JOÃO ITALOS, isto é, João o Italiano, um dos principais representantes do movimento filosófico em Constantinopla durante a segunda metade do século XI. Nascido na Calábria, como ele mesmo afirma, e não na Lombardia, como alguns acreditaram, equivocando-se sobre o sentido bizantino de Longobardia, seguiu seu pai numa expedição militar na Sicília; mas, não tendo nenhum gosto pelo ofício das armas, abandonou logo sua pátria para dirigir-se a Constantinopla e ali aperfeiçoar-se nas ciências. Miguel Psellos ocupava então a cátedra de filosofia numa espécie de academia ou de universidade embrionária criada pelo imperador Constantino Monômaco (1042-1054). João seguiu suas lições e depois lhe sucedeu, provavelmente na ascensão de Miguel Ducas (1071-1078), que fora seu aluno. Espírito curioso e turbulento, apaixonado pela metafísica, ávido de soluções nítidas não somente para os graves problemas do destino humano, mas ainda para os augustos mistérios do cristianismo, não tardou a entrar em conflito com a autoridade eclesiástica. Abriu-se um inquérito canônico contra ele desde 1077, mas a proteção de que gozava junto aos grandes da capital o preservou então de qualquer sanção.
Foi diferente sob Aleixo I Comneno (1081-1118), desejoso sem dúvida de fazer tábua rasa de todos os personagens influentes do antigo regime. Por um decreto do mês de março de 1082, o novo imperador ordenou ao patriarca Eustrácio Garidas que retomasse o quanto antes o exame da doutrina de Italos. Ela foi condensada em onze artigos, que foram solenemente anatematizados a 13 de março, domingo da Ortodoxia, na presença do professor culpado. Depois, nos dias 20 e 21 do mesmo mês, o sínodo reuniu-se de novo para deliberar sobre as medidas a tomar contra os discípulos do filósofo e sobre certos pontos de sua doutrina ainda não plenamente elucidados. O próprio imperador os havia resumido numa « Nota imperial » da qual o sínodo tomou primeiro conhecimento. Essa peça é muito instrutiva e nos informa com exatidão sobre a primeira fase desse longo processo, que terminou pela condenação de nove artigos, que Italos reconheceu como seus, e pela proibição que lhe foi intimada, sob pena de expulsão, de ensinar doravante publicamente ou em particular. O décimo artigo, relativo a um insulto sacrílego que o filósofo se teria permitido contra uma imagem de Cristo, foi provisoriamente afastado como não provado. Por uma sessão sinodal realizada a 11 de abril seguinte, vê-se que Italos fora relegado a um mosteiro e que a maior parte de seus discípulos havia conseguido justificar-se. Mas o dossiê está evidentemente incompleto, tendo desaparecido as últimas folhas do manuscrito que o contém.
Lêem-se ainda hoje, no Synodikon do domingo da Ortodoxia, os dez artigos dogmáticos contra Italos. Ele é aí acusado : 1° de ter querido explicar pelo raciocínio a união hipostática; 2° de ter renovado as opiniões dos antigos filósofos gregos sobre a alma humana, o céu, a terra e as criaturas; 3° de ter ensinado a metempsicose e, por conseguinte, de ter negado a imortalidade da alma humana e a vida futura; 4° de ter retomado por sua conta a teoria de Platão sobre a eternidade da matéria e das ideias; 5° de ter colocado muito acima dos doutores e dos santos os antigos filósofos e os heresiarcas condenados pelos sete concílios; 6° de ter negado a possibilidade dos milagres de Cristo e dos santos; 7° de ter considerado as letras profanas não como simples elementos de formação intelectual, mas ainda como depositárias da verdade; 8° de ter acreditado nas fantasias platônicas sobre as ideias e sua união substancial com a matéria; 9° de ter pretendido que os homens, por ocasião da ressurreição futura, não retomarão os corpos que tiverem tido durante esta vida, mas outros; 10° de ter propagado os erros dos antigos sobre a preexistência das almas, a não eternidade das penas do inferno, a formação de um mundo novo e a negação da criação. Um décimo primeiro artigo, que desapareceu há muito tempo do Synodikon, condenava nominalmente João Italos e seus discípulos : encontrei o texto num manuscrito do Escorial, pondo assim fim às hipóteses dos críticos sobre o verdadeiro objeto desse último parágrafo. O excesso de dialética havia, vê-se, arrastado nosso filósofo a um racionalismo fortemente tingido de platonismo.
As obras de João Italos permaneceram todas inéditas. Os manuscritos nos conservaram dele : 1° Uma coletânea de respostas a 93 questões propostas por diversos personagens, entre outros pelo imperador Miguel Ducas Parapinakès (a quinquagésima) e por seu irmão Andrônico Ducas (a quadragésima terceira); 2° Um comentário sobre os livros II. III e IV dos Tópicos de Aristóteles, que não passa de um plágio do trabalho análogo de Alexandre de Afrodísias; 3° Um comentário sobre o De interpretatione do mesmo Aristóteles; 4° Um pequeno tratado de dialética dirigido a Andrônico Ducas, irmão mais velho do imperador Miguel; 5° Um resumo de retórica; 6° Diversos capítulos de lógica, especialmente sobre a matéria e as três formas do silogismo, sobre as questões relativas ao gênero, sobre os cinco universais, segundo a Introdução de Porfírio.
Ver sobre todas essas obras o Monacensis gr. 99, f° 279-447; o Vindobon. phil. 203, f° 1-232; o Scorial. X, I. II. f° 80-273; o Scorial, Q, 4, 14, f° 61-91 ; o Marcian. 265, o Vatic. 316 et 317, os Parisini 1843, 2002, et 655 do Suplemento grego. K. Krumbacher, Geschichte der byzantinischen Litteratur, Munich, 1897, p. 445. Acrescentar : Th. Ouspenskij, Histoire du premier empire bulgare (en russe), Odessa, 1879, p. 1-10 de l'appendice; do mesmo : Actes du procès de Jean Italos pour cause d'hérésie dans les Notices de l'Institut archéologique russe de Constantinople (en russe), Odessa, 1897, t. ii, p. 1-66 ; F. Chalandon, Essai sur le règne d'Alexis Ier Comnène (1081-1118), Paris, 1900, p. 311-316; D. Brancev, Jean Italos et son système philosophico-théologique, dans la revue Foi et raison (en russe), Charkov, 1904; N. Giacoumaki, Le mouvement intellectuel à Byzance au xie siècle, dans la revue Nouvelle Sion (en grec), Jérusalem, t. viii, p. 159-181, t. ix, p. 371-384, t. x. p. 92-100, 173-188, 329-337, t. xi, p. 13-16, 318-329; Chr.
Zervos, Un philosophe néoplatonicien du XIe siècle, Michel Psellos, sa vie, son oeuvre, ses luttes philosophiques, son influence, Paris, 1920, p. 223-226.
O texto grego dos dez capítulos de acusação contra João Italos encontra-se em todas as edições não católicas do triodion, mas com incorreções. O codex theol. 90 de Viena, f° 152 v°, atribui a redação deles a Nicetas, arcediago e chartophylax; segundo as atas do processo, seria antes o caso de atribuí-los a Miguel Caspakès; o chartophylax não teria feito senão registrá-los.
L. Petit.
Autor original: L. Petit
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