HUS (JOÃO)

HUS (JOÃO)

HUS (segundo a grafia eslava hoje naturalizada) João. I. Juventude e estudos. II. Meio teológico, eclesiástico e nacional boêmio em 1400. III. Hus em face da Igreja romana e do papado. IV. Erros de Hus segundo os seus livros. V. O concílio de Constança e a morte de Hus. VI. Conclusão.

I. Juventude e estudos. — Nascido em Hussinetz (Hussinec), pequena localidade situada perto de Prachatitz, na Boêmia do sudoeste, não longe das fronteiras da Baviera. João devia juntar ao seu prenome o nome de sua cidade natal. Chamou-se desde o início e assinou Johannes de Hussynecz, abreviadamente Johannes Husz, como ele próprio o escreveu, desde que se tornou magister. O dia e o ano de seu nascimento nada têm de certo. A data de 1369 é gratuita. Seria antes necessário recuá-la alguns anos. Quanto a 6 de julho, os hussitas o celebram como uma festa, mas é a data de sua morte. Tcheco de pura raça, João Hus pertencia a uma família pouco abastada, e que permaneceu pobre. Nos últimos anos de sua vida, desejava para os filhos de seus irmãos que aprendessem um ofício. Ele próprio levou toda a vida uma existência de necessidades. E, no entanto, segundo as suas confissões, foi por esperanças de vida cômoda, e não por vocação interior, que se sentira atraído para o clero.

João Hus fez seus estudos superiores em Praga, cuja universidade acabava de ser fundada por Carlos IV de Luxemburgo em 1348. Eles não deixaram marca; foi um estudante comum. As citações eruditas de que faz alarde em seus escritos são, quase sem exceção, puro plágio dos escritos de Wiclif. Segundo Estanislau de Znaim, que foi por muito tempo o caloroso amigo de Hus, antes de tornar-se seu adversário declarado, o mestre Alberto Ranconis teria tido então sobre o seu aluno a mais ampla influência. Aliás, patriotas como Andréas von Brod e Stephan von Palecz, que Hus frequentava na universidade, exaltavam-no ainda mais em seu amor ao povo tcheco. Mas já o arrebatamento e a pretensão temerária formavam o fundo de seu ser. Chicaneiro e matreiro durante seus anos de estudos, algum tempo antes de sua morte censurava ainda o seu espírito de vaidade.

Bacharel em artes liberais em 1393, era, em 1394, bacharel em teologia, para tornar-se, em 1396, mestre em artes liberais. Nunca alcançou a dignidade de doutor. Mas sua autoridade na universidade não devia ressentir-se disso. Ordenado sacerdote em 1400, era decano da faculdade de filosofia em 1401; no ano seguinte, as funções de reitor lhe foram confiadas. Exerceu-as de outubro de 1402 a abril de 1403. Obtinha ao mesmo tempo a cátedra de pregador na grande igreja de Belém, fundada em 1391 para a pregação em língua eslava na velha Praga. Dessa espécie de «universidade popular», por seus discursos em língua tcheca, inflamando uma multidão imensa, tornava-se o apóstolo das reivindicações boêmias.

II. Meio teológico, eclesiástico e nacional boêmio em 1400. — Um confluente de doutrinas de ordem geral e de ordem regional se produzira nas margens do Moldava no início do século xv. Elas tinham suas causas particulares, e todas reagiam umas sobre as outras. Levadas ao paroxismo por temperamentos eslavos, não encontraram nem a calma do meio, nem a serenidade das almas, nem a distinção dos espíritos que teria exigido o seu exame pacífico.

Os erros teológicos do século xiii haviam deixado seus vestígios na Boêmia. O vulcão oculto, cuja primeira manifestação fora o movimento valdense, e que o fanatismo dos espirituais e dos joaquimitas havia por muito tempo alimentado no seio da Igreja, irrompera na Inglaterra, quando João Wiclif, com uma violência até então inaudita, atacara o papado como sendo o próprio anticristianismo, e rejeitara abertamente toda uma série de dogmas, derivando toda verdade da só Escritura, e toda salvação da predestinação absoluta. Mas fora na Boêmia que o pai dos valdenses, Pedro Valdo, encontrara um refúgio para ali morrer. Espalhados, por volta de 1250, nas confins da Áustria, seus discípulos mostraram no solo da Boêmia as particularidades que os haviam feito chamar cátaros: desprezo dos sacramentos, ódio ao papa, selvageria grosseira. Chamaram-se menos valdenses que «irmãos e irmãs da pobreza voluntária e do livre espírito». No tempo do imperador Luís da Baviera (1314-1347), apostólicos e dulcinianos vinham juntar-se a eles. Ver t. i, col. 1632-1634; t. iv, col. 1859-1861. Sua expansão permaneceu sobretudo limitada ao sudoeste do país. Era a região onde, vinte anos mais tarde, devia nascer João Hus.

Aliás, a autoridade eclesiástica já se havia comovido com essas retomadas heréticas, nas quais os concílios ecumênicos, em diferentes épocas, tiveram mais ou menos de intervir desde as origens apostólicas. O concílio de Viena de 1311-1312, no qual estava presente João, bispo de Praga, decidira a ereção de um tribunal de Inquisição em todos os centros importantes. Em Praga, fora estabelecido no convento dos dominicanos. Em 1318, quatorze valdenses ali eram condenados ao fogo. O próprio bispo tivera de responder em Avinhão por seus protestos contra essa execução. E, apesar de tudo, a heresia conservara todos os seus direitos. Em 1340, Ulrick de Neuhans, dando-se conta da malícia do erro no reino, obtinha do papa uma indulgência para combatê-lo. Em 1342, a Inquisição funcionava novamente na cidade de Praga.

Ela não suprimiu as doutrinas valdenses; no tempo de Hus, sessenta anos mais tarde, elas ainda tinham os seus adeptos. Eles deviam ser os primeiros a saudar os discursos do pregador de Belém. Estavam então reforçados pelo elemento wiclifista boêmio. Desde 1382, com efeito, o casamento da irmã do imperador Venceslau VI com o rei da Inglaterra Ricardo II criara uma corrente de relações entre as margens do Moldava e as do Tâmisa. Os escritos de Wiclif foram conhecidos em Praga dessa maneira. O estudante João Hus, já em 1398, estava familiarizado com eles. Transcrevia então de próprio punho o tratado De veris universalibus. É certo que foi sobre a questão dos universais que ele entrou em contato com o mestre de Oxford. Muito antes de seus pensamentos de reforma, apropriara-se de seu realismo filosófico.

Em 1393, Hus pensava tão pouco em atacar a Igreja romana, que estava, ao contrário, cheio da mais profunda dedicação por seus tesouros de graça. Dirá mais tarde que, «enganado, de maneira frívola, pela pregação das indulgências, oferecia então seus quatro últimos grosch para participar da indulgência escarnecida pelo mestre Rohle». «Oh! exclama ele nesse momento, enganam-se aqueles que, prostrados diante do papa e de tudo o que ele faz, o tomam por bom como eu mesmo o fiz, antes que aprendesse a conhecer a santa Escritura e a vida do Salvador.» As fontes contemporâneas e posteriores são unânimes em reconhecer que foram os livros de Wiclif que o orientaram.

A universidade de Praga não permanecera alheia à questão do nominalismo e do realismo. Muito pelo contrário, estava ardentemente dividida por ela; em Praga como em Paris, os alemães haviam permanecido nominalistas inveterados. Os tchecos eram realistas. A alma eslava conservara toda a sua fé na realidade das categorias. Combativa, sonhadora, não acreditava poder agir senão apoiando-se na necessidade das noções gerais. Wiclif, realista quase até o panteísmo, foi estudado por gosto, por um sentido de parentesco de alma, na capital boêmia. Suas teorias sobre a predestinação eterna e necessitante, suas visões sobre a Igreja espiritual e ideológica estavam demasiado em função de seu realismo excessivo para que os partidários deste último não adotassem muito depressa as primeiras. Desde 1400, numerosos e pesados erros já haviam feito o seu caminho. Mas a situação se tornara insuportável desde que, em 1401, Jerônimo de Praga trouxera de volta de Oxford a Praga o famoso Trialogus, de Wiclif, no qual três personagens, a Verdade, a Mentira e a Prudência, dissertam juntas sobre as questões religiosas e professam os erros enunciados pelo mestre em Oxford. Ver Wiclif. Em substância, esses erros arruínam toda liberdade humana, toda hierarquia social, todo direito de propriedade, e desembocam na desordem e na licença. Hus ficou muito impressionado com eles. Afirmou num discurso acadêmico que reconhecia ter lido e estudado os livros de Wiclif, que havia tomado deles muita coisa boa. Iludia-se a si mesmo, proclamando por outro lado que era somente à Escritura que queria guardar a sua obediência reverente. Já inteiramente subjugado por Wiclif.

O meio eclesiástico boêmio, longe de lhe fazer barreira, fornecia então todas as armas à agitação. Os séculos xi e xiii haviam assinalado no mais alto grau os perigos do laicismo na Igreja. No fundo, apesar das grandes lutas dos Gregório VII, dos Inocêncio III, dos Alexandre IV, nada fora corrigido no Sacro Império Romano Germânico. Desde o grande interregno (1254-1273), o imperador devia mais do que nunca fazer-se aceitar, e fazer-se perdoar o seu título, concedendo prebendas à oposição em seus Estados particulares. No século xiv, a casa de Luxemburgo-Boêmia fora investida da coroa imperial. Foi na Boêmia que os abusos na nomeação para os benefícios eclesiásticos foram mais sensíveis. Sem dúvida, as desordens não atingiam ali o grau de dissolução que provocara o Gomorrhianus de um Pedro Damião em 1049. Sem dúvida também, o clero boêmio se gloriava então do cônego João Nepomuceno que, em 1383, dava a vida para guardar o segredo profissional e confessional. Mas, em todo o país, os protestos se elevavam cerrados contra as colações indevidamente praticadas dos cargos e rendas dos bispados e paróquias; como sempre, para corrigir o abuso, ia-se longe demais; atacava-se frequentemente a própria legitimidade do direito de propriedade para a Igreja. E as queixas eram formuladas por uma pequena nobreza necessitada, por um inumerável baixo clero, que lamentavam que muito poucos benefícios e muito poucos postos fossem reservados ao povo crente. » Em suma, era a opinião inteira, era o país que estava descontente.

A pregação era negligenciada, e quando de tempos em tempos um pregador, animado pela salvação das almas, se apresentava no púlpito, encontrava sempre um enorme auditório. Entre 1360 e 1369, Konrad de Waldhausen foi poderoso em Praga. Repreendendo de maneira vigorosa os monges franciscanos em seus desejos de riquezas, conquistara fiéis. De 1363 a 1374, Militsch von Kremsier levara uma parte do povo de Praga a uma vida mais piedosa, preparando as almas para uma recepção mais frequente dos sacramentos. Essas pessoas, aliás, de uma sinceridade fora de dúvida, nunca quiseram romper a unidade.

É erradamente que se os chama de precursores do movimento hussita. João Hus nada tem a ver com eles. Universitário, doutrinário, sustentou uma doutrina de escola, que construiu segundo Wiclif, e que teria sustentado independentemente de qualquer meio propício ou não. Os fatos que acabamos de lembrar mostram sobretudo como o pregador de Belém vai ser seguido; ele não buscou ali a razão profunda de suas teses. Elas caíam, contudo, no quadro mais bem preparado, e por efeito do lamentável cisma que dividia o papado desde Urbano VI (1378), não deviam encontrar de imediato o antídoto enérgico contra a sua propagação. É bem, com efeito, uma crise de autoridade das mais graves que a Igreja atravessa em 1400. E se, na Boêmia, ela se faz sentir mais, é que uma questão de nacionalidades vem enxertar-se nela.

A universidade de Praga estava dividida, como a de Paris, entre quatro nações: Boêmia, Baviera, Saxônia, Polônia; os tchecos viam na superioridade numérica dos alemães, aos quais se juntavam frequentemente os poloneses, um atentado a seus direitos. O usufruto das fundações provocava violentas disputas, e as discussões sobre questões de técnica, como a do nominalismo e do realismo, que deveriam ter permanecido na serenidade da escola, faziam ver demais alemães nominalistas, mas alemães primeiro, nominalistas depois, lutando com aspereza contra tchecos, realistas sem dúvida, mas tchecos antes de tudo. No exercício das funções religiosas, a reserva feita pela opinião sobre a incapacidade moral e doutrinal das criaturas imperiais duplicava-se de um agravo ainda mais grave, que se fazia ao intruso alemão. Como as prebendas boêmias, a administração boêmia era entregue aos alemães como hipoteca legal do voto de Frankfurt-sobre-o-Meno, cidade onde se elegiam os imperadores. E, contra essa situação, o povo tcheco não tinha recurso.

Venceslau, rei da Boêmia e imperador do Sacro Império Romano Germânico, depois de começos de sabedoria, logo se mostrara avaro, devasso, cruel. Inteiramente entregue a uma vida vergonhosa, não tomava mais nenhum cuidado com os negócios públicos, e, depois de ter merecido a dupla alcunha de Ébrio e de Preguiçoso, chegava em 1400 a uma obscura deposição, que aliás não aceitava. Conservando o título de rei da Boêmia, até a sua morte devia permanecer sem prestígio, sem autoridade, sem valor diante de Roberto da Baviera (1400-1410), seu sucessor legal à frente do império, até o momento em que abdicava definitivamente o seu título imperial nas mãos de seu irmão Sigismundo (1410). Presa da alta nobreza e do alto clero alemães, o povo da Boêmia e o de Praga, em particular, podiam exasperar-se. O eslavo é pronto ao devaneio; oprimido, sempre acreditou no libertador, com uma facilidade que aliás só tinha igual na sua falta de discernimento. Em 1402, João Hus lhe aparecia como o seu homem, o seu defensor, o seu teólogo, o seu sacerdote, o seu herói nacional. João Hus via nele o seu discípulo, o seu fiel, o seu irmão oprimido; é com esse triplo título que vai começar o seu apostolado.

III. Hus em face da Igreja romana e do papado. — Disse-se que o hussitismo, nos dez primeiros anos do século xv, não era outra coisa senão o wiclifismo transplantado para o solo da Boêmia, e é bem sobre a questão wiclifista que se produziram os primeiros atritos entre Hus e a autoridade eclesiástica. Em 28 de maio de 1403, diante das proporções tomadas pelos erros de Wiclif, a universidade de Praga, durante a vacância da sé arquiepiscopal, mandara extrair das obras do mestre de Oxford 45 proposições, das quais 21 já censuradas pelo concílio de Londres de 1382, dito do «Terremoto», e as outras 21 reunidas pelo mestre Hübner. João Hus protestou. Para ele, as 21 proposições, redigidas num resumo que desfigurava a doutrina de Wiclif, eram apresentadas de maneira mentirosa. Os mais antigos wiclifistas, dizia ele, ofereciam-se mesmo a demonstrar que nenhuma das 45 proposições era errônea. A grande maioria da universidade passou adiante: decidiu que, sob pena de perjúrio, ninguém podia sustentar esses artigos, publicamente ou em particular, ensiná-los ou pregá-los. Hus nem por isso deixou de traduzir o Trialogus em língua tcheca. Era a obra mestra de Wiclif posta ao alcance dos leigos de Praga.

É muito interessante notar que o novo arcebispo Sbinko von Hasenbourg inaugurou suas funções em 1403 com um tato todo particular em relação a Hus. Querendo atenuar a crise e acalmar os espíritos, julgou necessário fazer algumas aproximações ao antigo reitor, para lhe mostrar bem que não se tratava de pessoas. De 1405 a 1407, João Hus, gozando da mais alta consideração, foi chamado, como pregador sinodal, a fazer ao clero de Praga a exortação habitual, e quando estendeu a sua censura aos bispos, aos cardeais, ao papa, sem excetuar ninguém, a aprovação episcopal não lhe faltou sequer. O caso de Wilsnack mostrou o bom entendimento de Hus e do arcebispo. Tornado atento, por seu pregador sinodal, aos abusos que se faziam da relíquia do precioso Sangue conservada nessa localidade, Sbinko von Hasenbourg proibiu ali as peregrinações.

Para justificar a medida, Hus, a pedido do arcebispo, escreveu seu memorial De omni sanguine Christi glorificato. Nele pede ao cristão que não procure sinais e milagres e que se atenha à Sagrada Escritura. Entretanto, seus sermões sobre a avidez e a vida desordenada do clero haviam provocado escândalo. Foi denunciado a Roma, ao mesmo tempo em que se informava a cúria dos progressos da heresia wiclifista na Boêmia. Inocêncio VII ordenou ao arcebispo que agisse. Sbinko von Hasenbourg, depois de ouvir alguns wiclifistas, que aliás usaram de subterfúgios, contentou-se em decidir que ninguém mais devia fazer do alto do púlpito discursos declamatórios para suscitar escândalos entre o povo. Ao mesmo tempo, destituía Hus de suas funções de pregador sinodal (1407). É verossímil que tenha sido nesse momento que Hus compôs seu tratado De arguendo clero pro concione, para justificar sua conduta. Entrava então na plenitude de suas doutrinas. A questão da neutralidade, levantada pelo concílio de Pisa (1409), e a das indulgências, posta em 1412 a propósito da cruzada pregada por João XXIII contra Ladislau de Nápoles, deviam fazer de Hus um herege formal, comprometendo-o a fundo na crise wiclifista. A primeira ia separá-lo definitivamente da autoridade episcopal e pontifícia; a segunda devia suscitar-lhe os ódios mais ásperos da universidade, onde seus amigos mais fervorosos iriam tornar-se inimigos declarados.

— 1° A questão da neutralidade e a questão wiclifista. O imperador Venceslau não se havia conformado com a deposição que lhe fora imposta por seus pares em 1400. Por todos os meios, esperava recuperar o posto frente a seu rival e substituto, Roberto da Baviera. Contou primeiro com o papa de Roma, Gregório XII, que conservara a obediência alemã, para realizar seus projetos. Em 1408, Gregório XII censurava o arcebispo Sbinko porque o erro de Wiclif sobre a eucaristia se espalhava pela Boêmia e porque o rei protegia os que o difundiam. Venceslau ordenou o confisco de todos os escritos wiclifistas e sua entrega imediata à cúria arquiepiscopal. Mas, em 1409, o concílio de Pisa, pensando fazer cessar o cisma pontifício pela renúncia dos dois titulares, elegia papa o arcebispo de Milão, sob o nome de Alexandre V. Gregório XII, forte de suas amizades alemãs, recusou-se a abdicar. O rei da Boêmia, que não obtivera dele o que desejava, ordenou a seus prelados a mais completa neutralidade a seu respeito. O arcebispo Sbinko recusou separar-se de Gregório XII. Na universidade, somente a nação boêmia se pronunciou pela neutralidade. Seu chefe era João Hus. Diante das solicitações deste e dos outros mestres tchecos, Venceslau, irritado, fez publicar o decreto de 19 de janeiro de 1409. Em todos os assuntos da universidade, a nação boêmia deveria doravante ter três votos, ao passo que as três nações estrangeiras se viam reduzidas a um voto. Era uma inversão de influência. O sangue falou em Hus do alto do púlpito, por amor ao rei; ele exaltou seu povo. Os alemães replicaram. Não conseguiram fazer retratar o decreto. Seguiu-se, no curso do verão, o êxodo em massa de milhares de doutores e estudantes, que foram fundar a universidade de Leipzig. A de Praga já não era, de fato, senão uma escola superior nacional tcheca, por ora a cidadela do wiclifismo. O arcebispo Sbinko ficava isolado; Hus, no auge da influência, tornava-se o primeiro reitor da nova universidade (outubro de 1409). Os favores da corte, os da rainha Sofia, que tinha por ele profunda inclinação, lhe estavam assegurados.

Mas, já em setembro de 1409, o espírito arguto de Sbinko von Hasenbourg, tendo percebido muito bem que uma situação levada ao paroxismo só beneficiava os wiclifistas, que disso se regozijavam, decidiu-se, para o bem da paz, a aderir ao eleito de Pisa, o papa Alexandre V. As teorias wiclifistas submergiam cidade e campo. O arcebispo ganhou o ouvido da cúria, afirmando que todo o câncer estava ali. O clero tornara-se ingovernável; as censuras da Igreja eram desprezadas. E eram de fato, dizia ele, os wiclifistas que haviam convencido os barões de que cabia aos leigos dirigir o clero e de que o rei tinha o poder de pôr a mão nos bens da Igreja. Diante dessas representações, em 20 de dezembro de 1409, Alexandre V lançou sua bula contra os wiclifistas. Foi publicada em 9 de março de 1410. Ordenava a entrega de todos os escritos wiclifistas, a retratação de todas as doutrinas que continham, e proibia toda pregação fora das igrejas catedrais, colegiadas, paroquiais ou claustrais. O sínodo de Praga (junho de 1410) tomou as disposições para a execução conforme. Hus, atingido como pregador de uma capela particular pela proibição de pregar, declarou que a proibição contrariava as ordens de Cristo; dirigiu ao novo papa João XXIII, em nome da universidade, da nobreza e do povo, um apelo contra a interdição de pregar e contra a queima dos escritos de Wiclif. Sbinko passou adiante. Em 16 de julho, no Hradschin, na presença do capítulo e de numerosos sacerdotes, mandou queimar os livros entregues, entre eles 200 manuscritos, alguns dos quais preciosamente encadernados. Sem dúvida, apenas uma pequena parte dos livros espalhados por Praga havia sido entregue.

E no entanto a medida excitou na cidade um levante indescritível, tanto mais que, dois dias depois, o arcebispo pronunciava a excomunhão contra Hus e seus partidários. As cenas tumultuosas se renovaram nos arrabaldes. Sbinko foi vaiado em canções, e o ofício divino foi interrompido. O próprio governo condenou o arcebispo a indenizar os proprietários dos manuscritos queimados, fazendo, porém, calar as zombarias contra ele. O orgulho de Hus não cedera. Já não tinha atrás de si apenas a Boêmia, mas toda a Inglaterra dos lolardos. Continuava a defender as obras de Wiclif em discussões públicas. «O povo da Boêmia inteiro, escreve ele então, tem sede de verdade, não quer conhecer nada além do Evangelho e das Epístolas, e por toda parte onde, em alguma cidade, aldeia ou castelo, aparece um pregador da santa verdade, é um rio de povo que ali acorre em multidão. Nosso rei, toda a sua corte, os barões e o povo comum estão pela palavra de Cristo.» Manteve suas pregações na capela de Belém; seu tom tornou-se cada vez mais audacioso. Num discurso público, voltava-se do púlpito para seus ouvintes: «Quereis pertencer-me?», e o povo respondia: «Sim, queremos pertencer-te.» Em consequência de seu apelo, Hus havia aliás sido citado perante a cúria romana. Com evasivas, não comparecera. No mês de fevereiro de 1411, foi atingido de excomunhão pelo papa. Em 15 de março seguinte, Sbinko mandou anunciá-la na maior parte das igrejas de Praga. Foi para o arcebispo, da parte do rei Venceslau, a explosão de uma cólera que ele não mais devia aplacar. A morte privava logo a Igreja de Praga de seu chefe (28 de setembro de 1411), no momento em que este ainda tentava as últimas tentativas de conciliação. Hus, separado de Roma por suas obstinações wiclifistas, ia agora separar-se de sua universidade, combatendo asperamente a doutrina católica das indulgências.

— 2° Hus e as indulgências. A querela começou desde 1412. A excomunhão não produziu em João Hus nenhuma mudança de ponto de vista; em muitos outros, abriu os olhos. Enquanto se tratara, ao menos aparentemente, de uma disputa de opinião, os mais antigos wiclifistas haviam feito um só corpo com os mais jovens. Tornada aberta a ruptura com a Igreja, muitos hesitaram. No outono de 1411, João XXIII ordenava uma cruzada pública contra Ladislau de Nápoles, protetor de Gregório XII, seu rival obstinado, aliás deposto em Pisa (1409). Em Praga, foi pregada em maio de 1412. O povo foi conduzido às igrejas ao som do tambor; a indulgência era negociada por intermediário para as curas e os diaconatos. Se há medida nas coisas, o método, sem dúvida alguma, evidentemente faltara a ela. Os espíritos prevenidos podiam servir-se dessa inabilidade para clamar simonia. João Hus, reeditando Wiclif e seu famoso protesto contra as indulgências da cruzada de Flandres, 1383, tentou arrastar a universidade a um ataque a fundo.

A faculdade de teologia, com Estêvão de Palecz à frente, recusando-se a segui-lo, pronunciou-se francamente pelo papa. Em 7 de junho de 1412, realizou-se uma discussão na grande sala do Carolinum. A exposição de Hus intitula-se Quæstio magistri Johannis Hus de indulgentiis. A questão posta era assim concebida: «É lícito, segundo a Bíblia, para o bem do povo, para a honra de Deus, para a utilidade dos reinos e dos crentes, apoiar as bulas da cruzada?» A série de suas objeções foi tirada palavra por palavra do último capítulo do livro de Wiclif Sobre a Igreja e de seu tratado De absolutione a poena et culpa. Nenhum papa, nenhum bispo, dizia Hus, está autorizado, em nome da Igreja, a empunhar a espada; deve rezar por seus inimigos e abençoar os que o amaldiçoam. O homem deve obter o perdão de seus pecados por um arrependimento e uma penitência sinceros, e não por dinheiro. Se alguém não é predestinado, a indulgência não pode ajudá-lo, e se alguém é predestinado, o papa não pode sabê-lo. Deve-se resistir às bulas do papa, se são contrárias à Sagrada Escritura. Da universidade, a agitação passou à rua. Jerônimo de Praga reunira os partidários de Hus. Poucos dias depois da apresentação do memorial do chefe, Wok von Waldstein, conhecido também nos meios wiclifistas ingleses, formava uma aglomeração popular, e queimavam-se as bulas papais relativas às indulgências. Era uma retomada das práticas wiclifistas. Opus evang., l. II, c. xxxvii.

«Deve-se, gritava Hus, povo, antes obedecer ao mestre sincero que ao bando de impostores, adúlteros e simoníacos.» O rei Venceslau teve de sancionar. Acusado pelo grande partido adverso de condescendência excessiva para com esse movimento, mandou punir pelos magistrados toda injúria pública ao papa e toda resistência contra suas bulas. Três jovens que, durante o sermão, haviam contradito o eclesiástico e chamado a indulgência de impostura, foram decapitados, apesar do pedido de graça de Hus. Foram os primeiros mártires da Igreja hussita. Cf. Beiträge zur huss. Bewegung, t., p. 354-358. Os adversários chamaram a capela de Belém «a igreja dos três santos». Todas as táticas foram então experimentadas.

A faculdade de teologia começou por exigir que Hus apresentasse seus discursos e seus ensinamentos ao decano para exame. A medida só resultou, afinal, na justificação por Hus dos artigos 13, 16 e 18 entre as 45 proposições censuradas em Wiclif pela universidade desde 1403. Defensio quorumdam articulorum Joannis Wiclif. Cf. Denzinger-Bannwart, Enchiridion, n. 581-625. Os teólogos responderam: Probatio et fundatio doctorum probans indulgentias papales. O arcebispo Albik, sucessor de Sbinko von Hasenbourg, e os legados pontifícios procuraram em seguida levar Hus a aceitar as bulas papais, enquanto o próprio rei Venceslau tentava aproximar os fiéis dos dois campos e Palecz compunha contra seu adversário o Tractatus gloriosus, no caso uma ampliação da Probatio et fundatio. Nada chegava a bom termo. O clero paroquial de Praga, arrastado por Miguel de Causis, voltava-se nesse ínterim para o papa. João XXIII encarregou o cardeal de Santo Ângelo de agir. Este fulminou a grande excomunhão contra Hus, que devia ser preso e entregue ao arcebispo de Praga ou ao bispo de Leitomischl; a capela de Belém devia ser completamente arrasada. Contra essas novas medidas, Hus contentou-se em elevar um apelo ao próprio Cristo; apesar do assalto dado à sua capela de Belém, em 2 de outubro de 1412, continuou suas pregações. Numerosos personagens da corte, com a rainha Sofia à frente, tomaram parte nelas. A única chance que restava doravante de restabelecer a paz era afastar Hus. O próprio rei o instou a partir. O lutador permaneceu na maior parte do tempo no sul do país, nos castelos dos senhores seus protetores, e particularmente em Kozi-hradek. Ali escreveu, polemizou, compôs obras.

Em suas cartas, exortava seus partidários, mais agitados do que nunca, a escutar com aplicação o verbo de Deus, a ater-se à verdade conhecida, a não permitir a destruição de sua capela e a não temer as provocações de seus inimigos. Consolava seus amigos de sua excomunhão; discutia, com vocabulário wiclifista, as razões de seu exílio de Praga; polemizava. Nas duas conferências de Praga, provocadas por Venceslau (Natal de 1412-fevereiro de 1413), a quem suas tribulações políticas haviam mostrado a necessidade de valorizar, fosse como fosse, o elemento tcheco, Hus mostrou, na primeira, a situação necessitada do país e o remédio que ela exigia; afirmou sua boa vontade de justificar-se, mas também a impossibilidade em que estava de deixar seu púlpito e de viver em Praga. Na segunda, convocada para 2 de fevereiro em Böhmisch-Brod e realizada no palácio arquiepiscopal da capital boêmia, Hus escreve apenas: «A Boêmia, sob o aspecto eclesiástico, deve ter as mesmas liberdades que os outros países; as condenações só devem ser aí publicadas com a permissão do poder do Estado.» Era puro Wiclif. Sermones, t. ii, p. 519. «E ainda que eu me encontrasse, nestes dias, diante da fogueira que me é preparada, escreve Hus, jamais reconheceria a assembleia da faculdade de teologia.» E, no entanto, o rei não perdia toda esperança. Uma comissão permanente, dita Comissão de união, foi instituída para trabalhar por uma composição.

O nó da discussão estava inteiramente na discussão da própria essência da Igreja católica. Os doutores exigiam de Hus e de seus partidários o reconhecimento de seu sumário: o papa e os cardeais são, o primeiro, a cabeça, os segundos, o corpo da Igreja. Deve-se obedecer a todas as suas ordens. Hus continuava a insurgir-se vivamente contra esses pontos de vista. Toda a polêmica deu lugar a uma série de escritos. Os dois partidos procuravam escorar explicitamente suas proposições; suas justas encontraram eco nos memoriais de André de Brod, de Estanislau de Znaïm e de Estêvão de Palecz. Cf. Beiträge zur huss. Bewegung, t. iv, p. 315 sq. João Hus respondera a eles com sua obra capital De Ecclesia, cujos dez primeiros capítulos não passam de um plágio da obra de mesmo nome de Wiclif; seu livro ainda não impresso Von der Gewalt des Papstes não teve mais personalidade. Wiclif sustentara, contra a opinião de seu tempo, que a Igreja não é composta somente do papa, dos bispos e dos sacerdotes. Para João Hus, não havia outra conclusão. Escrevera seu De Ecclesia em Kozi-hradek, onde devia erguer-se mais tarde, em lembrança de sua atividade pastoral pelos seus, a cidade de Tabor, a capital de seus discípulos. Enviou sua obra a Praga, onde foi lida publicamente em 8 de julho de 1413, na capela de Belém. Foi então uma wiclifolatria. As obras inglesas do mestre de Oxford foram lidas no templo e, em suas paredes, inscreveram-se as principais proposições de Hus. Na cidade e no campo, tudo cedia doravante.

Hus dizia a verdade ao concílio de Constança quando lhe lançava esta apóstrofe: «Vim aqui livre: ainda que não o tivesse querido, o rei (Sigismundo), tanto quanto (Venceslau), não teria podido impedir-me, pois os senhores da Boêmia que me amam são numerosos e poderosos. Teria podido proteger-me em seus castelos.» Hus tornara-se o chefe da Boêmia, e Venceslau desferia ainda um último golpe em seus adversários, retirando dos alemães, no conselho da cidade, a direção única dos negócios e colocando, ao lado deles, uma delegação igual de tchecos.

Aliás, o wiclifismo boêmio penetrava já na Polônia, na Hungria, na Croácia, na Áustria. Para Hus, o concílio geral de Roma (janeiro de 1413) nada significara. Hus não vira nele senão uma «assembleia de contrabando», frequentada por monges e simoníacos. Era preciso, pois, sancionar numa grande assembleia católica, para extirpar a heresia. Em maio de 1414, o chanceler da universidade de Paris, Gerson, escrevia ao arcebispo de Praga e lhe representava a necessidade de combater os ensinamentos perigosos de Wiclif com o auxílio do braço secular. Um concílio geral acabava de ser convocado em Constança para 1° de novembro. Sigismundo, irmão de Venceslau, futuro herdeiro do rei da Boêmia, Venceslau, e já imperador do Sacro Império Romano Germânico desde 1410, tomou o assunto em mãos. Sem grandes dificuldades, persuadiu Hus a dirigir-se ao concílio para justificar-se. O mestre, como o provam os discursos que pronunciou em Constança, esperava bem fazer efeito e converter os Padres ao wiclifismo. O imperador Sigismundo prometeu-lhe um salvo-conduto. Datado de Espira (18 de outubro de 1414), estava redigido nestes termos: «Sigismundo, pela graça de Deus, rei dos romanos..., a todos os príncipes eclesiásticos e seculares, e a todos os nossos outros súditos, saudação. Recomendamos-vos com plena afeição, a todos em geral e a cada um em particular, o honrado mestre João Hus, bacharel em teologia e mestre em artes, portador das presentes, que vai da Boêmia ao concílio de Constança, o qual tomamos sob nossa proteção e salvaguarda, e sob a do império, desejando que o recebais bem e o trateis favoravelmente, fornecendo-lhe tudo o que lhe for necessário para apressar e assegurar sua viagem, por água e por terra, sem nada tomar dele nem dos seus, nas entradas e nas saídas, por qualquer causa que seja, e convidando-vos a deixá-lo livre e seguramente passar, permanecer, deter-se, voltar, provendo-o mesmo, se for necessário, de bons passaportes, pela honra e respeito de sua majestade imperial.»

Três senhores da nobreza boêmia tinham a incumbência de velar pela segurança de Hus durante a viagem e o concílio. Munido em Praga de todos os testemunhos que podiam provar sua ortodoxia, depois de ter, como no pensamento de uma morte próxima, posto ordem em seus negócios, Hus pôs-se a caminho. «Era, escrevia ele a Sigismundo, para reconhecer Cristo publicamente ou, se fosse necessário, sofrer a morte por sua lei.» Em 3 de novembro, estava em Constança. Ia ali ser examinado sobre seus erros. — IV. Erros de Hus segundo seus livros. É wiclifismo. Ver Wiclif. Cf. Constança (Concílio de), t. iii, col. 1214 sq. Denzinger-Bannwart, Enchiridion, n. 627-656. — V. O concílio de Constança e a morte de Hus. Condenado no concílio de Constança por seus erros teológicos, João Hus pereceu na fogueira em 6 de julho de 1415. Ver Constança (Concílio de), t. iii, col. 1214-1217.

— VI. Conclusão. Os erros de Hus são fundamentais. Discípulo de Wiclif, antes de ser fiel da Escritura, não a possui integralmente. Doutrinário, chocou-se violentamente com o mistério: a questão da liberdade humana e da presciência divina, a questão da transubstanciação não encontraram graça diante dele; por ser espírito unicamente lógico, não respeitou os textos escriturísticos, nem conheceu a tradição. Decretou, a priori, impossibilidades nesses assuntos. A apologética católica vê nele um negador da Igreja. Espírito indisciplinado, sem medida, não compreendeu que os abusos numa instituição são contingências inevitáveis que de modo algum diminuem seu valor intrínseco, aliás doutrinal e experimentalmente demonstrado. Confundiu reforma com supressão. A sociedade civil também com razão lhe censura ter abalado suas bases. O poder depende de um contrato coletivo. Seus direitos não são diminuídos por decadências individuais que não atingem as obrigações sinalagmáticas. Anarquista, ideólogo, Hus é eslavo e, por conseguinte, algômano. A sensibilidade é nele doentia. Por mais generosa que tenha sido, não poderia iludir quanto a seu espírito falso. Tenor teatral, jamais esqueceu que toda uma nação olhava para ele com ardor apaixonado. E é desse ponto de vista que convém atenuar os louvores dirigidos por seus partidários a seu heroísmo. A obstinação, em todos os domínios, jamais comoveu senão uma pseudopiedade.

A Igreja fez tudo, aliás, até o concílio de Constança, para não chegar ao irreparável. Cumpre, entretanto, lamentar altamente o mal-estar religioso causado pelas desordens eclesiásticas e pelo lamentável cisma pontifício da época. O erro, qualquer que seja, é sempre o erro. Mas, junto às multidões simplistas, é menos especioso quando não tem aparência de justificação. Hus permanece o apóstolo da consciência nacional do povo tcheco. Se a Igreja do tempo tivesse sido suficientemente liberta de um laicismo germânico ameaçador para as liberdades boêmias, se estivesse munida de sua autoridade pontifícia única e incontestada, teria sido mais forte para mostrar a Hus e a seus adeptos que nada tinha a ver com seu nacionalismo. Fora e acima dos partidos, teria aparecido, com sua doutrina, unicamente religiosa. As duas questões teriam permanecido separadas.

A história da Igreja demonstra que as franquias de um povo jamais tiveram de sofrer por causa de sua lealdade diante da doutrina romana integral.

Falta uma edição crítica das obras de Hus. Atribuíram-se-lhe numerosas obras que na realidade pertencem a Wiclif ou a seus discípulos. Cumpre também fazer algumas observações prévias. Os tchecos tiveram como adversários escritores hábeis na arte de bem dizer. Não se poderia consultá-los sem circunspecção. Tais são Eneias Sílvio, Cochlæus, Hajek. O hussitismo foi esmagado no início da guerra dos Trinta Anos. O governo austríaco nada omitiu para destruir a lembrança de uma época de revolta: os arquivos desaparecerão por obra dos jesuítas ou dos funcionários austríacos, da ignorância ou do desleixo. No fim do século XVIII, a criação de uma cátedra pública de tcheco em Praga marca o começo de um renascimento político e literário na Boêmia. Os primeiros trabalhos consagram-se ao hussitismo. O Sr. Palacky, nomeado historiógrafo pelos Estados, reuniu uma falange de escritores a partir de 1829. É desse momento que data a documentação mais controlada sobre Hus e o hussitismo.

I. Fontes. A velha edição das obras de Hus: Johannis Hus et Hieronymi Pragensis historia et monumenta, 2 vol., Nuremberg, 1558, e 1 vol., Frankfurt, 1715, é hoje totalmente insuficiente. Do mesmo modo as obras de João Hus, em língua tcheca, editadas por C. J. Erben, Praga, 1685-1686. As obras originalmente próprias de Hus não aparecem aí distinguidas. As obras de Wiclif que Hus transcreveu quase palavra por palavra: De Ecclesia, Sermones, De potestate papæ. D. S. Schaff, A translation of John Huss, The Church, with notes and introduction, in-8°, Nova York, 1915. Palacky, Documenta mag. Joannis Hus vitam, doctrinam, causam, in Constantiensi concilio actam, et controversias de religione in Bohemia anno (1403-1418) motas illustrantia, in-8°, Praga, 1866. Esta coletânea contém as cartas, acusações e respostas de Hus, as relações de seu companheiro e compatriota Pedro de Mladenowitz e documentos autênticos sobre a batalha religiosa na Boêmia de 1403 a 1418. Suplementos mais importantes às cartas de Hus encontram-se no memorial de Nedoma, Boleslavský Kodex z doby husitské, que contém 8 cartas de e para Hus. Os sermões de Hus sobre os evangelhos dos domingos e das festas, traduzidos por Nowotny para o alemão, Görlitz, 1855, 2 fascículos. As cartas de J. Hus, traduzidas para o alemão a partir do texto tcheco original por F. B. Mikowec, Leipzig, 1849. Martène e Durand, Veterum scriptorum et monumentorum historicorum, dogmaticorum, moralium amplissima collectio. Mansi, Conciliorum nova et amplissima collectio, Florença, 1757, sobretudo os t. xxviii-xxxi. Hermann von der Hardt, Concilii Constantiensis libri IV, Frankfurt e Leipzig (1695-1699).

Höfler, Concilia Pragensia (1353-1413), em Abhandlungen der Königl. böhmischen Gesellschaft der Wissenschaften, 5ª série, t. xii; Geschichtschreiber der hussitischen Bewegung in Böhmen, 3 in-8°, Viena, 1856-1866; em Fontes rerum Austriacarum, Viena, 1856-1866, part. I, t. ii, vi, vii. No 1° desses volumes, encontrar-se-ão as histórias de Lorenz von Brezova e de Pedro de Mladenowitz, que serão mais bem utilizadas do que nos documentos da edição Palacky; no 2°, a grande crônica dos taboritas de João de Lukawetz e de Nicolau de Pelhrimow; e no 3°, a tradução alemã dos anais tchecos do tempo dos hussitas editados nos Fontes rerum Bohemicarum de Pelzel, Dobrowsky e Palacky; Urkunden zur Beleuchtung der Geschichte Böhmens und des deutschen Reiches im XV Jahrhundert, em Abhandlungen der Königl. böhmischen Gesellschaft der Wissenschaften, Praga, 1865. Palacky, Urkundliche Beiträge zur Geschichte des Hussitenkrieges von 1419-1430, 2 vol., Praga, 1873; Urkundliche Beiträge zur Geschichte Böhmens und seiner Nachbarländer im Zeitalter Georgs von Podiebrad, Viena, 1860; Litterarische Reise nach Italien, Praga, 1838, contém uma curta biografia de Sigismundo por Eneias Sílvio e o Tractatus de longævo schismate.

Loserth deu uma contribuição ao estudo do movimento hussita, em Archiv für öst. Geschichte, t. lv-lvii, lx, lxxv, lxxxii: a) Codex epistolaris des Prager Erzbischofs Johann von Jenzenstein; b) a vida e os escritos do mestre Adalbertus Ranconis de Ericinio; c) o importante tratado de Ludolfo de Sagan, De longævo schismate; d) os escritos de polêmica e as negociações de união entre católicos e hussitas, 1412-1413; e) as relações contemporâneas e os velhos fragmentos para a expansão do wiclifismo na Boêmia e na Morávia, 1410-1419. Entre as peças anexas, cumpre notar o n° 1, uma relação contemporânea do fim de Hus. O 5° volume dos Fontes rerum Bohemicarum contém uma edição correta das crônicas mais importantes do tempo dos hussitas, Praga, 1893. Encontram-se aí as crônicas de Lourenço de Brezova, o Chronicon universitatis Pragensis e a crônica de Bartossek de Drahonic na edição de Jaroslav Goll. Cochlaus, Historia hussitarum, Mogúncia, 1549. Deve-se observar que as simpatias católicas do autor o privaram um pouco de serenidade e lhe tiram, por isso, um pouco de objetividade. Cf. Loserth, Le mémoire du chanoine de Breslau Nicolas Tempelfeld de Brieg sur l'élection de Georges de Podiebrad. Une contribution à la critique de l'histoire des hussites de Cochlaus, Archiv für österr. Geschichte, t. xvi.

Grünhagen, Geschichtsquellen der Hussiten Kriege, Breslau, 1871. Cf. o vie vol. dos Scriptores rerum Silesiacarum. As histórias do mestre João Leão, editadas por Schlesinger, Praga, 1877: Die älteste Erzählung von der siegreichen Verteidigung der Stadt Brüx gegen die Hussiten, 1421. A Sociedade para a história dos alemães na Boêmia publicou documentos isolados e observações críticas sobre fontes competentes da Idade Média. O Sr. J. Sedlák iniciou a publicação dos Tractatus causam Mgri Johannis Hus in parte catholicorum illustrantes, fasc. 1, Breslau, 1914.

II. Trabalhos. Observe-se que os mais antigos trabalhos até Palacky, mesmo os de Helfert, Husz und Hieronymus, Praga, 1853, envelheceram. Palacky, Histoire de Bohême, Praga, 1845-1867. A maior parte é consagrada ao hussitismo, t. iii, 1, 3; t. iv, 1 e 2; t. v, 1 e 2: Ueber die Beziehungen und das Verhältnis der Waldenser zu den ehemaligen Sekten in Böhmen, Praga, 1869; Die Vorläufer des Hussitentums in Böhmen, Praga, 1869; Schlesinger, Geschichte von Böhmen, Praga, 1869; Höfler, Magister Johannes Hus und der Abzug der deutschen Studenten und Professoren aus Prag, 1864; Berger, Johannes Hus und König Sigmund, Augsburgo, 1871; O. Lechler, Johannes Hus und Wiclif und die Vorgeschichte der Reformation, Leipzig, 1872; o 2° volume trata do hussitismo. Mais crítico é seu Johannes Hus, Ein Lebensbild aus der Vorgeschichte der Reformation, Halle, 1890, em Schriften des Vereins für Reformationsgeschichte, t. vii, p. 3; Ernest Denis, Huss et la guerre des hussites, Paris, 1878; é uma paráfrase dos trabalhos de Palacky sem estudo pessoal das fontes, apologia apaixonada de João Hus e do hussitismo. A questão do salvo-conduto foi tratada por Uhlmann, König Sigmunds Geleit für Husz und das Geleit im Mittelalter, Halle, 1894; K. Müller, König Sigmunds Geleit für Husz, em Hist. Vierteljahrschrift, 1898; Hefele, Histoire des conciles, trad. Leclercq, Paris, 1916, t. vii, p. 110 sq.; Kocher, Realismus und Nominalismus, Gotha, 1858; Loserth, Der Kampf zwischen Realismus und Nominalismus im Mittelalter, Praga, 1876.

As relações de Hus e de Wiclif foram estudadas por Loserth, Hus und Wiclif, Praga, 1884; trad. inglesa, Wiclif and Hus, Londres, 1884, por Evans. Memoriais: Ueber die Beziehungen zwischen Englischen und Böhmischen Wiclifiten, em Mitteilungen des Instit. für österr. Geschichtsforschung, t. xii, p. 254; Der Kirchen- und Klostersturm der Hussiten, em Zeitschrift für Geschichte und Politik, t. v, p. 259; K. L. Poole, On the intercourse between English and Bohemian wiclifites in the early years of the fifteenth century, em Engl. hist. review, abril de 1892. Ver a bibliografia de Wiclif, no art. Wiclif. E. de Bonnechose, Jean Hus et le concile de Constance, 2ª edição, 2 vol., Paris, 1846. Ver Constança (Concílio de), t. iii, col. 1214-1224. Kirsch e Luksch, Geschichte der katholischen Kirche, edição da Œsterr. Leo-Gesellschaft, Munique, p. 450-457. Pouquíssimas obras dos adversários de Hus estão impressas. Ver Pez, Thesaurus anecdotorum, que contém os escritos do prior cartuxo Stephan von Dolein (S. Josaphat bei Olmütz); Loserth, Die litterarischen Widersacher des Husz in Mähren, em Jahrg. der Zeitschrift des Vereins für Geschichte Mähren, und Schlesiens, 4° fasc.

Citar ainda estas obras, surgidas por ocasião do quinto centenário da morte de João Hus: D. S. Schaff, John Huss, His Life, Teaching and Death, after Five Hundred Years, Nova York, 1915; W. N. Schwarze, John Hus, the Martyr of Bohemia, Nova York, 1915; G. Loesche, Jan Huss, em Evang. kirchliche Zeitung Œsterreichs, 1915, p. 169-172, 185-187, 197-199; Art. Thiv, Johan Hus und seine Zeit, Graz, 1915; A. Hauck, Studien zu Johann Huss, Leipzig, 1916; Pyper, Johannes Hus, em Neue Archiv f. Geschichte, 1916, t. xiii, p. 1-57. Para mais detalhes, ver Ul. Chevalier, Répertoire. Bibliographie, 2ª edição, t. i, col. 2228-2232; Realencycl. für protest. Theol., t. viii e xxv, art. Huss.

P. Moncelle.

Autor original: P. Moncelle

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