. R. H. Charles, Oxford, 1908; trad. francesa em Migne, Dictionnaire des apocryphes, Paris, 1856, t. i, col. 853-936. Apócrifo de origem judaica, com importantes interpolações cristãs, talvez do fim do século I, tendente a fazer os judeus reconhecerem o Cristo. Pseudo-Barnabé, 'Επιστολή, P. G., t. ii, col. 727-782 (texto grego incompleto «os c. i-iv e uma metade do c. v descobertos por Tischendorf em 1859), e edição completa e trad. Hemmer-Oger-Laurent, em Les Pères apostoliques, Paris, 1907, 1. p. 30-101; escrita entre 117 e 137. Ver t. ii, col. 416-422.
S. Justino, Πρὸς Τρύφωνα 'Ιουδαῖον διάλογος, P. G., t. VI, col. 471-800, e ed. e trad. G. Archambault, Paris, 1909, 2 vol.; escrito por volta de 155. Tertuliano, Adversus Judœos, P. L., t. ii, col. 597-642; escrito, entre 200 e 206, a propósito de uma discussão recente, sem dúvida em Cartago, entre um cristão e um prosélito judeu, sobre a questão de saber se os gentios estavam excluídos das promessas divinas. Supôs-se, sem provas válidas, que apenas os oito primeiros capítulos seriam autênticos e que o restante não passaria de uma pesada compilação feita sobretudo com fragmentos do Adversus Marcionem. Clemente de Alexandria, Στρωματεῖς, l. VII, c. xv, cf. xviii, P. G., t. ix, col. 524, 553-558, anuncia que vai responder aos gregos e aos judeus que objetam contra o cristianismo as discussões dos hereges; escritos entre 202 e 211. S. Hipólito (f depois de 235), Ἀποδεικτικὴ πρὸς Ἰουδαίους, P. G., t. x, col. 787-794, apenas um fragmento, cuja autenticidade não é incontestável. Orígenes, ao compor seus Ἑξαπλᾶ Βιβλία, P. G., t. xv-xvi (fragmentos), concluídos por volta de 245, quis fornecer o meio de conhecer o texto hebraico e de citá-lo, na controvérsia com os judeus, e tirar destes um motivo de zombaria de que se valiam, porque se julgavam autorizados a acusar de ignorância seus contraditores.
Cf. sua Ἐπιστολὴ πρὸς Ἀφρικανόν, n. 5, P. G., t. xi, col. 60-61. No Κατὰ Κελσοῦ, por volta de 244-249, refuta o que Celso, por um desastrado procedimento de retórica, põe nos lábios de um judeu contra o Cristo e contra os judeus convertidos ao cristianismo. Cf. præf., c. vi ; l. I, c. xxviii ; l. II, c. i, P. G., t. xi, col. 650, 713, 792. S. Cipriano, Testimonia ad Quirinum, P. L., t. iv, col. 679-780, antes de 250, em três livros, dos quais os dois primeiros agrupam metodicamente passagens da Escritura, para estabelecer a decadência dos judeus, a vocação dos gentios e a verdade do cristianismo. À sequência das obras de são Cipriano inseriram-se muitas vezes os três pequenos tratados contra os judeus que se seguem; não são dele. De montibus Sina et Sion, P. L., t. iv, col. 909-918; essas duas montanhas representam, a primeira, o Antigo e, a outra, o Novo Testamento. A obra é talvez da primeira metade do século III e verossimilmente de procedência africana. Adversus Judœos, P. L., t. iv, col. 919-926; um discurso, que foi ligado ao meio de Novaciano. Ad Vigilium episcopum de judaica incredulitate, P. L., t. iii, col. 119-132, carta de envio da tradução do Diálogo de Aríston de Pela, que reencontraremos dentro de um instante; o autor é um Celso, aliás desconhecido, que viveu talvez no século II. Ver t. i, col. 1868; t. col. 2465. Lactâncio, Divinarum institutionum, l. IV, c. ii, P. L., t. vi, col. 452, por volta de 311, adverte que este livro IV, que trata da verdade do cristianismo, é contra os judeus. Cf., do mesmo, Epitome divinarum institutionum, c. xlii-li, P. L., t. vi, col. 1048-1058. Comodiano, talvez judeu de origem, parece dever ser mantido no século III ou, o mais tardar, no IV, apesar das tentativas feitas para rejuvenescê-lo. Cf. A. d'Alès, Commodien, em Recherches de science religieuse, Paris, 1911, t. ii, p. 480-520. O título de seu escrito Carmen apologeticum adversus Judœos et gentes foi imaginado por seu editor, o futuro cardeal Pitra, Spicilegium Solesmense, Paris, 1852, t. i, p. xxi, e não indica com muita exatidão o seu conteúdo; mas nessa obra, e mais ainda em suas Instructiones, P. L., t. v, col. 189-262, Comodiano expõe as razões que existem, para os pagãos e os judeus, de abraçar o cristianismo. Ver t. iii, col. 412-419.
2. Escritos perdidos. Aríston de Pela, Ἰάσωνος καὶ Παπίσκου ἀντιλογία περὶ Χριστοῦ, entre 135 e 165. Este escrito, cujo título Orígenes dá em Κατὰ Κέλσου, l. IV, c. lii, col. 1113, e que foi célebre na antiguidade cristã, não foi conservado, nem tampouco sua tradução latina por um Celso mencionado acima. A. Harnack, Die Altercatio Simonis judœi et Theophili christiani, Leipzig, 1883, supôs que o Diálogo de Aríston serviu de base à Altercatio e foi utilizado por vários controversistas posteriores. Essa hipótese teve eco. Ver t. i, col. 1869. F. Corssen, Die Altercatio Simonis judæi et Theophili christiani auf ihre Quellen geprüft, Berlim, 1890, demonstrou que ela não era fundada no que se refere à Altercatio Simonis et Theophili, e o próprio Harnack aceitou essas conclusões. Cf. T. Zahn, Forschungen zur Geschichte des neutestamentlichen Kanons und der altchristlichen Litteratur, Erlangen, 1891, t. iv, p. 308-329. Tampouco está provado que Aríston tenha servido de fonte aos diálogos entre um judeu e um cristão publicados por A. C. Mc Giffert e F. C. Conybeare, dos quais falaremos mais adiante, ainda que assim tenham pensado os editores. S. Melitão de Sardes, por volta de 150, Ἐκλογαί, em seis livros, extratos de Moisés e dos profetas concernentes ao Cristo. Eusébio, H. E., l. IV, c. xxvi, P. G., t. xx, col. 396-397, cita-lhe o prefácio, uma carta a um cristão chamado Onésimo, que contém o catálogo dos livros do Antigo Testamento. S. Apolinário de Hierápolis, antes de 180, Πρὸς Ἰουδαίους, em dois livros. Cf. Eusébio, l. IV. c. xxvii, col. 397. O apologista Milcíades, antes de 190, Πρὸς Ἰουδαίους. Cf. Eusébio, l. V, c. xvii, col. 470. S. Serapião de Antioquia, uma carta a um Domnino que, tendo fraquejado na perseguição de Setímio Severo (202), passara ao judaísmo. Cf. Eusébio, l. VI, c. xii, col. 544-545. Amônio de Alexandria, de quem Orígenes foi ouvinte, Περὶ τῆς Μωϋσέως καὶ Ἰησοῦ συμφωνίας. Cf. Eusébio, l. VI, c. xix, col. 568.
3. Escritos problemáticos. Não sabemos se Lactâncio realizou o seu propósito, Divin, institut., l. VII, c. i, P. L., t. vi, col. 739, de combater os judeus num tratado especial. J. Rendel Harris, Testimonies, Cambridge, 1916, 1. 1, constatando encontros, no emprego do argumento escriturístico, entre Justino, Tertuliano e os outros escritores que combateram o judaísmo, julgou poder concluir que esse acordo se explicaria pela existência de uma coletânea de testemunhos do Antigo Testamento, na qual todos teriam bebido. Essa coletânea não seria outra senão os Logia compilados, segundo Papias, em Eusébio, l. III, c. xxxix, col. 300, por são Mateus em língua hebraica, fonte não somente dos escritores eclesiásticos, mas ainda dos do Novo Testamento. Desses antigos Logia de são Mateus teríamos uma refundição grega num manuscrito do século XVI (no mosteiro de Iveron, no monte Atos), que contém um escrito de um monge Mateus contra os judeus; esse nome velaria a personalidade do apóstolo. Até melhor informação, apesar da erudição e da engenhosidade despendidas para torná-las aceitáveis, essas hipóteses parecem inconsistentes. No máximo poder-se-ia admitir como possível a existência de uma coletânea de testemunhos anteriores aos de Cipriano e de Melitão de Sardes; mas isso mesmo é puramente conjetural. Cf. A. d'Alès, Testimonia et Logia, nas Recherches de science religieuse, Paris, 1917, t. viii, p. 303-326. Sobre outras hipóteses concernentes à existência dessa coletânea, ver Ireneu, t. vii, col. 2516.
4. Escritos em que os judeus são combatidos indiretamente. Além dos escritos que atacam diretamente os judeus, há bom número deles que não se dirigem a eles, mas que os combatem de passagem, ou de modo indireto, pelo fato de refutarem algumas de suas doutrinas essenciais. É o caso de todas as obras de apologética cristã. O autor da Carta a Diogneto expõe que os cristãos não observam o culto dos judeus porque é pueril e indigno do verdadeiro Deus. Ver t. iv, col. 1366-1309. A prova, pelas profecias, da divindade do Cristo e do cristianismo ocupa grande lugar não somente no Diálogo com Trifão de são Justino, mas ainda em sua primeira Apologia. Cf. J. Martin, L'apologétique traditionnelle, Paris, 1905, t. i, p. 14-21. O mesmo em santo Ireneu. Ver t. vii, col. 2464-2466. O autor do Contra hœreses põe em relevo, em todo o livro IV, a unidade e a continuidade de Israel e da Igreja. Cf. A. Dufourcq, Saint Irénée (La pensée chrétienne), Paris, 1905, p. 3-5, 173-211. O Adversus Marcionem de Tertuliano desenvolve, sob uma forma um pouco diferente, o argumento das profecias messiânicas apresentado em seu Adversus Judœos. Cf. A. d'Alès. La théologie de Tertullien, Paris, 1905, p. 9. O livro IV do Περὶ Ἀρχῶν de Orígenes recomeça a demonstração de Ireneu sobre as relações entre os dois Testamentos; assinalem-se sobretudo os c. i-v, P. G., t. xi, col. 344-352, sobre a divindade do cristianismo provada pelo cumprimento das profecias na pessoa e na obra do Cristo.
2° O caráter dos escritos. Os escritos contra os judeus têm por autores judeus convertidos (o pseudo-Barnabé), pagãos convertidos (são Justino), cristãos de origem, leigos (provavelmente são Justino), padres, bispos. Quase todos os gêneros ali estão representados: tratados didáticos, diálogos, coletâneas de textos, escrito judaico interpolado, cartas, discursos, prefácio de uma tradução, poesia, crítica textual e exegese da Bíblia, escritos que se dirigem direta e exclusivamente aos judeus e escritos em que eles aparecem apenas acessoriamente e por contragolpe. Os Diálogos de Aríston de Pela e de são Justino saíram de uma controvérsia real entre cristãos e judeus, ou é preciso ver em sua forma dialogada um simples procedimento literário? Não se sabe. O judaísmo ignorou primeiro sistematicamente o cristianismo. Mas isso não podia durar; judeus e cristãos se encontraram. É em seguida a uma discussão entre um cristão e um prosélito judeu que Tertuliano escreveu o Adversus Judæos. Orígenes, Κατὰ Κέλσου, l. I, c. xlv, cf. xlix, lv, lvi, P. G., t. xi, col. 744, 753, 761, 764, fala de discussões que teve com rabinos, na presença de uma multidão que devia ser juíza da luta, e, se empreendeu os Hexaplos, foi para munir os cristãos de armas de boa lei na controvérsia com eles. No que se refere a são Justino, Eusébio, H. E., l. IV, c. xviii, P. G., t. xx, col. 376, diz que seu Diálogo nasceu de uma discussão que teve, em Éfeso, «com o mais célebre dos judeus daquele tempo». Tratar-se-ia do famoso rabi Tarfon, de Lida? É possível, não é seguro. Em todo caso, o Diálogo só foi composto por volta de 152, cerca de vinte anos depois da data em que a discussão é suposta ter ocorrido.
3° O conteúdo dos escritos. 1. Parte positiva da controvérsia. a) O argumento profético. O argumento tirado das profecias e de seu cumprimento é o essencial da polêmica antijudaica. A Escritura anuncia que a Lei seria ab-rogada, que os judeus seriam rejeitados como povo de Deus e que os gentios tomariam o seu lugar. Jesus de Nazaré é o Filho de Deus encarnado, o Messias esperado; ele realizou as profecias messiânicas, elas se aplicam a ele em seus menores detalhes. Essas duas ideias formam a divisão dos dois primeiros livros dos Testimonia de são Cipriano (o 3º diz respeito à prática da vida cristã). Reencontram-se elas, embora numa ordem um pouco diferente e aliás bastante flutuante, no Diálogo com o judeu Trifão: caducidade da Lei, divindade do Cristo, vocação dos gentios. Voltam por toda parte.
b) O fato da Igreja. As profecias não se separam da Igreja. A perfeição da Igreja, a excelência de sua doutrina, sua propagação maravilhosa apesar de todos os obstáculos e contrariamente a todas as previsões humanas, garantem a origem divina do cristianismo. As profecias, é a Igreja que, ao mesmo tempo, as realiza, as explica e as justifica.» J. Martin, L'apologétique traditionnelle, t. i, p. 35; cf. belos textos, p. 13-14, 17-18, 22-24, 33-31 (são Justino); p. 77-78 (Clemente de Alexandria); p. 92-93, 97-99, 101-114 (Orígenes).
c) Necessidade das disposições morais. Além disso, as profecias são difíceis, muitas vezes obscuras. Deus as torna inteligíveis aos que estão bem dispostos. Para entendê-las, para discernir seu cumprimento, é preciso uma alma preparada, humilde, desprendida de si mesma. «Somente o homem verdadeiramente sábio no Cristo está em condições de expor a sequência dos discursos proféticos obscuros e embaraçados», diz Orígenes, Κατὰ Κέλσου, l. VII, c. xi, P. G., t. xi, col. 1130. E igualmente, quanto ao Evangelho, observa, l. I, c. xlii, col. 737, que «a leitura dessa história exige uma alma sincera, uma pesquisa atenta e, se é permitido falar assim, a aptidão para penetrar no espírito dos escritores». Cf. J. Martin, t. i, p. 14-35 (são Justino); 82-85 (Tertuliano); 90 (são Cipriano); 92-114 (Orígenes).
2. Parte negativa. Refutam-se os argumentos dos judeus. a) O abandono da Lei. Repele-se a queixa tirada desse abandono. Insiste-se no fato de que os judeus, fiéis pela primeira vez ao Deus de seus pais e apegados à lei cerimonial, estão reduzidos à impotência de praticá-la, visto que o acesso ao templo lhes é interditado. E indica-se o duplo papel das observâncias do Antigo Testamento, pedagógicas e figurativas: pedagógicas, tinham por finalidade impedir os judeus de cair no esquecimento de Deus e na idolatria; figurativas, representavam e esboçavam de antemão as realidades superiores da fé cristã. Cf. K. Werner, Geschichte der apologetischen und polemischen Literatur der christlichen Theologie, 2ª ed., Ratisbona, 1889, 1. p. 50-1, 58, 67-72.
b) A Trindade divina. Afasta-se a censura de destruir a unidade divina de natureza ao afirmar a trindade das pessoas e, muito particularmente, a divindade do Cristo. Ponto importante, o único a que se referem os raros vestígios de polêmica que se encontram nos escritos dos rabinos. Cf. M. J. Lagrange, Le messianisme chez les Juifs, Paris, 1909, p. 295-300.
c) A vida e a morte do Cristo. Livra-se facilmente da objeção tirada do suplício ignominioso infligido ao Cristo, de sua vida pobre e humilde, que não escapa à calúnia e ao ultraje grosseiro. Esses ataques dos rabinos, simplesmente odiosos, foram conhecidos de Justino, de Tertuliano, de Orígenes, do mártir Pionio. Cf. H. L. Strack, Jesus, die Häretiker und die Christen nach den ältesten jüdischen Angaben, Leipzig, 1910, p. 8-10, 14. Celso os põe na boca do judeu que faz falar contra o cristianismo; são rebatidos como merecem por Orígenes.
4° O valor dos escritos.
Nem tudo tem igual valor nesses escritos, mas os bons materiais não faltam. A coletânea de são Cipriano é útil. O Diálogo com Trifão, até o Adversus Judæos de Tertuliano, que não é sua melhor obra, e o tratado de Orígenes Contra Celso deram à apologia do cristianismo uma parte de sua forma definitiva. O problema das relações entre o Antigo Testamento e o Novo é exatamente resolvido. O argumento das profecias leva em conta, com razão, o conjunto bíblico: é o Antigo Testamento inteiro, e não tal ou qual documento isolado ou mais ou menos discutível, que dá testemunho do Novo Testamento inteiro. Além disso, os antigos controversistas compreenderam bem que a força probante do argumento profético exige, para ser aceita, boas disposições de alma e que o fato da Igreja garante a divindade de sua origem. Muito justa é a ideia que desenvolvem, e que será constantemente retomada, de que várias das observâncias capitais da Lei mosaica se tornaram de execução materialmente impossível depois da destruição do templo.
Notemos ainda que são Justino está a par da exegese judaica; Orígenes conhece o hebraico, conversou com rabinos, e seus Hexaplos foram uma obra científica de alcance considerável. Infelizmente os outros controversistas não souberam hebraico; era uma inferioridade não poder recorrer ao texto original. Além disso, o texto dos Setenta que empregaram tinha interpolações, e sua exegese foi por vezes falha; ao lado de interpretações perfeitamente fundadas, oferecem outras duvidosas, errôneas, pueris. A sutileza excessiva e o alegorismo intemperante estragam em alguns pontos os escritos de Justino, de Tertuliano e de Orígenes; quanto mais os dos outros: o pseudo-Barnabé, por exemplo, e o autor do De montibus Sina et Sion excedem em demasia. Sem dúvida os rabinos apreciavam o mesmo método alegórico, que consistia em deduzir dos menores detalhes de um texto conclusões dogmáticas. Mas, em matéria de alegoria, o difícil não é achar; é fazer os outros aceitarem o que se acha. No ardor da luta e nessa febre de alegoria, alguns sacrificam indevidamente o Antigo Testamento: ao ler o pseudo-Barnabé e a Carta a Diogneto, acreditar-se-ia que as observâncias judaicas foram vãs e que o culto que os judeus prestaram a Deus é quase assimilável à idolatria. Enfim, o tom desses escritos é bastante duro e, por intervalos, virulento, especialmente no pseudo-Barnabé, em Tertuliano, no Adversus Judæos do pseudo-Cipriano, em Comodiano. A invectiva é uma arma má para ganhar os adversários e, quando o pseudo-Cipriano termina seu Adversus Judæos, P. L., t. iv, col. 924-925, convidando os judeus a se converterem, percebe-se que se saiu mal. São Justino, que em toda a linha leva vantagem, apesar da falta de composição e de certa falta de jeito literário, sobre os escritores antijudaicos desse período, é ele de temperamento irênico. Se ressalta com vigor os excessos dos judeus, tem por eles e lhes testemunha uma caridade evangélica: «Nós não vos odiamos, diz ele, nem aqueles que receberam de vós a má opinião que têm de nós, mas rezamos para que todos vós obtenhais misericórdia.» Dial., c. cviii, cf. xviii, xcvi.
Trabalhos. A. Harnack, Die Altercatio Simonis judæi et Theophili christiani nebst Untersuchungen über die antijüdische Polemik in der alten Kirche (Texte und Untersuchungen, t. i, fasc., 3), Leipzig, 1883; Judentum und Judenchristentum in Justin's Dialog mit Trypho, Leipzig, 1913; E. Le Blant, La controverse des chrétiens et des Juifs aux premiers siècles de l'Église, nas Mémoires de la société nationale des antiquaires de France, VIe série, Paris, 1898, t. vii, p. 229-250 (cita também os escritores posteriores à paz da Igreja); P. Monceaux, Histoire littéraire de l'Afrique chrétienne, Paris, 1902-1906, t. i, p. 293-301 (Tertuliano); t. ii, p. 277-284 (Cipriano); t. iii, p. 468-476 (Comodiano); J. Martin, L'apologétique traditionnelle, Paris, 1905, t. i, p. 1-114, 199-202, 227-237; A. d'Alès, La théologie de Tertullien, Paris, 1905, p. 5-22; J. Rivière, Saint Justin et les apologistes du second siècle, Paris, 1907, p. 250-274; G. Ziegler, Der Kampf zwischen Judenthum und Christenthum in der ersten drei Jahrhunderten, Berlim, 1907; M. J. Lagrange, Saint Justin (Les saints), Paris, 1914, p. 24-66.
II. DE 313 A 1100. — 1° Os escritores orientais. 1. Século IV. Eusébio de Cesareia combateu o judaísmo na grande obra de controvérsia da qual a Προπαρασκευὴ εὐαγγελική, P. G., t. xxi, e a Εὐαγγελικὴ ἀπόδειξις, t. xxii, col. 13-794, são como as duas partes, sobretudo na Ἀπόδειξις, começadas provavelmente antes de 313 mas terminadas muito depois, assim como na Θεοφάνεια, uma das últimas obras de Eusébio, que é uma espécie de resumo da Ἀπόδειξις, t. xxiv, col. 609-690 (fragmentária; uma versão siríaca integral foi publicada por S. Lee, Eusebius on the Theophania, Cambridge, 1843), e nas Προφητικαὶ Ἐκλογαί, t. xxii, col. 1021-1262. Eusébio de Emesa (t 359), Contra os judeus; temos algumas linhas dele em Elias bar Sinaya, metropolita de Nísibis, Chronique, trad. L. J. Delaporte, Paris, 1910, p. 311. S. Efrém (f 373), Contra os judeus, um sermão para o domingo de Ramos, texto siríaco e trad. lat. em suas Opera omnia, ed. Év. Assémani, Roma, 1743, t. iii, p. 209-224. S. Gregório de Nissa, Λόγος κατηχητικὸς ὁ μέγας, P. G., t. xlv, col. 9-106, trad. francesa L. Méridier, Paris, 1903; antes de 385, exposição para uso daqueles que têm de instruir os catecúmenos a fim de responder às dificuldades dos pagãos, dos judeus e dos hereges. As Ἐκλογαὶ μαρτυρίων πρὸς Ἰουδαίους publicadas sob o seu nome, t. xlvi, col. 193-234, são gravemente alteradas, se não apócrifas. S. João Crisóstomo, Λόγοι κατὰ Ἰουδαίων, P. G., t. xlviii, col. 843-942, nove sermões pronunciados de 387 a 389; cf. Usener, Religionsgeschichtliche Untersuchungen, Bonn, 1889, p. 227-210. O Πρὸς τε Ἰουδαίους καὶ Ἕλληνας ἀπόδειξις ὅτι ἐστὶ θεὸς ὁ Χριστός, t. xlviii, col. 813-838, não é seguramente autêntico. O Πρὸς Ἰουδαίους καὶ Ἕλληνας καὶ αἱρετικούς, t. XLVIII, col. 1075-1080, é seguramente inautêntico. Classificamos entre os escritos orientais, por causa da origem síria do autor, o Liber fidei de S. Trinitate et incarnatione Domini, P. G., t. xxxiii, col. 1541-1546, do judeu convertido Isaac, que depois voltou ao judaísmo. Ele poderia muito bem ser também o autor das Quœstiones Veteris et Noui Testamenti, falsamente atribuídas a santo Agostinho, das quais a XLIVª (P. L., t. xxv, col. 2240-2243; ausente de certos manuscritos) é contra os judeus. Ver acima col. 1-6.
Uma lenda, criada no Oriente por volta do fim do século IV e importada no Ocidente por volta do fim do século V, quer que a imperatriz Helena, ainda pagã mas atraída pelo judaísmo, emocionada por saber Constantino cristão, o tenha exortado a fazer-se judeu; Constantino teria decidido que, para dar a conhecer a verdadeira religião, haveria em Roma um debate entre cristãos e judeus, e os cristãos, cujo porta-voz era o papa Silvestre, teriam obtido uma vitória retumbante. Essa discussão forma a segunda parte, mais recente, da lenda. Ver uma velha tradução do grego em Boninus Mombritius, Sanctuarium seu vitæ sanctorum, reed. de Paris, 1910, t. ii, p. 508-531; uma redação grega muito antiga dos Atos de Silvestre em F. Combefis, Illustrium Christi martyrum lecti triumphi, Paris, 1660, p. 254 sq. (um fragmento P. L., t. viii, col. 814); uma redação siríaca em J. P. N. Land, Anecdota syriaca, 1868, t. iii, p. 46-76; uma trad. alemã, feita sobre a edição siríaca e sobre um ms. do British Museum, por V. Ryssel, Die Sylvesterlegende, em ' Archiv für das Studium der neueren Sprachen und Literaturen, Brunswick, 1895, t. xcv, p. 1-54.
2. Século V. De Antíoco, bispo de Ptolemaida, por volta de 400, o papa Gelásio, Tract., III, c. xxvi, em A. Thiel, Epistolœ rom. pontificum, Braunsberg, 1868, t. i, p. 552, cita um sermão contra os judeus. Filipe de Side, sincelo de Crisóstomo, relatava, em sua Χριστιανικὴ ἱστορία, escrita por volta de 426, uma disputa, da qual fora testemunha na Pérsia, entre cristãos, pagãos e judeus. Um fragmento num ms. de Viena (Áustria); cf. Mc Giffert. Dialogue between a Christian and a jew, Marburgo, 1889, p. 16. S. Cirilo de Alexandria (444) combate mais ou menos diretamente o judaísmo em Πρὸς τὰ τοῦ ἐν ἀθέοις Ἰουλιανοῦ, P. G., t. lxxvi, col. 503-1064; Sobre a defecção da sinagoga, t. lxxvi, col. 1421-1422 (um fragmento); Περὶ τῆς ἐν πνεύματι καὶ ἀληθείᾳ προσκυνήσεως, t. lxviii, col. 133-1125; sobretudo em certo número dos Γλαφυρά, t. lxix, col. 9-679, notadamente col. 154-176, 533-538, 563-578, 589-606. Ver t. iii, col. 2483-2496. O Liber adversus Judæos publicado na edição latina de suas obras, Paris, 1604, t. i, p. 733-734, não é dele. S. Isidoro de Pelúsio (f por volta de 450), Ἐπιστολαί, P. G., t. lxxviii, combate frequentemente os judeus, seja de modo direto, seja mostrando a diferença e a harmonia dos dois Testamentos. Ver acima, col. 89-90, 92, 93. Teodoreto de Ciro (j 457), Κατὰ Ἰουδαίων; um fragmento em A. M. Bandini, Catalogus codicum mss. bibliothecæ Mediceæ-Laurentianœ, Florença, 1764, t. i, p. 110-112. Sobre um escrito apócrifo, cf. Imbonati, Bibliotheca latino-hebraica, p. 271-272. Basílio de Selêucia (ï depois de 453), Ἀπόδειξις κατὰ Ἰουδαίων περὶ τῆς τοῦ Σωτῆρος παρουσίας, o xxxviii de seus sermões, P. G., t. lxxxv, col. 399-426.
3. Século VI. E. Bratke, Das sogenannte Religionsgespräch am Hofe der Sassaniden, Leipzig, 1899 (Texte und Untersuchungen, nova série, iv, 3), publicou uma controvérsia, que se supõe ter ocorrido na corte dos sassânidas, entre pagãos, judeus e cristãos. O autor ali se revela ignorante das coisas persas; deve ter escrito na Ásia Menor, no século VI ou talvez no V.
4. Século VII. João Beth-Raban (por volta de 610), da escola de Nísibis, Questões contra os judeus. Cf. J. S. Assémani, Bibliotheca orientalis Clementino-Vaticana, Roma, 1728, t. iii a, p. 72. Leôncio de Neápolis (por volta de 620), Ὑπὲρ τῆς χριστιανῶν ἀπολογίας κατὰ Ἰουδαίων καὶ περὶ εἰκόνων, P. G., t. xciii, col. 1597-1612, dois fragmentos de um sermão, o segundo numa tradução latina. Estêvão, bispo de Bostra, Κατὰ Ἰουδαίων, um fragmento em são João Damasceno, Πρὸς τοὺς διαβάλλοντας τὰς ἁγίας εἰκόνας, l. III, c. xlii, P. G., t. xciv, col. 1376. Cf. J. M. Mercati, Stephani Bostrani nova de sacris imaginibus fragmenta e libro deperdito Κατὰ Ἰουδαίων, na Theologische Quartalschrift, Tubinga, 1895, t. lxxvii, p. 663-668. Sob o nome de são Gregório, arcebispo de Tafar, na Arábia (f 552), temos uma Διάλεξις μετὰ Ἰουδαίου Ἔρβαν τοὔνομα, P. G., t. lxxxvi, col. 621-784, que se supõe reproduzir uma controvérsia com judeus, na corte do rei dos homeritas, por volta de 540. A realidade da discussão e a autenticidade da obra são muito suspeitas, e a própria personalidade de Gregório é enigmática; a obra poderia ser do século VI. A Διδασκαλία Ἰακώβου νεοβαπτίστου, escrita por volta de 640, apresenta-se como obra de um judeu Jacó convertido à força e chegado em seguida à adesão racional e voluntária ao cristianismo; é uma instrução mais do que um diálogo, pois os ouvintes, judeus igualmente convertidos à força, só intervêm para pedir algumas explicações.
O autor vivia provavelmente no Egito ou na Síria, não em Cartago, onde se supõe passar-se a cena. Ed. do texto grego por N. Bonwetsch, Doctrina Jacobi nuper baptizati, Berlim, 1910, e por F. Nau, La didascalie de Jacob, Patrol. Orient. Paris, 1912, t. viii, p. 745-780 (as duas primeiras conferências); ed. da versão etíope (antes uma refundição que uma tradução) e trad. francesa por S. Grébaut, Sargis d'Aberga, P. O., t. iii, p. 555-643, t. xiii, p. 1-105; ed. da versão eslava, na Tschetjii Minei, 1911. Existe também uma trad. árabe. Τρόπαια κατὰ Ἰουδαίων ἐν Δαμάσκῳ, discussão fictícia entre um monge e judeus, na presença de pagãos, de samaritanos, de hereges, escrita em 680, numa cidade submetida aos árabes; encontra-se ali o eco da querela das imagens. Ed. e trad. francesa por G. Bardy, Les trophées de Damas, P. O., Paris, 1920, t. xv, p. 189-292. Entre os spuria de santo Atanásio figuram, P. G., t. xxviii, os Πρὸς Ἀντίοχον ἄρχοντα περὶ πλείστων καὶ ἀναγκαίων ζητημάτων, geralmente citados sob o título de Quœstiones ad Antiochum ducem, que é o da tradução latina. A questão cxxxvii, col. 683-700, destaca-se das outras pelo estilo e por um comprimento excepcional; além disso, parece muitas vezes isolada, e anônima nos mesmos manuscritos, ao passo que as Quœstiones são atribuídas, indevidamente aliás, a santo Atanásio.
É um verdadeiro tratado contra os judeus, impossível de datar e que colocamos neste lugar por causa de suas relações com o escrito seguinte. 'Αντιβολὴ Παπίσκου καὶ Φίλωνος 'Ιουδαίων πρὸς μοναχόν τινα, da fim do século VII ou do século VIII, editado por A. C. McGiffert, Dialogue between a christian and a jew, Marburgo, 1889, p. 49-94, segundo um ms. incompleto. Existe uma recensão posterior, do pseudo-Anastácio Sinaíta, que se inspira na primeira redação e que apresenta uma longa passagem, p. 66-73, que reencontramos na Questão a Antíoco, col. 688-696. O difícil é saber qual dos dois escritos depende do outro. Na incerteza, limitamo-nos a justapô-los. Teodoro de Amaseia (692); cf. Fabricius, Delectus argumentorum, p. 121.
5. Século VIII. Ἀθανασίου ἀρχιεπισκόπου Ἀλεξανδρείας λόγος πρὸς Ζακχαῖον νομοδιδάσκαλον τῶν Ἰουδαίων, não, ao que parece, do século IV, como se havia acreditado, mas somente do século VIII. T. Zahn, Forschungen zur Geschichte des neutestamentlichen Kanons und der altchristlichen Literatur, Erlangen, 1891, t. iv, p. 322. Ed. por F. C. Conybeare, The Dialogues of Athanasius and Zacchæus and of Timothy and Aquila, nos Anecdota Oxoniensia, classical series, part. viii, Oxford, 1898. Uma antiga versão armênia, que preenche as lacunas do original, apareceu na edição dos Paralipomena armeniana de Atanásio publicados pelos mequitaristas de Viena. Διάλογος χριστιανοῦ καὶ Ἰουδαίου, ὧν τὰ ὀνόματα τοῦ μὲν χριστιανοῦ Τιμόθεος, τοῦ δὲ Ἰουδαίου Ἀκύλα, ed. Conybeare, op. cit.; fragmento, P. G., lxxxvi, col. 251-255. Διάλεξις κατὰ Ἰουδαίων, um fragmento em Bandini, Catalogus codicum mss. bibliothecœ Mediceœ-Laurentianœ, t. x, 165. Jerônimo de Jerusalém, Διάλογος περὶ τῆς ἁγίας Τριάδος, ἐρωτήσει Ἰουδαίου πρὸς τὸν χριστιανόν, P. G., XL, col. 847-859 (fragmentos), parece ter vivido não no século IV, como se dizia, mas no VIII. Ver acima, col. 983. Abraão Bard-Shandad, sírio nestoriano, deixou uma Disputa contra os judeus. Ver t. i, col. 116. Teodoro Abucara (Abu Qurra), bispo melquita de Harrã, nascido provavelmente por volta de meados do século VIII, escreveu em grego, em siríaco, em árabe Πρὸς Ἰουδαίους, P. G., t. xcvii, col. 1529-1534; G. Graf, Die arabischen Schriften des Theodor Abu Qurra Bischofs von Harrân, Paderborn, 1910, publicou uma versão alemã de dez tratados mais extensos do que os curtos opúsculos de P. G., sobre as mesmas questões: autoridade da Lei de Moisés e do Evangelho, etc.
6. Século IX. Abraão Auni, sírio nestoriano, de meados do século IX, Contra os judeus. Cf. J. S. Assémani, Bibliotheca orientalis, t. iii a, p. 509. Pseudo-Anastácio, o Sinaíta, Διάλεξις κατὰ Ἰουδαίων, P. G., t. lxxxix, col. 1203-1282; não é do Sinaíta, mas somente do século IX. Ver t. i, col. 1167.
7. Século X. Abu Ali Isa ben Zeraah, sírio (por volta de 997), escreve contra os judeus. Cf. K. Werner, Der heil. Thomas von Aquino, Ratisbona, 1858, t. I, p. 638, nota 2. — Sabarjesus, filho de Paulo, sírio nestoriano (por volta do fim do século X). Disputa com um judeu sobre o Cristo; cf. Assémani, Bibliotheca orientalis, t. p. 541.
8. Século XI. Um anônimo, provavelmente Jesujab, bispo de Nísibis em 1063, Tratado contra os maometanos, os judeus, os jacobitas e os melquitas (o c. ii trata do Cristo contra os judeus); cf. Assémani, p. 303.
2° Os escritores ocidentais. 1. Século IV. S. Ambrósio (t 397), Epist., lxxii-lxxviii, P. L., t. xvi, col. 1243-1269, trata da Lei antiga e da Lei nova, da razão de ser e da ab-rogação da Lei antiga, preocupa-se com os cristãos mas também com os judeus, cf. col. 1258, 1267, 1268: umbram deseramus ... solem seculi: ritus judaicos deseramus. O De excidio urbis Hierosolymitanœ, t. xv, col. 1961-2206, e a Historiæ de excidio Hierosolymitanæ urbis anacephaleosis, 2205-2218, resumos livres de Josefo com modificações no sentido cristão, foram atribuídos erroneamente a santo Ambrósio.
2. Século V. Prudêncio (t 423), Apotheosis, v. 321-408, 504-552, P. L., t. lix, col. 950-958, 965-967, defende a divindade do Cristo contra os judeus. Severo, bispo de Minorca, De Judœis, P. L., t. xx, col. 731-746, narra, numa carta de 418, a conversão dos judeus de Minorca. Evágrio, galo-romano, Altercatio Theophili christiani et Simonis, P. L., t. xx, col. 1165-1182. A opinião de dom G. Morin, Revue d'histoire ecclésiastique, Lovaina, 1900, t. i, p. 267-270, de que o autor seria não Evágrio, mas Gregório de Elvira, foi abandonada por ele, Revue bénédictine, Maredsous, 1902, t. xvii, p. 225-245. As Consultationum Zacchœi christiani et Apollonii philosophi libri tres, P. L., t. xx, col. 1071-1166, são todo um «corpus» de teologia, cujo autor responde indiretamente às objeções judaicas ao tratar da Trindade, da encarnação, etc., e combate diretamente os judeus, l. III, c. iv-x, col. 1112-1126. Supôs-se, sem fundamento, que o autor poderia ser Evágrio. De altercatione Ecclesiœ et synagogœ dialogus, P. L., t. xlii, col. 1130-1140, mais ou menos da mesma época que o escrito de Evágrio, por vezes falsamente atribuído a santo Agostinho, texto defeituoso, cf. dom G. Morin, Revue d'histoire ecclésiastique, t. i, p. 270-272.
S. Jerônimo (t 420) combate com frequência os judeus em seus escritos diversos. Sobretudo traduziu a Bíblia sobre o texto original ad confutandos Judœos etiam per ipsa exemplaria quœ ipsi verissima confitentur, ut, si quando adversum eos christianis disputatio est, non habeant subterfugiendi diverticula sed suomet potissimum mucrone feriantur, diz ele, Apol. adversus libros Rufini, l. III, xxv, cf. l. II, c. xxiv-xxxv. P. L., t. xxiii, col. 476, 447-456. S. Agostinho (t 430), Tractatus adversus Judœos, P. L., t. xlii, col. 51-64; Epist, cxlix, a são Paulino de Nola; cxcvi, ao bispo Agélico, P. L., t. xxxiii, col. 630- 891-899. No seu Indiculus das obras de Agostinho, t. xlvi, col. 6, Possídio de Calama inclui entre seus escritos contra os judeus, no De diversis quœstionibus, a q. lvi, De annis quadraginta sex ædificati templi, t. xl, col. 39, a qual só diz respeito aos judeus de modo indireto. Publicou-se por vezes, e falsamente, sob o nome de santo Agostinho, com o De altercatione Ecclesiœ et synagogœ dialogus, o Contra Judæos, paganos et arianos, sermo de symbolo, cujos c. xi-xviii, t. xlii, col. 1123-1128, são contra os judeus e foram transcritos separadamente na Idade Média. Cf. Sepet, Les prophètes du Christ. Étude sur les origines du théâtre au Moyen Age, na Bibliothèque de l'École des chartes, Paris, 1867, t. xxviii, p. 3-8. Ainda erroneamente, atribuíram-lhe o Adversus quinque hæreses seu contra quinque hostium genera, cujo c. iv, col. 1104-1106, é contra os judeus, e as Quæstiones Veteris et Novi Testamenti que, como vimos, são talvez do judeu convertido e depois relapso Isaac. S. Leão (f 461), Serm. xxix (o ix in Natiuitate Domini), P. L., t. liv, col. 226-229, intitulado Contra Judæos et hæreticos num ms.; cf. col. 226, nota. S. Máximo de Turim (f 470), Tractatus contra Judæos, P. L., t. lvii, col. 793-806.
3. Século VI. S. Gregório de Tours (t 595), Historia Francorum, l. VI, c. v, P. L., t. lxxi, col. 573-575, narra uma controvérsia que sustentou contra um judeu na presença do rei Chilperico.
4. Século VII. S. Isidoro de Sevilha, antes de 633, De fide catholica ex Veteri et Novo Testamento contra Judæos, P. L., t. lxxxiii, col. 448-538. Ver acima, col. 104-105. S. Ildefonso de Toledo (f 667), De virginitate perpetua S. Mariæ adversus tres infideles, P. L., t. xcvi, col. 53-102: o c. i contra Joviniano, o c. ii contra Helvídio, os c. iii-xii, col. 64-102, contra os judeus. Ver t. vii, col. 742. S. Juliano de Toledo (f 690), De comprobatione ætatis sextæ, P. L., t. xcvi, col. 537-586. Juliano, judeu convertido, propõe-se estabelecer que o Cristo veio e que estamos na 6ª idade do mundo, contra os judeus que dizem que estamos na 5ª idade e não na 6ª, na qual o Cristo deve vir. Esse escrito foi por vezes publicado sob o nome de Juliano Pomério.
5. Século IX. Agobardo, bispo de Lyon (f 840), De insolentia Judæorum, P. L., t. civ, col. 69-76; De judaicis superstitionibus, col. 77-100; De baptismo judaicorum mancipiorum, col. 99-106; De cavendo convictu et societate judaica, col. 107-114. Ver t. i, col. 613-615. Amolão, bispo de Lyon (f 852), Epistola seu liber contra Judæos, P. L., t. cxvi, col. 141-184, falsamente atribuído a Rabano Mauro, cf. P. L., t. civ, col. 82-83, nota; t. cvii, col. 34-35. Ver t. i, col. 1126. Rabano Mauro (t 856), Tractatus de variis quœstionibus Veteris et Novi Testamenti adversus Judæos, não existe, como se disse, t. i, col. 1536, em P. L., t. cvii, col. 401-594, mas sim em Martène e Durand, Thesaurus novus anecdotorum, Paris, 1717, t. v, col. 403-594. Paulo Álvaro de Córdoba (f 861), de ascendência judaica, Epist, xiv-xx, P. L., t. cxxi, col. 478-514, sobretudo a carta xviii, contra Bodão, diácono do palácio de Luís, o Piedoso, que se fizera judeu, tomara o nome de Eleazar e se fixara em Saragoça (839); as cartas xv e xvii são fragmentos de Bodão. Ver t. i, col. 927.
6. Século XI. O clérigo Henrique escreveu, a pedido do imperador Henrique III, uma resposta à carta de Vecelino, capelão do duque Conrado, passado ao judaísmo (1005). Ela se encontra em Alberto, monge de Saint-Symphorien de Metz, De diversitate temporum, l. II, c. xxiv, P. L., t. cxl, col. 485-490. Fulberto de Chartres (f 1029), Tractatus contra Judæos, P. L., t. cxli, col. 305-318. Fulberto não escreveu três tratados antijudaicos, como se disse, t. vi, col. 965; mas o Tractatus que escreveu foi por vezes separado em três partes, nas quais se viram três sermões. Cf. P. L., t. cxli, col. 178. S. Pedro Damião (t 1072), Antilogus contra Judæos, P. L., t. cxlv, col. 41-58; Dialogus inter judœum requirentem christianum e contrario respondentem, col. 57-68.
3° Escritos perdidos. Diodoro de Tarso (f antes de 394) escreveu Contra os judeus. Cf. Suidas, Lexic, P. G., t. cxvii, col. 1249. Genádio, De scriptoribus ecclesiasticis, c. lxxviii, P. L., t. lviii, col. 1103, assinala um Voconius (Buconius segundo um manuscrito), bispo de Castellani (Mauritânia), que escreveu adversus Ecclesiæ inimicos Judæos et arianos et alios hæreticos. Perguntou-se se não seria preciso identificar esse escrito com o pseudo-agostiniano Adversus quinque hæreses seu contra quinque hostium genera. Possídio, no Indiculus das obras de santo Agostinho, P. L., t. xlvi, col. 6, menciona como escritos contra os judeus, com a carta cxcvi a Asélico e a q. lvi do De diversis quœstionibus, uma Quæstio de Judæis e, além disso, tractatus duo. Seria a Quæstio de Judæis devida a uma desatenção de Possídio, que teria lido Quæstio de Judæis o título da q. xlvi, t. xl, col. 29-31, intitulada De ideis? Talvez. Quanto aos «dois tratados», um dos dois está perdido, a menos que Possídio tenha designado assim a carta a Paulino de Nola. Essa carta, resposta a um questionário do santo, Epist., cxxi, t. xxxiii, col. 462-470, não seria antes a Quœstio de Judæis de que fala Possídio? Temos um escrito falsamente atribuído a santo Anastácio, o Sinaíta; não possuímos o tratado Contra os judeus do qual ele menciona o l. II, no Hexaemeron, l. VI, P. G., t. lxxxix, col. 933. Está também perdido o relato de uma controvérsia entre o judeu Júlio e mestre Pedro de Pisa, em Pavia, por volta de 755: et scriptam esse eamdem controversiam in eadem civitate audivi, diz Alcuíno, que assistiu por acaso ao debate. Epist., c, P. L., t. c, col. 314.
4° Escritos em que os judeus são combatidos indiretamente. Basta lançar um olhar sobre os índices dos volumes das duas Patrologias, grega e latina, para se dar conta, por incompletos que sejam com demasiada frequência, do grande lugar que os judeus ali ocupam. Além dos escritos que têm por finalidade direta combatê-los, são nomeados, criticados, refutados um pouco por toda parte, nas obras de defesa católica, nos sermões, nos comentários da Sagrada Escritura, nos textos que visam suas relações com os cristãos. É assim que, no século IV, são Gaudêncio de Bréscia, que nos informa, Serm., xxi, P. L., t. xx, col. 999, que seu predecessor, são Filástrio, pregou contra os pagãos, os judeus e os hereges, ataca frequentemente os judeus em seus sermões. Cf. notadamente Serm., i-vii, x sobre a Páscoa; viii-ix, sobre as bodas de Caná; xi, sobre o paralítico, col. 843-927. No século V, são Jerônimo e santo Agostinho voltam constantemente à carga; ver por exemplo, de Agostinho, o Contra Faustum manichæum, sobretudo l. XII, P. L., t. xlii, col. 253-280. No século VI, Cassiodoro batalha contra eles em sua Expositio in psalterium, em particular sobre o sl. lxiii, P. L., t. lxx, col. 438-443; são Gregório Magno tem mais de cinquenta cartas para regular diferentes pontos relativos à sua situação jurídica, cf. V. Tiollier, Saint Grégoire le Grand et les Juifs, Brignais, 1913, p. v, e se explica sobre eles e contra eles em suas Morais e em suas Homilias. E isso dura até o século XI, em que Brunão de Wurtzburgo, para nomear somente ele, volta-se repetidas vezes contra os judeus em sua Expositio psalmorum. P. L., t. cxlii, col. 49-530.
5° O caráter dos escritos. Desses escritores, três foram judeus convertidos: Isaac, que voltou ao judaísmo, Julião de Toledo e Paulo Álvaro. O autor da Didascália de Jacó apresenta-se como um judeu convertido; verossimilmente essa afirmação e a forma que esse escrito reveste, a de uma exposição da verdade do cristianismo a judeus convertidos à força, não correspondem a uma realidade histórica. É preciso ver provavelmente puras ficções literárias nas controvérsias que teriam ocorrido diante de Constantino e diante dos reis dos homeritas e da Pérsia, assim como na maior parte dos diálogos entre judeus e cristãos. Duas, pelo menos, dessas discussões foram verdadeiras: a que Gregório de Tours teve com Prisco na presença do rei Chilperico, a de Pedro de Pisa, em Pavia, com o judeu Júlio; do mesmo modo, sem dúvida, aquela a que Filipe de Side diz ter assistido. Houve certamente outras controvérsias orais. Sem nos determos nas informações fornecidas pelos pseudo-João e Políbio, na Vida legendária de santo Epifânio, c. vi, xxvi, xlvii, P. G., t. xli, col. 29, 56, 84, lembremos que são Jerônimo traduziu o Antigo Testamento sobre o hebraico em vista das controvérsias com os judeus, e notemos que santo Isidoro de Pelúsio escreveu a diversos cristãos que haviam tido discussões com os judeus, l. I, epist., cxli, cdi, II, xcix; III, xix, xciv; IV, ; Pedro Damião, Antilogus contra Judœos. ; cxlv, præf., P. L., t. col. 41, etc.
Quer seja sob forma de tratado dogmático ou de diálogo, a polêmica antijudaica se move no mesmo quadro de ideias. Mas, depois do triunfo do cristianismo, e cada vez mais à medida que se formula a legislação, civil e eclesiástica, contra os judeus, ela oferece um aspecto jurídico ao mesmo tempo que teológico. Pela primeira vez, o De altercatione Ecclesiœ et synagogæ enumera as decadências legais que atingem os judeus e os direitos que lhes restaram. Mais de um de nossos escritores o imitam. E um dos últimos a chegar, Amolão, apoia-se nas instituições imperiais e nos decretos dos concílios que dizem respeito aos judeus. Contra Judæos, P. L., t. cxvi, col. 172, 174-177, 181-183. Ao lado das leis dos imperadores e dos concílios, Amolão cita os atos e os escritos dos santos Agostinho, Jerônimo, Hilário, Ambrósio, Gregório, e de Agobardo, seu predecessor, col. 143, 145, 171, 176, 180-181. Agobardo, por sua vez, invocara «os exemplos e os decretos dos Padres», a saber, os santos Hilário, Ambrósio, Cipriano, Atanásio, santo Avito de Viena e o concílio de Epaone, são Cesário de Arles e o concílio de Agde (508), e quatro outros concílios; depois citara os santos Ireneu e Jerônimo, as Clementinas que sabia, aliás, apócrifas e, sem nomeá-lo, santo Agostinho, De judaicis superstitionibus, c. ii-x, xvi, P. L., t. civ, col. 79-88, 92-93. Eusébio, se só havia utilizado a Bíblia na Demonstração evangélica, que se dirigia mais especialmente aos judeus, havia acumulado os testemunhos pagãos na Preparação evangélica, destinada particularmente aos pagãos. Na tão curiosa controvérsia entre cristãos, pagãos e judeus, na corte dos sassânidas, os documentos pagãos, inclusive o pseudo-Histaspes e os oráculos sibilinos, são de grande uso.
F. C. Conybeare assinalou empréstimos aos evangelhos apócrifos nos dois Diálogos que publicou e estudou suas relações entre si e com a literatura anterior; nem tudo é igualmente seguro nessas aproximações e, em particular, enquanto não se descobrir o Diálogo de Aríston de Pela, as tentativas que Conybeare e outros multiplicaram para ligar a ele esses Diálogos e outros escritos não poderiam ter êxito. Evágrio, na Altercatio, acompanha constantemente os Tractatus Origenis, nos quais se vê hoje a obra de Gregório de Elvira. Cf. P. Batiffol, Revue biblique, Paris, 1899, t. viii, p. 337-345; G. Morin, Revue d'histoire ecclésiastique, Louvain, 1900, t. i, p. 267-268. H. Vogelstein e P. Rieger, Geschichte der Juden in Rom, Berlim, 1896, t. i, p. 163-164, afirmaram mais do que demonstraram a dependência da Altercatio em relação a são Jerônimo, e do Contra Judæos de Máximo de Turim em relação à Altercatio. Tampouco está provado que o Diálogo com o judeu Herban dependa da carta de Severo de Minorca, como supôs J. Juster, Examen critique, Paris, 1911, p. 49, nota. Estamos mais bem informados não sobre as fontes dos Troféus de Damasco, que permanecem desconhecidas, mas sobre sua influência: é deles que se inspiram o Diálogo dos judeus Papisco e Fílon com um monge em suas duas redações, o pseudo-Anastácio, o Sinaíta, o pseudo-Atanásio das Questões a Antíoco. Cf. G. Bardy, P. O., t. xv, p. 184-188.
A controvérsia antijudaica desenvolveu-se, de início, sobretudo na Ásia e na África. Até o século IX, é muito viva no Oriente; no tempo dos primeiros progressos do islamismo, começa um período singularmente ativo. A partir do século IX, o ardor teológico do Oriente se abranda; doravante o Ocidente fornecerá os principais apologistas do cristianismo contra os judeus.
6° O conteúdo dos escritos. A apologética antijudaica é mais ou menos a mesma, no fundo, que no passado: argumento tirado das profecias, resposta às objeções judaicas. 1. Parte positiva da controvérsia. a) O argumento profético. Repete-se o que foi dito de bom e de menos bom; acrescenta-se também por vezes alguma coisa. Por exemplo, não se cansa de voltar à data da época messiânica, às semanas de Daniel, etc. Trata-se com amplitude de tal ou tal ponto do argumento profético: Basílio de Selêucia calcula antes de tudo os anos que separam Daniel do Cristo; Juliano de Toledo empenha-se em provar que a 6ª idade, a do Messias, é precisamente aquela em que nasceu Jesus, e Fulberto de Chartres tem todo um tratado sobre a profecia de Jacó.
Tal escrito, aliás bastante fraco, os Trophées de Damas, tem uma página excelente, e em parte nova, sobre as profecias feitas por Cristo e realizadas, iv, 5-6, P. O., t. xv, p. 269-273. Eusébio já havia entrado nesse caminho: sua Teofania contém um desenvolvimento muito bom sobre o anúncio da conquista do mundo pelos apóstolos, pescadores ignorantes transformados em pescadores de homens, v, P. G., t. xxiv, col. 623-634, e outro, vi, col. 633-656, sobre a destruição do templo e os males da nação judaica. São João Crisóstomo havia posto em evidência os mesmos argumentos em seus discursos Contra os judeus, iv, 4-6; v, 1-6; vi, 3; P. G., t. xlviii, col. 876-881, 883-893, 905-908, e também, seja ou não Crisóstomo, o autor da Démonstration contre les Juifs et les gentils que le Christ est Dieu, 6-7, 11-16, P. G., t. xlviii, col. 820- 823, 829-835.
b) O fato da Igreja. Mais completamente que seus predecessores, nossos controversistas expõem, como elemento capital da demonstração cristã, o fato da Igreja, de sua existência, de sua difusão, de sua ação no mundo. Eusébio, na passagem indicada e na Demonstração evangélica, sobretudo no l. III; São João Crisóstomo, nas passagens indicadas; Santo Agostinho, Contra Faustum manichœum, l. XII, c. xliv, P. L., t. xlii, col. 278; o pseudo-Anastácio Sinaíta, Dispute contre les Juifs, P. G., t. lxxxix, col. 1219-1226; Santo Ildefonso, De virginitate perpetua S. Mariæ, c. vii, P. L., t. xcvi, col. 83-84, etc., insistem nisso.
c) Necessidade das disposições morais. Eles não insistem menos nas boas disposições requeridas para apreender a força probante das profecias. Aqui e ali acusam os judeus de má-fé; é o caso de Paulo Álvaro, Ep., xviii, 4, e de Isidoro de Sevilha. Mas essa linguagem é excepcional, e Álvaro e Isidoro a desmentem em outros lugares. Cf. J. Martin, L'apologétique traditionnelle, Paris, 1905, t. ii, p. 7-10, 15-19. O que lhes censuram não é a má-fé que nega a luz, é a impossibilidade de compreender que eles criaram em si mesmos, é o endurecimento voluntário do coração, que se tornou incapaz de ser tocado. Cœci, obstinati: esses epítetos servem constantemente para caracterizá-los.
2. Parte negativa. Refutam-se os argumentos dos judeus. a) O abandono da Lei. A esse argumento responde-se como anteriormente. A dispersão dos judeus, profetizada e cumprida, pareceu desde cedo uma prova decisiva da divindade do cristianismo contra os judeus. Cf. Le Nourry, Dissert, in Apolog. Tertulliani, P. L., t. I, 1885, col. 783-786. À medida que o tempo avança, a prova se reforça: é cada vez mais manifesto que os judeus, um povo que não é como os outros, têm em sua história algo de extraordinário. Cada vez mais os escritores eclesiásticos mostram, na dispersão dos judeus através do mundo, a realização das profecias. Em geral, falam disso brevemente, mesmo aqueles que voltam de bom grado a essa consideração, como Jerônimo, Agostinho, Isidoro de Pelúsio, etc. Às vezes insistem nela, em particular Eusébio, Demonstração evangélica, l. VIII, e São João Crisóstomo, Contra os judeus, v, 1-6, 11; vi, 2-4, P. G., t. xlviii, col. 883-893, 900-901, 905-910.
b) A trindade divina. Explica-se longamente sobre a unidade da substância divina e a trindade das pessoas. Com o islamismo produz-se um fato novo. Na prática, os judeus têm, nos árabes muçulmanos, aliados naturais que ensinam, como eles, um monoteísmo rígido, exclusivo tanto da trindade das pessoas quanto da trindade de natureza. Com eles ainda, e com os iconoclastas, condenam o culto das imagens. A polêmica antijudaica encontra-se, portanto, frequentemente com a polêmica anti-iconoclasta e a polêmica antimuçulmana. Mrs M. D. Gibson, Studia sinaitica, vii, An arabic version of the Acts of the Apostles with a treatise on the triune nature of God, Cambridge, 1918, publicou um tratado sobre a Trindade, que pode remontar ao século VIII e que refuta o islamismo pelos argumentos escriturísticos em uso nos escritos antijudaicos de São Justino e dos antigos controversistas. Teodoro Abucara disputa separadamente contra os judeus e contra os sarracenos; posteriormente, eles serão combatidos mais de uma vez no mesmo tratado.
c) A vida e a morte de Cristo e a ofensiva judaica. Para iludir a força dos textos da Escritura relativos aos sofrimentos do Messias, os judeus imaginaram, talvez desde o tempo de Adriano, a existência de dois Messias: um, da raça de Davi, nascido no momento da destruição do templo e que deve permanecer invisível até que venha, no fim, reunir os judeus; o outro, da tribo de Efraim, que será morto na guerra contra Gog e Magog. Amolon, Contra Judœos, c. xii-xxiv, P. L., t. cxvi, col. 148-157, derruba facilmente essa teoria inconsistente. Ao mesmo tempo, os judeus continuaram a desnaturar a vida de Cristo. O Talmud lhe prodigaliza ultrajes. Cf. H. von Laible, Jesus Christus im Thalmud, Berlim, 1891; A. Meyer, Jesus im Talmud, em E. Hennecke, Handbuch zu den neutestamentlichen Apokryphen, Tubinga, 1904, p. 47-71. E as piores invenções de um ódio delirante se encontram nos Toledot Jesu. I. Loeb, La controverse religieuse entre les chrétiens et les Juifs au Moyen Age en France et en Espagne, na Revue de l'histoire des religions, Paris, 1888, t. xvii, p. 317, cf. 327, diz que « Agobardo certamente os conhecia », ainda que numa redação diferente das que chegaram até nós; conclui daí que os Toledot Jesu são anteriores ao século IX. Na realidade, Agobardo, De judaicis superstitionibus, c. ix, P. L., t. civ, col. 86, refere-se unicamente à tradição oral: quotidie, cum eis loquentes, ipsorum mysteria erroris audimus. Do mesmo modo, Amolon, c. x, xxxix-xl, col. 146-147, 167-169, refere-se não a um escrito, mas a discursos: dicunt. Os Toledot Jesu são uma redação de relatos tradicionais, cuja data precisa é ignorada, mas que pode remontar ao século IX ou ao século X. Seja como for, o que Amolon, c. xl, col. 169, chama immanitas odii in Christum et rabies blasphemandi, assim como as investidas dos judeus contra os cristãos, indigna nossos controversistas. A propósito do odio oderam do salmo cxxxviii, Perfecto illos 22, São Jerônimo escreve: Si expedit odisse homines et gentem aliquam detestari, miro odio aversor circumcisionem, usque hodie enim persequuntur Dominum nostrum Jesum Christum in synagogis Satanæ. Um Agobardo, um Amolon, que retomam, este, c. xli, col. 170, o versículo do salmista, aquele, c. x, col. 88, o versículo e o comentário de São Jerônimo, ficam como que abalados pelas blasfêmias dos judeus. E, passando da defensiva à ofensiva, denunciam seus abusos de todo gênero e reclamam a execução das leis promulgadas contra eles.
7° O valor dos escritos. A apologética antijudaica está em progresso, sem ser irrepreensível. A interpretação da Escritura é, mais de uma vez, defeituosa; em particular, vê-se a Trindade no Antigo Testamento mais do que nele está afirmada. Nem o texto que se cita é sempre excelente, nem o sentido sempre exato. O conhecimento do hebraico é raro. Todavia, a ignorância das coisas judaicas não é universal. Um Amolon e um Agobardo estão a par das tradições rabínicas, e, antes deles, um Epifânio, um Jerônimo, um Agostinho. São Jerônimo soube o hebraico: seus trabalhos aproveitaram grandemente aos estudos bíblicos. São Isidoro de Sevilha escreveu « uma obra curiosa e douta », no juízo de I. Loeb, op. cit., p. 321. Eusébio, Santo Agostinho, São João Crisóstomo têm páginas fortes. Como Santo Irineu, mas de maneira ainda mais nítida, Agostinho resolve o problema capital da relação que une os dois Testamentos. O argumento tirado das profecias feitas por Cristo, da condição presente dos judeus, da exaltação paralela da Igreja, parece ser o melhor que há nessa polêmica, e um escritor judeu, B. Lazare, L'antisémitisme, Paris, 1894, p. 16, estima que João Crisóstomo « pôde dizer com justiça », observando que as cerimônias judaicas só tinham valor no templo de Jerusalém: « É admirável e incrível que todos os lugares da terra onde não é permitido sacrificar sejam concedidos aos judeus, e que não lhes seja sequer permitido ir a Jerusalém, onde é permitido unicamente sacrificar. » iv, n. 6, P. G., t. xlviii, col. 880- 881.
Certa palavra lançada de passagem num escrito medíocre, os Trophées de Damas, iv, 5, P. O., t. xv, p. 271-272, abre uma perspectiva maravilhosa: « Disse, a propósito daquela que o ungiu com mirra: Por toda parte onde for pregado este Evangelho, será pregado também o que ela fez em memória dela. Eis que ela é pregada hoje, como todos sabem. » O tom desses escritos é geralmente vivo. Multiplicam-se os epítetos duros. O de « judeus pérfidos », o mais usual, tende a revestir-se de um sentido novo: a « perfídia judaica » foi primitivamente sinônimo de « incredulidade judaica », « incredulidade que se obstina, que se cega voluntariamente »; passa de uma significação intelectual a uma significação moral, e designa a astúcia e a traição. Aplicam-se aos judeus, com as expressões severas do Antigo Testamento, as qualificações agressivas dos pagãos. Veja-se uma lista em J. Juster, Examen critique des sources relatives à la condition juridique des Juifs dans l'empire romain, Paris, 1911, p. 31-34. Mesmo entre os escritores que mais energicamente investem contra os judeus, encontram-se protestos de devotamento sobrenatural para com eles e de amor sincero. Cf., não somente Santo Agostinho, Adversus Judœos, c. x, P. L., t. xlii, col. 63-64, e São Leão, Serm., xxv, 2-3; lu, 5; lxx, 2, P. L., t. liv, col. 251, 316, 351, 381, mas ainda Agobardo, De insolentia Judœorum, c. iv, P. L., t. civ, col. 74; Amolon, c. lix-lx, col. 184.
8° Trabalhos. P. Corssen, Die altercatio Simonis judæi et Theophili christiani auf ihre Quellen geprüft, Berlin, 1890; S. Krauss, The Jews in the Works of the Church Fathers, em The jewish quarterly review, Londres, 1893-1894, t. v, p. 122-137, t. vi, p. 82-99, 225-261; A. Klentz, Der Kirchenväter Ansichten und Lehren über die Juden, Munster, 1894; C. Siegfried, Ueber Ursprung und Entwickelung des Gegensatzes zwischen Christentum und Judentum, Jena, 1895; C. Douais, Saint Augustin et le judaïsme, em L'Université catholique, Lyon, 1894, t. xvii, p. 5-25; Dom G. Morin, Deux écrits de polémique antijuive de la seconde moitié du IV siècle d'après le cod. Casin. 247, na Revue d'histoire ecclésiastique, Louvain, 1900, t. i, p. 266-273 (trata-se da Altercatio Simonis et Theophili e da Altercatio Ecclesiœ et synagogœ); J. Martin, L'apologétique traditionnelle, Paris, 1905, t. i, p. 180-188, 202-210, 237-249; t. ii, p. 3-19; T. Reinach, Agobard et les Juifs, na Revue des études juives, Paris, 1905, t. L, p. lxxxi-cxi; P. Bérard, Saint Augustin et les Juifs, Besançon, 1913; V. Tiollier, Saint Grégoire le Grand et les Juifs, Brignais, 1913.
III. De 1100 a 1500. 1° Os escritores orientais. 1. Século XII. Miguel Glicas (por volta de 1118), Περὶ τοῦ πῶς δεῖ πρὸς Ἰουδαίους ἀπαντᾶν, P. G., t. clviii, col. 845-898; é a décima quarta de suas cartas. Eutímio Zigabeno (por volta de 1118), Πανοπλία δογματική tit. viii, Κατὰ Ἑβραίων, P. G., t. cxxx, col. 257- 306, extratos dos Padres. Mari ibn Soleiman (por volta de 1135), Le livre de la tour, c. vii, em árabe. Cf. J. S. Assémani, em Bibliotheca orientalis, t. a, p. 585-586. Dionísio Bar Salibi, metropolita de Amida († 1171), Contre les Juifs et les hérétiques, tratado de um arcaísmo acentuado. Cf. J. R. Harris, Testimonies, Cambridge, 1906, t. i.
2. Século XIII. Nicolau de Otranto (por volta de 1205), Dialogue avec un Juif, inédito, na Bibl. nat. de Paris, cod. græc., 1255. Tadeu de Pelúsio, Contre les Juifs, inédito, na Bibl. nat. de Paris, cod. grœc, 887, 1285; suppl. grœc, 120. Cf. Mc Giffert, Dialogue, p. 18-19. Um anônimo, que havia seguido as lições de Raimundo Martini, autor do Pugio fidei, deixou vários opúsculos em grego, dos quais o último, redigido em 1292, é uma Ὁμιλία ἐπὶ τῇ σημασίᾳ τοῦ ὀνόματος τοῦ τετραγραμμάτου que procura descobrir a Trindade no tetragrama divino. Cf. Quétif-Echard, Scriptores ordinis Prœdicatorum, Paris, 1721, t. i, p. 397-398.
3. Século XIV. Pseudo-Andrônico I Comneno, imperador de Constantinopla, Dialogus contra Judœos christiani et judœi, P. G., t. cxxxiii, col. 797-924, somente a tradução latina. O escrito é de 1310, e portanto não é de Andrônico I, morto em 1184; cf. F. Nau, P. O., t. viii, p. 738. Ver aqui t. iii, col. 597. Mateus Hieromonachus (por volta de 1330), Contre les Juifs, inédito, na Bibl. nat. de Paris, cod. grœc, 778, 1284, 1273. João Cantacuzeno, imperador de Constantinopla, abdicou em 1354, tornou-se o monge Cristodulo e escreveu, sob esse nome, Contre les Juifs, inédito, na Bibl. nat. de Paris, cod. grœc., 1243, 1275; suppl. grœc, 120. Ver t. ii, col. 1675. Teófanes, arcebispo de Niceia (1370), Contre les Juifs, em três livros, inédito, na Bibl. nat. de Paris, cod. grœc, 778, 1293. Imbonati, Bibliotheca latino-hebraica, p. 276-278, e Fabricius, Delectus argumentorum, p. 125-128, dão uma análise dessa obra segundo Possevino, que teve em mãos um ms. João Saita, de Cidônia (Creta), dois Dialogues contre les Juifs, inéditos, na biblioteca de Viena (Áustria), cod. 195. Cf. Imbonati, p. 418. Amr ibn Matta de Tirhan e Saliba ibn Yohanna de Mossul, que viviam na primeira metade do século XIV, tiram, cada um por seu lado, uma recensão abreviada do Livre de la tour de Mari ibn Soleiman, com a diferença de que Saliba dá acréscimos que faltam a Amr. Cf. R. Duval, La littérature syriaque, Paris, 1899, p. 211. J. S. Assémani, Bibliotheca orientalis, t. iii a, p. 588, observa que Amr combate os judeus, part. IV, c. i.
4. Século XV. Genádio Escolário, patriarca de Constantinopla, que abdicou em 1458 e se fez monge, escreveu uma Réfutation de l'erreur juive et exhortation à la vérité chrétienne par mode de dialogue (entre um cristão e um judeu), ms., na Bibl. nat. de Paris, cod. græc., 778, 1293, 1294. Sobre os tratados gregos mss. da Bibl. nat., cf. H. Omont, Inventaire sommaire des manuscrits grecs de la Bibliothèque nationale, Paris, 1886-1888, t. i, p. 144, 167, 275, 277, 284, 286, 290; t. iii, p. 218.
5. Data desconhecida. O ms. anepígrafo do mosteiro de Iviron, no monte Atos, que contém um tratado do monge Mateus contra os judeus, é do século XIV, mas a obra é mais antiga, e J. R. Harris, Testimonies, Cambridge, 1906, t. i, serviu-se dele para apoiar a hipótese mencionada acima. Um Tratado da santíssima Trindade contra os judeus, em grego, na Vaticana, cod. 719. Cf. Imbonati, p. 6. Três escritos contra os judeus, em grego, na biblioteca de Viena (Áustria), cod. 5, 244, 277. Cf. Imbonati, n. 957, 958, 960, p. 307-308.
2° Os escritores ocidentais de origem cristã. 1. Século XII. Pode ser que tal ou tal desses escritos seja do fim do século XI. A questão se põe, em particular, para o de Gilbert Crispin, que colocamos à frente da série: é dedicado a Santo Anselmo, bispo de Cantuária, e portanto foi composto entre 1093 e 1109. I. Lévi, Controverse entre un juif et un chrétien au XI e siècle, na Revue des études juives, Paris, 1882, t. v, p. 240, situa-o no século XI, talvez antes de 1096, pois não contém nenhuma alusão à cruzada. Essa razão tem valor leve. Na incerteza, reservamo-lo para o século XII, por causa de seus pontos de contato com escritos do século XII. Gilbert Crispin, abade de Westminster, Disputatio judœi cum christiano de fide christiana, P. L., t. clix, col. 1005-1030. É uma discussão com um judeu que tinha sido instruído nas letras em Mogúncia; parece que a controvérsia teve lugar na Inglaterra.
Odão, bispo de Cambrai († 1113), Disputatio contra judæum Leonem nomine de adventu Christi Filii Dei, P. L., t. clx, col. 1103-1112. A discussão havia tido lugar em Senlis. Pseudo-Guilherme de Champeaux, Dialogus inter christianum et judæum de fide catholica, P. L., t. clxiii, col. 1045-1072; não pode ser de Guilherme, pois é dedicado a Anselmo, bispo de Lincoln, que se tornou bispo em 1123, e Guilherme morreu em 1122. É um decalque de Gilbert Crispin, mas o tom é mais vivo. Gilbert (diferente de Gilbert Crispin), Disputatio Ecclesiæ et Synagogæ, em Martène e Durand, Thesaurus novus anecdotorum, Paris, 1717, t. v, col. 1497-1506. Guiberto de Nogent († 1124), Tractatus de incarnatione contra Judæos, P. L., t. clvi, col. 489-528: De vita sua, l. II, c. v; l. III, c. xvi, col. 903-904, 949-951. Hildeberto de Lavardin († 1134), Sermo CI contra Judæos de incarnatione, P. L., t. clxxi, col. 811-814. Ruperto de Deutz († 1135), Annulus sive dialogus inter christianum et judæum, P. L., t. clxx, col. 559-610. Abelardo († 1142), Dialogus inter philosophum, judæum et christianum, P. L., t. clxxviii, col. 1609-1682. Ver t. i, col. 40-41. Pedro o Venerável († 1156), Tractatus adversus Judœorum inveteratam duritiem, P. L., t. clxxxix, col. 507-650. Tractatus contra Judæos, talvez de 1118, prefácio em Lebeuf, Mémoires concernant l'histoire ecclésiastique et civile d'Auxerre, Paris, 1743, t. ii, p. 40. Tractatus adversus Judæum, de 1160, P. L., t. ccxiii, col. 749-808.
Ricardo de São Vítor († 1173), De Emmanuele libri II, P. L., t. cxcvi, col. 601-666. O l. I é contra um tratado do mestre André, do qual uma passagem é reproduzida, col. 604, e do qual há um ms. na biblioteca do Arsenal, em Paris, cod. 550, com este título: Objectiones Andreæ secundum quod Judæi solent opponere nobis de nostro Emmanuele; Ricardo censura-o por parecer favorecer a tese judaica. O l. II é contra um discípulo do mestre André. Cf. P. Féret, La faculté de théologie de Paris. Moyen Age, Paris, 1894, t. i, p. 119. Bartolomeu, bispo de Exeter († 1184), Dialogus contra Judœos. Cf. Imbonati, p. 325. Inghetto (Ignetus) Contardo, mercador genovês, Flagellum Hebrœorum, controvérsia com os judeus de Maiorca em 1186, publicada por F. Carboni, Veneza, 1672. Joaquim de Fiore († 1202), Contra Judœos, no ms. A 121 da biblioteca de Dresden, fol. 223-235. Cf. P. Fournier, Études sur Joachim de Flore et ses doctrines, Paris, 1909, p. 3-4, nota. O autor do Liber de vera philosophia, do fim do século XII, na biblioteca de Grenoble, l. VIII, fol. 81-87: Quomodo sit disputandum cum paganis, Judœis, manichœis, arrianis, sabellianis. Cf. P. Fournier, p. 60. Pedro de Blois († 1200), Contra perfidiam Judœorum, P. L., t. ccvii, col. 825-870. Gualtério de Châtillon († 1200) e Balduíno de Valenciennes, Tractatus sive dialogus magistri Gualteri Tornacensis et Balduini Valentianensis contra Judœos, P. L., t. ccix, col. 423-458. Ambos são autores: Ego Gualterus... et Balduinus libellum scripsimus. Alano de Lille († por volta de 1203), De fide catholica contra hœreticos sui temporis, l. III, Contra Judœos, P. L., t. ccx, col. 305-430. Ver t. i, col. 657.
2. Século XIII.
Ébrard de Béthune (por volta de 1212?), Antihœresis, c. xxvii, Disputatio contra Judœos, c. xxviii, Quœstiones ad decipiendum (pegar em falta) tam hœreticos quam Judœos, em Bibliotheca Patrum, 4ª edição, Paris, 1624, t. iva, col. 1179- 1192. Ver aqui t. iv, col. 1995-1998. Pedro, arquidiácono de Londres (por volta de 1230), De adventu Messiœ contra Judœos libri III, em forma de diálogo entre Pedro e Simão, inédito. Cf. Fabricius, Delectus argumentorum, p. 268-269. Excerpta talmudica, contendo as peças do processo contra o Talmud (1240- 1248) e a exposição dos principais erros do Talmud, Bibl. nat. de Paris, ms. lat., 16558, tudo redigido entre 1248 e 1255. Fragmentos em Duplessis d'Argentré, Collectio judiciorum, Paris, 1755, t. i, p. 146-156; o índice das matérias em I. Loeb, La controverse de 1240 sur le Talmud, na Revue des études juives, Paris, 1880, t. i, p. 259-260. N. Valois, Guillaume d'Auvergne, évêque de Paris, Paris, 1880, p. 135, nota, conjectura com verossimilhança que o autor poderia ser o dominicano Thibaut de Saxe.
Roberto Grosseteste, bispo de Lincoln († 1253), tradutor do Testamento dos doze patriarcas, escreveu um De cessatione legalium, do qual um fragmento apareceu em Londres, 1658, com sua Vida. São Tomás de Aquino († 1274), De regimine Judœorum ad ducissam Brabantiœ, em Opéra omnia, Parma, 1865, t. xvi, p. 292-294. Raimundo Martini, dominicano espanhol, teria escrito um Capistrum, que seria talvez um Capistrum Judœorum, e que, aliás, ninguém afirma ter visto. Escreveu, em 1278, o Pugio fidei adversus Mauros et Judœos, editado em Paris, 1651, por Bosquet, bispo de Lodève, e pelo presidente J. P. de Maussac, com anotações preciosas de J. de Voisin. Seu grande conhecimento dos livros judaicos fez crer que era um judeu convertido, mas erradamente. Igualmente sem razão, ao que parece, pretendeu-se que um dominicano Pedro de Barcelona teria escrito outro Pugio fidei; o erro tem chances de provir de que um exemplar do Pugio fidei, que trazia apenas a inicial do nome do autor, a fratre R., terá sido lido fratre P., do que se terá feito Pedro, e, porque Raimundo, nascido em Subiratz (Catalunha), entrou na ordem em Barcelona, ter-se-á criado de todas as peças o dominicano Pedro de Barcelona. Cf. Quétif-Echard, Scriptores ordinis Prœdicatorum, t. i, p. 397.
Vita sancti Theodardi archiepiscopi Narbonensis, c. i-ii, em Acta sanctorum, 3ª edição, Paris, 1861, maio, t. i, p. 145-149; discussão legendária, por ocasião da pena do bofetão que teria sido infligida três vezes por ano a um judeu de Narbona, entre os judeus e Teodardo, anteriormente a seu episcopado (885). O autor deve ter escrito antes do século XIV.
3. Século XIV. Ricoldo de Monte Croce, dominicano († 1309), Contra errores Judœorum, ms., no convento de Santa Maria Novella, em Florença, no fim do século XVIII. Cf. P. Mandonnet, Revue biblique, Paris, 1893, t. ii, p. 601-602. Vítor Porcheto de Salvatici (Salvaticus), de Gênova, cartuxo († 1315), Victoria adversus impios Hebrœos, Paris, 1520. Beato Raimundo Lulio († 1315), Le livre du gentil et des trois sages, em Obras, Palma, 1887, em espanhol; trad. em latim, em francês, em árabe e em hebraico. Um cristão, um judeu e um sarraceno discutem aí, diante de um pagão, sobre suas crenças. Cf. M. André, Le B. Raymond Lulle, Paris, 1900, p. 76-85.
Nicolau de Lira, franciscano, passou por judeu, como Raimundo Martini, por causa de seu conhecimento do hebraico e da literatura judaica; combate frequentemente os judeus em suas Postillœ perpetuœ in Vetus et Novum Testamentum, por exemplo sobre Gen., xlix, 10, edição de Nuremberg, 1497, t. i, fol. lxxxi b; escreveu, por volta de 1305, um tratado contra os judeus, por vezes desdobrado, publicado sob títulos diversos, de ordinário posto em apêndice às Postillœ. No fim do t. iv da edição de Nuremberg, fol. cccxlvi-cccli, é anunciado sob este título: Libellus in quo sunt pulcherrimœ questiones perfidiam judaicam in catholica fide improbantes, e temos dois títulos no alto das páginas, primeiro Contra perfidiam Judœorum, depois Probatio incarnationis Christi.
Lauterius de Batineis, chamado também por vezes Lauterius ou Laurentius de Valdinis ou de Ubaldinis, dominicano florentino, Capistrum Judœorum, em 1320; o prólogo em Quétif-Echard, t. i, p. 589. Pedro de Penna, Thalamoth ou Pharetra Judœorum, por volta de 1330. Cf. Quétif-Echard, t. i, p. 569. Tiago Civerosus de Daroca (Aragão), Triumphus perfidiœ Judœorum de adventu Messiœ, ms., na Vaticana, cod. lat., 1002. Cf. Imbonati, p. 78. João de Baconthorpe (de Bachone), carmelita inglês († 1346), De Judœorum perfidia et De adventu Messiœ. Cf. João Trithème (de Trittenhem), De scriptoribus ecclesiasticis, Paris, 1512, fol. 133 a. Bernardo Oliver, bispo de Tortosa († 1348), Contra cœcitatem Judœorum, citado por Afonso de Spina, Fortalitium fidei, l. III, c. i; l. IV, c. ii. Ricardo Fitz-Ralph, arcebispo de Armagh († 1360), De inventionibus Judœorum, Paris, 1511.
4. Século XV. São Vicente Ferrer, que se ocupou muito da conversão dos judeus, notadamente por ocasião do colóquio de Tortosa e de San Mateo (1413-1414), escreveu um Tractatus adversus Judœos, ms., na Vaticana, cuja publicação o P. Fages, Histoire de S. Vincent Ferrier, 2ª edição, Louvain, 1901, t. i, p. v, anunciou. Thibaut de Saxe, dominicano, pronunciou um sermão no concílio de Constança (1416) e escreveu Talmud sive objectiones contra Judœos, em J. C. Wolf, Bibliotheca hebrœa, Hamburgo, 1735, t. iv, p. 556. Guy de Boussillon du Bouchage, bispo de Avinhão († 1428), De erroribus Judœorum, ms., na Vaticana, cod. lat., 988. Cf. Imbonati, p. 63. Paulo de Veneza, agostiniano († por volta de 1429), Contra Judœos. Cf. Trithème, op. cit., fol. 149 b.
Afonso Tostado, bispo de Ávila († 1455), na sequência do último volume de seus comentários sobre São Mateus, tem Opuscula varia, Veneza, 1615, cada um com paginação especial. O III, De sanctissima Trinitate, tem por fim estabelecer que ex auctoritatibus Veteris Testamenti personarum pluralitas, licet sit persuasibilis, necessario tamen non est convincibilis, p. 2, e que não se pode argumentar com a ajuda desses textos contra Judœos perfidos quamdiu manent in suo errore, p. 13; cf. Comment. in Exodum, Veneza, 1615, t. ii, p. 280-281, o que diz sobre Ex., xxxiv, 6. O IV opúsculo, In locum Isaiœ c.
VII: Ecce virgo concipiet, etc., commentarium, propõe-se estudar com cuidado esse versículo in qua catholicis adversus perfidiam Judœorum immortalis jam lis facta est. O humanista Gianozzo Manetti († 1459), Adversus Judæos et gentes, em dez livros, ms., na biblioteca de Urbino, cod. 58. Cf. Imbonati, p. 51. Santo Antonino de Florença († 1459), Trialogus de duobus discipulis euntibus in Emmaus, Florença, 1480; comentário, em forma de diálogo, das profecias messiânicas. Estêvão Bodecker, bispo de Brandeburgo († 1459). Cf. Fabricius, Delectus argumentorum, p. 574. João Lopez, dominicano (1464), Contra superstitiones Judœorum. Cf. Quétif-Echard, t. i, p. 826. Nicolau de Cusa (Cusanus, † 1464), Dialogus de pace seu concordantia fidei, em Opéra, Basileia, 1565, p. 862-879; exorta pagãos, judeus e muçulmanos a aderir ao cristianismo. Lanzo Quirini, literato veneziano († 1466), um tratado inédito contra os judeus. Cf. G. Tiraboschi, Storia della letteratura italiana, Nápoles, 1780, t. vi a, p. 233-234. Dionísio o Cartuxo († 1471), Dialogion de fide catholica, l. VII, De probatione fidei christianœ ex lege et prophetis et de Judœorum erroribus, em Opéra omnia, Montreuil-sur-Mer, 1899, t. xviii, p. 471-509.
Pedro Jorge Schwarz (Niger), dominicano, De conditionibus veri Messiœ, Esslingen, 1475; completado e traduzido para o alemão sob o título Der Stern des Messias, Esslingen, 1477. Paulo Morosini (Maurocœnus), patrício de Veneza, De æterna temporalique Christi generatione in judaicæ impugnationem perfidiæ christianæque religionis gloriam divinis enunciationibus comprobata, Pádua, 1473. Marsílio Ficino começou em 1474 e terminou antes de 1478 o De religione christiana et fidei pietate, Paris, 1510, do qual os c. xxvi-xxxvii, fol. 24-60, exceto o c. xxxvi, que é contra os muçulmanos, são contra os judeus; traduzido do latim para o italiano por Ficino, e para o francês pelo G. Le Fèvre de la Boderie, Paris, 1578. Ver t. v, col. 2287-2289. Tiago Pérez de Ayora (Valência), agostiniano, bispo de Christopolis (Trácia, † por volta de 1490), Contra Judœos de Christo reparatore generis humani, Lyon, 1512. Pedro Bruto (de Brutis), veneziano, bispo de Cattaro († 1493), Victoria adversus Judæos, Viena, 1489. Antônio de Ávila e um prior do convento de Santa Cruz de Segóvia, Censura et confutatio libri Talmut, depois de 1483. Cf. I. Loeb, Revue des études juives, Paris, 1889, t. xviii, p. 231-237.
João Pico de la Mirandola († 1494) havia começado um tratado contra os sete inimigos da Igreja, os judeus à frente, cujo plano é esboçado por seu sobrinho João Francisco, Joannis Pici vita, à frente das Opéra omnia, Basileia, 1557. Temos uma amostra do que teria sido sua polêmica no que escreve contra os judeus, Heptaplus, c. iv, p. 51-55. Jerônimo Savonarola († 1498), Triumphus crucis sive de veritate fidei, l. IV, c. v, Leiden, 1633, p. 311-362: observa, p. 362, que o que expôs sobre a divindade do cristianismo, l. II, p. 65-177, vale igualmente contra os judeus. Além disso, Savonarola combate os judeus, Dialogus spiritus et anima interlocutorum, em sete livros, l. III, Gênova, 1536; trad. italiana, Veneza, 1547, e Dialogus rationis et sensus interlocutorum, inacabado, l. III, Veneza, 1537. Anônimo, Pharetra fidei catholica sive disputatio Judai et christiani, Leipzig, 1494.
Imbonati, p. 133, atribui ao cardeal dominicano João de Torquemada († 168) um Liber contra Israelitas nostri temporis; ora, o título verdadeiro é Tractatus contra Madianitas et Ismaelitas adversarios et detractores illorum qui de populo israelitico originem traxerunt (terminado em 1450), e é um tratado contra os estatutos de certas igrejas, contra os « ismaelitas de nosso tempo », que afastavam os judeus convertidos dos capítulos dessas igrejas. Cf. Quétif-Echard, t. i, p. 842.
5. Data desconhecida. Altercatio synagogae et Ecclesiœ, Colônia, 1537, diálogo entre Gamaliel e Paulo, ao qual o editor dá uma antiguidade seguramente exagerada ao atribuí-lo ao tempo de Carlos Magno. Cf. I. Lévi, Revue des études juives, Paris, 1882, t. v, p. 245. Dialogus Ecclesiæ et Synagogæ, incunábulo sem indicação de lugar nem de data, publicado por Gonçalo García de Santa Maria, jurisconsulto e cartuxo, por volta de 1500. Contra Judæos, em Maxima bibliotheca veterum Patrum, Lyon, 1677, t. xxvii, p. 619-623.
3° Escritores cristãos de origem judaica. 1. Século XII. Samuel de Fez (Marochianus), De adventu Messiœ quem Judœi temere exspectant, P. L., t. cxlix, col. 337-368: apresenta-se como uma tradução, pelo dominicano Afonso Bonhomme, de uma carta árabe, composta por volta de 1072 e mantida oculta pelos judeus. A carta bem poderia ser apócrifa, e o nome de Bonhomme e a tradução, coisas fictícias. Segundo I. Loeb, Revue de l'histoire des religions, Paris, 1888, t. xvii, p. 331, o autor seria o judeu espanhol convertido Paulo de Valladolid; teria escrito este pequeno livro, em 1339, pondo nele muito de seu e servindo-se do de Samuel ibn Abbas, judeu passado ao islamismo em 1163, contra seus antigos correligionários. A questão mereceria um exame sério. Se a obra não é do século XI, parece-me do XII, antes que do XIII ou do XIV.
Pedro Afonso, anteriormente Moisés, rabi Sephardi, batizado em 1106, no dia da festa de São Pedro, de quem tomou o nome junto com o do rei Afonso VI de Castela, seu padrinho, Dialogus Petri cognomento Alphonsi ex Judœo christiani et Moysis Judœi, P. L., t. clvii, col. 535-572. Ver t. i, col. 904-905. Hermann, anteriormente Judas, de Colônia, convertido depois de 1127, De sua conversione opusculum, P. L., t. clxx, col. 805-836; trad. franc. A. de Gourlet (coleção Science et religion), Paris, 1902. Ver aqui t. iii, col. 2258.
2. Século XIII. Guilherme de Bourges, convertido por São Guilherme, bispo de Bourges (1200-1209), diácono, Libri II bellorum Domini contra Judœos et hareticos, por volta de 1230; o prólogo, a clavis libelli e o c. em J. Hommey, Supplementum Patrum, Paris, 1685, p. 412-418. Ms. na Bibl. nat. de Paris, Cod. lat., 18 211. Paulo Christiani, aluno de um rabino de Tarascon, tornado cristão e dominicano, sustentou, em 1263, em Barcelona, em companhia de Raimundo Martini, uma controvérsia contra o rabino Moisés ben Nahman, da qual temos a ata latina por Christiani, assim como uma relação hebraica de Moisés ben Nahman. Cf. I. Loeb, Revue des études juives, Paris, 1887, t. xv, p. 1-18.
3. Século XIV.
Afonso, dito de Valladolid do lugar de sua estadia, ou de Burgos de seu país de origem, antes Rabbi Abner, convertido depois de 1295, escreveu, já antes de sua conversão, em hebraico, em favor do cristianismo, um livro das Batalhas de Deus, que traduziu em seguida para o espanhol, e, depois de sua conversão, El mostrador de justicia, no qual se propõe converter os judeus demonstrando-lhes a verdade do cristianismo pela Bíblia, pelo Talmud e pelo Midrash. Essas obras permaneceram manuscritas. Sobre ele e sobre outros escritos que talvez sejam dele, cf. I. Loeb, Revue de l'histoire des religions, Paris, 1888, t. xviii, p. 141-143, e Revue des études juives, Paris, 1889, t. xviii, p. 52-63. João de Valladolid, nascido por volta de 1335, converteu-se em data desconhecida e compôs, contra os judeus, a Concordia legum, frequentemente citada por Afonso de Spina em seu Fortalitium fidei, e sem dúvida destinada a provar a conformidade do Antigo e do Novo Testamento. Cf. I. Loeb, Revue de l'histoire des religions, t. xviii, p. 144. Francisco Dioscarne, anteriormente Astruc Raimuch de Fraga, médico, escreve, depois de sua conversão, por volta de 1391, uma carta em hebraico em favor do cristianismo. Cf. H. Grätz, Histoire des Juifs, trad. M. Bloch, Paris, 1893, t. iv, p. 316-317.
4. Século XV. Jerônimo de Santa Fé, anteriormente Josué Lorca, escreveu, em 1412, o Hebræomastix ou Contra Judæorum perfidiam et Thalmut tractatus duo, em M. de la Bigne, Bibliotheca Patrum, 4ª edição, Paris, 1624, t. iv a, col. 741-774. Sustentou com rabinos uma grande controvérsia em Tortosa, na presença de Bento XIII (Pedro de Luna), de quem era médico, em 1413-1414. Veja-se a ata em latim dessa conferência na Revue des études juives, Paris, 1922, t. lxxiv, p. 22-32. Paulo de Burgos ou de Santa Maria, anteriormente Salomão Levi ou Hallévi, batizado em 1390 ou 1391, bispo de Burgos († 1435), Scrutinium Scripturarum, Estrasburgo, 1469, em duas partes: uma (diálogo entre Saulo e Paulo) de polêmica contra os erros judaicos, a outra (diálogo entre o mestre e o discípulo) de exposição da fé cristã.
Escreveu ainda Additiones às Postillæ de Nicolau de Lira, publicadas por vezes com as Postillæ, por exemplo na edição de Nuremberg, 1497; nelas combate Nicolau de Lira, que julga demasiado favorável aos comentadores judeus e ao sentido literal da Escritura em detrimento do sentido espiritual. Cf. sua Additio aos dois prólogos de Nicolau, t. i, fol. xvib-xixa, e sua resposta à carta de um franciscano que havia defendido Nicolau, fol. xix-xx. O franciscano Matias Doering († 1469) defendeu vivamente Nicolau de Lira em Replicæ, ou Correctorium corruptorii, como ele as chama, fol. xxi a, que seguem, t. i, as Annotationes nas edições de Nuremberg e outras. Temos ainda de Paulo de Santa Maria uma curta carta, edição Geiger, Viena, 1857, a Josué ben Josef ibn Vives (o mesmo talvez que Josué Lorca), seu antigo aluno, que havia atacado a fé cristã; recomenda-lhe estudar o cristianismo. Cf. Revue des études juives, t. lxxiv, p. 33-34.
João de Espanha, conhecido também pelo nome de João o Velho de Toledo, convertido por São Vicente Ferrer, combateu o judaísmo e escreveu sobre sua conversão. Cf. H. Gratz, Histoire des Juifs, trad. M. Bloch, t. iv, p. 347. Paulo de Bonnefoy, judeu batizado em Dijon, em 1421, escreveu em hebraico um pequeno livro traduzido pelo protestante Paulo Fagius (Buchlin), Liber fidei seu veritatis, Jena, 1542, e já traduzido em grande parte, mas com modificações que tinham por fim velar o empréstimo, por Sebastião Münster, nas 4 peças, não indicadas pelo título, à frente do Evangelium secundum Matthœum in lingua hebraica, opus antiquum sed jam recens evulgatum, Basileia, 1537. Cf. M. Steinschneider, na Revue des études juives, Paris, 1882, t. iv, p. 78-87; t. v, p. 57-67. Pedro de la Caballeria, de Saragoça, escreveu, em 1450, Zelus Christi contra Judæos, saracenos et infideles, Veneza, 1592.
Afonso de Spina, franciscano, escreveu, de 1458 a 1461, o Fortalitium fidei contra Judœos, Saracenos aliosque christianœ fidei inimicos, cuja 1ª edição apareceu em Estrasburgo, sem data, por volta de 1471, e que foi muitas vezes reimpresso. O l. III é diretamente contra os judeus. Neumia, filho de Haccana, e Haccana, filho de Neumia, duas cartas pro religione christiana, traduzidas do hebraico. Cf. L. Hain, Repertorium bibliographicum, Stuttgart, 1831, t. iii, n. 11695. Alberto de Pádua, dito Natal (Novellus), agostiniano, escreveu, por volta de 1492, um Tractatus de adventu Messiœ que permaneceu inédito. Cf. H. Hurter, Nomenclator litter., 3ª edição, 1899, t. iv, col. 848. Paulo de Heredia, judeu aragonês convertido, do século XV, De mysteriis fidei, utiliza contra os judeus o Talmud e a cabala. Cf. Hurter, iv, col. 848. João Batista Gratia Dei (evidentemente seu nome de convertido), médico romano, Liber de confutatione hebraicœ sectœ, Estrasburgo, 1500.
4° Escritos em que os judeus são combatidos indiretamente. Além dos escritos de polêmica direta contra os judeus, encontram-se mencionados e mais ou menos refutados e combatidos, pessoas e doutrinas, numa multidão de obras da Idade Média: teologia, comentários da Escritura, sermões, história, literatura propriamente dita (satíricos, contistas, poetas, dramaturgos, etc.). Citemos, entre os teólogos, d'Auvergne, De fide et De legibus, em Opéra, Orléans e Paris, 1674, t. i, p. 1-102: ver aqui t. vi, col. 1970. Entre os comentadores da Bíblia, Hugo de Saint-Cher; cf. o Index copiosissimus, que forma o t. viii de seus comentários, Lyon, 1645, na palavra Judœi (7 colunas). Entre os pregadores, São Bernardino de Sena; cf. K. Hefele, Der h. Bernhardin von Siena, Friburgo em Brisgóvia, 1912, p. 48-54.
O teatro religioso da Idade Média teve seu ponto de partida no sermão pseudo-agostiniano Contra Judœos, paganos et arianos, cuja parte contra os judeus formou a 6ª lição, muito longa, do ofício de Natal e se transformou primeiro em mistério litúrgico, depois em mistério semilitúrgico dentro da igreja e fora da igreja, até reencontrar-se, parte integrante, no ciclo dramático do século XV. Cf. M. Sepet, Les prophètes du Christ. Étude sur les origines du théâtre au Moyen Age, Paris, 1878. O De altercatione Ecclesiœ et Synagogœ dialogus influiu igualmente sobre a evolução do teatro.
A exortação religiosa afeiçoou-se à forma do debate, e houve debates da Igreja e da Sinagoga, do judeu e do cristão. Cf. De la desputoison de la Synagogue et de sainte Église, em A. Jubinal, Mystères du XVe siècle, Paris, 1836, t. i, p. 404-408. Enfim, a arte, como a literatura, conduziu, à sua maneira, a luta contra o judaísmo. Cf. P. Hildenfinger, La figure de la Synagogue dans l'art du Moyen Age, na Revue des études juives, Paris, 1904, t. xlvii, p. 187-196.
5° O caráter dos escritos. A controvérsia antijudaica desenvolve-se cada vez menos no Oriente e cada vez mais no Ocidente, sobretudo na França e na Espanha. Cada vez mais também há, para nela tomar parte, ao lado de cristãos de nascimento, judeus convertidos, que documentam seus novos irmãos e entram eles mesmos na liça. Pela primeira vez, graças a esses convertidos, a língua hebraica é empregada aqui e ali na controvérsia. Outra novidade se deve a um deles, o judeu Judas de Colônia, tornado o cristão Hermann: temos dele uma verdadeira pequena autobiografia, bastante cativante. Alguns dos escritos têm sua origem em discussões orais. Estas se multiplicaram. Umas foram retumbantes: a de Paris (1240), na corte de São Luís, entre o judeu batizado Nicolau Donin e o rabi Yehiel de Paris; a de Barcelona (1263), na presença do rei Jaime, entre o dominicano Paulo Christiani, judeu batizado, e Moisés ben Nahman; a de Tortosa (1413-1414), diante de Bento XIII (Pedro de Luna), entre o médico, judeu convertido, Jerônimo de Santa Fé e vinte e dois rabinos.
Outras controvérsias, menos solenes, tinham lugar diante de auditórios mais restritos, ora de comum acordo entre cristãos e judeus, ora impostas pelos cristãos, especialmente na Espanha, onde os judeus batizados, querendo a todo custo converter seus antigos correligionários, valiam-se de ordens reais que obrigavam os judeus a discutir com eles. As controvérsias tinham, em certos casos, um ar mais familiar, mais íntimo: as, por exemplo, de onde saiu a Disputatio de Gilbert Crispin e, do lado dos judeus, esta obra curiosa, atribuída a José o Zelador ou o Oficial, cujos materiais são do século XII e do século XIII, que encerra uma espécie de pequenas atas de conversas entre rabinos e judeus batizados ou cristãos de origem, entre os quais figuram o arcebispo de Sens e diversos bispos, o abade de Cluny, dominicanos, o confessor da rainha e o próprio papa, provavelmente Gregório X. Cf. Z. Kahn, Étude sur le livre de Joseph le zélateur, na Revue des études juives, Paris 1880-1881, t. i, p. 222-246, t. iii, p. 1-38.
A controvérsia pública não deixava de ter perigos para a causa do cristianismo. Corria o risco de ser mal defendido. O agressor podia ser hábil. Certas matérias não são em absoluto suscetíveis de uma discussão pública proveitosa. A objeção é fácil de captar e permanece; a resposta, mesmo excelente, está acima da maioria dos ouvintes e é logo esquecida. Os polemistas, um Pedro de Blois, por exemplo, Contra perfidiam Judœorum, c. i, P. L., t. ccvii, col. 825-826, e o autor do Tractatus adversus Judœum, c. i, P. L., t. ccxiii, col. 749, assinalaram os perigos e a inanidade dessas discussões públicas. São Tomás de Aquino, Sum. theol., IIa IIæ, q.x, a. 7, traçou as regras a seguir. Gregório IX, pela bula Sufficere debuerat, de 5 de março de 1233, em Raynaldi, Ann. eccl., an. 1233, n. 49, mandou aos bispos da Alemanha que não permitissem essas controvérsias orais em público. Elas só tiveram lugar depois excepcionalmente. As controvérsias privadas, ao contrário, prosseguiram. Uma das mais notáveis desenrolou-se na casa de Pico della Mirandola, segundo o relato de Ficino, Epistolæ, Nuremberg, 1497, fol. clxxxii-clxxxiii.
A controvérsia escrita, essa, não declina. É ativa, premente, muitas vezes belicosa, como atestam estes títulos: Escudo, Baluarte, Fortaleza da fé, ou Punhal da fé, Mordaça dos judeus, Chicote dos judeus, Vitória sobre os judeus, Triunfo, etc. Concorrentemente com os judeus, ela chega a visar os outros inimigos do cristianismo, acima de todos os sarracenos. Pedro Afonso, Dial., tit. v, P. L., t. clvii, col. 597-606, explica por que, deixando de ser judeu, ele se torna não sarraceno, mas cristão. Segundo o costume da Idade Média, nossos escritores quase não designam suas fontes além da Escritura e dos Padres. Não se tem dificuldade em reconhecer que o pseudo-Guilherme de Champeaux é uma contrafação, mas num espírito muito agressivo, do pacífico Gilbert Crispin. Não é sem exemplo que o autor diga onde bebeu. Vítor Porcheto declara-se tributário de Raimundo Martini; Afonso de Spina, no Fortalitium fidei, confessa os amplos empréstimos que faz a seus predecessores. Com mais forte razão, os que buscam seus argumentos na literatura hebraica informam sobre suas fontes.
6° O conteúdo dos escritos. 1. Parte positiva da controvérsia. a) O argumento profético. É retomado sob todas as formas. Certos textos fixam cada vez mais a atenção: a profecia de Jacó, o Emanuel, o Servo de Isaías, as semanas de Daniel, etc. Foram necessários volumes para retraçar as polêmicas judaicas sobre o c. liii de Isaías e sobre as semanas de Daniel. Cf. A. Neubauer, The fifty-third chapter of Isaiah according to the Jewish interpreters, Oxford, 1876 Fraidl, Die Exegese der siebzig Wochen Daniels in der alten und mittleren Zeit, Graz, 1883. As discussões dos polemistas cristãos sobre essas passagens e algumas outras forneceriam matéria para copiosas monografias.
b) O fato da Igreja. Aqui o progresso se acentua. O tratado De vera religione, algo esboçado nos tempos anteriores, delineia-se mais. Em tal ou qual de nossos escritores temos elementos de verdadeiro valor. Pedro Afonso estabelece, em bons termos, a divindade do cristianismo pelo caráter de seu fundador, por « o esplendor e a glória da fé da santa Igreja », Dial., tit. ix, col. 627-638; Pedro o Venerável a estabelece pelo milagre da conversão do mundo e pela diferença entre a difusão do cristianismo e a do islamismo, c. iv, P. L., t. clxxxix, col. 587- 602. Abelardo a demonstra, mas não sem desvios, pela excelência da moral cristã. Ver t. i, col. 40-41.
Com Marsílio Ficino já temos o tratado quase inteiro, embora não levado a todos os seus pormenores, e é quase o título do De vera religione. Ver t. v, col. 2287-2289. O Triumphus crucis sive de veritate fidei de Savonarola é um pequeno tratado da religião, que prelude os métodos modernos.
c) Necessidade das disposições morais. Entre os cristãos de origem, Ruperto de Deutz é o que melhor expõe sua importância capital: para conduzir o judeu à verdadeira fé, conta apenas com a mudança interior, da qual o judeu se obstina em não se tornar capaz. Entre os judeus batizados, Hermann de Colônia é sobretudo a consultar: desde as Confissões de Santo Agostinho, nenhum escrito, tanto quanto seu De sua conversione, exprime de modo penetrante o mistério e as angústias de uma conversão, assim como a necessidade de uma mudança interior para que a inteligência se abra à plena luz. Cf. Nicolau de Lira, Probatio incarnationis Christi, no fim das Postillœ, Nuremberg, 1497, t. iv, fol. cccli b; Jerônimo de Santa Fé, Contra Judœorum perfidiam, II, 1. Bibl. Pat., Paris, 1624, t. iv a, col. 772-774; Marsílio Ficino, De religione christiana, c. xxxvii, Paris, 1510, fol. 60 a, sobre as causas da raridade da conversão dos judeus.
2. Parte negativa. a) O abandono da Lei. Aqui tudo já havia sido dito. Pedro Afonso, Dial., tit. xii, P. L., t. clvii, col. 656-672, resume bem o conjunto, mostrando que a Lei cristã cumpre e aperfeiçoa a Lei mosaica. Cf. C. U. Hahn, Geschichte der Ketzer im Mittelalter, Stuttgart, 1850, t. iii, p. 64- 68.
b) A Trindade divina. Como no passado, nossos controversistas conciliam a unidade de natureza e a trindade das pessoas. Melhor que no passado, alguns precisam que a Trindade não foi revelada, no Antigo Testamento, senão occulte et sub velamine, quoadusque venit Christus qui de tribus una personis fidelium illam mentibus pro eorum revelavit capacitate, como se exprime Pedro Afonso, Dial., tit. vi, col. 611. Cf. Alano de Lille, De fide catholica, l. III, c. ii, P. L., t. ccx, col. 402; o autor do Contra Judœos, em Max. bibl. Pat., Lyon, 1677, t. xxvii, p. 619, etc.; sobretudo Afonso Tostado.
c) A vida e a morte de Cristo e a ofensiva judaica. A concepção virginal de Cristo é defendida com uma insistência que revela a insistência do ataque judaico. Pedro Afonso detém-se longamente nela. Dial., tit. vii, col. 613-617. Do mesmo modo Guiberto de Nogent, P. L., t. clvi, col. 489-506; Gilbert Crispin, P. L., t. clix, col. 1019-1020; o pseudo-Guilherme de Champeaux, P. L., t. clxiii, col. 1054-1055; Odão de Cambrai, P. L., t. clx, col. 1110-1112. Este último, em seu breve tratado, só fala quase da concepção virginal e da necessidade da satisfação do Homem-Deus para a salvação do homem, col. 1103- 1110.
À ofensiva judaica os cristãos respondem com uma contraofensiva dirigida sobre os livros judaicos. Pedro Afonso, Dial., tit. i, col. 541-567, assinala algumas das fábulas do Talmud. Pedro o Venerável, c. v, P. L., t. clxxxix, col. 602-650, apresenta contra o Talmud um vigoroso requisitório, que termina assim: Ex quo prophetia in Israël non apparuit, nihil aliud texuistis, nulla alia doctrina libros judaicos implestis nisi blasphema, sacrilega, ridiculosa et falsa. O Talmud não é somente ridículo, é perigoso: encontram-se nele insultos contra Cristo, a religião cristã e os cristãos, imundícies, imoralidades sem conta, máximas que autorizam e santificam todas as iniquidades contra os cristãos. Tal foi a acusação do judeu batizado Nicolau Donin no curso da controvérsia de 1240. Ela voltou na maior parte das polêmicas posteriores. Jerônimo de Santa Fé intitulou De judaicis erroribus ex Talmuth o livro II de seu grande tratado contra os judeus.
Certos detalhes desse ataque podem ser discutíveis; não é exato, como repetia recentemente E. Fleg, Anthologie juive. Moyen Age à nos jours, Paris, 1923, p. 403, que os judeus convertidos « falsearam conscientemente a interpretação » do Talmud, e a campanha contra esse livro era mais que motivada. Cf. F. Vernet, Dictionnaire apologétique de la foi catholique, Paris, 1915, t. ii, col. 1687-1691. Não se veem apenas, nos livros judaicos, inimigos; descobrem-se neles auxiliares, e isso sem se contradizer, pois nossos controversistas combatem esses livros pelo que têm de mau do seu ponto de vista e os alegam pelo que têm de favorável ao cristianismo. Paulo Christiani é aquele, talvez, que inaugurou essa tática. Depois dele vários escritores, Afonso de Valladolid, Jerônimo de Santa Fé, Afonso de Spina, etc., buscaram no Talmud e no Midrash provas da verdade do cristianismo. Raimundo Martini, entre todos, conheceu a literatura hebraica e a utilizou com uma probidade científica indiscutível. Cf. I. Loeb, na Revue de l'histoire des religions, Paris, 1888, t. xviii, p. 136-137; I. Lévi, Le ravissement du Messie-enfant dans le Pugio fidei, na Revue des études juives, Paris, 1922, t. lxxv, p. 113-118. Raimundo Lulio assinala, de seu lado, a existência da cabala e a crê destinada a prestar os maiores serviços à causa católica. Esse sentimento é partilhado por Marsílio Ficino e por Pico della Mirandola. Ver t. ii, col. 1271.
7° O valor dos escritos. A vinda do Messias, a força do argumento profético, a ab-rogação da Lei antiga impõem-se à fé do cristão. Nem todas as provas apresentadas tiveram o mesmo valor. Houve ainda, nessa apologética, algo de incompleto e de medíocre. O pseudo-Andrônico Comneno, entre outros, usa e abusa do sentido espiritual para mostrar que o Antigo Testamento é a figura do Novo, e pergunta-se se muitos verdadeiros judeus teriam ratificado o elogio que ele se faz conferir por seu interlocutor, c. xxix, P. G., t. cxxxiii, col. 840: Belle et consentanee Dei vatis oracula sublimi sensu aperuisti, vereque antiquas futurorum umbras et figuras docuisti. Continua-se, salvo exceções, a pretender que a Trindade é claramente afirmada no Antigo Testamento e dá-se a textos um alcance que não têm de modo algum. Por uma tática desastrada, é precisamente pelo dogma da Trindade, isto é, pelo mais difícil, que o pseudo-Comneno, c. i, col. 800, e Guilherme de Bourges, prol. e c. em J. Hommey, i, Supplementum Patrum, Paris, 1685, p. 412, 417-418, começam a sua exposição apologética; outros, como Gautier de Châtillon, P. L., t. cix, col. 426, mais bem inspirados, começam pelo mais fácil e reservam a Trindade para o fim. Cf. Alphonse Tostat, De sanctissima Trinitate, p. 13. Depois, muitos de nossos controversistas não sabem hebraico e não citam a Escritura no texto hebraico; isso basta para comprometer as suas demonstrações.
Mas, por felicidade, o conhecimento do hebraico se difundiu. Cf. S. Berger, Quam notitiam linguæ hebraicæ habuerint christiani medii ævi temporibus in Gallia, Paris, 1894. As línguas orientais são estudadas em certas universidades. Dominicanos e franciscanos põem-se na escola dos judeus para decifrar os escritos talmúdicos e rabínicos. Judeus batizados trazem à Igreja o seu saber e o seu proselitismo. Guilherme de Bourges, prol., p. 412, indica bem o seu estado de espírito Instigantibus, sicut credo, quibusdam fidelibus qui me in notitia linguæ hebraicæ credunt aliquantulum profecisse, compulsus sum de fide nostra catholica, secundum quam (sic) hebraica veritas testatur, disputationis librum componere contra perfidiam Judœorum. Recorre-se ao texto hebraico da Bíblia. Gilbert Crispin declara que basta ater-se aos Setenta. P. L., t. clix, col. 1027-1028. Em contrapartida, Pedro o Venerável remete ao texto hebraico, P. L., t. clxxxix, col. 527, 617, e também Gautier de Châtillon, l. I, c. ii, P. L., t. ccix, col. 427, e, melhor ainda, Guilherme de Bourges (cf. sua clavis libelli, p. 416) e os outros judeus convertidos, e sobretudo Nicolau de Lira, constantemente, cf. Postillœ, prol. ii, Nuremberg, 1497, fol. iib, e Raimundo Martini, que explica claramente, t. i, Pugio fidei adversus Mauros et Judœos, prœm., Paris, 1651, p. 7-8, as razões pelas quais não segue os Setenta nem São Jerônimo, mas o original hebraico.
O delicado era entender-se, a partir do momento em que havia acordo sobre o texto, quanto ao sentido a lhe dar. Fazer os judeus admitirem, não tanto que o sentido espiritual se impõe por vezes, mas que, em tal ou tal caso, o sentido espiritual que se impõe é aquele que conclui em favor do cristianismo, era uma tentativa fadada ao fracasso. Mais de um controversista não o compreendeu. Cf. Gilbert Crispin, P. L., t. clix, col. 1024-1026: o pseudo-Guilherme de Champeaux, P. L., t. clxiii, col. 1047-1050, etc. Outros aceitaram levar em conta apenas o sentido literal. Cf. Pedro o Venerável, P. L., t. clxxxix, col. 617; Gautier de Châtillon, l. I, c. ix, P. L., t. ccix, col. 432; o anônimo, c. i, P. L., t. ccxiii, col. 749-750, sobretudo Nicolau de Lira, etc., prol. ii, t. i, fol. ub, sobre o sentido literal fundamento do sentido místico e espiritual propter quod, sicut ædificium declinans a fundamento disponitur ad ruinam, sic expositio mystica discrepans a sensu litterali reputanda est indecens et inepta, vel saltem minus decens cœteris paribus et minus apta, e o que se segue.
Feitas as contas, no conjunto a polêmica antijudaica está em progresso. De pontos de vista diversos, um Pedro Afonso, um Pedro o Venerável, um Jerônimo de Santa Fé, um Raimundo Martini, um Savonarola, para nomear apenas esses, escreveram obras notáveis em si mesmas e capazes de impressionar judeus sérios e de boa fé. A julgar por seu tratado Contra a lei dos sarracenos, o tratado de Ricoldo de Monte Croce é aquele cuja perda mais se deve lamentar; foi sem dúvida, com o Pugio fidei de Raimundo Martini, o mais douto desse período. A virulência do tom desses escritos se explica pelos costumes da época e pelos motivos de queixa que se tinha contra os judeus. Um Pedro o Venerável, de temperamento irônico, foi posto como que fora de si mesmo pelas abominações que descobriu no Talmude. Mas a cortesia e a benevolência não são desconhecidas de nossos polemistas. Aparecem nos dois escritos, aliás tão dessemelhantes, de Gilbert Crispin e de Raimundo Lúlio. Nicolau de Cusa foi pacífico e concessionista em excesso, pois, para reunir todas as religiões sob a bandeira da Igreja, estava disposto a sacrificar as cerimônias do culto cristão. A maioria, inclusive os mais veementes, dá a entender, em um momento ou outro, que ama os judeus e que a polêmica, por mais rude que seja, se inspira em um verdadeiro interesse pelas almas. Cf. Pedro o Venerável, prol., P. L., t. clxxxix, col. 509.
1899 — Travaux. C. U. Hahn, Geschichte der Ketzer im Mittelalter, Stuttgart, 1850, t. iii, p. 54-68; M. Steinschneider, Polemische und apologetische Literatur in arabischer Sprache zwischen Muslimen, Christen und Juden, Leipzig, 1877; I. Loeb, La controverse de 1240 sur le Talmud, na Revue des études juives, Paris, t. i, p. 247-261 n, 218-270; iii, 39-57; xviii, 231-237; La ; t. p. t. p. t. p. controverse de 1263 à Barcelone entre Paulus Christiani et Moïse ben Nahman, ibid., 1887, t. xv, p. 1-18; Polémistes chrétiens et juifs en France et en Espagne, ibid., 1889, t. xviii, p. 43-70; La controverse religieuse entre les chrétiens et les Juifs au Moyen Age en France et en Espagne, na Revue de l'histoire des religions, Paris, 1888, t. xvii, p. 311- 337, t. xviii, p. 133-156 1. Lévi, Controverse entre un juif un au XI ; de de et chrétien siècle (traite Gilbert Crispin) ut controversistes postérieurs), na Revue des études juives, Paris, 1882, t. v, p. 238-249; H. Denifle, Quellen zur Disputation Pablos Christiani mit Mose Nachmani zu Barcelona 1263, em Historisches Jahrbuch, Munster, 1887, t. viii, p. 225-244; A. Neubauer, Jewish Controversy and the Pugio fidei, em Expositor, Londres, 1888, p. 81-105, 179-197; J. Guttmann, Das Verhältniss des Thomas von Aquino zum Judenthum und zur jüdischen Litteratur, Gœttingue, 1891 Die Scholastik des dreizehnten Jahrhun- Beziehungen ; zum Judenthum, 1902; derls in ihren Breslau, H. Gayraud, L'antisémitisme de saint Thomas d'Aquin, 3e édit., Paris, 1896 S. Deploige, S. Thomas et la question ; Monod, moine juive, 2e édit., Paris, 1902; B. Le Guibert et son temps, Paris, 1905, p. 197-216; J. Martin, L'apologétique traditionnelle, Paris, 1905, t. ii, p. 19-38; O. Zöckler, Geschichte der Apologie des Christentums, Gütersloh, 1907, p. 205-218, 217-251 A. Posnanski, Le colloque de Tortose de San Mateo ; 1413-13 novembre 1414), dans et (7 février la Revue des études juives, Paris, 1922-1923, t. lxxiv, p. 17- 39, 160-168; t. lxxv, p.74-88, — 187-204; t. — lxxvi, p. 37-46.
IV. De 1500 a 1789. 1° Os escritos. Pululam, graças à difusão da imprensa. Catalogar toda essa literatura seria muito longo e de pouco proveito. Ver uma lista cuidada, que vai até 1723, em Fabricius, Delectus argumentorum, p. 576-663. Indiquemos as principais correntes que ela segue e os escritos importantes ou característicos.
No Oriente. Melécio Pegas, patriarca de Alexandria, 1. Ὑπὲρ τῆς Χριστιανῶν εὐσεβείας πρὸς Ἰουδαίους ἀπολογία, — Lemberg, 1593, texto grego e tradução rutena. Cirilo Lucaris escreveu, antes de ser patriarca em Constantinopla (1620), Σύντομος πραγματεία κατὰ Ἰουδαίων, Constantinopla, 1627. — 2. No Ocidente. Os — escritos dos católicos de nascimento. a) Século XVI. Fino Fini (t 1519), Flagellum — in Judœos, publicado por seu filho Daniel, Veneza, 1538. Carlos de Bouelles (Bouilli), cônego de Noyon, Dialogi duo de S. — Trinitate inter christianum et Judæum, Paris, 1513. Marcos Marulo, erudito — dálmata, De fide Christi contra Judæos, Basileia, 1513. Miguel Tomás Taxaquet, bispo de Lérida, Brevis christianæ ac catholicæ fidei defensio et Judæorum, 1515.— mahumedanorum ac hæreticorum oppugnatio, Roma, Cyprien Benet 1515.— (Beneti), dominicano, Aculeus contra Judæos, Roma, Antônio Marinário, carmelita, Consonantiæ Jesu Christi et prophetarum, Paris, 1541; reimpressão sob este título Concordia Veteris et Novi Testamenti, 1586.— : De Paris João Luís Vives, De veritate fidei christianæ libri quinque contra ethnicos, Judæos, Agarenos sive mahumetanos et perverse christianos, Basileia, 1543.
Gilberto Génébrard, cluniacense, Contra R. Josephum Albonem, R. Davidem Kimchium et alium quemdam judæum anonymum nonnullos fidei christianæ articulos oppugnantes, Paris, 1566. - Pedro Charron, teologal de Condom, discípulo de Montaigne e autor de La sagesse, publicou Les trois vérités contre tous athées, idolâtres, Juifs, mahométans, hérétiques et schismatiques, em três livros, Paris, 1594; nouv. édit. (sem nome de autor), 1595. — h) Século XVI Domingos Garzias, Propugnaculum l* siècle, culiim — christianæ religionis contra Judæos, Saragoça, 1606. João Thraske, Treatise of liberts against judaisme, Londres, 1610. Zacarias Boverius, capuchinho, Demonstrationes symbolorum veræ et falsæ religionis adversus atheistas, Judæos, hæreticos, Lião, 1617. Vicente da Costa Matos, Breve discurso contra a perfidia heretica do judaismo, Lisboa, 1622. Timóteo de Ciabra, carmelita português, La honda de Davido o cinco sermones del Santissimo — Sacramento contra los Judios, Roma, 1631. Inácio Landriani, olivetano, Virginis partus ejusque filii Emmanuel divinitatis et humanitatis scripturalis dissertatio atque demonstratio —-Melchior adversus Hebræos et hæreticos, Milão, 1641. Palontrotti, Disputa del cristiano con l'ebreo, Roma, 1647, e outras obras. Cf. Imbonati, p. 161. João Maria Vincenti, veneziano, clérigo regular, — Il Messia venuto (cem sermões), Veneza, 1659. Francisco Carboni, o editor do Flagellum Hebrœorum de Inghetto Contardo, escreveu Le piaghe dell' ebraismo novamente scoperte col lume delle più preziose dottrine d'antichi scrittori cattolici, ebrei e gentili, Veneza, 1674 (posto no índice por decreto de 26 de setembro de 1680).— Carlos José Imbonati, Adventus Messiœ a Judœorum blasphemiis ac hæreticorum calumniis vindicatus, Roma, 1694 (na sequência da Bibliotheca latino-hebraica, paginação especial).
c) Século XVIII. Vicente Luís Gotti, dominicano e cardeal, Veritas religionis christianæ et librorum quibus innititur contra atheos, polytheos, idololatras, mahomedanos et Judæos demonstrata, 1735-1740, 12 vol. François-Ilharat de la Chambre, doutor da Sorbonne, publicou, sob o véu do anonimato, Traité de la véritable religion contre les athées, les déistes, les païens, les Juifs, les mahométans et toutes les fausses religions, — Paris, 1737, 5 vol. Ver sobretudo o t. iii, p. 231-481. Statler, Démonstration évangélique ou certitude de la religion révélée par Jésus-Christ démontrée contre tous les philosophes antichrétiens anciens et modernes, contre les Juifs et les mahométans, trad. da Demonstratio evangelica, Augsburgo, 1770, em Migne, Démonstrations évangéliques, Paris, 1843, t. x, col. 485-1018. João Bernardo de' Rossi,Della vana aspettazione degli Ebrei del loro re Messia, Parma, 1773. Pedro Tomás Laberthonie, dominicano, Défense de la religion chrétienne contre les incrédules, les Juifs, etc., Paris, 1779, 5 vol. Beurier, eudista, Conférences ou discours contre les ennemis de notre sainte religion, à savoir les athées, les déistes, les tolérants, les Juifs..., Paris, 1779.
3. Os escritos dos judeus convertidos. a) Século XVI. Vítor de Carbon, rabino em Colônia, convertido em 1472, deu conta de sua conversão em um livro que apareceu em alemão sem indicação de lugar e de data e que reapareceu, aumentado, em latim sob este título: Opus aureum ac novum... in quo omnes Judæorum errores manifestantur... declarantur etiam mores... ac tandem ex Veteri tantum Testamento convincuntur, Colônia, 1509; Paris, 1511; Estrasburgo, 1519 (tradução alemã); Cunitz, 1550. sob o título Judenbüchlein. O Propugnaculum Colônia, : fidei christianæ, 1514, é- mesmo — obra sob outro título ou um ou\ il le I diferente? Afonso de Zamora, convertido em 1501, encarregado da correção do texto hebraico da poliglota de Ximenes, publicou uma Epist, ad infideles Hebræos Urbis Romæ em sua Introductio artis grammaticæ hebraicæ, Alcalá, 1526. Paulo Weidner, Loca præcipua fidei christianæ collecta et explicata, Viena, 1559. - - Ernesto Fernando Hessus, Flagellum Judaicum, Fritzlar (Hessen), 1589.
b) Século XVII. Júlio César Misuracchi, - - Ragionamenti della venuta del Messia contro la durezza e ostinazione ebraica, Orvieto, 1629. João Batista Jonas, anteriormente R. Judas Jonas, convertido em 1625, traduz para o hebraico os Evangelhos, Roma, 1668, bem como o Pequeno catecismo de Belarmino, que completa com anotações tiradas dos rabinos, Roma, 1658, e compõe um Diálogo, que ficou manuscrito, contra os judeus. Cf. J. Bartolocci, Bibliotheca — magna rabbinica, Roma, 1683, t. iii, p. 48-52. Christian Held, Victoria christiana contra — Judœos, Kiel, 1681.
c) Século XVIII. Christian Lebrecht — Felss, Wegweiser der Juden, Frankfurt, 1703. — João Xerez, Address to the Jews, Londres, 1711. Ver em Fabricius, Delectus argumentorum, p. 630-633. uma lista de judeus convertidos, com o título de seus escritos em favor da fé cristã.
4. Os escritos dos protestantes. a) Século XVI. João Calvino, Responsa ad viginti tres objectiones judœi cujusdam — (a 358ª de suas cartas). Cf. Fabricius, p. 583. Sebastião Münster, Colloquium cum judœo pertinaciter suis de Messia opinionibus addicto, em hebraico e em latim, Basileia, 1539. Falamos acima de sua tradução para o hebraico do Evangelho de São Mateus e do uso que fez do — Livro da fé do judeu convertido Paulo de Bonnefoy. M. Kromer, Unterredung vom Glauben zwischen ihm und einem jüdischen Rabbi Jacob von Brucks, Cunitz, 1550, à — sequência do Judenbüchlein de Vítor de Carben. Teodoro Bibliander (Buchmann), De Judœorum et christianorum defectione — a Christo, Ecclesia et fide catholica, Basileia, 1553. Filipe du Plessis-Mornay, De la vérité de la religion chrétienne contre les athées, épicuriens, païens, Juifs, mahumédistes et autres infidèles, Antuérpia, 1579. Os caps. vi, xxvii-xxxi, que se referem especialmente aos judeus, apareceram separadamente, em uma tradução alemã, sob o título de Juden-Bekehrung, 1602. A obra foi traduzida para o latim (pelo autor, Antuérpia, 1581), para o italiano, para o inglês. De du Plessis-Mornay ainda Avertissement : aux Juifs sur la venue du Messie, Saumur, 1607, importante.
b) Século XVII. João Buxtorf, pai, Ad quœstiones et objecta judœi cujusdam ἀντερωτήσεις et responsa christiani, na sequência de sua Synagoga — judaica, Basileia, 1641 (V e édit., 1604), p. 467-498. Hugo Grócio (Groot) escreveu na prisão (1620), em versos flamengos, modificou e pôs em latim o De veritate religionis christianœ, Paris, 1627; cf. a edição de Halle, 1734-1739, t. iii, c. ii, p. 12-74, sobre as diversas edições; c. iii, p. 75-112, sobre as traduções em todas as línguas; c. iv, p. 113-132, sobre os comentadores. O V inteiro é contra o judaísmo, edit. de 1. le Halle, t. i, p. 291-370, cf. Annotationes, t. ii, p. 439- 542; em francês em Migne, Démonstrations évangéliques, Paris, 1813, t. ii, col. 1087-1102. João Cristóvão Wagenseil, Tela ignea Satanœ hoc est arcani et horribiles Judæorum adversus Christum Deum et christianam religionem ἀνέκδοτοι, Altdorf, 1681; é uma coletânea de escritos judaicos com sua — refutação (no índice, decreto de 2 de julho de 1686). Filipe van Limborch, De veritate religionis christianœ amica collatio cum erudito judœo, Gouda, — 1687 (no índice, decreto de 18 de dezembro de 1749). Augusto Pfeiffer, Theologiœ sive potius ματαιολογίας judaicœ atque mohammedicœ seu turco-persicœ principia — sublata et fructus pestilentes, Leipzig, 1687. João André Eisenmenger, Entdecktes — Judenthum, Frankfurt, 1700.
c) Século XVIII. João Jacó Schudt, Judœus christicida gravissime peccans et vapulans, sive demonstratio cœdem et rejectionem Jesu Nazareni veram esse causam Judœorum exilii omnisque — illorum miseriœ originem, Frankfurt, 1704. Carlos Lesley, bispo anglicano (f 1722), Méthode courte et aisée contre les Juifs, em Migne, Démonstrations — évangéliques, Paris, 1843, t. iv, col. 959-992. Stanhope, Défense de la religion chrétienne contre les Juifs et contre les faux sages tant païens que chrétiens, ibid., t. vi, col. 485-602.
1902 —- 5. Os escritos sobre a utilização dos livros judaicos. Os livros judaicos beneficiaram-se primeiro do movimento do Renascimento. Leão X pensionou judeus convertidos que se ocuparam de traduzi-los: interessou-se pela publicação do Talmude. Mas houve protestos, e um vivo debate, que a Reforma alemã explorou depressa, travou-se sobre o ponto de saber se eram um obstáculo à conversão dos judeus e, por conseguinte, deviam ser destruídos, ou se eram capazes de prestar serviços à apologética cristã.
a) Pelos livros judaicos. João Reuchlin, que já havia, em seu De verbo mirifico, Basileia, 1494, preconizado os livros hebraicos, e que escrevera o pequeno tratado Por que os judeus estão há tanto tempo na aflição, 1505, defendeu os livros judaicos em vários escritos, — dos quais o mais retumbante foi Der Augenspiegel, 1511. Pedro Colonna, dito Galatino do nome de sua terra, Galatina, na Apúlia, judeu convertido, franciscano, Opus de arcanis catholicœ veritatis hoc est in omnia difficilia loca V. Testamenti in Talmud aliisque hebraicis libris contra obstinatam Judœorum perfidiam absolutissimus — commentarius Ortona, 1518, várias edições. Paulo Ricci, judeu convertido, médico do imperador Maximiliano I tomou o partido de Reuchlin, escreveu várias obras contra os judeus, Philosophica, prophetica ac thalmudistica pro christiana veritate tuenda — cum juniori Hebrœorum synagoga disputatio, etc. — O cardeal Egídio de Viterbo. Ver t. vi, col. 1369. A este movimento se ligará mais tarde, quando o ardor da luta tiver caído, o cisterciense Júlio Bartolocci de Celleno, Bibliotheca magna rabbinica, 4 in-fol., Roma, 1675-1693, cujo fim, como ele declara em seu prefácio, é utilizar os livros judaicos quorum lectione contra ipsosmel christianœ : pugnare religionis hostes et propriis armis eosdem confodere ediscemus. Sobre um escrito (manuscrito) contra os judeus, cf. Imbonati, discípulo de Bartolocci, Bibliotheca latino-hebraica, p. 148.
b) Contra os livros judaicos. João (primeiro José) Pfefferkorn, judeu convertido, que haveria de acabar mal, escreveu, entre outros, Der Judenspiegel, 1507, convidando os judeus a se converterem e, para isso, a renunciarem à leitura do Talmude; depois, Der Judenfeind, 1509, atacado por Reuchlin; — Der Handspiegel, 1511, contra Reuchlin, etc. O inquisidor dominicano Jacó Hochstratten, Destructio cabbalœ — seu cabbalisticœ perfidiœ, Colônia, 1519. Arnaldo Luydius de Tongres, Articuli sive propositiones de judaico favore nimis suspectœ ex libello teutonico Joannis Reuchlin, Colônia, 1512, etc. Na querela de Reuchlin tratou-se sobretudo do Talmude, muito menos da cabala. Quando a Igreja condenou os livros judaicos, tratava-se, de início, apenas do Talmude. A cabala era menos suspeita, parecia mais apta a confirmar os dogmas cristãos. Sobre os livros a favor e contra a cabala ver t. ii, col. 1271-1273, 1290.
6. Escritos nos quais os judeus são combatidos indiretamente. — Pascal, Pensées, 1ª edição póstuma, Paris, 1669. 2.
Daniel Huet, bispo de Avranches, Demonstratio evangelica, Paris, 1679, obra empreendida na sequência de discussões com aquele dos judeus de Amsterdã que tum inter illos peritissimus ac totius judaicœ disciplinœ consultissimus habebatur, prœf., p. 2; trad. em Migne, Démonstrations — évangéliques, Paris, 1843, t. v, col. 7-936. Bossuet, Discours sur l'histoire universelle, Paris, 1681, sobretudo, na II parte, "A continuação da religião", os c. xx-xxiv, xxix-xxxi, Œuvres, edit. Lachat, Paris, 1864, t. xxiv, p. 467-512, 553- 570. P. Montmédy publicou Triumphus religionis de atheismo, gentilismo, judaismo et hœresi. sive de religionis successu et antiquitate ex libro J. B. Bossuet Discours 1903 sur universelle, Ratisbona, 1715. Citar ainda a história, com vários sermões de Bossuet, sua II instrução sobre a versão do Novo Testamento impressa em Trévoux. Dissertation préliminaire sur la doctrine et la critique de Grotius, e Défense de la tradition et des saints Pères, I parte, l. III, c. xxi-xxx, t. iii, p. 478- 510; t. iv, p. 111-125, por ocasião de Richard Simon louvar Grócio por seus comentários sobre a Bíblia, em particular sobre as profecias messiânicas, Bossuet censura Grócio por chegar a "aniquilar a prova da religião pelas profecias" que ele havia — estabelecido em seu De veritate religionis christianœ. O protestante Jacques Abbadie, Traité de la vérité de la religion chrétienne, Rotterdam, 1684, 2 vol.; Traité de la divinité de Notre-Seigneur — Jésus-Christ, Rotterdam, 1689. Ver t. i, col. 7-8. Baltus, jesuíta, La religion chrétienne prouvée par l'accomplissement des prophéties, Paris, 1728 Défense des prophéties de la religion chrétienne, — Paris, 1737,3 vol., contra Grócio e Richard Simon. O abade Houtteville, La vérité de la religion chrétienne prouvée par les faits, Paris, 1722. Esta obra foi criticada, notadamente pelo orientalista Étienne Fourmont, Lettre de Rabbi Ismaël ben Abraham juif converti à l'abbé Houtteville, Paris, 1722; Houtteville deu uma edição corrigida, Paris, 1741, 3 vol., que foi seguida de uma edição póstuma, 1749, — 4 vol. Bergier, Traité historique et dogmatique de la vraie religion, Paris, 1787, 12 vol., sobretudo II parte, c. vii-ix, t. vii, p. 107-587.
Poder-se-ia citar ainda a maioria dos teólogos deste período, sobretudo os que têm o tratado De vera religione, mas também muitos outros, por exemplo, Petau, Dogm. theol. Suárez, In IIIam, disp. I, Contra Judœos, Messiam iam venisse, edit. Vives, Paris, 1860 t. xvii, p. 5-25; De incarnatione Verbi XVI, in quo adversus samosatenos recentiores sive 1. socinianos necnon Judæos Christi incarnati Verbi ac Dei hominisque dogma defenditur, edit. Fournials, Paris, 1867, t. vii, c. vi-x,p. 310-331 (contra os judeus); muitos comentadores da Escritura, historiadores, etc., sem falar dos canonistas que se ocupam da situação legal dos judeus, e de todos aqueles que, de Lutero a Voltaire, passando por Simão Majoli, Pedro de Lancre, Francisco de Torrejoncillo, o autor do Livre de l'Alboraïque (Bibl. nat. de Paris, fonds espagnol, ms. 356, etc.), desertam a controvérsia doutrinal para se colocarem no terreno social ou preludiar os ataques do antissemitismo — do século XIX.
2° O caráter dos escritos. A literatura antijudaica assemelha-se, primeiro, à do passado. O próprio título dos escritos é muitas vezes decalcado sobre obras anteriores. Têm por autores católicos de nascimento, judeus batizados e quase todos, se não todos, tornados católicos, protestantes. No Oriente, os controversistas rareiam; há menos na Espanha, tantos quanto, ou mais, na França, mais na Itália e na Alemanha. A imprensa os estimula e favorece a difusão de suas obras, ao mesmo tempo que lança em circulação as obras antigas. O conhecimento da língua e dos livros dos judeus desenvolveu-se. A controvérsia antijudaica o utiliza e por vezes o ostenta de bom grado. Orna-se de textos hebraicos e, a fim de reproduzi-los segundo as regras, imprime o latim em que são introduzidos da direita para a esquerda, subindo do fim do volume ao começo; assim fazem, entre outros, Bartolocci e Imbonati.
Alguns dos judeus convertidos têm o bom pensamento de escrever em hebraico para abordar mais facilmente os judeus e conduzi-los ao cristianismo; ou então traduzem para o hebraico o Novo Testamento, de preferência os Evangelhos, ou livros católicos. P. N. Lebrecht publica, em hebraico e em alemão, Eckstein des wahren christlichen Glaubens, 1904 Dresden, 1719. João André dá, em hebraico, uma Carta parenética à sinagoga dos judeus, Paris, 1552. João Batista Jonas traduz, com o Pequeno catecismo de Belarmino, os evangelhos, que são publicados em Roma, 1668, e o resto do Novo Testamento, que não é publicado; revê a tradução hebraica dos três primeiros livros da Summa contra Gentes de São Tomás. Domingos de Jerusalém, convertido por volta de 1600, professor de hebraico no colégio romano dos neófitos, traduz para o hebraico o Evangelho. Um protestante, de nome de aparência judaica, Elias Schadœus, escreve, em hebraico e em alemão, uma Admonitio ad Judœos in mysterio S. Pauli de conversione Judœorum ad Rom., XI, Estrasburgo, 1592, e, diz Fabricius, Delectus argumentorum, p. 582, germanice litteris hebraicis vulgavit Luc, Jean, os Atos dos Apóstolos, as cartas aos Romanos e aos Hebreus e algumas profecias, segundo a tradução de Lutero. O pastor M. Christian Mollerus publica todo o Novo Testamento em letras hebraicas para os judeus, Frankfurt, 1700. O protestante J. G. Meuschen publica Novum Testamentum ex Talmude antiquitatibus Hebrœorum illustratum, Leipzig, 1736, onde dá diversos trabalhos de si mesmo e de três sábios protestantes, dos quais o mais importante é o de B. Scheid, Præterita præteritorum. Loca talmudica (referentes ao Novo Testamento), p. 1-232.
Uma forma, não nova mas mais comum, da controvérsia antijudaica é a do sermão. Em Roma, os judeus foram obrigados (1577) a assistir a pregações cristãs, e Gregório XIII fundou, para ter pregadores competentes, uma escola cujos alunos, em número de cerca de 30, recrutados em dois terços entre os judeus convertidos, aprenderiam, além das ciências teológicas, o hebraico, o árabe e o caldeu.
Cada sábado, à saída da sinagoga, ao menos um terço da população do gueto, a partir dos 12 anos, devia ouvir uma pregação, calma e imparcial, sobre o texto bíblico de que o rabino havia dado leitura. Em toda parte onde houvesse judeus, os bispos, tanto quanto possível, adotariam a mesma medida. A prescrição foi pouco executada fora de Roma. Em Roma, a ordenação de Gregório XIII permaneceu em vigor, não sem intermitências, até Pio IX, que a anulou em 1848. Entre esses pregadores, Imbonati, Bibliotheca latino-hebraica,p. 62-63, assinala os dominicanos Gregório Buoncompagni (f 1688) e seu sucessor Gregório Compagni, o revisor da Bibliotheca latino-hebraica; menciona sermões manuscritos aos judeus de um e de outro. Uma das mais curiosas coletâneas de sermões foi a de J. M. Vincenti, Il Messia venuto, Veneza, 1659 (no índice, decreto de 18 de junho de 1680). Cf. Imbonati, p. 112-119.
À medida que avançamos nos tempos modernos, os escritos dirigidos exclusivamente contra os judeus são cada vez menos numerosos. Os judeus são combatidos antes em obras que têm por fim geral a apologia do cristianismo, e isso muitas vezes não tanto para converter os inimigos da fé cristã quanto para firmar nessa fé aqueles que a receberam no batismo. É que os judeus já não são os principais inimigos do cristianismo. Veio o deísmo, e o racionalismo a cada dia mais ousado, e o ateísmo, por sua vez, e o protestantismo também, que muitas vezes entra na luta contra os judeus mas que não tarda, sob certa forma, a favorecer o racionalismo. A apologética católica volta principalmente para esses lados o seu esforço; os judeus não absorvem menos ; pensée sont oubliés, ils la chrétienne. Da polêmica contra os pagãos e os judeus primeiro, depois contra os judeus quase exclusivamente e os hereges, mais tarde contra os judeus e os muçulmanos, foi preciso passar à prova da verdade da religião cristã "contra os ateus, epicuristas. 1905 pagãos, judeus, maometanos e outros infiéis", como traz o título do livro de du Plessis-Mornay.
O tratado De vera religione, inaugurado por Marsílio Ficino e Savonarola, constitui-se progressivamente em todas as suas peças. Grócio traça-lhe as linhas mestras: preâmbulos sobre a existência e a providência de Deus : e sobre a imortalidade da alma, divindade de Cristo e do cristianismo, autenticidade e veracidade do Novo Testamento, refutação do paganismo, do judaísmo, do islamismo. Por outro lado, o tratado De Ecclesia se destaca do De fide. A forma clássica dos dois tratados De vera religione e De Ecclesia Christi está mais ou menos fixada, em meados do século XVIII, nos Religionis naturalis revelatæ et catholicæ principia, Paris, 1754, 2 vol., do sorbonista Luce Joseph Hooke. Em muitos casos é fácil reencontrar as principais fontes de nossos autores. Fino Fini depende de Pedro Bruto. Galatino tomou muito emprestado, sem o dizer, de Raimundo Martini, seja imediatamente, seja por meio de Vítor Porcheto. Pascal preparou-se para sua apologia do cristianismo talvez pelo estudo das Trois vérités de Pierre Charron, certamente pelo de Grócio, sobretudo pelo do Pugio de Raimundo Martini, fidei que foi para ele não um inspirador doutrinal mas como um manual de exegese judaica. Cf. L. Brunschvicg, Pensées de Pascal, Paris, 1904, — t. i, p. xc-xciii.
3° O conteúdo — dos escritos. 1. Parte positiva — da controvérsia. a) O argumento profético. Ora se expõe todo o conjunto e o detalhe das profecias; Huet, em sua grande Demonstratio evangelica, prœf., n. 1, p. 2, declara escolher unicum de multis argumentum ex prophetiarum eventu conflatum, e o leva a fundo, insistindo na força probante do argumento global, spectanda tota series est, prop. IX, c. cxxxi, n. 2, p. 631. Ora se atém a uma ou outra das profecias mais célebres. Ver, em Fabricius, Delectus argumentorum, listas de trabalhos sobre as profecias de Jacó, p. 585-588; de Isaías, c. liii, p. 584-585; de Daniel, p. 591-592; de Ageu, p. 596-597; de Jeremias, p. 598-599; sobre as figuras do Antigo Testamento, p. 610-613. Grócio, em suas Annotationes in totam Scripturam sacram, Amsterdã, 1679, e Richard Simon, em sua Histoire critique des principaux commentateurs du Nouveau Testament, Rotterdam, 1693, minimizaram o alcance do argumento profético. Bossuet, que chegou a censurá-los por "aniquilar a prova da religião pelas profecias", Défense de la tradition et des saints Pères, I parte, l. III, c. xxii, Œuvres, Paris, 1862, t. iv, p. 113, se teve o erro de não dar bastante a uma legítima exegese e de conceder demais ao sentido figurado não estabelecido, tinha fundamento para se queixar do abandono quase total do sentido figurado e da depreciação do argumento profético, tão honrado no Novo Testamento e nos Padres.
Pascal não carece de lacunas; embora compreendendo a importância de uma sólida exegese, foi limitado pela ciência de seu tempo e pela brevidade de sua vida, e a parte histórica de sua argumentação é fraca. Mas, com isso, "entreviu, viu, proclamou a verdadeira solução, e as breves notas que a contêm são talvez o que pensou e escreveu de mais belo", diz o P. Lagrange, Pascal et les prophéties messianiques, na Revue biblique, 1906, p. 550. Retomando o ponto de vista dos apóstolos e de Cristo, Pascal mostra excelentemente que todas as profecias se referem ao advento de uma nova ordem espiritual, a da caridade ou da santidade; ora, é incontestável que essa predição foi realizada pelo cristianismo — e só pelo cristianismo.
b) O fato da Igreja. A formação dos tratados De vera religione e De Ecclesia Christi é o resultado de uma longa série de esforços para estabelecer que as profecias são realizadas e justificadas pela Igreja. Fora dos teólogos que elaboram esses tratados, a ideia está mais ou menos por toda parte em nossos controversistas. Um Vives, desde antes de Grócio, tem sobre isso coisas excelentes. Em Pascal há, sobre a divindade do cristianismo provada pela transcendência do caráter de Cristo e pelo estabelecimento prodigioso da nova fé, não um estudo completo mas vivas claridades. Cf. H. Petitot, Pascal, sa vie religieuse et son apologie du christianisme, Paris, 1911, p. 329-341.
Bossuet é admirável no que diz dos milagres de Cristo e dos apóstolos, da maneira como o cristianismo conquistou o mundo, do espetáculo da perfeição moral que lhe deu e desse "milagre sempre subsistente que confirma a verdade de todos os outros: é a continuação da religião sempre vitoriosa dos erros que procuraram destruí-la". Discours sur l'histoire universelle, II parte, c. xxxi, Œuvres, Paris, 1864, t. xxiv, p. 566.
c) Necessidade das disposições morais. É reconhecida por Huet, que se gaba, contudo, de fornecer um argumento tal que "não deixa o recurso de escapar-lhe nem de resistir-lhe", uma demonstração tão perfeita que constet hoc genere demonstrationis quod non minus certum sit quam demonstratio quævis geometrica, prœf., n. 2, p. 2-3. Ele mesmo não persiste sempre nessa atitude impossível. Indica, entre as causas da incredulidade, "as más disposições" daqueles que estudam o cristianismo, e diz demonstrada: "Embora a verdade da religião seja até a evidência, minhas provas não poderão inspirar a fé sem o socorro da graça", e termina o seu prefácio suplicando ao Senhor onipotente que abençoe o livro e aja sobre o espírito dos leitores "de maneira a tirar-lhes toda dureza, a preparar-lhes o coração como boa terra e a depositar nele o germe da fé", prœf., n. 1, 4-5, Cf. o prefácio das edições 11-12.— posteriores, Démonstrations évangéliques, v, col. Vives, De veritate fidei christianae, t. III, c. iii, Quomodo disputandum, Lião, 1551, p. 249, 1. pede, na busca laboriosa da verdade por meio das Escrituras, ao judeu que quer chegar a um resultado, que afaste animorum tenebrae, ira, odium, invidia, arrogantia, pertinacia, quae etiam rebus dilucidissimis atque in ipso meridie tetram caliginem densasque tenebras offunderent; hœc in primis necesse est jubeamus conquiescere, imo abesse quam longissime, dum de sanctis oraculis disserimus. Pascal insiste na necessidade, para encontrar Deus, de disposições religiosas que os judeus carnais não tiveram, e sem as quais se abordaria em vão a exegese das profecias. Houtteville, que se inspirou em Pascal e o cita, desenvolve a mesma ideia, La religion chrétienne prouvée par les faits, Paris, 1749, t. iv, p. 40-64; cf. sua bela oração, p. 331-334, e — ainda p. 434-438.
2. Parte negativa. a) O abandono da Lei. Aqui tudo havia sido dito. Galatino, De arcanis catholicae veritatis, l. V, c. i, Basileia, 1550, p. 301-303, indica bem as objeções dos judeus de seu tempo contra a vinda do Messias e, por conseguinte, contra o abandono da Lei. Há sete principais, das quais diz Hœc sunt potissima il : Judœorum recentiorum adversus nos objecta. São as seguintes, que Galatino refuta, c. ii-viii, p. 303- 317: o Messias deve vir no fim dos dias, ora desde Cristo muitos dias se passaram; o monte do Senhor ainda não foi elevado acima dos montes e das colinas; todas as nações não afluíram a Jesus de Nazaré; elas dizem ainda: Vinde, subamos à casa do Deus "de Jacó"; as armas de guerra ainda não foram transformadas em instrumentos de agricultura; a paz sem fim ainda não chegou; os animais carnívoros ainda não renunciaram ao uso das carnes e, depondo a sua ferocidade, habitado tranquilamente com os — VIII. 61 1907 animais pacíficos. Cf. c. ix-xiii, p. 317-330, a discussão de cinco outros argumentos. Imbonati, Adventus Messiae, § v, Roma, 1694, p. 91-111, expõe sob uma forma um pouco diferente as objeções judaicas. Todos os nossos controversistas respondem que a antiga Lei está ab-rogada, que o Messias de fato veio, que é Jesus de Nazaré, que as profecias se realizaram nele, pois anunciam não um reino terrestre, glorioso e próspero, em proveito dos judeus, mas um reino do Messias todo espiritual, referem-se a uma Igreja universal.
b) A Trindade divina. É defendida não só contra os judeus, mas também contra os muçulmanos e os ateus. Contra os judeus retomam-se e ampliam-se argumentos tirados do Talmude e da cabala. Um dos mais insistidos é o que se tira dos nomes de Deus no Antigo Testamento, em particular do tetragrama. Cf. Galatino, l. II, c. x-xi, p. 74-84, e, para os outros nomes, c. ix, xii-xviii, p. 70-74. 84-97; João Estêvão Rittangel. talvez judeu, depois luterano, Veritas religionis christianœ in articulis de SS. Trinitate et Christo ex Scriptura, rabbinis et cabbala, Franeker, 1699.
c) A vida e a morte de Cristo e a ofensiva judaica. A contraofensiva contra os livros judaicos prossegue. O caso de Reuchlin termina por uma condenação do Augenspiegel como perigoso, suspeito, cheio "de parcialidade pelos judeus" (1520). Júlio III ordena que se procure e se queime o Talmude (1554). Um número incalculável de exemplares é entregue às chamas sob Paulo IV, sobretudo em Cremona, onde um judeu convertido, Sisto de Siena, vem prosseguir a sua destruição. Cf. sua Bibliotheca sancta, Paris, 1610, p. 120, 310. O Index librorum prohibitorum de Pio IV (1564) proíbe o Talmude, suas glosas, anotações, interpretações e exposições, especificando que esses livros seriam tolerados se aparecessem sem o nome do Talmude e sem injúrias ao cristianismo. Daí as edições expurgadas, Bartolocci, Pfeiffer, Eisenmenger, Wagenseil, Schudt, nomeados acima; outros ainda, como o protestante J. Wülfer, Theriaca judaica, Nuremberg, 1681, estigmatizam os livros judaicos por sua hostilidade a tudo o que é cristão, doutrinas e pessoas. Os libri cabbalistici, por sua vez, são condenados por Pio V (1566) e Clemente VIII (1593), como os thalmudici. Cf. Sisto de Siena, p. 63-64.
Em desacordo sobre o caso a fazer dos livros judaicos, os polemistas cristãos entendem-se para reconhecer que se pode tirar proveito deles na apologética antijudaica. Poucos os negligenciam, l'a Dieu Pascal dá-se conta de sua utilidade; não preparado para abordá-los diretamente, estuda-os através do Pugio fidei de Raimundo il Martini. Os judeus convertidos e os hebraizantes, de dia para dia mais numerosos, haurem sem intermediário das fontes judaicas. Os próprios pregadores alegam a cabala e o Talmude. O vir dos 100 sermões de J. M. Vincenti, Il Messia venuto, Veneza, 1659, prova o mistério da Trindade pelas explicações da Escritura devidas a rabinos, o viii pela cabala; o ix está intitulado Che 'l Messia è venuto per la famosa : cabala delli antichi savi ebrei, etc.
4° O valor dos escritos. - As provas do dogma da Trindade que Vincenti extrai da cabala e dos escritos dos rabinos, as que Galatino tira do tetragrama bíblico e dos outros nomes divinos não são realmente demonstrativas. Muitas vezes ainda a exegese é superficial e pouco crítica. Um sábio mesmo de valor como Huet, cuja longa prop. IX, Jésus Nazarenus est Messias, p. 330-639, que contém a harmonia do Antigo e do Novo Testamento, é, em suma, notável e verdadeiramente impressionante, mistura-lhe "detalhes defeituosos, e no conjunto de seu livro há pretensões 1908 injustificadas, bizarrices, embrulhada, fraquezas chocantes. A dificuldade principal era sempre a do sentido da Escritura. Se, em todos os casos, só o sentido literal tivesse devido ser admitido, haveria mais probabilidades de chegar a um entendimento. Mas, quando se passava ao sentido espiritual, a maneira de ver judaica dificilmente era abalável pela polêmica cristã.
Seja a objeção judaica que Galatino refuta, l. V, c. xi, p. 423-425, e que Imbonati expõe desta maneira, Adventus Messiae, p. 91-92 Messiam fuisse a Deo promissum ad salvandum liberandumque : Israelem de captivitate..., unde, secundum hoc. erat expediens quod, tempore sui adventus, Judœi positi essent in captivitate, de qua ipse Messias trahere debebat eosdem: sed iste quem dicis Messiam fecit contrarium quia, quando venit, Judæi erant in Judæa et Jerusalem in bona tranquillitate, et, paulo post ejus adventum, fuerunt ab eorum inimicis expugnati, victi et destructi, a patria expulsi, et per diversas mundi partes dispersi ac positi in captivitate...: ergo ille non erat verus Messias in lege promissus. Seja ainda a objeção, em si mesma perfeitamente pueril, mas muito explorada pelos judeus, in qua maxima tripudiant, diz Imbonati, p. 107, que invoca os textos de Ezequiel sobre Gog e Magog; cf. Galatino, l. V, c. xii, p. 425-428; Imbonati, p. 107-111. Entre as interpretações judaicas, há a do famoso rabino Abarbanel, que vê, em Gog e Magog, muito simplesmente Edom e Ismael, Edom isto é os cristãos, vindo combater Ismael, isto é os turcos, e acrescenta que, segundo o profeta, Edom e Ismael sendo exterminados, Israel deixará de estar submetido, assim como Judá, às nações e servirá ao Messias que Deus suscitará então. Como alcançar gente que aceitava semelhantes explicações, e a elas se apegava?
Todavia, desde que a tradição judaica admitia que a Escritura em geral e as profecias em particular são suscetíveis de um sentido espiritual, havia alguma esperança, apesar de tudo, de ter influência sobre eles insistindo no sentido espiritual. Numa passagem notável de sua Histoire critique du texte du Nouveau Testament, c. xxii, Rotterdam, 1689, p. 261-262, Richard Simon, que não é suspeito de uma complacência exagerada para com o alegorismo, diz: "Sempre me servi desse método, quando me encontrei com judeus que atacavam os escritos dos evangelistas e dos apóstolos... Nunca me deram outra resposta, vendo-se pressionados pelos próprios princípios de seus doutores, senão que as interpretações místicas e alegóricas de seus antigos mestres davam grande vantagem à religião cristã... Deve-se tomar esta via nas disputas que se têm com os judeus sobre a religião". De fato, argumentos que para nós não têm valor tocaram e fizeram voltar judeus. Cita-se toda uma série de judeus convertidos pelo estudo da cabala. Cf. P. L. B. Drach, De l'harmonie entre l'Église et la Synagogue, Paris, 1841, t. ii, p. xxxii-xxxv. Ver, em Bartolocci, iv, p. 528-549, como t. o rabino Salomão Meir ben Moisés Navarra, cabalista renomado, batizado (25 de junho de 1644) com o nome de Próspero Rugerii, converteu o rico joalheiro David Tintore, chamado "o duque dos judeus", mostrando-lhe os mistérios da fé cristã encerrados na primeira palavra do Gênesis e no racional do sumo sacerdote.
Para convencer os judeus atentos e de boa fé, não havia unicamente argumentos desse gênero, frágeis em si mesmos mas capazes de pôr uma alma em movimento e de entregá-la à ação de Deus, que em seguida eleva essa alma a "claridades melhores e a dispõe como convém para receber a verdade divina. Quando Galatino, IV, c. xx, p. 259-265, e 1. Imbonati, § iv, p. 86-91, retomando a tese de Raimundo Martini, provam, pela autoridade dos rabinos, que atribuem ao mundo uma duração de 6.000 anos, que o Messias devia ter vindo, o argumento atinge o alvo. O que atinge mais ainda é o argumento tirado do cumprimento da profecia relativa à ruína do templo e do estado de dispersão do povo judeu reduzido à perpétua impotência de observar a sua Lei, e isso "em tão longa e profunda noite e sem nenhuma estrela, como lhes diz du Plessis-Mornay, e então" que jamais foram mais zelosos por ela. Cf. Avertissement aux Juifs sur la venue du Messie, Saumur, 1607, p. 1, 227-228. Os progressos dos estudos bíblicos e do conhecimento do hebraico pelos controversistas cristãos tornavam sua polêmica mais digna de atenção.
Enfim, para agir sobre o espírito dos judeus, vários tiveram o prestígio do talento, como du Plessis-Mornay, e mesmo do gênio quando esses escritores foram Bossuet e Pascal, que sem dúvida não se dirigiram diretamente aos judeus em seus livros, mas cuja voz era bastante poderosa para chegar até eles. O tom da controvérsia variou segundo os controversistas. Foi de uma violência extrema com Lutero, Voltaire e os precursores do antissemitismo de nossos dias. Os judeus convertidos foram assaz frequentemente duros para com seus antigos correligionários; Galatino, l. I, c. iii, p. 9, chama os judeus de seu tempo omnium gentis suæ immundissima fæx. Os testemunhos de benevolência não estão ausentes dos escritos dos polemistas. Du Plessis-Mornay, Avertissement, p. 2, 228, vê neles irmãos dignos de compaixão.
Vincenti, em apêndice aos 100 sermões intitulados Il Messia un Utrum : venuto, publicou um tratado expediat principibus : christianis Hebraeos in suis ditionibus retinere an vero eos expellere, e, diz Imbonati, Bibliotheca latino-hebraica, p. 113, primam partem tanquam christianae pietati et caritati magis congruam solidis argumentis propugnat. Na literatura suscitada, nos séculos XVII e XVIII, pelo exame da questão do tempo da conversão dos judeus, muitas páginas marcam um movimento de simpatia para com Israel. Cf. J. Lémann, L'entrée des Israélites dans la société française, 6ª edição, Paris, 1886, p. 262-284. Um dos escritos mais característicos, que parece ter escapado à atenção dos historiadores, é o de frei Arcanjo, Discours adressé aux Juifs et utile aux chrétiens pour les confirmer dans leur foi, Lião, 1788.
— Trabalhos. Sobre a querela de Reuchlin L. Geiger, Johannes Reuchlin, Leben und Werke, : sein seine Leipzig, 1871 J. Janssen, L'Allemagne et la Réforme, trad. E. Paris, ; 1889, 37-66; A. Humbert, Les — origines Paris, t. ii, p. de la théologie moderne, Paris, 1911, p. 165-178. Sobre Lutero e os 340-346.— judeus: H.Grisar, Luther, Friburgo em Brisgóvia, 1912, t. iii, p. Sobre Münster: M. Steinschneider, Le Livre de la foi et Sébastien Münster, dans — la Revue des études juives, Paris, 1882, t. v, p. 57-67. Sobre Pascal : F. Strowski, Pascal et son temps, Paris, 1908, t. iii, p. 239-268 (les sources de Pascal très probablement Charron, sûrement Grotius Raymond : Martin); M. Lagrange, Pascal et J. et les prophéties messianiques, na Revue biblique, 1906, p. 533-560; H. Petitot, Pascal, sa vie religieuse et son apologie du christianisme, Paris, 1911, p. 264-305; R. Jolivet, Pascal et l'argument prophétique, na Revue apologétique, 15 juillet et 1 er août 1923, p. 486-522. Sobre Pascal, Huet, Bossuet, cf. J. Martin, L'apologétique traditionnelle, Paris, 1905, t. iii.
V. De 1789 aos nossos dias. — 1° Os escritos. 1. Escritos dos cristãos de origem. A. Keith, anglicano, Évidence de la vérité de la religion chrétienne tirée de l'accomplissement littéral des prophéties constaté principalement dans l'histoire des Juifs et les découvertes des voyageurs modernes, em Migne, Démonstrations — évangéliques, Paris, 1843, t. xv, col. 385-474. Des obstacles qui s'opposent à la conversion des Israélites et des moyens de les surmonter, doze cartas trocadas entre o judeu Lombroso, de Milão, e o padre Consoni, LES), DE 1789 A NOS JOURS 1910 a Orsinuovi, em 1844, em Démonstrations — évangéliques 1849, t. xviii, col. 451-552. M. Soullier, — La désolation du peuple juif, Paris, 1891. J. Cellier, Pour et contre les juifs, Saint-Amand, — 1896.
2. Escritos dos judeus convertidos. P. L. B. Drach, De l'harmonie entre l'Église et la Synagogue ou perpétuité et catholicité de la religion chrétienne, Paris, 1844, 2 vol. O fundo já se encontrava na I Te II e III e lettre d'un rabbin aux , , converti Israélites ses frères, a Ire, Paris, 1825; a II e Paris, 1828; a IIIe Roma, 1833; alemã por , Baumblatt, de , trad. L. — Frankenthal, judeu convertido por essas cartas. M, A. Ratisbonne, relato de sua conversão (1842), reproduzido em grande — parte em J. Cellier, Pour et contre les Juifs, p. 66-87. J. M. Bauer, qui depuis..., Le judaïsme — comme preuve du christianisme, Paris, 1866. Os irmãos Agostinho e José Lémann, La question du Messie et le concile du Vatican, Paris, 1869 La dissolution de la Synagogue ; Rome, en face de la vitalité de l'Église, 1870, resposta a L' Univers israélite que havia combatido o folheto precedente; La cause des restes d'Israël introduite au concile œcuménique du Vatican, Lião, 1912 (encontra-se aí reproduzida La dissolution de la Synagogue, p. 54-69). De Agostinho Lémann só, Histoire complète de l'idée messianique chez le peuple d'Israël. Ses développements, son altération, son rajeunissement, — Lião, 1909 (unicamente segundo a Bíblia). Paul Lœwengard, La splendeur catholique. Du judaïsme à l'Église, Paris, 1910; Les magnificences de l'Église, Paris, 1913. O autor, por uma carta de 23 de junho de 1914, ao Gil Blas, anunciou o seu retorno ao judaísmo; morreu num manicômio, mas, algum tempo antes de perder a razão, havia voltado ao cristianismo — sob a influência de um judeu convertido como ele. Paul Samuel, — Le livre de ma conversion, Bruxelas, 1921. Albert Lopez, La lumière d'Israël. Histoire d'une âme juive, Paris, 1923.
3. Escritos inspirados por um antissemitismo religioso. O antissemitismo não é especificamente cristão; foi muitas vezes alheio às preocupações cristãs, frequentemente anticristão. Não temos que falar aqui dos escritos devidos a um antissemitismo puramente econômico, ou social, ou nacional, ou étnico; bastará assinalar os escritos principais inspirados por um antissemitismo religioso que se volta contra o judaísmo, seu culto, suas tradições, — sua moral, seus livros, sobretudo o Talmude. Luís Chiarini, nascido na Toscana, professor de línguas orientais em Varsóvia (t 1832), Théorie du judaïsme appliquée à la réforme des Israélites de tous les pays d'Europe et servant en même temps d'introduction à la — version du Talmud de Babylone, Paris, 1830, 2 vol. — L. Rupert, L'Église et la Synagogue, Paris, 1859. Gougenot des Mousseaux, Le juif, le judaïsme — et la judaïsation des peuples chrétiens, Paris, 1869. A. Rohling, Der Talmudjude, — 6ª edição, 1878, trad. francesa aumentada, Paris, 1889. E. — A. Chabauty, Les Juifs nos maîtres, Paris, 1882. Édouard Drumont, La France juive, Paris, 1885, 2 vol., obra de um antissemitismo ao mesmo tempo religioso, econômico, nacional e étnico, que fez — eclodir uma abundante literatura antijudaica. — L. Bloy, Le salut par les Juifs, Paris, 1892. 8. Dom Besse, O. S. B., Les religions laïques, Paris, 1913, p. 101-115.
4. Escritos nos quais os judeus são combatidos indiretamente. Sê-lo no tratado De vera religione, que doravante faz parte de todos os cursos de teologia, numa multidão de escritos de apologética das formas mais diversas e de trabalhos consagrados à Escritura: crítica textual, exegese, história, etc. Citemos apenas L. E. de la Hogue, — Tractatus de religione. : Liebermann, Dublin, 1808; Paris, 1815. B. F. L. Demonstratio christiana et catholica, à frente de suas Institutiones theologicæ, — Mogúncia, 1819; nova edição, Tournai, 1850. G. Frémont, Jésus-Christ attendu et prophétisé, Paris, 1888-1889, — 2 vol. (sermões); Les principes, Paris, 1912, t. xi.
Abbé de Broglie, Questions bibliques, publiées par C. Piat, Paris, 1897, p. 244-380 (as profecias). J. Touzard, Comment utiliser l'argument prophétique, Paris, 1911 (extrato da Revue du clergé français, Paris, 1908, t. lvi, p. 513-548); L'argument prophétique, na Revue pratique d'apologétique, Paris, 1907-1909, t. v, p. 757-772; t. vi, p. 906-933; vii, 81-110, 731-750. M.-J. Lagrange, Le messianisme chez les Juifs, Paris, 1909.
2° O caráter dos escritos. Os tratados escritos direta e exclusivamente para os judeus tornam-se raros. Os judeus estão englobados no conjunto da demonstração cristã e católica. Escusado dizer que os judeus convertidos visam primeiro os seus antigos correligionários quando publicam o relato da sua conversão ou livros de discussão religiosa.
3° O conteúdo dos escritos. 1. Parte positiva da controvérsia. a) O argumento profético. Com demasiada freqüência reduziu-se ao estudo de um pequeno número de textos, separados do contexto e desligados do quadro em que adquirem o seu verdadeiro significado. Uma das causas é a falta de espaço nesses tratados De vera religione, em que é preciso ser breve para não alongar além da medida uma demonstração complexa. Assim estreitado, o argumento perde a sua força probante. Com demasiada freqüência ainda, apóia-se numa exegese defeituosa. O abade de Broglie, o P. Lagrange, J. Touzard etc. mostraram que o argumento devia ser posto em dia; graças a eles, está em vias de beneficiar-se do progresso dos estudos bíblicos.
b) O fato da Igreja. O argumento profético aproveita também os trabalhos que puseram em bela luz o fato da Igreja, « testemunho irrefragável da sua missão divina, como se exprime o concílio do Vaticano », da Igreja cuja vida maravilhosa descobre o sentido dos anúncios proféticos do Antigo Testamento e de todo o passado judaico. Não é preciso ser grande doutor para compreendê-lo. O pobre Lœwengard foi conquistado pela visão da « magnificência da Igreja eterna », cf. La splendeur catholique, c. xviii, p. 159-199, e encontrou acentos comoventes para chamar as almas « para Aquela que detém o tesouro das magnificências, a santa Igreja católica, apostólica e romana ». Les magnificences de l'Église, p. iv.
c) Necessidade das disposições morais. Aqui também se assinala um progresso notável. Na ordem teórica, o ensino dos antigos controversistas sobre a necessidade dessas disposições, para alcançar as verdades que acarretam obrigações morais, foi corroborado, renovado e ampliado por L. Ollé-Laprune, La certitude morale, Paris, 1880, e por toda uma série de trabalhos que lhe fizeram cortejo. Na ordem prática, enfrentaram-se resolutamente as dificuldades que há, para um judeu, em deixar a religião de seus pais. Cf. a correspondência entre Lombroso e Consoni, Démonstrations évangéliques, t. xviii, sobretudo p. 451-100; Drach, De l'harmonie, t. i, p. 66; [J. B. Pitra] Vie du R. P. Libermann, Paris, 1855, p. 42-43; os irmãos Lémann, La cause, p. 78; Annales de la mission de Notre-Dame de Sion en Terre sainte, Paris, 1912, n. 127, p. 6 etc.
Em todos os tempos se rezou para obter aos judeus a graça que triunfa dos obstáculos. Organizaram-se obras de oração, acrescentando-lhes obras de expiação e de educação cristã. Dois judeus convertidos, os irmãos Ratisbonne, obtiveram da Santa Sé a missão de trabalhar para converter os judeus por esses meios. Notre-Dame de Sion, fundada por eles (1857) em Jerusalém, no Ecce Homo, é o foco dessas obras. Irradia pelo mundo inteiro, por meio de uma arquiconfraria de orações pela conversão dos judeus que contava, em maio de 1911, 107 232 membros, cf. Annales, Paris, 1911, n. 126, p. 9, e 800 000 em 1923; cf. A. Lopez, La lumière d'Israël, p. 244.
2. Parte negativa. a) O abandono da Lei. O argumento tirado da dispersão judaica, da ruína do templo e da impossibilidade de os judeus cumprirem a Lei insistia nas calamidades de toda espécie que acabrunharam essa nação. Precisou ser parcialmente rejuvenescido. Jamais Israel esteve tão disperso quanto em nossa época. Mas já não se encontra na situação humilhada de outrora. Desde 1789, foi reabilitado, enriquecido, tornou-se influente. Certa maneira de apresentar o argumento, que consistia em dizer que Israel só subsiste para ser, aos olhos do universo, uma prova viva da maldição divina, devendo Israel viver sempre no opróbrio e na ignomínia, deve, portanto, ser reformada. Tentou-se fazê-lo. Cf., entre outros, os irmãos Lémann, La dissolution de la Synagogue en face de la vitalité de l'Église, em La cause, p. 54-69. Seja qual for a posição social de muitos judeus, a massa continua desprezada e infeliz, e o recente surto de anti-semitismo, disse-se, mostra o que há de instável na fortuna dos que prosperam. Cf. M. Soullier, La désolation du peuple juif, Paris, 1891, p. 374-381. Sobretudo, permanece verdadeiro que a Sinagoga e o povo judeu, enquanto constituindo um povo sui juris, perderam tudo o que os caracterizava, decaíram em comparação com o que foram antes de Cristo, como o anunciaram os profetas.
b) A Trindade divina. Repetiu-se, e muito bem, que o dogma da trindade das pessoas não contradiz o da unidade da natureza. O progresso consistiu principalmente em mostrar que o Antigo Testamento não contém a clara revelação do mistério da Trindade, mas prepara para a revelação que Cristo devia fazer dele. Cf. J. Lebreton, Les origines du dogme de la Trinité, Paris, 1910, p. 88-125, 441-446.
c) A vida e a morte de Cristo e a ofensiva judaica. Na literatura suscitada pelo anti-semitismo houve, de parte a parte, violências de linguagem que igualaram, se não ultrapassaram, tudo o que os tempos anteriores haviam conhecido. A literatura apologética apaziguou-se consideravelmente; nem a ofensiva judaica nem a contra-ofensiva cristã tiveram o ímpeto de outrora. A utilização dos livros judaicos prosseguiu. O livro de Drach tende a provar que na tradição da Sinagoga, no Talmude e na cabala, encontram-se, de modo nítido e preciso, a Trindade, a miraculosa maternidade da Virgem Imaculada e os diversos sinais pelos quais se devia reconhecer o Messias, indicados de tal sorte que parecem verificados exatamente em Nosso Senhor Jesus Cristo. Cf. também A. Lémann, Histoire complète de l'idée messianique, p. 281-300.
4. O valor dos escritos. Há fraquezas. Esta utilização dos livros judaicos, em particular, não é suficientemente crítica. Drach faz a cabala mais antiga e mais cristã do que ela é na realidade, e atribui à antiga sinagoga conhecimentos que ela não teve no grau que ele afirma. Almas seletas de apóstolos e de santos, espíritos eminentemente rabínicos, dependentes demais de Drach, confiantes demais numa interpretação alegórica da Escritura, os irmãos Lémann são místicos e poetas, não sábios. Onde a apologética judaica progride é menos nos livros que se dirigem diretamente aos judeus do que nas obras de apologética geral, de que ela faz parte integrante.
Qual pode ser a sua eficácia? Distingamos. É evidente que o israelita que não conservou a sua fé, que resvalou para o puro racionalismo, não poderia ser tocado pelo argumento profético baseado na inspiração divina das Escrituras. A apologética válida para ele será a que é válida para os outros racionalistas. Mas, porque o fato judaico entra como um elemento nessa apologética, por um lado é de temer que o preconceito judaico se interponha entre esse israelita e a luz cristã, por outro há probabilidade de que o caráter excepcional da história do povo judeu, tão manifestamente diferente da do resto dos povos, solicite especialmente a sua atenção e de que o acesso ao cristianismo se lhe torne mais fácil.
Trata-se do israelita que é homem de fé e de boa-fé? A apologética anti-judaica, apoiada nas profecias do Antigo Testamento e na realização, no Novo Testamento, das antigas promessas, corroborada pelo grande fato da Igreja, não pode deixar de impressioná-lo, desde que a estude com diligência. Como não ficaria ele impressionado com os textos que anunciam o Messias, suas dores, sua morte, sua glória, só de os justapor sem visada científica, tal como se apresentam, por exemplo, em Lopez, La lumière d'Israël, p. 143-152, ou mais completamente em A. Lémann, Histoire complète de l'idée messianique, p. 15-75? Quando passar do Antigo ao Novo Testamento, se o ler com alma reta, poderá contemplar sem emoção a figura de Cristo? E quantos pormenores que, por si sós, lhe darão que refletir e talvez o transtornem!
Em suas Conférences ou discours contre... les athées, les déistes, les tolérants, les Juifs..., reimpressas em Paris, 1801, p. 162-163, Beurier, depois de provar a divindade de Cristo pelas profecias que lhe dizem respeito, estabelecia-a pela realização das que Cristo fez. Detinha-se, com razão, nas palavras relativas à pecadora que ungira a sua cabeça com um perfume precioso: Sinite eam. Amen dico vobis : ubicumque praedicatum fuerit Evangelium istud in universo mundo, et quod fecit haec narrabitur in memoriam ejus, Marc, xiv, 6, 9. A respeito do que perguntava: « Se Jesus Cristo não tivesse sido profeta, teria podido prever que uma ação de uma simples mulher, uma ação que se passava numa refeição de família, no fundo de uma aldeia, haveria de ser um dia anunciada, publicada, preconizada em todas as partes do universo? Eis, porém, o que se executa todos os anos há dezessete séculos, e do que pode haver tantas testemunhas quantos cristãos há no mundo. » O argumento é magnífico, e compreende-se que um Lopez, La lumière d'Israël, p. 55, 65, 83, 100, 102, tenha ficado impressionado com ele e nele tenha encontrado o ponto de partida da sua conversão.
Mas, ainda que outras considerações não o atingissem, há uma que não poderia deixar indiferente o israelita que tem fé, e é que o judaísmo só contém ruínas: o templo destruído, os sacrifícios abolidos, o sacerdote e o grande sinédrio desaparecidos, bem como os levitas, a Lei de Moisés inexeqüível. Cf. páginas fortes de Beurier, p. 195-203. E, com a ajuda da graça, poderá concluir que a Igreja católica possui sozinha a herança do povo eleito de Deus: « o templo, o sacerdócio, o altar, o sacrifício perpétuo...; em seus múltiplos ofícios reencontra-se o canto dos salmos, a leitura da Lei e dos profetas. Assim, o israelita que vem a ela completa e coroa simplesmente a sua religião, não muda de religião, volta a ela », Lopez, La lumière d'Israël, p. 217-218; cf. Lœwengard, La splendeur catholique, p. 241-245; Les magnificences de l'Église, p. 211-214.
« Assim não é fundada, disse Drach, De l'harmonie, t. i, p. 64, a censura que os filósofos judeus dirigem a nossos irmãos convertidos, de terem desertado a religião de nossos pais. Longe de abjurar a religião de seus pais, o israelita que se faz católico é um filho extraviado, um filho pródigo, que a reflexão e o arrependimento reconduzem à casa paterna. » Com isso se enfraquece e, sempre com a ajuda da graça, se supera a dificuldade, a mais insuperável que há para um israelita em tornar-se católico: « um homem de honra nunca deve mudar de religião. » Sem contar que não há nenhuma desonra, mas pelo contrário toda honra em deixar o erro pela verdade, « o israelita tornado católico não muda de religião, mas leva a sua religião à perfeição, completa-a, coroa-a. » Lémann, La cause, p. 78. Sic perficientes coronantesque religionem mosaicam, non mutantes, diz por sua vez o Postulatum apresentado, por iniciativa dos irmãos Lémann, ao concílio do Vaticano para que dirigisse um apelo à nação judaica, p. 92.
Vale a pena ler as páginas em que os dois Lémann traçaram a história desse Postulatum pro Hebrœis, em favor dos israelitas que permaneceram muito caros a Deus por causa de seus pais, carissimi propter patres, diz São Paulo, Rom., xi, 28, em favor do povo que nos deu Jesus e Maria, p. 81, 92, 107-108, 120, etc. Recolheram-se quinhentas e dez assinaturas episcopais, e todos os Padres do concílio teriam assinado se os dois irmãos, obedecendo a um delicado sentimento de deferência, não tivessem querido ceder a glória do maior número de assinaturas ao Postulatum pro infallibilitate. Comporia-se facilmente, com a ajuda da literatura eclesiástica, um belo florilégio de textos que lembram que devemos ao povo judeu tanto Maria quanto Jesus. Esse pensamento é o inspirador de todas as obras de controvérsia anti-judaica. Ao evocá-lo, os polemistas mais impetuosos, como um Pedro, o Venerável, Tractatus adversus Judaeorum inveteratam duritiem, prœf., P. L., t. clxxxix, col. 509, enternecem-se. Não há um que não quisesse subscrever o que Santo Ildefonso exprime com a insistência monótona, mas aqui afetuosa e comovente, que lhe é habitual, De virginitate perpetua S. Mariae aduersus tres infideles, c. iii, iv, vii, P. L., t. xci, col. 67, 69, 76. Cristo, diz ele ao judeu, é ex traduce tua, ex stirpe tua, ex propagine generis tui; pois bem!, prossegue, ipso (o Cristo) ducente sequar eum (o judeu), ipso prœeunte curram post illum..., et, in quantum ipse permiserit, asseverem tibi..., convincam, probem... Maria é judia: sit rogo, jam sit, rogo, judæe, gratissimum tibi tantœ Virginis decus in tua cognatione repertum...; unde jam veni mecum ad hanc Virginem.
Trabalhos. Sobre o anti-semitismo religioso ver B. Lazare, L'antisémitisme. Son histoire et ses causes, Paris, 1894, p. 222-245; A. Leroy-Beaulieu, Israël chez les nations, Paris, 1893, p. 5-49; Les doctrines de haine. L'antisémitisme, l'antiprotestantisme, l'anticléricalisme, Paris, 1902.
F. Vernet.
Autor original: F. Vernet
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