HUSSITAS. I. Origem. II. Programa. III. Conclusão. — I. Origem. Partidários de João Hus e de seu programa mais ou menos selecionado, os hussitas ostentaram um espírito mais ainda que uma doutrina definitiva. Protestantes em nome do Evangelho e em nome do nacionalismo boêmio contra a Igreja católica da época e contra a administração imperial alemã, que não separavam em seus agravos, dosaram suas afirmações conforme os meios e conforme seus chefes. Cada grupo pôs em evidência sua pretensão principal, sem que se possa dizer exatamente que não tenha partilhado as reivindicações dos outros. Jamais, aliás, as autoridades papal e civil tentaram exercer suas sanções contra os hussitas sem que imediatamente todos os partidos fizessem bloco contra o magistério católico e seu braço secular. O hussitismo remonta muito mais longe que a fogueira de Constança. Sem o suplício de João Hus e de Jerônimo de Praga, esse movimento teria continuado seus progressos. Prende-se inteiramente ao wiclifismo de que a nação boêmia se impregnara. Ver Hus, col. 335 sq. O professor de Oxford dissera que a pregação é uma ordem de Cristo e que não pode ser impedida por ninguém; que «os leigos» têm o direito de pregar contra a corrupção da Igreja e o dever de melhorar essa sociedade. Suas pretensões de ver na Sagrada Escritura a única regra de fé o conduziam fatalmente a fazer de seus discípulos fantasistas e revoltados. O suplício de João Hus acentuou os protestos, complicando a questão de princípio com uma questão de pessoa, e fazendo de numerosos hussitas verdadeiros furiosos.
— II. Programa. O movimento calixtino surgiu durante a estada de Hus em Constança. Ver Calixtinos, t. ii, col. 1364-1367. Devia penetrar mais particularmente os praguenses e, no leste, os horebitas de Königgraetz, dando a todos eles um caráter mais moderado. O taboritismo foi organizado por João Ziska depois da primeira defenestração de Praga (30 de julho de 1419) em sua fortaleza de Tabor, na Boêmia. É, diz ele, «uma confraria que se ater-se-á unicamente à Sagrada Escritura: nem igrejas, nem altares, nem ornamentos, nem cerimônias. O serviço de Deus far-se-á num lugar conveniente, enquanto as pessoas reunidas dirão a oração do Senhor, e os sacerdotes, em traje de todos os dias, pronunciarão as palavras da consagração sobre o pão e o vinho colocados numa mesa comum.» O batismo é o único reconhecido como sacramento. É dado com água comum. A comunhão será dada sob as duas espécies. A confissão auricular, as obras de penitência, o purgatório, o culto dos santos, os dias de festa e de jejum são suprimidos, como ignorados pela Bíblia. Mais tarde, Ziska e seus fiéis acham ainda que os apóstolos não tinham casa, que o Salvador não dissera aos sacerdotes que se encerrassem em claustros, mas que fossem pelo mundo inteiro. Aconselham, pois, destruir os presbitérios e os mosteiros com seus habitantes. Prega-se sobretudo em Tabor que tudo o que contradiz o serviço de Deus e todo pecado (simonia, recebimento de dinheiro por funções espirituais e bulas) devem ser desarraigados da cristandade. O dia da redenção está próximo, todas as cidades cristãs, salvo cinco, devem ser aniquiladas pelo fogo, e maldito seja aquele que não molhar sua espada no sangue dos inimigos de Deus. As teorias de Ziska e de seus iluminados a frio faziam, pois, um corte sombrio em toda a tradição católica.
Em 1420, os praguenses ou calixtinos utraquistas haviam reunido em quatro artigos suas reivindicações para apresentá-las ao imperador Sigismundo: 1° liberdade de pregação; 2° comunhão sob as duas espécies para todos os fiéis; 3° renúncia do clero às posses terrenas; 4° punição dos pecados mortais (simonia, recebimento de dinheiro por funções espirituais). Os taboritas não discutiram. Lançando-se à ação, derrotaram Sigismundo. Com o prestígio do sucesso, reuniram de novo os utraquistas sob suas bandeiras. No mesmo momento, Ziska fazia ato de autoridade entre os seus. Em 1421, mandava massacrar, por um de seus tenentes, seus adeptos que, cada vez mais penetrados do ensinamento wiclifista, haviam resvalado para as teorias panteístas e anarquistas beghardas e adamitas. Ver Beghardos e Adamitas. Era uma concessão sangrenta feita pelo chefe taborita aos utraquistas, que não haviam admitido as grosseiras faltas de reverência das vítimas para com o sacramento escolhido como sinal do partido. Em suma, de 1415 à morte de Ziska (1424), é bem o taboritismo que conduz praticamente os grupos hussitas.
Depois da morte de Ziska, dos quatro novos partidos formados pelos hussitas, ver Calixtinos, t. ii, col. 1365, somente o utraquismo sobreviveu, após seu contato com o concílio de Basileia, sua vitória de Lipan, perto de Böhmischbrod, sobre os taboritas e os órfãos, e seu reconhecimento oficial na Boêmia pelos Compactata de Iglau (1436). Ver Calixtinos, col. 1366; Basileia (Concílio de), col. 121-122. Dois homens, por ambição pessoal tanto quanto por convicção religiosa, deram-lhe vigor, após a morte de Sigismundo (1437), para fazer-se uma influência.
Jorge Podiébrad, rei da Boêmia, e João de Rokytsana, bispo de Praga, mantiveram até sua morte (1471) o caráter oficial do utraquismo, lutando contra os «irmãos boêmios», cujas teorias puritanas e totalistas haviam mais ou menos salvo, desde 1448, os destroços do taboritismo. Ver Boêmios (Irmãos), t. ii, col. 31-34. As pregações de São João de Capistrano haviam aliás já feito sua obra desde 1451-1452. Acabaram por tirar toda vida ao próprio utraquismo, na ascensão de Ladislau II (1471). O papa jamais aprovara essa doutrina, tampouco aceitara os Compactata reconhecidos pelo concílio de Basileia em 15 de janeiro de 1437. Pio II, por intermédio do núncio Fantini, revogava ambos em 13 de agosto de 1462. Cf. Comunhão eucarística sob as duas espécies, t. iii, col. 566.
— III. Conclusão. O caráter terrível da ideia hussita foi não ter permanecido no domínio da teoria pura. Quis viver pelo terror e pelo sangue. Durante vinte anos, seus adeptos, puritanos, revolucionários, anarquistas, místicos, fizeram da Boêmia, da Silésia, da Baviera, da Áustria, da Saxônia e de Brandeburgo um verdadeiro deserto. Antissociais por programa, os hussitas foram verdadeiros selvagens para realizar os erros wiclifistas que arruínam toda liberdade humana, toda hierarquia, todo direito de propriedade. Meio século mais tarde, o chanceler Fisher, ao fazer ao parlamento inglês as admoestações que, segundo ele, deviam deter o rei Henrique VIII no caminho da independência, julgou prudente recordar-lhe os excessos da grande heresia boêmia. Cf. Stephens e Hunt, A History of the English Church, 8 vol., t. iv, por Gairdner, p. 104. Pelas ruínas e carnificinas de que cobriram a Alemanha do século XV, os hussitas pertenciam mais aos tribunais militares que à oficialidade eclesiástica.
Toda a bibliografia, fontes e trabalhos, que toca à questão hussita encontra-se nos artigos: Basileia (Concílio de), Calixtinos, Comunhão sob as duas espécies, Boêmios (os Irmãos), Hus. Mais especialmente, consultar-se-á: I. Fontes. Höfler, Fontes rerum Austriacarum, I. Reihe Scriptores, t. vi: grande crônica dos Taboritas de João Lukowetz e de Nicolau de Pelhrimow; t. vii: tradução alemã dos anais tchecos do tempo dos hussitas, editados como um volume nos Fontes rerum Bohemicarum de Pelzel, Dobrowsky e Palacky. O 5° volume dos Fontes rerum Bohemicarum contém uma edição correta das crônicas mais importantes do tempo dos hussitas, Praga, 1893, a saber as crônicas de Lourenço de Brezova, o Chronicon universitatis Pragensis, e a crônica de Bartossek de Drahonic na edição de Jaroslav Goll. Loserth, le Mémoire du chanoine de Breslau Nicolas Tempelfeld de Brieg sur l'élection de Georges de Podiébrad. Contribution à la critique de l'histoire des hussites de Cochlaus, em Archiv œsterr. Geschichte, t. lxi; Grünhagen, Geschichtsquellen der Hussitenkriege, Breslau, 1871, formando o vie vol. dos Rerum Silesiacarum. As histórias do mestre João Leão (Die älteste Erzählung von der siegreichen Verteidigung der Stadt Brüx gegen die Hussiten, 1421), editadas por Schlesinger, Praga, 1877; Palacky, Urkundliche Beiträge zur Geschichte Böhmens und seiner Nachbarländer im Zeitalter Georgs von Podiébrad, Viena, 1860.
II. Trabalhos. — Loserth, Die Kirchen und Klostersturm der Hussiten, em Zeitschrift für Geschichte und Politik, t. v, p. 259; em vários de seus escritos, notadamente na introdução a Wiclif De eucharistia, Loserth acentuou que os taboritas são discípulos de Wiclif; Preger, Ueber das Verhältnis der Taboriten zu den Waldensern des XIV Jahrhunderts, em Abhandlungen der Münchner Akademie, t. xxviii, fasc. 1; Loserth e Haupt, Waldensertum und Inquisition im s. ö. Deutschland, Friburgo em Brisgóvia, 1890; Bezold, König Sigismund und die Reichskriege gegen die Hussiten, 3 vol., Munique, 1872; Zur Geschichte des Hussitentums, 1874; Théobald, Hussitenkrieg, Wittenberg, 1610; Grünhagen, Die Hussitenkämpfe der Schlesier, 1420-1435; Loserth, Urkund. Beiträge zur Geschichte der hussitischen Bewegung und der Hussitenkriege mit besonderer Berücksichtigung Mährens und der mährisch-hussitischen Söldner. Notizenblatt des Vereins für die Geschichte Mährens und Schlesiens, Brünn, 1896, n. 7, 8, 11, 12. Sobre as controvérsias dos silesianos com os hussitas no tempo de Jorge Podiébrad, existe uma rica bibliografia. Ver Codex diplomaticus Lusatiæ superioris II, que contém as origens da guerra hussita na Alta Lusácia.
P. MONCELLE.
Autor original: P. Moncelle
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