HOLBACH (PAULO-HENRIQUE-THIERY, BARÃO D')

HOLBACH (PAULO-HENRIQUE-THIERY, BARÃO D')

HOLBACH (Paulo-Henrique-Thiery, barão d'), enciclopedista do século XVIII, nascido em Heidelsheim, no Palatinado, em 1723, morto em 21 de janeiro de 1789 em Paris. I. Vida e obras. II. O Système de la nature.

I. Vida e obras. Vindo desde a juventude a Paris, esse alemão ali se comprouve, ali se fixou e ali se casou. Tornou-se mesmo logo uma personagem do mundo filosófico por sua erudição (tinha uma memória prodigiosa), por sua magnífica biblioteca, por sua fortuna, que era imensa e da qual se servia largamente em favor dos outros, e por seus jantares: « primeiro mordomo da filosofia » (Galiani); recebia à sua mesa, aos domingos e quintas-feiras de cada semana, os pensadores da época. Em seu palacete, na rua Royale, em Paris, ou em seu castelo de Grandval (Puy-de-Dôme), vieram como habituais d'Alembert, Condorcet, Buffon, Helvétius, Marmontel, Morellet, Saint-Lambert, Raynal, Mercier, Naigeon, Condillac, Grimm, seu compatriota, o napolitano Galiani, Diderot sobretudo e até, por um momento, Rousseau, e desfilaram estrangeiros de marca como Hume, Shelburne, Priestley, Franklin. Nessas reuniões, como em outras da época, agitam-se as questões mais elevadas e mais graves, mas com uma impiedade, um libertinismo, uma grosseria de linguagem, sobretudo da parte do dono da casa, que só ali se encontram.

Nenhum acontecimento importante nessa vida, a não ser a publicação de múltiplas obras. Encontra-se a sua enumeração no t. ii do Système de la nature, edição de 1821, e na Biographie universelle de Michaud, segundo o Dictionnaire de Barbier. Há as que dizem respeito à querela a propósito da música italiana e da música francesa; outras são traduções de obras alemãs de química e de ciências naturais, sem falar dos artigos da mesma natureza que d'Holbach deu à Encyclopédie; mais de 30, enfim, são obras de filosofia social anti-religiosa, todas escritas de 1766 a 1776. Não lhe são atribuídas desde o seu aparecimento. O que as caracteriza, com efeito, não é a originalidade do fim: como os outros enciclopedistas, quer estabelecer uma moral e uma política independentes de todo sistema religioso; nem a do método: como eles, pretende partir somente dos fatos e não os ultrapassar, e não cumpre a palavra, embora confesse por vezes, à maneira de um positivista sincero, que os fatos não levam longe; nem a das idéias: viveu das idéias alheias e, para a execução, teve colaboradores cuja parte é difícil de fixar. Diderot, entre outros, relê os seus manuscritos e lhe fornece desenvolvimentos. De Grandval, onde passa o outono, Diderot escreve que « cada dia alveja a roupa do barão » e, acrescenta J. Reinach, Diderot, p. 22, d'Holbach, que escreve em alto-alemão, orgulha-se, quando Diderot refez os seus manuscritos, de escrever como Voltaire.

O que é de d'Holbach em todas essas obras é a extensão e a brutalidade da negação. Ataca não somente as religiões reveladas, como o haviam feito os deístas ingleses cujas obras traduz, mas o deísmo de Voltaire e o teísmo de Rousseau; é plenamente materialista e ateu: não admite sequer, como Voltaire, que seja preciso uma religião para o povo; é ateu de modo contínuo: não tem, como Diderot, palavras ou movimentos de crença; sê-lo nitidamente: não usa nem as reticências nem os rodeios dos outros enciclopedistas. Mas compõe em tal segredo que os próprios amigos o ignoram; não assina os seus escritos; aparecem como anônimos ou como obras póstumas de um contemporâneo, Boulanger, Fréret, Mirabaud; publica-os no estrangeiro, a maior parte em Amsterdã, aonde Naigeon os leva.

Essas obras são: 1° L'antiquité dévoilée, œuvre posthume de M. Boulanger, refaite sur le manuscrit original, in-4° e 3 in-12, Amsterdã, 1766; 2° Le christianisme dévoilé ou examen des principes et des effets de la religion chrétienne par feu M. Boulanger, in-12, Londres (Nancy), 1767, que La Harpe atribui a Damilaville, que é de d'Holbach e cujo prefácio, uma Lettre de l'auteur à Monsieur****, já dá a conhecer todas as vistas religiosas e políticas do autor. É « como cidadão » que ele pretende julgar o cristianismo e a religião em geral, p. xxvii. Ora, não somente, aos olhos do bom senso, o cristianismo nunca parecerá senão um tecido de absurdos..., o produto informe de quase todas as antigas superstições inventadas pelo despotismo oriental », mas criou em seus adeptos « um espírito intolerante » que os levou a cometer « horrores » e impede « os príncipes e os povos... escravos da superstição e de seus sacerdotes..., de conhecer seus verdadeiros interesses »; torna-os surdos à razão e os desvia dos grandes objetos que deveriam ocupá-los. » p. ii. « A moral entusiasta, impraticável, contraditória, incerta que lemos... no Evangelho só é própria para degradar o espírito, para tornar a virtude odiosa, para formar escravos abjetos ou então... fanáticos turbulentos ». p. xviii. Por toda parte, aliás, « os preconceitos religiosos corromperam a política e a moral... Foi a religião que fez eclodir os déspotas e os tiranos » e « sob chefes corrompidos por noções religiosas, as nações não tiveram nenhum motivo para praticar a virtude », p. viii. Os homens, enfim, só escutam a religião, mesmo « por confissão de seus ministros... quando ela fala em uníssono com os seus desejos », p. xi.

Apesar disso, pretende-se que « sem religião não se pode ter costumes ». Que erro! « É preciso distinguir bem a moral religiosa da moral política: a primeira faz homens mesmo inúteis ou nocivos..., a segunda deve ter por objeto formar para a sociedade membros úteis, ativos, capazes de servi-la... », p. xviii. Cabe ao soberano estabelecer essa moral útil. « Não é o sacerdote, é o soberano que pode estabelecer os costumes num Estado, por um sistema bem compreendido de recompensas e de castigos e sobretudo pela organização de uma educação nacional que só semeie nos corações dos seus súditos paixões úteis à sociedade », p. xiv. « Um príncipe firme e sábio não deve hesitar em tomar as fundações religiosas para delas criar estabelecimentos úteis ao Estado, próprios para fazer germinar os talentos, formar a juventude, recompensar as virtudes, aliviar os povos, fazer eclodir as artes », p. xxvi. Radical em religião, d'Holbach não passa, em política, do despotismo esclarecido. « São fanáticos, sacerdotes e ignorantes que fazem as revoluções. » Sobre as idéias políticas de d'Holbach, ver Henry Michel, L'idée de l'État, in-8°, Paris, 1895, p. 15-17, e P. Janet, Histoire de la science politique dans ses rapports avec la morale, 3e édit., 1887, t. ii, p. 490-496;

3° La contagion sacrée ou histoire naturelle de la superstition, traduite de l'anglais (de Jean Trenchard), 2 in-4°, Londres, 1767; reimpresso no ano V, in-8°, Paris, primeira e única obra de uma Bibliothèque philosophique anunciada; 4° Esprit du clergé ou le christianisme primitif vengé des entreprises et des excès des prêtres modernes, traduit de l'anglais (de Jean Trenchard et Thomas Gordon), 2 in-8°, Londres (Amsterdã), 1767; 5° De l'imposture sacerdotale ou recueil de pièces sur le clergé, traduit de l'anglais (de Davidson), in-12, Londres (Amsterdã), 1767; sete edições apareceram em 1768; 6° David ou l'histoire de l'homme selon le cœur de Dieu, traduit de l'anglais (de Peter Annet), in-12, s. l. ii. d. (Amsterdã), reimpresso em 1778; 7° Le militaire philosophe ou difficultés sur la... religion proposées au P. Malebranche par un ancien officier, in-12, Londres (Amsterdã), em colaboração com Naigeon; 8° Examen critique des prophéties qui servent de fondement à la religion chrétienne, traduit de l'anglais (de Collins), in-12, Londres (Amsterdã); 9° Lettres à Eugénie ou préservatif contre les préjugés, 2 in-8°, Londres (Amsterdã), falsamente atribuído a Fréret; 10° Lettres philosophiques sur l'origine des préjugés du dogme de l'immortalité de l'âme... traduites de l'anglais (de Toland), in-12 e in-16, Londres (Amsterdã); 11° Les prêtres démasqués ou les intrigues du clergé chrétien, traduit de l'anglais et refait en grande partie, in-12 e in-18, Londres (Amsterdã); 12° Théologie portative ou dictionnaire abrégé de la religion chrétienne, in-12, Londres (Amsterdã), publicado sob o nome do abade Bernier.

Em 1769 aparecem: 13° De la cruauté religieuse, traduit de l'anglais, in-8°, Londres; 14° L'enfer détruit ou examen raisonné du dogme de l'éternité des peines, traduit de l'anglais, in-12, Londres; 15° L'intolérance convaincue de crime et de folie, traduit de l'anglais, in-12, Londres (Amsterdã); em 1770: 16° L'esprit du judaïsme ou examen raisonné de la loi de Moïse et de son influence sur la religion chrétienne, traduit de l'anglais de Collins, in-12, Londres (Amsterdã); 17° Essai sur les préjugés ou de l'influence des opinions sur les mœurs et sur le bonheur des hommes, in-8°, Londres (Amsterdã), publicado em 1797 no t. vi das Œuvres complètes de Dumarsais, como sendo desse autor; 18° Examen critique de la vie et des ouvrages de saint Paul, traduit de l'anglais (de Pierre Annet) avec une dissertation sur saint Pierre par Boulanger, in-12, Londres (Amsterdã); 19° Histoire critique de Jésus-Christ ou analyse raisonnée des Évangiles avec cette épigraphe: Ecce homo, in-12, (Amsterdã); 20° Système de la nature ou des lois du monde physique et moral, in-8°, Londres; 21° Tableau des saints ou examen de l'esprit et des personnages que le christianisme propose pour modèles, 2 in-12, Londres (Amsterdã).

No mesmo ano de 1770, Naigeon publicava um Recueil philosophique ou mélange de pièces sur la religion et la morale par différents auteurs, 2 in-12, Londres, no qual se encontram, de d'Holbach: no t. i, Réflexions sur les craintes de la mort; no t. ii, Problème important: La religion est-elle nécessaire à la morale et utile à la politique? que ele atribui a Mirabaud; Dissertation sur l'immortalité de l'âme, traduite de l'anglais (Hume); Extrait d'un livre anglais de Tindal: Le christianisme aussi ancien que le monde. Em 1772, d'Holbach publicava: 23° uma tradução do Human nature de Hobbes, De la nature humaine ou exposition des facultés, des actions et des passions de l'âme... traduit de l'anglais de Hobbes, in-12, Londres (Amsterdã); 24° um resumo do Système de la nature: Le bon sens ou idées naturelles opposées aux idées surnaturelles, in-12, Londres (Amsterdã), freqüentemente reimpresso sob o nome do cura Meslier.

Vieram em seguida: 25° La politique naturelle ou discours sur les vrais principes du gouvernement par un ancien magistrat, 2 in-8°, Londres, 1773; 26° Système social ou principes naturels de la morale et de la politique avec un examen de l'influence du gouvernement sur les mœurs, 2 in-8°, Londres (Amsterdam) e 3 in-12, Londres (Rouen), 1773; 27° Observations sur le traité des délits et des peines, in-8°, Amsterdam, 1776; 28° Principes de la législation universelle, 2 in-8°, Amsterdam, 1776; 29° Éléments de la politique, 6 in-8°, Londres, 1776; 30° L'éthocratie ou le gouvernement fondé sur la morale, in-8° (Amsterdam), 1776; 31° La morale universelle ou les devoirs de l'homme fondés sur la nature, in-4°, Amsterdam, 1776, várias vezes reimpresso. Barbier lhe atribui também Les éléments de la morale universelle ou catéchisme de la nature, in-18, Paris, 1789, que é uma exposição sumária de suas principais ideias.

D'Holbach colaborou na Histoire philosophique et politique de Raynal. No prefácio do Christianisme dévoilé, afirmava que os livros não são feitos para o povo; no entanto, escreveu algumas de suas obras num estilo muito simples, como obras de propaganda, entre outras as Lettres à Eugénie, Le bon sens e La morale universelle.

II. O Système de la nature. — A obra de d'Holbach que mais barulho fez em seu tempo é quase a única de que hoje nos ocupamos. Apareceu em Londres (Amsterdam) em 1770, com este título: Système de la nature ou des lois du monde physique et du monde moral, par M. Mirabaud, secrétaire perpétuel, l'un des Quarante de l'Académie française, com esta epígrafe: Naturæ rerum vis atque majestas in omnibus momentis fide caret, si quis partes ejus, ac non totam complectatur animo. Plínio, Hist. natur., VII. Um aviso do editor (Naigeon) esforçava-se por tornar verossímil essa atribuição a Mirabaud, morto desde 1760, e qualificava assim a obra: « a mais ousada e a mais extraordinária que o espírito humano tenha ousado produzir até o presente. » O público não se deixou enganar, mas ninguém suspeitou do autor, nem mesmo seus amigos. Falou-se de Lagrange, que fora preceptor em sua casa, de Helvétius e de Diderot. A posteridade foi esclarecida por Grimm e Naigeon.

O Système de la nature dá continuidade a uma série de obras: de um lado, Benoît de Maillet, Telliamed ou entretiens d'un philosophe indien avec un missionnaire français, 1748; Diderot, Pensées sur l'interprétation de la nature, 1758; Bonnet, Contemplation de la nature, 1764; Robinet, De la nature, 1766, livro estranho que teve grande sucesso; e, na Alemanha, de outro lado, a Histoire naturelle de l'âme, 1741, e L'Homme-machine, 1748, de La Mettrie; mas é mais importante que todos na história do materialismo. Num prefácio muito curto, d'Holbach indica seu propósito. Como todos os enciclopedistas, tem um fim utilitário: fixar as leis da felicidade humana, e, como eles, vê apenas um meio: dirigir-se unicamente « à razão e à experiência », e substituir por seus dados os erros e preconceitos sempre funestos que espalharam os tiranos e os padres. O fim desta obra é reconduzir o homem à natureza, tornar-lhe cara a razão, fazê-lo adorar a virtude, dissipar as sombras que lhe ocultam o único caminho próprio para conduzi-lo com segurança à felicidade que deseja. Na realidade, d'Holbach ataca quase somente os padres e a religião, e é verdade dizer que, « se o materialismo inglês, de Hobbes e Newton até Hartley e Priestley, não deixara de conciliar-se com a fé religiosa e o deísmo, ele se tornou na França um instrumento de oposição às crenças católicas. » Lange, Histoire du matérialisme.

O Système de la nature divide-se em duas partes. A primeira, segundo seu título, trata Da natureza e de suas leis, c. i-v; Do homem, c. vi; Da alma e de suas faculdades, c. vii-xii; Do dogma da imortalidade, c. xiii; Da felicidade, c. xiv-xvii.

Como deve o homem conceber-se? Unicamente como uma parte desse grande todo material e físico que encerra todos os seres e que é a natureza. Ela é a única realidade; nada existe fora dela. O homem « é obra da natureza; existe na natureza; está submetido a suas leis; não pode libertar-se delas; não pode nem mesmo, pelo pensamento, sair dela ». Ora, a natureza é unicamente matéria e movimento, c. I. « O universo, esse vasto conjunto de tudo o que existe, não nos oferece em toda parte senão matéria e movimento. » Ibid. Isso é verdade do conjunto, « cadeia imensa e ininterrupta de causas e efeitos », e de cada ser, « o todo que resulta... das propriedades, das combinações, dos movimentos ou modos de agir que o distinguem dos outros seres »; do homem, por conseguinte. Abusou-se da distinção « entre o homem físico e o homem moral. O homem é um ser puramente físico. » Ibid.

Mas de onde vêm a matéria e o movimento? A emissão do nada, ou a criação, não passa de uma palavra. « E essa noção é ainda mais obscura quando se atribui a criação ou a formação da matéria a um ser espiritual que não tem nenhuma analogia, nenhum ponto de contato com ela », c. ii. A matéria « sempre existiu » e deve ter-se movido desde toda a eternidade, visto que o movimento é uma consequência necessária de sua existência, de sua essência e de suas propriedades primitivas... Ibid. O que é a matéria em si mesma?

D'Holbach admite moléculas elementares, mas confessa que a essência dos elementos lhe é desconhecida; delas conhecemos apenas algumas propriedades e distinguimos as diferentes matérias pelos efeitos ou mudanças que produzem sobre nossos sentidos, c. III. Qual é a origem dos seres? Como seus contemporâneos, segundo a lei de continuidade formulada por Leibnitz, tem uma vaga intuição do transformismo. « Ao movimento somente se devem... todas as modificações da matéria... No que os físicos chamam os três reinos, faz-se... uma circulação contínua das moléculas da matéria... Desde a pedra,... desde a ostra entorpecida até o homem... vemos uma cadeia perpétua de combinações e de movimentos, da qual resultam os seres, que diferem entre si apenas pela variedade de suas matérias elementares e pelas proporções desses mesmos elementos. » Ibid. Ao lado das ações mecânicas, d'Holbach admite com efeito nos elementos primeiros da matéria afinidades e repulsões, espécies de qualidades mentais, que presidem à sua combinação espontânea. Lembra-se mesmo das cosmogonias antigas e fala do « elemento do fogo, mais ativo e mais móvel que o elemento da terra », etc. Ibid. Os viventes começaram por gerações espontâneas e sob a influência dessas combinações. Ibid. e c. VI, quanto à origem do homem. É um dos pontos que Voltaire refuta particularmente em seu artigo Dieu do Dictionnaire philosophique.

Quanto ao movimento, ou é comunicado, imprimido do exterior e sensível para nós, ou interno e oculto, dependente da energia própria de um corpo e que não podemos apreender imediatamente pelos sentidos. « Desse gênero são os movimentos ocultos que a fermentação faz sofrer às moléculas da farinha,... pelos quais vemos uma planta ou um animal crescer... e que no homem chamamos suas faculdades intelectuais, suas paixões, seus pensamentos, suas vontades », c. ii. Mas movimentos comunicados e movimentos internos estão todos submetidos à lei da necessidade, c. iv. Não há ordem, nem desordem, nem acaso: são maneiras cômodas de encarar as coisas, que pertencem somente ao nosso entendimento. Tampouco há milagres, c. v.

Segundo isso, é fácil concluir que o homem é « um ser material », mas organizado ou conformado de maneira a sentir, a pensar, a ser modificado de certas maneiras que lhe são próprias, semelhante nisso a todos os seres da natureza e de modo algum « ser privilegiado », c. VI. A alma não se distingue do corpo; « ela é o próprio corpo considerado relativamente a algumas das funções de que a natureza e sua organização particular o tornam suscetível ». Ibid. Perece com ele, arrastada pelo movimento da natureza que destrói todas as individualidades para fazer nascer outras, c. xiii. Às operações ditas da alma, d'Holbach, que se inspira em Locke como toda a sua época, dá por único ponto de partida a sensação, « abalo dado a nossos órgãos » e submetida ao trabalho « do órgão interior », o cérebro, para comparar, julgar e imaginar. Os nomes « de sensações, de percepções, de ideias designam apenas mudanças produzidas no órgão interior por ocasião das impressões que fazem sobre os órgãos exteriores os corpos que agem sobre eles... As modificações sucessivas de nosso cérebro tornam-se elas mesmas causas e produzem na alma novas modificações que se chamam pensamentos, reflexões, memória, imaginação, julgamento, vontades, ações », e que todas têm a sensação por base, c. viii.

E por via de consequência ainda, não há liberdade. Ela é « uma impossibilidade ». Para ser livre, seria preciso que o homem, parte subordinada de um grande todo, fosse sozinho mais forte que a natureza inteira, e também que não tivesse mais sensibilidade física, uma vez que nossa vontade é necessariamente determinada pela qualidade boa ou má... do objeto ou do motivo que age sobre nossos sentidos, c. XI. Enfim, é a diferença dos organismos que faz a diferença entre os homens e que faz com que uns « sejam chamados bons e outros maus, virtuosos e viciosos, sábios e ignorantes », c. ix.

D'Holbach determina em seguida as bases da moral. A moral é para ele a ciência da felicidade. Ora, a felicidade, para ser verdadeira, deve ser conforme à natureza do homem; é preciso, pois, libertar-se da moral religiosa, que comprime a natureza e faz a infelicidade do homem, assim como da sociedade, c. xii e XVI. É preciso partir da tendência do homem « a conservar-se e a ser feliz », c. ix e xv. Há, contudo, uma escolha a fazer; deve-se evidentemente buscar a maior felicidade, e « a maior felicidade é a que é mais durável », c. ix; enfim, ela deve ser buscada em acordo com a felicidade dos outros. O homem vive em sociedade; fez com seus semelhantes, quer formalmente, quer tacitamente, um pacto pelo qual se comprometeram a prestar-se serviços e a não se prejudicar. É a consequência da desigualdade inevitável das forças e dos talentos. Ibid. Seu interesse exige, portanto, que sirva ao interesse alheio.

É nisso que consiste a virtude, e é por isso que ela é uma das condições da felicidade. O homem de bem é aquele a quem ideias verdadeiras mostraram seu interesse ou sua felicidade numa maneira de agir que os outros são forçados a amar ou a aprovar por seu próprio interesse... O homem virtuoso é aquele que comunica a felicidade a seres necessários à sua conservação... em condições de lhe proporcionar uma existência feliz », c. xv. Portanto, nenhuma vida interior; nenhuma outra virtude além das virtudes sociais de justiça, beneficência, filantropia, e nem mesmo sacrifícios. Essa solidariedade é igualmente a fonte dos deveres. Da necessidade das relações subsistentes « entre seres sensíveis e reunidos em sociedade com vistas a trabalhar, por esforços comuns, para a sua felicidade recíproca, nasce a necessidade de seus deveres. » Ela é igualmente a fonte do progresso social, c. XVI.

Como levar, então, os homens a essa virtude que não custa nenhum sacrifício? Determinando-os a ela por um bom sistema de educação: como todo o seu século, d'Holbach crê no poder moral da instrução; o homem esclarecido é necessariamente bom; por um sistema de recompensas e de penas, por boas leis, pelo desejo da imortalidade desenvolvido nas almas e pelo temor da morte banido dos corações (justificação do suicídio). Visão original: d'Holbach gostaria que a moral e a política se apoiassem na fisiologia. « Ajudados pela experiência, se conhecêssemos os elementos que formam a base do temperamento de um homem ou do maior número dos indivíduos de que se compõe um povo, saberíamos... as leis que lhes são necessárias, as instituições que lhes são úteis. Em uma palavra, a moral e a política poderiam tirar do materialismo vantagens que o dogma da espiritualidade jamais lhes fornecerá », c. viii.

No mundo assim concebido, Deus é inútil, « uma máquina para complicar as coisas », como se dizia de Grandval, e a religião, uma fonte de erros e de males. Mas d'Holbach consagra ainda à questão religiosa toda a segunda parte do Système de la nature. Intitula-a: Da divindade; das provas de sua existência, de seus atributos; da maneira como ela influi sobre a felicidade dos homens. É « a ignorância da natureza que deu origem aos deuses », c. II. É ela que explica a mitologia e as ideias confusas e contraditórias da teologia, c. ii, iii. Mas ele quer dissipar esse vão fantasma de Deus, pois « aquele que conseguisse destruir essa noção fatal, ou ao menos diminuir suas terríveis influências, seria com toda a certeza o amigo do gênero humano », c. iii (Hume). Examina primeiro, depois das provas teológicas da existência de Deus dadas por Clarke, c. IV, por Descartes, por Malebranche e por Newton, c. V, e conclui: « O universo é por si mesmo o que é; existe necessariamente e desde toda a eternidade. Por mais ocultas que sejam as vias da natureza, sua existência é indubitável e seu modo de agir nos é pelo menos muito mais conhecido que o do ser inconcebível... que se distinguiu dela mesma, que se supôs necessário e existente por si mesmo, ao passo que até aqui não se pôde demonstrar sua existência, nem defini-lo, nem dizer dele nada de razoável. » Mas não se detém aí e ataca o panteísmo (de Spinoza), o deísmo (de Voltaire) e o teísmo (de Rousseau), c. vi, vii. E não há por que deplorar o fantasma dissipado: « As ideias sobre a divindade não são mais próprias para proporcionar o bem-estar, o contentamento e a paz aos indivíduos do que às sociedades », c. ix. E mais adiante: « A teologia e suas noções... são as verdadeiras fontes dos males que afligem a terra, dos erros que a cegam,... dos vícios que a atormentam, dos governos que a oprimem », c. x.

Os capítulos mais novos dessa segunda parte são aqueles em que d'Holbach demonstra que existem ateus, contra os teólogos « que parecem ter muitas vezes duvidado... se havia pessoas que pudessem negar de boa-fé a existência de um Deus », c. xi; que o ateísmo pode conciliar-se com a moral, c. xii; e, enfim, aquele em que se põe a questão: Pode um povo inteiro ser ateu? c. XIII. A seu ver, « uma sociedade de ateus privada de toda religião, formada por uma boa educação, convidada à virtude por recompensas..., livre de ilusões, de mentiras e de quimeras, seria infinitamente mais honesta e mais virtuosa do que essas sociedades religiosas em que tudo conspira... para corromper o coração. » Parece-lhe impossível, contudo, « jamais chegar a fazer um povo inteiro esquecer suas opiniões religiosas ». O ateísmo é uma doutrina aristocrática, que não se deve, todavia, temer difundir: « a verdade jamais prejudica senão àqueles que enganam os homens ». É sem dúvida por isso que ele fez do Système de la nature o resumo popular Le bon sens, que punha o ateísmo « ao alcance das criadas de quarto e dos cabeleireiros » (Grimm).

O capítulo final, intitulado Abrégé du code de la nature, atribuído por uns a Diderot, por outros a Morellet, encerra primeiro um ardente apelo da Natureza ao homem, a quem fala como uma divindade protetora; depois uma invocação não menos ardente à Natureza, « soberana de todos os seres », e a suas adoráveis filhas, a Virtude, a Razão, a Verdade.

É uma verdadeira religião que o autor parece invocar em honra dessas divindades, com seu clero e seus fiéis: « o apóstolo da natureza não emprestará seu órgão a quimeras enganosas... », « o adorador da verdade não transigirá com a mentira... » Mas esse culto só pode erguer-se sobre as ruínas totais do antigo: « Não é senão extirpando até as raízes a árvore envenenada que há tantos séculos obumbra o universo que os olhos... percebendo a luz própria para esclarecê-los... » Compare-se o projeto de um templo à Natureza, no artigo de Diderot, Cabinet d'histoire naturelle, da Encyclopédie.

Este livro era « um verdadeiro código do ateísmo ». Produziu um escândalo enorme na França e no estrangeiro. Galiani, Correspondance, t. i, p. 142, comparava o autor a Terray, que acabava de decretar bancarrota. « Ele é, dizia, um verdadeiro abade Terray da metafísica. » Goethe, então estudante em Estrasburgo, conta, em Wahrheit und Dichtung, a repulsa que seu meio sentiu. Em 18 de agosto de 1770, o Parlamento de Paris, a requerimento do advogado-geral Séguier, condenava ao fogo o Système de la nature e seis outras obras, entre as quais a Contagion sacrée e o Christianisme dévoilé. Séguier, cujo requisitório se encontra no fim do t. II do Système de la nature, edição de 1771, insiste sobretudo nessa obra. Diderot, suspeito mais que qualquer outro de tê-la escrito, julgou conveniente deixar Paris por um momento.

Os próprios filósofos ficaram chocados com essas negações radicais. J.-J. Rousseau emprestava a seu Wolmar, na Nouvelle Héloïse, as ideias do Système de la nature e insurgia-se contra elas; Voltaire, que se apegava ao seu deísmo e à sua teoria da ordem no mundo, consagra a seção iv de seu art. Dieu, dieux, no Dictionnaire philosophique, a refutar o Système de la nature; volta ainda a isso no art. Style e várias vezes em sua Correspondance. Por mais ocupado que estivesse com a Polônia, Frederico II julgou dever intervir e compôs um Examen critique du Système de la nature, Œuvres complètes, 1805, t. IX, e disso se lembra em sua conhecida epístola a d'Alembert, 1773.

A essas refutações é preciso acrescentar: Lettres philosophiques contre le Système de la nature, no Portefeuille hebdomadaire de Bruxelles, 1770, pelo abade J.-F. Rive; Examen du matérialisme ou réfutation du Système de la nature, por Bergier, 2 in-12, Paris, 1771; Pensées diverses contre le système du matérialisme à l'occasion du Système de la nature, por Dubois de Rochefort, in-12, Paris, 1771; Principes contre l'incrédulité à l'occasion du Système de la nature, por Camuset, 1771; Lettres aux auteurs du Militaire philosophe et du Système de la nature, pelo abade Max-Antoine Regnaud, pároco de Vaux, diocese de Auxerre, 2 in-12, 1769-1772; Préjugés des anciens et des nouveaux philosophes sur l'âme humaine, por Deniesle, in-12, Paris, 1775; Défense de la religion, de la morale, de la vertu, de la politique et de la société, por Ch.-L. Richard, que já havia refutado o De la nature de Robinet, in-8°, 1775; Livre des erreurs... ou les hommes rappelés au principe universel de la science par un phil....ine ... (Saint-Martin), in-8°, Edimbourg (Lyon), 1775; Observations sur un ouvrage intitulé le Système de la nature, por Nouël de Busonnière, in-8°, 1776; e estas obras de Duvoisin: L'autorité des livres du Nouveau Testament, contre les incrédules, in-12, Paris, 1775; L'autorité de Moïse établie et défendue contre les incrédules, in-12, Paris, 1778; Essai polémique sur la religion naturelle, in-12, Paris, 1781. Em 1771, o P. Paulian publicava Le véritable système de la nature, 2 in-12. No estrangeiro apareceram outras refutações: Observations sur le système de la nature, por G.-F. Castillon (Salvemini di Castiglione), in-8°, Berlim, 1771, e Réflexions philosophiques sur le Système de la nature, por M. Holland, 2 in-8°, Neuchâtel, 1772.

Essas refutações não impediram que o Système de la nature fosse lido. Foi reimpresso em 1770, em 1771 com o Requisitório de Séguier; em 1774, com esse mesmo Requisitório e o Vrai sens du Système de la nature, publicado sob o nome de Helvétius, mas atribuído por B. de Roquefort a Diderot; em 1775 e 1776; em 1789 com o Requisitório e uma Resposta do autor; no ano III (1795), 3 in-18. Em 1820, em Paris, apareceram duas novas edições, com notas e correções de Diderot, 2 in-8°; uma delas (de B. de Roquefort) dá uma série de peças acrescentadas para servir à história do Système de la nature e outras obras de Helvétius. O Système de la nature foi traduzido para o alemão, em 1783, por Schreiter; em 1841, por Biedermann, e, em 1871, por Allhufen; e para o espanhol, em 1822, por F. A. F'**'*. Büchner o cita com frequência em Matière et force, mas a influência de d'Holbach fez-se sentir mais no domínio religioso do que no domínio estritamente filosófico. Forneceu aos descristianizadores do ano II, aos hebertistas, aos promotores do culto da Razão e aos aliados da Revolução, em grande parte ao menos, suas ideias, seus argumentos e suas fórmulas.

Diversas obras do barão d'Holbach foram reprovadas pela S. C. do Índice ou pelo Santo Ofício. O Santo Ofício condenava, na quinta-feira 9 de novembro de 1710, o Système de la nature ou des lois du monde physique ou du monde moral, publicado sob o pseudônimo de Mirabaud. Le militaire philosophe, ou difficultés sur la religion proposées au P. Malebranche, foi posto no Índice em 27 de novembro de 1771; Le bon sens, ou idées naturelles opposées aux idées surnaturelles, ali foi igualmente inscrito, com o Système social, ou principes naturels de la morale et de la politique avec un examen de l'influence du gouvernement sur les mœurs, em 18 de agosto de 1775; L'histoire critique de Jésus-Christ ou analyse raisonnée des Évangiles, foi atingida pelo Índice em 16 de fevereiro de 1778, e pelo Santo Ofício em 8 de agosto de 1782; La contagion sacrée ou histoire naturelle de la superstition, por decreto de 17 de dezembro de 1821; Le christianisme dévoilé, ou examen des principes et effets de la religion chrétienne, em 26 de janeiro de 1825; La morale universelle, ou les devoirs de l'homme fondés sur la nature, em 4 de julho de 1857. Cf. Reusch, Der Index der verbotenen Bücher, Bonn, 1883, t. ii, p. 912-913.

As Correspondances e as Mémoires da época, principalmente Grimm, Correspondance littéraire; Diderot, Correspondance avec Mlle Volland; Galiani, Voltaire, Correspondance; Morellet, Marmontel, Mémoires; Damiron, Étude sur la philosophie de d'Holbach, in-8°, 1851; Avezac-Lavigne, Diderot et la Société d'Holbach, in-8°, 1875; Allgemeine deutsche Biographie; os historiadores da literatura francesa e das ideias no século xviii, Villemain, Barni, Bersot; os historiadores da filosofia, entre outros, Lange, Geschichte des Materialismus, 2ª edição, 1908; trad. franc. por B. Pommerol, Paris, 1910, t. i, p. 374-408; os historiadores de Diderot: Ducros, Diderot, l'homme et l'écrivain, in-12, Paris, 1894; J. Reinach, Diderot, in-12, Paris, 1894; A. Collignon, Diderot. Sa vie, ses ouvrages, sa correspondance, in-12, Paris, 1895; Karl Rosenkrantz, Diderot's Leben und Werke, Leipzig, 1866, t. ii, p. 50-56, 78-90; Hettner, Litteraturgeschichte des achtzehnten Jahrhunderts, t. ii, Geschichte der französischen Literatur, Braunschweig, 1881; Morley, Diderot and the encyclopedists, 2 in-12, Londres, 1897, t. ii, c. VI.

C. Constantin.

Autor original: C. Constantin

A extração e a tradução foram feitas por IA e em caso de algum erro podem entrar em contato com o editor