HOMENS DA INTELIGÊNCIA. H. C. Lea, Histoire de l'Inquisition au moyen âge, trad. S. Reinach, Paris, 1901, t. ii, p. 486, pensa que a seita dos homens da inteligência só adotou esse nome para dissimular sua filiação à associação proscrita dos irmãos do livre espírito. Isso não é provável: a unidade propriamente dita de uma seita do livre espírito na Idade Média está longe de ser estabelecida, ver t. vi, col. 801-804, e falar de «filiação à associação proscrita» é lançar-se em pleno arbítrio. Os homens da inteligência tiveram ideias comuns com os grupos heréticos que, embora professassem teorias diferentes, invocaram a liberdade do espírito: eis tudo o que é permitido afirmar. Quanto à sua denominação, explica-se sem dúvida pelo fato de que um dos artigos de seu credo era que o Espírito Santo iluminaria a inteligência dos homens mais do que no passado, mais mesmo do que o fizera nos apóstolos, que só haviam tido a casca da verdade. Em seguida a uma revelação, Guilherme de Hildernisse teria dito quod eram totaliter aliteratus et sine labore et studio intelligebam sacram Scripturam clarius quam ante, et quod non poteram decipi, et quod prœdicationes meœ erant ultra humanum intellectum. Cf. Errores sectœ hominum intelligentiœ, dans Baluze, Miscellanea, Paris, t. ii, p. 286, 295. Os sectários julgavam-se de posse das luzes do Espírito Santo; eram, pois, os «inteligentes».
Até que ponto os ensinamentos de duas mulheres, Bloemardinne de Bruxelas e Maria de Valenciennes, que escreveram, a primeira por volta de 1330, a segunda por volta do fim do século xii, ver t. vi, col. 800-807, abriram caminho aos homens da inteligência, é o que é impossível determinar. Sabemos apenas que o fundador da seita foi um leigo, Gilles le Chantre ou Sanphers, o qual se pôs a dogmatizar em Bruxelas, por volta de 1399. Recrutou adesões particularmente entre as mulheres, em Antuérpia e em todo o Brabante. A principal recruta foi um carmelita, Guilherme de Hildernisse, nascido por volta de 1358, numa aldeia desse nome, nos arredores de Antuérpia. Por volta de 1410, Pedro d'Ailly, bispo de Cambrai, de quem dependia Bruxelas, instruiu um processo contra Guilherme, tornado chefe da seita após a morte de Gilles le Chantre. Guilherme retratou-se, mas com restrições e em termos tais que seus partidários viram em sua linguagem a confirmação, antes que a rejeição, de suas doutrinas. Em 1411, Pedro d'Ailly retomou a perseguição. Guilherme foi conduzido a Cambrai. Teve de abjurar de novo, e foi condenado a ser encerrado por três anos num dos castelos do bispo, depois de ter passado pela prova da purgação canônica.
Deve-se vincular aos homens da inteligência um frade Thoenken ou Antônio, cujos sentimentos heréticos foram punidos, em 1411, com a degradação e um banimento de dez anos fora do Brabante? Cf. P. Fredericq, Corpus documentorum Inquisitionis hæreticæ pravitatis Neerlandicæ, Gand, 1896, t. II, p. 198. H. Haupt, Realencyklopädie, 3e édit., Leipzig, 1900, t. viii, p. 311, estima que sim; é possível, mas não provado. Ignoramos a história ulterior de Guilherme de Hildernisse; seus adeptos ainda se aventuravam a pregar sua doutrina subversiva, dez anos depois de sua retratação, nas cidades e povoados brabantinos. Panteísmo, iluminismo, advento da terceira idade da humanidade, a idade do Espírito Santo e da «liberdade espiritual», legitimação de todos os instintos da carne, desprezo pelas boas obras, pela Igreja, pelo sacerdócio: tais são as doutrinas salientes professadas pelos homens da inteligência.
Na medida em que se pode entrever através do texto do processo de Pedro d'Ailly, Gilles le Chantre não formulou todas essas ideias. Era um espírito sem cultura, alheio às especulações sutis, mas um iluminado da pior espécie, que parece ter naufragado na pura loucura. Declarava simplesmente ser o salvador dos homens; por ele veríamos o Cristo, como, pelo Cristo, o Pai. O Espírito Santo lhe dissera que fora transferido ao estado de uma criança de três anos. Pretendia agir sob a inspiração do Espírito; com isso se autorizava a ir, certo dia, completamente nu pelo caminho. Sob esse mesmo pretexto, não levava em conta nenhuma a lei do jejum e da abstinência e, em geral, os preceitos da Igreja. A luxúria nada tinha, a seus olhos, de repreensível; as delícias carnais eram «delícias do paraíso».
Como Gilles le Chantre, as mulheres que entraram na seita parecem ter visto nela sobretudo a supressão de toda barreira moral. Não se tinham censuras e maus-tratos suficientes para uma delas que permanecia casta. Certa Seráfia, uma das autoridades da seita, dizia abertamente que o ato da carne fora do matrimônio é puramente natural como o comer e o beber, e sem pecado. Guilherme defendeu-se, no curso do processo, de ter preconizado essas doutrinas escandalosas. Mas a sinceridade de suas negativas foi sempre suspeita. Em todo caso, outras doutrinas foram sustentadas por ele que desembocavam logicamente em consequências perniciosas, estas por exemplo: que tudo o que o homem faz em nada contribui para sua salvação ou sua condenação, mas somente a paixão de Cristo, que satisfez por todos; o homem exterior não mancha o homem interior; o homem interior não será condenado.
Sem falar de fórmulas mais explícitas que o rumor público lhe atribuiu, essas proposições eram suscetíveis de levar longe, sobretudo quando se admitia, com Guilherme, que o homem interior podia ter de Deus uma iluminação e um enlaçamento tais que a eternidade estaria assegurada, que se compreenderia a Escritura melhor e de outro modo que antes, unde et quandoque asserui quod mallem prœdicare secundum sensum proprium et intellectum meum (notai esta expressão, que confirma o que dissemos da denominação «homens da inteligência») quam secundum Scripturam. Cf. Baluze, loc. cit., p. 287. À semelhança de muitos dos que saudaram a chegada da idade do Espírito Santo e da «liberdade espiritual» e a cessação da lei presente, Guilherme professou o panteísmo, mas sob uma forma relativamente discreta, dizendo que Deus está em toda parte, nas pedras, nos membros do homem e no inferno, assim como no sacramento do altar, e que cada um possui Deus perfeitamente antes de comungar, e negando a ressurreição futura, porque, dizia ele, somos os membros de Cristo e a cabeça não ressuscitou sem os membros; rejeitava também a eucaristia e o inferno.
Quanto ao antissacerdotalismo de Guilherme, uma frase o exprime inteiro: Asserui revelationem habuisse vocem Ego contra presbyteros et audivisse vocem dicentem : Ego veni ad mortificandum presbyteros. Cf. Baluze, loc. cit., p. 287. «Quem quer fazer o anjo faz a besta»: os pretensos homens «da inteligência» deram disso, a seu tempo, uma prova impressionante.
I. FONTES. Errores sectæ hominum intelligentiæ et processus factus contra fratrem Willelmum de Hildenessem ordinis B. Mariæ de Monte Carmeli per Petrum de Alliaco episcopum Cameracensem anno Christi MCCCCXI, dans Baluze, Miscellanea, Paris, t. ii, p. 277-297; C. Du Plessis d'Argentré, Collectio judiciorum de novis erroribus qui ab initio duodecimi sæculi ad annum 1713 in Ecclesia proscripti sunt et notati, Paris, t. ii, p. 201-209; P. Fredericq, Corpus documentorum Inquisitionis hæreticæ pravitatis Neerlandicæ, Gand, 1889, t. I, p. 267-279.
II. TRABALHOS. Raynaldi, Annal., an. 1411, n. 11; Paquot, Mémoires pour servir à l'histoire littéraire des Pays-Bas, Louvain, 1766, t. viii, p. 94-103; C. U. Hahn, Geschichte der Ketzer im Mittelalter, Stuttgart, 1847, t. ii, p. 526-532; A. Jundt, Histoire du panthéisme populaire au moyen âge, Paris, 1875, p. 111; E. Varenberg, art. Gilles le Chantre, dans Biographie nationale, publiée par l'Académie royale de Belgique, Bruxelles, 1883, t. vii, p. 771-772; A. Wauters, art. Guillaume d'Hildernisse, dans Biographie nationale, Bruxelles, 1884, t. viii, p. 481-484; J.-J. Altmeyer, Les précurseurs de la Réforme aux Pays-Bas, Paris, 1886, t. i, p. 82-84; H. C. Lea, A history of the Inquisition of the middle ages, New York, 1888, t. ii, p. 405-406; trad. S. Reinach, Paris, 1901, t. ii, p. 486-487; H. Haupt, dans Realencyklopädie, 3e édit., Leipzig, 1900, t. viii, p. 311-312; G. Eckhoud, Les libertins d'Anvers : légende et histoire des loïstes, Paris, 1912, p. 74.
F. Vernet.
Autor original: F. Vernet
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