HERMIAS (FILÓSOFO CRISTÃO)

HERMIAS (FILÓSOFO CRISTÃO)

HERMIAS, filósofo cristão. — I. Sua pessoa. II. Sua obra.

I. Sua pessoa. — Na seqüência das obras dos apologistas do século II, encontra-se um pequeníssimo tratado em dez capítulos, de poucas páginas apenas, sob este título: Ἑρμίου φιλοσόφου διασυρμὸς τῶν ἔξω φιλοσόφων, Hermiœ philosophi gentilium philosophorum irrisio. P. G., t. vi, col. 1169-1180. Esse tratado oferece tanto interesse que se estranha tenha sido passado em silêncio pelos autores eclesiásticos dos primeiros séculos. Traz o nome de Hermias. Mas quem é esse personagem? Onde e quando viveu? Outras tantas questões insolúveis no estado atual da literatura cristã da época patrística, pois faltam informações e os critérios internos reduzem-se a bem pouca coisa. Estamos, portanto, reduzidos a conjecturas. Uns quiseram identificar esse Hermias com o historiador grego do século V, Hermias Sozomeno, mas a diferença de estilo é característica demais; outros, com o herege Hermias, discípulo de Hermógenes e chefe da seita dos Hermianos, mas nada prova que tenha sido heterodoxo. Assim, essas duas hipóteses foram abandonadas. Esse Hermias é qualificado de filósofo, e com razão, ao que parece, se se entende por isso o conhecimento dos filósofos gregos e de seus sistemas. Chamando-os os filósofos «de fora», dá a entender que se distingue deles.

Talvez mesmo, tal como São Justino e Taciano, cujos escritos certamente conheceu, tenha desertado do campo deles para abraçar a fé cristã; em todo caso, não diz a menor palavra dessa fé, nem de Jesus Cristo, nem da Igreja. Mostra ao menos, e isso desde as primeiras linhas, que partilhava o modo de ver do apóstolo São Paulo, pois se propõe justificar esta palavra, de que a sabedoria deste mundo é uma loucura aos olhos de Deus: ἡ σοφία τοῦ κόσμου τούτου μωρία παρὰ τῷ θεῷ. 1 Cor., iii, 19. A época em que viveu é difícil de fixar. A opinião comum, diz Bardenhewer, Les Pères de l'Église, trad. franc., Paris, 1899, t. i, p. 191, o faz viver na idade dos apologistas, no fim do século II ou no começo do III. Funda-se, de um lado, no nome de filósofo dado ao autor no título tradicional dos manuscritos, como é também o caso de São Justino, de Atenágoras e de outros apologistas; e, de outro lado, em diversas indicações do próprio opúsculo: a vida e o calor da linguagem anunciam uma época de lutas, em que as escolas dos filósofos ainda florescem, em que o cristianismo ainda não alcançou a vitória.» Mas são pontos de referência bastante vagos; e Diels, seu último editor, crê-o muito mais recente, antes do século V, se não do VI. Doxographi grœci, Berlin, 1879, p. 259-263. O campo permanece, pois, aberto à discussão.

O que é certo é que o autor se dirige a pessoas que lhe são caras, seus filhos, discípulos ou fiéis: ὦ ἀγαπητοί. Irrisio, 1, P. G., t. vi, col. 1169. E é também que pinta com traço vivo, agudo e mordaz os filósofos pagãos e suas opiniões; lembra o tom zombeteiro de Luciano em seu Hermotime ou le Choix des sectes e em Les Sectes à l'encan, com a diferença de que apóia mais levemente, de que não manifesta preferência pelo sistema de Epicuro e de que não desemboca no ceticismo; mas sua crítica é igualmente virulenta e negativa. Enquanto um São Justino ou um Clemente de Alexandria se guardavam de condenar em bloco toda filosofia, porque se encontram por toda parte parcelas de verdade e porque a filosofia tem direito a ser cultivada, Hermias confessa não ter senão um objetivo, o de mostrar que os filósofos estão em contradição uns com os outros, que a pesquisa das coisas se perde no vago e no desconhecido e que o resultado permanece inexplicável e inútil, visto que não repousa nem na evidência, nem num ensinamento certo: βουλόμενος δεῖξαι τὴν ἐν τοῖς δόγμασιν οὖσαν αὐτῶν ἐναντιότητα, καὶ ὡς εἰς ἄκυρον αὐτοῖς καὶ ἀόριστον πρόεισιν ἡ ζήτησις τῶν πραγμάτων, καὶ τὸ τέλος αὐτῶν ἄτεκμαρτον καὶ ἄχρηστον, ἔργῳ μηδενὶ προδήλῳ καὶ λόγῳ σαφεῖ βεβαιούμενον. Irrisio, 10, ibid., col. 1180.

Para um autor cristão, tal conclusão é insuficiente e deixa uma decepção, quando parecia tão natural indicar, ao menos numa palavra, senão que a impotência da razão demonstra a necessidade relativa de um ensinamento revelado, ao menos que aquilo que a filosofia pagã não pudera alcançar era plenamente dado pela fé cristã. Hermias, como outros nas origens do cristianismo, acreditava que a pretensa sabedoria deste mundo provém dos anjos decaídos e atribuía a essa origem suspeita a sua impotência e as suas contradições. Irrisio, 1, ibid., col. 1169. Talvez também, a exemplo de Tertuliano, ostentasse um soberbo desdém por toda curiosidade ou pesquisa de ordem filosófica e científica: Nobis curiositate opus non est post Christum Jesum, nec inquisitione, post Evangelium. De prœscript., 7, P. L., t. ii, col. 2. Teria feito parte, nesse caso, do número desses inimigos intransigentes da filosofia, que Clemente de Alexandria julgou poder, não sem razão, censurar.

II. Sua obra. — O autor, dissemo-lo, pretende justificar esta palavra de São Paulo: a sabedoria deste mundo é uma loucura aos olhos de Deus.

Quanto ao modo de justificação, inspirou-se manifestamente nesta passagem de Taciano: «Vós seguis os ensinamentos de Platão, mas eis que um sofista da escola de Epicuro vos resiste abertamente de frente. Quereis apegar-vos a Aristóteles, mas é então um sectário de Demócrito que zomba de vós.» Adv. Grœcos, 25, P. G., t. vi, col. 860. E opondo filósofo a filósofo, opinião a opinião, sem se preocupar minimamente com a ordem cronológica, com a seqüência e o conjunto das doutrinas de que zomba, Hermias mostra que essas doutrinas são contraditórias e se anulam umas às outras: οὐδὲ σύμφωνα, οὐδὲ ὁμόλογα δόγματα. Irrisio, 1, col. 1169.

E essa contradição se manifesta primeiro sobre a natureza, o soberano bem e o destino da alma e do homem. «Ora sou imortal, e disso me alegro; ora volto a ser mortal, e por isso choro. Ora me resolvo em diversas matérias: torno-me água, ar, fogo; depois, um instante após, não sou mais nem ar, nem fogo; fazem de mim uma fera, um peixe. E tenho por irmãos golfinhos. Ao olhar-me, receio meu corpo e não sei que nome dar-lhe: homem, cão, lobo, touro, ave, serpente, dragão ou quimera; pois, ao gosto desses amigos da sabedoria, pertenço a todas as espécies de animais... Nado, voo, elevo-me nos ares, rastejo, corro, fico sentado: mas eis Empédocles: faz de mim um arbusto.» Irrisio, 2, col. 1172. Tal é o tom, espirituoso e sarcástico, mas um pouco superficial demais. Se os filósofos concordam tão pouco sobre a alma e o homem, como se entenderiam sobre Deus e o mundo, sobre os princípios das coisas? Menos ainda. O que alega Anaxágoras é combatido por Parmênides, e Parmênides é contradito por Anaxímenes. Irrisio, 3. Prefere-se seguir Empédocles? Protágoras vos arrebata a ele, e Tales a Protágoras, e Anaximandro a Tales. Irrisio, 4. Grande foi, certamente, a celebridade de Arquelau: mas Platão não pensou como ele, nem Aristóteles como Platão. Irrisio, 5. Leucipo trata de nuvem a doutrina de Ferécides. Irrisio, 6. A Demócrito, que ri, opõe-se Heráclito, que chora. Qual ouvir? Eis-me saturado e ébrio de princípios; e Epicuro pede-me que não despreze sua bela teoria dos átomos e do vazio. Ó Epicuro, o melhor dos homens, não a contradigo; mas Cleantes, pondo a cabeça para fora do poço, zomba de ti. Não tenho mais que aceitar seus princípios, quando correm a mim, do fundo da Líbia, Carnéades e Clitômaco, que repelem a opinião de todos os outros e pretendem que nada pode ser compreendido e que sempre à verdade se mistura uma imaginação mentirosa.

Que fazer? A verdade escapa ao homem e a tão decantada filosofia, longe de possuir a ciência das coisas, não é mais que uma luta contra sombras: ἀλήθεια ἐξ ἀνθρώπων οἴχεται, ἡ δὲ ὑμνουμένη φιλοσοφία σκιομαχεῖ μᾶλλον ἢ τὴν τῶν ὄντων ἐπιστήμην ἔχει. Irrisio, 7, col. 1177. Felizmente o grave Pitágoras entrega-me o segredo de tudo: é a mônada. Com linhas e números, pode-se tudo medir. Meço, pois, o mundo, o fogo, o ar, a água, o império de Júpiter e de Netuno, a terra, as estrelas. E Epicuro me grita: Há ainda outros mundos. Com efeito, há até mil e mais. «Eis-me, pois, obrigado a visitar uma multidão de outros céus, novas planícies etéreas, mundos novos. Partamos sem mais demora; tomemos provisões para vários dias, e percorramos os mundos de Epicuro. Voo além dos limites de Tétis e do Oceano. Chegado a um mundo novo como se chega a uma nova cidade, tudo medi em poucas horas. Passo dali a um terceiro mundo, depois a um quarto, a um quinto, a um décimo, a um centésimo, a um milésimo; e até onde irei? Não estou bem convencido agora de que tudo não passa de trevas, noite enganosa, erro sem fim, concepção imperfeita, abismo de ignorância? Para que se diga que meu espírito investigador nada negligenciou, contarei até os átomos que deram nascimento a tantos mundos. Mas não haveria algo melhor, mais essencial a fazer? É de tudo isso que depende a felicidade da família e da cidade?» Irrisio, 9, 10, col. 1177-1180.

Tal é essa sátira cheia de verve em que, numa exposição rápida, espirituosa e dramática, e sob uma forma engenhosa e picante, são passados em revista todos os sistemas da filosofia grega, do século VI ao II antes de Jesus Cristo. Merece ser lida, a título de obra literária: mas não poderia passar por uma obra apologética, por falta precisamente de ter dado testemunho de maneira positiva da verdade do cristianismo. E seu autor não tem direito de tomar lugar no mesmo nível que São Justino, Atenágoras e os outros apologistas do século II.

Texto em Migne, P. G., t. vi, col. 1169-1180, e em Otto, Corpus apologetarum christianorum, Iéna, 1872, t. ix. A primeira edição da Irrisio, texto grego e tradução latina, foi dada em Basiléia, em 1553; a última se deve a Diels, Doxographi grœci, Berlin, 1879, p. 649-656. Sobre a tradição do texto, ver Harnack, Geschichte der altchristlichen Litteratur bis Eusebius, part. I, Leipzig, 1893, p. 782-783. Tillemont, Mémoires pour servir à l'histoire ecclésiastique des six premiers siècles, Paris, 1701-1709, t. iii, p. 67; Ceillier, Histoire générale des auteurs sacrés et ecclésiastiques, Paris, 1858-1869, t. vi, p. 332-333; Freppel, Les apologistes chrétiens, 3e édit., Paris, 1887, p. 55-74; Bardenhewer, Les Pères de l'Église, trad. franc., Paris, 1899, t. i, p. 190-191; Geschichte der altkirchlichen Litteratur, Fribourg-en-Brisgau, 1902, t. i, p. 299-303; Kirchenlexikon, t. v, col. 1899-1900; Smith et Wace, Dictionary of Christian biography, t. ii, p. 927-928; U. Chevalier, Répertoire. Bio-bibliographie, t. i, col. 2132.

G. Bareille.

Autor original: G. Bareille

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