JOÃO DE ROQUETAILLADE (DE RUPESCISSA)

JOÃO DE ROQUETAILLADE (DE RUPESCISSA)

JOÃO DE ROQUETAILLADE (de Rupescissa), franciscano, † 1362. Discute-se muito sobre seu lugar de origem. O inglês Tanner faz que nasça perto de Gammages, no Devonshire; Torrès Amat l'inscrit entre os escritores catalães. Nós o cremos antes gascão. Pertencia à família nobre que deu um bispo a Rodez no XIII século, ou então nasceu simplesmente à sombra de seu velho castelo, situado entre Bazas e Langon de Roquetaillade? Fodéré exalta a nobreza e o poder de sua parentela; mas que vale seu testemunho? Quer que ele fosse professo do convento de Villefranche-en-Beaujolais, ao qual teria feito doação de seu senhorio, quando ele próprio dizia ser do convento de Aurillac, na custódia de Rodez, província de Aquitânia. Escreveu, em seu tratado da Quintessência, que, antes de entrar entre os menores, perdera mais de cinco anos « no desejo e ânsia de filosofia mundana no mui renomado estudo de Toulouse », e acrescenta que, depois de sua profissão, perdeu ainda mais em disputas vãs, grande ruído de palavras, louvores, leituras de diversos autores.

É provavelmente quando renunciou a essas vaidades que recebeu do céu esse dom de interpretar as profecias, que lhe valeu a reputação de profeta. Profeta, defende-se bem de o ser, mas, no entanto, fala frequentemente de suas revelações e, para confirmar seus prognósticos, lembra que vários já se realizaram. Aliás, davam-lhe esse testemunho, e Froissart, seu contemporâneo, o faz notar em suas crônicas. Profeta ou não, Roquetaillade pretendia bem ler no futuro e não hesitava em anunciar, mesmo em dia fixo, acontecimentos futuros. Enganou-se muitas vezes, acrescentemo-lo, por exemplo, quando anunciava que, em 15 de julho de 1362, os cardeais fugiriam de Avinhão. É que o objeto mais frequente de suas profecias eram os castigos reservados à corte romana em punição dos abusos que nela se cometiam. Viera a Avinhão em 1349, « ad denunciandum et dicendum », e por isso Clemente VI o lançara na prisão. Já um dissabor semelhante lhe acontecera quando ainda estava em sua província; em 1345, escreve ele, Guilherme Farinier, seu provincial e futuro geral da ordem, o mandara encerrar no convento de Figeac. Sofreu ainda a mesma pena sob o pontificado de Inocêncio VI (1352-1362).

Duplessis-Mornay afirma, mas sem provas, que esse profeta de desgraça pereceu na fogueira. Fodéré o diz morto e sepultado no mesmo convento de Villefranche e Sbaraglia dá a data de 1362, sob o pontificado de Urbano V, eleito em 27 de setembro, ao passo que Torres Amat, depois de tê-lo enviado como missionário a Moscou, o faz voltar à Catalunha para aí morrer nonagenário. Roquetaillade ocupava os lazeres de sua prisão em escrever suas visões e suas revelações e também em estudar a Grande Obra, com o fim, dizia ele, de tornar-se útil à Igreja romana, quando esta tivesse sido despojada de seus bens. Compunha aí também, sempre segundo revelações, seu tratado sobre as virtudes e propriedades da quintessência de todas as coisas, a fim de ensinar aos pobres de Cristo e aos homens evangélicos os meios de se tratarem a pouco custo e de prolongarem sua existência. Será preciso dizer que a primeira quintessência cujo emprego preconiza é a que chama de água ardente, alma ou espírito do vinho, ou aguardente? Encontram-se nesse tratado os remédios mais estranhos, mesmo contra as possessões, e não têm nada de comum com os exorcismos, que ele menciona, contudo, se os outros não tiverem êxito.

Possuímos de Roquetaillade Visiones et revelationes, publicadas, diz Sbaraglia, por João Ergon, eremita agostiniano, em suas Compilationes vaticiniorum. Uma carta a Guilherme de Curte, cardeal dos Quatro Santos Coroados, editada por Eduardo Brown no Apêndice ao Fasciculus rerum expetendarum et fugiendarum de Orduin Graes, Londres, 1690, com o Librunculus dictus Vade mecum in tribulatione, composto em 1356, no qual anunciava os acontecimentos que deviam seguir-se até 1362. Nessa obra faz menção de alguns de seus outros escritos proféticos, Libri quatuor de speculis temporum; De reserationibus arcanorum Scripturæ sacræ; Ostensor quod adesse festinant tempora, e qualifica este último de volumen magnum; indica aí também um Libellus quem intitulant : Ut non erubescant detractoribus laudatores, dirigido a seu sobrinho mestre Anselmo. A Biblioteca Nacional de Paris possui, além disso, um Commentarium super prophetiam Cyrilli eremitæ presbyteri de statu Ecclesiæ. O Liber lucis e o tratado De confectione veri lapidis philosophorum, que se completam um ao outro, foram muitas vezes editados nas coletâneas de alquimia. Opus de consideratione quintæ essentiæ omnium rerum, Basileia, 1561, 1597, traduzido por Antoine du Moulin, La vertu et propriété de la Quinte Essence de toutes choses, Lião, 1549, 1581. Atribui-se-lhe ainda um comentário in VI libros Sententiarum e um tratado De famulatu philosophiœ ad theologiam seu Evangelium.

Froissart, Histoire et chronique, Paris, 1574, l. I, c. ccxj, l. III, c. xxiv ; Wadding, Annales minorum, ann. 1357, xvi-xxi; Fodéré, Narration historique des convens de l'ordre de S. François, Lião, 1619; Baluze, Vitæ paparum Avenionensium, Paris, 1693; Bayle, Dictionnaire historique, Amsterdã, 1734; Tanner, Bibliotheca britannico-hibernica, Londres, 1748; Sbaraglia, Supplementum ad scriptores ordinis minorum, Roma, 1806; Torres Amat, Memorias... de los escritores Catalanes, Barcelona, 1836; Fabricius, Bibliotheca latina mediœ et infimœ ætatis, Hamburgo, 1735, t. VI, p. 366; Hurter, Nomenclator, 3e éd., t. ii, col. 627.

P. Edouard d'Alençon.

Autor original: P. Edouard d'Alençon

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