JOSÉ DO ESPÍRITO SANTO

JOSÉ DO ESPÍRITO SANTO

JOSÉ DO ESPÍRITO SANTO, carmelita descalço espanhol, teólogo místico (1667-1736). I. Vida. II. Escritos.

I. VIDA. — José do Espírito Santo nasceu, em 1667, na arquidiocese de Sevilha, em Huelva, atualmente capital da província de Huelva. Seus pais, Pierre Matheo Velarde e Anne Gomez, comunicaram-lhe, assim como a seus outros filhos, sua grande piedade; tiveram a alegria de ver três de seus filhos abraçarem a reforma de santa Teresa. Nosso José do Espírito Santo tinha apenas dezesseis anos quando tomou o hábito de carmelita descalço no colégio do Anjo da Guarda, em Sevilha; fez a profissão em Córdova, a 14 de novembro de 1683. Tendo feito excelentes estudos de filosofia e de teologia sob a direção do eminente Fernando de Santo Antônio, foi encarregado durante nove anos dos cursos de filosofia e de teologia nos colégios de Écija e de Sevilha. Depois, sucessivamente, tornou-se secretário provincial da província de São João Batista ou da Andaluzia Inferior, prior no colégio de Écija (1709-1712), três vezes reitor do colégio de Sevilha, provincial (16 de maio de 1712-1715), três vezes definidor geral da Espanha (de 5-16 de maio de 1712; 1718; 1724).

Um acontecimento insólito teve lugar no capítulo geral de Pastrana, em 1724: desde o primeiro escrutínio, José do Espírito Santo obteve a maioria dos votos; Sebastião da Conceição, geral cessante e presidente do capítulo, não publicou a eleição, mas exigiu um segundo turno; de novo a maioria escolheu José do Espírito Santo; desta vez ainda o presidente não publicou a eleição e pediu uma terceira votação; mas Paulo da Conceição obteve nela a maioria e foi eleito geral, ao passo que José do Espírito Santo se tornou quarto definidor geral. A nulidade da eleição de Paulo da Conceição era conhecida de José; humilde como era, longe de fazer valer seus próprios direitos a esse cargo, aconselhou o recurso à Santa Sé para obter a legalização da eleição viciada que tivera lugar; o que foi feito.

Por falta de documentos históricos, a conduta de Sebastião da Conceição é para nós um mistério; não era de modo algum hostil a José; contudo o vemos, de fato, e por duas vezes diferentes, opor-se à sua eleição ao generalato. Que razão tinha ele para justificar essa singular maneira de proceder? Alguém ousou dizer: era por causa da origem andaluza de José do Espírito Santo, pois santa Teresa não gostava muito dos andaluzes e se opôs a toda elevação de um andaluz ao cargo de geral. A autoridade desse autor anônimo da Biografia de Don Manuel Freire de Silva o sea F. Manuel de san José Carmelita Descalzo é suspeita demais para que se possa dar fé a essa declaração; primeiro, porque ele se mostra hostil a José do Espírito Santo e aproveita todas as circunstâncias para atacá-lo; depois, porque, embora a castelhana santa Teresa não prezasse muito os andaluzes, em nenhum lugar de seus escritos se encontra o que esse autor anônimo lhe faz dizer.

Enfim, no capítulo geral realizado em Pastrana, a 21 de abril de 1736, José do Espírito Santo foi eleito geral da congregação da Espanha. Já ocupava esse cargo havia quarenta e dois dias quando um acontecimento singular foi causa de sua morte inesperada. Eis a exposição dos fatos. Emmanuel Freire de Silva, oriundo de uma das mais nobres famílias de Portugal, homem de caráter e de talento e, durante a guerra de Sucessão de Espanha, ardoroso adepto do partido austríaco, pusera-se à frente de um exército que marchava contra a Espanha. Em 1713, assinada a paz em Utrecht, abraçou a reforma de santa Teresa na província de Navarra e recebeu o nome de Emmanuel de São José. Orador célebre, destacou-se primeiro em Madri, depois, em 1734, em Lisboa, aonde seus superiores o haviam enviado para tratar de assuntos muito importantes.

De volta a Madri, meteu-se em política e fez editar clandestinamente um jornal semanal de gênero satírico, conhecido sob o nome de El duende (o fogo-fátuo) critico de la Corte. Essa sátira atacava o rei, Filipe V, a rainha e os membros do governo; verdadeiro modelo do gênero, teve um sucesso inaudito em todas as classes da sociedade, tanto na Espanha como no estrangeiro. O governo pôs tudo em obra para descobrir o audacioso autor; depois de lançar na prisão muita gente que suspeitava, acabou por pôr a prêmio a cabeça do escritor. Não obstante, El duende aparecia regularmente havia mais de seis meses e, como um verdadeiro «fantasma», introduzia-se até nas peças mais bem guardadas do palácio real: a rainha achava a folha em seu guardanapo de mesa, o ministro Don Joseph Patino em suas roupas e o cardeal Gaspar de Molina, presidente de Castela e ministro de Estado, sobre sua escrivaninha.

Entretanto, pelo fim do mês de maio de 1736, espalhou-se em Madri o rumor de que o autor de El duende acabava de ser preso em Talavera de la Reina. Que se passara, pois? José do Espírito Santo, tornado geral, foi posto a par das manobras políticas do P. Emmanuel; adivinhando as grandes desgraças que atingiriam toda a sua congregação caso o autor fosse conhecido, resolveu dissipar a tempestade que se anunciava e pôr o P. Emmanuel em lugar seguro; ordenou-lhe, pois, que deixasse Madri o mais cedo possível e se dirigisse a Portugal por Talavera de la Reina. Infelizmente, o rumor dessa partida espalhou-se imediatamente na cidade, o que aumentou as suspeitas do governo: o cardeal Gaspar de Molina mandou chamar o geral, que era seu confessor, ao palácio real, para lhe participar suas suspeitas a respeito do P. Emmanuel. Se devemos crer no autor anônimo da Biografia de Don Manuel Freire de Silva o sea F. Emmanuel de san José, p. 165-166, José do Espírito Santo teria revelado tudo. O P. Emmanuel, que de nada desconfiava, foi pois preso em Talavera de la Reina, levado a Madri, encarcerado no convento dos carmelitas descalços, a 30 de maio de 1736, e guardado noite e dia por numerosos soldados. O tribunal não conseguiu esclarecer esse caso, pois o astuto Emmanuel fazia malograr todos os esforços dos juízes.

Por fim, na noite de 16 para 17 de março de 1737, o prisioneiro evadiu-se de maneira tão hábil que não se pôde sequer descobrir como procedera, estando as portas permanecidas fechadas; frustrou todas as perseguições dos soldados e alcançou Portugal; viveu algum tempo em Lisboa, depois dirigiu-se a Florença, de onde os grandes da Espanha o chamaram de volta a Madri. Desta vez ainda o autor anônimo da Biografia de Don Manuel investe contra José do Espírito Santo e o acusa de ter causado o aprisionamento do P. Emmanuel. Um simples olhar sobre as circunstâncias particularmente difíceis daquele tempo mostrará o mal fundado dessa acusação.

A guerra de Sucessão perturbara profundamente toda a Espanha, e o arbítrio de Filipe V tornava impossível o apaziguamento dos espíritos. Além disso, o rei tinha rancor dos carmelitas descalços desde que consultara o geral, Paulo da Conceição, sobre um assunto da mais alta importância e dele recebera uma resposta que não se ajustava às suas vistas políticas; para vingar-se, mandou prender o inocente P. Paulo em Bilbau, fê-lo sofrer muitos maus-tratos e manteve-o encarcerado num calabouço da Alhambra, em Granada; depois de quatro anos de torturas, o santo religioso ali morreu, a 2 de dezembro de 1734. Deus glorificou o ilustre mártir com numerosos milagres. Esses tristes acontecimentos eram, pois, bem recentes; assim, no dia em que o rei tirano soubesse que um carmelita descalço era o autor de El duende, José do Espírito Santo podia esperar o pior, tanto para si mesmo quanto para toda a congregação.

O geral deu, pois, prova de sabedoria e de prudência ao afastar o P. Emmanuel: por um lado, desviou da congregação a tempestade que já se anunciava e, por outro, salvou de morte certa o próprio P. Emmanuel, pondo-o ao abrigo de toda perseguição; enfim, foi independentemente da vontade do P. Emmanuel que a partida se divulgou e deu ocasião ao seu aprisionamento. O venerável ancião, já esgotado por numerosos encargos e incessantes trabalhos, sucumbiu às emoções dos últimos acontecimentos; no quadragésimo segundo dia de seu generalato e no terceiro após o aprisionamento do P. Emmanuel, foi atingido por apoplexia; munido dos últimos sacramentos, morreu pacificamente no convento de Madri, pelo anoitecer de 2 de junho de 1736, em seu sexagésimo nono ano. Foi sepultado com grande pompa no cemitério do mesmo convento de Santo Hermenegildo.

Acrescentemos algumas palavras sobre a data da morte de José do Espírito Santo. Muitos autores modernos o dizem morto em 1739, p. ex., Hurter, Nomenclator, 3ª edit., t. iv, col. 1027; Benoît de Sainte-Croix (Zimmerman), C. D., The Ascent of Mount Carmel by David Lewis, prólogo, edit. 1900, p. 20; Poulain, S. J., Des grâces d'oraison, p. 649, 7ª e 8ª edit., 1909; La vie spirituelle, out. 1922, t. vii, n. 1, p. 162, nota 2. Esses autores se enganam; José do Espírito Santo morreu em 1736; contentemo-nos aqui com as afirmações formais de alguns autores, cujo número se poderia multiplicar: Anastase de Sainte-Thérèse, C. D., no fim do t. vii da Reforma de los Descalzos de N.S. del Carmen, Madrid, 1739; Manuel de S. José, C. D., t. viii, p. 832, 1ª col., da obra supracitada Reforma de los Descalzos, ms. inédito conservado no convento dos carmelitas descalços de Burgos; Thomas de S. Raphaël, C. D., Bibliothecœ carmelitanœ P. Martialis parva correctio, n. 268 e Memorias de los Descalzos de Andalucia Baja, t. ii, p. 66, duas obras inéditas, conservadas na Universidade de Sevilha, ms. 333-121 e ms. 332-29; o autor anônimo da Biografia de Don Manuel Freire de Silva o sea F. Manuel de san José, p. 167, Madrid, 1811; e Declamacion funeral en las exequias celebradas en nuestro convento de carmelitas Descalzos de Sanlucar en Barrameda por N. R. P. General Joseph del Espiritu Santo, predicada por el P. Martin de San Vincente, Cádiz, 1736.

II. ESCRITOS. — 1° Sermões reunidos em três volumes mss. in-4°, conservados, segundo o P. André da Encarnação, nos arquivos do santo deserto del Cuervo (cf. Memorias historiales, t. iv, ms. 12 254 da Biblioteca nacional de Madri). O P. Martial de São João Batista, ao terminar sua Bibliotheca carmelitana antes de 1730, conheceu apenas um volume de sermões: «Um volume de sermões muito notáveis pela ciência das Santas Escrituras e pela doutrina dos SS. Padres». (Cf. p. 268, n. 87.)

2° Cursus theologiæ mystico-scholasticæ in sex tomos divisus in quo scholastica methodi explanantur dubia mystica, juxta miram solidamque doctrinam Angelici Præceptoris Divi Thomæ sacræ theologiæ principis. Desde que o definitório geral lhe ordenara escrever uma obra desse gênero, José do Espírito Santo consagrou todos os seus lazeres à composição dessa obra magistral. No tempo em que André da Encarnação escrevia suas Memorias historiales, todos os mss. do Cursus estavam conservados nos arquivos do santo deserto del Cuervo. Apesar de todas as minhas pesquisas na Espanha, só pude reencontrar um único, o que trata do 1º predicável místico, isto é, a 1ª parte do t. ii; encontra-se na Biblioteca nacional de Madri, ms. 12 716; é um volume de 612 p. in-fol., muito bem conservado, escrito por copistas experientes; cada fólio traz a rubrica de José do Espírito Santo. O Cursus, já com seis volumes in-fol., permaneceu contudo inacabado: falta nele a última exposição, a do 5º predicável, ou do acidente místico.

Ao tomar da pena, José do Espírito Santo não se propusera escrever uma obra tão considerável. Com efeito, na 1ª edição do t. i, Sevilha, 1720, proleg., vi, § 1, n. 41, p. 15 (ed. 1921, t. i, p. 11, nota 63), propõe-se tratar no t. ii dos cinco predicáveis; mas no prólogo do t. ii, Sevilha, 1721, p. 1, declara tratar neste volume apenas dos dois primeiros predicáveis, deixando os outros três para o t. iii. Em seguida, no prólogo do t. iii, Sevilha, 1730, só fala da 1ª parte do 3º predicável e dá as razões dessa mudança. Enfim, na 4ª edição do t. i, Sevilha, 1730, prol. VI, § 1, n. 41, p. 15 (ed. 1924, p. 11), crê poder concluir toda a obra em cinco volumes. Em lugar de cinco, há seis; e se a morte não o tivesse surpreendido, haveria sete, talvez até oito. Assim, pois, à medida que escrevia, o autor viu-se obrigado a ampliar sua concepção.

1. Edições. O 1.

1, foi editado quatro vezes: Sevilha, 1720; Nápoles, 1721, edição que dá geralmente uma melhor tradução latina dos textos espanhóis tomados das obras de são João da Cruz e de santa Teresa, e que acrescenta ordinariamente uma tradução italiana das estrofes espanholas de são João da Cruz; 3ª edit., Veneza, não pude reencontrar a data dessa edição; 4ª edit., Sevilha, 1730; essa 4ª edição é a mais fiel; o próprio autor nos adverte disso acrescentando ao título Per suum authorem recognita, et a ferme innumeris mendis, quibus spondialium negligentia scatebat, absoluta. O t. ii foi dividido em duas partes, impressas separadamente em Sevilha, em 1721; 2ª edição, Nápoles, 1721. Os t. iii e iv apareceram em Sevilha em 1730; o t. V em Madri em 1731 e o t. vi igualmente em Madri em 1740; este último volume é, pois, póstumo; aquele que o editou acrescentou o que se segue (p. 626):

Hucusque author : sed abhinc dolor. Nam authorem operis in litteraria provincia acclamatissimum, velut sidus novum, quo arcana mysticæ theologiæ affatim patefiant, a sapientibus habitum, Busiride sævior ipsa nobis rapuit libitina ferox.... Faxit Deus, ut ad operis consummationem alius exurgat a Spiritu Sancto.

Uma edição crítica está em curso: Editio nova ad antiquas editiones et fontes, collatis auctoritatibus, a P. Fr. Anastasio a S. Paulo, in collegio philosophico ejusdem ordinis cortracensi historiæ et scientiarum prælectore, accuratissime exacta; o t. i acaba de aparecer em Bruges, 1921.

2. IDEIA GERAL. — a) Título. Cursus theologiae mystico-scholasticae (o curso de teologia é designado pelo nome de místico-escolástico; místico por causa da matéria tratada, isto é, a teologia mística; escolástico, em razão do método de tratar essa matéria, sendo o método escolástico rigorosamente observado nas partes principais deste curso; com efeito, o autor começa por um claro apanhado da questão; depois expõe sucessivamente as diversas opiniões dos autores; vem em seguida sua própria tese ou opinião com os argumentos que a apoiam; por último, apresenta as objeções dos adversários e as refuta. Longe de fugir às dificuldades, tão abundantes nesta matéria, José do Espírito Santo as procura, ataca-as de frente e as resolve com uma mestria incomparável.

b) Plano. O próprio autor, nos sete prolegomena ad lectorem, começa por expor o plano, o método e as circunstâncias pouco favoráveis nas quais foi obrigado a compor o Cursus. «O t. i, diz-se ali, compreende duas partes, das quais a 1ª, a Mystica Isagoge, contém o resumo ou a medula de toda a teologia mística; serve de introdução, como o nome de Isagoge indica, e tem por fim fazer compreender melhor tudo o que se seguirá. Hujus sacratissimœ scientiae termini, acrescenta o autor, ejus conditionem sapiunt, atque ideo occultissimi sunt. Por isso foi necessário explicar esses termos, por receio de que sua obscuridade afaste alguém do estudo da teologia mística.» Em razão do método escolástico adotado pelo autor, a Isagoge ou Introdução mística foi composta à semelhança das Summulœ logicales dos Complutenses.

A 2ª parte do t. I é consagrada a duas Disputationes proœmiales, de modo que, nos tomos seguintes, o autor só terá de ocupar-se dos cinco predicáveis que constituem o corpo de sua obra. A 1ª Disputatio proœmialis examina a fundo o objeto e a natureza da teologia mística, bem como suas relações com as outras ciências. Objectum quod mysticœ theologiœ est solus Deus. Ratio formalis qua in objecto mysticœ theologiœ est ratio absoluta Deitatis. Ratio sub qua Deum attingit, est ratio gustati ab anima. Theologia mystica acquisita est idem habitus cum theologia scholastica. A 2ª Disputatio proœmialis é um estudo notável sobre a necessidade de um diretor místico e sobre as qualidades requeridas neste.

T. ii-vi. Um dos grandes méritos de José do Espírito Santo é ter instituído uma série de predicáveis místicos à maneira dos predicáveis lógicos; essa feliz invenção ter-lhe-á sido sugerida por seu método rigorosamente escolástico. Citemos em latim o que diz a respeito o Prolegom. vi, § 4, n. 51 55 (ed. 1924, p. 14-15), pois todo ensaio de tradução arrisca-se a desfigurar o pensamento do autor.

Quinque etenim dicimus esse mystica praedicabilia. Primum est natura formaliter perfectibilis. Estque natura hæc perfectibilis mystice per id, quod est mystice perfectivum... Ast sicut omnes docent animam ex se mystice perfectam non esse, sic cum veriori sententia dicemus, tota disputatione prima primi praedicabilis, animam ipsam non esse de se proxime perfectibilem a mystico perfectivo. Hoc enim perfectivum dicemus esse contemplationem, ad cujus exercitium animam idoneam non esse, nisi prius per meditationem proportionetur, pluribus citata disputatione demonstrabimus. Habemus ergo meditationem seu orationem discursus esse quod reddit proxime perfectibilem animam, quae de se solum remote perfectibilis erat. Sicut natura logice perfectibilis non est ex se proxime apta ad essendum in pluribus seu praedicari de illis, sed hanc aptitudinem habet a consideratione intellectus,... (sic) anima quae de se solum remote perfectibilis est, fit proxime perfectibilis per considerationem intellectus, quæ est meditatio seu oratio discursus. Propter quae primum praedicabile mysticum genus nominamus seu de natura mystice perfectibili; quiaque hanc perfectibilitatem præstat oratio discursus seu communiter dicta, propterea de hac oratione in hoc primo praedicabili agendum nobis est; in quo naturam ipsius, causas, necessitatem aliaque plura discutiemus... Animæ perfectivum contemplationem esse diximus. Unde illam in secundo praedicabili, quod est differentia collocamus. Differt enim media contemplatione homo a natura rationali seu discursiva, sicut medio ratiocinio differt a sensitivis. In hoc ergo praedicabili secundo agemus de causa efficiente contemplationis, de principio elicitivo, de speciebus ad illam deservientibus, etc.. Ex contemplatione animam perficiente et ipsa anima conflatur natura perfecta, quam mysticam speciem nominamus et ponimus in tertio praedicabili; in quo hujus naturae dotes, fastigium, privilegia aliaque dicentur; in quorum discussione mens illustratur et voluntas pabulo caelesti enutritur.

Perfectionem hujus perfectae naturae plura accidentia comitantur, alia indispensabiliter, alia vero contingenter. Prima sunt proprietates ipsius naturæ perfectæ, quae certe plenitudinis completionem, quam habet, non haberet sine illis.... Principium proprium est purgatio, tum activa, tum passiva, quam anima experitur in sensibus et potentiis.... Non est naturae perfectae constitutivum rigor iste; sed cum illa ita inseparabiliter associatur, ut perfectio sine hoc medio non detur... Illa alia accidentia, quae naturam perfectam ita ornant, ut possit haec dari omnino perfecta sine illis, sunt, ut patet, accidentia communia, quae certe adesse et abesse possunt de factoque adsunt et absunt absque perfectionis defectu. Haec constituant quintum praedicabile mysticum, quo numerus nostrorum prœdicabilium completur. Haec accidentia sunt raptus, extases, revelationes, gratis; omnes gratis datæ aliaque innumera, quae accidentia communia sunt; siquidem sine illis datur perfectionis completio. Impossibile est de illis omnibus disputare; unde ea solum attingam, quae magis nostram mysticam materiam concernunt majoremque difficultatem praeseferunt.

Por este simples extrato de José do Espírito Santo pode-se julgar a concisão, a clareza e a erudição de seu estilo, bem como o conjunto de sua doutrina. A melhor garantia da obra encontra-se em sua perfeita conformidade com o ensino de santo Tomás, de são João da Cruz e de santa Teresa, ensino que o autor compreendeu profundamente, exprimiu fielmente e ilustrou admiravelmente. Como teologia mística, esta obra jamais foi superada e sem dúvida jamais o será; por isso sua autoridade em matéria mística é excepcionalmente grande. José do Espírito Santo mereceu, pois, bem de sua ordem e da Igreja; ele sozinho fez talvez mais pela teologia mística do que fizeram seus confrades, os Complutenses pela filosofia e os Salmanticenses pela teologia dogmática e moral.

Martial de S. J.-B., C. D., Bibliotheca scriptorum utriusque congregationis et sexus carmelitarum excalceatorum, Bordeaux, 1730, p. 268; Cosmas de Villiers, O. C, Bibliotheca carmelitana, Orléans, 1752, t. ii, col. 192; Anastase de Sainte-Thérèse, C. D., Reforma de los Descalzos de N. S. del Carmen, t. vii, Madrid, 1739; Manuel de Saint-Joseph, C. D., t. viii do mesmo livro Reforma de los Descalzos, p. 832, t. inédito, ms. in-fol. do ano MDCCLILIX (sic) conservado no convento dos carmelitas descalços de Burgos; Thomas de S. Raphaël, C. D., Bibliotheca carmelitana; P. Martialis parva correctio, n. 268, inédito, ms. 333-121 da Universidade de Sevilha; do mesmo, Memorias de los Carmelitas Descalzos de Andalucia Baja, t. ii, p. 65, inédito, ms. 332-29 da Universidade de Sevilha; Protocolo deste convento de la Concepcion de Carmelitas Descalzos de Ecija, n. 52, inédito, ms. do convento dos carmelitas descalços de Écija; André de l'Incarnation, C. D., Memorias historiales, t. IV, ms. 12 254 da Bibl. nat. de Madri, cujo título é: Asuntos de los manuscritos que habia en el archivo general de los Carmelitas Descalzos; El duende critico de Madrid, Madrid, 1844, contendo Escritos del duende critico de Madrid, p. 5-136, e Biografia de Don Manuel Freire de Silva o sea F. Manuel de san José Carmelita Descalzo, autor del Duende critico de Madrid; Barthélémy de S.-Ange e Henri du Saint-Sacrement, C. D., Collectio scriptorum ordinis carmelitarum excalceatorum utriusque congregationis et sexus, Savone, 1884, t. i, p. 353, n. 129; Hurter, S. J., Nomenclator, 3ª edição, t. iv, col. 1027-1028, n. 443; Edouard de Sainte-Thérèse, C. D., Prelados o Superiores de la Congregacion de Espana, em El Monte Carmelo (Burgos), t. x, n. 218, agosto de 1909, p. 571-574; Anastase de Saint-Paul, C. D., Cursus theologiae mystico-scholasticae P. Fr. Josephi a Spiritu Sancto, ed. crít., Bruges, 1924, t. i, p. ix-xvii.

P. Fr. Anastase de S. Paul.

JOSÉ DO ESPÍRITO SANTO, carmelita descalço português, teólogo místico (1609-1674). Nasceu em 26 de dezembro de 1609 em Braga, em Portugal, de pais nobres; em 30 de maio de 1632, aos vinte e três anos, tomou o hábito e pronunciou seus votos no convento de Lisboa. Seu ardor para a prática da virtude e para o estudo era infatigável; aplicou-se de preferência ao estudo da teologia mística; graças a seus estudos e à santidade de sua vida, foi-lhe concedido penetrar-lhe os segredos, como suas obras o atestam. Dotado de um admirável discernimento dos espíritos, conduziu a uma alta santidade as numerosas pessoas que recorriam a seus conselhos. Pregador eminente, recolheu os mais calorosos aplausos e teve a alegria de reconduzir muitas almas a Deus. Apesar de todos os seus talentos e sucessos, era de uma humildade rara e amava apaixonadamente a solidão. Foi preciso um preceito formal de obediência para forçá-lo a aceitar o cargo de prior em Cascais e, mais tarde, em Braga e na Bahia. Mas o rei, desejando elevá-lo à dignidade episcopal, não conseguiu vencer sua resistência. Em 21 de novembro de 1651, fundou em Braga, sua cidade natal, o convento de Nossa Senhora do Monte Carmelo, do qual foi o primeiro vigário e o primeiro prior; em seguida empreendeu e concluiu a fundação da Bahia. Cheio de méritos, o santo religioso morreu no convento de Santa Hermenegilda, em Madri, em 27 de janeiro de 1674, com sessenta e cinco anos de idade. Deixou após si um grande exemplo de sabedoria e de virtude.

Escreveu: 1° Cadena mystica carmelitana de los auctores carmelitas descalzos, por quien se renovado en nuestro siglo la doctrina de la theologia mystica... Adornada con la doctrina del Doctor Angelico... Formada en metodo de las colaciones espirituales del carmelo heremitico... Madrid, 1678, in fol., xxv, 396 p. O autor propõe-se dar uma exposição clara e sucinta do que os autores místicos carmelitas descalços ensinaram sobre diversas questões místicas. Adota aí a forma das conferências espirituais que se realizam, nos santos desertos da ordem, a cada quinze dias e nas principais festas do ano. A primeira conferência compreende 40 proposições; cada proposição é dividida em várias respostas, nas quais se expõe a doutrina dos diversos autores carmelitas descalços; a proposição termina por uma conclusão, na qual o autor expõe seu próprio sentimento.

A obra permaneceu incompleta; com efeito, no prólogo o autor promete dar várias conferências; contudo a Cadena mystica só dá a primeira, «na qual se trata do que é a teologia mística, quais são seus termos, seu nome, sua natureza, suas propriedades, as disposições e os atos que a precedem, a acompanham e a seguem». Notemos uma particularidade que dá a esta obra uma importância excepcional: no começo do livro, José dá uma lista dos autores carmelitas descalços cuja autoridade invoca e cujas obras cita; ora, muitas dessas obras permaneceram inéditas, várias até estão perdidas, talvez sem volta.

2° Enucleatio Mysticæ Theologiæ S. Dionysii Areopagitæ, episcopi et martyris, per quaestiones et resolutiones scholastico mysticas, iam in librum, quem inscripsit de Mystica Theologia, quam in diuersas alias sententias illam concernentes, ex reliquis ejusdem S. Doctoris superstitibus libris sedulo depromptas, atque in duas partes divisa, Colônia, 1684, in fol. Esta obra é designada sob o nome de Theologia mystica por José de Santa Teresa, Martial de São João Batista, Cosme de Villiers e Barthélémy de Santo Ângelo. Está escrita em latim; o atestado de José de Santa Teresa dá disso fé: ele «enviou à Alemanha um livro latino, Theologia mystica, a fim de que o P. Paulo de Todos os Santos o publicasse». Assim, o P. Paulo não diz que o traduziu do português ou do espanhol para o latim: «Pareceu-me bom acrescentar no fim deste segundo tomo o outro (volume do P. José do Espírito Santo) que tem por título Enucleatio Mysticœ Theologiae S. Dionysii Areopagitae, caído em minhas mãos por uma singular disposição da Providência; decido-me a isso a fim de satisfazer o leitor ávido de um conhecimento mais perfeito dessas matérias divinas e sublimes, e por temor de que, pela morte do autor, este insigne trabalho, como acontece com frequência, se perca.» A Enucleatio foi, pois, colocada no fim do tomo II das obras do venerável Tomás de Jesus, p. 455-602; compreende duas partes: a 1ª é um douto e magnífico comentário sobre a Teologia mística do pseudo-Dionísio; a 2ª é uma série de comentários sobre os documentos místicos que se acham esparsos nos outros escritos do mesmo Dionísio; tendo citado um documento de Dionísio, o autor lhe junta um comentário tomado de algum escritor místico, sobretudo de santo Tomás de Aquino, e depois remete a tal passagem de suas próprias obras em que trata da mesma matéria. A obra termina por um apêndice de dúvidas e respostas místicas, no qual o autor, após uma visão geral da vida cristã e da vida religiosa, em particular da vida carmelitana, trata das três vias: purgativa, iluminativa e unitiva. Uma tradução francesa deste livro aparecerá em breve.

3° Primera parte del camino espiritual de oracion y contemplacion. Donde se trata de lo que deve hazer el que quisiere tener oracion : desde el principio de su conversion hasta llegar a la fin de la perfeccion, repartido en tres tratados, inédito, encontra-se na Biblioteca nacional de Madri, ms. 6533, in-4°, 293 p. Este manuscrito não traz nome de autor; mas no verso do fólio que precede o título da obra, uma mão estranha escreveu (letra do fim do século XVII), em espanhol: «O autor deste livro é o muito reverendo P. José do Espírito Santo, português, que escreveu também a Cadena mistica Carmelitana publicada em Madri, em 1678; este ms. nunca foi impresso». Depois, embaixo do título, lê-se, da mesma letra que a nota precedente: «Escrito pelo muito reverendo P. José do Espírito Santo, carmelita descalço português.» Este livro ascético-místico é muito notável; compreende três partes ou tratados: 1. da oração e de suas partes; 2. das três vias: purgativa, iluminativa e unitiva; 3. da contemplação, subdividido em 2 partes: a) de seus graus e de suas espécies; b) do modo de contemplação mais perfeito e mais próprio ao progresso de cada um.

4° Cuestiones mysticas. Do que José do Espírito Santo diz ele mesmo em sua Cadena mystica, prop. 32, resp. 4, p. 280, e do aviso colocado no fim da Cadena mystica propriamente dita, p. 373, por aquele que providenciou a edição desta obra póstuma, temos o direito de concluir que o autor se propunha classificar as Cuestiones mysticas no fim da Cadena mystica, que de fato as compôs, mas não pôde dar-lhes o último retoque; assim elas permaneceram impróprias para a publicação, com exceção das duas expostas no fim da Cadena mystica, p. 373-396. Eis a tradução: «1ª prop.: Deve-se aprovar o propósito seráfico de fazer sempre o que há de mais perfeito e de mais conforme à vontade de Deus, ou seria mais seguro — não o fazer ou não desejar fazê-lo? 2ª prop.: Convém acrescentar o voto ao propósito seráfico? Em que forma, com que condições e em que sujeitos se deve aprová-lo ou reprová-lo?» O parecer de José do Espírito Santo pode resumir-se assim: o voto seráfico, muito louvável em si, pode ser permitido, desde que se faça com a autorização expressa do superior e de um confessor douto e prudente, e que a pessoa esteja bem adiantada no caminho da perfeição e não seja de modo algum sujeita a escrúpulos.

5° Sermones varii. Há mais de 600, dos quais apenas quinze foram editados em 7 volumes: Coimbra, 1653, in-4°; Lisboa, 1659, in-4°; ibid., 1659, in-8°; ibid., 1664, in-4°; ibid., 1672, in-fol.; ibid., 1673, in-4°.

6° Poesias, ms. in-4° que possuía outrora Miguel Carvalho de Silva, parente do autor, em Braga; e ms. 17875 da Biblioteca nacional de Madri, in-4°, p. 672.

José de Santa Teresa, C. D., Reforma de los Descalzos, Madri, 1684, t. IV, p. 924; Barbosa..., t. ii, p. 846 sq. Paul de Tous les Saints, C. D., Opera omnia Ven. P. Thomæ a Jesu, Colônia, 1684, t. ii, p. 196 e 454; Martial de S. J.-B., C. D., Bibliotheca scriptorum utriusque congregationis et sexus carmelitarum excalceatorum, Bordeaux, 1730, p. 268; Cosmas de Villiers, Bibliotheca carmelitana, Orléans, 1752, t. ii, col. 191-192; Bibliotheca carmelitico-lusitana, historica, critica, chronologica, auctore, P. N. carmelitano, Roma, 1754, p. 158-162, n. 125; Barthélémy de S.-Ange e Henri du S. -S., C. D., Collectio scriptorum ordinis carmelitarum excalceatorum utriusque congregationis et sexus, Savone, 1884, t. i, p. 352-353; Anastase de S. -Paul, C. D., Cursus theologiae mystico-scholasticae P. Fr. Josephi a Spiritu Sancto, Bruges, 1924, 1. 1, Appendix, p. 295-296.

P. Fr. Anastase de S. Paul.

Autor original: P. Fr. Anastase de S. Paul

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