JOÃO DE RÚSSIA

JOÃO DE RÚSSIA

JOÃO DE RÚSSIA, polemista e canonista grego do fim do século xi. Originário de Constantinopla, foi enviado à Rússia, em 1079, para aí recolher a sucessão de Jorge, metropolita de Kiev, que tivera de deixar o país em consequência de uma revolução interior. Morreu em 1089. Sua obra, sem ser considerável, não carece de interesse. Possuímos primeiro dele, conservada em grande número de cópias, uma Carta a Clemente, papa de Roma. Trata-se do antipapa Clemente III, Guiberto (1080-1110), que o imperador Henrique IV opusera a Gregório VII e que tentara, para aumentar sua influência, travar relações com as Igrejas do Oriente. O metropolita de Kiev respondeu a essas aberturas com uma carta em que reproduz, muitas vezes nos mesmos termos, as queixas de Fócio, e sobretudo de Miguel Cerulário, contra os latinos, coisa tanto mais fácil para ele quanto tivera de assistir aos debates de 1053, que haviam levado à consumação do cisma.

Composto em grego, esse documento foi traduzido cedo para o antigo russo, e é nessa língua que foi publicado primeiro por K. Kalaïdovitch em Monumentos da literatura no século XII (em russo), Moscou, 1821, p. 205-218, depois, com o original grego, por V. J. Grigorovitch, em Memórias científicas da Academia imperial das ciências (id.), S. Petersburgo, 1854, t. i, 3ª parte, p. 1-20, e por S. A. Pavlov em sua recensão do livro de A. Popov, Esboço histórico-literário das antigas obras polêmicas contra os latinos (id.), Moscou, 1875, publicada no Relatório sobre a décima nona adjudicação do prêmio do conde Ouvarov, S. Petersburgo, 1878, p. 355-373, e em tiragem à parte sob o título: Ensaio crítico sobre a história da antiga polêmica greco-russa contra os latinos, ibid., p. 168-186. Existe também uma edição somente em grego, feita com o auxílio de dois manuscritos de Patmos por Sófocles C. Œconomos, Τοῦ ὁσίου πατρὸς ἡμῶν Ἰωάννου μητροπολίτου Ῥωσίας ἐπιστολὴ πρὸς Κλήμεντα πάπαν Ῥώμης, Atenas, 1808, in-8º, xvi-18 p., com uma introdução que transpira por todos os poros o ódio à Igreja católica. Sigismundo de Herberstein deu da carta uma tradução pouco fiel em seus Rerum Moskovitarum commentarii, Viena, 1549, Basileia, 1551, Comentari della Moscovia, Veneza, 1550, fol. 19-21, e encontra-se um resumo dela, tomado, sem o dizer, ao historiador russo Macário, no pastor protestante L. Boissard, L'Église de Russie, Paris, 1867, t. ii, p. 217-220.

A segunda obra de João tem por título: João, metropolita da Rússia, cognominado o Profeta de Cristo, breves regras eclesiásticas tiradas dos santos livros dirigidas ao monge Tiago. Costuma-se citá-las sob o título abreviado de Respostas canônicas. São 34, mas só se reencontrou o texto grego de 17 delas. Publicadas pela primeira vez por K. Kalaïdovitch nos Curiosos monumentos russos, 1815, t. i, p. 89 sq., depois por Macário, metropolita de Moscou, em sua grande obra, História da Igreja russa (em russo), S. Petersburgo, 1889, t. ii, p. 352-259, foram em seguida objeto de duas importantes publicações de A. S. Pavlov. Esse sábio canonista, tendo reencontrado o texto grego original de várias dessas respostas, publicou-o, acompanhado de uma velha tradução russa, nas Memórias da Academia imperial das ciências, apêndice ao t. xxii, n. 5, S. Petersburgo, 1873, depois em edição definitiva na Biblioteca histórica russa publicada aos cuidados da Comissão dos antigos textos, S. Petersburgo, 1880, t. vi, p. 1-20.

É sobre essa dupla edição de Pavlov que foi feita a, mais acessível, de L. K. Goetz, Kirchenrechtliche und kulturgeschichtliche Denkmäler Altrusslands nebst Geschichte des russischen Kirchenrechts, Stuttgart, 1905, p. 114-170. O texto aí é reproduzido tanto em grego quanto em antigo russo, traduzido para o alemão, acompanhado de excelente comentário, e precedido, p. 98-113, de um estudo de conjunto sobre essa obra de importância considerável para o conhecimento dos costumes do povo russo no século xi. Filareto, arcebispo de Tchernigov, atribui ainda a nosso autor um ofício em honra dos santos Boris e Gleb, martirizados em 1015, Esboço da literatura eclesiástica russa (em russo), S. Petersburgo, 1884, p. 16; mas K. E. Goloubinskij, História da Igreja russa (id.), Moscou, 1891, t. i, p. 1, n. 839, reivindica a paternidade dessa obra para o metropolita João I (1015-1035), contemporâneo dos dois mártires. Afora as obras citadas no curso do artigo, ver C. A. Nevolin, O metropolita João considerado como autor da carta sobre os ázimos a Clemente, bispo de Roma (em russo), dissertação publicada primeiro no Boletim da Academia imperial das Ciências, S. Petersburgo, 1853, depois em Coleção completa das obras de C. A. Nevolin, S. Petersburgo, 1859, t. vi, p. 637-643.

L. Petit.

Autor original: L. Petit

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