HUMBERTO (CARDEAL)

HUMBERTO (CARDEAL)

HUMBERTO, cardeal e beneditino, nascido no começo do século XI, talvez na Borgonha, morto por volta de 1063. Em 1015, seus pais o conduziram à abadia de Moyenmoutier, na diocese de Toul, onde abraçou a vida monástica. Desde sua entrada no claustro, Humberto, sem negligenciar nenhum de seus deveres religiosos, aplicou-se seriamente ao estudo. Dedicando particular cuidado ao grego, logo se viu em condições de traduzir os escritos nessa língua. Dele, o B. Lanfranco pôde dizer que era muito versado nas letras divinas e profanas. Devemos-lhe o Libellus de sancti Hidulfi successoribus in Mediano monasterio. O papa Leão IX, que, sendo bispo de Toul, pudera apreciá-lo, quis tê-lo junto de si e, após o concílio de Reims em 1049, levou-o a Roma. Criou-o logo arcebispo de toda a Sicília; mas Humberto não pôde penetrar nesse país, por causa das incursões dos normandos, senhores da Apúlia e da Calábria. O soberano pontífice nomeou-o então cardeal e bispo de Santa Rufina.

Em 1053, achando-se em Trani, João, bispo dessa cidade, comunicou-lhe uma carta de Miguel Cerulário, patriarca de Constantinopla, e de Leão, bispo de Acrida e metropolita da Bulgária: esses prelados enumeravam nela de novo todos os seus agravos contra a Igreja romana. O cardeal Humberto a traduziu para o latim para dar conhecimento dela a Leão IX, que respondeu logo. Depois, desejando restabelecer a união entre os gregos e os latinos, o papa decidiu enviar três legados a Constantinopla. Para essa delicada missão, escolheu Humberto, bispo de Santa Rufina, Frederico, arquidiácono e chanceler da Igreja romana, e Pedro, arcebispo de Amalfi. Depois de passarem por Monte Cassino para colocar sua missão sob a proteção de são Bento, os legados chegaram a Constantinopla no começo de 1054, e foram aí recebidos com grandes honras pelo imperador Constantino Monômaco.

Humberto trabalhou logo em refutar a carta de Miguel Cerulário e do bispo de Acrida. Entregou seu escrito ao imperador, que o fez traduzir em grego. O legado repele aí as calúnias dos gregos que censuravam os ocidentais por usarem pão ázimo, jejuarem no sábado, comerem sangue e carne de animais sufocados, interromperem o canto do Aleluia durante a quaresma, e justifica os usos dos latinos. Essa resposta não teve nenhum resultado. Foi publicada pela primeira vez em 1604 por Barônio, no t. xi, p. 513, de seus Annales ecclesiastici, in-fol., Veneza; edição in-4°, Bar-le-Duc, 1869, t. xvii, p. 613; e na mesma data por Henrique Canísio, em suas Antiquae lectiones, in-4°, Ingolstadt, 1604, t. v, p. 111, reproduzida por Basnage, no Thesaurus monumentorum ecclesiasticorum, in-fol., Antuérpia, 1725, t. iii, p. 277. Esses autores publicaram ao mesmo tempo o escrito de Nicetas Pectoratus, monge de Estudion, contra os costumes dos latinos, com a resposta do cardeal Humberto. Em sua pequena obra, o monge grego havia mostrado muita altivez e vivacidade; o legado do papa replicou no mesmo tom e teve a felicidade de levar Nicetas a retratar-se e a condenar seu próprio escrito. P. G., t. cxx, col. 1009 e 1021; P. L., t. cxxiii, col. 929 e 983. Ver também C. Will, Acta et scripta quae de controversia Ecclesiae graecae et latinae saeculi undecimi composita exstant, in-4°, Leipzig, 1861, p. 136-150. O Diálogo entre um romano e um constantinopolitano contra Cerulário e Leão de Acrida se encontra também ibid., p. 93-120.

Depois de lançarem uma sentença de excomunhão contra o patriarca Miguel, os legados, que haviam sabido da morte de Leão IX, voltaram a Roma. Dos fatos que se passaram nas últimas semanas de sua legação, o cardeal Humberto deixou um curto relato: Brevis et succincta commemoratio eorum quae gesserunt apocrisiarii sanctae romanae et apostolicae sedis in regia urbe et qualiter anathematizati sunt Michael cum sequacibus suis. P. L., t. cxliii, col. 1001; C. Will, op. cit., p. 150-152. Sob os sucessores de Leão IX, o cardeal Humberto conservou toda a sua influência e tornou-se chanceler e bibliotecário da santa Igreja romana. No concílio de Roma em 1059, foi encarregado de redigir a profissão de fé que Berengário devia subscrever. R. Francke editou uma carta ad Berengarium, na qual o cardeal exorta calorosamente o herege a voltar à resipiscência. Neues Archiv der Gesellschaft für ältere deutsche Geschichtskunde, Hanôver, 1882, t. vii, p. 614 sq.

Possuímos ainda do cardeal Humberto três livros contra os simoníacos. Compôs esse escrito por volta de 1057 para refutar uma obra na qual um escritor do nome de Spinosule se pronunciava em favor das ordenações feitas por simonia ou por prelados eles próprios simoníacos. Como vários de seus contemporâneos, Humberto não hesita em considerá-las não somente ilícitas, mas ainda inválidas. Ver L. Saltet, Les réordinations, Paris, 1907, p. 193-196; cf. p. 186-187. Pretendia também que a missa deles era nula. Procura inspirar um horror profundo à simonia, mostrando as consequências perniciosas e os grandes males que ela causou à Igreja. Esse tratado Adversus simoniacos libri tres foi publicado por dom Martène, em Thesaurus novus anecdotorum, in-fol., Paris, 1717, t. v, col. 629; P. L., t. cxlii, col. 1005. Faltam os nove últimos capítulos. Thaner deu dele uma edição completa e mais cuidada, Monumenta Germaniae historica, De lite imperatorum et pontificum, Hanôver, 1891, t. i, p. 95-253. Ziegelbauer, Historia litteraria ordinis sancti Benedicti, t. i, p. 54-61; t. ii, p. 132; t. iv, p. 73, 82, 126, 210, 272, 327, 652; [dom François], Bibliothèque générale des écrivains de l'ordre de Saint-Benoît, t. i, p. 521; dom Ceillier, Histoire générale des auteurs ecclésiastiques, t. xx, p. 305-437; Histoire littéraire de la France, t. vii, p. 527; Fabricius, Bibliotheca latina mediae et infimae aetatis, Florença, 1858, t. iii, p. 284; Bibliotheca graeca, in-4°, Hamburgo, 1737, t. x, p. 443; Mabillon, Annales ordinis S. Benedicti, in-fol., Luca, 1739, t. iv, p. 226, 421, 464, 501, 562; Humbert Belhomme, Historia Mediani Monasterii, in-4°, Estrasburgo, 1724, p. 237, 239, 244, etc.; L. Jérôme, L'abbaye de Moyenmoutier, in-8°, Paris, 1902, p. 213-229; R. Francke, Zur Charakteristik des Cardinals Humbert von Silva Candida, em Neues Archiv, Hanôver, 1882, t. vii, p. 613 sq. H. Halfmann, Cardinal Humbert, sein Leben und seine Werke, mit besonderer Berücksichtigung seines Traktates « libri tres adversus simoniacos », in-8°, Gotinga, 1883; Hurter, Nomenclator, Innsbruck, 1903, t. i, col. 992-994; A. Fliche, Le cardinal Humbert de Moyenmoutier, na Revue historique, 1915, t. lxix, p. 64; Études sur la polémique religieuse à l'époque de Grégoire VII. Les prégrégoriens, Paris, 1916; R. Parisot, Histoire de Lorraine, Paris, 1919, t. i, p. 265, 289.

R. Heurtebize.

Autor original: B. Heurtebize

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