JOÃO IV, O JEJUADOR, patriarca de Constantinopla (582-595). — João foi primeiro escultor em sua juventude e mostrou desde cedo grandes disposições para a piedade e a caridade. O patriarca João III (565-577), que o havia notado, fê-lo entrar em seu clero e o ordenou diácono. Foi nessa qualidade que o novo clérigo foi encarregado de distribuir aos pobres as esmolas que fazia a igreja de Santa Sofia. Tendo morrido o patriarca Eutíquio a 5 de abril de 582, João, a quem suas austeridades haviam feito dar o apelido de Jejuador, foi chamado a sucedê-lo, a 11 de abril. Teófanes, Chronogr., P. G., t. cviii, col. 811 ; Cedrenus, Histor. compend., P. G., t. cxxi, col. 753. No dia seguinte, foi sagrado na igreja de Santa Sofia.
De sua ação como patriarca conhece-se sobretudo a obstinação em reivindicar o título de ecumênico ou universal, que pretendia ter sozinho o direito de portar. Na verdade, esse título já havia sido tomado por vários patriarcas no decurso do século VI, sem que parecesse ter-se levantado nenhum protesto. Sem dúvida assim foi porque esses hierarcas não lhe davam um sentido absoluto. Em contrapartida, João o Jejuador viu-o recusado por dois papas sucessivos. A ocasião parece ter sido o concílio realizado em Constantinopla em 588 para julgar o patriarca de Antioquia, Gregório. As atas dessa assembleia infelizmente se perderam. Sabemos, contudo, que João nele se intitulou « patriarca ecumênico », o que lhe atraiu imediatamente os protestos do papa Pelágio, como se vê pelas cartas de São Gregório Magno. Mansi, Concil., t. ix, col. 1214. Se dois papas agiram dessa maneira, se São Gregório Magno não cessou de protestar para fazer o patriarca renunciar a esse título, é porque João pretendia bem uma jurisdição mais ou menos exclusiva sobre todo o Oriente. Apesar das advertências pontifícias, não deixou de continuar a chamar-se patriarca ecumênico até a morte, S. Grégoire, Epist., vii, P. L., t. lxxvii, col. 857, e o título ficou para seus sucessores, a despeito de todos os esforços tentados por Roma. Ver Constantinople (Église de) t. iii, col. 1133-1135.
A querela suscitada pelas pretensões de João o Jejuador ao título de patriarca ecumênico não foi a única dificuldade que o pôs em confronto com São Gregório Magno. Por volta de 591, este havia pedido ao prelado bizantino explicações a respeito de um sacerdote chamado João e de vários monges da Isáuria, acusados de heresia, dos quais um, Anastásio, que era sacerdote, havia sido espancado na igreja de Santa Sofia. João o Jejuador respondeu que não sabia de que se tratava. São Gregório Magno replicou-lhe com bastante aspereza : « Fiquei muito surpreso com a resposta que me destes; se dizeis a verdade, que há de pior do que ver os servos de Deus assim tratados, sem que o pastor que está presente saiba de nada? Mas se o sabeis, que responderei a isso, quando a Escritura diz : "A boca que mente mata a alma"? É a isso que conduz a vossa abstinência? Não valeria mais ver entrar carne em vossa boca do que ver sair dela um discurso falso, em que se zomba do próximo? » Épist., iii, 53, P. L., t. lxxvii, col. 648.
O imperador Maurício havia emprestado a João o Jejuador uma soma considerável para suas boas obras, e o patriarca lhe havia dado hipoteca sobre todos os seus bens. Ora, depois de sua morte, só se encontrou em sua casa uma cama de madeira, uma má coberta e um manto gasto. O imperador, cheio de admiração por essa pobreza e essa austeridade, rasgou a obrigação e mandou transportar ao palácio o pobre mobiliário. É pelo menos o que conta Teofilacto, segundo a tradição de seu tempo. Hist., viii, 6, édit. de Boor, 1887, p. 254-255. João o Jejuador morreu a 2 de setembro de 595. Na carta que São Gregório Magno escreve ao imperador Maurício para felicitá-lo pela escolha que fizera de Ciríaco como patriarca, qualifica de feliz memória João, o predecessor deste. Epist., vii, 36, P. L., t. lxxvii, col. 859. Se não se quer ver aí senão uma fórmula oficial, é preciso admitir que, mesmo procurando fazer respeitar os direitos da Igreja romana contra as pretensões do Jejuador, o papa não desconhecia por isso as suas virtudes reais. A Igreja grega honra João o Jejuador como santo e o festeja a 2 de setembro. A Igreja russa lhe votou um culto todo particular.
João o Jejuador não parece ter sido um grande teólogo. Santo Isidoro de Sevilha, De viris illustr., 39, P. L., t. lxxxiii, col. 1102, só lhe atribui uma carta, perdida hoje, escrita a São Leandro, a respeito do batismo. Nela nada dizia de novo e se contentava em relatar os testemunhos dos antigos sobre as três imersões. Atribuíram-se frequentemente a João o Jejuador outras obras : uma homilia bastante longa sobre a penitência, a continência e a virgindade, outra sobre os falsos profetas e os falsos doutores, um penitencial e um discurso no qual prescrevia a ordem a seguir na confissão dos pecados. As duas homilias sobre a penitência e sobre os falsos profetas foram atribuídas também a São João Crisóstomo, mas reconheceu-se que não são dele. A segunda não parece ser de João o Jejuador, por causa de seu estilo incorreto e rastejante. A primeira é bem superior. Montfaucon, seguindo nisso Vossius e Pearson, a considera de João o Jejuador. Encontra-se em P. G., t. lxxxviii, col. 1937-1978. O penitencial foi impresso em Paris, em 1651, por Morin, que duvida, porém, que seja de João o Jejuador. Essa obra contém, com efeito, prescrições desconhecidas no século VI e que o fariam remontar ao século VIII. Está em P. G., t. lxxxviii, col. 1889-1918. Encontra-se também no Σύνταγμα τῶν ἱερῶν κανόνων de Rhalli et Potli, Atenas, 1854, t. iv, p. 432-445, um resumo dos cânones de João o Jejuador por um certo Mateus, impresso segundo os mss 24, 14, 35 e 37 da Biblioteca imperial de Viena. Quanto ao discurso sobre a ordem a guardar na confissão dos pecados, deve ser um extrato do penitencial e que dificilmente pode remontar a João o Jejuador. O cardeal Pitra recolheu essas duas obras no Spicilegium Solesmense, t. iv, p. 416-444. Em resumo, afora a carta a São Leandro, que não possuímos mais, só se lhe pode atribuir a homilia sobre a penitência, e isso mesmo não sem alguma hesitação.
Baronius, Annales, ad an.
595, et les critiques de Pagi ad hunc locum ; Ceillier, Histoire générale des auteurs ecclésiastiques, 1750, t. xvii, p. 123-126 ; Fabricius, Bibliotheca 1721, t. x, p. 164-167 ; Krumbacher, Geschichte der byzantinischen Litteratur, 1897, p. 111 ; Mansi, Concil., t. ix, col. 1214 ; P. G., t. lxxxviii, col. 1889-1978 ; Rhalli et Potli, ... 1854, t. iv, p. 432-445 ; Pitra, Spicilegium Solesmense, 1858, t. iv, p. 416-444.
R. Janin.
Autor original: R. Janin
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