HAGEN ou HAGHEN Jean (de Indagine) nasceu em Hadderdop, perto de Stadthaghen, em 1415, da família dos marqueses de Hagen, na Saxônia. Aos vinte e cinco anos, entrou na cartuxa de Erfurth e tomou o hábito em 25 de janeiro de 1440. Ele mesmo contou que se retardou por algum tempo sua entrada no noviciado, a fim de lhe dar a faculdade de ser recebido doutor em um e outro direito, mas, por um motivo sobrenatural, recusou essa honra. Admitido à profissão e às ordens sacras, permaneceu por muito tempo simples religioso numa cela de claustro, onde pôde satisfazer amplamente o seu gosto pelo estudo. Fora das horas destinadas pelo regulamento aos ofícios e aos demais exercícios regulares, consagrava ao estudo quase todo o tempo que lhe restava.
Dormia pouco e, para prolongar suas vigílias, era obrigado a suprir a falta de óleo e de velas, que não lhe eram fornecidos em quantidade suficiente por causa da pobreza do convento, com o caldo da sopa e dos outros alimentos cotidianos. Por isso seus manuscritos traziam as marcas dessa engenhosa indústria. Foi sucessivamente prior das cartuxas de Erfurth, de Eisenach, na diocese de Mogúncia, de Stettin, na Pomerânia, e de Frankfurt-sobre-o-Oder. Sua grande virtude e seu vasto saber atraíram-lhe a estima e a confiança dos príncipes e dos prelados da Alemanha. Morreu em 19 de abril de 1475 na cartuxa de Erfurth, deixando a reputação de grande santidade.
O catálogo de seus escritos é muito longo, pois, numericamente, nenhum cartuxo compôs tantos livros quanto ele. Trithème, seu amigo, dá os títulos de sessenta obras que tinha visto, e termina sua lista dizendo que dom Hagen havia escrito ainda um número considerável de comentários sobre a Escritura, de tratados e de consultas em resposta aos casos e às dificuldades que lhe eram propostos. O P. Possevin, seguido pelo cartuxo Petrejus, enumera até 433 livros ou tratados; Morozzo conta 492, e outro bibliógrafo dá o número de 500 títulos.
Sem entrar em pormenores, diremos que dom Hagen compôs comentários sobre todos os livros do Antigo e do Novo Testamento, segundo os quatro sentidos recebidos na Igreja, e vários tratados complementares de seus trabalhos sobre a Sagrada Escritura. Escreveu mais de cento e vinte tratados de teologia dogmática e moral, bem como várias apologias da fé e refutações dos erros dos pagãos, dos judeus e, sobretudo, dos hussitas, dos flagelantes e dos outros hereges de seu tempo. Deixou tratados sobre o símbolo dos apóstolos, a oração dominical e a Ave-Maria, sobre a nobreza e a graça de Jesus Cristo, sobre a Paixão, sobre a Santíssima Virgem Maria, sobre os deveres dos cristãos que vivem no século. Escreveu também um tratado concernente ao papa, aos cardeais e aos bispos, e os bibliógrafos acrescentam que é um bom tratado. Escreveu igualmente sobre os deveres e os direitos dos cônegos, dos párocos, dos pregadores e dos clérigos. Compôs missas, explicou o ofício da missa e resolveu as questões relativas ao santo sacrifício.
Mais de quarenta de seus escritos ocupam-se da vida religiosa em geral, e vinte e cinco da ordem dos cartuxos. Contaram-se mais de setenta tratados espirituais, muitos sermões, uma crônica geral desde a criação do mundo até 1471, outra mais abreviada e uma terceira muito curta, vários tratados sobre diversos ramos da erudição eclesiástica e uma coletânea de cartas. Outrora, o grão-duque da Toscana, Leopoldo II, possuía os manuscritos de dom Hagen de Indagine. É provável que esses tesouros tenham seguido para o exílio seu ilustre proprietário. Há bibliotecas públicas e particulares onde se encontram algumas cópias de seus tratados e até alguns de seus comentários sobre a Escritura. Cf. Migne, Dictionn. des manuscrits, t. i, col. 237 ; t. ii, col. 170, n. 169 ; col. 172, n. 729 ; col. 16, n. 74; L. Rosenthal, Bibliotheca cartusiana, n. 711-712.
Foram impressos os seguintes opúsculos de dom Hagen: 1° Tractatus de diversis gravaminibus religiosorum, in-4°, s. l. n. d. Cf. Hain, n. 9169 ; Panzer, t. ix, p. 178, n. 175; 2° De perfectionne et exerciliis sacri carlusiensis ordinis, libri duo, in-12, Cologne, 1606 et 1609; Lyon, 1643; 3° Declaralio religiosi patris Johannis Haghen carthusiensis super indulgentiis bullaz Boni/acii papas de festo Visilationis gloriosse Virginis Maria*, publicada por Martène e Durand, Veterurn scriptorum ampliss. collectio, t. i, col. 1379-1380, e pelo cartuxo Tromby, Histoire des chartreux, t. ix, p. xix-xx; 4° segundo dom Teodoro Petrejus, publicou-se em Ingolstadt uma tradução alemã do tratado: De concilio generali, qualiler errare possil, et quo pacto circa schisma habere se oporleal. Cf. Bibliotheca cartusiana, Cologne, 1609, p. 190, nota marginal.
Parece que o autor não havia seguido a opinião dos teólogos alemães, seus contemporâneos, a respeito da supremacia do concílio sobre o papa, pois se encontra entre seus tratados apologéticos o título de um livro contra um célebre pregador franciscano que, em seus sermões, não se exprimia com suficiente exatidão acerca da autoridade eclesiástica; mas, depois de advertido pelo zeloso solitário, corrigiu-se e retratou seus erros.
Convém lembrar que a Santa Sé, ao condenar as obras de um autor homônimo, João Havers de Indagine, declarou expressamente que não pretendia confundir esse escritor com o teólogo cartuxo. Cf. Reusch, Der Index der verbolenen Bûcher, Bonn, 1883, t. i, p. 280. Uma autobiografia de dom Hagen foi publicada nas Ephemerides ordinis carlusiensis de dom Léon Le Vasseur, t. i, p. 463-496.
Ver também Trithemius, De scriptoribus ecclesiasticis; Théoph. Raynaud, Trinitas patriarcharum ; Petrejus, Bibliotheca cartusiana; Morozzo, Theatrum chronol. S. ord. cartus., Tromby, etc.
S. Autore.
Autor original: S. Autore
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