HUGO DE SAINT-CHER, célebre dominicano e cardeal. — I. Vida. II. Trabalhos e escritos.
I. Vida. — Hugo tomou seu nome do lugar de seu nascimento, situado nos arredores de Viena, no Delfinado, no atual departamento de Isère, e seu nome sofreu também as variações do da localidade. Esta levou primeiro o nome do fundador de sua abadia e chamou-se Saint-Theudère. Como a abadia conservava a cabeça do santo, o burgo tornou-se Saint-Chef (nome que ainda hoje conserva), mas essa nova denominação foi traduzida, no dialeto da Idade Média, por Saint-Chier, de onde veio, quando a língua se depurou, Saint-Cher. Hugo nasceu pelo fim do século XII. Depois de ter verossimilmente feito seus primeiros estudos na abadia de Saint-Chef, foi enviado muito jovem a Paris, onde estudou filosofia e teologia e obteve, nesta última ciência, o grau de bacharel; dedicou-se em seguida ao estudo do direito civil e do direito canônico, e nele teve tal sucesso que abriu um curso de direito e atraiu em torno de sua cátedra grande número de ouvintes que lhe eram muito apegados. Administrava ao mesmo tempo os negócios de Guilherme, quinto filho de Tomás, conde de Sabóia.
Segundo o testemunho de Gérard de Frachet, Humberto de Romans, um dos discípulos de Hugo, delfinês como ele, consultou-o a respeito de sua vocação religiosa: tendo formado outrora o propósito de fazer-se cartuxo, estava ele preso a seu antigo projeto, ou podia seguir o novo atrativo de entrar na ordem dos frades pregadores? Hugo respondeu a Humberto que podia fazer-se dominicano e que ele próprio, assim que estivesse desembaraçado dos negócios de Guilherme de Sabóia, o seguiria nessa ordem. Humberto tomou o hábito no convento de São Tiago, em 30 de novembro de 1225, e Hugo, em 22 de fevereiro seguinte. Por causa de seu mérito, Hugo, segundo um uso bastante comum então, fez seus votos solenes antes que o ano de noviciado estivesse concluído. Seus talentos administrativos o fizeram nomear provincial da província da França desde 1227. Transcorridos os três anos de seu cargo, foi aplicado ao ensino. Em 1230, Rolando de Cremona, o primeiro dominicano que ensinou teologia na Universidade de Paris, tendo recebido a licença, teve sob sua direção, como bacharel, Hugo de Saint-Cher, que, a esse título, explicou a Bíblia. No ano seguinte, Hugo, licenciado ou mestre em teologia por sua vez, assumiu a regência da escola de São Tiago, enquanto Rolando inaugurava a faculdade de Toulouse. H. Denifle, Archiv für Literatur- und Kirchengeschichte des Mittelalters, Friburgo em Brisgóvia, 1886, t. ii, p. 171, 174. Interpretou então o livro das Sentenças.
Ele não foi, como os Padres Touron e Chapotin admitiram contra os Padres Échard e Mortier, um dos quatro núncios enviados em 1233 por Gregório IX a Niceia para tratar, com o patriarca de Constantinopla e o imperador, da união das Igrejas. Nessa época, Hugo ensinava em Paris e, terminado seu curso, tornou-se prior do convento. Em 1238, recebeu pela segunda vez o encargo de provincial e ocupou-se da difusão da ordem na França. Atribui-se-lhe a fundação dos conventos dominicanos de Dijon, Bourges, Auxerre, Coutances, Amiens, Tours, Bergues e Toul.
Em 1235, uma longa discussão havia sido solenemente aberta, sob a presidência de Guilherme de Auvérnia, bispo de Paris, sobre a pluralidade dos benefícios eclesiásticos. Todos os mestres em teologia, com exceção de dois, tinham sido de parecer que a posse de vários benefícios não era lícita; mas nenhuma decisão fora tomada. Três anos mais tarde, em 1238, o bispo reuniu pela segunda vez os doutores no capítulo dos frades pregadores e propôs de novo a questão, que foi muito longamente discutida. Provou-se que dois benefícios, dos quais um valia quinze libras de Paris, não podiam ser possuídos, em vista da salvação da alma. Hugo de Saint-Cher opinou nesse sentido, o primeiro depois do bispo. Ver Du Boulay, Historia universitatis Parisiensis, Paris, 1666, t. iii, 161-166; H. Denifle e É. Châtelain, Chartularium universitatis Parisiensis, Paris, 1889, t. i, p. 158, n. 108.
Em 24 de maio desse ano, Hugo, na qualidade de provincial, assistiu ao capítulo geral de Bolonha, onde são Raimundo de Penyafort foi eleito mestre geral da ordem após a morte de Jordão da Saxônia. Uma lenda posterior, contradita pelos testemunhos dos contemporâneos, pretendeu que os capitulares dispersaram seus votos entre duas personagens já ilustres: os franceses votavam em Hugo de Saint-Cher, os alemães em Alberto Magno, e os eleitores das outras nações em um ou outro, segundo suas preferências pessoais. Estando os votos assim divididos, a eleição não pôde realizar-se nesse dia. No dia seguinte, Raimundo de Penyafort obteve, no primeiro escrutínio, a unanimidade dos sufrágios. O que há de certo é que Hugo foi um dos deputados enviados a Barcelona para anunciar a Raimundo sua eleição e, se necessário, vencer suas resistências; Raimundo, com efeito, pôs tudo em ação para recusar o cargo, e atribuiu-se sua aceitação às instâncias de Hugo de Saint-Cher. P. Mortier, Histoire des maîtres généraux de l'ordre des frères prêcheurs, Paris, 1903, t. i, p. 256-258.
O primeiro ato que são Raimundo assinou em Barcelona, como mestre geral, foi a ratificação de um contrato passado entre os monges da abadia de Ainay, de um lado, e, de outro, Humberto de Romano, prior dos frades pregadores de Lião, e Hugo, provincial da França. Danzas, Études sur les premiers temps de l'ordre de Saint-Dominique, Saint Raymond de Pennafort et son époque, Paris, 1885, t. i, p. 302.
Em 1240, enquanto fazia a visita ao convento de sua ordem em Liège, Hugo foi consultado sobre o projeto de honrar o sacramento do altar por uma festa nova. A ideia fora emitida por santa Juliana do Monte Cornillon, mas ainda não recebera execução. Era aprovada por uns e contradita por outros; Guiardo, bispo de Cambrai e antigo chanceler da Universidade de Paris, lhe era favorável. Consultado pelos cônegos da igreja de São Martinho de Liège, Hugo, após um exame sério da questão, respondeu que lhe parecia muito justo, e útil à Igreja, que a instituição da santa eucaristia fosse celebrada por uma festa particular e com solenidade. As razões que apresentou, juntas à reputação de seu saber teológico, deram crédito à proposta, que ele realizou mais tarde, como veremos, na qualidade de legado pontifício.
No capítulo realizado em Bolonha em 1240, são Raimundo apresentou sua demissão de mestre geral. Hugo de Saint-Cher assistia a ele como provincial da França. Foi só em 20 de maio de 1241 que João, o Teutônico, foi eleito para suceder a são Raimundo. Durante todo o ano da vacância, a ordem inteira foi governada por Hugo de Saint-Cher com o título de vigário geral. Aos cuidados do governo de sua província e de sua ordem, ele juntava a continuação de seus trabalhos escriturísticos, dos quais falaremos mais adiante.
O papa Inocêncio IV, que conhecia sua ciência e sua habilidade administrativa, encarregou-o por breves, datados de 13 de dezembro de 1243, de 15 e de 16 de abril de 1244, de regular três assuntos delicados e difíceis. Élie Berger, Les registres d'Innocent IV, Paris, 1884, n. 319, 612, 603, t. i, p. 67, 104, 105; Bullarium ordinis praedicatorum, t. i, p. 129, 141. Por uma bula de 2 de abril de 1244, encarregou-o de levar o pálio ao arcebispo de Cantuária. Fez mais. Em 28 de maio de 1244, criava-o cardeal-presbítero do título de Santa Sabina. Eubel, Hierarchia catholica medii aevi, 2ª edição, Munique, 1893, t. i, p. 7. Foi o primeiro cardeal dominicano. Advertido de sua elevação a essa dignidade, Hugo apressou-se em reunir-se ao papa na Itália. Este vinha à França buscar refúgio. Hugo o encontrou em Susa, cidade do Piemonte, no mês de novembro. É lá que teria recebido as insígnias do cardinalato. Depois de uma penosa travessia do Monte Cenis, com frio intenso, nos desfiladeiros atulhados de neve, o cortejo pontifício chegou a Lião.
Pouco depois, o papa convocou, em 3 de janeiro de 1245, um concílio em Lião para a festa de são João Batista, 24 de junho. Foi o XIII concílio ecumênico. Ocupou-se nele dos assuntos dos gregos, da cruzada contra os turcos e sobretudo da causa do imperador Frederico II. Os historiadores da ordem de são Domingos dizem que Hugo de Saint-Cher desempenhou aí grande papel. Se, em 1233 e 1231, ele tivesse sido realmente o chefe dos quatro núncios apostólicos enviados a Niceia, poderia, em 1245, ter exercido grande influência nas conversações preliminares com os enviados gregos. Infelizmente, os raros documentos que possuímos sobre o concílio de Lião nada nos ensinam sobre a atividade do cardeal Hugo.
Este, que havia deixado a ordem dos frades pregadores, foi frequentemente associado aos atos do soberano pontífice Inocêncio IV. De 23 de janeiro de 1245 a 22 de julho de 1254, Potthast assinalou 53 bulas desse papa que o cardeal de Santa Sabina subscreveu. Regesta pontificum romanorum, Berlim, 1875, t. ii, p. 1284-1285. Georges Guigue publicou uma carta, datada de 4 de junho de 1249 e conservada nos arquivos do Ródano, fundo de Savigny, na qual o cardeal regula a situação dos monges beneditinos da abadia de Savigny, que o arcebispo de Lião, Aimerico, havia excomungado: levanta a excomunhão, mas estabelece a disciplina que deverá ser seguida doravante para obviar aos abusos precedentes. Une lettre du cardinal Hugues de Saint-Cher (extrait du Bulletin historique et philologique, 1904), Paris, 1905. O mesmo arquivista e seu irmão haviam já publicado uma bula de Inocêncio IV, de 21 de março de 1251, concedendo indulgências aos que contribuíssem para a conclusão da igreja de São João de Lião, e que Hugo havia visado, em 4 de abril seguinte. O selo do cardeal, quase intacto, ainda aí está pendente. Archives du Rhône, fonds de Saint-Jean. Bibliothèque historique du Lyonnais, Lião, 1886, t. i, p. 384-386.
Pouco depois do concílio de Lião, são Simão Stock, geral dos carmelitas, num capítulo realizado na Inglaterra, foi solicitado por religiosos a resolver algumas dificuldades que sua regra apresentava. Ele reportou-se ao papa Inocêncio IV, que encarregou Hugo de Saint-Cher e outro dominicano de examinar a regra do Carmelo. Os dois comissários declararam que certos artigos deviam ser abrandados, porque eram demasiado austeros. Alexandre IV confirmou mais tarde essa decisão, em 3 de fevereiro de 1256, e a regra assim abrandada foi desde então observada pelos carmelitas descalços, e foi restabelecida em vigor por santa Teresa em sua reforma do Carmelo.
Em 1247, Hugo ocupa-se da abadia de seu burgo natal. Faz concluir o ato de união dos priorados de Jailleu, de Saint-Alban, de La Tour-du-Pin e de Crémieu a Saint-Chef. Semaine religieuse du diocèse de Grenoble, 1871-1872, t. iv, p. 568. Não esquecia tampouco sua família. Dois anos mais tarde, em 23 de março de 1249, Inocêncio IV mandava ao abade de Santa Genoveva de Paris fornecer rendas ao escolar Martinho, sobrinho do cardeal Hugo de Saint-Cher, durante os três anos de seus estudos. H. Denifle e É. Châtelain, Chartularium universitatis Parisiensis, t. I, p. 190. Cf. E. Berger, Les registres d'Innocent IV, 1243-1254, Paris, 1887, n. 4590, t. ii, p. 93.
Inocêncio IV confiou ao cardeal Hugo uma missão importantíssima. Após a morte de Frederico II em 1250, enviou-o, antes de voltar a Roma, à Alemanha na qualidade de legado, a fim de sustentar nessa região os direitos e os interesses da Igreja e a candidatura de Guilherme da Holanda ao império. Em 15 de abril de 1251, Hugo subscreve ainda em Lião um privilégio papal; em 21 do mesmo mês, deixa Lião e dirige-se à Alemanha com Henrique de Spira. Pode-se acompanhar, em J. F. Böhmer, J. Ficker e E. Winkelmann, Regesta imperii, Innsbruck, 1892, t. v b, p. 1556-1566, as principais etapas de sua legação e os atos que nela realizou e que seria longo demais relatar aqui. Ver uma carta de Inocêncio IV a Hugo de Saint-Cher, de 2 de dezembro de 1252, a respeito de Arnoldo de Isembourg, arcebispo de Trèves, tirada do fundo Moreau, n. 1202, fol. 57, e publicada por Hauréau, Quelques lettres d'Innocent IV, dans Notices et extraits des manuscrits de la Bibliothèque nationale, Paris, 1876, t. xxiv, p. 243-244.
Para completar as informações relativas à legação de Hugo de Saint-Cher na Alemanha, seria preciso consultar, no t. dos Registres d'Innocent IV, por Élie Berger, Paris, 1897, as cartas que o papa dirigiu a seu legado e pelas quais o encarregava de assuntos particulares. Ver os n. 5448, 5453, 5612, 5772, 5867, 5872, 5928, 5954, 5999, 6002, f. 6078, 6150, 6156, 6196, 6203, 6481, 6482, 6491, 492, 6504, 6518, 6531, 6551, cf. 6591, 6618, 6650, 6799, 825, 6865, 6866, dos quais a maior parte é também analisada em Potthast. Ver ainda uma carta de Hugo de Saint-Cher, datada de Besançon e de 11 de setembro de 1253, ao capítulo de São Gengulfo de Toul, no Cartulaire desse capítulo. Archives nationales, LL 956 fol. 30 v°, 31 r°. Fleury, Histoire ecclésiastique, LXXXIII, c. xvii, censurou alguns atos de sua legação, notadamente a deposição do arcebispo de Mogúncia e a escolha do sucessor; mas esse ato repreensível é obra de Henrique de Susa, arcebispo de Embrun, seu companheiro de legação, que é acusado de ter recebido 200 marcos de prata como preço de sua complacência.
No curso de sua legação, Hugo passou por Liège. Tratou-se ali novamente da festa do santíssimo sacramento. O legado aprovou a missa nova. Celebrou ele mesmo um ofício, que acabava de ser composto, na igreja de São Martinho do Monte, e pregou sobre a instituição da eucaristia. Em 28 de dezembro de 1252, dirigindo-se aos arcebispos, bispos, abades, priores e decanos, estatuiu que, em todo o território de sua legação, na quinta-feira que se segue à oitava de Pentecostes, celebrar-se-ia cada ano essa festa com ofício próprio, e concedeu uma indulgência de cem dias para a festa e a oitava. Acta sanctorum, aprilis t. i, p. 462-463; Semaine religieuse du diocèse de Grenoble, Grenoble, 1871-1872, t. IV, p. 524-526. O legado ordenou também, em 1º de janeiro de 1253, que a festa de são Domingos fosse celebrada em todas as regiões sobre as quais se estendia sua jurisdição. O último ato conhecido de sua legação é datado de outubro de 1253. Em 29 de novembro seguinte, em Roma, o papa o nomeou de novo legado a latere, e em 13 de janeiro de 1254, Hugo subscreve, com esse título, um privilégio papal. Não voltou, contudo, à Alemanha, onde foi substituído, no mês de abril seguinte, pelo cardeal-diácono Pedro de São Jorge. J. F. Böhmer, J. Ficker e E. Winkelmann, op. cit., t. v b, p. 1566.
Alexandre IV, eleito em 24 de dezembro de 1254, testemunhou ao cardeal de Santa Sabina a mesma confiança que seu predecessor. Manteve-o junto de si para consultá-lo e recorrer às suas luzes. De 9 de abril de 1255 a 17 de abril de 1261, Hugo de Saint-Cher subscreveu 15 bulas de Alexandre IV. A. Potthast, op. cit., t. ii, p. 1473. Fora um dos dois cardeais que, tendo examinado o cisterciense Guido da Esmola, lhe haviam concedido a licença de ler em Paris na faculdade de teologia. Breve de 31 de janeiro de 1256, H. Denifle e E. Châtelain, Chartularium universitatis Parisiensis, n. 265, I, p. 303. Odon de Douai, doutor em teologia, e Cristiano, cônego de Beauvais, haviam prestado diante de Hugo e de outro cardeal o juramento de ater-se às ordens do papa, que esses cardeais lhes haviam intimado. Alexandre IV enviava o texto ao bispo de Paris em 2 de outubro de 1257 e lhe ordenava publicá-lo. Ibid., n. 320, p. 369. O papa o encarregava também de examinar livros de espírito muito diferente. Reginaldo, bispo de Paris, havia enviado a Inocêncio IV O Evangelho eterno de Joaquim de Fiore, com o Introductorius de Gerardo de Borgo San Donnino. Três cardeais, entre os quais Hugo de Saint-Cher, foram designados para estudá-los.
Suas observações, conservadas em três manuscritos, foram publicadas pelo Padre Denifle, Archiv für Literatur- und Kirchengeschichte des Mittelalters, Friburgo em Brisgóvia, 1885, t. II, p. 97-142. Alexandre IV decidiu, em 23 de outubro de 1256, que essas obras deviam ser suprimidas. H. Denifle e E. Châtelain, Chartularium universitatis Parisiensis, n. 297, t. i, p. 257. O Tratado dos perigos dos tempos presentes, de Guilherme de Saint-Amour, denunciado em Roma, foi submetido ao exame de quatro cardeais. Os comissários, um dos quais era Hugo de Saint-Cher, fizeram ao papa um relatório público de seu estudo atento. Alexandre IV condenou a obra e ordenou a Pedro de Tours, a Odão de Rouen e a Reginaldo de Paris que publicassem sua condenação. Carta de 21 de outubro de 1256. Ibid., n. 288, 291, t. i, p. 331-333, 337-338.
Hugo de Saint-Cher, embora tivesse saído da ordem dos frades pregadores, permanecia-lhe muito ligado e preocupava-se com a prática da regra e com a disciplina interior dos conventos. Em 3 de fevereiro de 1255, obtivera de Alexandre IV, a seu próprio pedido, o poder mais absoluto sobre a regra da ordem. Servindo-se dos conselhos do mestre geral e dos religiosos mais graves, cuja escolha lhe era reservada, estava autorizado a discutir, modificar, suprimir, acrescentar tudo o que julgasse bom e útil para a estabilidade perpétua da ordem. Bula Sanctis desideriis, in Bullarium ordinis prœdicatorum, t. i, p. 271. O cardeal não usou os poderes que lhe haviam sido concedidos; ignora-se por qual motivo. Parece que alcançou seus fins por outro meio. Enquanto o capítulo geral estava reunido em Florença, no mês de maio de 1257, dirigiu aos capitulares uma carta repleta de testemunhos de afeto, mas também de observações numerosas e detalhadas sobre abusos que se tinham introduzido na conduta de certos religiosos, quer no interior dos conventos, quer fora deles. Essa carta, que testemunhava um zelo ardente e esclarecido pela disciplina, foi acolhida com respeito e reconhecimento. O cardeal assistia, aliás, ao capítulo geral. Ordenou-se que sua carta fosse lida em todos os capítulos provinciais, e o socius de cada prior foi encarregado de levar um exemplar dela a seu convento. Mortier, Histoire des maîtres généraux, t. i, p. 478-482.
Humberto de Romans, em sua carta circular, recomendava afetuosamente o cardeal, « muito fiel e muito necessário amigo da ordem que nome », havia absolvido, do papa, os frades presentes ao capítulo e os ausentes de toda falta contra o silêncio e de toda excomunhão. H. Denifle e E. Châtelain, Chartularium universitatis Parisiensis, n. 311, t. i, p. 358-359.
Durante os dois primeiros anos do pontificado de Urbano IV, Hugo de Saint-Cher continuou a estar envolvido nos assuntos da Santa Sé. De 23 de janeiro de 1262 a 16 de fevereiro de 1263, subscreveu ainda sete bulas papais. A. Potthast, Regesta pontificum romanorum, t. II, p. 1541. Até o fim de sua vida, continuou também seus estudos e seus trabalhos. Morreu em Orvieto, em 19 de março de 1263. O papa e todos os prelados da corte pontifícia assistiram a seus funerais. No ano seguinte, seu corpo, encontrado inteiro e sem nenhuma marca de corrupção, foi transferido para Lião e sepultado na igreja dos frades pregadores, na presença do futuro papa Clemente IV. Essa igreja, profanada durante a Revolução Francesa, foi destruída na Restauração. A lápide do cardeal foi reencontrada em 1862, em casa de um comerciante de bricabraque de Lião, e comprada por um rico antiquário. Ver a Gazette de Lyon, 1º de outubro de 1862. A inscrição que nela está gravada significa « A sabedoria, em sua morte, sofreu um eclipse. » La Semaine religieuse du diocèse de Grenoble, 1871-1872, t. IV, p. 509-570. O ms. latino 3173 da Biblioteca Nacional de Paris, que provém do convento dos dominicanos de Lião, pertenceu ao cardeal Hugo de Saint-Cher, cui missum fuerat de Picardia ab auctore ejus mediantibus aliquibus. L. Delisle, Le cabinet des manuscrits de la Bibliothèque nationale, Paris, 1874, t. ii, p. 380.
II. TRABALHOS E ESCRITOS. Hugo de Saint-Cher esteve entre os primeiros escritores da ordem. Ver Denifle, in Archiv, t. ii, p. 193, 204, 235. A cronologia de suas obras não está bem fixada. Atribuem-se geralmente quase todas à época de seu professorado em Paris e de seu provincialato, isto é, anterior ao cardinalato. Mas, além de esse período de sua vida, empregado em parte nos atos de administração da província da França, ser muito curto para que o frade pregador tivesse o tempo necessário à composição de obras tão consideráveis, seus historiadores dizem que, tornado cardeal, não se desinteressou dos estudos e continuou os trabalhos começados. Assim, várias de suas obras devem ser referidas ao tempo do cardinalato. Nós as agruparemos, contudo, segundo sua ordem lógica, reservando-nos indicar, quando for oportuno, sua data provável, e começaremos pelas mais numerosas e mais importantes, as que dizem respeito à Sagrada Escritura.
1° Trabalhos escriturísticos. Abrangem todos os gêneros de estudos, seja a crítica textual, seja a interpretação da Bíblia. — 1. Divisão da Bíblia em capítulos. Muitos autores atribuíram a Hugo de Saint-Cher a honra de ter imaginado a atual divisão dos capítulos da Bíblia nas referências de suas Concordâncias. Assim G. Génébrard, Chronographia, Colônia, 1581, p. 970, 972; Sixto de Siena, Bibliotheca sancta, Lião, 1593, p. 249; Échard, Scriptores ordinis praedicatorum, Paris, 1719, t. i, p. 203; H. de Sponde, Annales, Bordéus, 1612, an. 1240, n. 10; a Histoire littéraire de la France, t. xvi, p. 69-70; t. xviii, p. 62-63; t. XIX, p. 38-49, e muitos outros em seguida. Mas essa honra não lhe cabe, e deve ser atribuída a Estêvão Langton, como pensavam com razão outros críticos.
A primeira capitulação da Bíblia do futuro arcebispo de Cantuária conserva-se no ms. latino 14417 da Biblioteca Nacional de Paris, fol. 125-126, onde foi reencontrada pelo abade Paulin Martin, que a analisou, Introduction à la critique générale de l'Ancien Testament, De l'origine du Pentateuque (litogr.), Paris, 1887-1888, t. II, p. 461-474; depois no Muséon, 1889, t. viii, p. 460-465; 1890, t. ix, p. 55-59, e foi publicada integralmente por Otto Schmid, Ueber verschiedene Eintheilungen der heiligen Schrift, Graz, 1892, p. 50-58. Foi feita quando ele ensinava em Paris, portanto antes de 1206. H. Denifle e E. Châtelain, Chartularium universitatis Parisiensis, t. i, p. 99, nota; O. Schmid, op. cit., p. 91. Todavia, não é idêntica em toda parte à divisão atual; e difere completamente dela nos Paralipômenos, Esdras e Neemias, Tobias, Judite e Ester. Com bastante frequência, afasta-se dela por algumas palavras do início dos capítulos. Variou, aliás, nos manuscritos. Ver P. Martin, no Muséon, 1890, t. ix, p. 55-56, e O. Schmid, op. cit., p. 99-103.
Hugo de Saint-Cher empregou a nova divisão da Bíblia em capítulos em suas Postilas, em seu Correctório e em suas Concordâncias. Nas Postilas, a coincidência com a nossa é completa, mesmo nos sete livros do Antigo Testamento nos quais a de Langton era diferente. O mesmo se dava no Correctório. Um único exemplo prova que Hugo fazia começar o c. xxxi dos Provérbios pelas palavras Verba Lamuelis, Archiv für Literatur und Kirchengeschichte, 1888, t. iv, 552, ao passo que a de Langton punha o início no versículo 3 dederis mulieribus. O. Schmid, op. cit., p. 73. Dessas constatações não se pode concluir rigorosamente que Hugo foi o autor da divisão atual dos capítulos bíblicos, visto que poderia tê-la tomado do uso corrente. Há, contudo, presunção de que, se não lhe deu o último retoque, o emprego que dela fez contribuiu para sua difusão cada vez mais universal.
Além disso, na falta dos versículos numerados que Robert Estienne introduziu mais tarde na Bíblia, Hugo, em suas numerosas referências bíblicas, indicava as subdivisões do texto pelas sete primeiras letras do alfabeto, a, b, c, d, e, f, g. Acrescentava à citação do texto indicações deste gênero: Joa., iii, Luc, XIX, Marc, xiv, : a; c; e. Essa divisão era simplesmente mental e aproximativa, ou então rigorosamente exata e material, inscrita à margem dos manuscritos bíblicos e comportando, no texto, um sinal que marcava o fim de uma subdivisão e o começo da seguinte? Paulin Martin, que havia examinado todas as bíblias latinas das bibliotecas de Paris e muitas outras ainda, só conhecia três manuscritos do século XIII que apresentavam essa disposição. Muséon, 1890, t. ix, p. 60-61. As letras do alfabeto não são empregadas somente nos numerosos manuscritos de Concordâncias bíblicas; servem também nos manuscritos de todos os Correctórios, notadamente nos que reproduzem o Correctório de Hugo de Saint-Cher, e nos manuscritos e nas edições impressas das Postilas do mesmo doutor. Não se pode, portanto, com O. Schmid, op. cit., p. 106, chamá-las estritamente de letras de Concordâncias, a menos que se suponha que foram imaginadas para facilitar as referências da Concordância; eram antes letras de referências bíblicas, mas nada indica que estivessem marcadas no exemplar da Bíblia de que se servia Hugo de Saint-Cher. Na parte inédita da introdução de seu Correctório, ele diz que um ponto separa os versículos. Há, contudo, presunção de que foi o inventor do emprego das letras como subdivisões dos capítulos. Todavia, foi outro dominicano, Conrado de Halberstadt, que, no fim do século XIII, modificou o sistema, marcando as subdivisões do texto pelas sete primeiras letras do alfabeto nos capítulos longos e pelas quatro primeiras nos capítulos curtos.
2. Correctório da Bíblia. O prior provincial da França, de comum acordo com Jordão da Saxônia, mestre geral, ordenou a frades pregadores da província da França que corrigissem o texto da Vulgata, que era então defeituoso nos manuscritos usuais. Isso resulta do prefácio de um correctório bíblico, do qual Lucas de Bruges possuía um manuscrito do século XIII, que continha Jó, os Provérbios e os livros que se seguem até Ezequiel. Notationes in sacra Biblia, in-4°, Antuérpia, 1580, p. 22, 97. Ora, o capítulo geral, reunido em Paris em 1236, declarava que os frades pregadores da França executavam então um correctório segundo o qual se corrigiriam todas as bíblias da ordem. Martène e Durand, Thésaurus anecdotorum, t. iv, p. 1675; H. Denifle e E. Châtelain, Chartularium universitatis Parisiensis, t. i, p. 317. Esse correctório, contudo, não é o que Hugo de Saint-Cher executou ele próprio.
É a correctio Senonensis, que o capítulo geral de 1256 desaprovou. Os frades pregadores que foram seus autores moravam no convento de Sens. Hugo de Saint-Cher apenas os encarregara dessa empresa. O correctório de que ele foi o autor é bem diferente.
a) Seus manuscritos. O manuscrito da Bíblia sobre o qual ele executou, ou mandou executar, a correção do texto da Bíblia latina, não chegou até nós. Seu correctório, com efeito, não é, como muitas vezes se disse desde Echard, o da célebre bíblia dos Jacobinos de Paris, Biblioteca Nacional de Paris, ms. lat. 16719-16722, obra dos frades pregadores do convento de Saint-Jacques. Só o conhecemos por resumos, que reproduzem apenas, mais ou menos fielmente, as notas marginais do manuscrito original. O Padre Denifle encontrara oito deles, que contêm o texto inteiro das correções, e dois que, ao correctório de Guilherme de Mara sobre os livros protocanônicos do Antigo Testamento, juntam o de Hugo de Saint-Cher sobre os deuterocanônicos da antiga aliança. Os oito manuscritos do texto completo são o Vaticanus 293, do século XIV; o ms. lat. 3218 da Biblioteca Nacional de Paris, do século XIII; o ms. 94 da biblioteca do Arsenal em Paris, também do século XIII; o da biblioteca da universidade de Turim, I.r.2, do século XIII; o que, na biblioteca da cidade de Nuremberg, tem a cota Cent. I, 47, fol. 110-126, do fim do século XIV; um sexto está na biblioteca da universidade de Leipzig, n. 105, da segunda metade do século XIII; o sétimo pertence ao hospício de Cues em Bernkastel, no Mosela, n. 12, e é datado de 1446; o oitavo, enfim, encontra-se na biblioteca imperial de Viena, ms. lat. 1217, datado de 1434. Os dois manuscritos que têm apenas o correctório dos deuterocanônicos do Antigo Testamento são o Vaticanus, lat. 3466, do século XIII, e o ms. da biblioteca Laurenciana em Florença, Plut. XXV, sin. cod. 4, século XIII. Denifle, Die Handschriften der Bibel-Correctorien des 13. Jahrhunderts, in Archiv für Litteratur- und Kirchengeschichte des Mittelalters, 1888, t. iv, p. 264, 265.
Graças às notas manuscritas que Paulin Martin recolheu sobre os correctórios da Bíblia e que se conservam na biblioteca do Instituto Católico de Paris, podemos acrescentar dois outros manuscritos, que contêm apenas uma parte do correctório: o ms. da biblioteca Laurenciana de Florença, Plut. XXIX, sin. cod. 4, fol. 147b-156, que é do fim do século XIV e cujo texto se detém no c. xxi do livro II dos Paralipômenos, e o ms. 2740 lat. da Biblioteca Nacional de Paris, que é do século XIV e que reproduz sozinho o texto integral da introdução de Hugo de Saint-Cher com apenas alguns extratos do correctório, fol. 31-36. Esses manuscritos não reproduzem todos perfeitamente o texto do correctório. O P. Denifle estabeleceu o valor respectivo dos principais. Loc. cit., p. 546, nota 2. Tomou por base de sua edição dos Provérbios o ms. 3218 da Biblioteca Nacional, do qual o Vaticanus 293 e o ms. de Turim se afastam apenas levemente. Em contrapartida, o ms. do Arsenal e os de Leipzig, de Nuremberg e de Cues foram copiados com muita negligência e contêm muitas faltas e acréscimos. O ms. 1217 de Viena, embora mais recente, é mais completo; seu texto foi corrigido, ao menos indiretamente, sobre a bíblia original de Hugo de Saint-Cher.
b) Sua introdução. Está copiada, ao menos parcialmente, em todos os manuscritos acima citados e sozinha em outros manuscritos: D. V. 32, da biblioteca real da universidade de Turim, 120 de Florença e 141 de Veneza. Foi editada por Dœderlein, Litterarisches Muséum, Altorf, 1777, t. I, p. 20-21, segundo o ms. de Nuremberg, e pelo P. Denifle, Archiv, t. iv, p. 293-294. O ms. 2740 da Biblioteca Nacional tem um texto mais completo. Essa introdução nos dá a conhecer o objetivo, os recursos, os princípios críticos e o método do autor.
a. Seu objetivo era apoiar fortemente sobre o fundamento da verdade todas as palavras do texto sagrado da Escritura inteira, a fim de que os estudos teológicos fossem edificados com mais segurança sobre um texto mais certo da letra. O P. Denifle demonstrou muito pertinentemente que a Bíblia era, no século XIII, na universidade de Paris, o texto da faculdade de teologia, que o bacharel lia e explicava a seus alunos antes que eles abordassem, nas lições do mestre, o livro das Sentenças. Revue thomiste, maio de 1894, p. 149-161. Hugo de Saint-Cher, como bacharel, havia comentado a Bíblia, e esse foi, como veremos, o ponto de partida de suas Postilas. Sabia, portanto, pela experiência do ensino, que a Bíblia era a base da teologia. Seus predecessores a haviam compreendido como ele. Ora, por volta de 1226, segundo o relato de Roger Bacon, eles haviam constituído um texto que esse célebre franciscano chama de textus Parisius e declara ser « horrivelmente corrompido ». Ver t. ii, col. 23-24.
Parece bem que os teólogos não fizeram eles próprios uma recensão do texto bíblico; escolheram apenas uma dessas más bíblias que circulavam em seu tempo, que era mais completa que as outras em razão de seus acréscimos, e que talvez preferissem por suas interpolações; entregaram-na aos livreiros e estacionários, que eram numerosos em torno das escolas e que multiplicaram suas cópias. A nova Bíblia, que continha a divisão em capítulos de Estêvão Langton, difundiu-se entre os estudantes. Os baccalaurei biblici a comentaram de início sem notar a má qualidade de seu texto. Como os copistas corrigiam arbitrariamente o texto que transcreviam e aumentavam a confusão, os professores acabaram por se preocupar com isso e propuseram-se corrigi-lo, sobretudo nas duas ordens religiosas dos dominicanos e dos franciscanos. Tais foram o ponto de partida e a razão de ser dos correctórios bíblicos.
Hugo de Saint-Cher, antigo baccalaureus biblicus, foi um dos que, na ordem de São Domingos, empreenderam devolver ao texto bíblico, que estava na base do ensino teológico, uma certeza maior pelo exame de cada uma das palavras da letra sagrada. Tivera, em sua ordem, precursores, por exemplo, os autores da correctio Senonensis; teve êmulos, os corretores da bíblia dos Jacobinos. Seu objetivo era expurgar de toda falta o texto sagrado que os teólogos explicavam. Tinha, portanto, em vista apenas muito indiretamente as discussões teológicas, seja com os judeus, seja com os gregos, que lhe atribui o P. Mortier, op. cit., t. I, p. 366-367. Não fora a Constantinopla fazer uma tentativa de união entre as Igrejas grega e romana, e não encara a controvérsia judaica.
b. Seus recursos, ele os enumera; são, segundo a ordem de sua enumeração: as glosas de São Jerônimo e dos outros doutores, os livros dos hebreus, isto é, a Bíblia hebraica, os manuscritos muito antigos da Vulgata latina, dos quais alguns tinham sido transcritos mesmo antes da época de Carlos Magno.
c. Seus princípios críticos consistiam em comparar esses documentos antigos com as bíblias novas, que divergiam entre si, e em notar brevemente, por essa comparação, o que nos manuscritos recentes lhe parecia duvidoso e supérfluo em razão da própria diversidade das lições. Assim, a exemplo de São Jerônimo, queria corrigir os manuscritos novos segundo os antigos, suprimindo as lições recentes que, por culpa dos copistas, tinham penetrado no texto, tomadas que eram das glosas e das postilas dos comentadores. Queria também retirar as alterações produzidas por corretores desastrados, e fazê-lo não por sua autoridade pessoal, mas segundo a dos antigos.
d. Seu método consistiu em notar muito brevemente as lições duvidosas e os acréscimos a suprimir. Assim, para o texto dos livros do Antigo Testamento que fazem parte do cânon judaico, colocava sobre uma palavra, uma sílaba, ou entre duas palavras, um ponto vermelho que indicava que essas palavras eram aprovadas por muitos comentadores e pelos manuscritos antigos e se liam no texto hebraico. Se uma palavra ou uma linha inteira estavam sublinhadas por um traço vermelho, esse traço indicava que os termos sublinhados não se encontravam nem nos comentadores nem nos manuscritos antigos, e a omissão era tanto mais certa quando um ponto vermelho sobreposto marcava que os termos não estavam no texto hebraico. Nos livros da Sabedoria e do Eclesiástico, que só Rabano Mauro explicou, o ponto vermelho sobreposto indicava que Rabano aprovava a palavra assim anotada. Para os livros dos Macabeus, as partes deuterocanônicas de Daniel e todo o Novo Testamento, o ponto vermelho em cima significava que os gregos admitiam as palavras pontuadas. Hugo, contudo, deixara no texto, sem os sublinhar, termos que se liam nos manuscritos mais antigos e nos comentários, embora tivessem sido tomados de diversas versões.
Essa introdução, evidentemente escrita para uma bíblia completa, na qual as palavras ou as linhas eram marcadas com um ponto vermelho ou sublinhadas com um traço vermelho, não dá conta de todas as particularidades do correctório. O ms. 2740 da Biblioteca Nacional dá sozinho a continuação, que indica o significado das diferentes letras que estavam inscritas em vermelho acima do texto: h designava o texto hebraico, a, os antigos (manuscritos), J, São Jerônimo, R, Rabano, G, o grego, m, os modernos (manuscritos). Por vezes, essas letras eram repetidas a tinta preta na nota marginal. Os nomes dos santos eram por vezes indicados; Aug., Gre., Be., Isid., Aimo, Origenis, etc., ou os das versões LXX, Theodotio, Symmachus. G ou G' significava o texto grego, GG, os gregos. Os pontos colocados entre duas palavras, como para separá-las, separavam os versículos ou marcavam uma interrogação. Uma letra colocada acima de um ponto indicava uma diversidade na pontuação. Letras inscritas sem ponto entre duas palavras significavam que, segundo o testemunho daqueles que essas letras designavam, não se devia intercalar nada entre essas duas palavras.
Por vezes havia duas coisas indicadas sobre sílabas, uma palavra ou uma frase, se as sílabas, a palavra ou a frase estavam ao mesmo tempo sublinhadas a tinta vermelha; isso significava que, segundo o testemunho daqueles cujas letras indicativas estavam juntas, as partes sublinhadas não pertenciam ao texto, embora outros, inscritos acima, as tivessem aceitado. Diante de uma passagem sublinhada em vermelho, que devia ser omitida, repetia-se-a à margem sublinhando-a a tinta preta, para significar que as postilas daqueles cujos nomes estavam indicados continham essa passagem; não era, portanto, indício nem de aprovação nem de desaprovação. Por vezes, enfim, anotava-se que uma palavra estava no singular ou no plural; por exemplo, annus em São Jerônimo, annos no hebraico.
c) O manuscrito original e os resumos. A introdução dá conta da disposição do manuscrito original. Os pontos, as palavras e as frases sublinhadas estavam no texto e eram acompanhados das letras cujo significado é dado na introdução. Somente algumas notinhas eram inscritas à margem. Que fizeram os copistas dos resumos que chegaram até nós? Transcreveram as palavras e as passagens anotadas ou sublinhadas a tinta vermelha, com seus sinais explicativos, e as notas marginais escritas a tinta preta. Reproduziram assim toda a substância do trabalho crítico realizado por Hugo de Saint-Cher e seus colaboradores, mas com muita negligência. Contudo, quando certas passagens, que continham listas de nomes próprios, haviam exigido um número excessivo de correções ortográficas, os copistas dos resumos omitiram transcrever essas anotações menos importantes e remeteram seus leitores à bíblia original, onde as correções eram mais completas; de outro modo, observam eles, teriam de transcrever o texto inteiro. Assim se dá, no manuscrito 293 da biblioteca Vaticana, a partir do c. xii do livro de Josué até o xxii. No início do livro I dos Paralipômenos, o escriba anota ainda: Quoniam infinita sunt in hoc libro nomina hominum et locorum, que melius in textu continuo corriguntur, quedam tamen hic ponimus. Os outros copistas fazem o mesmo; talvez transcrevam todos um mesmo tipo de resumo. O correctório do livro III de Esdras não foi levado até o fim; o autor recuou diante da longa lista de nomes próprios e de números: Nomina et numeros omnium sequuntur : non ponimus qui in hoc libro ut a studiosioribus melius corrigantur. Ms. 3218 da Biblioteca Nacional de Paris, fol. 160-161.
Só podemos dar aqui uma visão sumária desses resumos e do próprio correctório. O Saltério não tem correctório. O ms. 3218 tem o correctório do livro III de Esdras. Os Livros santos são corrigidos desigualmente: os primeiros livros do Antigo Testamento dão lugar a um maior número de notas e de observações. A partir do livro IV dos Reis, seu número diminui, e o Novo Testamento é em geral pouco corrigido. Para dar uma ideia do trabalho crítico, transcrevemos, sem levar em conta as abreviações, o começo do Gênesis, tal como está nos resumos. In principio. Aquila transtulit in capitulo primo. Et tenebre erant (com um ponto vermelho sobre o e e um traço sob a palavra, traço que significa que a palavra sublinhada não está no hebraico) super faciem abyssi. Et spiritus Dei ferebatur, Hebreus habet : vai ruha elohim, id est, et spiritus Dei. Si esset in textu Spiritus Domini, hebreus haberet ruha adonaï. Historia [de Pierre Comestor] etiam dicit et hebreus quod usquequo homo creatus est, Deus non est appellatus Dominus sed Deus, et hoc habent antiqui. Ms. 3218, fol. 137 r°, col. 1.
Hugo de Saint-Cher indica as diferenças que existem entre o texto hebraico e a Vulgata; cita também as versões antigas, por vezes a siríaca, mais frequentemente a dos Setenta, Áquila, Símaco e Teodócio. A transcrição das palavras hebraicas mostra que ele conhecia essa língua, ou que um de seus colaboradores a conhecia. No Novo Testamento, recorre também ao texto grego. Sua erudição patrística era bastante extensa; cita também autores recentes: Rabano Mauro, André de Saint-Victor, Remígio (de Auxerre), Estêvão Langton. O P. Vercellone publicou todas as anotações dos primeiros livros do Antigo Testamento, do Gênesis aos quatro livros dos Reis, segundo o Vaticanus 293, sob a letra M, em Variæ lectiones Vulgatæ latinæ Bibliorum editionis, 2 in-4°, Roma, 1860, 1864, e o Padre Denifle, o correctório dos Provérbios, em Archiv, t. iv, p. 546-552. Fragmentos tinham sido editados por diversos críticos segundo vários manuscritos. Assim os Acta eruditorum Lipsiensium, de 1690, p. 94-95; Carpzov, Critica sacra, part. II, c. vi, § 5, in-4°, Leipzig, 1719, p. 686-687; Dœderlein, Litterarisches Muséum, Altorf, 1777, t. i, p. 13 sq., e Rosenmüller, Historia interpretationis librorum sacrorum, t. V, p. 239-246, deram alguns extratos do manuscrito de Nuremberg. Cf. F. Kaulen, Geschichte der Vulgata, Mogúncia, 1868, p. 249-250. Ver também Berger, Quam notitiam linguæ hebraicæ habuerunt christiani medii ævi tempore in Gallia, Paris, 1893, p. 28-29.
d) Apreciação.
Os princípios críticos indicados por Hugo de Saint-Cher em sua introdução e aplicados no correctório eram justos, e o recurso aos antigos manuscritos da Vulgata e aos textos originais era um excelente meio de corrigir o texto alterado das bíblias do século XIII. A aplicação, contudo, só era justa sob a condição de limitá-la ao restabelecimento, tão perfeito quanto possível, do texto da Vulgata, da qual a maior parte era obra de São Jerônimo. Não era preciso refazer, segundo os textos originais da Bíblia, a tradução do santo doutor; bastava livrar a Vulgata latina das alterações que seu texto havia sofrido, seja pela negligência dos copistas, seja pela intrusão de lições tomadas das antigas versões latinas.
Mas, como muitos de seus contemporâneos, Hugo de Saint-Cher não estava exatamente informado sobre o autor da versão latina da Bíblia que se tornara a Vulgata. Roger Bacon censurava os corretores do século XIII por ignorarem de que versão a Igreja se servia; acreditavam, diz ele, que ela tinha em seu uso não mais a tradução de São Jerônimo, mas uma versão mista formada de várias outras, porque viam a letra variar segundo a opinião de cada copista. Opus tertium, edit. Brewer, Londres, 1859, p. 334. Ora, Hugo de Saint-Cher estava nesse ponto. Ao explicar o prólogo de São Jerônimo sobre o Pentateuco, assegura que a versão do livro dos Provérbios é obra do Venerável Beda, porque uma passagem da Vulgata que se lê em seu comentário difere da versão de São Jerônimo. Postillæ, Veneza, 1703, t. i, fol. 6. Porque atribui ao santo doutor as Quæstiones hebraicæ in libros Regum, que eram falsamente postas sob seu nome, conclui, em seu correctório, a partir de uma lição desse escrito sobre II Reg., ix, 11, que também está na Vulgata: quod in multis libris, maxime historialibus, non utimur translatione Hieronymi, quamvis ejus prologi nostris libris apponantur. Ignorando também que os Padres e o próprio São Jerônimo citaram e comentaram a velha versão latina que fora feita sobre os Setenta, mantém no texto lições e acréscimos que provêm dessa antiga tradução. Em consequência, misturou em seu texto lições provenientes de fontes divergentes.
« Aqueles que supõem que a Vulgata é uma compilação, diz Roger Bacon, compilam a seu bel-prazer, sob pretexto de que o texto da Bíblia é composto de grande número de outros. Inserem nela, portanto, o que querem, misturando e modificando tudo o que não compreendem. » Opus tertium, p. 347. Assim já havia declarado, p. 91: Eorum correctio est pessima corruptio ac destructio textus Dei, et longe minus malum est sine comparatione uti exemplari Parisiensi non correcto, quam correctione eorum vel aliqua alia. E, contudo, a seu juízo, o exemplar parisiense era horribiliter corruptum. Em outro lugar ainda, parece visar bem a obra de Hugo de Saint-Cher, quando escreve: Secunda correctio (dos frades pregadores) propter horribilem sui quantitatem (formava a metade de uma bíblia) simul cum varietatibus multis habet sine comparatione plures falsitates quam prima correctio (a bíblia de Sens). Opus majus, edit. Jebb, Londres, 1733, p. 50. Cf. p. 49.
« Assim, Hugo de Saint-Cher fez uma má aplicação dos princípios justos que havia estabelecido, cita o hebraico como um homem que conhece essa língua por si mesmo, e toda a sua obra não é senão um retorno aos originais. » S. Berger, De l'histoire de la Vulgate en France, Paris, 1887, p. 12-13. Certamente, mas esse recurso constante aos originais, em vez de restabelecer a versão de São Jerônimo em sua pureza primeira, deu uma obra nova. Por isso um dominicano, o P. Denifle, reconheceu francamente o erro prático de seu confrade do século XIII, e declarou que o julgamento de Roger Bacon sobre o correctório de Hugo de Saint-Cher não era demasiado severo. Archiv, t. iv, p. 294-295. O cardeal só conseguiu livrar o texto parisiense de uma parte de suas alterações; deixou muitas delas e inseriu outras novas.
e) Data. A opinião geral dos críticos é que Hugo de Saint-Cher executou seu correctório enquanto era provincial da França, a partir de 1227. Ela se apoia principalmente no testemunho de Lucas de Bruges, que citamos acima. Mas, como também dissemos, trata-se da correctio Senonensis, que estava em andamento em 1236 e que foi reprovada em 1256. Todos os manuscritos que reproduzem o correctório executado por Hugo de Saint-Cher e que nomeiam o autor atribuem-no muito expressamente a Hugo, cardeal de Santa Sabina. Sem dúvida, o autor do correctório poderia ser qualificado de cardeal por prolepse, porque havia vestido a púrpura na época em que os copistas desses manuscritos transcreviam seu correctório. Mas o manuscrito 2740 da Biblioteca Nacional, que é contemporâneo, é muito explícito, fol. 33 a, sobre o lugar onde a Bíblia do frade Hugo foi executada: foi em Roma. Sua correção foi posterior à bíblia de Sens, que ela cita; foi uma nova correção e foi feita em Roma. A bíblia de Sens, condenada em 1256, só fora terminada poucos anos antes, talvez em 1254 apenas. O correctório de Hugo de Saint-Cher provavelmente só foi empreendido depois do abandono da bíblia de Sens e data do tempo de seu cardinalato (1244-1263).
Em 1269, Roger Bacon falava dele, ao que parece, como da segunda correção da Bíblia feita pelos dominicanos. Várias das críticas do franciscano visam diretamente o trabalho de Hugo de Saint-Cher: o autor pensa que a Vulgata não é de São Jerônimo; recorre ao texto hebraico; faz empréstimos a Josefo; multiplica as variantes; cita os Padres e os autores eclesiásticos; é chamado « grande » e « grandíssimo ». Opus minus, edit. J. Brewer, p. 348-349. Esse epíteto convém bem a um cardeal da santa Igreja. Enfim, o correctório de Hugo de Saint-Cher é provavelmente o que foi escrito ad reprobationem do primeiro, o de Sens. R. Bacon, Opus tertium, p. 96. O P. Denifle, contudo, chama o correctório de Hugo de Saint-Cher Correctio Parisiensis Hugonis cardinalis.
3. Concordância. Hugo de Saint-Cher teve a iniciativa de outra espécie de obra muito útil ao estudo e à interpretação da Sagrada Escritura. Tendo, como bacharel bíblico, de explicar a Bíblia, compreendeu que, para precisar o significado de cada palavra, era preciso comparar todas as passagens da Escritura em que essa palavra era empregada. Essa comparação exigia uma tabela completa, uma espécie de dicionário de todas as expressões bíblicas. Por isso Hugo, tornado de novo provincial e ajudado, diz-se, por 500 frades pregadores, mandou realizar, entre 1238 e 1240, ao que parece, o levantamento detalhado do texto latino da Vulgata. Realizou assim a primeira Concordância verbal da Bíblia. As palavras, dispostas em ordem alfabética, eram escritas uma só vez e serviam de título. Abaixo eram indicados, em abreviatura, o livro, o capítulo e a parte do capítulo onde essas palavras eram empregadas. A divisão em capítulos e as subdivisões em sete partes aproximadamente iguais, de que falamos acima, serviam a esse fim. Assim Aaa, Jer., I, b; XIV, d; Ezech., iv, f; Joel, i, f; Unigenitus, Gen., XII, a, d, f Prov., iv, a; Jer., vi, g; Amos, viii, f.
Ordinariamente, as palavras eram isoladas e formavam cada uma um artigo. Contudo, para facilitar as buscas na Bíblia, duas palavras que apresentavam um sentido particular eram por vezes reunidas assim: Tempus nativitatis, senectutis, etc. Terra Juda, Terra arena, somnium, aliena, etc.; Velut nubes, etc. As palavras indeclináveis não tinham todas ali o seu lugar; encontravam-se ali, todavia, olim, quasi, sicut, propter, absque, etc. O P. Echard, Scriptores ordinis prædicatorum, t. i, p. 203, assinalava diferentes manuscritos que conhecia. Essas Concordâncias nunca foram impressas, porque tinham sido substituídas por outras, mais completas e mais úteis, que tiveram as honras da impressão. Eram, com efeito, imperfeitas, e as referências não permitiam encontrar à primeira vista o texto que se procurava. Assim, para saber em que livro da Bíblia se lia esta frase, por exemplo: Quoniam sicut vacca lasciviens declinavit, a concordância na palavra vacca não bastava; obrigava a recorrer sucessivamente a todos os livros bíblicos onde essa palavra era usada, antes de chegar a Oseias, IV, onde se encontra a frase procurada.
Era, portanto, útil fornecer aos pesquisadores um meio mais expedito de chegar ao resultado. Os dominicanos do convento de Saint-Jacques em Paris empenharam-se nisso, verossimilmente por instigação de Hugo de Saint-Cher. Com esse propósito, juntaram às indicações dos livros, dos capítulos e das subdivisões de capítulos as frases em que cada palavra era empregada. Assim, retomando o primeiro exemplo, Aaa, a nova Concordância apresentou-se sob esta forma: Aaa Jer., i, b. Aaa, domine Deus, ecce nescio loqui, quia puer ergo sum. Jer., XIV, d. Aaa, domine Deus, prophetæ dicunt eis : Non videbitis gladium, et fames non erit vobis. Ezech., iv, f. Aaa, domine Deus, anima mea non est polluta. Joel, i, f. Aaa diei, quia prope est dies Domini.
Essas grandes Concordâncias, Concordantiae majores, foram concluídas por volta de 1250. Haviam sido feitas por três dominicanos ingleses, o que lhes valeu o nome de Concordantiae anglicanae. Foram impressas em Nuremberg em 1485, sob o título de Concordantiae magnae. Nos séculos XIV e XV, outros dominicanos modificaram ainda as primeiras Concordâncias bíblicas, seja abreviando o comprimento das frases citadas, seja acrescentando-lhes todas as partículas indeclináveis. Essas novas formas não entrariam em nosso assunto, se os impressores, ao publicá-las, não tivessem inserido no título o nome de Hugo de Saint-Cher, conferindo assim ao iniciador desse gênero de obras a honra de todos os desenvolvimentos que sua obra primitiva havia tomado. Para maiores detalhes, ver Echard, op. cit., t. I, p. 203-209; Daunou, na Histoire littéraire de la France, t. xix, p. 43-47; meu artigo Concordances de la Bible, no Dictionnaire de la Bible de M. Vigouroux, t. ii, col. 895 sq.; o Catalogue des ouvrages imprimés de la Bibliothèque nationale, no verbete Hugues de Saint-Cher.
4. Postilas. Bacharel bíblico em 1230, Hugo teve de ler a Bíblia a seus alunos. Encarregado desse ensino durante um ano apenas, só pôde explicar uma pequena parte da Sagrada Escritura. Tomou gosto por essa interpretação, que formava então a primeira base da teologia e, segundo o relato de seus historiadores, trabalhou durante toda a sua vida no estudo e no comentário dos Livros santos.
Essa aplicação contínua levou-o a explicar, sob forma de Postilas, segundo o método do tempo, todos os livros da Sagrada Escritura, desde o Gênesis até o Apocalipse, secundum quadruplicem sensum, historicum, allegoricum, moralem et anagogicum. Os três primeiros sentidos são regularmente dados em cada perícope bíblica; o sentido anagógico só vem por ocasião. O nome de Postila convém ao gênero adotado, que consiste em fazer seguir cada palavra do texto de algumas notas curtas e precisas. Nem todos os livros da Bíblia receberam os mesmos desenvolvimentos. Se, por exemplo, o comentário do Pentateuco é muito desenvolvido, o dos livros históricos, que se seguem até o livro de Jó, o é muito menos. Os profetas, menores e maiores, os Evangelhos, as Epístolas de São Paulo e as Epístolas canônicas receberam também explicações mais longas.
Echard assinalava alguns manuscritos e algumas edições do século XVI. Houve grande número de edições das Postilas de Hugo de Saint-Cher. Muitas são incunábulos. Ver os n. 8972-8975 de Hain, Repertorium bibliographicum, 1831, t. ii a; Copinger, Supplément to Hain's Repertorium bibliographicum, Londres, 1895, part. I, p. 268; Graesse, Trésor des livres rares et précieux, Dresden e Londres, 1867, t. iii, p. 385. Encontrar-se-ão outras no Catalogue des livres imprimés de la Bibliothèque nationale de Paris, no verbete Hugues de Saint-Cher. As edições completas formam cinco partes em 6 ou 8 in-fólio. O t. I estende-se do Gênesis ao livro de Jó; o II contém só o Saltério; o III, Isaías, os Provérbios, o Eclesiastes, o Cântico e a Sabedoria, ou os Profetas; o IV, os quatro Evangelhos; o V, as Epístolas de São Paulo, os Atos, as Epístolas católicas e o Apocalipse; o último contém o Índice das matérias dos cinco ou sete primeiros volumes. A Postilla super Psalterium, impressa em Veneza, em 1491, era atribuída a Alexandre de Hales. A voga das Postilas durou muito tempo, e edições completas foram publicadas ainda nos séculos XVI e XVII. Hoje, não são mais consultadas.
Léopold Delisle assinala, segundo o catálogo da biblioteca da Sorbonne, de 1338, um manuscrito da Postilla super historias domini Hugonis cardinalis, ex legato magistri Guerondi de Abbatisvilla. La clef des manuscrits de la Bibliothèque nationale, Paris, 1884, t. iii, p. 23. Embora Hugo de Saint-Cher note por vezes, em suas Postilas, manuscritos corretos que têm um texto diferente daquele que comenta, assim, Prov., xxx, 19, segundo Lucas de Bruges, Notationes in sacra Biblia, p. 193, ele não se preocupa, de ordinário, com a crítica do texto. Mais ainda, o texto que explica não é o de seu correctório. Contém as más lições que o correctório rejeita em parte. É ao menos o que aparece nas Postilas do livro dos Provérbios. O comentário bíblico precedeu, portanto, o correctório, e é mais um argumento para situar o correctório numa data relativamente tardia da vida do cardeal de Santa Sabina. Aos comentários bíblicos de Hugo de Saint-Cher podem-se juntar as breves explicações da História escolástica de Pedro Comestor, que menciona o Padre Echard.
2° Sermões. Os sermões de Hugo de Saint-Cher devem ser aproximados também de suas obras sobre a Sagrada Escritura, pois são homilias sobre as epístolas e os evangelhos do ciclo do ano litúrgico: Sermones super epistolas et evangelia de tempore. Echard assinalava vários manuscritos deles. O da Sorbonne era assim descrito no catálogo de 1338: In uno volumine tres tractatus sermonum dominicalium totius anni « Dicite filiæ Sion », compositi a domino Hugone episcopo cardinali, sermones de epistolis « Hora est », sermones « Abiciamus ». É atualmente o ms. latino 15946 da Biblioteca Nacional. L. Delisle, op. cit., t. III, p. 50. B. Hauréau cita outros manuscritos desses sermões: 13581, 16473, 16503, da Biblioteca Nacional. Notices et extraits des manuscrits de la Bibliothèque nationale, Paris, 1906, t. xxxviii, 2ª parte, p. 425. Uma edição deles foi dada em Zwoll, in-fol., 1479. Hain, n. 8976. Uma Postilla super epistolas et evangelia de tempore et de sanctis foi publicada em três partes em Paris, em 1506.
A autenticidade desses sermões pareceu duvidosa a Lecoy de La Marche. O principal argumento que ele faz valer é que, no título do ms. 15946, o autor é chamado Hugo, bispo, cardeal de Santa Sabina. Ora, Hugo de Saint-Cher era simplesmente cardeal presbítero de Santa Sabina. « É erro de copista, ou é preciso atribuir essas produções a outro dominicano do mesmo nome, que foi igualmente cardeal do título de Santa Sabina e, além disso, bispo de Óstia, a saber, Hugo Aicelin de Billom, morto em 1298? » La chaire française au moyen âge, 2ª edit., Paris, 1886, p. 124-125. Na falta de meios de controle certos, Lecoy de La Marche deixa, todavia, o volume a Hugo de Saint-Cher, podendo o editor de Zwoll ter tido uma base que hoje nos escapa. A dúvida de Lecoy de La Marche não parece suficientemente fundada. Com efeito, o dominicano Hugo Aicelin de Billom foi de fato criado cardeal presbítero de Santa Sabina, em 15 de maio de 1288, mas foi transferido, no mês de agosto de 1294, para a sé episcopal de Óstia e Velletri. Denifle, Archiv, t. ii, p. 209-210; Eubel, Hierarchia catholica medii ævi, 2ª edit., t. i, p. 11, 35 (Eubel o nomeia Hugo Seguin, de Billom). Se o copista do manuscrito da Sorbonne pensava nele, cometeu um erro ao fazê-lo cardeal-bispo de Santa Sabina; ao tornar-se bispo de Óstia, Hugo de Billom havia mudado de título cardinalício.
Visto que haveria erro nos dois casos, parece mais natural explicá-lo assim: o copista do manuscrito da Sorbonne se enganou ao fazer de Hugo de Saint-Cher um cardeal-bispo de Santa Sabina; teria confundido o título presbiteral cardinalício de Santa Sabina com o bispado do mesmo nome, que não era um título cardinalício e cuja sé Hugo de Saint-Cher não ocupou? Aliás, de Hugo de Billom só se conhecem dois sermões, pregados em Paris em 1283 e 1294. Echard, Scriptores, t. i, p. 385; Lecoy de La Marche, op. cit., p. 518. Echard lhe atribui, contudo, um volumen sermonum ad populum, t. i, p. 152, sem maior explicação. No julgamento de Daunou, esses sermões não têm nenhuma espécie de originalidade na multidão dos da Idade Média, e Lecoy de La Marche acrescenta que não oferecem nenhum interesse. Op. cit., p. 518. Não é de espantar, diz B. Hauréau, que os reencontrou no ms. 3498 da Biblioteca Nacional, cuja primeira parte, fol. 1-77, é intitulada no catálogo Loci communes ad morum doctrinam accommodati. Não são verdadeiros sermões; « são themata para vir em auxílio dos pregadores inexperientes. As citações da Escritura abundam ali; mas os traços de espírito são raros. » Notices et extraits des manuscrits de la Bibliothèque nationale, Paris, 1906, t. xxxviii, 2ª parte, p. 425. Mas essa apreciação poderia referir-se à coletânea seguinte.
Hugo de Saint-Cher passa, além disso, por ter redigido um tratado intitulado Seminarium prædicatorum, anônimo que Trithemius lhe atribui. « Esse opúsculo consiste em instruções dirigidas verossimilmente aos frades pregadores; o autor, com efeito, depois de ter lembrado, em tom de autoridade, a obrigação de fugir de certos vícios, recomenda socorrer os outros pobres com os bens da Igreja e detalha as qualidades que devem ser levadas ao ministério da pregação. O nome de Hugo não figura, contudo, senão na notícia moderna posta à frente do manuscrito latino 16515, p. 4, da Biblioteca Nacional, que provém da Sorbonne. Lecoy de La Marche, op. cit., p. 125. Echard coloca o Seminarium prædicatorum entre as obras atribuídas a Hugo de Saint-Cher. A autenticidade é, portanto, realmente duvidosa. Quatro sermões são atribuídos, enfim, a Hugo de Saint-Cher numa série de sermões de tempore. Ms. da Biblioteca Nacional, nouv. acquisitions, 1470, fol. 143, 143 v°, 144 v°, 146 v°. Sua autenticidade não é certa. Lecoy de La Marche, op. cit., p. 518.
3° Comentários sobre as Sentenças. Licenciado em 1231, Hugo de Saint-Cher teve de explicar as Sentenças de Pedro Lombardo. O P. Denifle nos ensina que Hugo foi um dos primeiros mestres de Paris que comentaram as Sentenças e um dos últimos que se serviram da Materia super librum Sententiarum de Pedro Comestor e das Glossæ de Pedro de Poitiers, chanceler da universidade de Paris. Seu comentário começa por estas palavras: Juxta sanctorum traditionem, e lê-se nos seguintes manuscritos: Bruxelas, 11422-11423; Basileia, B. II, 20; Leipzig, biblioteca da universidade, n. 573... Chartularium, p. 158. Cf. M. Grabmann, Die Geschichte der scholastischen Methode, t. i, Friburgo em Brisgóvia, 1911, p. 393. Esse resumo da obra do Lombardo foi muito difundido. Denifle, Archiv, t. i, p. 589; M. Grabmann, op. cit., t. II, p. 388. Essa obra metódica, muito interessante, não foi impressa. M. Grabmann, op. cit., 1909, t. I, p. 40-41. O trabalho pessoal do comentador consiste primeiro na exposição detalhada feita no início e na solução das objeções, depois em quadros que indicam claramente a marcha dos pensamentos das Sentenças. A glosa ou expositio textus não é desprovida de pontos de vista próprios do autor. Sobre os mss., o método e alguns pontos de doutrina, ver Revue des sciences philosophiques et théologiques, outubro de 1920, p. 569, 575-579.
Esse comentário apresenta-se sob outra forma no Vaticanus lat. 109, fol. 208, sob o título: Lectura Parisiensis super librum Sententiarum. M. Grabmann, op. cit., t. ii, 394-395. Echard e Daunou indicam ainda vários manuscritos de Paris, de Florença, da Bélgica e da Inglaterra que contêm uma obra em quatro livros. No I, o autor explica, segundo Pedro Lombardo, os três termos de essência, de pessoa e de noção: Quidquid a Deo est aut de Deo dicitur, aut essentia, aut persona, aut notio: essentia una et indivisibilis; personae tres sunt, Pater et Filius et Spiritus Sanctus, hae tres una essentia sunt, etc. No livro II, ensina que há um só princípio e refuta os filósofos que admitem vários. A redenção do gênero humano é o principal assunto do III. No IV, diz-se de Cristo: Christus est, qui dicitur unguentarius unctus, tum quia ungens, tum quia unguenta conficiens. Echard menciona ainda um comentário da Hierarquia celeste do pseudo-Dionísio, que entra nas obras teológicas de Hugo de Saint-Cher.
4° Speculum Ecclesiæ ou Expositio missæ. A obra de piedade que tem esse duplo título foi muitas vezes copiada e muitas vezes impressa.
Echard e Daunou assinalaram manuscritos da Inglaterra, da Bélgica e de Paris, de Saint-Victor, da Sorbonne e da biblioteca real. Hauréau o reencontrou no ms. 3473 da Bibliothèque nationale de Paris, fol. 105, do fim do século XIV ou do início do XV. Ele é atribuído a Hugo de Saint-Victor. Mas o ms. 3473 reproduz a obra, do mesmo título, do cardeal Hugo de Saint-Cher, mais ou menos alterada por um copista de época tardia. Notices et extraits des manuscrits de la Bibliothèque nationale, Paris, 1906, t. XXXVIII, 2e partie, p. 417-418. As edições incunábulos são muito numerosas sob os dois títulos. Ver Hain, Repertorium bibliographicum, t. ii a, n. 8977-8992; Copinger, Supplementum, 1898, part. II, n. 3182-3192, p. 320-322; D. Reichling, Appendices, Munich, 1906, fasc. 2, n. 563, p. 52; 1909, fasc. 5, p. 151-152; 1911, fasc. 6, p. 22, 85; Catalogue général des ouvrages imprimés de la Bibliothèque nationale, art. Hugues de Saint-Cher. Uma edição é atribuída a Hugo de Saint-Victor. Foi feita sem dúvida a partir do manuscrito citado acima. A voga dessa obra diminuiu assim que o protestantismo fez progressos.
5° Outros livros que lhe foram atribuídos. Esses livros, postos sob o seu nome, não são dele, ou não são mais que partes mal definidas de suas verdadeiras produções. Citam-se Compendium theologiœ seu veritatis theologicœ Hugues : Summa (de Strasbourg) de casibus; Tractatus de penitentia; Speculum aureum animæ peccatricis; De pugna virtutum et vitiorum; Libellus de sacramento altaris (ms. lat. 3627, 3640 da Bibliothèque nationale); Speculum sacerdotum (ms. lat. 3627 da Bibliothèque nationale); Tractatus de vanitate mundi (ms. lat. 3635 da Bibliothèque nationale). Seus escritos autênticos bastam para colocar Hugo de Saint-Cher em bom lugar entre os escritores eclesiásticos do século XIII.
Vincent Justicianus, Vitæ v. Hugonis de Sancto Theuderico, S. romanæ Ecclesiæ cardinalis primi ex ordine prædicatorum, assumti, compendiosa descriptio, in-fol., Cologne, 1621; DuBoulay, Historia universitatis Parisiensis, in-fol., Paris, 1666, t. iii, p. 164, 195-197, 689-690; Echard, Scriptores ordinis prædicatorum, in-fol., Paris, 1719, t. i, p. 194-209; t. ii, p. 818; A. Touron, Histoire des hommes illustres de l'ordre de saint Dominique, in-4°, Paris, 1743, p. 200-239; Daunou, Histoire littéraire de la France, in-4°, Paris, 1838, t. xix, p. 38-49; Ad. Rochas, Biographie du Dauphiné, Paris, 1856, t. i, p. 444-445; Varnet, na Semaine religieuse du diocèse de Grenoble, Grenoble, 1871-1872, t. IV, p. 432-434, 461-462, 524-526, 560-570; Année dominicaine, Lyon, 1886, t. iii, p. 509-558, 883-891; P. Féret, La faculté de théologie de Paris et ses docteurs les plus célèbres. Moyen âge, Paris, 1894, t. i, p. 349-356; M. D. Chapotin, Histoire des dominicains de la province de France, in-4°, Rouen, 1898, p. 72-73, 115, 208-213, 210, 300, 302-303, 305-306, 364-367; P. Mortier, Histoire des maîtres généraux de l'ordre des frères prêcheurs, Paris, 1903, t. i, p. 237, 239, 240, 244, 245, 257, 258, 280, 281, 300, 315, 322, 366-368, 388, 396-398, 418-419, 423, 445-452, 455, 463, 464, 470, 478-482, 537, 559-560, 650-651, 669; Sassen, Hugo von St-Cher, Seine Tätigkeit als Kardinal (1244-1263), Bonn, 1908.
E. Mangenot.
Autor original: E. Mangenot
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