HEFELE (CARLOS JOSÉ)

HEFELE (CARLOS JOSÉ)

HEFELE Carlos José nasceu a 15 de março de 1809, em Unterkochen, no Wurtemberg, seguiu os cursos dos ginásios de Ellwangen (1817-1825) e de Ehingen (1825-1827), estudou teologia na universidade de Tubinga (1827-1832), onde ensinavam Drey, Hirscher e Möhler, fez seu seminário em Rottenburg (1832-1833) e foi ordenado sacerdote a 10 de agosto de 1833. Depois de ter sido durante um ano vigário em Mergentheim, foi nomeado, em 1834, repetidor no seminário de Tubinga e, a partir do mês de fevereiro de 1835, professor no ginásio de Rottweil. Em 1836, tornou-se privatdozent de história eclesiástica na universidade de Tubinga, professor extraordinário em 1837 e professor ordinário em 1840. Conservou essa cátedra, na qual sucedia a Möhler, até 1868, exceto durante os anos de 1842-1845, em que foi eleito membro da Câmara dos deputados de Stuttgart. Desde 1834, colaborou na Theologische Quartalschrift de Tubinga, e continuou sua colaboração por mais de trinta anos. Inseriu também mais de 150 artigos na primeira edição do Kirchenlexikon.

A primeira de suas obras, que foi também sua tese de doutorado em teologia, intitula-se: Geschichte der Einführung des Christentums im südwestlichen Deutschlands, besonders in Wurtemberg, Tubinga, 1837. Dois anos mais tarde, dava, com prolegômenos e notas, uma edição dos Padres apostólicos para uso dos estudantes: Patrum apostolicorum opera, in-8°, Tubinga, 1839, que ele mesmo reeditou em 1842, 1847 e 1855; as edições seguintes, 1878-1881, 1901, são de Funk. Ver col. 974. No ano seguinte, traduzia para o alemão e anotava a Epístola de Barnabé: Das Sendschreiben des Apostels Barnabas, Tubinga, 1840. Em 1844, publicou a Vida do cardeal Ximenes: Kardinal Ximenes und die kirchliche Zustände Spaniens am Ende des xv und Anfange des xvi Jahrhunderts, insbesondere ein Beitrag zur Geschichte der Inquisition, in-8°, Tubinga; 2ª edição, 1851; esta obra foi traduzida para o espanhol, para o inglês e três vezes para o francês, por Charles Sainte-Foi e de Bermond, Paris, 1856, por Sisson e Crampon, Lyon, 1856, e por um sacerdote anônimo, Tournai, 1856.

No ano seguinte, Hefele editou o Breviloquium de são Boaventura, Tubinga, 1845; 3ª edição, 1861 (o Itinerarium mentis ad Deum do mesmo santo doutor foi acrescentado à 3ª edição), e 74 sermões escolhidos e traduzidos de são Crisóstomo, Chrysostomus-Postille, Tubinga, 1845; 3ª edição, 1857. Em 1864, reuniu os principais artigos que havia publicado na Theologische Quartalschrift, no Kirchenlexikon e no Neue Sion de Haas sob este título: Beiträge zur Kirchengeschichte, Archäologie und Liturgik, 2 in-8°, Tubinga, 1864.

Mas a principal obra de Hefele, aquela à qual seu nome permanecerá sempre ligado, é a sua História dos concílios. A ideia ocorrera ao autor desde 1835, quando publicou, nos Giessener Jahrbücher für Théologie und christliche Philosophie, seu artigo: Blicke ins xv Jahrhundert und seine Konzilien mit besonderer Berücksichtigung des Basler Synode. Desde então, sua preocupação voltou-se para os concílios, em diversos relatos críticos e artigos da Theologische Quartalschrift. Seu plano alargou-se e, do século XV, o autor remontou aos primeiros séculos da Igreja e estudou não somente os concílios gerais, mas todos os sínodos provinciais, recolocando-os em seu meio histórico, de tal sorte que sua História dos concílios se tornou como que uma história do dogma, da moral e da liturgia. A Conciliengeschichte apareceu sucessivamente em Tubinga, t. i (1855), t. ii (1856), t. iii (1858), t. iv (1860), t. v (1863), t. vi (1867), t. vii (1874), e recebeu excelente acolhida, mesmo da parte dos protestantes. Detém-se em 1449. O autor pôde preparar ele próprio uma 2ª edição dos quatro primeiros tomos, 1873-1879; os t. v e vi foram revistos por Knöpfler, 1886-1890. Foi continuada por Hergenröther e levada quase até a véspera do concílio de Trento, t. viii e ix, 1887-1890.

O abade Delarc fez uma má tradução francesa da primeira edição: Histoire des conciles, 12 in-8°, Paris, 1869-1878. Dom Leclercq fez uma versão nova da 2ª edição e de sua continuação, e a enriqueceu com notas abundantes e numerosos apêndices. Compreende 8 tomos. Será completada até nossos dias e formará uma coleção de 12 tomos em 24 volumes.

A 26 de maio de 1868, o cardeal Schwarzenberg, arcebispo de Praga, aconselhou aos cardeais Caterini e Antonelli que chamassem a Roma, como consultores, alguns eclesiásticos inabaláveis na fé e firmemente ligados às doutrinas católicas. Sem querer indicar uma escolha, pôs contudo em primeiro plano os nomes de Hefele, Kuhn e Döllinger. A 2 de outubro seguinte, Hefele era chamado por intermédio do núncio de Munique. Cecconi, Histoire du concile du Vatican, trad. franc., Paris, 1887, t. iv, p. 704-705; t. i, p. 370-371. Hefele deixou sua cátedra de professor após 32 anos de ensino e foi eleito para a sé episcopal de Rottenburg, a 17 de junho de 1869. A 12 de novembro de 1868, fora nomeado membro da comissão diretora e, no mês de março de 1869, redigira um Votum sobre o método a seguir nas congregações gerais. Ver Acta et décréta sac. oecum. concilii Vaticani, edit. Granderath, in Collectio Lacensis, Friburgo em Brisgóvia, 1890, t. vii, col. 1046-1047, 1050, 1051, 1087-1100.

De 1º a 6 de setembro, assistiu, como bispo eleito de Rottenburg, à assembleia de Fulda, e assinou a carta pastoral que os bispos reunidos publicaram, a 6 de setembro, sobre o concílio, bem como a carta que haviam escrito, a 4, a Pio IX, sobre a inoportunidade da definição da infalibilidade pontifícia, sobretudo em relação aos assuntos e às ideias da Alemanha. Ibid., col. 1188-1197; Cecconi, Histoire du concile du Vatican, l. III, c. vi, n. 5, doc. clxiv, ccxx, trad. franc., Paris, 1887, t. ii, p. 456-463; t. iii, p. 370-378; t. iv, p. 155-162. Preconizado a 22 de novembro, Mons. Hefele foi sagrado a 29 de dezembro. Tomou parte desde então, como bispo, nas deliberações do concílio e, a 24 e a 31 de março, nas congregações gerais, tomou a palavra sobre os c. i e iii do esquema De fide, Acta et décréta, col. 733, 736; cf. Granderath, Histoire du concile du Vatican, trad. franc., Paris, 1911, t. ii b, p. 69, 77; e a 24 de abril de 1870, assistiu à III sessão, na qual foi promulgada a constituição Dei Filius. Ibid., col. 267.

Na questão da infalibilidade pessoal do sumo pontífice, esteve constantemente do partido da minoria. Não combatia apenas a oportunidade da definição: negava pura e simplesmente a existência do privilégio que a maioria queria definir. Não se limitou a subscrever, a 12 de janeiro de 1870, o postulatum contra a definição da infalibilidade pontifícia, em resposta à petição da maioria, ibid., col. 944-945; publicou em Nápoles um opúsculo: Causa Honorii papœ, que aparecia ao mesmo tempo em Tubinga em alemão: Honorius und das VI. allgemeine Konzil. A 9 de fevereiro, assinava também o postulatum relativo à maneira de dispor e de estudar o esquema De Ecclesia, com vistas a retardar o exame da infalibilidade. Ibid., col. 950-952. A 2 de março, protestou contra o decreto de 20 de fevereiro sobre a ordem a seguir nas discussões e nas deliberações. Ibid., col. 967. A 8 de maio, protestou de novo contra a mudança operada a 29 de abril na ordem a seguir no exame do esquema De Ecclesia, mudança que punha em primeiro plano dos trabalhos do concílio a primazia e a infalibilidade do papa. Ibid., col. 980-983. Na terça-feira 17 de maio, tomou a palavra na 52ª congregação geral. Ibid., col. 744. Reclamou, a 4 de junho, contra o encerramento da discussão do esquema De Ecclesia. Ibid., col. 986-987. A 7 de julho, associou-se à queixa feita a respeito de um acréscimo contrário à 72ª emenda, que havia sido adotada.

A 13 do mesmo mês, na votação sobre a infalibilidade pontifícia, disse: Non placet. No dia seguinte, insistiu junto ao comitê internacional para que os não aceitantes renovassem sua oposição na sessão pública do dia 18, e pediu que, se o ato de adesão ao decreto fosse exigido, de imediato, eles o recusassem. Mas foi decidido que os opositores não assistiriam à sessão e disso preveniriam por carta o papa Pio IX. Hefele subscreveu essa carta de 17 de julho. Ibid., col. 991-992, 994-995. Teve dificuldade em aderir ao novo dogma de fé católica. Pensou por um momento em demitir-se de sua sé em vez de submeter-se. A 11 de março de 1871, reconhecia diante de seus amigos o seu engano e suplicava a Döllinger que se submetesse, para afastar de sua cabeça a excomunhão que o devia atingir. Em vez de imitar os velhos-católicos em sua revolta, publicou em sua diocese a constituição Pastor æternus, aderindo ele mesmo a ela, e, a 23 do mesmo mês, anunciou sua adesão ao núncio de Munique. Ibid., col. 1004. A 20 de outubro de 1870, protestara por uma carta pastoral contra a invasão de Roma pelo exército italiano.

Depois do concílio, o bispo de Rottenburg ocupou-se da administração de sua diocese e da revisão de sua História dos concílios. Morreu a 5 de junho de 1893, aos 84 anos de idade.

Mons. Reiser, Worte... am Sarge des... Hefele, Rottenburg, 1893; H. Roth, Dr. K. J. von Hefele, Bischof von Rottenburg, Stuttgart, 1894; Funk, in Theologische Quartalschrift, 1894, p. 1-14; Allgemeine Deutsche Biographie, t. l, p. 109-115; Kirchenlexikon, 2ª edit., t. x, p. 1322-1323; Realencyclopädie für protestantische Théologie und Kirche, 1899, t. vii, p. 525-531; Kirchliches Handlexikon, Munique, 1907, t. i, col. 1872; P. Godet, Ch. Jos. Hefele, in Revue du clergé français, 1907, t. l, p. 449-474; H. Leclercq, Notice biographique, in Histoire des conciles, Paris, 1907, t. i, p. xiii-xv; The Catholic Encyclopedia, Nova York, 1910, t. vii, p. 191-192; Hurter, Nomenclator, 1913, t. v, col. 1653-1655; J. F. von Schulte, Der Altkatholizismus, 1887, p. 215-238; Granderath, Histoire du concile du Vatican, trad. franc., Bruxelas, 1911-1913, t. i-iii, passim (ver os índices).

E. Mangenot.

Autor original: E. Mangenot

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