INDEPENDENTES

INDEPENDENTES

INDEPENDENTES. Esse nome foi dado, na Inglaterra, por volta de 1640, a grupos puritanos que professavam, sobre a constituição e a organização da Igreja, ideias opostas ao mesmo tempo às dos partidários da Igreja estabelecida e às dos presbiterianos. Geralmente, os historiadores vinculam esse movimento de ideias a certos espíritos avançados, em particular Robert Browne e Henry Barrowe, que julgavam a Igreja estabelecida incompatível com uma verdadeira reforma. Eram, em medidas diversas, separatistas. Tal é ainda a opinião do Sr. Dexter e do Sr. Williston Walker, os historiadores oficiais desse movimento, que teria dado origem ao congregacionalismo moderno. Diferente é a conclusão a que chegam as pesquisas mais recentes do Sr. Champlin Burrage, The early english Dissenters, Cambridge, 1912, e do Sr. W. H. Burgess, John Robinson, pastor of the Pilgrim Fathers, Londres, 1920. "Torna-se cada vez mais evidente, escreve o Sr. Burrage, que os primeiros Independentes ou primeiros congregacionalistas eram simplesmente puritanos de um tipo particular, e não separatistas da Igreja da Inglaterra, e que, por conseguinte, os independentes não tomaram diretamente emprestadas as suas opiniões nem dos brownistas nem dos barrowistas." loc. cit., t. i, p. 281. Contudo, as suas origens remontam ao tempo que viu eclodir essas pequenas igrejas separadas, e a sua doutrina não é compreensível fora dessas origens.

I. As origens. II. A Independência inglesa. III. O congregacionalismo na Nova Inglaterra. IV. O congregacionalismo moderno.

I. AS ORIGENS. — Na ascensão de Isabel (1558), os ingleses que se tinham exilado, ou que o tinham sido, por causa da religião, sob o reinado de Maria, a Católica, regressaram uns após os outros. Esperavam que a nova rainha reformasse a Igreja segundo os seus desejos. Mas, em Frankfurt ou em Genebra, tinham entrado em contato com homens que haviam exercido sobre o seu espírito uma profunda influência. A reforma de Henrique VIII e o compromisso de Eduardo VI não eram mais, a seus olhos, que meias-medidas. Somente Calvino tinha reencontrado a ideia da verdadeira Igreja. Era preciso concluir nessa direção a obra começada por Henrique VIII. Assim, o regresso dos ministros exilados foi o ponto de partida de um movimento puritano. Pois tratava-se de "purgar" a Igreja da Inglaterra das "superstições" que nela sobreviviam. As mais aparentes eram naturalmente as próprias formas do culto exterior. O uso dos ornamentos no serviço divino, o emprego da sobrepeliz para a administração dos sacramentos, o sinal da cruz, o emprego do crucifixo, a decoração das igrejas, práticas como a genuflexão, formavam, aos olhos desses espíritos, um conjunto que fazia parte da herança do "papismo". Era preciso suprimi-lo, se se quisesse voltar à verdadeira Igreja.

Mas, entre os ministros reintegrados, uns rejeitavam absolutamente todas essas práticas; outros admitiam o uso da sobrepeliz; outros, enfim, as toleravam com a condição de que o povo não lhes atribuísse ideias supersticiosas. Era o caos, acompanhado de disputas sem fim. Isabel resolveu pôr ordem nisso. No começo de 1565, fez publicar pelo arcebispo de Cantuária, Parker, uma longa instrução: Advertisments parlly for due order in the public administration of common prayers and usingllie holy sacramcnls, and partly for tlie apparel of ail persons ecclcsiaslical by vertue of the Qucenes majesties letlers commandinq tite same. Embora fazendo concessões aos puritanos, o regulamento retinha, contudo, o próprio princípio e o essencial de todas essas práticas. Por isso se pôde dizer que a publicação desses "Avisos" é o ato oficial de nascimento da dissidência inglesa.

Mal essa controvérsia fora resolvida por autoridade, outra se levantava, mais profunda e mais cheia de consequências. Tratava-se desta vez da própria constituição da Igreja. Enquanto homens como Jewel e Richard Hooker defendiam as posições do anglicanismo oficial, as diferentes nuances do calvinismo eram formuladas por Travers, Thomas Cartwright e, um pouco mais tarde, pelo douto arcebispo de Armagh, Ussher. A polêmica, aliás, não permanecia no terreno dogmático. Curtos panfletos, pequenos tratados, a maior parte anônimos, expunham, sob forma satírica, as objeções a que se prestavam os homens e as instituições da Igreja estabelecida. Os mais importantes formam a célebre coleção conhecida sob o nome de Martin Marprelate, verdadeiro correspondente da Satyre Ménippée. De 1586 a 1589, uma imprensa misteriosa, que a polícia de Isabel não conseguia descobrir, espalhou por toda a Inglaterra sarcasmos apaixonados contra os bispos e os ministros da Igreja oficial. A sua violência era tal que os calvinistas mais resolutos, Cartwright por exemplo, os desaprovavam abertamente.

De concepções positivas, esses panfletos quase não continham. Mas insinuavam claramente que todos os escândalos e abusos eram o fruto natural da constituição hierárquica da Igreja tal como ela existia. O estado de espírito revelado por toda essa literatura devia procurar realizar as suas aspirações. Assim, encontram-se desde então, em Londres e nos condados, pequenos grupos isolados que querem reformar a Igreja.

A maior parte dos seus fundadores são antigos alunos da universidade de Cambridge, que é então um foco de puritanismo. Em 1567, em Londres, realizam-se assembleias clandestinas, presididas por Richard Fitz. Administram-se ali os sacramentos. Por volta de 1586, Robert Browne organiza outras em Norwich. Elas são perseguidas e a maior parte dos seus membros é encarcerada. Em 1592, reaparece em Londres uma dessas pequenas comunidades. Tem por chefes o jurista Henry Barrowe e os ministros John Greenwood e Francis Johnson. Em 1593, os dois primeiros e um dos autores de Martin Marprelate, que havia difundido essas ideias no País de Gales, John Penry, acusados de terem contravindo o Ato de Supremacia, são enforcados em Londres. Movimentos do mesmo gênero surgem nos arredores de Gainsborough e de Scrooby.

É nos escritos de Barrowe que se encontra um primeiro esboço da nova concepção da Igreja que, pouco a pouco, vai se precisar. O calvinismo afirmava como um dogma o princípio da igualdade dos ministros. Mas como estabelecer uma organização sobre esse princípio? Na Escócia, o problema fora resolvido pelo agrupamento de várias paróquias em uma "classe". O ministro de uma paróquia recebia a sua autoridade do fato de ser reconhecido e aceito como tal pelos outros ministros de sua "classe". Acima do sínodo de "classe", o sínodo nacional regulava os assuntos eclesiásticos com o soberano. Pois este, na Inglaterra pelo menos, desde o Ato de Supremacia, era o "supremo governador" da Igreja. A essa concepção, desenvolvida por Cartwright, Browne e sobretudo Barrowe opõem outra. A Igreja é a simples federação das paróquias, nas quais não há outra autoridade religiosa senão a do ministro e do clero escolhidos pela própria paróquia. Com isso, Browne e Barrowe pensavam reproduzir exatamente o tipo das primeiras comunidades cristãs. Mas, enquanto para o primeiro o chefe do Estado, nessa organização, permanece o "supremo governador" da Igreja, o segundo parece considerar toda ação do Estado na Igreja como funesta para esta.

As perseguições de que foram objeto as assembleias clandestinas de Londres, de Norwich, de Gainsborough e de Scrooby levaram os seus partidários mais decididos a buscar refúgio nos Países Baixos. Já havia grupos ingleses em Amsterdã e em Middelburg. A pequena comunidade de Scrooby estabeleceu-se em Amsterdã em 1607 e, alguns meses depois, emigrou para Leiden. Tem por pastor um antigo aluno de Cambridge, John Robinson. É nas obras deste, sobretudo na sua Apologia justa et necessaria... quorundam christianorum dictorum Brownistarum sive Barrowistarum, publicada em Leiden em 1619, que se encontra um esboço da teoria independente da Igreja. Ele viera aos Países Baixos não simplesmente para fugir à perseguição, mas sobretudo para preservar o seu pequeno rebanho, pelo isolamento, das "abominações do Anticristo". Daí, nele, uma tendência separatista inegável que não chega, contudo, a uma conclusão definitiva. Todo cristão estava obrigado, segundo ele, a comunicar-se somente com uma Igreja pura de toda prática supersticiosa. Mas ele acreditava que se podiam escolher ministros que permanecessem na Igreja oficial, com a condição de que fossem ortodoxos, isto é, estritamente calvinistas. Esses ministros deviam simplesmente opor uma resistência passiva aos bispos, quando estes lhes impusessem um ritual em oposição com os seus princípios. Robinson sustentou sobre esse ponto vivas controvérsias com os outros pastores de comunidades inglesas dos Países Baixos, em particular Francis Johnson e Henry Ainsworth. Estes eram francamente separatistas. As concepções desses pequenos grupos holandeses não exerceram grande influência sobre o pensamento religioso na própria Inglaterra. Mas teriam um destino bem diferente. São membros da comunidade de Leiden que embarcarão, em 1620, no "Mayflower" ("Flor de Maio") para ir fundar a colônia de Plymouth, na baía de Massachusets.

II. A Independência inglesa. — Os últimos anos do reinado de Isabel e todo o reinado de Jaime I Stuart veem um adormecimento das controvérsias religiosas. Os puritanos acomodam-se geralmente à situação. Contentam-se com um conformismo de superfície. Aliás, o arcebispo de Cantuária, Abbot, protege-os abertamente e os favorece. Somente a questão do "sábado", da observância estrita do repouso dominical, provoca da parte deles protestos. O próprio presbiterianismo escocês aceita, em certa medida, a organização episcopal. Um ponto, contudo, permanece em suspenso: a questão da jurisdição eclesiástica. Está ela inteiramente nas decisões da "convocação" dos bispos, promulgadas pela Coroa? Ou tem o Parlamento o direito de intervir, de uma forma ou de outra, para que essas decisões tenham força de lei? O conflito das opiniões sobre esse ponto tomará uma forma aguda alguns anos mais tarde. Entrementes, alguns grupos raros e dispersos mantêm, em Londres ou nos condados, as ideias de reforma dos primeiros puritanos. O mais importante é aquele cujo centro é Henry Jacob. Somente ele importa do ponto de vista doutrinal. Sem ser separatista, Jacob afirma que muitas práticas na Igreja estabelecida são anticristãs.

Os verdadeiros fiéis devem manter-se afastados do culto, da liturgia e da administração dos sacramentos, tais como o Prayer Book e as ordenanças episcopais os regularam. Em 1613, Jacob publica uma coletânea de textos de teólogos, tendente a provar que o governo da Igreja não deve ser estabelecido sem o livre consentimento do povo. Mas, na ascensão de Carlos I e com o regime inaugurado pelo arcebispo Laud, as paixões políticas despertam as paixões religiosas. No conflito entre o rei e o parlamento, este encontra a seu lado todos aqueles cujas ideias haviam sido comprimidas pelo autoritarismo de Laud. Desde o começo do reinado, puritanos de todas as nuances reclamavam uma assembleia geral dos representantes da Igreja da Inglaterra para elaborar um plano de reforma. Tal foi o objeto da "Grande Remonstrância", que decidiu o Longo Parlamento, em 1642, a aprovar vários bills para realizar esse projeto. Mas o rei opôs o seu veto, declarando que as questões religiosas só dependiam da "convocação" dos bispos e da Coroa. Foi a ruptura completa. Os parlamentares, apesar do veto real, decidiram convocar essa assembleia por sua própria autoridade (12 de junho de 1643). Uma preocupação política os guiava. Tratava-se de atrair para a causa do parlamento os escoceses, cuja ajuda militar era indispensável.

Cento e cinquenta representantes da Igreja, designados nominalmente por uma comissão parlamentar, foram, pois, convocados a Westminster para discutir a questão da reforma. Cerca da metade compareceu ao encontro. A maioria era formada por presbiterianos, que aceitavam plenamente a constituição presbiteral de jure divino. Mas encontraram adversários resolutos em Thomas Goodwin e Philippe Nye, que haviam dirigido comunidades inglesas independentes em Roterdã e em Arnhem, em William Bridge, Jérémie Burroughes e Sidrach Simpson, os "cinco irmãos" da dissidência. O ponto sobre o qual Goodwin e seus amigos marcaram a mais viva oposição às decisões da assembleia de Westminster foi o poder de excomunhão atribuído aos ministros pela confissão de fé ali redigida. O presbiterianismo tornara-se em Westminster a doutrina do Estado. Mas os acontecimentos políticos iam dar a seus adversários independentes os meios de combatê-lo. Os sucessos do exército parlamentar contra as tropas reais haviam sido assegurados sobretudo graças aos regimentos formados pelos independentes. A condução militar e política da luta concentrava-se cada vez mais nas mãos de um só homem, ele próprio independente, Oliver Cromwell.

É verdade que sob esse vocábulo se ocultava um verdadeiro caos religioso. Richard Baxter, que foi capelão no exército do Parlamento e viu o protetor de muito perto, declara que o número dos sectários ali crescia a cada dia. A assembleia sinodal de Londres, realizada em 1653, distingue, ao lado dos episcopalianos e dos presbiterianos, aqueles que afirmam que Cristo não instituiu ministros em sua Igreja, aqueles que afirmam que os ministros da Igreja da Inglaterra são anticristãos, aqueles que, na Velha e na Nova Inglaterra, seguem a "via congregacionalista", admitindo embora que os ministros da Igreja estabelecida são verdadeiramente ministros. E entre estes últimos, Baxter, na mesma data, distingue ainda duas correntes: aqueles que afirmam a igualdade completa dos ministros e das Igrejas, sem nenhum superior, nem bispos, nem sínodos, nem governadores, sendo o ministro a única autoridade, e aqueles que afirmam que cada congregação deve ser governada pelos votos do povo, cujo pastor tem simplesmente por ofício proclamar e executar as vontades.

De qualquer modo, desde 1641, a luta está aberta entre presbiterianos e independentes. A polêmica a acompanha. Ela versa sobre três pontos principais: primeiro, a ordenação dos ministros; depois, o exercício da autoridade em relação às outras comunidades; enfim, a formação de comunidades independentes no seio das paróquias já existentes. Essas discussões se acompanham, em quase todos os condados, de tentativas de associações entre os membros do clero, seja para sustentar as ideias presbiterianas, seja em favor das ideias independentes (1653-1654). Diante de tal estado de coisas, Cromwell fazia muitas declarações de tolerância. Mas dava delas explicações que lançam uma luz singular sobre as ideias dos independentes. "Não me ocupo, dizia ele aos Comuns, da consciência de cada um. Mas se, por liberdade de consciência, entendeis a liberdade de dizer a missa, então é melhor falar claramente e fazer-vos saber que, enquanto o Parlamento da Inglaterra tiver o poder, isso não será permitido."

Essas divisões no seio do partido dos independentes, cujo contragolpe se fazia sentir do ponto de vista político, fizeram nascer, nos chefes que se haviam revelado em Westminster, a ideia de formular uma profissão de fé. Em 1658, Goodwin e seus amigos solicitaram de Cromwell a autorização para convocar uma assembleia para regular os assuntos eclesiásticos. O protetor resistiu primeiro, depois consentiu de má vontade. Morreu, aliás, antes da realização do projeto. Em 12 de outubro de 1658, os representantes de uma centena de igrejas independentes reuniram-se em Londres, no palácio de Savoy. A maior parte eram leigos.

Escolheu-se, para redigir a confissão de fé, uma comissão de seis teólogos, dos quais os principais eram Goodwin e John Owen. Para a parte doutrinal, retomaram, salvo algumas palavras, a declaração de Westminster. Mas, para tudo o que dizia respeito ao governo da Igreja, formularam uma concepção nova da organização eclesiástica. É aí que se encontra a expressão mais completa da disciplina independente, que permaneceu, até hoje, a regra das Igrejas congregacionalistas. Segundo a confissão de Savoy, o Espírito de Deus escolhe individualmente os eleitos pelo ministério da Palavra. Esses eleitos — os Santos do exército de Cromwell — devem, contudo, reunir-se em sociedades particulares, "para a sua edificação mútua e para o cumprimento regular do culto público que Deus requer deles neste mundo." São essas sociedades particulares que formam, cada uma, a Igreja no sentido pleno da palavra. Esta não está, por conseguinte, sujeita a nenhuma jurisdição exterior.

Os ministros da Igreja assim entendida são os pastores, os doutores, os anciãos e os diáconos. Enquanto os primeiros têm sobretudo o encargo do culto e da administração dos sacramentos, os doutores têm por função explicar a Escritura, ao passo que os anciãos administram temporalmente a comunidade e os diáconos se ocupam das obras de beneficência, em particular dos doentes. Todos esses ministros são escolhidos pelo sufrágio comum da própria Igreja. A eleição é acompanhada de jejum e de oração e termina com a imposição das mãos feita pelos anciãos, se a comunidade já está constituída. Mas o chamado consiste essencialmente na eleição, sendo todo o resto acessório. A Igreja assim entendida tem o poder de admoestar seus membros e, se as suas desordens são escandalosas, de excomungá-los. A confissão de Savoy precisa de modo expresso que esse poder só pode ser exercido "em relação aos membros particulares de cada Igreja como tais." Só pode tratar-se, portanto, de medidas individuais. Se as circunstâncias exigem uma medida geral, se se trata de questões de doutrina ou da administração dos sacramentos, se algum membro de uma Igreja se julga atingido por uma censura ou uma excomunhão injustificadas, então várias Igrejas em comunhão poderão reunir-se em sínodo para aplainar ou apaziguar a divergência. Mas as assembleias assim formadas não têm nenhum poder nem nenhuma jurisdição real. São simples tribunais de conciliação. Não podem impor de nenhum modo as suas decisões, seja às Igrejas, seja às pessoas. Não resta outro recurso aos indivíduos que não estão satisfeitos com a sua comunidade senão o êxodo para alguma outra Igreja. Ainda assim devem, antes de fazê-lo, consultar os seus ministros e obter o seu assentimento.

Quanto às relações da Igreja entendida desse modo com o Estado, embora não estejam indicadas na confissão de Savoy, podem ser facilmente apreendidas nas obras dos teólogos do partido, Goodwin e Owen, e melhor ainda nos discursos dos parlamentares que defendiam essas ideias, Cromwell ou Burroughes. Todos admitiam que uma nação deve ter uma Igreja nacional, que não era outra coisa senão o conjunto das comunidades mutuamente independentes. A nação tinha o direito de exigir de seus membros a assistência ao culto público. Por isso o Estado devia providenciar para que houvesse possibilidade, para todos, de cumprir esse dever essencial. Devia, por conseguinte, fornecer meios de subsistência a todos aqueles que asseguravam essa possibilidade. Mas sobre a Igreja mesma não tinha nenhum direito. Não podia ingerir-se nem na escolha dos ministros, nem na cooptação dos membros da "congregação". Não podia obrigar ninguém a tornar-se membro de uma "congregação" determinada. É dentro desses limites que se deve entender a ideia de tolerância, tal como foi professada por Cromwell e pelos chefes políticos do partido independente.

De fato, durante os últimos anos do protetorado, a teoria independente passou, em boa parte, à prática. Contudo, houve sempre um tribunal encarregado de decidir sobre as capacidades morais e intelectuais daqueles que pretendiam exercer as funções de ministros. Mas estes, uma vez instalados, e sob condição de permanecerem em bons termos com os seus paroquianos, eram realmente independentes. As cortes de justiça asseguravam a sua liberdade. Obrigavam os detentores dos bens de igreja a pagar-lhes as rendas. Aconteceu, porém, com bastante frequência, sobretudo nos condados do leste, que as paróquias se dividissem e que houvesse luta pela escolha dos ministros. Do ponto de vista religioso, a única regra que era imposta era a proibição de celebrar o serviço divino segundo o Prayer Book. O próprio povo se encarregava da polícia nesse ponto. Os independentes invadiam as reuniões onde se celebrava o ofício dessa maneira e conduziam à prisão os ministros e os fiéis recalcitrantes. Assim, a violência não foi alheia à difusão do sistema preconizado pela assembleia de Savoy.

A luta entre presbiterianos e independentes não tinha por causa uma simples diferença de concepções religiosas. Os primeiros eram legitimistas. Permaneciam fiéis aos Stuarts, mesmo depois da execução de Carlos I.

Os seus adversários eram os inimigos irredutíveis da realeza e contavam em suas fileiras todas as nuances da oposição, desde as mais moderadas até as mais radicais. Por isso a restauração foi o sinal de uma violenta reação contra eles. Os presbiterianos, aliás, não foram poupados. Toda uma série de medidas tomadas por Carlos II e seu parlamento veio claramente barrar o caminho à dissidência. O Corporation Act de 1661, o Act of Uniformity de 1662, o Conventicle Act de 1663, o Five Mile Act de 1665, o Test Act de 1673 desapossam os ministros que haviam tomado o lugar de todos aqueles que o protetorado expulsara de seus benefícios, obrigam todos os pastores a receber a ordenação regular no prazo de dois anos, impõem o uso do Prayer Book no serviço divino e exigem de todos os membros do clero o juramento de obediência à coroa. Por essas medidas, mais de dois mil ministros, na maior parte independentes, foram forçados a deixar as suas paróquias. Era, do ponto de vista oficial, o fim do regime introduzido sob Cromwell.

Mas as medidas de rigor por razões de opiniões religiosas começavam a tornar-se insuportáveis ao espírito do tempo. Carlos II, em 1672, publicava a Declaração de indulgência, que permitia aos dissidentes exercer o culto à sua maneira e libertava todos aqueles que haviam sido encarcerados sob esse pretexto. É verdade que o Parlamento, apoiado, aliás, pelos presbiterianos e pelos próprios independentes, recusou registrar o ato real. As medidas que Jaime II tomou no mesmo sentido tiveram a mesma sorte. A opinião via nelas apenas meios indiretos de reintroduzir o "papismo". Contudo, a influência dos filósofos, de um Locke e de um Newton, penetrava cada vez mais os espíritos com a ideia de tolerância religiosa. Por isso, entre os homens a quem coube, depois da revolução que expulsou definitivamente os Stuarts, a direção intelectual da Igreja da Inglaterra, alguns, como Tillotson, estavam dispostos a admitir, na Igreja nacional, não somente os presbiterianos, mas também os independentes que não eram separatistas. A independência inglesa pôde assim levar, durante o século XVIII, uma existência penosa de direito, mas de fato relativamente tranquila. Tomou parte importante no movimento evangélico que se liga aos nomes de George Whitefield e de Rowland Hill.

III. O Congregacionalismo na Nova Inglaterra. — A comunidade de Leiden, sob a direção de John Robinson, em razão mesmo das controvérsias que devia sustentar com os outros grupos ingleses da Holanda, não se sentia ainda suficientemente isolada contra as "armadilhas do Anticristo". Os mais ardorosos entre seus membros conceberam o projeto de fundar além-mar uma colônia, onde tentariam realizar o reino de Deus e a verdadeira Igreja. Desde 1617, dirigiram-se à companhia da Virgínia, cujo conselho tinha tendências puritanas marcadas, e que obtivera da coroa o monopólio do comércio e da colonização sobre uma parte importante da costa americana. Para obter mais facilmente a autorização, em razão mesmo das suspeitas de que eram objeto, Robinson e seu braço direito, William Brewster, antigo mestre de posta em Scrooby, redigiram uma declaração em que precisavam a sua posição doutrinal. Ela se apresenta como um suplemento dos 39 Artigos, que eram o código doutrinal da Igreja da Inglaterra. Robinson e Brewster reconhecem formalmente a autoridade da coroa e dos bispos que ela nomeia para a "vigilância civil" das províncias, das dioceses, das paróquias e das comunidades. Mas, logo em seguida, formulam claramente o direito de resistência passiva a toda decisão dessa autoridade que fosse contrária à Palavra de Deus.

Quanto à organização da Igreja, declaram admitir a que seguem as comunidades reformadas da França. Cada uma delas é regida por pastores que ensinam, anciãos que administram, diáconos que distribuem os socorros materiais. Quanto aos sacramentos, batismo e ceia, remetem-se à confissão de fé das Igrejas da França. Observam, contudo, algumas divergências práticas. Enquanto os franceses fazem a oração com a cabeça coberta, os fiéis de Leiden descobrem-se. Entre os primeiros, os anciãos e os diáconos são nomeados por um ano ou dois no máximo; os seus são nomeados vitaliciamente. Enfim, detalhe mais importante, a excomunhão, nas Igrejas da França, é uma cerimônia privada; para eles, deve fazer-se publicamente. Por mais atenuada que fosse essa declaração, não persuadiu imediatamente o conselho do rei. Somente em 1620 os "Pais Peregrinos" obtiveram a autorização pedida. Depois de muitas dificuldades materiais, em 6 de setembro de 1620, cento e dois membros da comunidade de Leiden embarcavam em Plymouth, a bordo do "Mayflower" ("Flor de Maio"). Robinson não os acompanhava. Fora formalmente excluído do número dos emigrantes. Estes tinham por chefes Brewster e dois de seus amigos, John Carver e William Bradford. Aportaram na baía de Massachusets em 10 de dezembro de 1620. Em vez de se fixarem no domínio atribuído à companhia da Virgínia, detiveram-se em um ponto dependente nominalmente da coroa, mas fora desse domínio.

Fundaram ali, em lembrança de seu porto de partida, New-Plymouth, hoje simplesmente Plymouth, a cidade santa do congregacionalismo americano. O seu primeiro cuidado foi declarar que formavam um "corpo civil e político", cujos membros todos prometeram obediência às ordenanças que o bem geral da colônia pudesse requerer. E, para marcar o espírito em que esse corpo civil e político ia exercer a sua autoridade, reenviaram à Inglaterra, no primeiro navio, os emigrantes que declaravam querer usar o Prayer Book no serviço divino. Mas os "Pais Peregrinos" haviam obtido um resultado muito mais importante. Tinham passado do separatismo teórico à separação de fato. Essa separação de fato produziu consequências que eles não previam. A situação religiosa, na Inglaterra, era cada vez mais tensa. Por isso a maré da emigração trazia à costa americana novos colonos. Entre 1625 e 1630, grupos filiados seja à companhia da Virgínia, seja aos "Mercadores Aventureiros" de Dorchester, fundam Salem, Boston, que então se chamava Newtown, e New-Cambridge. Toda a baía de Massachusets é assim pouco a pouco colonizada. Os emigrantes são puritanos de várias nuances que permanecem apegados à Igreja da Inglaterra e não a consideram anticristã, mas cujas preferências vão à doutrina calvinista e à organização presbiteriana. Por suas origens, são alheios à estreiteza dos "Santos" de Plymouth.

Só que esses desenraizados, ao chegarem à costa americana, têm tudo a organizar. Diante dos seus olhos, uma colônia prospera, graças à hábil administração de Bradford, que se tornou o seu governador, e exibe um tipo de administração e de governo que parece feito sob medida para a sua nova situação. Adotam-no com particularidades locais que marcam as suas preferências originais. Ora, essa organização é essencialmente teocrática. Só é "homem livre", só goza da franquia civil e, por conseguinte, só é cidadão aquele que é membro da comunidade, da "congregação". E, para tornar-se tal, não basta querê-lo. É preciso, para ser admitido, submeter-se, segundo as expressões de um contemporâneo, "a um severo exame sobre o conhecimento dos princípios da religião, a experiência das vias da graça e, enfim, a boa conduta entre os homens." São os anciãos de cada comunidade que têm o encargo de fazer passar por essa prova. É preciso, além disso, comprometer-se, por uma série de juramentos habilmente calculados, a repudiar certas doutrinas que parecem ameaçadoras aos "Pais Peregrinos", as dos quakers e dos anabatistas em particular.

Assim, o primeiro governador de Boston podia proclamar solenemente esta profissão de fé: "Cremos que é coisa importante que todos os membros de um governo cristão tenham as mesmas opiniões sobre os pontos essenciais. E, de passagem, cabe a nós determinar o que é essencial. Se há, entre os que vieram conosco, pessoas de opiniões diferentes, cometeram um grave erro e fariam melhor em voltar à Inglaterra. Mas se, mesmo tendo opiniões diferentes, querem permanecer na América, então deixemo-las ir em paz fundar alhures comunidades conformes à sua consciência. Não queremos querelas com elas. Mas dizemos-lhes formalmente que não podem fixar-se aqui." Os resultados dessa concepção não se fizeram esperar. Em 1643, a colônia de Massachusets contava quinze mil habitantes e mil setecentos e oito cidadãos, isto é, mil setecentos e oito membros de uma congregação. Expulsara de Plymouth e de Salem homens como Roger Williams e Ralph Smith, que reclamavam o direito de pensar de modo diverso da pequena aristocracia religiosa da colônia, e que tinham ido fundar, mais ao sul, a "plantação" de Rhode Island.

Durante os seis ou sete anos em que a comunidade de Plymouth só tivera por vizinhos os índios do Sachem Massasoit, a sua organização religiosa fora incompleta. John Robinson, com efeito, que, de Leiden, dirigia sempre os seus fiéis, nunca quisera permitir a Brewster exercer as funções de pastor, pela razão de que não recebera a ordenação. Este tivera de contentar-se em exercer as funções de doutor. Mas a emigração trouxe, sobretudo a partir de 1630, um número cada vez maior de ministros não conformistas que fugiam do regime de Laud. Por vezes, até uma paróquia inteira chegava com a sua organização presbiteral completa. Plymouth pôde, pois, ter um pastor. Mas Lyndford, o primeiro que foi escolhido, teve de renegar solenemente, antes de exercer as suas funções, "toda igreja nacional, episcopal e arquidiaconal". Graças à emigração, o isolamento primitivo chegava ao fim. Em 1640, havia na Nova Inglaterra trinta e três igrejas constituídas, todas sobre o tipo de Plymouth, exceto duas, que tinham conservado completamente a organização presbiteriana. Era impossível viver lado a lado sem ter relações. Convém ainda notar que elas se estabeleceram não graças aos ministros, que parecem ter mostrado alguma repugnância nesse ponto, mas pela obra de dois leigos, o doutor Fuller de Plymouth e o governador de Salem, Endicott. Aliás, eram, na origem, relações de fato, que nenhum acordo regulava.

Tratava-se ali de simples manifestações de fraternidade cristã. Traduziam-se sobretudo em reuniões de pastores que não tinham nenhum caráter sinodal. Cada congregação defendia ciosamente a sua autonomia. Não foram apenas as necessidades políticas que as obrigaram a tomar uma consciência mais nítida de suas relações. A extensão da colônia tornara mais frequentes as relações entre a Velha e a Nova Inglaterra. As cartas vindas daqui interessavam vivamente aos que haviam ficado lá. Inquietavam-nos também do ponto de vista religioso. Já em 1637, vários ministros da Inglaterra propõem às Igrejas de Massachusets nove questões sobre pontos de disciplina. A controvérsia está aberta. Ela obrigará os pastores emigrados a formular as suas ideias. Ora, essas ideias assumiram o aspecto de um sistema teológico nas obras de dois homens que caracterizam as concepções das comunidades da Nova Inglaterra. A "Voie des églises congrégationalistes clairement exposée", de John Cotton, primeiro pastor de Boston, que circulava em manuscrito desde 1643 e foi publicada dois anos mais tarde, e a "Esquisse d'une somme de la discipline des Églises", de Thomas Hooker, publicada também em 1651, mostram às claras o pano de fundo teórico da nova organização.

Mas, enquanto Cotton, por prudência talvez, insiste no caráter aristocrático da constituição das Igrejas, Hooker, ao contrário, põe a ênfase nos direitos do povo e quer que sejam reconhecidos. O primeiro exprime melhor a realidade, o outro, as aspirações das comunidades congregacionalistas. Nem um nem outro, aliás, esconde as suas preferências. "É muito melhor, escreve Cotton, que o governo seja organizado de modo a desenvolver a casa de Deus, isto é, a Igreja, do que acomodar o modelo da Igreja ao da autoridade civil. Quanto à democracia, não posso conceber que Deus a tenha jamais ordenado como forma de governo conveniente, seja para a Igreja, seja para o poder civil. Se o povo é governador, quem será governado? Quanto à monarquia e à aristocracia, ambas são aprovadas e definidas na Escritura, mas enquanto a soberania é referida a Deus, de tal sorte que é a teocracia que é expressa em uma e em outra como a melhor forma de governo, tanto para o poder civil quanto para a Igreja."

Em face desse aspecto presbiteriano do congregacionalismo da realidade, Hooker apresenta outra perspectiva. "Que o poder eclesiástico pertença de direito à ordem presbiteral somente, ou que o povo de cada igreja deva tomar a sua parte, é esse o assunto das pesquisas do nosso tempo, assunto que deve fazer nascer grandes pensamentos. Grandes pensamentos no clero, que deve compreender a alegria de partilhar um tal privilégio que possui há tanto tempo. Grandes pensamentos nas igrejas, que devem reclamar o seu direito com piedade e moderação, como convém aos Santos, sem querer perder a sua causa e o seu bem por uma simples recusa." Assim, digam o que disserem, é bem um ideal político que fala aqui, mais do que um ideal religioso, tanto em Hooker como em Cotton. Os teóricos do congregacionalismo se deixam guiar por ele.

Aliás, os acontecimentos iam decidir. A aplicação do direito de excomunhão ia obrigar as comunidades da Nova Inglaterra a entender-se entre si e a regular de direito as suas relações. Já a expulsão de Roger Williams fora uma medida política mais do que religiosa. Surgiram novos casos, que forçaram os governadores das diversas colônias a voltar a atenção para esse ponto. Convocaram, pois, desde 1646, uma reunião dos ministros das diversas Igrejas para elaborar um regulamento. As suas deliberações só terminaram em 1648. Dela saiu a confissão de fé conhecida sob o nome de "Plataforma" de Cambridge, do nome mesmo da cidade de Massachusets onde os delegados se haviam reunido. Essa Plataforma reduz a artigos as ideias de organização eclesiástica que se encontram em Cotton e em Hooker. Procura sobretudo definir exatamente as funções das diferentes ordens de ministros. A tarefa era fácil no que concerne aos anciãos e aos diáconos. Era menos quando se tratava de delimitar exatamente o papel dos pastores, por oposição ao dos doutores. A Escritura fala de uns e de outros. Os teólogos reunidos em Cambridge decidiram, de modo bastante artificial, que o ofício do pastor é propriamente exortar os fiéis, ao passo que o do doutor é instruí-los sobre os pontos de doutrina, explicar-lhes a Escritura e refutar os erros. Mas ambos têm o direito de administrar os sacramentos. A nuance era bastante sutil. Por isso, de fato, apesar de seu caráter escriturístico, a distinção desapareceu pouco a pouco nas comunidades congregacionalistas. Mas a Plataforma de Cambridge não deixou de permanecer a confissão de fé tradicional da independência americana. A assembleia de Cambridge teve ainda outro resultado. Realizou praticamente a formação de sínodos nos quais a tendência autonomista de Plymouth e a tendência hierárquica das colônias mais recentes puderam procurar e encontrar compromissos.

Um novo problema de disciplina ia exigir a reunião de sínodos desse gênero, que, sem terem nenhuma autoridade, tinham o encargo de estabelecer um acordo prático. Os primeiros colonos eram adultos cuja admissão como membros da congregação não sofria nenhuma dificuldade. Mas, uma vez estabelecidos, quando os seus lares foram fundados, colocou-se a grave questão de saber se os seus filhos eram de direito "membros" da Igreja. Questão grave, pois esse título, e somente ele, conferia os direitos de cidadão e a franquia civil. A conferência de Boston em 1657, formada pelos ministros de Massachusets e de Connecticut, e o sínodo das Igrejas de Massachusets de 1662 decidiram que, de direito, os filhos dos membros da igreja eram, pelo próprio fato, membros também da congregação. Somente que não tinham direito de voto e não podiam tomar parte na ceia senão quando a sua idade lhes permitisse praticar a religião de modo pessoal. Mas essa decisão não foi aceita por todas as comunidades. A distinção entre os fiéis de "plena comunhão" e os fiéis da "meia-via" foi vivamente combatida por um dos principais teólogos do congregacionalismo no século XVIII, Jonathan Edwards. Cessou completamente no curso do século XIX. Aliás, o seu sentido prático havia muito desaparecera.

Chegavam novos emigrantes, que não eram nem puritanos, nem mesmo protestantes. O fracasso da independência inglesa tivera o seu contragolpe nas colônias. A Irlanda enviava contingentes católicos cada vez mais numerosos. Por isso, já em 1664, Massachusets era obrigado a renunciar a limitar a franquia e os direitos do cidadão aos membros de uma congregação. A colônia de New-Haven fazia o mesmo em 1665. Os exames de admissão e os juramentos se abrandavam. A rigidez dos primeiros tempos desaparecia. Entretanto, o congregacionalismo permanecia, em certa medida, a religião oficial desses Estados. Os pastores recebiam deles o seu estipêndio. Os governadores convocavam os sínodos ou provocavam as conferências dos ministros. Exercia sobretudo grande influência pelo fato de o ensino estar em suas mãos. Fundara o colégio de Harvard em 1636, o colégio de Yale em 1701. Por outro lado, as suas missões entre os índios haviam-lhe dado, sobre essas populações, uma real influência, que tinha então valor político. Mas, desde o fim do século XVII, de direito, se não de fato, estava reduzido ao estado de uma simples "denominação".

IV. O Congregacionalismo moderno. — Todo o século XVIII marca um esforço das comunidades do tipo de Plymouth em direção a um acordo com o presbiterianismo. A revisão da confissão de Savoy, em 1680, pela conferência de Massachusets, a "Plataforma" de Saybrook de 1708, procuram já atenuar as diferenças entre as duas concepções da Igreja. Mas, se os teólogos ainda conservam oficialmente o estrito predestinacionismo de Calvino, o espírito do tempo faz a sua obra. Apesar do "Grande Despertar" que, à palavra de Jonathan Edwards e de George Whitefield, sacudiu, de 1734 a 1744, as colônias congregacionalistas, o ideal dos Santos de Plymouth estava bem morto. A reação foi muito viva e o resultado foi uma perda mais do que um ganho. Mas a obra fora comum às igrejas presbiterianas e às igrejas congregacionalistas. Por isso as relações entre umas e outras tomaram uma forma regular. A assembleia geral presbiteriana aceitava os delegados das Associações de igrejas congregacionalistas. Em 1801, um "Plano de União" foi elaborado entre a assembleia geral presbiteriana e a associação congregacionalista de Connecticut. Enviados deviam promover a deferência mútua entre os aderentes das duas disciplinas. As igrejas que tinham preferências por uma ou por outra conservavam a sua organização. Nas igrejas de elementos mistos, estabelecer-se-ia um comitê, do qual um membro teria assento no consistório presbiteral, enquanto outro teria direito de voto na associação congregacionalista. Assim se perdia completamente o caráter original e distintivo do movimento independente da Nova Inglaterra.

Na mesma época, uma nova prova aguardava essas Igrejas. O movimento unitarista desenvolvia-se cada vez mais em oposição ao calvinismo rígido de Jonathan Edwards e dos homens do "Grande Despertar". Penetrava nos colégios congregacionalistas, em particular em Harvard, que, desde 1805, tinha, na pessoa de Henry Ware, um reitor conquistado para as novas ideias. A divisão dos espíritos existia já havia muito tempo quando o famoso sermão de Baltimore, pronunciado por Channing em 1819, veio pôr a nu a ruptura. A separação tornou-se inevitável. Não se fez sem dor. As propriedades de cada Igreja congregacionalista estavam nas mãos de sociedades civis, compostas de membros escolhidos em seu seio, mas que eram necessariamente uma minoria. Ora, aconteceu muitas vezes que essa sociedade, proprietária legal dos bens da Igreja, estava em desacordo, sobre a questão unitarista, com a congregação que representava. Daí uma guerra de processos que se prolongou durante toda a primeira metade do século XIX. O congregacionalismo perdeu nisso uma centena de comunidades que passaram ao unitarismo. Ao mesmo tempo, fazia-se uma acomodação entre os princípios da disciplina e as necessidades da hora.

Ela levava essa disciplina ao ponto em que se encontra atualmente. A Igreja local permanece sempre a unidade fundamental. Todo membro dessa igreja, sem distinção de sexo ou de situação, tem direito de voto em todos os assuntos que lhe dizem respeito. Está sujeito ao seu controle. Certas pessoas são escolhidas por eleição para o culto e a administração. Mas essa eleição não acarreta nenhuma autoridade eclesiástica. Essas pessoas são o pastor, um grupo de diáconos, um secretário e um tesoureiro; depois um comitê cujos membros dirigem cada um deles um dos ramos da atividade religiosa: escolas dominicais, missões, relações com as outras Igrejas. A distinção entre pastor e doutor já havia desaparecido. A que existia na origem entre anciãos e diáconos seguiu-a. A união das Igrejas locais exprime-se por meio de delegados, ministros ou leigos, que formam conferências locais, de distrito ou de estado. Estas escolhem elas próprias delegados que formam o conselho nacional. Mas nem mesmo é necessário ser membro de uma congregação para ser congregacionalista, embora essa seja a forma regular. Toda essa organização não possui, aliás, nenhuma autoridade efetiva e não pode interferir na autonomia das Igrejas locais. Não há apelo de uma Igreja a outra, nem de uma Igreja a uma conferência ou ao conselho nacional.

Quanto à escolha dos ministros, encontramos aqui também, na prática atual, um compromisso entre a concepção presbiteriana e o velho ideal congregacionalista. A ordenação é geralmente feita por um conselho das igrejas convocado pela congregação da qual o candidato é membro, ou por aquela da qual deve ser o pastor. Esse conselho se preocupa muito menos com a doutrina do que com a prática mesma do cristianismo. E, enquanto outrora o ministério pastoral cessava com o chamado que o havia criado, ocorreu que hoje esse ministério se torna praticamente perpétuo, embora o pastor continue membro da Igreja e submetido ao seu controle. Aliás, para fazer parte de uma congregação, basta declarar que se quer levar uma vida cristã, sem obrigar-se a aceitar nenhuma doutrina particular, nem mesmo nenhuma prática, nem sequer a ceia. O batismo das crianças permaneceu, contudo, o uso ordinário e se faz ordinariamente por infusão.

Quanto às crenças sobre as quais as Igrejas congregacionalistas geralmente concordam, o conselho nacional de 1915 as expôs da seguinte maneira: "Cremos em Deus Pai, infinito em sabedoria, bondade e amor; e em Jesus Cristo, seu Filho, nosso Senhor e Salvador, que, por nós e por nossa salvação, viveu, morreu, ressuscitou e vive eternamente; e no Espírito Santo, que governa os assuntos de Cristo e no-los revela, renovando, reconfortando e inspirando as almas dos homens. Estamos unidos no esforço que fazemos para conhecer a vontade de Deus tal como é ensinada na Sagrada Escritura, e em nosso desejo de andar nos caminhos do Senhor, tais como os conhecemos ou os conheceremos. Cremos que a missão da Igreja de Cristo é proclamar o Evangelho a toda a humanidade, exaltando o culto da verdadeira justiça, o reino da paz e a realização da fraternidade humana. Confiantes, como nossos pais, na ação contínua do Espírito Santo para nos conduzir a toda a verdade, trabalhamos e rezamos pela transformação do mundo em Reino de Deus. E esperamos com confiança o triunfo da justiça e a vida eterna." Tal é o credo que professavam, em 1916, nos Estados Unidos, 5 867 organizações compreendendo 791 274 membros, que possuíam 5 744 igrejas e bens estimados no valor de 80 842 813 dólares.

Todas as obras anteriores são indicadas nas obras recentes que se seguem: H. M. Dexter, The Congregationalism of the last three hundred years as seen in its literature, Londres, 1879; Williston Walker, The Creeds and Platforms of Congregationalism, New-York, 1895; Id., A history of the Congregational churches in the United States, New-York, 1900; id., Ten New England leaders, Boston, 1901; W. Pierce, An historical Introduction to the Marprelate tracts, Londres, 1908; W. A. Shaw, A history of the English Church during the Civil wars and under the Commonwealth, Londres, 1900; Champlin Burrage, The early english Dissenters, Cambridge, 1912; W. H. Burgess, John Robinson, pastor of the Pilgrim Fathers, Londres, 1920. Deve-se acrescentar a seguinte publicação do ministério do comércio dos Estados Unidos: Religious Bodies, 1916, Part II, Separate denominations. History, description and statistics, Washington, 1919.

A. HUMBERT.

Autor original: A. Humbert

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