INDIFERENÇA RELIGIOSA

INDIFERENÇA RELIGIOSA

INDIFERENÇA RELIGIOSA. — I. Noções. Indiferença prática. Problemas teóricos. II. Apologética progressiva: indiferentismo irreligioso absoluto; indiferentismo religioso naturalista; indiferentismo religioso sobrenatural; indiferentismo cristão.

I. NOÇÕES. INDIFERENÇA PRÁTICA. PROBLEMAS TEÓRICOS. — 1° Noções. — 1. Indiferente, o que não faz distinção, diferença entre uma coisa e sua negação ou seu contrário; indiferença religiosa, atitude daquele que não toma partido entre as diversas formas religiosas ou que as proclama todas de igual valor; indiferentismo, o sistema que erige essa atitude em doutrina ou em lei. Não tomar partido é uma indiferença negativa; atribuir o mesmo valor a todas as religiões é indiferença positiva. Esta pode considerar todas as religiões como falsas, inúteis ou más: é então irreligião ou indiferentismo individual absoluto. Pode ainda, reservando a questão das consciências individuais, querer expulsar a religião apenas da vida pública, social e política: é o indiferentismo absoluto político-social. Mas, supondo que se creia necessária alguma religião, pode-se admitir que todas as religiões, em definitivo, são igualmente boas, cada uma para os seus adeptos, seja para a salvação no outro mundo, seja para a felicidade temporal das consciências humanas: e isso é propriamente o indiferentismo religioso.

2. Ao lado dessas palavras e dessas ideias, há outras palavras empregadas por vezes como sinônimos, outras ideias tidas como equivalentes, que é melhor separar nitidamente. Neutralidade, primeiramente: é a atitude externa da indiferença em meio a um conflito entre partidos inimigos; indiferença diz antes atitude interior do espírito e da vontade. Tolerância é a não supressão de um mal que não se pode impedir. Erigir a tolerância em sistema, por princípio de liberdade, de fraternidade, etc., é o tolerantismo, que não nega o mal, mas confia nessa liberdade, nessa fraternidade, etc., para curá-lo. O tolerantismo, na prática, vai muitas vezes até identificar bem e mal; deveria então deixar-se chamar indiferentismo: mas é difícil dizer-se indiferente a tudo aquilo que se quer absolutamente tolerar, e proclama-se hipocritamente, por tolerantismo, a liberdade dos erros, dos vícios, das irreligiões, antes que por indiferentismo. Latitudinarismo, sistema de indiferença entre os dogmas das religiões reveladas, sobretudo cristãs; pelo menos entre certos dogmas declarados não fundamentais. Aos indiferentes absolutos dão-se por vezes também os nomes pejorativos de incrédulos, ímpios, irreligiosos ou mesmo ateus ou, enfim, livres-pensadores: tanto a lógica da indiferença parece impelir naturalmente a alma à luta contra a religião.

2° Indiferença prática. — Há os que não praticam nenhuma religião, não por sistema mais ou menos refletido, mas por hábito vivido. 1. Falemos do fato. — Antes do século XIX houve pouquíssimos verdadeiros indiferentes à religião, seja entre os intelectuais, seja na própria burguesia, seja entre o povo. Mas, desde o século XIX, essa atitude tornou-se frequente demais. 2. As causas do fato. — Podem reduzir-se a três: ignorância, paixões, má vontade.

a) Ignorância ou falta de formação. O animalis homo forma-se sozinho; mas não o homo spiritualis. E que princípio formador de consciência religiosa pode a alma encontrar em certos meios familiares e sociais de fábrica, de rua, de escola, etc.? A ignorância religiosa não pode, contudo, ser total, geralmente, a ponto de escusar a toto peccato comme a tanto; isso, seja em nossos países cristãos (católicos, protestantes, cismáticos), seja nos países monoteístas (judeus, maometanos), seja mesmo em países pagãos civilizados (Índia, China, Japão): um dia ou outro Deus deve lembrar com demasiada nitidez seus direitos transcendentes a todas essas consciências em geral, para escusar aquelas que rolam na indiferença religiosa ao menos absoluta. Eu disse: em países pagãos civilizados. Pode-se admitir a existência de homens adultos religiosamente irresponsáveis, porque sua consciência permaneceu numa ignorância infantil: adultos de corpo, mas crianças que nunca chegaram à idade da razão ou da consciência moral? Até aqui os teólogos admitiam isso para individualidades: semiloucos, idiotas, selvagens muito embrutecidos; mas não teriam sido levados a estender essa exceção a povos inteiros. O ensino tradicional admitia, com efeito, para todo homem adulto ordinário, a capacidade de conhecer Deus, não somente coletiva, mas individual, e não precisamente por ensino social, mas por invenção, por uma elevação fácil e como que instintiva do espírito humano rumo ao Senhor do mundo físico e do mundo moral. Ora, essa ideia do Senhor do mundo físico e moral é bem a ideia de Deus, implícita e confusa, mas, não obstante, suficiente. E somente essas explicações pareciam ajustar-se à ideia do homem essencialmente dirigido a Deus como a seu fim último individual, natural. Ver Deus, t. iv, col. 826-829, 873, 876-881, 912-918; Caitéran, Le problème du salut des infidèles, t. I, Étude Insloriqne, et t. ii, Élude tlicologique. Les f:tudes du 20 août 1920, p. 306-403, publicaram um artigo do cardeal Billot que toma a esse respeito uma posição inteiramente nova, que não temos de discutir aqui. Ver Infiéis (Salvação dos). Se as conclusões da nova opinião fossem certas, a indiferença prática de milhões de pagãos, sem nenhuma verdadeira religião, seria assegurada­mente sem pecado.

2. Mas a causa mais frequente do verdadeiro indiferentismo prático, responsável e culpável, são as paixões: sensualidade, cobiça, orgulho de ambição, de domínio, de independência intelectual ou moral, enfim egoísta adoração de si. Todo esse povo de baixo, se chega a destronar o rei legítimo da alma, a vontade racional, logo o pisoteia, e já não serão os sentidos, nem a cobiça, nem o orgulho que se ocuparão em subir para Deus, o Infinito espiritual oculto, do qual nada podem receber senão castigos. Que fazer com esses indiferentes? Amortecer-lhes as paixões suscitando neles alguma aspiração mais alta para o bem da família, da pátria, da humanidade, da civilização artística, intelectual, moral; depois desgostá-los dessas paixões, de escravidão na realidade vergonhosa; depois fazê-los desejar mais vivamente o verdadeiro completo, ou o bem, ou o belo superior; excitar então os apelos instintivos da alma naturalmente religiosa, introduzindo a angústia do destino e a questão da Causa Primeira, ou melhor, se for o caso, despertar os restos de fé ou de piedade da infância e da juventude; enfim dar a esses desejos feições de preces e de súplicas: eis as etapas suaves, naturalmente possíveis, de uma conversão de pessoas praticamente indiferentes por causa de suas paixões. Quanto aos meios a empregar para realizar essas diversas etapas, são inumeráveis: conversas, leituras, amizades, exemplos, espetáculos, etc. E depois a graça tem outros caminhos ainda mais curtos e mais seguros.

Ver Th. Mainage, La psychologie de la conversion, Paris, 1915; L. Roure, La conversion, em Études, t. cxlvi, p. 289; Une conversion classique, na Revue pratique d'apologétique, 15 janvier 1914; P. Hugon, Notion théologique de la psychologie de la conversion, na Revue thomiste, septembre 1919, p. 226 sq. ; J. Huby, La conversion, Paris, 1919; J. Didiot, Conversion, dans Dictionnaire apologétique, t. I, col. 697-705; J. Dutilleul, Convertis et apostats, em Études, 1910, t. cxxiv, p. 317 sq., 507 sq ; A. Retté, Lettres à un indifférent, Paris, 1921.

3. Enfim, a última causa da indiferença prática, apesar de uma certa fé que por vezes persiste e da qual não se consegue desembaraçar, é a malícia obstinada no mal; ver Impenitência, sobre essa categoria de pecadores. Mas aqui a indiferença exterior, até afetada, encobre uma inimizade mais ou menos raivosa por dentro, e não pode ser que esta não rebente um dia ou outro e não mude a indiferença em sectarismo. Cf. X. Moisant, Psychologie de l'incroyant, Paris, 1908; Déisme, t. iv, col. 234-242 (evolução do deísmo inglês, francês, alemão); Dieu, col. 759 sq., 1243 sq. Discutir com esses espíritos? Serve de pouco. Abalá-los pela oração e pela afeição, e pela atração de alguma aspiração superior: é quase tudo o que se pode fazer; suscitar ainda as ocasiões de alguma emoção profunda num canto do coração que permaneceu reto e nobre; e depois a desgraça, muitas vezes, no coração, no espírito ou no corpo, tem sozinha a força decisiva. Ver em Th. Mainage a bibliografia das conversões.

Contra toda forma de indiferença prática consultar sobretudo os fortes e poderosos estudos de Mac Carthy, Sermons, t. ii, 3 sermões sobre a incredulidade e um sobre a indiferença; Lamennais, Essai sur l'indifférence en matière de religion, l. i, c. viii-xii, sobre a indiferença prática e a importância da religião, Mgr Pie, Instruction sur les principales erreurs du temps présent, Œuvres, t. II, p. 423-444 (indiferentismo).

3° Problemas teóricos. — Trata-se primeiro essencialmente do grande problema humano, o da natureza e do destino do homem, problema posto a quem quer que seja verdadeiramente homem, por todas as necessidades do coração, da consciência, do espírito; permanecer indiferente à sua solução: é possível e como? É também o grande problema moral: há um Deus e temos deveres para com ele, e quais? Os primeiros deveres, evidentemente, deveres que prevalecem sobre os que podem dizer respeito aos nossos semelhantes ou a nós mesmos. E é o grande problema histórico: o das religiões e da religião, para o conjunto dos povos terrestres, a questão primeira. Pode-se tentar resolver o problema por diversas vias, ou mesmo em diversos graus, que constituem outros tantos problemas especiais para a apologética: pode-se ater a um indiferentismo irreligioso absoluto, ou a um indiferentismo religioso naturalista, ou ao menos a um indiferentismo religioso histórico, ou enfim a um indiferentismo dogmático cristão?

II. Apologética progressiva. — ■ 1° Indiferentismo irreligioso absoluto. — 1° Formas. — a) O ateísmo é evidentemente a primeira fonte da irreligião: nenhuma divindade, nenhum culto a lhe prestar, nenhum dever para com ela ou por causa dela. O ateísmo, fonte de indiferença total às religiões para diversas categorias de nossos contemporâneos especialmente, é frequente ou raro? entre os intelectuais, entre o povo? Cf. J. Guibert, na Revue pratique d'apologétique, 1907, t. III, p. 39-45; C. Piat, ibid., p. 449-461. Em todo caso, quer seja de base ontológica de materialismo ou de panteísmo, quer de base psicológica de sensualismo, de empirismo, de positivismo; em outra direção, de idealismo, de subjetivismo, de criticismo; ainda de outro ponto de vista, de fenomenismo e de simbolismo, esse estado repousa o mais das vezes sobre uma base mais profunda, de ordem moral: a revolta contra o Senhor absoluto que reprimiria a volúpia, ou o orgulho, ou a cobiça: quer-se ser de si mesmo e só, logo nenhuma religião. Aliás, pode-se tolerá-la naqueles cujo cérebro e coração secretam, imaginam, pensam, chamam ainda... tais formas vitais; mas para aqueles que... «sabem», tudo isso tornou-se totalmente indiferente. Ver Caussette, Le bon sens de la foi, t. ii, p. 17-358.

b) Há, contudo, um deísmo irreligioso. O deísmo admite um Deus, autor do mundo; mas esse Deus ocupa-se agora do mundo? — Não; logo nenhuma religião a observar para com ele. Outros deístas admitem ainda um Deus-Providência do mundo físico, o mundo das leis fatais; mas das liberdades, desde que as fez livres, já não tem de se ocupar; não tem aliás nenhuma necessidade delas nem de suas honras e homenagens ínfimas; estas são, portanto, deixadas a si mesmas e já nada têm a ver com Deus na ordem moral; é a indiferença deísta religiosa absoluta. Cf. DÉISME, classificação, t. iv, col. 232 sq. ; Lamennais, op. cit., t. I, c. i; W. G. Ward, Essays on philosophy of theism.

2. Necessidade da religião: é a tese a explicar a esse primeiro partido de indiferentes; encontrá-la-á exposta em todos os manuais de apologética, de ética natural, de teologia fundamental, cursos de religião. Além disso Fr. Hettinger, Apologie, t. i; A. -M. Weiss, Apologie, t. i, v, vi; Caussette, Le bon sens de la foi, t. i; Ollé-Laprune, Le prix de la vie, 4e édit., Paris, 1897; Mgr Bougaud, Le christianisme et les temps présents, t. i; Gondal, Religion, 2e édit., Paris, 1894.

a) Considerações a priori. — Para a existência de Deus, ver Deus, t. iv, ateísmo, indiferença, história do conhecimento de Deus, col. 759-874, assim como para as provas de sua existência. Mas admitida a existência de Deus, como não ver que é um absurdo e uma monstruosidade recusar todo reconhecimento às suas imensas bondades, toda homenagem à sua infinita majestade, toda complacência, glorificação e afeição enfim à sua suprema amabilidade, mais ainda, o amor primeiro de nossos corações àquele que, sendo o Ser eterno, infinito, nosso Todo-Princípio, é necessariamente também nosso último e supremo fim, nossa única bem-aventurança, ver Bem-aventurança, t. II, col. 510 sq., o amor supremo para a glória de quem tudo existe. Ver Fim último, t. v, col. 2478 sq.

E que dizer do Deus pai da ordem sobrenatural histórica, para com quem toda a religião deve tomar um caráter de amizade íntima? de piedade filial e de amor de caridade? Ou as objeções dos deístas? Vejamos. Dizem eles: tudo isso, antropomorfismo! Deus assemelha-se assim a um rei terreno poderoso e rico ou a um pai de família humana, mas já não é o Deus infinito infinitamente acima das pequenas criaturas humanas, infinitamente incompreensível para os nossos pequenos cérebros e inacessível às nossas pequenas liberdades, que aliás são liberdades, causas que fazem o que querem. Em poucas palavras respondamos: as liberdades criadas são faculdades, não de fazer o que querem, mas o bem — e na ordem de que Deus é evidentemente o bem supremo, o supremo amor — segundo as leis essenciais dessa ordem ou as leis que possa agradar a Deus estabelecer ali positivamente, e isso com as sanções definitivas sem as quais não há ordem moral.

Em seguida, em nossos cérebros há inteligências espirituais, para as quais Deus não é incompreensível como um hieróglifo sem chave, mas como a verdade infinita que não podemos compreender totalmente, no modo íntimo e no fundo infinito de sua natureza, mas que podemos conhecer verdadeiramente como ela é, em suas diversas perfeições de existência, de causa primeira, de eterno, de subsistência essencial e pura, de ciência total, de santidade absoluta, de poder infinito, etc., tudo isso em analogias e semelhanças, mas formalmente verdadeiras, pois a inteligência é a faculdade do ser e assim, de uma ou outra maneira, de todo ser, do próprio infinito. Ver Deus, t. IV, col. 707 sq. ; Agnosticismo, t. i, col. 596 sq.; Analogia, t. I, col. 114 sq. Deus, enfim, está infinitamente longe de nós e nada tem a fazer com os pequenos gestos desses pequenos efêmeros do planeta terrestre. Digamos: efêmeros no planeta, mas imortais, porque espirituais, em outra vida, e então tudo muda e nossos gestos tomam logo proporções imensas.

E depois, não se trata do que Deus necessita, mas do que nós necessitamos e do que Deus tem direito: é preciso glorificar a Deus e amá-lo, e reparar nossas ofensas se o infortúnio de cometê-las contra ele nos sobreviesse algum dia, eis a nossa suprema necessidade, o nosso primeiro dever, o infinito direito divino; Deus não necessita criar, mas se nos cria, é impossível que não queira que o bem seja amado, a bondade benfazeja agradecida, a majestade infinita adorada por toda criatura que a conhece, etc., e que possa tolerar que essa pequena criatura o despreze como se não existisse ou como se nada tivesse a fazer com ele.

b) Considerações psicológicas. — O espírito, a vontade, o coração do homem têm necessidade da religião, que não pode, portanto, permanecer-lhe indiferente sem violentar toda a sua natureza superior.

a. O espírito humano busca a verdade, a ciência, sempre mais completas e mais profundas. História, experiência, análise psicológica demonstram que a inteligência é uma faculdade de infinito e de fundo último das coisas, de todas as coisas. Nada, portanto, poderá satisfazê-la senão o conhecimento, a ciência, a contemplação da verdade primeira subsistente, única explicação total de tudo o que é de Deus: é o primeiro elemento da religião. Há aliás numerosos problemas particulares, que atormentam sempre a alma humana, que só têm explicação qualquer em Deus imediatamente: origens da humanidade, vida futura, pecado, dor, sanções integrais, história religiosa da humanidade tal como de fato se desenrolou. Para resolver tudo isso, pode-se recorrer ao diletantismo? É uma atitude superficial de alguns literatos pouco sinceros: a vida é coisa séria. Ao pessimismo? É um suicídio intelectual, por demais contrário à confiança universal inextirpável na vida e na razão humana. À ciência natural? Ela fez seguramente bancarrota em suas pretensões de atacar esses problemas. À filosofia racional sozinha? É um fato histórico por demais evidente que esta, ou só faz colocar questões à porta do mistério inacessível, ou só traça sobre essa porta vagas palavras confusas e contraditórias. A religião, ao contrário, todas as principais religiões têm soluções precisas sobre todos esses problemas do espírito humano: impossível não se ocupar de religião.

b. Como o espírito, a vontade tem necessidade de religião. É, com efeito, a força que, em nós, impele ao bem, ao bem moral, ao bem na ordem perfeita e integral, para agora e para sempre. Ora, como encontrar fora de Deus o fundamento último, ou o motivo absoluto, ou o fim último dessa ordem moral perfeita, obrigatória para a nossa vontade, e a regra imprescritível da via que conduz a esse fim, e os socorros de que a nossa miséria presente, por demais evidente, necessita para caminhar sem cair, ou ao menos sem ficar esmagada nos sulcos, nessa via? O todo da ordem moral, aquilo sem o que nada se sustenta da obrigação verdadeira como da ciência dos costumes, é o bem absoluto, o legislador primeiro absoluto, a suprema bondade, justiça e providência, enfim o supremo amável, o supremo amor a quem devem pertencer todos os corações ou vontades livres. Deus.

Aqui ainda, a que expediente recorrer, se se põe Deus de lado? Utilitarismo individual ou social? Coisa por demais relativa, hipotética e mesquinha. Ditame da consciência pessoal? Só se pode mandar em si mesmo por modo de dizer e, na realidade, se sou o meu único legislador, é a anarquia. Sentimentalismo da honra, da honestidade? É coisa por demais hipotética, restrita e frágil, que ainda crê na bondade pura da natureza como Rousseau. Culto da boa consciência a satisfazer para gozar de suas aprovações profundas? É de novo por demais relativo, hipotético, frágil e quase sempre fraco. Resta ainda o temor do guarda e das diversas sanções humanas, mas isso é uma moral de bestas que se devoram à porfia, segundo a sua força e a sua habilidade. Enfim há a solidariedade que a ciência porá sempre mais em relevo: é a última palavra dos nossos moralistas modernos irreligiosos; mas que é isso contra as paixões, contra a lógica da independência pessoal, contra a política do mais forte.

Pode-se, contudo, objetar ainda: quantas pessoas honestas, de fato, sem religião! Esta não é, portanto, necessária à honestidade e à moral. É um fato, dizeis; será mesmo seguro? Que pensar desse outro fato, certo este, da imoralidade crescendo sempre e até proporções abomináveis nas sociedades que perdem a religião: Grécia, Roma, Estados modernos? Sem religião, há honestidade para certas virtudes sociais, sobretudo exteriores: lealdade, justiça, dedicação, mas as vidas privadas são tão honestas assim fora da religião, e não basta aqui aludir à queda assustadora da natalidade em toda parte onde a religião se vai? Esses «honestos», aliás, não são «parasitas» da sociedade religiosa na qual historicamente cresceram, formados por sua influência difusa em toda essa civilização que ela moldou? Cf. Balfour, The foundations of belief, Londres, 1895, p. 82-83.

Uma sociedade logicamente ateia, com efeito, não poderia senão destruir-se a si mesma, terminando «naturalmente por uma epidemia de suicídio anestésico.» Le Dantec, L'athéisme, Paris, 1906, p. 95, 113. Ver especialmente de Broglie, La morale sans Dieu, Paris, 1886; J.-F. Fox, Religion and Morality, New York, 1899; P. Gillet, Devoir et conscience; Fondement intellectuel de la morale; Paris, 1910; E. Faguet, La démission de la morale; A. Eymieu, La loi de la vie, Paris, 1921, l. IV et V.

c. Enfim, o coração humano tem tanto quanto o nosso espírito e a nossa vontade necessidade da religião; o coração, isto é, essa faculdade sensitivo-espiritual complexa, formada do apetite sensitivo e da vontade considerados em seu lado passivo, pelo qual são atraídos ao seu objeto para nele comprazer-se ou amá-lo. O coração busca a felicidade, estável e perfeita, e isso por um desejo que sai de suas entranhas mais íntimas. Ora, nada neste mundo lhe pode dar tal felicidade, nem bens exteriores: voluptuosidades ou riquezas — honras ou glórias ou poderes e domínios — amizades ou amores mesmo os mais intensos: não, o coração nisso sofre e permanece, apesar de tudo, demasiado vazio e nisso se perde depressa demais; aliás, quantos podem encher desses vinhos a sua taça, ainda que pequena. Nem bens interiores da alma puramente humanos: ciências, artes, literatura, virtudes naturais em trabalho de mística natural, mesmo perseguida com ardor: não, a alma nisso é preenchida de modo demasiado superficial, os desejos excitados ficam nisso demasiado insaciados, a miséria humana nisso arrasta demasiado por toda parte a sua bola de ferro, e as vias de aperfeiçoamento moral, em que se entra com a sua só pequena lâmpada individual e as suas só provisões pessoais, são demasiado tenebrosas e árduas. Aliás, tudo isso, aristocracia inacessível à pobre multidão humana que, no entanto, também ela tem direito à felicidade, pois é humana. E depois há as provações, as penas, as angústias, os desgostos, as dores sem número da nossa vida terrena: onde encontrar a consolação, a paciência, a força, a força de viver apesar de tudo na privação de tudo o que fazia a alegria humana de viver? Somente na religião: fato de experiência, da experiência mais doce para aqueles que a viveram, de uma experiência desejada, lamentada, invejada por muitos outros quando falaram sinceramente.

Ver S. Augustin, Confessions, l. I, c. i; W. James, L'expérience religieuse, trad. F. Abauzit, 2e édit., Paris, 1908, c. viii-xii, et surtout conclusion, p. 405 sq., « l'utilité de la vie religieuse »; Mgr Baunard, Le doute et ses victimes, 2 vol.; M. Serol, Le besoin et le devoir religieux, Paris, 1908; Mgr Bougaud, Le christianisme et les temps présents, t. i; A. Nicolas, L'art de croire, t. i; Expérience religieuse, t. v, col. 1847.

c) Considerações históricas. — O homem sempre foi «um animal religioso», de Quatrefages, L'espèce humaine, c. xxxv; as exceções a essa definição sempre foram mínimas diante dos bilhões de almas humanas cuja vida foi em seu fundo sobretudo uma vida religiosa. Basta compulsar a esse respeito os trabalhos acumulados desde alguns anos sobre a etnologia religiosa, não falo dos panfletos como L'Orpheus de S. Reinach. Ver Huby, Christus, manuel de l'histoire des religions, 2e édit., Paris, 1920; Bricout, Où en est l'histoire des religions, 2 vol. in-8°, Paris, 1911; Th. Mainage, La religion de l'homme primitif, Paris, 1921 ; De Broglie, Problèmes et conclusions de l'histoire des religions, 4e édit., s. d. ; F. Nicolaij, Histoire des croyances, t. i, c. i-v.

Nossos indiferentes objetarão sem dúvida que a humanidade precisamente evolui e que a religião se vai cada vez mais com o progresso. Mas dizer, primeiro, que a religião é uma atitude de ignorantes no passado ou no presente é uma afirmação tão anticlericalmente primária ou tão cegamente sectária que basta remetê-la a alguma leitura mais imparcial, por exemplo, E. Naville, La physique moderne, Paris, 1890; J. Guibert, Le mouvement chrétien, Paris, 1902, 2e conférence; Th. Ortolan, Savants et chrétiens, Paris, 1898; A. Eymieu, La part des croyants dans les progrès de la science. Paris, 1919 ; L'ami du clergé, 1909, p. 209-219, 305-314, 421-428, 513-517; 1910, p. 835- 841, d'après l'ouvrage de Kneller, Das Christentum und die Vertreter der neueren Naturwissenschaft, 2e édit., Fribourg-en-Brisgau, 1904.

Quanto à lei do progresso que faria marchar a humanidade rumo ao ateísmo e à irreligião, os fatos lhe dão um belo desmentido, as jovens gerações intelectuais vão cada vez mais à religião: é um fato patente, os inquéritos da Revue des jeunes en France, 1920, 1921; as estatísticas da Documentation catholique ou do l'Inter-university magazine catholique de Cambridge, com as informações sobre o trabalho de organização católica atual, e depois as estatísticas gerais de Krose-Arens, Handbuch der katholischen Missionen, 2e édit. Fribourg-en-Brisgau, 1920, a comparar com a primeira; Baudrillart, La vie catholique dans la France contemporaine, Paris, 1918; L. Rouzic, Le renouveau catholique, 1914, t. i; 1919, t. ii; Mainage, Les témoins du renouveau catholique, Paris, 1919.

No progresso, há, pois, o lado material e o lado espiritual; o primeiro avança sempre: é incontestável; quanto ao segundo, progresso intelectual, artístico, moral, que resplandece em artistas, gênios e santos: é bem diferente; em todo caso a elite humana de todos os tempos em verdadeiro gênio, verdadeiro talento, verdadeira grandeza moral, foi quase sempre religiosa, e profundamente religiosa.

2° Indiferentismo religioso, mas naturalista. — Querer Deus, mas nenhuma religião é paradoxal demais; os deístas, com Deus, admitem pois em geral uma religião, mas a só religião natural, aquela que a razão basta para ditar, aquela que todas as religiões positivas apenas traduzem deformando-a mais ou menos, excluindo portanto toda concepção grosseira, antropomórfica, de revelação, de milagre, de encarnação. Ver Deísmo, t. iv, col. 234-242. A esses amantes exclusivos da razão e da natureza digamos: 1. que a razão e a natureza não são senão abstrações que não existem em parte alguma. Há homens que em toda parte, sempre, em todas as religiões, apelaram ao sobrenatural. Seria ele, então, tão universalmente crido, se fosse tão absurdo, ou mesmo se não tivesse nenhum fundamento na história humana? Superfetações imaginativas, dizeis, poesia de que se tenta revestir a austera e simples verdade, exploradas aliás pelos terrores, as ignorâncias, as ambições, as castas sacerdotais ou principescas. Mas tudo isso é embuste de palavras de que pode contentar-se o pequeno salão fechado do pequeno clã aristocrático dos deístas; os fatos são bem mais profundos e as afirmações bem mais sérias; e a história primitiva, a história pagã, a judaica, a cristã têm evidentemente outro alcance, e não poderiam contentar-se com esse olhar desdenhoso.

2. Abstração ainda que a razão e a natureza retas, bastando-se para descobrir e praticar a religião perfeita. Jules Simon julgou concretizá-las... em si mesmo; mas suas deduções estão compenetradas em três quartos pelas luzes cristãs.

a) Percorra-se a história da humanidade, ver-se-á nela, brilhante, a necessidade profunda do sobrenatural, nos fatos e nas confissões, para o espírito e para o coração dos homens, e isso mesmo na vida de consciência moral e religiosa naturais. Ver Graça, t. vi, col. 1572-1590; Revelação. Sem o auxílio sobrenatural de Deus, é um fato, é impossível ao homem individual praticar todo o seu dever religioso e moral natural e é moralmente impossível ao conjunto dos homens conhecer com toda a certeza, sem mistura de erros, com a facilidade prática necessária, o conjunto mesmo das verdades religiosas e morais de ordem natural. A religião natural não é, pois, senão uma imaginação de gabinete filosófico, não a vida concreta dos povos humanos. Ver acima as referências sobre a história das religiões.

b) Psicologicamente isso se compreende. Ver Balfour, Les bases de la croyance, Paris, 1897; Brunetière, Discours de combat, I. Le besoin de croire, Paris, 1900; Ollé-Laprune, Raison et rationalisme; A. Nicolas, L'art de croire, 2 vol.; F. Hettinger, Apologie, t. i, introd. ; F. Lamennais, Essai sur l'indifférence, t. i, c. iv-v; S. Thomas, Cont. gentes, l. I, c. iv: a pobre multidão humana não tem nem o tempo, nem a inteligência, nem a coragem de fazer filosofia transcendente. Ela não pode, por outro lado, confiar nos sábios filósofos que quisessem diante dela representar a razão com autoridade: essa mesma autoridade lhes faltando demais por causa da sua falta de ciência e de seus erros variados mas inumeráveis, de sua falta de convicção, de sua falta de valor moral, de sua falta de zelo, enfim para ensinar: pobre sacerdócio se a humanidade não tivesse tido senão o dos filósofos. De fato, onde se encontraram esses sábios capazes de descobrir por si mesmos toda a substancial verdade e de fazê-la brilhar aos olhos de seu povo? Em parte alguma: é um fato esmagador. Cf. A. Tanquerey, Synopsis theologiæ dogmaticæ fundamentalis, 13e édit., 1909, p. 119-125, e os outros manuais sobre a tese da necessidade da revelação.

3. Mas a ideia de um Deus que fala ao homem não é uma ideia pueril, contraditória, antropomórfica?

a) Os deístas e todos os racionalistas, até os modernistas inclusive, o disseram; mas é a concepção que fazem da revelação que é grosseira. Deus não tem língua para falar (!), mas o poder que cria a inteligência pode muito bem criar as ideias nesta com a luz sobre a sua origem, ou mesmo servir-se de símbolos sensíveis que o milagre autenticará. — O cérebro humano, insiste-se, não pode receber ideias divinas; mas o cérebro humano «contém», à diferença do bruto, uma inteligência espiritual; negá-lo não é senão grosseiro materialismo ou sensualismo ou fenomenismo. Ora, vimos que a inteligência é apta às ideias das coisas divinas como de todas as coisas; ideias de nossos deveres, de nossas origens, de nossos destinos, de nossa natureza, dos dons divinos, etc. Ver Deus, t. iv, col. 767 sq., verdadeira ideia de Deus antissubjetivista; col. 792 sq., 817, antiagnóstica, antimodernista; Agnosticismo, t. i, col. 600 sq.; Analogia, t. I, col. 1146 sq., G. Michelet, Dieu et l'agnosticisme contemporain, Paris, 1909; Gardeil, Le donné révélé et la théologie, Paris, 1920, e os recentes manuais ou tratados de filosofia e de apologética.

b) Os antigos deístas diziam de modo rudimentar que a revelação repugnava à majestade infinita, como à nossa liberdade. Deus cria, estabelece suas leis e deve retirar-se em sua inacessível luz, deixando as pequenas criaturas à sua evolução fixada de uma vez por todas ou às suas liberdades absolutamente autônomas. Eis concepções pueris e antropomórficas, como dizia J.-J. Rousseau num dia de lucidez. Não, Deus não tem de permanecer no fundo do infinito para não ter ar de se corrigir ou para não nos violentar: ele tudo previu e decretou num só ato eterno, e a natureza e a graça, e as leis e os milagres, e as permissões de decadências e os perdões e os auxílios misericordiosos às pequenas criaturas para reconduzi-las a ele no céu eterno. Ele é o Deus de tudo: como faria violência a o que quer que seja por qualquer vontade que seja? Ele é a sabedoria infinita e o poder transcendente: como o seu auxílio primeiro não se conformaria aos rouages criados de nossa liberdade? — E depois ele é bom, é amor infinito: eis o que explica tudo e o primeiro mistério que é preciso crer, mas o primeiro mistério que ofusca os orgulhos racionalistas. Deus revela isso aos pequenos, Lucas, X, 21; e os pequenos, as massas humanas, sempre creram facilmente na bondade paternal de um Deus sobrenatural.

4. É preciso aqui concluir pela obrigação, para toda alma sincera, de buscar a verdadeira religião e, de fato, uma religião sobrenatural enquanto não se a tiver encontrado. Cf. Mazzella, De religione et Ecclesia, n. 53-74; cardeal Pie, Instruction synodale, 7 juillet 1855, II part.; Wilmers, De vera religione, n. 108-112; Ottiger, Theologia fundamentalis, t. i, p. 287-314; A. Tanquerey, op. cit., p. 128-132.

a) O homem não encontra em si mesmo, individual ou coletivamente, tudo aquilo de que necessita para viver uma vida moral e religiosa completa: primeira constatação, posta em luz mais impressionante pelos escritos e discussões sobre «a apologética da imanência», por exemplo, Blondel, L'action, Paris, 1893; de Poulpiquet, L'objet intégral de l'apologétique, Paris, 1912. Que socorros esperar de Deus? A priori não se pode decidir. Pode-se apenas dizer que a revelação pública de uma religião de forma social seria um meio excelente. Mas diante da história, já não há que hesitar: os iluminismos individuais e coletivos, ou inspirações diretas pelo Espírito de Deus, nunca foram senão aberrações mentais por demais evidentes e aliás muito restritas. De fato, é de fora que os homens esperaram sua salvação religiosa, de religiões e de revelações sobrenaturais públicas. Enfim, que cada um interrogue lealmente a sua própria consciência; encontrará nela, sim, a miséria, mas não a redenção, que não está ali. Resta o grave dever, gravíssimo, dever muitas vezes clamado intimamente pela consciência, em grito angustiado, diante do desconhecido do imenso destino que avança, de buscar Deus fora — e também de rogar-lhe: pois o meio mais eficaz para um indigente obter socorro, sobretudo quando foi primeiro orgulhoso, é reconhecer humildemente, enfim, a sua miséria, ou confessá-la, e estender a mão ou o coração para receber da bondade.

Não objeteis, último subterfúgio, que se há religião sobrenatural, sendo esta por definição um dom gratuito, ela não pode impor-se: somos sempre livres diante de um dom. Eis, com efeito, ainda antropomorfismo. Quando é Deus quem dá, não pode ele escolher a maneira de dar como o próprio dom: ele é o senhor infinito absoluto. Dá a existência ao nada e impõe o dever de viver eternamente, dá a dignidade de filho de Deus a essas criaturas tiradas do nada, e estas já não podem viver de outro modo senão como filhos de Deus. Nossa natureza humana é fraca, entenebrecida, débil: ele a socorre pela instituição de uma religião revelada, fora dela não há mais salvação. Tudo isso para a sua maior glória e a nossa maior bem-aventurança eterna.

b) É preciso buscar; quando se terá encontrado? Deve-se contentar com vagas probabilidades ou mesmo escolher como por sorte apostando no partido mais seguro? Cf. Pascal, Pensées, n. 233. Não, em coisas tão graves, o homem tem direito de esperar a luz e Deus não impõe tais responsabilidades senão iluminando como convém as nossas consciências razoáveis. Ver Credibilidade, t. III, col. 2213-2215; Crença, t. iii, col. 2380-2388; Fé, t. VI, col. 200-217 e 174-183 (fideísmo), 191-205 (semifideísmo). Por outro lado, o indiferente deve exigir certezas matemáticas antes de se render? Seria tão irrazoável quanto não buscar nenhuma certeza. É preciso, portanto, chegar a essa certeza que convence do fato, sem dar a luz que dissipa todas as trevas que podem cercá-lo, certeza que deve bastar a uma alma reta e sobre a qual a inteligência repousa por causa de argumentos verdadeiramente demonstrativos em si mesmos. Ver nos mesmos artigos a doutrina e as referências.

3° Indiferentismo religioso sobrenatural. — O indiferente recua aqui para um novo reduto. — 1.

É preciso uma religião sobrenatural; mas, apresentando-se todas as religiões históricas como sobrenaturais, não podem todas ser consideradas boas, de bondade mais ou menos relativa, para os seus tempos, os seus países, os seus fiéis — boas como as formas acidentais de uma mesma religião substancialmente idêntica? Eis as razões:

a) Os argumentos, como as pretensões de todas as religiões, como a sua história na realidade, assemelham-se consideravelmente. Ver sobre a história comparada das religiões, J. Bricout, op. cit., t. I, p. 29 sq. ; H. Pinard, Quelques précisions sur la méthode comparative, dans Anthropos, 1910. — b) A bondade de Deus não saberia compreender-se com o exclusivismo de um monopólio restrito e a condenação de todo o resto da massa humana. — c) Aliás, a pura verdade, a pura moral não se encontram em parte alguma; por toda parte erros, taras diversas; o que denota obras humanas, construídas sobre um fundo substancial verdadeiro, o único que importa. — d) Enfim, a liberdade de consciência acarreta essa indiferença ao menos subjetiva de todas as formas religiosas.

Eis as nossas respostas em duas palavras:

a) Afirmar não faz título; comparação não é razão, sobretudo quando é tão superficial. Como manter, depois de um pouco de reflexão e de pesquisas sérias, a equivalência das pretensões, dos argumentos, da história das religiões pagãs e das religiões monoteístas? Do monoteísmo muçulmano e do cristianismo? — b) A bondade de Deus exige precisamente que, entre todos esses erros nascidos do pecado e da fraqueza humana, haja uma verdadeira religião para a qual toda alma de boa vontade, aspirando à pura luz, possa ser dirigida, dirigida pelos vestígios divinamente conservados em todas as falsas religiões, dirigida pelo trabalho interior da graça e das aspirações da consciência, e sobretudo pelos providenciais encontros com a própria verdadeira religião; ver acima as vias da conversão. Quanto às multidões para as quais tudo isso parece ter sido impossível, ver Infiéis (Salvação dos); Igreja, t. IV, col. 2155-2174; Fé, t. vi, col. 200-205; Graça, t. VI, col. 1598-1604.

— c) Taras por toda parte, diz-se; distingamos: nos fiéis de todas as religiões, sim; mas isso em graus bem diversos. Aqui ainda, como olhar com o mesmo olho indiferente a moral fetichista, ou a moral pagã, ou a moral muçulmana, e a moral cristã; digo moral e moralidade. Isso quanto aos indivíduos religiosos. Mas tomando as religiões em si mesmas, dizeis que todas têm taras, isso não está provado de modo algum. Mostrar as taras de todas as religiões não cristãs não é difícil; provar que as há no cristianismo, ainda não se o fez. E não quero por sinal convincente senão o secular encarniçamento de todos os seus inimigos em encontrar novas objeções, sendo as da véspera cada vez classificadas como sem valor. Para as religiões não cristãs, houve golpes de luz sobre elas dos quais nunca se reergueram, e dos quais não se reerguem cada vez que têm de sofrê-los: nenhuma resiste ao espírito crítico introduzido entre os seus fiéis. Contra o cristianismo, ainda nada se encontrou que faça a unanimidade doravante assegurada de todos os racionalistas e que, para os espíritos mais sábios e mais críticos, não tenha encontrado uma refutação plenamente pacificante. Sobre as variações racionalistas, ver Deísmo, t. iv, col. 234-242; Deus, col. 759-881, 912-918; Vigouroux, Les Livres saints et la critique rationaliste, t. II.

— d) Se o bem e o verdadeiro não são senão instintos materialistas ou fenômenos subjetivos, em evolução aliás pouco compatível com a liberdade, então sim, tudo é verdadeiro e tudo é bom segundo a simples conveniência às consciências subjetivas. Mas fora dessas filosofias antihumanas, é um absurdo dizer que todas as religiões se equivalem, mesmo para as consciências individuais, tratar de loucos os missionários que querem «converter» os pobres degradados. Toda religião é boa, diz-se, para a consciência que a crê boa; é preciso distinguir com cuidado este aforismo: boa de bondade objetiva, absoluta: não necessariamente; boa de bondade subjetiva, relativa: em certo grau sim; mas esse grau será suficiente (religião que pode ser guardada e salvar a alma) se esta contém a substância da verdadeira religião sobrenatural e se a consciência está disposta a abraçar a religião integralmente verdadeira logo que tiver os meios; no caso contrário de insuficiência substancial, a consciência só poderá satisfazer-se nela por algum tempo; um dia ou outro, se faz o que deve, o céu a ajudará e ela chegará enfim à verdade ao menos substancialmente necessária.

e) Resta-nos fazer ainda uma última consideração positiva.

Deixemos o materialismo, que põe religião, e muito elevada, nas abelhas para tirar todo o valor daquela que está no homem, ver Le Dantec, L'athéisme, passim; deixemos o subjetivismo que arruína toda razão para melhor arruinar toda fé obrigatória heterônoma, ver Agnosticismo; é claro que Deus não pode ser indiferente ao verdadeiro e ao falso, à virtude e ao vício, indiferente a ser tratado de Júpiter com Juno e o resto como corte, de Ahura-Mazda com Arimã diante de si, de deus totem, de Buda, de Vishnu, ou de Deus santíssimo; não pode ser indiferente a ser honrado por um culto de fetiches, o culto dos vergonhosos mistérios greco-romanos, o dos sacrifícios humanos antropófagos, das procissões hindus, dos pagodes chineses ou dos templos teosofistas, etc. É impossível, enfim, admitir a verdade dos contraditórios afirmados pelas diversas religiões do globo terrestre, sobre Deus e a sua natureza, e os seus atributos e as suas obras, e a sua influência sobre o mundo e as suas leis essenciais e as finalidades impostas à humanidade; impossível admitir a igualdade moral de Baal ou Belial e de Javé ou do Cristo. Ver as belas considerações de Lamennais, op. cit., c. iv-v; Weiss, op. cit., t. i, p. 411-432; Caussette, op. cit., t. i, p. 231-262. Todas as religiões existentes não são verdadeiras, e todas não são falsas; há, portanto, uma e uma só de verdadeira, de absolutamente verdadeira, tendo as outras apenas degradações e parcelas de verdade e de bem em diversos graus.

2. Como encontrar essa única verdadeira religião concreta?

a) É preciso primeiro preparar a sua alma para recebê-la pelo conjunto dessas disposições morais que afastam os obstáculos e abrem o espírito e o coração à verdade que serão felizes em reconhecer enfim e abraçar. Essas disposições morais não têm outro papel a desempenhar, papel, contudo, na prática, capital e o mais das vezes decisivo. Ver Graça, t. vi, col. 1630 sq. ; Fé, t. vi, col. 237-sq. ; Experiência religiosa, t. V, col. 1847 sq.

b) E depois é preciso estudar a verdadeira religião; estudo que tem todas as modalidades dos espíritos que buscam onde Deus se dá às almas. Há o estudo do filósofo que parte do materialismo ou do positivismo (por exemplo, Brunetière), do espírito ansioso que chega através do subjetivismo e do criticismo (por exemplo, Miss Baker), o do revoltado que sobe do niilismo (por exemplo, A. Hetté) e o do espírito sem cultura que deve sacudir, com o jugo de suas paixões, o véu de preconceitos grosseiros ou mesmo de alguma falsa religião, selvagem ou civilizada, o estudo do esquimó que observa o missionário e o escuta durante anos em seus iglus de gelo, e o estudo do cafre que pensa indolentemente perto de seu kraal. Há o estudo do artista que alguma secreta beleza superior atrai, a beleza que satisfaria a alma, ali, nessa religião e não alhures. Ver Th. Mainage, La psychologie de la conversion, Paris, 1914, iie leçon, p. 38-81 (l'enquête intellectuelle des convertis).

c) Enfim é preciso rezar, mais do que nunca, para obter a última decisão que dobra a vontade orgulhosamente independente, ou o coração cativo, ou o espírito embriagado de sua própria luz, enfim que cativa a alma in obsequium Christi. II Cor., x, 5. Cf. Experiência religiosa, t. V, col. 1814 Sq., 1825-1826.

3. Qual é essa única verdadeira religião? — O cristianismo, evidentemente; sua transcendência acima de todas as outras religiões brilha luminosa a quem quer que as olhe com atenção. Essa transcendência pode ser considerada na força crítica das provas históricas ou na excelência intrínseca única do cristianismo. Todas as grandes religiões apresentam títulos a uma origem divina, sobrenatural. Mas que valem os títulos que dizem respeito à missão divina de Buda, de Zoroastro, de Confúcio, de Mani, de Apolônio de Tiana ou de Maomé, em comparação sobretudo com os que dizem respeito a Jesus Cristo? ver Jesus Cristo; as apologéticas modernas, por exemplo, Tanquerey, op. cit., p. 192- 260; L. Picard, La transcendance de Jésus-Christ, 2 vol., Paris, 1905; as referências acima sobre a história das religiões; os conferencistas apologistas: Lacordaire, Freppel, Monsabré.

Todas as grandes religiões se apresentam como a via perfeita para o fim supremo. Mas, aqui ainda, que valeram ou que valem, como dogmática, como moral, como instituições, como beneficência e poder de ação através dos séculos e dos espaços, todas as religiões pagãs, mortas ou vivas, sem excetuar o budismo filosófico ou popular? que vale o maometismo? que vale o judaísmo rabínico ou místico-materialista atual? Entre as almas de elite em marcha rumo ao ideal religioso e moral, quem jamais pensou em «converter-se» a essas religiões, ao menos depois de ter conhecido o cristianismo? Em comparação, com efeito, com essas pobres criações humano-diabólicas, onde o divino, contudo, não está todo destruído, que esplendor em tudo o que constitui o cristianismo! Ver Jesus Cristo; Apologética, t. i, col. 1527 sq. ; Religião; de Broglie. Problèmes et conclusions de l'histoire des religions. c. viii-xi; Lacordaire, Conférences, xiv-xxxvii; Monsabré, Carême, 1890; os manuais como Tanquerey, op. cit., p. 144-162 e 319-332; Experiência religiosa, t. v, col. 1856-1861; Caussette, op. cit., t. i, p. 202-519.

4° Indiferentismo cristão. — ■ O cristianismo impõe-se a quem quer estar na verdadeira religião. Mas qual cristianismo? Há, com efeito, vários. É preciso escolher, ou ao menos aqui permanecer livremente indiferente quanto a escolher?

1. Há o cristianismo oriental greco-russo multinacional, o protestantismo multiforme e o catolicismo intransigente em sua universal unidade. Todos têm seguramente la substance da pura, perfeita, sublime religião do Cristo. Por que então não admitir a sua equivalência, admitir a Ecclesia tripartita, fazer a «união das Igrejas» de fundo idêntico, de formas humanamente diversificadas, de caridade igual? A Igreja estabelecida da Inglaterra e dos Domínios afaga esse sonho com uma febre crescente. Mas Constantinopla rejeita o liberalismo ou indiferentismo dogmático, hierárquico, sacramentário, tradicionalista que os anglicanos unionistas adotariam, não, sem dúvida, para unir as seitas dissidentes, que são numerosas na Inglaterra, mas ao menos os partidos da Igreja estabelecida; que deveriam a fortiori propor se quisessem agrupar todas as seitas protestantes da Inglaterra, da Alemanha, da Suíça e dos Estados Unidos da América. Cf. J. Calvet : Le Problème catholique de l'Union des Églises, Paris, 1921, p. 47 à 58.

Roma, se fosse oficialmente solicitada à união das Igrejas cristãs, poderia seguramente fazer algumas concessões de ordem disciplinar, mas não poderia ceder em nada sobre todo o dogma e toda a moral e toda a instituição eclesiástica, nem mais no século XX do que no XVI, no XI, no IV, no II, no I. Contradição irredutível: não há, portanto, três cristianismos verdadeiros, mas um só. Não é isso o que o Cristo quis fazer: uma obra divina, pois é Deus, uma obra divinamente preservada das aberrações do espírito humano? Não fundou ele uma Igreja una em sua doutrina e sua constituição, uma Igreja infalível, que não pode transigir sobre um único ponto de seu ensinamento divino, nem admitir nenhum compromisso doutrinal? Ora, a Igreja fundada pelo Cristo não é o protestantismo, que não guardou o depósito do Verbo encarnado. Lutero, Calvino, Henrique VIII, Wesley, para falar só dos criadores das principais seitas protestantes, alteraram o dogma, a moral, as instituições de Jesus Cristo. Cf. A. Baudrillart, L'Église catholique, la renaissance, le protestantisme, 10° édit., Paris, 1908; Calvino, t. III, col. 1319 sq., 1395 sq., 1418 sq., Henrique VIII, t. vi, col. 2183 sq., Lutero, Wesley.

Foi abandonando pouco a pouco o aprisco do pastor apostólico e divino que o cisma grego constituiu o seu, por ambição de autonomia e de domínio. Com efeito, a autonomia tornou-se para ele nacionalismo autocéfalo, fechado e morto, contrapé da obra viva do Salvador universal. Ver Fócio. O catolicismo, ao contrário, por continuidade viva ininterrupta, remonta autenticamente, sem variações, ao século XVI, ao IX, ao IV, ao II, ao I. Ver P. Battifol, L'Église naissante et le catholicisme, 2e édit., Paris, 1919; Apostolicidade, t. i, col. 1618 sq., IGREJA, t. IV, col. 2128-2132. No século I, não é dos apóstolos que a Igreja nasceu, é de Jesus Cristo mesmo, ver Igreja, t. IV, col. 2114-2128.

Se o protestantismo tivesse tido a chance de ser o verdadeiro cristianismo, o indiferentismo teria uma última questão a colocar: a dos dogmas fundamentais e dos dogmas indiferentes, da adiaphora como se disse na Alemanha. Ver Latitudinarismo. Concluamos que, sendo impossível, para um espírito lógico e para um coração reto, todo compromisso entre a verdade e o erro, o bem e o mal, e não se encontrando indubitavelmente a verdade religiosa integral senão na Igreja católica, diante desta não há indiferença permitida. A alma humana, aliás, não podendo permanecer verdadeiramente neutra nessas questões que comprometem o fundo de toda vida religiosa, tampouco há indiferença possível para um homem religioso. Deve, portanto, escolher ou por Deus ou contra Deus, a favor ou contra o Deus da Igreja católica.

P. RICHARD.

Autor original: P. Richard

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