GOUTTES (JOÃO-LUÍS)

GOUTTES (JOÃO-LUÍS)

GOUTTES João-Luís, bispo constitucional, nascido em Tulle em 21 de dezembro de 1739. Antes de abraçar o estado eclesiástico, havia servido num regimento de dragões, e seus detratores contaram que saíra dele mal, mas não forneceram prova alguma. Ordenado sacerdote, o abade Gouttes exerceu primeiro na diocese de Bordeaux, depois foi ligado à igreja do Gros-Caillou, em Paris, após o que foi a Montauban, onde obtivera um pequeno benefício. Esses diversos empregos não o impediam de residir de tempos em tempos em sua cidade natal, onde sua família ocupava lugar honrado na burguesia abastada. Foi ali que entrou em relações com Turgot, então intendente da província. Esse jovem sacerdote de espírito desperto e ousado agradou ao célebre administrador, que o encorajou a estudar os problemas econômicos e acabou por fazer dele seu colaborador habitual.

Não teve dificuldade em ganhá-lo para todas as suas ideias; parece mesmo que o abade, cujo juízo não era tão sólido quanto sua inteligência era viva, exagerou os ensinamentos do mestre, como acontece a muitos discípulos, e fez-se o defensor das opiniões mais audaciosas. Turgot lia atentamente suas memórias, encarregava-o de compor outras sobre certas questões na ordem do dia, apropriava-se do que nelas achava de original e utilizava esse escritor de pena bem afiada para pôr em circulação as ideias novas a que era preciso que a opinião pública se habituasse. É certamente sob a inspiração de Turgot que Gouttes redigiu sua Théorie de l'intérêt de l'argent tirée des principes du droit naturel, de la théologie et de la politique, contre l'abus de l'imputation d'usure, Paris, 1780; 2e édit., augmentée d'une Défense, 1782. Nesse livro, rompia abertamente com o ensino, então unânime, das escolas; tomando a defesa do empréstimo a juros, estava adiantado em meio século, e os argumentos que apresentava talvez não sejam aqueles que levaram os teólogos a abandonar os princípios rigorosos que haviam por longo tempo sustentado.

Por essa publicação, o abade Gouttes se alinhava entre os escritores que trabalhavam, mais ou menos conscientemente, para precipitar a Revolução, mas os projetos de reformas econômicas e sociais estavam de tal modo no espírito do tempo que ninguém pensava em lhe guardar rancor por suas audácias. Ao contrário, posto em evidência por seus escritos, o abade Gouttes tirou deles para si mesmo um proveito material muito apreciável. O bispo de Tarbes, M. de Gain-Montaignac, era também de origem limusina e interessou-se por seu brilhante compatriota. Comendatário da abadia de Quarante, na diocese de Narbonne, o prelado dispunha de várias paróquias dependentes dessa casa religiosa; a de Argilliers era muito desejável, pois, situada num país rico, valia, em dízimos sobre os grãos, o azeite e o vinho, uma renda que ia, conforme os anos, de 3 000 a 6 000 libras. Recomendado ao bispo, Gouttes foi nomeado e triunfou sobre um competidor que se valera do procedimento de « prevenção em corte de Roma » e era apoiado pelo arcebispo de Narbonne. Foi preciso ir até o parlamento de Toulouse, e Gouttes guardou rancor contra o que os galicanos chamavam « as usurpações da corte romana ».

O novo pároco de Argilliers desfrutava de uma situação muito invejável: seu físico nobre, sua boa graça, sua reputação de publicista, a novidade das opiniões que desenvolvia com verve, as perspectivas sedutoras que abria diante de seus ouvintes faziam dele o oráculo do clero; perdoaram-lhe bem depressa suas origens estrangeiras. Aos fiéis, dirigia discursos todos repletos das ideias em voga, falava raramente do dogma, julgando que os camponeses sempre sabem o bastante sobre esse ponto; não encorajava as devoções, tendo pouco gosto pelo que chamava de superstições. Suas homilias eram lições de economia rural e doméstica; gabava os progressos da ciência, recomendava os processos de rotação de culturas, as adubações e os métodos de criação; preconizava o plantio de batatas, a vacina e o aleitamento materno; contava as proezas dos aeronautas e as descobertas dos sábios. Por vezes lhe acontecia dar conselhos de temperança, de ordem e de probidade e parecia então lembrar-se de que era sacerdote e pároco. Seus paroquianos o seguiam docilmente, conquistados por seu vasto saber, e, desligando-se pouco a pouco de suas crenças tradicionais, encaminhavam-se insensivelmente para a total indiferença religiosa.

Quando o clero da senescalia de Béziers teve de designar seu deputado aos Estados Gerais, o pároco de Argilliers foi eleito. Em Versalhes, como em Paris, foi um dos cabeças do partido dos párocos que trouxe seu reforço ao Terceiro Estado e lhe assegurou a vitória. No trabalho cotidiano, Gouttes desdobrava uma atividade infatigável, pronto a falar, a redigir, a pôr a serviço dos comitês a competência que lhe valiam seus estudos especiais. Suas opiniões eram as de um monarquista liberal, mas sua lealdade monárquica não o impedia de reclamar a igualdade civil, a abolição dos privilégios e o controle efetivo das despesas públicas pelos representantes da nação. Apaixonadamente moderado, só saía de sua mansidão habitual quando alguém se atrevia a contestar as teses que lhe eram caras.

Como certo número de seus colegas, fizera questão de figurar nas fileiras da guarda nacional, e lhe aconteceu sentar-se em traje metade clerical e metade militar; ninguém se atreveu a rir, pois naquela época as grandes palavras e os grandes gestos eram tomados a sério por uma geração que fora nutrida com as narrativas de Plutarco. Quando foi discutida a nova organização da Igreja da França, Gouttes, que fazia parte do « Comitê eclesiástico », sustentou algumas de suas teorias paradoxais e fez aceitar várias; assim, quando a constituição civil entrou em vigor, pareceu equitativo reservar-lhe uma sé episcopal e, na falta de outra, obteve a de Autun, que a retirada de Talleyrand tornava disponível.

Uma última vez, em 24 de fevereiro de 1791, o bispo de Autun, demissionário havia mais de um mês, consentira em usar de seus poderes de ordem para dar bispos a uma Igreja em que não acreditava; depois voltara definitivamente ao estado secular e se considerara desobrigado de toda obrigação sacerdotal. Gouttes, eleito em 15 de fevereiro de 1791, foi sagrado em Paris por Lamourette, o novo « metropolitano » do Ródano; partiu imediatamente para organizar sua diocese. O departamento de que se tornava o chefe espiritual era um agrupamento artificial de regiões que diferiam pela natureza de seu solo tanto quanto pelo caráter de seus habitantes. O clero não tinha nenhuma unidade, mas o elemento juramentado ali era pobremente representado; não encontrando em parte alguma o vigário episcopal que devia ser seu principal auxiliar e mesmo seu substituto enquanto ele sentasse na Assembleia, Gouttes chamou para junto de si seu amigo Victor de Lanneau; era um champanhês que, depois de ter sido cônego, entrara na ordem dos teatinos; seus talentos de educador o haviam feito pôr à frente do colégio de Tulle, onde Gouttes o conhecera e apreciara. Tendo confiado sua diocese a um homem de sua escolha, o bispo voltou a Paris.

Na separação da Constituinte, Gouttes quis retomar a direção de seu clero, mas teve de reconhecer bem depressa que haviam adquirido o hábito de passar sem ele; os vigários episcopais haviam adquirido uma autoridade que neutralizava a sua; além disso, as ideias haviam avançado e, mesmo procurando alçar-se até o diapasão revolucionário, Gouttes permaneceu sempre um retardatário. Publicou algumas cartas pastorais nas quais pregou « o respeito às leis » e ensinou que é preciso obedecer « mesmo quando elas fossem injustas ». Esse fanatismo de legalidade devia logo colocá-lo no mais cruel embaraço.

Literariamente falando, a prosa episcopal de Gouttes não existe: a composição é pesada por intermináveis digressões; a frase é sem elegância, o pensamento é vulgar e se traduz numa forma em que a banalidade se alia à trivialidade. Que comparações puderam fazer aqueles que se lembravam do estilo aristocrático de Maurício de Talleyrand! Daquelas cartas verdadeiramente episcopais em que, em termos nobres, respirando uma altiva deferência para com seus leitores e muitas vezes uma unção que se poderia crer sincera, ele ocultava sob as flores de uma brilhante retórica a causticidade de seu espírito incisivo! Perto dele, Gouttes escrevia como um grosseirão.

Lanneau se apoderara do primeiro papel político: Gouttes foi bem obrigado a deixar-lho. Apagando-se, assistiu sem protestar à dilapidação do patrimônio de sua Igreja e à pilhagem metódica de tudo o que a generosidade e o gosto haviam acumulado de tesouros nos santuários da diocese. Enquanto Lanneau pontificava na municipalidade, no clube, no comitê revolucionário e achava meio de acumular essas funções com as de diretor do colégio, Gouttes percorria os campos e dava a confirmação aos filhos dos camponeses.

No mês de novembro de 1793, um vento de anticlericalismo percorreu a França como uma tempestade furiosa: por ordem do comitê revolucionário, os padres deviam renunciar a seu título pastoral, entregar suas cartas de sacerdócio e repudiar seu sacerdócio. Lanneau conduzia esse movimento: havia quase um ano, casara-se e, ao entregar seus papéis eclesiásticos, anuncia que dentro de alguns dias vai ser pai. Gouttes fora profundamente ofendido por esses escândalos; sentira-se humilhado em sua dignidade sacerdotal, mas não tivera a coragem de manifestar sua indignação. A lei autorizava o casamento dos padres; encorajava a apostasia; como servidor cego da lei, Gouttes sofria suas disposições mais odiosas.

Alguns dias mais tarde, a catedral de Autun ia ser dedicada ao culto da Razão; organizavam-se mascaradas infames no curso das quais Gouttes sabia que seria convidado a depor suas insígnias episcopais e a abjurar sua fé. Era demais! Desta vez, sua consciência se revoltou e, na véspera da cerimônia ímpia, deixou a cidade para refugiar-se numa propriedade, propriedade de igreja, que comprara para fazer dela sua casa de campo. Foi seu primeiro ato de coragem, e que lhe custou a cabeça.

As fúrias antirreligiosas do início haviam se acalmado; fazendo-se bem pequeno, Gouttes voltara a Autun e pensara em granjear boa vontade oferecendo seus serviços ao comitê revolucionário, que o empregava para escrever cartas; o infeliz tentava redigi-las no estilo furibundo que era então de rigor, mas sua boa vontade não desarmou aqueles que haviam jurado sua perda. A letra e o espírito da lei não permitiam intentar processos criminais contra um padre pelo fato de não ter apostatado. Foi preciso tomar um desvio: lembrou-se que, em 9 de abril de 1793, no curso de uma das visitas pastorais, o bispo passara uma noite no presbitério de Mont-Arroux (outrora: Saint-Didier-sur-Arroux); no abandono de uma conversa amistosa, Gouttes havia evocado as recordações de sua carreira política; recordara as grandes jornadas revolucionárias, narrara as lutas em que estivera envolvido; concluía exprimindo sua admiração pelos homens de 89, pela Constituinte, onde trabalhara para fundar a liberdade. «Os Constituintes valiam mais do que os membros da Legislativa e sobretudo do que os da Convenção 1 » Essas reminiscências um tanto amargas não tinham grande alcance: encontrou-se, contudo, entre os convivas alguém para denunciar Gouttes como culpado de ter «excitado ao desprezo da representação nacional». Tinha-se desde então um motivo para persegui-lo e, em 7 de janeiro de 1794, ele era encarcerado no convento, transformado em prisão, da Visitação.

Todos os convivas do desagradável jantar de Mont-Arroux foram presos por sua vez; eram acusados de cumplicidade por não-revelação, e o próprio delator foi processado por denúncia tardia! Por mais rebaixados que estivessem os caracteres sob o regime do Terror, a opinião mostrou-se favorável ao bispo: Lanneau o reconhece; constata «a efervescência, a compaixão que o ex-grão-sacerdote encarcerado ocasiona no sexo devoto»; para pôr fim a isso, ordena transferir o prisioneiro para Mâcon e depois para Paris. Em 10 de março, Gouttes entrava na Conciergerie, precedido de uma carta em que Lanneau o «recomendava» a Fouquier-Tinville e concluía dizendo: «Espero que a execução seja rápida.» Foi com efeito por um «turno de favor» que a causa foi chamada, em 26 de março, diante do tribunal revolucionário; junto a Gouttes estavam seus pretensos cúmplices. Esses padres constitucionais haviam feito triste figura: todos haviam mais ou menos apostatado e, no entanto, encontraram-se dois que tiveram a coragem de defender seu bispo, restabelecendo os fatos e mostrando o pouco alcance dos devaneios cuja gravidade fora maldosamente exagerada. Essas duas testemunhas foram imediatamente inculpadas por terem querido subtrair um culpado à justiça revolucionária e reenviadas à prisão; quanto aos outros, estavam suficientemente intimidados e responderam o que se quis fazer-lhes dizer.

Gouttes defendeu-se lastimavelmente: «Minha prisão teve por causa minha recusa em dar minha demissão de bispo; não a dei, essa demissão, porque teria julgado insultar o povo antecipando-me ao seu desejo, porque, tendo sido ele o único a me nomear, só ele podia me despedir; uma vez conhecida sua opinião, todo contrato cessava entre nós e teria sido comigo como com um criado despedido por seu patrão...» Um criado! Eu era um criado! Eis a concepção que este funcionário faz do episcopado! Em 1791, o corpo eleitoral meteu-se a macaquear a operação do Espírito Santo conferindo a jurisdição a um indivíduo que julgou fazer bispo; só fez um criado! Apesar de seus protestos, Gouttes foi condenado à morte e, na própria noite de 26 de março, foi guilhotinado. Pretendeu-se que, em sua prisão, o intruso fora visitado pelo Sr. Émery e se reconciliara com a Igreja. O Sr. Émery enumera os padres que recorreram ao seu ministério, mas Gouttes não está entre eles. Gouttes era um espírito falso, falseado pelos paradoxos filosóficos de sua escola. Sua vida era pura, seu coração permaneceu fechado a todo sentimento abjeto; sua perversão residia na inteligência, mas sua obstinação era invencível. Teme-se que tenha morrido como vivera, acariciando sua quimera de trazer de volta «os belos dias da Igreja primitiva». A Igreja dos constitucionais só lembrou a dos tempos apostólicos pela perseguição que suscitou de início contra o clero fiel a Roma, mas que, voltando-se contra ela, a fez perecer miseravelmente.

Obras de Gouttes. — Seu Traité de l'intérêt de l'argent foi publicado sem nome de autor em 1780; a 2ª edição, que é de 1782, é precedida de uma resposta às críticas feitas à obra. Barbier diz que esse tratado não passa de uma refundição de um livro aparecido sob o mesmo título e cujo autor seria o abade Rullié. Acrescenta que Turgot colaborou na obra de Gouttes. — Os trabalhos parlamentares de Gouttes são reproduzidos ou analisados no Moniteur e nos Archives parlementaires; encontrar-se-ão consultando as tabelas desses dois repertórios. — Os mandamentos de Gouttes são enumerados e apreciados no livro do Sr. de Charmasse, O.-L. Gouttes, évêque constitutionnel de Saône-et-Loire, Autun, 1898, que examinou e utilizou com muito cuidado tudo o que havia aparecido em Autun e todas as peças contidas nos arquivos de Mâcon e de Autun sobre esse personagem.

Para o processo de Gouttes, ver Archives nationales, W, 340-623, e Bulletin du tribunal révolutionnaire, n. 9; Pisani, Répertoire de l'épiscopat constitutionnel, Paris, 1907, p. 317-320; Bliard, Jureurs et insermentés, Paris, 1910; Nouvelles ecclésiastiques, 1791, p. 127.

P. Pisani.

Autor original: P. Pisani

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