HERVET

HERVET

HERVET (Gentian) nasceu em Olivet, às portas de Orléans, em 1499. Fez seus estudos num dos colégios da universidade dessa cidade. Depois, ainda muito jovem, começa a vida de preceptor junto aos grandes, a qual levará durante longos anos. Entra na família de Laubespine, depois acompanha o sábio Thomas Lupset à Inglaterra e, provavelmente por sua intermediação, torna-se mestre dos filhos da condessa de Salisbury, Arthur e Reginald Pole. Conhece ali Linacre e More. Segue seus alunos à Itália, a Pádua e a Veneza, e trava relações com os mais célebres humanistas da península, Egnazio, Andrelini, Thoineo Leonico. Volta à França por volta de 1533 e faz parte do grupo de literatos itinerantes que, sob a direção de Jean de Tartas, iam fundar em Bordéus, no colégio de Guyenne, um dos focos do Renascimento francês. Parece ter ensinado ali o grego. Mas logo se desentende com Tartas. Volta a Orléans, onde é nomeado professor de grego na universidade.

Publica, em 1535, em Paris, sua primeira obra, Erudilionis plenus libellus in quo cummultalum varia nolatu digna de pilis et barba radenda comprehenduntur. Contém três declamações escolares sobre um assunto que o papa Júlio II havia posto na moda: o uso da barba entre os eclesiásticos. No ano seguinte, dedica a Guillaume du Bellay um novo volume, que reproduz o precedente, acrescenta-lhe alguns discursos sobre assuntos de moral e a tradução de um opúsculo de Plutarco. Tal é o conteúdo desse pequeno volume: Gentiani Herveti Oraliones, impresso por Jean Barbous, em Lyon, por conta de François Gueiard, livreiro em Orléans. Não permanece muito tempo nesse posto. Mas a razão que dele dá mais tarde um de seus adversários, Loys Micqueau, parece ser pura calúnia. Depois de algumas peregrinações por Flandres, em companhia do cardeal de Genebra, fixa-se por algum tempo em Lyon. Reencontra ali amigos literários, Jean de Gouttes e sobretudo seu compatriota Étienne Dolet. Este imprime, em 1541, o volume, hoje raríssimo, Sophoclis Antigone tragœdia a Genliano Herveto Aurelio traducla e grœco in lalinum. Ejusdem epigrammala. Nestes últimos, o autor exprime já muito vivamente os sentimentos de oposição à Reforma que manifestará cada vez mais. Outro volume saído das mesmas prensas, sob o título: Gentiani Herveti quœdam opuscula, Lyon, 1541, acrescenta à Antígona e aos epigramas alguns discursos de Hervet e a tradução de dois sermões de São Basílio. Uma dedicatória ao cardeal de La Baume, arcebispo de Besançon, datada de janeiro de 1541, poderia fazer crer que esse volume é anterior ao precedente.

Não parece que Hervet tenha jamais partilhado as ideias ostentadas por Dolet. Ao contrário, parece preocupado em combater o materialismo mais ou menos declarado do grupo de humanistas lioneses com os quais tinha estado inicialmente em relações. Publica para esse fim, em 1544, Aristotelis Stagiritse de anima libri très, tradução latina do texto grego e do comentário de João Filopono. Essa obra é dedicada a Reginald Pole. No mesmo ano aparece Alexandri Aphrodisœi de fato et de eo quod est in nostra potestale liber unus, tradução latina do texto grego dedicada ao próprio Francisco I. A imortalidade da alma e a liberdade humana: eis as crenças que negavam mais ou menos surdamente os libertinos como Dolet, Rabelais ou mesmo Jean de Gouttes. Essas obras de Hervet coincidem com as perseguições do inquisidor Michel Orry — nostre maistre Doribus — e da Sorbonne contra os partidários ou suspeitos dessa doutrina. Mas houve provavelmente entre Hervet e Dolet algo mais que uma luta de ideias. Nos prefácios e privilégios dessas duas traduções, há queixas e precauções contra a indelicadeza de certos impressores, cuja ponta parece bem voltada contra Dolet. Nenhum historiador, aliás, assinalou nem explicou essas alusões.

Mas Lyon, tampouco que Orléans ou Bordéus, não satisfaz as ambições ou as necessidades de Hervet. Ele é atraído pela Itália. Reencontramo-lo, alguns anos mais tarde, na famiglia de Reginald Pole, tornado cardeal. Exerce a seu serviço seus talentos de tradutor, que aplica sobretudo aos escritores eclesiásticos. Toma assim parte nos trabalhos preparatórios dos decretos do concílio de Trento. Assim aparecem, em 1546, em Veneza, Zachariœ Scholastici dialogus Ammonium; em 1548, ainda em Veneza, Alexandri Aphrodisiensis quœsliones natarales et de anima morales; depois, no mesmo ano, Nicolai Cabasillœ de divino altaris sacrificio. Mas intervém mais diretamente em sua redação. Faz parte das congregações de teólogos menores, onde se discute sua primeira forma. É assim que dá sua opinião fundamentada, em 28 de outubro de 1540, sobre o projeto de artigos concernentes à justiça imputativa e à certeza da graça. Combate a primeira e admite a segunda. Igualmente, em 29 de janeiro de 1547, toma parte na discussão dos artigos concernentes aos sacramentos em geral e, em 12 de fevereiro de 1547, na que elabora o projeto de artigos concernentes à eucaristia. Enfim, em março, escreve e talvez pronuncie um longo discurso muito interessante sobre as traduções da Bíblia em língua vulgar. Declara-se nitidamente pela utilidade e mesmo pela necessidade de tais traduções.

Archives du Vatican. Rex suec. cod. lat. 1570, fol. 88-93 a. Cf. Maichle.

Das Dekret de editio'ie et usu sacrorum librorum, Fribourg-en-Brisgau, 1914, p. 73. Mas o concílio é interrompido. Reginald Pole cede seu tradutor a seu colega Marcello Cervini, o futuro Marcelo II. Hervet continua a seu serviço suas publicações eruditas. É, em 1549, em Basileia, Theodoreti episcopi Cyrenensis Eranistes; no mesmo ano, em Veneza, S. Chrysostomi opéra. Em 1551, em Florença, aparece uma de suas traduções mais importantes e que permaneceu célebre. Pietro Vettori havia dado no ano anterior a edição princeps do texto grego de Clemente de Alexandria. Hervet o pôs ao alcance dos teólogos em Clementis Alexandrini omnia quse quidem exlanl opéra latine facta. Voltou mais tarde a esse trabalho, ao qual acrescentou um comentário, aliás superficial, que se pode encontrar na edição de Potter. No ano seguinte aparecem, em Florença, Theodoreti commentarii in quatuordecim S. Pauli epislolas e, em Antuérpia, S. Joannis Chrysostomi aurea in Psatmos Davidis ralena.

Mas o concílio retoma suas sessões. Hervet toma novamente parte importante em seus trabalhos preparatórios, em particular para a edição autêntica da Bíblia que estava em projeto. Colaciona para Cervini o codex Beza, que Guillaume du Prat, bispo de Clermont, havia levado a Trento. É mesmo muito provavelmente por ele, segundo Hôpfl, Kardinul Wilhelm Sirlet's Annolalionen zum neuen Testament Fribourg-en-Brisgau, 1908, p. 40, que Robert Estienne pôde utilizar as variantes do célebre manuscrito para a editio regia do texto grego do Novo Testamento. Mas ocupava-se também das questões dogmáticas e disciplinares que se levantavam no concílio. Uma delas interessava mais especialmente à França e aos teólogos franceses: a questão dos casamentos clandestinos. Hervet consagra-lhe uma Oratio ad conciUum Tridenlinum, qua suadetur ne matrimonia quse contraliuntur a filiisfamilias habeanlur deineeps pro leqitimis, Paris, 1556. O concílio, transferido para Bolonha, não teve então tempo de tratá-la. Hervet sustenta, do ponto de vista teológico, os princípios que se encontram no célebre édito de Henrique II sobre a nulidade dos casamentos clandestinos. Mais tarde, em 1561, quando o concílio retomar suas sessões, Hervet dará de seu discurso uma nova edição, dedicada a Jean de Morvillier, bispo de Orléans e embaixador da França em Trento. Tendo sido repelida pelos Padres a tese francesa da nulidade, a obra de Hervet figura no Index de Quiroga. Ela é reproduzida em Le Plat, Monumenta ad hiloriam concilii Tridentini pertinentia, t. vi, p. 366-336.

Mas o concílio estava de novo interrompido, e Cervini, tornado Marcelo II, morria após um pontificado curtíssimo. Felizmente, o papel desempenhado por Hervet o pusera em relação com novos personagens, em particular Jean de Hangest, bispo de Noyon, e Morvillier. O primeiro deu a Hervet o título de vigário-geral. O segundo nomeou-o para a paróquia, então importante, de Cravant, perto de Beaugency. Essas nomeações não interromperam seus trabalhos. Publica em Paris, em 1555, Palladii episcopi Helenopolitani historia lausiaca e Theodoreti religiosa hisloria e, em 1561, Canones sanclorum aposlotorum. Todos os seus estudos convergem então em torno da disciplina eclesiástica, cuja restauração, na França, estava na ordem do dia. Para apoiar esses ensaios de reforma, que a ameaça protestante exige cada vez mais imperiosamente, publica, em 1561, De reparanda ecclrsiasticorum disciplina. Preconiza, como remédio infalível para todos os males da Igreja, a residência dos bispos. Era também a única solução que haviam encontrado os éditos reais da mesma época.

A controvérsia protestante tomava uma acuidade cada dia maior. Catarina de Médici tenta provocar um entendimento no colóquio de Poissy. Morvillier envia Hervet como deputado. As atas da famosa assembleia não guardaram vestígio de uma ação imediata do pároco de Cravant. Mas ali encontrou Carlos de Guise, cardeal de Lorena, o homem que ia decidir seu futuro e que o havia notado. Este o alistou no grupo de teólogos que queria formar para combater os progressos do calvinismo. Ofereceu-lhe uma estala de cônego em seu arcebispado de Reims, com a perspectiva de uma cátedra na universidade que ali queria fundar.

Antes mesmo de ir para lá, Hervet havia iniciado a polêmica com o grupo de ministros que iam fazer de Orléans a capital protestante da França. Publica, em 1561, em Paris, uma Épistre aux ministres predicans et supposts de la nouvelle Église de ceux qui s'appellent fidelles et croyons à la parolle. No mesmo ano, traduz, de Guillaume Lindanus, um Recueil d'aucunes mensonges de Calvin, Melanchthon, Bucere et autres nouveaux évangélistes. Esse volume encerra, além disso, diversas peças muito interessantes para a história da difusão do protestantismo no Orleanesado: um Sermon de Gentian Hervet après avoir oui prescher un prédicant suspect d'hérésie, uma Epistre du mesme Hervet de la saincte eucharistie par laquelle est clerement et de faict monstre qu'en la saincte eucharistie est realement le précieux corps et sang de Jesu-Christ, e sobretudo uma Épistre du mesme Hervet à un prédicant sacramenlaire qui ce caresme mil cinq cens soixante et un a osé publiquement dogmatiser en la ville de Beaugency-sur-Loyre.

Acrescentou-lhe a tradução de três tratados de São João Damasceno, São Gregório de Nissa e São Nicolau de Modon sobre o santo sacramento do altar e, enfim, a «oração» de Genádio, arcebispo de Constantinopla, «a um Deus em três pessoas». Os protestantes naturalmente não deixaram passar esses ataques sem resposta. Hervet publicou de novo contra eles um Brie/ discours sur certain advertissement au lecteur duquel les ministres de la nouvelle Église réformée d'Orléans ont remparé une gentille response qu'ils ont faict imprimer pour respondre aux epistres de Gentian Hervet, Paris, 1562. Enfim, termina esse período orleanês de sua polêmica por uma Épistre envoyée à un quidam fauteur des nouveaux évangéliques, dirigida contra um burguês de Beaugency, mas publicada em Reims por Bacquenois, o impressor do cardeal de Lorena. Com efeito, desde o início de 1562, Hervet resigna sua paróquia de Cravant e fixa-se em Reims, que não deixará mais. Mas não larga seus adversários.

Logo que chega, publica um Traité de purgatoire auquel sont confutées les opinions des nouveaux évangélistes de ce temps. A epístola dedicatória é datada de 18 de fevereiro de 1562. Depois dá a lume as Ruses et finesses du diable pour tascher à abolir le saint sacrifice de Jésus-Christ, Reims, 1562. Nisso, o concílio de Trento reúne-se de novo. Hervet faz parte do séquito dos teólogos que acompanham o cardeal de Lorena. De sua atividade conhecem-se sobretudo as duas cartas que escreveu, uma, em 28 de fevereiro de 1563, ao P. Salmeron, outra, em 7 de junho, ao cardeal Hosius, sobre a questão da residência dos bispos. Sustenta nelas energicamente a tese francesa do direito divino dos bispos, que foi aliás repelida pelos Padres. Essas cartas só foram publicadas no começo do século XVII, no Mercure jésuite. Mas é difícil, apesar da vivacidade dos sentimentos que revelam, duvidar de sua autenticidade.

Entretanto, a guerra religiosa dilacerava a França. Mas não havia feito calar os polemistas. De Trento, Hervet dirigiu «ao povo de Rheims e arredores» um Discours sur ce que les pilleurs, voleurs et brusleurs d'églises disent qu'ils n'en veullent qu'aux moines et aux prebstres, Reims, 1563. Esse pequeno livreto valeu-lhe, da parte de um mestre-escola, de origem rémoise e fixado em Orléans, uma primeira réplica: Response au discours de M. Gentian Hervet, par J. Loys Micqueau, Lyon, 1564. Hervet retorquiu-lhe: uma Response de Gentian Hervet contre une invective d'un maistre d'escolle d'Orléans, qui se dit de Reims, Reims, 1564. Donde Seconde response de J. Loys Micqueau, maistre d'escolle à Orléans, aux folles resveries... de Gentian Hervet, Orléans, 1564. Nesse ínterim, Hervet havia voltado a Reims. Tomava ali parte ativa nas deliberações do concílio provincial de 1564, onde o cardeal de Lorena fazia adotar os decretos de Trento e procurava fazê-los aplicar. Para secundar suas vistas, Hervet publicava uma tradução francesa completa, a primeira em data, desses decretos, sob o título: Le saint, sacré, universel et général concile de Trente, traduit de latin en françoys par Gentian Hervet, Rheims, 1561. Ao mesmo tempo, o cardeal de Lorena dava viva impulsão à sua universidade, que devia antes de tudo combater as novas doutrinas. Hervet parece ter feito parte do corpo docente. Mas é difícil dizer a que título.

Aliás, continuava incansavelmente suas polêmicas. Em 1561 havia aparecido um volume de propaganda calvinista intitulado: Sommaire recueil des signes sacrez, sacrifices et sacremens instituez de Dieu depuis la création du monde. É atribuído de ordinário a Teodoro de Beza. Hervet respondeu-lhe por uma Confutation d'un livre pestilent et plein d'erreurs, nommé par son auteur les signes sacrez, Reims, 1565. Compunha no mesmo ano, contra du Rozier, seu Anliluigucs, isto é, response aux escrils et blasphèmes de Hugues Sureau, soy disant ministre calviniste à Orléans. O volume, com efeito, está datado no fim: de Rheims, le troisiesme de juin 1565. Mas só deve ter aparecido em 1567. Essa polêmica, aliás, prolongou-se. Marnix de Sainte-Aldegonde a retomava em 1580 por seu Commentaire et illustration de l'epistre missive de M. Gentian Hervet aux desvoiés de la foy. O velho escritor retomou a pena e deu ao público uma Briefve response de Gentian Hervet, chanoine de Reims, à un livre d'un huguenot, asseuré menteur et hypocrite, contreiahant le catholicque, Douai, 1581. Em 1572, havia traduzido a Cidade de Deus de Santo Agostinho, e essa obra teve várias edições.

Seus últimos anos parecem ter sido ensombrecidos por querelas canonicais e denúncias. Existe dele, nos Arquivos do Vaticano, uma longa carta apologética, dirigida, em 1571, ao cardeal Sirlet. Hervet defende-se em particular contra a censura de ter escrito em francês sobre questões de teologia. Talvez seja a razão pela qual se contentou, em seus últimos anos, em rever seus trabalhos anteriores e dar-lhes novas edições. Trabalhava em seu Clemente de Alexandria quando morreu, em 1584. Foi sepultado em Reims.

Nicéron, Mémoires, t. xvn, p. 102; t. xx, p. 108; Débarbouiller, dans Les hommes illustres de l'Orléanais, par Brainne, Débarbouiller et Lapierre, Orléans, 1852, p. 364 sq.; Concilium Tridentinum, édit. Elises et Merkle, t. v, p. 566 sq.

A. HUMBERT.

Autor original: A. Humbert

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