HERSENT (CARLOS)

HERSENT (CARLOS)

HERSENT Carlos, teólogo, nascido em Paris, morto depois de 1660 no castelo de Largoue, na Bretanha. Segundo Moréri, era doutor da Sorbonne, mas ele mesmo nunca tomou esse título à frente de suas obras. Aliás, entrara muito jovem, por volta de 1615, no Oratório e ali se fez notar por suas pregações veementes e claras, em Troyes, em Dijon, em Angers, em Langres e em Paris. Na volta de uma viagem a Roma e a Loreto, que fizera sem permissão em 1624, abandonou, no ano seguinte, sua congregação, contra a qual escreveu: Avis touchant les prêtres de l'Oratoire, par un prêtre qui a demeuré quelque temps avec eux, in-12, 1625; e Articles concernant la congrégation de l'Oratoire en France, aux illustrissimes et révérendissimes cardinaux, archevêques et évêques de l'Assemblée du clergé, in-4° et in-8°, 1626; reimpresso em 1670; escrito que o autor desautoriza pouco depois, para se libertar da interdição lançada sobre ele pelo arcebispo de Paris por outro motivo, por outro libelo: Jugement sur la congrégation de l'Oratoire de Jésus, par un prêtre qui en est sorti depuis quelque temps, in-12, Paris, 1626.

Alguns meses antes, fizera imprimir: In D. Dyonisii Areopagitœ de myslica theologia apparatus, interpretalio, nolœ, commentarii et paraphrasis, in-8°, Paris, 1626. No ano seguinte, publicava: Éloge funèbre de très haute et très puissante princesse Madame Gabrielle de Bourbon, fille naturelle du roi Henri IV, légitimée de France, duchesse de La Valette, première femme de Jean-Louis de Nogaret, duc d'Épernon (três discursos pronunciados na catedral de Metz), in-8°, Paris, 1627, o que lhe valeu, ao que parece, ser nomeado chanceler da igreja de Metz e lhe deu ocasião de publicar um tratado De la souveraineté du roi à Metz, pays messin, et autres villes et pays circonvoisins qui étaient de l'ancien royaume d'Austrasie ou Lorraine, contre les prétentions de l'Empire, de l'Espagne et de la Lorraine, et contre les maximes des habitants de Metz qui ne tiennent le roi que pour leur protecteur, in-8°, Paris, 1632. Parece que nesse momento Carlos Hersent havia reingressado no Oratório, pois toma o título de reverendo padre, mas o P. de Condren, superior geral dessa congregação, convidou-o em 1634 a sair novamente, por causa de suas demasiado frequentes invectivas contra as ordens religiosas. O P. Batterel crê que o título de reverendo padre nada prova, e que houve, sob o P. de Condren, apenas um projeto de reingressar no Oratório, projeto que não foi realizado.

Tendo-se espalhado o rumor de que Richelieu queria criar em seu proveito um patriarcado na França e assim encaminhar este país para o cisma, Carlos Hersent publicou: Optali Galli de cavendo schismate liber paraeneticus, in-8°, Paris, 1640. Esse breve folheto, escrito com vigor, foi apreendido e condenado, em 23 de março de 1640, a ser queimado pela mão do carrasco. Alguns dias mais tarde, em 28 de março, os bispos da província de Paris o condenaram. Dezesseis prelados, reunidos em Paris, subscreveram essa condenação, Cf. H. Reusch, Der Index der rerbolenen, Bonn, 1885, t. Il, p. 362, e quatro teólogos julgaram dever combater o libelo de Carlos Hersent: Rigault, Apolrcpiicus adversus inanem Optali Galli de cavendo schismate panvnelicum; Isaac Habert, De consensu hierarchiœ et monarchies deMarca, ; dans Concordia sacerdotii et imperii; o jesuíta Rabardeau, Oplalus Gallus benigna manu sectus, 1641. Uma retratação desse libelo lê-se no ms. francês 17623, da Biblioteca nacional, fol. 201-221: Optali Galli libellis de pienitenlia ad i!l strissimos Ecclesin* gallicanie primates, archiepiscopos et episcopos. Pede perdão de sua falta, que atribui ao demônio, seu instigador, e refuta seis erros que cometeu. Notée ad Optali Galli libell m lêem-se nos fol. 218-238.

Tendo voltado a Roma, Hersent apresentou em 1645 ao papa Inocêncio X uma memória sobre a bula de Urbano VIII contra Jansênio: Super bulla Urbani VIII adversus Jansenium animadversiones quœdam, reproduzida no Journal de Saint-Amour, IIIe partie, c. vu, p. 222. Em 1650, tendo sido convidado a pregar em Saint-Louis-des-Français, comprazeu-se em fazer entrar no elogio do santo as questões controvertidas da graça. Fez imprimir esse elogio: L'empire de Dieu dans les saints, ou bien l'éloge de saint Louis de France, etc., in-4°, 1651. Em seguida a esse discurso, foi, com razão, acusado de jansenismo e citado perante o tribunal da Inquisição; recusou-se a comparecer e refugiou-se no palacete do embaixador da França. Escapou assim a uma segunda prisão, mas não pôde evitar ser condenado à revelia e excomungado. De volta à França, fez imprimir esse panegírico com uma apologia de sua conduta, que não hesitou em dedicar a Inocêncio X. Hersent retirou-se em seguida para junto do marquês d'Asserac, no castelo de Largoue, na Bretanha, onde morreu.

Além das obras já mencionadas, Carlos Hersent publicou: Discours sur la prise de La Rochelle, in-8°, Paris, 1629; La Pastorale sainte, ou paraphrase du Cantique des cantiques selon la lettre et selon le sens allégorique ou mystique, in-8°, Paris, 1635; Le sacré monument dédié à la mémoire du très puissant et très invincible monarque Louis le Juste, composé en trois discours prononcés à Saint-Germain-l'Auxerrois, Saint-Gervais et Saint-Jacques-la-Boucherie, in-8°, Paris, 1643; De la fréquente communion et du légitime usage de la pénitence, ou observations sur le livre de M. Arnauld, in-4°, Paris, 1644; Le scandale de Jésus-Christ dans le monde, in-8°, Paris, 1644.

L. Batterel, Mémoires domestiques pour servir à l'histoire de l'Oratoire, édit. Ingold, Paris, 1902, t. i, p. 362-383: R. Simon, Lettres critiques, lettres xx-xxviii, t. i: Moréri, Dictionnaire historique, t. v b, p. 644; Mémoires chronologiques et dogmatiques pour servir à l'histoire ecclésiastique depuis 1000 jusqu'en 1716, in-12, s. l., 1720, t. n, p. 140-224; [dom Gerberon], Histoire du jansénisme, in-12, Amsterdam, 1700, t. i, p. 332; Dictionnaire des livres jansénistes, in-12, Anvers, p. 221 ; P. René Rapin, Mémoires sur l'Église et la société, la cour, la ville et le jansénisme, in-8°, Paris, 1865, t. i, p. 123, 167-170, 322-324; P. Féret, La faculté de théologie de Paris et ses docteurs les plus célèbres. Époque moderne, Paris, 1907, t. v, p. 343-352.

B. HEURTEBIZE.

Autor original: B. Heurtebize

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