JOÃO BECCOS OU JOÃO XI

JOÃO BECCOS OU JOÃO XI

JOÃO BECCOS ou JOÃO XI, patriarca de Constantinopla de 1275 a 1282 e ardoroso partidário da união das Igrejas. Seu nome aparece pela primeira vez na história em 1260, por ocasião do advento do patriarca Nicéforo, a propósito de um sonho que ele tivera a esse respeito. Pachymère, l. II, c. xix. Como grande número de seus parentes habitava em Niceia, pode-se crer que João era ele próprio originário dessa cidade. Id., l. VI, c. xxv. Em 1264, outro incidente já o mostra investido das altas funções de grande chartofílax. Id., l. III, c. xxiv. Como tal, teve de cumprir importantes missões da parte do imperador Miguel VIII Paleólogo, primeiro junto ao rei da Sérvia, depois junto ao rei da França, São Luís, em cuja morte esteve presente em Túnis, em agosto de 1270. Id., l. V, c. vi et ix.

Essa última embaixada tinha por fim fazer abortar o projeto de expedição de Carlos de Anjou, rei de Nápoles, contra Constantinopla. Como ela não pôde ter seguimento por causa da morte do rei da França, o imperador aproveitou a eleição de um novo papa, Gregório X, para estabelecer com ele úteis relações, prometendo-lhe a união das Igrejas em troca de sua intervenção junto a Carlos de Anjou. Beccos, que nessa época ainda não era católico, tendo feito oposição ao projeto de união, foi lançado na prisão, na torre de Anema. Consagrou seus ócios forçados à leitura dos Padres, de Nicéforo Blemmides em particular, e não tardou a convencer-se da ortodoxia dos latinos. Id., l. V, c. xvi. Uma vez convertido, pôs todo o seu ardor e raros conhecimentos teológicos a serviço do triunfo da nobre causa que abraçara.

Concluída pelos embaixadores imperiais, em 6 de julho de 1274, no concílio de Lyon, a união foi solenemente proclamada em Constantinopla, em 16 de janeiro de 1275, na presença do imperador, mas na ausência do patriarca José, que teve por isso de apresentar sua renúncia. Foi substituído por João Beccos, que acumulava havia algum tempo as duas funções de chartofílax e de skeuofílax. A eleição teve lugar em 16 de maio de 1275, e a entronização, no domingo seguinte, 2 de junho. Id., l. V, c. xxiii et xxiv. Sinceramente católico, Beccos dirigiu ao papa João XXI, desde o mês de abril de 1277, uma profissão de fé católica muito explícita, publicada em tradução latina por Allatius. De Ecclesiœ occidentalis atque orientalis perpetua consensione. Cologne, 1648, p. 746-752, P. G., t. cxli, col. 943, e no texto grego original, por A. Theiner e F. Miklosich, Monumenta spectantia ad unionem Ecclesiarum græcæ et romanæ, Vienne, 1872, p. 21-28. Possuímos igualmente dele outra carta ao papa Nicolau III, publicada por Pitra, Analecta novissima, Paris, 1885, p. 611-613.

Com a morte de Miguel Paleólogo, ocorrida em 11 de dezembro de 1282, Beccos viu-se logo em oposição às tendências nitidamente separatistas do novo imperador Andrônico Paleólogo e, em 26 de dezembro de 1282, renunciando à sua dignidade, retirou-se primeiro para o mosteiro da Panachrantos, depois para Brusa, na Bitínia, que lhe foi designada como lugar de exílio. Após o efêmero patriarcado de José, que morreu logo no início de março de 1283, viu-se subir ao trono patriarcal, em 11 de abril seguinte, Gregório de Chipre, antigo colaborador de Beccos, tornado por ambição seu inimigo mortal. Sem esperar sequer sua nomeação, escrevera contra Beccos um Sermo antirrheticus, que o exilado de Brusa se apressou a refutar num escrito vigoroso, ao qual os editores deram, infelizmente, um título falso, o de Oratio secunda in tomum Cyprii et novas ejusdem hæreses. Voltaremos a falar dele mais adiante. Segundo o testemunho de um companheiro de Beccos, Jorge Metoquita, esse tratado, redigido sob a forma de carta encíclica, tornou-se público antes do sínodo de Adramício, que se deve situar durante o inverno de 1283-1284. A. Mai e J. Cozza-Luzi, Nova Patrum bibliotheca, Rome, 1871, t. viii, 2e partie, p. 121.

Ela suscitou a tal ponto a opinião pública que se decidiu, para acalmar os ânimos, reunir um concílio no qual o patriarca exilado pudesse explicar-se. Essa assembleia realizou-se de fato quatro anos antes da queda de Gregório de Chipre, isto é, em 1285. Nova Patrum bibliotheca. Rome, 1905, t. x, 1re partie, p. 324. Foram necessários, observa Jorge Metoquita, mais de seis meses, quase um ano de tergiversações, antes de reunir a assembleia. Op. cit., t. viii, p. 165 e 227. Como foi impossível entender-se sobre certos textos demasiado favoráveis à tese católica sustentada por Beccos, os opositores encarregaram o patriarca intruso de redigir um tomos em que tudo seria posto em pontos claros. Essa peça foi publicada, aliás muito mal e sem as assinaturas, por A. Banduri, Imperium orientale, Venise, 1729, p. 652-668, e reproduzida por P. G., t. cxlii, col. 233 sq. Em vez de produzir a união, apenas agravou as dissensões.

Da fortaleza de São Gregório, no golfo de Nicomédia, onde fora encerrado depois do sínodo de 1285, Beccos lançou contra o tomos uma série de opúsculos que acabaram por voltar contra Gregório de Chipre a opinião pública, a ponto de este ter de renunciar, em junho de 1289, à sua sé usurpada; foi substituído nela, em 14 de outubro do mesmo ano, por Atanásio. Quanto a Beccos, se não saiu da prisão, viu ao menos suavizarem-se um pouco os rigores de sua detenção, em consequência de uma entrevista com o imperador e o novo patriarca, na primavera de 1290, quando Andrônico e sua corte se dirigiam a Ninfeu, perto de Esmirna, para ali fazer uma permanência de dois anos. De volta à capital, em 28 de junho de 1292, o imperador renovou junto a Beccos e seus codetentos suas tentativas de acomodação, mas em vão: Beccos permaneceu inflexível, e morreu em sua prisão, dois anos depois do grande logóteta Teodoro Muzalon, observa Jorge Metoquita, op. cit., t. x, p. 330. E como Muzalon expirou em março de 1294, segundo o testemunho de Pachymère, l. II, c. xxxi, é por volta do fim de março de 1296 que se deve situar a morte do glorioso confessor da unidade romana, contrariamente às asserções dos que o fazem morrer em 1288, como U. Chevalier, em 1293, como Dräseke e Ehrhard, em 1298, como Poussines e Hurter.

Das numerosas obras de Beccos, algumas ainda são inéditas; entre as que vieram a lume, há as que se podem datar facilmente.

São elas: 1° A Profissão de fé, ao papa João XXI, do mês de abril de 1277, da qual se tratou acima; 2° uma Sententia synodalis, de 3 de maio de 1280, a propósito de uma rasura feita num tratado de São Gregório de Nissa pelo referendário do patriarcado, Escammatismenos; ela é de importância capital, pois nos mostra, por um delito devidamente comprovado, a ortodoxia grega em ação na interpolação sistemática dos textos patrísticos. Foi publicada por Allatius, segundo uma cópia de João Aubert, em sua grande obra De Ecclesiœ occidentalis atque orientalis perpetua consensione, Cologne, 1648, p. 893-901, depois em sua Grœcia orthodoxa, Rome, 1652, t. i, p. 366-374, e, segundo ele, por P. G., t. cxli, col. 281-290, e por H. Lammer, Scriptorum Græciæ orthodoxæ bibliotheca selecta, Fribourg, 1864, t. i, p. 411-422; 3° Epistola encyclica contra o Sermo antirrheticus de Gregório de Chipre, composta em 1283 e falsamente intitulada Oratio secunda in tomum Cyprii, em Allatius, Grœcia orthodoxa, Rome 1659, t. ii, p. 250-286, e em Migne, loc. cit., p. 896-924; 4° Da injustiça de sua deposição, escrito provavelmente em 1284, Allatius, op. cit., t. ii, p. 11-36, P. G., col. 940-970; 5° Oratio apologetica et antirrhetica, Allatius, p. 36-83, P. G., col. 969-1010; 6° Apologia, ou demonstração de que a união das Igrejas não destrói os usos nem a disciplina dos orientais, Allatius, p. 84-94, P. G., col. 1009-1020, Lammer, op. cit., p. 426-428; 7° Memória sobre suas próprias obras e sua perfeita coerência entre si, Allatius, op. cit., t. ii, p. 1-10, P. G., col. 1019-1028; 8° Testamento espiritual, Allatius, op. cit., t. i, p. 375-378; De consensione, p. 763-766; Poussines, Notas sobre Pachymère, Venise, 1729, p. 63-65, P. G., col. 1027-1032.

As outras obras de Beccos têm alcance mais geral e constituem um verdadeiro monumento da controvérsia greco-latina; as edições delas são infelizmente insuficientes. Desprovidas de todo aparato crítico, têm além disso o defeito de não dar quase nenhuma referência, coisa indispensável, no entanto, em tal caso. Certos textos de Beccos, de autenticidade indiscutível, não foram até aqui reencontrados. A obra deve, pois, ser retomada pela base. Eis as partes dela: 9° Da união e da paz entre as Igrejas da antiga e da nova Roma, Allatius, Grœcia orthodoxa, t. i, p. 61-224, P. G., t. cxli, col. 15-158, H. Lammer, op. cit., p. 189-406. Numa primeira parte, o autor prova com muita força que os antigos Padres gregos ensinaram todos a doutrina dos latinos e, numa segunda, refuta com não menos felicidade os teólogos gregos fautores do cisma, como Fócio, João Phournès, Nicolau de Metone e Teofilacto da Bulgária; 10° Da união das Igrejas e da inconsistência do cisma demonstrada somente pela história, obra que se segue à precedente, mas permaneceu até aqui inédita, salvo um fragmento bastante longo publicado por Allatius, De utriusque Ecclesiœ occidentalis atque orientalis perpetua in dogmate de purgatorio consensione, Rome, 1655, p. 591-625, e reproduzido por P. G. loc. cit., col. 925-942; 11° Epigraphæ XIII ou textos tirados dos santos Padres sobre a processão do Espírito Santo, publicadas primeiro por Arcudius, com as objeções de Gregório Palamas e sua solução por Bessarion, Opuscula aurea theologica, Rome, 1629 et 1670, p. 4-65, depois por Allatius, Grœcia orthodoxa, t. ii, p. 522-641, por Migne, loc. cit., col. 613-724, e por H. Lammer, op. cit., p. 445-652. Encontrar-se-á excelente análise delas na dissertação do P. De Rubeis (Rossi) sobre Gregório de Chipre, P. G., t. cxlii, p. 73 sq. Beccos prova ali que as fórmulas a Filio e per Filium são no fundo idênticas, derrubando assim o principal argumento da oposição; 12° De processione Spiritus sancti, coletânea de textos em favor da tese latina, editada primeiro por Arcudius, op. cit., p. 98-159, depois por Allatius, op. cit., t. i, p. 223-259, e por Migne, col. 157-276. O autor explica ali certos textos de que os adversários abusavam, por não os entenderem bem.

Outras obras, embora tenham por objeto as mesmas questões que os tratados precedentes, oferecem esta particularidade: são dirigidas por Beccos a amigos que permaneceram fiéis. Tais são: 13° Três livros sobre a processão do Espírito Santo, dirigidos a Teodoro, bispo de Sugdeia, na Crimeia, em Allatius, op. cit., t. ii, p. 95-148, P. G., col. 289-338; 14° Quatro livros sobre a processão do Espírito Santo a Constantino Meliteniota, seu companheiro de cativeiro. Allatius, loc. cit., p. 149-214, P. G., col. 337-396; 15° Carta a Alexis Agallianos sobre o mesmo assunto, para censurar-lhe a defecção e chamá-lo de volta à sua antiga crença, Allatius, op. cit., t. i, p. 360-365, P. G., col. 275-282.

Uma última categoria de obras é puramente polêmica e dirigida nominalmente contra certos adversários de Beccos, antigos ou contemporâneos. Cumpre citar em primeiro lugar: 16° a Refutação do livro de Fócio sobre a processão do Espírito Santo, publicada pela primeira vez por J. Hergenröther em P. G., loc. cit., col. 727-864, segundo o Laurentianus 26, Pluteus VIII, f" 174 sq.; 17° Refutação de Andrônico Camatero sobre a processão do Espírito Santo, Allatius, op. cit., t. ii, p. 287-521, P. G., col. 395-614; 18° Refutação do tomos de Gregório de Chipre, Allatius, loc. cit., p. 215 sq., P. G., col. 863-895. Não se tratará aqui dos decretos sinodais promulgados por Beccos durante seu patriarcado, pois não são obra pessoal sua; em compensação, convém assinalar seu retrato reproduzido por Goar em seu Euchologium sive Rituale Graecorum, Paris, 1646, Venise, 1730, e por Gédéon, segundo Goar, em suas Tábuas patriarcais, em grego, Constantinople, 1888, p. 396. É de propósito que não falamos de certos tratados atribuídos a Beccos por Nicolau Comneno Papadopoli, Praenotiones mystagogicae, Padoue, 1697, p. 11 e 212; foram forjados de ponta a ponta por esse descarado falsário, e surpreende ver não só o bom Fabricius, mas o próprio A. Ehrhard deixar-se apanhar na armadilha. E pensar que esse salmigondis constitui ainda em nossos dias, em certos meios italianos, uma autoridade canônica de primeiríssima ordem.

Para a bibliografia antiga, ver U. Chevalier, Répertoire, ao verbete Jean Veccus, a completar pelas seguintes indicações: Poussines (Possinus), notas diversas em sua edição da história de Pachymère, reproduzida no Corpus de Bonn; Georges Metochites, Historia dogmatica, em A. Mai e J. Cozza-Luzi, Nova Patrum bibliotheca, Rome, 1871, t. viii, 2e partie, p. 1-227, e Rome, 1905, t. x, 1re partie, p. 319-370; L. Allatius, De Ecclesiae occidentalis atque orientalis perpetua consensione, Cologne, 1648, p. 751-769, e para o período do concílio de Lyon, p. 727-752; A. Ehrhard, em K. Krumbacher, Geschichte der byzantinischen Litteratur, Munich, 1897, p. 96-97; Hurter, Nomenclator, 3e édit., 1900, t. ii, p. 402-404; e os artigos especiais de J. Dräseke, Der Kircheneinigungsversuch des Kaisers Michael VIII Paläologos, em die Zeitschrift für wissenschaftliche Theologie, t. xxxiv, p. 325-355; Nikolaos von Methone im Urteile der Friedensschrift des Johannes Bekkos, ibid., t. XLIII, 1900, p. 105-141; Johannes Phurnes bei Bekkos, ibid., p. 237-257; Drei Kapitel aus der Friedensschrift des Patriarchen Johannes Bekkos vom Jahre 1275, Wandsbeck, Osterprogramm, 1907, in-4°, 18 p., com uma bibliografia sobre Beccos; Johannes Bekkos Widerlegung der Syllogismen des Photios, eingeleitet und übersetzt, Beilage des Jahresberichts des k. Matthias-Claudius-Gymnasiums, Wandsbeck, 1912, 10 p. Ver o relatório do próprio autor na Wochenschrift für klassische Philologie, 1912, t. xxix, p. 1013 sq; R. Souarn, Tentatives d'union avec Rome : un patriarche grec catholique au XIIIe siècle, em Échos d'Orient, 1900, t. ii, p. 229-237, 351-360.

L. Petit.

Autor original: L. Petit

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