IRENEU (BISPO DE TIRO)

IRENEU (BISPO DE TIRO)

IRENEU, bispo de Tiro († por volta de 450). Sob Teodósio II (408-450), Ireneu, um dos condes do império, conhecido por suas qualidades de homem de Estado e mais ainda por suas virtudes, interessava-se particularmente pelas questões teológicas. Era amigo de Nestório e permaneceu-lhe muito apegado. Quando o patriarca de Constantinopla se dirigiu ao concílio de Éfeso, em 431, para justificar seu ensino, que se acusava de heresia, Ireneu o acompanhou por amizade e, embora não tivesse mandato oficial, usou de toda a sua influência em favor de Nestório, para grande desgosto de são Cirilo, patriarca de Alexandria, que lhe censurava por circunvir com suas maneiras sedutoras os bispos, simples de espírito, e por intimidar o concílio com sua ingerência e suas ameaças.

A pressa com que Nestório foi condenado, antes mesmo da chegada dos bispos orientais, suscitou sua indignação. Por isso, à aproximação de João de Antioquia e dos bispos que o acompanhavam, foi ao encontro deles com alguns homens de tropa para dar-lhes a conhecer a injusta sentença pronunciada por Cirilo contra Nestório; e quando se apresentaram os deputados do concílio, impediu-os de abordar João de Antioquia, não sem alguma brutalidade, como se queixou Mêmnon, bispo de Éfeso. Os orientais, reunidos imediatamente entre si, replicaram à condenação de Nestório com a condenação de Mêmnon e de Cirilo, e depois encarregaram o conde Ireneu de ir informar o imperador dos acontecimentos sobrevindos e de impedir a consagração daquilo que eles consideravam uma injustiça. Mas, como ele próprio nos informa numa carta em que presta contas de sua missão, Synod. aduersus Tragœdiam Irenœi, xxi, P. G., t. lxxxiv, col. 614, Ireneu chegou três dias depois dos emissários do concílio, isto é, tarde demais, porque estes, diz ele, pela mentira e pela calúnia, já haviam formado a opinião na corte imperial. Não deixou de tentar fazer prevalecer a verdade, mas não sem dificuldades e sem perigo; e talvez tivesse conseguido, não fosse a chegada inopinada de um enviado especial de Cirilo. Teodósio, para sair do embaraço, tomou o estranho partido de ratificar ao mesmo tempo a condenação de Nestório, pronunciada prematuramente pelo concílio de Éfeso, e a de Cirilo e de Mêmnon, lançada por inspiração de João de Antioquia e dos orientais, e enviou o conde João, seu grande tesoureiro, com plenos poderes para deter o conflito e restabelecer a paz.

A partir desse momento, Ireneu tornou-se suspeito à corte; suas diligências permaneceram vãs e a causa de seu amigo estava perdida. A condenação proferida por Cirilo foi plenamente ratificada pelo imperador em 435, e Nestório teve de tomar o caminho do exílio. Mas ao mesmo tempo Ireneu, que maledictum Nestorii cultum non solum secutus est, sed et instituit et studuit multas cum eo provincias evertere, Synodicon, clxxxviii, P. G., t. lxxxiv, col. 802, foi despojado de todos os seus bens e de todos os seus títulos e exilado em Petra. Longe de deixar-se abater por tal infortúnio, usou de seus ócios forçados para compor, sob o título de Tragédia, um relato detalhado, com peças comprobatórias, dos acontecimentos que haviam precedido e seguido o concílio de Éfeso, incluídos os da paz havida entre Cirilo e os orientais em 433. Essa obra não era de natureza a restituir-lhe o favor imperial. E no entanto, em consequência de circunstâncias que nos permanecem desconhecidas, veio um dia em que pôde deixar seu lugar de exílio; por volta de 444, foi mesmo eleito bispo de Tiro pelos bispos da província da Fenícia para substituir Beroniciano. Domno, patriarca de Antioquia, o consagrou e deu parte dessa consagração a Proclo († 446), patriarca de Constantinopla.

Tornado bispo, Ireneu não estava no fim de suas provações; foi vítima de um partido todo-poderoso junto a Teodósio, composto do eunuco Crisafo, do arquimandrita Êutiques e do sucessor de são Cirilo na sé de Alexandria, o fogoso Dióscoro. Esses três conjurados empreenderam uma guerra impiedosa contra todos os que se reclamavam da teologia antioquena e se haviam mais ou menos comprometido com o nestorianismo, notadamente contra Ireneu. A eleição do bispo de Tiro foi atacada, em nome da ortodoxia, porque Ireneu havia partilhado o erro de Nestório, e em nome da jurisprudência canônica, porque fora casado duas vezes. Domno de Antioquia, posto a par dessa intriga, consultou Teodoreto para saber a conduta que ele próprio devia seguir, na qualidade de consagrante do bispo perseguido. Escrevei, respondeu-lhe Teodoreto, Epist., cx, t. lxxxiii, col. 1212, que Ireneu é plenamente ortodoxo quanto à fé e que, se foi ordenado apesar do impedimento canônico de bigamia, nisso nada fizestes senão seguir o exemplo já dado em caso semelhante por Alexandre de Antioquia, Acácio de Bereia e Praílo de Jerusalém, que eles próprios consagraram bígamos. Aliás, sua escolha foi feita pelos bispos da província da Fenícia e sua ordenação foi aprovada pelos da província do Ponto e de Jerusalém e devidamente notificada a Proclo de Constantinopla: não há, pois, que voltar a isso.

Domno executou esse sábio projeto? Ignora-se. Talvez tenha preferido contar com uma reviravolta do imperador; enganava-se, pois Teodósio, impelido pelo partido de Crisafo, de Êutiques e de Dióscoro, depôs o bispo de Tiro por um decreto datado de 17 de fevereiro de 448, Concil. Ephes., part. III, c. 47, em Labbe, Sacrosancta concilia, t. iii, col. 1216, e Domno foi intimado a proceder à sua substituição, o que fez consagrando Fócio, em 9 de setembro do mesmo ano. Evágrio nos informa, H. E., i, 10, P. G., t. lxxxvi, col. 2448, que, no ano seguinte, em 449, por ocasião da reunião do concílio conhecido pelo nome de Latrocínio de Éfeso, Ireneu foi atingido por anátema. Pôde ao menos contar com sua reabilitação por ocasião do concílio de Calcedônia, em 451? Esse concílio, com efeito, cuidou de reparar as injustas condenações do Latrocínio de Éfeso; mas, como entre essas reparações não se faz menção da do antigo bispo de Tiro, é de crer que, nessa data, Ireneu já houvesse deixado de viver.

É lamentável que a Tragédia de Ireneu não nos tenha chegado em sua forma original e em seu texto grego: teria sido uma fonte preciosa de documentos e de informações sobre os começos do nestorianismo. Mas essa obra só nos é conhecida por amplos extratos que dela fez, pouco depois de Justiniano, na segunda metade do século VI, um autor anônimo, verossimilmente de origem africana, partidário decidido dos Três Capítulos, que havia tomado em particular a defesa de Teodoreto, e que traduziu em mau latim a maior parte das peças da Tragédia, contentando-se em resumir as outras, ou em assinalá-las, ou mesmo em suprimi-las. Sua obra, descoberta num manuscrito do Monte Cassino por Lupus (Christian Wolf) e publicada por ele sob este título muito pouco justificado: Variorum Patrum epistolæ ad concilium Ephesinum pertinentes, Lovaina, 1682, foi reeditada por Baluze e por Mansi, que a dividiu em 225 capítulos. Garnier a intitulou: Synodicon aduersus Tragœdiam Irenœi, P. G., t. lxxxiv, col. 548-814.

Tal como é, esse Synodicon nos ensina que Ireneu havia dividido sua Tragédia em três partes, a última das quais dizia respeito às negociações de paz feitas em Alexandria entre os orientais e são Cirilo. Synodicon, lxxix, P. G., t. lxxxiv, col. 688. O autor desse Synodicon qualifica Ireneu de homo Nestorii sequacissimus, Synodicon, cxviii, col. 732: censura-lhe haver combatido a doutrina católica em favor do erro nestoriano e haver condenado a declaração de fé feita pelos orientais. Nada há nisso que deva surpreender da parte de um amigo de Nestório, como Ireneu. Mas resulta das passagens da Tragédia traduzidas pelo anônimo que Ireneu, sem poupar Teodoreto, a quem acusava de leviandade e de inconstância, voltava-se sobretudo contra Cirilo de Alexandria e até contra João de Antioquia. Dizia que, ao denunciar ao papa Celestino o De historia de Nestório, o bispo de Alexandria se havia dirigido a um homem incapaz de penetrar a sutileza das questões debatidas, ut ad simpliciorem quam qui posset vim dogmatum subtilius penetrare, e que havia falsificado esse documento, fazendo dizer a Nestório: non peperit Maria Deum, quando este havia escrito: non peperit Maria Deitatem. Synodicon, VI, col. 588-590. Censura ele mesmo a Cirilo haver surpreendido com seus artifícios a boa-fé do pontífice romano, e sustenta que a paz concluída em 433 entre orientais e alexandrinos era falsa e que a divisão reinava mais do que nunca. Synodicon, cxviii, col. 732. Detestava, quanto a ele, a reviravolta simulada ou verdadeira desse egípcio, Synodicon, cxxi, col. 734, e não tinha, ao contrário, elogios bastantes para Alexandre de Hierápolis, pietatis propugnator egregius, turris adamantina, que deveu à sua coragem ser expulso de sua sé. Synodicon, clxxi, col. 786. Aqueles que condenaram Nestório, acrescentava, erraram também eles quanto à doutrina e constituíram, sob a direção de Cirilo, uma facção pior que as precedentes. Synodicon, cxcv, col. 809.

Essas acusações, algumas das quais são graves, eram fundadas? O que se pode dizer é que, se o autor do século VI julgou dever assinalá-las, foram sem resultado sobre a marcha dos acontecimentos e não impediram aquele que as havia formulado de recobrar pouco depois a liberdade, de tornar-se bispo de Tiro e de manter com Teodoreto uma correspondência que testemunhava seu respeito e sua confiança para com o bispo de Ciro. Teodoreto, em todo caso, não guardou rancor a Ireneu pelo que este escrevera contra ele em sua Tragédia. Assim é que responde às suas consultas sobre certos casos de consciência, Teodoreto, Epist., iii, P. G., t. lxxxiii, col. 1176-1177; que o consola da morte de seu genro, Epist., xii, col. 1185; que lhe agradece o envio de dois ou três de seus tratados. Epist., xvi, col. 1193. Teodoreto se faz fiador da ortodoxia de sua fé, louva seu zelo, seu desprezo das riquezas, seu amor pelos pobres, sua liberalidade para com aqueles que, de uma alta situação, haviam caído na miséria. Epist., cx, col. 1305. Recomenda-lhe, entre outros, para que o assista, um senador de Cartago, expulso da África pelos vândalos. Epist., xxxv, col. 1212.

Embora defensor de Diodoro de Tarso e de Teodoro de Mopsuéstia, não havia juntado o testemunho deles ao dos Padres gregos e latinos que citara em um de seus Diálogos. Ireneu estranhara isso com um tom de censura; mas Teodoreto observa que teria errado em fazê-lo, visto que aquele que é acusado só deve alegar testemunhas não suspeitas a seus acusadores. De resto, honra esses dois bispos, já que menciona a obra que havia empreendido para justificá-los dos crimes que lhes eram imputados. Epist., xvi, col. 1193.

É de crer que, se ainda vivesse, Ireneu, cuja ortodoxia o bispo de Ciro louvava, teria sido reabilitado, no concílio de Calcedônia, como Teodoreto e Ibas; sua morte prematura deixou-o englobado na reprovação do nestorianismo.

Evagrius, H. E., i, 10, P. G., t. lxxxvi, col. 2448; Synodicon adversus Tragœdiam Irenœi, P. G., t. lxxxiv, col. 548 sq.; Actes syriaques du Brigandage d'Éphèse, publicados primeiramente por Perry, An ancient syriac document purporting to be the record, in its chiefs factures, of the second synod of Ephesus, Oxford, 1867, foram traduzidos em alemão por G. Hoffmann, Verhandlungen der Kirchenversammlung zu Ephesus am XXII August CDXLIX, Kiel, 1873; em francês, pelo abade Martin na Revue des sciences ecclésiastiques, Amiens, 1874 (separata); e em inglês por Perry, The second synod of Ephesus together with certains extraits relating to it, Dartford, 1881. Tillemont, Mémoires, Paris, 1701-1709, t. xiv e xv; Ceillier, Histoire générale des auteurs sacrés et ecclésiastiques, Paris, 1858-1868, t. x, p. 22-23, 64-65, 72; Martin, Le Brigandage d'Éphèse, na Revue des questions historiques, Paris, 1874, t. xvi, p. 5-58; Duchesne, Histoire ancienne de l'Église, Paris, 1910, t. iii, p. 344, 384, 388, 395, 400-402, 419; Smith e Wace, A dictionary of Christian biography, t. iii, p. 280-282; U. Chevalier, Répertoire. Bio-bibliographie, t. I, col. 2267. Levantaram-se dúvidas sobre a autenticidade ou ao menos sobre a integridade do Synodicum, cf. J. Tixeront, Précis de patrologie, Paris, 1918, p. 197, nota 2.

G. Bareille.

Autor original: G. Bareille

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