HILÁRIO DE PARIS

HILÁRIO DE PARIS

HILÁRIO DE PARIS, no século François-Eugène Mongin, nascido em Paris em 23 de novembro de 1831, era sacerdote, doutor em teologia e em direito canônico quando entrou no noviciado dos frades menores capuchinhos da província da França, em 2 de agosto de 1859. Após a divisão em três províncias, permaneceu na de Lyon. Durante vários anos exerceu as funções de lente, das quais foi dispensado para dispor de mais tempo para seus trabalhos. Deus lhe dera uma inteligência verdadeiramente superior e o enriquecera de talentos, mas faltava-lhe o senso prático e careceu de equilíbrio tanto na vida quanto nas obras. A disciplina regular, que deveria tê-lo preservado dos desvios, foi insuficiente, e ele foi obrigado, em 1904, a deixar sua família religiosa, da qual poderia ter sido uma das glórias. Acolhido como hóspede pelos franciscanos irlandeses de Santo Isidoro, em Roma, e enviado por eles ao convento solitário de Castel Sant'Elia, na diocese de Nepi e Sutri, levava ali uma vida de calma e de trabalho que um doloroso acidente veio bruscamente interromper. Em 18 de julho de 1904, tomava banho num rio perto de Nepi, com um jovem sacerdote; um dos dois chamou o outro em seu socorro: pereceram juntos e no dia seguinte seus corpos foram encontrados enlaçados num abraço que fora mortal.

Eis as principais obras que deram certa notoriedade ao nome do P. Hilário de Paris. Havia concebido o plano de uma teologia universal na qual remeteria tudo ao mistério da santíssima Trindade, causa exemplar e final de toda a ciência teológica: mostrando todas as ciências humanas regidas em seus princípios pela teologia e por ela reconduzidas à glória da santíssima Trindade. O plano era grandioso e o empreendimento foi qualificado de colossal. Encorajaram-no a pôr mãos à obra e em 1867 anunciava que o 1º volume estava no prelo. Ao mesmo tempo estreava com o Cur Deus homo. Dissirlalio de motivo incarnationis, in-8°, Lyon, 1867. Abandonando a opinião escotista, o autor seguia a de são Tomás. Em 1886, publicava, sob o título: Cur Deus homo ou motif de l'incarnation, uma análise do primeiro tratado, seguida de duas cartas sobre o mesmo assunto, in-12, Currière.

Voltemos à Thcologia universaïis, que devia contar 15 volumes, mas da qual somente os três primeiros foram publicados, in-8°, Lyon, 1868-1871. O 1º contém o Prefácio, uma Introductio de theologia in génère e um Prologus de theologia universali. O 2º e o 3º tratam da Prœparatio universaïis iheologiœ, ou teologia polêmica. Assustado talvez com as proporções que tomava o seu trabalho, o autor não foi além nessa ordem de matérias e passou a outros trabalhos.

Em 1870, na época do concílio, o P. Hilário foi a Roma como teólogo do bispo de Genebra, o futuro cardeal Mermillod; por essa ocasião publicou, antes da definição dogmática, uma Disserlatio brevis de dogmate infallibilitatis romani pontificis, in-12, Lyon, 1870; seguiram-se três outros opúsculos, De concilio Vaticano; De particularismo, hoc est de gallicanismo et italianismo; De duplici italianismo, in-12, Lyon, 1870, que foram de novo publicados no volume intitulado: De dogmaticis definitionibus et de unanimitate morali, in-8°, Friburgo, 1871. Quase simultaneamente publicava duas obras, não sem mérito: Eegula fralrum minorum juxta romanorum poniificum décréta et documenta explanala, in-4°, Lyon, 1870; Exposition de la règle des frères mineurs avec l'histoire de la pauvreté, in-12, ibid., 1872, mas nas quais não faltam exageros e opiniões aventadas, que mais tarde motivaram sua condenação pelo Santo Ofício, quando o autor mereceu as severidades de Roma (12 de junho de 1895).

Antes que Leão XIII reformasse a regra da ordem terceira, os superiores das três famílias da primeira ordem franciscana preocupavam-se, de comum acordo, em fazer decidir diversas questões controvertidas e em chegar à redação de um Manual geral, que pudesse servir de base às obras de divulgação ou de devoção. Com essa finalidade, os superiores do P. Hilário recorreram à sua erudição e ele compôs um Liber terlii ordinis, ao qual se seguiram o Manuale e o Liber de chordigeris, in-4°, Roma, 1881-1883, impressos em poucos exemplares para as Congregações romanas a que interessava a questão. Mais tarde, quando esse trabalho se tornou inútil em razão das modificações de Leão XIII, utilizou-os e publicou o Liber terlii ordinis S. Francisci Assisiensis, gr. in-8°, em duas colunas, de 900 páginas, Genebra e Paris, 1888, que é a mina mais rica a explorar para a história da ordem terceira franciscana, seus privilégios e a explicação de sua regra.

Notre-Dame de Lourdes et l'immaculée conception, in-8°, Lyon, 1880, é um trabalho de gênero totalmente diverso, que nos mostra o gênio do autor despertado por esta inscrição que ele lera em torno da cabeça radiante da estátua da Madona de Lourdes: «Eu sou a Imaculada Conceição.» Por que, perguntava-se ele, essa forma abstrata e não: «Eu sou a Virgem imaculada»? Aproveitou-o para dar um volume que se pode qualificar de tratado teológico completo sobre o dogma da imaculada conceição. Diversas revistas teológicas faziam questão de contar o P. Hilário entre seus redatores: a Science catholique, novembro-dezembro de 1887 e janeiro de 1888, publicava: Où est le ciel ?

Méditation d'un philosophe. Os Nouvelles annales de philosophie catholique, impressos em Nancy, publicavam em 1889 duas outras dissertações, uma L'animation immédiate réfutée, a outra o Système du ciel, na qual se dá a tarefa de fazer concordar os dados da astronomia com a teologia. Foi menos bem inspirado ao publicar na mesma revista, Garches, 1891, Les sentiments d'un philosophe sur la scholastique en général et sur saint Thomas en particulier, que foram condenados pelo Santo Ofício (21 de fevereiro de 1894). Chegamos ao período doloroso da vida do P. Hilário, do qual não temos que falar aqui.

No retiro de que falamos, preparou a edição da obra anônima intitulada: Seraphicœ législations textus originales, in-8°, Quaracchi, 1897; Roma, 1901, na qual são publicados, segundo os originais, os principais documentos pontifícios que formam a legislação das três ordens franciscanas. Mencionemos ainda as Prselectiones theologia' dogmatiese ad methodum scholasticam redactœ do abade Dubillard, professor no seminário de Besançon, mais tarde cardeal-arcebispo de Chambéry, 4 in-8°, Paris e Besançon, 1884-1885, editadas, como declara o autor, prœhabitis cl plurimum conferentibus in dogmatica speciali tractatibus theologicis R. P. Hilarii Parisiensis; tivera, com efeito, comunicação dos tratados que permaneceram manuscritos do douto capuchinho.

M. Buchberger, Kirchliches Handlexikon, Munique, 1907, 1. 1, col. 1968; Analecta ord. min., 1. 1, p. 382; Hurter, Nomenclator, Innsbruck, 1913, t. v, col. 1524 e 2056, nota.

P. Edouard d'Alençon.

Autor original: P. Édouard d'Alençon

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