GERBET (FILIPE-OLIMPO)

GERBET (FILIPE-OLIMPO)

GERBET Filipe-Olimpo, uma das grandes figuras do episcopado francês no século XIX, admirável diretor de consciências, pensador elevado e profundo, escritor de raro mérito, nasceu de uma família muito considerada em Poligny (Jura), a 5 de fevereiro de 1798. Depois de ter sido um dos alunos mais brilhantes e mais apreciados do seminário de Besançon, em 1818 foi prosseguir seus estudos teológicos em Paris, e ali travou estreita e indissolúvel amizade com o abade de Salinis, já ligado ele próprio a Lamennais. Foi ordenado sacerdote em Notre-Dame, a 1º de junho de 1822, por Mons. de Quélen, e nomeado segundo capelão do colégio Henrique IV, do qual o abade de Salinis era o primeiro capelão; os dois sacerdotes tinham a peito dedicar-se ao apostolado junto aos jovens e lutar contra a influência persistente das tradições voltairianas.

Lamennais os visitava com bastante frequência; foi no salão dos capelães de Henrique IV que nasceu, no fim de 1822, a escola lamennaisiana, essa escola que visava, em sua primeira etapa, sem nenhuma preocupação política, promover uma restauração religiosa, derrubando ao mesmo tempo o racionalismo contemporâneo e o galicanismo oficial. Gerbet será logo o discípulo mais íntimo e mais em vista de Lamennais. Jovem e fascinado pelo gênio de um mestre tanto amado quanto admirado, partilhará todas as suas opiniões, até os erros filosóficos e as doutrinas liberais, e empenhar-se-á, durante dez anos, em servi-las com a palavra e com a pena. Em La Chesnaie, aonde havia acompanhado, em 1825, o autor do Essai sur l'indifférence, entre os jovens reunidos em torno dele, sua afabilidade terna abrandará as bruscas e penosas variações do humor do mestre. Em Paris, quase no dia seguinte à revolução de 1830, Gerbet dará, num espírito inteiramente lamennaisiano, lições de filosofia da história que, não obstante mais de uma ideia falsa ou arriscada, foram muito aplaudidas, e que serão publicadas por alguns dos ouvintes sob o título de Conférences de philosophie catholique.

Desde 1824, havia fundado, de comum acordo com o abade de Salinis, sob o patrocínio de Lamennais, o Mémorial catholique, revista mensal que logo adquiriu alta importância literária, juntou-se a ela, a partir de fevereiro de 1830, sua Revue catholique, e sugeriu a Pierre Leroux o pensamento de criar o Globe, para opor doutrina a doutrina. À iniciativa do abade Gerbet deve-se também a fundação, em 1830, do Avenir, esse jornal destinado a uma carreira tão curta e tão tempestuosa, e do qual Gerbet foi, com sua pena sempre pronta, um dos principais redatores. Gerbet, enfim, fazendo-se o campeão da filosofia do consentimento universal ou senso comum, consagrou-lhe três obras, intituladas, uma, Des doctrines philosophiques sur la certitude dans leurs rapports avec les fondements de la théologie (1826), outra, Coup d'œil sur la controverse chrétienne depuis les premiers siècles jusqu'à nos jours (1828), ambas desautorizadas depois e retiradas por ele do comércio; a terceira, Sommaire d'un système des connaissances humaines, que foi publicada em seguida à obra de Lamennais sobre Les progrès de la Révolution et de la guerre contre l'Église (1829).

Nesse ínterim (1829), havia escrito para o grande público seu pequeno livro terno e profundo, as Considérations sur le dogme générateur de la piété catholique, isto é, sobre o mistério da eucaristia. Quando Gregório XVI, pela encíclica Singulari vos de 13 de julho de 1834, condenou ao mesmo tempo as Paroles d'un croyant e o sistema filosófico de Lamennais, o abade Gerbet, fiel ao espírito lamennaisiano primitivo, que aliás jamais desertará, submeteu-se à voz do papa, sem equívoco nem segunda intenção. «A Igreja, escrevia ele a 19 de julho de 1834 ao arcebispo de Paris, está acima de tudo em meu coração.» Aderiu, pois, e de modo absoluto, à doutrina promulgada pelo ato do soberano pontífice, e cessou mesmo toda relação pessoal com Lamennais, abertamente revoltado.

O colégio de Juilly foi então, para o abade Gerbet, um porto de refúgio; pagou ali sua boa acolhida com um belo e bom livro, muitas vezes reeditado, que apareceu sob nomes de empréstimo (de Salinis e de Scorbiac) em 1834 e que merece viver, o Précis de l'histoire de la philosophie; depois do que, escolhido como diretor da casa de altos estudos que os abades de Salinis e de Scorbiac haviam fundado, não longe de Juilly, na aldeia de Thieux, ali dará conferências de filosofia durante vários anos. Mas, ao mesmo tempo que Gerbet, em Thieux como em La Chesnaie, trabalhava por esclarecer e formar um auditório de elite, tomava parte ativa no desenvolvimento e na ação da imprensa católica na França.

Além de seus numerosos artigos assinados ou não assinados, no Univers religieux, criado pelo abade Migne em 1833 para preparar os caminhos à liberdade de ensino, concorreu com antigos lamennaisianos, em 1836, para fundar a Université catholique, órgão periódico de um gênero inteiramente novo, que se dividia em duas partes: uma compreendendo uma série de Cursos, nos quais a filosofia, a história, as ciências naturais, a arqueologia e as artes eram expostas e ensinadas em harmonia com os dogmas e os sentimentos cristãos; a outra consagrada, como as revistas ordinárias, a trabalhos avulsos, a apreciações de obras novas.

Gerbet, que foi durante muito tempo a alma da Université catholique, inaugurou-lhe o primeiro número com um Discours préliminaire sur la classification des sciences que põe em relevo, com a extensão de seu saber e a pureza de seu estilo, sua piedade sacerdotal, e que é geralmente tido como sua obra-prima. Nota-se aí também, de Gerbet, um artigo sobre o Jocelyn de Lamartine, para denunciar o desvio do gênio do poeta e a cor panteísta de sua poesia (1836); Réflexions (comovidas) sur la chute de M. de Lamennais (1836-1837); uma série de estudos sobre os Rapports du rationalisme avec le communisme (1850); e as Conférences d'Albéric d'Assise sur l'économie politique, au point de vue chrétien (1810).

No fim de 1838, tendo o abalo de sua saúde obrigado o abade Gerbet a ir buscar o céu do meio-dia, partiu para Roma; viverá ali dez anos, de 1839 a 1849, estimado e querido pelos membros mais eminentes da colônia francesa, honrado com a benevolência particular dos papas Gregório XVI e Pio IX. Devemos à sua estada em Roma a bela Esquisse de Rome chrétienne, 2 vol., Paris, 1844-1850, na qual algumas páginas, porém, não escapam à censura de forçar demais os monumentos arqueológicos. «O pensamento fundamental deste livro, escreveu ele, Préface, p. vi, é recolher nas realidades visíveis da Roma cristã a marca e, por assim dizer, o retrato de sua essência espiritual.» «Roma, escreve ainda, t. i, p. 398, é, por seus próprios edifícios, uma cidade eminentemente dogmática.»

Com Pio IX, a quem sustentara energicamente, fugiu para Gaeta em 1848, e ali decidiu-se, por instâncias de Mons. Sibour, arcebispo de Paris, a voltar à França. Mons. Sibour confiou-lhe o cuidado de preparar o concílio provincial que se realizou em Paris no ano seguinte, e fê-lo nomear professor de eloquência sacra na Sorbonne. Mas, logo depois, o abade Gerbet preferiu atender ao apelo de seu velho amigo, o Sr. de Salinis, nomeado nesse ínterim bispo de Amiens, que o escolheu para vigário-geral, e, de 1849 a 1854, habitará o palácio episcopal de Amiens. Coube-lhe, em 1852, preparar e redigir os decretos que deviam servir de base às decisões do concílio provincial de Amiens acerca do direito eclesiástico consuetudinário; e Gerbet teve a alegria de ver Pio IX aprovar plenamente e sancionar, na encíclica Inter multipliées de 21 de março de 1853, os decretos do concílio.

Em 1853, a translação solene de Roma a Amiens dos ossos de uma mártir amienense, santa Teodósia ou Théodosie, valeu à literatura francesa o belo Livre de sainte Théodosie, Amiens, 1S.Y1. Enfim, por proposta do imperador Napoleão III, Pio IX elevou o abade Gerbet, a 16 de abril de 1854, à sé episcopal de Perpignan. Bispo, Gerbet testemunhará, como sempre, seu profundo apego às doutrinas romanas bem como à pessoa do soberano pontífice, e tomará parte vigorosa na defesa da independência da Santa Sé. O ato mais importante de seu episcopado foi a Instruction pastorale de 23 de julho de 1860 sobre os diversos erros do tempo presente, precursor e modelo do Syllabus, que lhe mereceu, durante a viagem que fez a Roma em 1862, os elogios públicos de Pio IX. Ver Hourat, Le Syllabus, Paris, 1904, t. i.

De volta a Perpignan, derramou diante de seu clero seus pensamentos e suas impressões, na Conférence sur Rome, Perpignan, 1863. Foi seu testamento. Morreu a 8 de agosto de 1864, enquanto dava os últimos retoques a um opúsculo intitulado: La stratégie de M. Renan, publicado depois de sua morte por Mons. de Ladoue, com prefácio, in-18, Paris, 1866. Uma seleção dos Mandements et instructions pastorales de Mgr Gerbet apareceu em 2 in-8°, Paris, 1875. O Sr. Augustin Vassal publicou recentemente as Pensées de Mgr Gerbet, Paris, 1911,

De Ladoue, Mgr Gerbet, sa vie et ses œuvres, 3 vol., Paris, 1872; Ricard, Gerbet et Salinis, 2e édit., Paris, 1883; Kirchenlexikon, t. v, col. 356-360; abbé Gerbet, Mgr Gerbet, évêque de Perpignan, dans G. Bertrin, Les grandes figures catholiques du temps présent, t. i, p. 175-214; L. de la Save, Mgr Gerbet, n. 87 des Contemporains, Paris, 1894; Hurtcr, Nomenclator literarius, Inspruckr 1912, t. iv, col. 1178-1181; H. Brémond, Gerbet, Paris, 1907; L'épiscopat français depuis le concordat jusqu'à la séparation, in-4°, Paris, 1907, p. 474-475.

P. Godet.

Autor original: P. Godet

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