INOCÊNCIA (ESTADO DE)

INOCÊNCIA (ESTADO DE)

INOCÊNCIA (Estado de). — 1° O que foi no primeiro homem. — O estado de inocência era o de nossos primeiros pais antes da queda. Entendamos por isso mais e melhor que uma simples isenção de culpa. Saindo das mãos do criador, qualquer que fosse a condição que Deus lhe tivesse feito, o homem não podia ser culpado. Seu estado comportava, além disso, a justiça sobrenatural ou a graça santificante e o dom de uma natureza perfeitamente íntegra, toda uma soma de disposições e de auxílios próprios para mantê-lo na felicidade da inocência primeira. Indica-se esse conjunto, sem equívoco possível, por outra designação bastante comum: estado de inocência e de santidade.

O primeiro homem foi elevado ao estado sobrenatural, e a graça santificante, com seu cortejo de virtudes, foi-lhe outorgada desde o instante de sua criação? O concílio de Trento absteve-se de resolver essa questão discutida entre os teólogos. Contudo, a opinião de são Tomás prevaleceu há muito tempo, e é doutrina comumente admitida que se deve aplicar a Adão o que santo Agostinho escreveu a respeito dos anjos: Deus simul erai in eis et condens naturam et largiens gratiam. De civitate Dei, l. XII, c. IX. Diversos dons, em seguida, tanto para a alma como para o corpo, remediavam as deficiências e lacunas da natureza considerada em seus elementos essenciais e necessários, ou em sua condição presente. Nomeemos a isenção da ignorância e do erro, a preservação da concupiscência, a imunidade diante da dor e da morte e as puras alegrias do paraíso terrestre. Essas prerrogativas eram um acréscimo que integrava a natureza humana, fazia reinar a ordem e a harmonia entre suas potências e a elevava à condição do melhor estar. Tinham, por conseguinte, um caráter de graça; sem fazer o homem atingir a ordem divina, levavam-no bem acima de sua esfera, donde o nome de preternaturais que os teólogos lhes aplicam. Essa rica dotação era uma espécie de traço de união entre a natureza humana e a graça elevante; procedia desta como de sua causa e lhe servia de ornamento e de baluarte. Embora dela fosse separável em rigor de termo, não deixava de acompanhar a graça concedida ao primeiro homem e só desapareceu com ela pelo pecado. É sem dúvida o que fez chamar também o estado de inocência, sobretudo nos mais antigos documentos, o estado de integridade. Ver Adão, t. i, col. 369-375.

2° O que teria sido em sua descendência. — A graça e os dons preternaturais em Adão formam o que o II concílio de Orange qualificou de bonum naturœ, Denzinger-Bannwart, n. 199, não no sentido de que decorriam dos princípios da natureza, mas enquanto compunham na origem a dotação do gênero humano e de todos os seus indivíduos. Em virtude de uma disposição positiva de Deus, deviam ser transmitidos à maneira de uma herança, com a própria natureza e como ela, por via de geração. Há, pois, lugar, relativamente à posteridade de Adão, de falar de estado de inocência. Isso não é pura hipótese nem simples concepção teológica.

E, em primeiro lugar, que a santidade e a justiça do primeiro homem nos tenham sido destinadas, é um ponto de fé definido: « Anátema a quem pretende que ele perdeu para si só, e não também para nós, a santidade e a justiça recebidas de Deus, » declarou o concílio de Trento, sess. V, can. 2. Que o gênero humano não tenha conhecido a morte e as outras penas do corpo senão em consequência da desobediência de Adão, é uma verdade que o santo concílio tem também por incontestável e concedida pelos próprios hereges. .Si quis asserit... inquinatum illum per inobedientiœ peccatum, mortem et pœnas corporis tantum in omne genus humanum transfudisse, non autem et peccatum, quod mors est animée, A. S. De maneira geral, a prevaricação de Adão fê-lo decair por inteiro, corpo e alma, totumque Adam, per illam prœvaricationis offensam, secundum corpus et animam in deterius commutatum, sess. V, can. 1; a mesma causa nos torna escravos do pecado, do demônio e da morte, serai erant peccati et sut potestate diaboli ac mortis. sess. VI, c. i; não perdemos todo o livre-arbítrio, mas este permanece enfraquecido e inclinado (ao mal), tametsi in eis liberum arbitrium minime exstinctum esset, viribus licet attenuatum et inclinatum. Ibid. Há, por conseguinte, paridade na condição do primeiro homem e na de seus filhos, quer antes, quer depois do pecado: herdamos sua infeliz sorte, como éramos chamados a partilhar suas prerrogativas, e a extensão das ruínas que sua falta acarretou nos permite medir os bens que sua obediência nos teria assegurado.

Essa perda da integridade original, são Tomás chamou-a ferida da natureza, vulneratio naturx. Sum. theol., I» IL^, q. lxxxv, a. 3. Ela comporta várias chagas particulares, notadamente a chaga da ignorância. Importa, se não se quer exagerá-la, não atribuir à descendência de Adão o direito a toda a perfeição intelectual dele. A criação do primeiro homem em idade adulta, sua missão de pai e de educador do gênero humano exigiam que tivesse uma ciência infusa relativamente perfeita. Essa necessidade não existe para seus filhos, submetidos às leis do crescimento e do progresso.

Bastava-lhes, para isso, uma penetração toda especial de inteligência que lhes teria permitido, mediante um exercício normal de suas faculdades, conhecer facilmente e sem perigo de erro a verdade, sobretudo a verdade de ordem moral.

S. Thomas, Sum. theol., Ia, q. xciv-cii; Ia IIæ, q. lxxxv, a. 2;Palmieri, Tractatus de Deo creante et elevante, part. II, c. ii, a. i, th. xlviii, liv; a. 4, th. lxxviii, Rome, 1878; ! Scheeben, Dogmatique, trad. Bélet, th. iv, § 183, Paris, ' 1882; Hurter, Theologiæ dogmaticæ compendium, t. ii, tr. VI, sect. ii, c. iii, a. 3; c. iv, a. 4, Inspruck, 1888; Mazella, De Deo creante et elevante, disp. IV, a. 3-66; disp. V, a. 7, Rome, 1908; Pesch, De Deo creante et elevante, sect. iv, c. i, a. 3, Fribourg-en-Brisgau, 1908; Tanquerey, Synopsis theologiæ dogmaticæ specialis, t. i, c. iii, a. 2, § 2, 3; a. 3, § 2, Paris, 1911 ; Labauche, Leçons de théologie dogmatique, t. ii, l'homme, Ire partie, c. ii; IIe partie, c. iii, Paris, 1911.

A. Thouvenin.

Autor original: A. Thouvenin

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