GIACOMELLI

GIACOMELLI

GIACOMELLI Miguel Ângelo nascera em Pistoia a 11 de setembro de 1695. Depois de aprender em sua cidade natal tudo o que seus mestres lhe podiam ensinar, obteve em 1714 uma vaga de bolsista no colégio de Pisa, e ali se aperfeiçoou nas letras e nas ciências, sem negligenciar a teologia, cujo estudo coroou com o grau de doutor em 1718. Seu bispo lhe oferecia uma posição em sua diocese, propunham-lhe uma cátedra na universidade de Pisa; como preferia estudar, aceitou com presteza o posto de bibliotecário junto de seu compatriota o cardeal Fabroni, que lhe permitiria viver em meio aos livros. Trabalhou com o cardeal, a quem secundou em sua luta enérgica contra o jansenismo, e atribui-se-lhe a redação de certos Avvisi dati al cristianesimo intorno gli errori del giansenismo e quesnellismo. Depois da morte de Fabroni (1727), Giacomelli passou ao serviço do cardeal Colligola, que morreu em 1730; ligou-se em seguida à família Sacchetti, ocupando-se da instrução das crianças.

Em 1737, Clemente XII o pôs no número de seus capelães secretos e dois anos depois lhe concedia um benefício de São Pedro. Esses favores eram merecidos, pois, ao mesmo tempo que cultivava as belas-letras, Giacomelli punha sua pena a serviço da Igreja e a empregava em defender seus interesses, como mostram as Ragioni della sede apostolica nelle presenti controversie colla Corte di Torino, 4 in-fol., Roma, 1732. Foi igualmente apreciado por Bento XIV, de quem traduziu para o latim os Commentarii de D. N. Jesu Christi Matrisque ejus festis et de missae sacrificio, retractati atque aucti, in-fol., Pádua, 1745. Clemente XII o nomeava em 1759 secretário para as cartas latinas e em 1762 secretário dos breves aos príncipes. Quatro anos mais tarde, dava-lhe uma cadeira de cônego em São Pedro e, logo depois, a 3 de outubro de 1766, criava-o arcebispo titular de Calcedônia.

Foi o fim da carreira de Giacomelli: Clemente XIV, com efeito, circunvindo, dizem, por invejosos, não lhe continuou a confiança de seus predecessores. Quis-se ver nessa aposentadoria uma desgraça causada pelo apego do prelado aos jesuítas, mas talvez tenha sido simplesmente motivada por seus setenta e quatro anos. Seu espírito de fé e seu amor pelos livros fizeram-no esquecer o que a decisão pontifícia podia ter de desagradável, e ele continuou seus trabalhos sobre Platão, mas a morte não lhe deixou o vagar de publicar as Reflexões cujo manuscrito preparara. Ela sobreveio quase subitamente, na sequência de um transbordamento de bile, a 17 de abril de 1774.

Muito versado no estudo dos clássicos, Giacomelli traduziu e publicou em italiano os Memoráveis de Xenofonte, os Amores de Quéreas e Calírroe de Cáriton, 1752, reeditados na Collezione degli erotici greci, Florença, 1833, a Electra de Sófocles e o Prometeu acorrentado de Ésquilo, 1754; escreveu em latim clássico Prólogos às comédias de Plauto e de Terêncio, Roma, 1738; Pistoia, 1774. Eram apenas os passatempos de um humanista que fundara em Roma, com amigos, um Giornale de' letterati, no qual colaborou durante os dezoito anos de sua existência (1742-1760). Ocupava-se, com efeito, ao mesmo tempo de trabalhos mais eclesiásticos: no mês de julho de 1741, lia, em uma sessão no palácio apostólico do Quirinal, uma dissertação histórica De Paulo Samosateno deque illius dogmate et hœresi. Em seguida, editou Di S. Giovanni Crisostomo del sacerdozio libri sei volgarizzati e con annotazioni illustrati, Roma, 1747, depois S. Patris nostri Modesti archiepiscopi Hierosolymitani encomium in dormitionem SS. Deiparœ e grœco latine redditum et notis illustratum, in-4°, Roma, 1760; P. G., t. lxxxvi, col. 3277-3312.

Sua última obra, Philonis episcopi Carpasii enarratio in Canticum canticorum grœcum textum adhuc ineditum quamplurimis in locis depravatum emendavit et nova interpretatione adjecta nunc primum in lucem profert Michael Angelus Giacomellus archiepiscopus Chalcedonensis, in-4°, Roma, 1772; P. G., t. xl, col. 9-154, mostra que até o fim conservou o vigor de sua bela inteligência, pois tinha então mais de setenta e cinco anos. Diz-se que, sendo jovem, Giacomelli estudou especialmente a geometria; cultivara também a poesia, e sua primeira obra foi uma Raccolta di poésie per la solenne coronazione della S. immagine di Maria Vergine dell' Umiltà, Pistoia, 1715. Não negligenciara tampouco as belas-artes, e podia com razão pronunciar no Capitólio, em 1739, uma Orazione in lode delle belle arti, pois conhecia pelo menos a música; tem-se a prova disso em La pace universale, componimento in musica, Roma, 1751, publicada por ocasião do nascimento do duque de Borgonha. Entre os manuscritos que deixou, menciona-se um Ragionamento epistolare a monsignore Ignazio Buoncompagni Ludovisi sul metodo da tenersi per imparare la lingua greca.

A. Matani, Elogio di Michel Angelo Giacomelli, Pisa, 1775; Michaud, Biographie universelle, t. xvii, p. 293; Richard e Giraud, Dizionario universale delle scienze ecclesiastiche, Nápoles, 1846; Picot, Mémoires pour servir à l'histoire ecclésiastique du XVIIIe siècle, 3e édit., Paris, 1855, t. iv, p. 479; Moroni, Dizionario, t. xxx, p. 200; Hurter, Nomenclator, t. v, col. 87, nota; Feller, Dictionnaire historique.

P. Edouard d'Alençon.

Autor original: P. Édouard d'Alençon

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