FRANCISCO DE SALES (SANTO)

FRANCISCO DE SALES (Santo)

A resposta é fácil. São Francisco de Sales queria provar a legitimidade do culto da cruz; era uma questão de raciocínio apoiada sobre uma questão de erudição. A primeira foi tratada com mão de mestre. A segunda consistia em recolher todos os testemunhos de culto prestado à cruz que os monumentos da Igreja antiga podiam fornecer-lhe; é uma tarefa de que se desincumbiu com tanto êxito quanto um teólogo de seu tempo podia fazê-lo.

Ele tinha, e mostrava, pelo menos tanta erudição quanto os ministros de Genebra, a começar por seu antagonista La Faye. Compulsou e citou todos os autores que podiam trazer-lhe um testemunho que julgava sério. Quanto a admitir, como se pretende, consciente e sem escrúpulo, provas contestáveis; quanto a ser mais zeloso em amontoar grande número de provas quaisquer do que em estabelecer um número suficiente de boas, o juízo, a retidão proverbial do santo, sua consciência e sua vida inteira protestam contra semelhante alegação.

E depois, o próprio livro está aí para afirmar o contrário. La Faye, diz-se em nota, assinalou a falsa indicação de certas passagens dos Padres em mais de quatrocentos textos: é permitido cometer erros de indicação. O próprio La Faye é infalível em suas indicações de pretensos erros? La Faye, com efeito, havia se decidido a responder, em dois factums sucessivos, e bastante pobremente, sobretudo com injúrias. O santo escrevia a esse respeito: «Meus amigos jamais quiseram que eu tivesse sequer o trabalho de pensar em replicar, tanto lhes pareceu indigna a resposta. Julgaram que meu livro fornecia defesa bastante contra os que o atacavam, sem que eu lhe acrescentasse coisa alguma.» Carta à senhora de la Fléchère, 23 de maio de 1600, t. xiv, p. 161.

No máximo, poder-se-ia censurar a essa obra da juventude do santo algumas imperfeições de estilo. Acrescentemos que o Estendart de la croix é não só uma triunfante reivindicação do culto da cruz, mas ainda a eloquente apologia de todo o princípio sacramental, isto é, do uso das coisas materiais nas relações entre Deus e o homem.

3° Introdução à vida devota, I. m. É um manual de ascetismo. Nasceu da necessidade que são Francisco de Sales constatou de dar um código simples, curto e prático de vida interior às almas que, vivendo no meio do mundo, sentem-se chamadas a caminhar pelas vias da piedade cristã. Uma série de avisos, ou pequenos memoriais e tratados práticos, que o santo havia escrito e dado a uma de suas parentes, a senhora de Charmoisy, foram a ocasião e vieram a ser o núcleo do livro.

A instâncias do P. Fourier, jesuíta lorenês residente em Chambéry, o santo ordenou os pequenos tratados em questão; juntou-lhes outros memoriais já compostos para outras pessoas, entre as quais estava santa Chantal; ordenou e completou o conjunto, e o livro apareceu no início de 1609, em Lião. A edição príncipe continha apenas três partes. Nas edições seguintes o santo acrescentou duas, empenhou-se em aperfeiçoar a forma; esforçou-se sobretudo por tornar seu livro mais universal e por fazer desaparecer dele o que se referia de modo demasiado exclusivo à direção de pessoas particulares.

O autor começa por explicar claramente o que chama de devoção, e que hoje chamaríamos de piedade: «A verdadeira e viva devoção, ó Filotéia, pressupõe o amor de Deus; ou antes, ela não é outra coisa senão um verdadeiro amor de Deus; mas não, contudo, um amor qualquer; pois, enquanto o amor divino embeleza nossa alma e nos torna agradáveis à sua divina Majestade, chama-se graça; enquanto nos dá a força de fazer o bem, chama-se caridade; mas quando chegou ao grau de perfeição em que não apenas nos faz fazer o bem, mas nos faz operar cuidadosa, frequente e prontamente, então se chama devoção.»

O livro contém: 1. um preâmbulo, a preparação da alma para a devoção; 2. os dois grandes meios e auxílios da devoção, a oração e os sacramentos; 3. a prática das virtudes, que constitui o corpo da devoção; 4. a advertência contra o inimigo, ou como conduzir-se na tentação; 5. o retiro, ou renovação periódica das boas resoluções. Eis toda a obra: simplicidade, bondade, direi quase bonomia, clareza, espírito judicioso e prático, delicada análise do coração humano, ao mesmo tempo que poderoso estímulo para arrancar a alma de sua natureza viciada e engajá-la nas vias da piedade e da perfeição do amor de Deus.

Quando este livro apareceu, teve um sucesso sem igual. Ainda não se havia tentado, na França ao menos, dar um guia claro e prático para conduzir os fiéis que vivem no meio do mundo pelas vias da perfeição. Só se escreviam coisas semelhantes para os conventos, e em latim; e a doutrina elevada dos livros de devoção convinha melhor, diz o próprio são Francisco de Sales, «aos perfeitos do que aos aspirantes». Já em vida do autor, a Introdução havia penetrado nas principais regiões da Europa e fora reimpressa mais de 40 vezes em língua francesa. Desde 1656, já havia sido traduzida em 17 línguas. Atualmente pode-se afirmar sem exagero que as edições desta obra ultrapassam o número de mil. A do abade F. Boulenger, in-12, Paris, 1909, reproduz a edição de 1619, mas modernizou a ortografia.

O bem que a Introdução produziu no mundo está em proporção com essa difusão. O breve do doutorado resume os testemunhos de admiração de quase três séculos e os consagra com estas palavras decisivas: Maxime autem : vivis coloribus virtutem opere quod « Philothea » inscribitur, pinxit; ac prava sternens in directa, et aspera in vias planas, universis Christi fidelibus iter ad eum ita facile commonstravit ut vera exinde pietas lucem suam ubique effunderet, viam sibi ad regum solia, ad ducum tentoria, ad judiciorum forum, telonia, officinas, et ipsa oppidula pastorum aperiret. Enimvero iis scriptis ex sacra doctrina summa scientiae sanctorum principia eruit, et ita enucleat, ut insigne ejus privilegium plane visum sit, quod ad omnes fidelium conditiones sapienter, leniterque eamdem accommodare noverit. Œuvres, p. xvm. t. i,

O livro da Vida devota sofreu críticas, por mais perfeito que fosse quanto ao fundo e quanto à forma. O santo refutou ele mesmo uma dessas acusações: « Este livrinho teve um acolhimento geralmente doce e gracioso...; não foi, contudo, isento de uma rude censura da parte de alguns..., por eu dizer a Filotéia que o baile é uma ação de si mesma indiferente... Eu teria desejado que lhes aprouvesse considerar que a... proposição é tirada da comum e verdadeira doutrina dos mais santos e sábios teólogos, que eu escrevia para as pessoas que vivem em meio ao mundo e às cortes, e que, logo depois, inculco cuidadosamente o extremo perigo que há nas danças... » Prefácio do Tratado do amor de Deus.

Poderia ter acrescentado que recomendava insistentemente à sua Filotéia que não tivesse nenhuma afeição a tudo aquilo, o que seria « coisa contrária à devoção e extremamente perigosa. Não é mal fazê-lo, mas sim afeiçoar-se a isso. » Vida devota, c. xxIII.

Almas timoratas escandalizar-se-iam também de bom grado com a linguagem de que o santo se serve em muitos passos, com um vigor de expressão a que já não estamos habituados. São Francisco de Sales era de seu tempo e falava a língua de seu país, menos refinada, menos hipócrita, mais sincera e, no fundo, pelo menos tão casta quanto a nossa. Pensava que era preciso assinalar o mal para que a juventude pudesse preservar-se dele; e naquele tempo podia-se chamar o mal pelo seu nome.

Os capítulos da III parte sobre as amizades e os « amores passageiros » são tão práticos hoje quanto outrora, e as lições que neles se encontrarem não estarão fora de propósito.

No c. xxxix, Da honestidade do leito nupcial, o santo dá, de maneira muito reservada, muito clara, difíceis e necessários ensinamentos: « Penso ter dito tudo : o que queria dizer, e ter feito entender sem o dizer o que não queria dizer. » Pode-se, sem dúvida, pôr nas mãos das crianças ignorantes edições especiais; mas suprimir esse capítulo e os outros de que falamos das edições correntes, como se faz com frequência, é privar-se de um auxiliar útil.

— 4º Tratado do amor de Deus, t. iv, v. É a obra capital e a obra-prima de São Francisco de Sales. Foi também sua obra de predileção, na qual trabalhou por longos anos. As instâncias de santa Chantal e das primeiras visitandinas o determinaram a concluir esse trabalho, que apareceu em Lião em 1616. Foi preciso reeditá-lo em 1617, 1618, 1620. Foi logo traduzido para a maioria das línguas da Europa.

O santo doutor resumiu ele mesmo o livro em seu Prefácio: « Pensei apenas em representar simplesmente, ingenuamente, e sem arte e mais ainda sem disfarce, a história do nascimento, do progresso, da decadência, das operações, das propriedades, vantagens e excelências do amor divino. »

Doze livros, dos quais o I é um preâmbulo e o último tira as conclusões para a prática da vida. O l. I é uma página de psicologia que serve de preparação à « história da divina caridade »: é o estudo da praça-forte que a caridade vai conquistar e transformar. Que é esse amor que se trata de tornar divino? A vontade humana, diz-nos o santo autor, comanda todas as potências e paixões da alma; comanda até o amor; mas, por sua vez, ele sabe tomar autoridade sobre ela e comandá-la. E o santo descreve as diferentes operações do amor e as diferentes espécies de amor. Mostra-o procurando em vão seu objeto neste mundo, e tendendo, pela inclinação de sua natureza, a Deus, sem poder alcançá-lo, a menos que a graça venha em seu auxílio. E é aí precisamente que vai começar a história da divina caridade.

Os l. II-IV narram essa admirável história: primeiro, a geração do divino amor nos eternos decretos da divina providência, que o autor enumera: a encarnação em primeiro lugar, e a eleição da Virgem Maria, a criação de todo o resto das coisas, tanto naturais quanto sobrenaturais, a redenção, a imaculada conceição.

Vemos o nascimento do divino amor em nós, por nossa justificação: os atrativos divinos que nos solicitam, deixando-nos ao mesmo tempo a nossa liberdade; depois a fé, a esperança, a penitência vindo sucessivamente habitar nossa alma; enfim, os « atrativos amorosos de Nosso Senhor » nos ajudando e acompanhando até a caridade ou amor sagrado, que justifica a alma.

« A caridade, portanto, é um amor de amizade, uma amizade de dileção, uma dileção de preferência, mas de preferência incomparável, soberana e sobrenatural. » O progresso e a perfeição da alma no divino amor podem crescer sempre, e isso é « aysé », pois cada boa ação pode proporcioná-lo; obtemos assim a perseverança e o dom de morrer na divina caridade. É somente no céu que se fará « a perfeita conjunção da alma com Deus. » Mas, infelizmente, a alma pode seguir outro caminho, donde a decadência e a ruína da caridade.

Os cinco livros seguintes são consagrados a descrever as « operações » ou os exercícios do divino amor. Os dois principais exercícios são a complacência, ou condolência, e a benevolência; é o objeto do l. VI. Dois gerais: esses exercícios praticam-se ou afetivamente pela oração, ou efetivamente pela conformidade com a vontade de Deus.

Os livros VI e VII tratam da oração « ou teologia mística.

Observemos que » essa palavra não tem, na língua do santo doutor, o sentido que hoje se lhe dá; para ele, como para os autores de seu tempo, « a orayson e a teologia mística não são senão uma só coisa. Chama-se teologia porque, assim como a teologia especulativa tem Deus por objeto, esta também só fala de Deus; mas com três diferenças: 1. aquela trata de Deus enquanto é Deus, e esta fala dele enquanto é soberanamente amável... 2. A especulativa trata de Deus com os homens e entre os homens; a mística fala de Deus com Deus e em Deus mesmo. 3. A especulativa tende ao conhecimento de Deus, e a mística ao amor de Deus; de sorte que aquela torna seus escolares sábios, doutos e teólogos, mas esta torna os seus ardentes, afetuosos, amadores de Deus, e Filoteus ou Teófilos. »

A meditação, » acrescenta ele, é « o primeiro grau da orayson ou teologia mística. Pode-se seguir, nesses dois » livros, as ascensões da alma, da meditação afetiva (que é a do autor) à contemplação ordinária, depois ao recolhimento amoroso, em que o santo parece fazer começar as orações extraordinárias; depois à quietude e a seus diferentes graus: o escoamento e a liquefação da alma em Deus, a ferida de amor, a languidez amorosa; vem então a oração de união; depois o arrebatamento ou êxtase, e enfim a morte de amor.

Os livros VIII e IX mostram o amor tornado efetivo: o amor de conformidade da vontade do homem com a vontade de Deus significada em seus mandamentos, conselhos e inspirações; pelo amor de submissão ao bom prazer de Deus nos acontecimentos da vida; pelo amor de resignação nas aflições; no amor de indiferença, que consiste em « não amar nada senão pelo amor da vontade de Deus. » O supremo da santa indiferença é o « trespas muito amável da vontade que, morta para si, vive puramente « na vontade de Deus. »

A terceira parte trata das vantagens, propriedades e efeitos do divino amor, que consistem em que: [texto ilegível] amor divino, em seguida ao primeiro mandamento, em nosso coração e nele regular nossas afeições às criaturas, a nós mesmos e ao próximo; [texto ilegível] mantém a soberana autoridade sobre as virtudes, as perfeições da alma. É o objeto dos [texto ilegível] livros. O último tira as conclusões práticas e contém alguns « advis » para o progresso da alma no santo amor; recomenda a direção de intenção, [texto ilegível] das ações e a prática das piedosas aspirações.

O Tratado do amor de Deus desenrola diante dos olhos do leitor uma magnífica síntese de todo o dogma católico: as perfeições e atributos divinos, a providência; o dogma da encarnação, o de Jesus Cristo e de toda a sua obra, as prerrogativas da santa Virgem, a queda e as consequências do pecado original, a redenção, a justificação do pecador, a graça e sua maravilhosa economia, o céu, a santa Trindade e as operações divinas ad intra.

A moral ali aparece em torno da caridade, que o autor quer considerar como ato ainda mais do que como hábito, pois, num assunto tão vasto, é forçado a limitar-se e a aflorar apenas certos pontos; mas que páginas perspicazes sobre o pecado, a distinção entre o pecado mortal e o pecado venial, sobre as virtudes e os vícios! A ascética, com seus dois grandes exercícios, afetivo e efetivo, a oração e a obediência à vontade de Deus, e com o meio tão prático da direção de intenção e das piedosas aspirações, dá ali a mão à mística mais elevada, mas a mais apreensível para as nossas inteligências embotadas.

Insignis et incomparabilis Tractatus de amore Dei, assim o caracteriza o decreto de doutorado que precedeu de alguns meses o breve que já citamos. E esse próprio breve acrescenta: Equidem duodecim libris insignem atque incomparabilem : De amore Dei tractatione « », docte, subtiliter, dilucideque complexus est, qui tot praecones de suavitate sui auctoris habet quot lectores.

O Tratado do amor de Deus foi, ele também, atacado. Os mais sérios ataques visam à doutrina, e falaremos deles ao estudar a doutrina teológica do santo doutor. Outras recriminações têm por objeto a pretensa liberdade de linguagem do autor, que toma emprestadas ao amor profano imagens e comparações para descrever as castas operações do amor sagrado.

Repetiremos o que dissemos a propósito das mesmas censuras feitas à Introdução à vida devota: outros tempos, outros costumes, e também outras apreciações correntes. O que permanece admirável e inimitável é a ingênua nitidez das lições do santo, ao mesmo tempo que a sua perfeita inocuidade, através daqueles graciosos quadros que ele tomou emprestados aos três amores mais castos deste mundo: o amor filial, o amor conjugal e o amor materno.

— 5° Os Vrays entretiens spirituels, t. VI. Este livro compreende uma coletânea de colóquios feitos por são Francisco de Sales às suas filhas da Visitação, e recolhidos por elas. Três deles (o III, da firmeza; o VII, das três leis espirituais; e o XIX, das virtudes de são José) são sermões pronunciados na igreja da Visitação; os outros são conferências familiares dadas no jardim ou no parlatório de Annecy, exceto as duas últimas, que foram recolhidas em Paris e em Lyon.

Santa Joana de Chantal acrescentou, com bastante liberdade, ao texto da redação de suas filhas, diversos fragmentos de sermões ou de cartas relacionados com o assunto tratado. Os Entretiens spirituels circulavam manuscritos nos mosteiros da Visitação; a indiscrição de um franciscano (cordelier) os entregou tais quais à publicidade. Apareceram em 1628, sob este título: « Les Entretiens et Colloques spirituels du Bien-Heureux François de Sales, etc., pour Pierre Drobet, marchand libraire à Lyon. » Esse Drobet era irmão do franciscano em questão. Santa Joana de Chantal ficou consternada ao ver publicadas assim certas passagens que ela julgava demasiado íntimas; por outro lado, a edição fervilhava de inexatidões e de erros grosseiros. A força de diligências, ela obteve a revogação do privilégio real concedido ao editor Drobet e a retirada dos exemplares.

A 1ª edição dos Vrays entretiens spirituels apareceu em Lyon, na casa de Vincent d'[...], em 1621. A edição de Annecy reproduz fielmente essa versão [...] e dá em nota as supressões mais interessantes que a santa fundadora havia feito ao texto primitivo. Preciosos Apêndices completam a obra e reproduzem páginas inéditas do santo doutor.

Em sua forma definitiva, a edição dos Vrays entretiens compreende, pois, uma coletânea de 21 conferências familiares. Em vez de se ter seguido a ordem cronológica, parece ter-se adotado um plano mais didático: o 1º entretien, sobre a obrigação das Constituições e as qualidades da devoção que as religiosas da Visitação de Santa Maria devem ter. É uma visão de conjunto sobre o estado religioso, no espírito da Visitação.

Os sete entretiens seguintes tratam das virtudes principais e fundamentais: II, da confiança; III, da firmeza, a propósito da fuga de Jesus para o Egito; IV, da cordialidade e da humildade; V, da generosidade; VI, da esperança; VII, das três leis espirituais: abandono, generosidade, igualdade de espírito.

Vêm depois as virtudes mais especialmente religiosas e monásticas: VIII, a desapropriação, ou pobreza; IX, a modéstia (ou aperfeiçoamento da castidade), com considerações sobre a maneira de fazer ou receber a correção e também sobre o recolhimento em Deus e a oração; X e XI, a obediência, suas condições, sua prática, seu valor e suas qualidades; XII, a simplicidade nas diversas circunstâncias da vida religiosa; XIII, as regras e o espírito da Visitação: « Sempre julguei que era um espírito de profunda humildade para com Deus e de grande doçura para com o próximo... É preciso, pois, que a humildade para com Deus e a doçura para com o próximo supram em vossas casas a austeridade das outras », assim como a pontualidade e a simplicidade em bem observar as regras.

Os três entretiens seguintes assinalam os obstáculos à perfeição, bem como o remédio: XIV, contra o juízo próprio e a ternura que se tem por si mesmo; XV, da vontade de Deus, que é preciso olhar e seguir em todas as coisas, com alguns pontos concernentes aos confessores e pregadores; XVI, sobre as aversões.

Por fim, os últimos tratam: XVII, dos votos (voix), como e por que motivo se deve dar o seu voto para a admissão das irmãs à profissão ou ao noviciado; XVIII, como se devem receber os sacramentos e recitar o ofício divino, com alguns pontos concernentes à oração (é aí, assim como no entretien II, que se acha descrita brevemente, e muito aprovada, a oração de simples entrega em Deus); XIX, sobre as virtudes de são José; XX, « no qual se lhe pergunta que pretensão devemos ter ao entrar na religião »; e o XXI, enfim, que ele fez no parlatório da Visitação de Lyon na noite mesma de Santo Estêvão de 1622, na antevéspera de sua morte, sobre o tema: « Nada pedir, nada recusar. »

O livro dos Entretiens spirituels evidentemente não tem o mesmo valor documental que as obras precedentes, visto que não passa de um escrito de segunda mão. Nem por isso deixa de gozar de justa autoridade. Bossuet o lia e o tinha em grande conta; Fénelon também, que quis extrair dele proposições para amparar o seu sistema de semiquietismo, mas muito indevidamente, como Bossuet o demonstrou vitoriosamente.

É um tratado bastante completo da observância e das virtudes religiosas; é, pode-se dizer, o tratado do amor de Deus na prática de uma vida de humilde religiosa, de visitandina. Está repleto de pensamentos profundos, da mais eminente perfeição, numa linguagem simples, amável, toda paternal.

Eis como o santo define a perfeição das visitandinas: « As filhas da Visitação são todas uma só: chamadas a uma perfeição muito grande, e o seu empreendimento é o mais alto e o mais elevado que se possa pensar, tanto mais que elas não pretendem apenas unir-se à vontade de Deus..., mas, além disso, pretendem unir-se aos seus desejos, e até mesmo às suas intenções, digo, antes mesmo que estejam quase significadas; e se se pudesse pensar em algo de mais perfeito... elas empreenderiam sem dúvida subir até lá, uma vez que têm uma vocação que as obriga a isso. » Entretien v, de — la générosité.

6° Sermons, t. vn-x. São Francisco de Sales só publicou de seus sermões a Orayson funèbre du duc de Mercœur, Paris, 1602. Os Sermões foram impressos pela primeira vez nas Œuvres complètes de 1641, preparadas pelo comendador de Sillery com o concurso de santa Joana de Chantal. Tinham sido divididos em duas séries: a 1ª compreendia 27 sermões ou planos de sermões tomados dos autógrafos; a 2ª compreendia 33 discursos recolhidos pelas religiosas da Visitação de Annecy. As edições seguintes dos sermões, publicados quer à parte, como em 1643, quer nas Œuvres complètes, foram bastante falhas; e a mais falha de todas é a mais recente, na qual se travestiu, a pretexto de arranjá-lo, o texto original. É um dos maiores serviços prestados pela edição de Annecy ter restituído um texto autêntico dos sermões e ter enriquecido consideravelmente a coletânea.

O douto editor faz duas partes dos Sermões. A 1ª parte compreende os sermões autógrafos, e a IIª os sermões recolhidos pelos ouvintes: os primeiros formam os vol. VII e VIII, e os segundos, os IX e X. Dentro dos sermões da Iª parte, é preciso ainda distinguir os sermões dos primeiros anos, anteriores ao episcopado e mesmo, salvo algumas exceções, anteriores à missão do Chablais, que são geralmente escritos por inteiro de próprio punho do santo; e os sermões posteriores, que não são mais que sumários ou esquemas, notas desconexas, ou coletâneas de textos da Escritura e dos Padres, escritos também de próprio punho do santo. Os sermões recolhidos pelas religiosas da Visitação comportam os inconvenientes e imperfeições inevitáveis em tal caso: as ouvintes relatam o que creram ouvir e compreender, e como se recordam.

Os sermões conservados in extenso e escritos de próprio punho do santo foram muitas vezes julgados injustamente. Censurou-se o estilo, em certas passagens florido em excesso, sem refletir que pertencem aos inícios do orador. Contêm « excrescências » que, segundo a palavra de nosso santo, pedem para ser « esfolhadas e desbrotadas ». É a vegetação exuberante da jovem videira, que afirma o vigor da cepa e a riqueza da seiva. E depois, há sob essas pâmpanas um tanto densas uma tão delicada frescura, um tal zelo apostólico, que o leitor mal pensa em se chocar.

Os sumários, planos, notas, escritos de próprio punho do santo, e da maior parte dos quais a edição de dom Mackey revelou a existência, trazem com frequência divisões claras e metódicas, aproximações inesperadas, aplicações novas e engenhosas dos textos sagrados, e sempre uma profundidade de doutrina, uma riqueza de pensamentos, uma vivacidade de imaginação que encanta. Há aí uma mina preciosa.

O breve de doutorado caracterizou assim a pregação do santo: « O grande amor de que o santo prelado estava animado pela Igreja, o zelo ardente que tinha por sua defesa, inspiraram-lhe o método de pregação que adotou, quer para anunciar ao povo cristão os elementos da fé, quer para formar os costumes dos mais instruídos, quer para conduzir as almas de elite aos cumes da perfeição. Reconhecendo-se devedor tanto aos doutos como aos ignorantes, e fazendo-se tudo para todos, soube pôr-se ao alcance dos simples, ao mesmo tempo que falava a sabedoria entre os perfeitos. Deu também os ensinamentos mais sábios sobre a pregação e, restituindo à honra os exemplos dos Padres, contribuiu em larga medida para devolver ao seu antigo esplendor a eloquência sagrada, que fora obscurecida pela infelicidade dos tempos. Dessa escola sairão os oradores eminentes que produziram frutos tão maravilhosos de salvação na Igreja universal. Por isso, são Francisco de Sales merece ser reconhecido por todos como restaurador e mestre da eloquência sacra. » Œuvres, t. i, p. xx.

Esse título é merecido. Simplesmente, humildemente, sem pretender jamais impor suas ideias pessoais, mas pelo único ascendente de sua virtude, exerce à sua volta a mais salutar das influências. Nos púlpitos da capital, durante as suas duas longas estadias, prega « tantas vezes quantos são os dias do ano »; o clero se apressa em torno dele, admira-o sinceramente e, pouco a pouco, imita-o. A Lettre sur la prédication, da qual vamos falar, torna-se célebre: é traduzida em latim e penetra por toda parte.

São Afonso de Ligório a popularizará na Itália, e mais tarde Sailer na Alemanha; e os conselhos que o santo dá, tão judiciosos, unidos à lembrança de seu exemplo, pesam de tal modo sobre a apreciação dos contemporâneos e da geração que se seguiu imediatamente que os antigos desvios da pregação, o mau gosto, a extravagância, os jogos de espírito, a mundanidade, tudo o que o santo tinha condenado tão altamente, desaparecem pouco a pouco para sempre do púlpito francês e também do púlpito cristão. A simplicidade e o natural são as qualidades principais do santo orador; contrastavam singularmente com as pesquisas, a ênfase, as próprias extravagâncias da eloquência então em voga. Ele se colocava ao alcance de seus ouvintes, e Carlos Augusto, seu sobrinho, relata que, ao sair de um de seus sermões, um douto eclesiástico ia repetindo: « Que homem é este! Ele trata tão bem da teologia que faz entender e compreender às mulheres e aos homens da mais baixa condição as coisas mais difíceis e mais elevadas. » Histoire du bien-heureux François de Sales, l. IX.

Sua palavra é sempre animada desse fervor ardente e comunicativo que a piedade cristã chamou de unção. Seu coração é possuído pelo amor de Deus e pelo amor das almas; esse duplo amor o inspira, o comove, o transporta a ponto de seus ouvintes terem deposto tê-lo visto por vezes no púlpito resplandecente como um serafim. Nutrido da sagrada Escritura, ele a comenta, a elucida e a aplica com não menos segurança que graça; ela se torna por momentos a própria trama de seu discurso, tanto ele está dela penetrado. Há aí notáveis lições de teologia dogmática, moral, ascética, postas ao alcance de todos. No dogma, é a santíssima Trindade, o Espírito Santo, os mistérios de Nosso Senhor e de sua Mãe, a graça, a bem-aventurança celeste, a santa eucaristia, a Igreja.

Em seus sermões de controvérsia, nada resistia a sua argumentação cerrada e vitoriosa; citemos em particular a série dos sermões sobre a eucaristia, pregados em Thonon durante a missão do Chablais, e que tiveram resultados tão admiráveis. Ele só abordava esse gênero de sermões quando as circunstâncias o obrigavam a isso, e dizia que valia mais expor do que discutir. Ele refuta de antemão as heresias modernas e antecipa em três séculos as definições do concílio do Vaticano. Ele pronunciava em Grenoble, durante a quaresma de 1617: Papa errare non potest, ex cathedra docens, t. VIII, p. 286.

Ele se destaca na moral, e coloca sob os olhos [...] quadros de costumes práticos e picantes, observações que testemunham uma fina análise dos sentimentos do coração humano; seu zelo amante e enérgico lhe dá [...]. Entre seus esboços, cita-se dois estudos bastante aprofundados, pertencentes ambos à quaresma de Grenoble, um sobre o amor das riquezas, t. X, serm. CXXXI, e o outro sobre [...] , serm. CXXXV. Em seus sermões ascéticos, dirigidos às religiosas da Visitação, reencontram-se todas as qualidades dos Entretiens. Ele tem, para citar apenas estas, algumas instruções sobre a oração e a prece, t. IX, serm. VII, e duas instruções para a vigília do Natal, que são deliciosas, t. VIII, serm. XCV e CII.

7º Carta sobre a pregação, — ao arcebispo de Bourges, t. XII, carta CCXIX. Por sua importância, esta carta merece uma menção à parte. Francisco a escreveu em 5 de outubro de 1604 a André Frémyot, o novo arcebispo de Bourges e irmão da baronesa de Chantal, que lhe havia pedido conselhos sobre a pregação. Redigida ao correr da pena, no intervalo de dois dias, ela é um pequeno tratado, onde estão condensados os conselhos mais judiciosos, sobre este tema: « Quem deve pregar, para que fim se deve pregar, o que se deve pregar, e a maneira com que se deve pregar. »

Quem deve pregar? Aquele que recebeu a missão; e são-lhe necessárias, além disso, doutrina e virtude. Para que fim? Para fazer o que fez Nosso Senhor, para que os pecadores voltem à vida, e para que os justos que já a possuem a tenham mais abundante. Para isso, é preciso instruir e comover. Quanto ao 3º preceito da retórica antiga, agradar ou deleitar, o santo proscrevia as maneiras mundanas de proceder, que encantam o ouvido sem nada levar à alma; mas acolhia de bom grado « a deleitação que segue a doutrina e o movimento », e que ele mesmo praticava com tanta perfeição.

Que pregar? O santo examina sucessivamente: 1. as fontes: são a Bíblia, os Padres, mas também as vidas dos santos, as histórias profanas — como se fazem os cogumelos —, e também o « grande livro » da natureza; 2. a maneira de explorar as fontes, isto é, estudar os quatro sentidos da Escritura, reter as sentenças curtas, e também os raciocínios dos Padres e doutores, e em particular de santo Tomás, mas com a condição de saber « fazer-se entender claramente, ao menos pelos ouvintes medíocres »; e para isso servem grandemente os exemplos da Bíblia e dos santos, e as semelhanças ou comparações; 3. a disposição da matéria: « é preciso manter método em toda coisa; não há nada que mais ajude o pregador, que torne sua pregação mais útil, e que tanto agrade ao ouvinte. »

Depois ele distingue a maneira como se devem tratar: 1. os mistérios; 2. as sentenças da Escritura que se referem a uma virtude ou a um vício; 3. a homilia; 4. a história, ou o panegírico de um santo.

Como se deve pregar? ou a forma: é preciso falar com afeto e devoção, com simplicidade e candura, e com confiança.

8° Cartas, t. xi-xviii (coletânea ainda inacabada; o t. xviii, publicado em 1913, vai até agosto de 1916). — As Cartas são a obra que foi publicada até aqui da maneira mais defeituosa; oferecem, porém, o interesse mais universal, por causa dos assuntos que tratam, e o mais profundo, porque são elas que melhor dão a conhecer o santo. A edição princeps é de 1626, em Lyon. A madre de Chantal e o preboste Luís de Sales fizeram essa publicação. Como o único objetivo era difundir a doutrina espiritual do santo, e como se receava revelar a identidade de vários destinatários ainda vivos, os editores não hesitaram em cortar, retalhar e suprimir no texto; depois, em reunir e coordenar, tão bem quanto mal, os fragmentos que sobreviviam às podas. As Cartas foram juntadas às Obras completas a partir da edição de 1637. A edição princeps compreendia 519 cartas. Hérissant e o abade Corru (1758); Blaise, com as Cartas inéditas do cavaleiro Datta (1835); Vivès, cuja classificação é bastante singular e um pouco incômoda; Migne, enfim, que publicou, sem revisão e desordenadamente, os documentos reunidos pelo abade de Baudry, enriqueceram sucessivamente a coleção principal. Chegou-se assim a perto de I I 751 de 100 cartas. A edição de Annecy trará mais de 500 novas; e dá todas as cartas em sua integridade, com sua data e o nome de seu destinatário.

Vê-se aparecer sucessivamente nas Cartas o amigo e o parente afetuoso, o conselheiro judicioso, o homem dedicado sempre pronto a prestar serviço, o patriota fiel e o súdito obediente, o político avisado e o economista, o canonista, o bispo que julga e comanda, o defensor da justiça, o pregador da fé, o polemista, o teólogo e o doutor, o moralista e o educador, o asceta e o místico, o legislador monástico, o protetor e o guia das almas consagradas a Deus, e sobretudo o diretor de consciências, o pai que toma de bom grado a seu cargo uma alma que tenha encontrado no desejo da santa perfeição, « carregando-a em seu seio, como uma mãe faz com seu pequeno filho, sem se ressentir desse fardo tão amado ». Prefácio da Vida devota.

A maior parte dessas Cartas são conselhos de direção, dessa direção em que o mandatário divino se apaga e ensina à alma dirigida a escutar docilmente o mestre interior, o único verdadeiro diretor. Os conselhos são apropriados a todas as situações, a todas as necessidades, a todas as boas vontades. O santo diretor trata todos os assuntos com igual atenção, todas as almas com profundo respeito. Em todas essas cartas de direção, é a mesma idéia fundamental e a mesma marcha ascendente e contínua: ajudar suavemente a alma a desprender-se de si mesma, aproximá-la cada vez mais de Deus e uni-la intimamente a ele.

Nada é tão interessante como acompanhar o progresso constante dessas almas de elite que se chamavam santa Chantal, Mme de la Fléchère, a madre Favre, a madre de Bréchard, a madre de Blonay, a presidenta Brulart, Mme de Cornillon, irmã do santo, o duque de Bellegarde — pois os homens não são ali estranhos, e encontram-se até bispos. Reencontra-se ali a Introdução à vida devota, ou, se a alma é capaz disso, o Tratado do amor de Deus, reproduzidos ao vivo, completados, nos atos e circunstâncias de vidas muito diferentes e variadas. E o mais interessante é ver o bom santo, tão desejoso de apagar-se, descobrir-se a todo instante sem o saber e entregar, com uma requintada ingenuidade, todos os tesouros de sua alma. As mais notáveis dessas cartas são as que dirige a santa Chantal. Pode-se acompanhar o desenvolvimento dessa alma que Francisco havia recebido toda machucada pelas dores da viuvez, oprimida por um diretor desajeitado, ardente, generosa, cheia de desejos e de boa vontade, mas ainda ignorante nas vias espirituais, Memórias da madre de Chaugy, parte I, c. ix, embora Deus a pressionasse vivamente, embora já a atraísse à oração « por uma simples vista e sentimento de sua divina presença », tímida, até escrupulosa. Ensina-lhe a desprender-se de si mesma, a ser fiel ao chamado divino; guia-a e a firma nas vias da oração; ajuda-a a subir, com uma lentidão prudente, mas segura e reta, até os mais altos cumes. Ele não é, aliás, um noviço nessas paragens: tem a ciência e a experiência.

Mais tarde, em Annecy, quando escrever o Tratado do amor de Deus, a madre de Chantal será para ele, ela e suas filhas da Visitação, um admirável objeto de estudos e de experiências. Sua própria santidade crescerá a esse contato e dele se beneficiará abundantemente. Quanto a pesquisar qual dos dois mais ganhou com um comércio tão íntimo e tão santo, é uma questão ociosa: só Deus poderia respondê-la. Por outro lado, inverter os papéis tais como foram considerados há três séculos, e fazer do diretor quase um dirigido, parece ao mesmo tempo arriscado e paradoxal. Em várias dessas Cartas, sobretudo naquelas que se dirigem a santa Chantal, o santo emprega expressões afetuosas que chocaram alguns espíritos melindrosos. O uso corrente do país e da época autorizava amplamente essa linguagem.

Aliás, nada era mais puro que o coração do santo bispo, nada mais desprendido dos sentimentos da terra que a afeição que ele nutria por suas filhas espirituais; o próprio cético Sainte-Beuve o reconheceu; e os destinatários e os leitores não podiam equivocar-se quanto a essas expressões de uma paternidade toda da alma, que só respirava o zelo do amor de Deus. Foi assim que, entre todas as outras, o santo conduzia a alma de santa Chantal, em seu progresso incessante, à imolação mais completa, ao cume da perfeição e da santa indiferença; as cartas de 17, 18, 19 e 21 de maio de 1617, no xvn, : supremos pedidos t. o atestam. Esses sacrifícios, exigidos pelo santo diretor, não significam, como se pretendeu recentemente, que ainda subsistisse, numa amizade que foi sempre toda sobrenatural, algo de demasiado sensível ou de demasiado humano. Eram simplesmente, depois de um longo e incessante progresso, o coroamento da santidade e da união com Deus.

9° Règle de sainct Augustin, et Constitutions — para as irmãs religiosas da Visitação, Lyon, 1619. De toda a legislação religiosa dada a suas filhas, o santo fundador só pôde mandar imprimir as Constituições, com a tradução da regra de santo Agostinho, precedidas de um notável prefácio. O elogio das Constituições da Visitação encontra-se no breviário romano, lição in e do n e noturno da festa de são Francisco de Sales, em 29 de janeiro Consli- : Uma iuliones sapientia, discretione et suavitate mirabiles. bula de Clemente XI, dada em favor da Visitação por ocasião do primeiro centenário de sua fundação, em 22 de junho de 1709, ainda o reforça Ordo vester... constitutionibus : sapientia, discretione ac suavitate mirabilibus instructus fuit. Ela acrescenta: ...Si saluberrimas Constitutiones et monita vobis a sancto institutore relicta, quibus ad christianam perfectionem iter tutum, expeditum ac planum sternitur, diligentissime custodiatis. Pio X, no breve dirigido ao instituto da Visitação, por ocasião do 3 e centenário, em 13 de dezembro de 1909, dá o comentário desse elogio Ea nempe sancti doctoris mens Deo : fuit ut filiœ formarentur quibus inesset spiritus gratiœ et precum, quœ ipsum in spiritu et veritate adorarent quœ animi demissione suique despicientia : ejus gloriœ amplificandœ studerent; quœ quasi columbae in tacito nido delitescentes, terrenis omnibus abdicatis, et in cœlestium rerum contemplatione defixœ, sese Deo exhiberent hostias viventes.

Tal é, de fato, o pensamento do santo fundador oferecer os socorros da vida reli- às : às próprias viúvas giosa moças, que não têm o atrativo ou a força de suportar as austeridades corporais das ordens religiosas esse é o fim que se poderia O : chamar exterior. fim interior e íntimo é realizar uma forma de vida religiosa segundo o método de piedade que era caro a Francisco e que constituía o fundo de sua doutrina espiritual estar unido a Deus : aplicando-se a conformar sem cessar a própria vontade à vontade divina; procurando em toda ação o bom prazer divino Quœ placita sunt ei facio semper. As : encontram-se nas Constituições da Visitação as Œuvres complètes de Vives e de Migne. Foram impressas à parte, para uso das religiosas, em diversas ocasiões. A última edição é de Annecy, 1889.

10° Coustumier et Directoire pour les sœurs religieuses de la Visitation Saincte-Marie, Lyon, 1628, várias vezes reimpressos — desde então. A edição definitiva é de 1637. O Coustumier é, em substância, obra de são Francisco de Sales; mas foi santa Chantal quem o organizou definitivamente em volume. O mesmo se dá com o Directoire spirituel pour les actions journalières é um método prático e breve de manter-se : unido a Deus durante todo o dia, esforçando-se por fazer cada ação tão perfeitamente quanto possível sob o olhar e na imitação de Jesus Cristo. O Directoire foi anexado ao Coustumier desde a origem Regra ; encontra-se também sempre no final da e das Constituições, das quais é o complemento íntimo as maneira : de umas dizendo o que se deve fazer, e o outro a bem o fazer. Chamou-se ao Directoire o molde da visitandina.

— 11° Opúsculos. São numerosos escritos de pequena extensão, designados sob esse título pelos editores. As primeiras edições os chamavam Sacrées reliques. Alguns foram publicados em vida do santo; mas a maior parte foi recolhida de seus papéis íntimos. A edição de Annecy conterá certo número de peças inéditas. Ela porá também ordem e crítica nas oitenta e tantas peças já publicadas. A disposição atual é das mais fantasiosas. Eis algumas indicações sobre seu conteúdo. 1.

Opúsculos concernentes à teologia pastoral e à legislação eclesiástica da diocese de Genebra, à legislação dos mosteiros e confrarias: Constitutiones synodales diœcesis Gebennensis, Thonon, 1603; Avertissement aux confesseurs, impresso na sequência; Rituale sacramentorum, etc., Lyon, 1612; Adresse pour la confession générale; Examen de conscience sur les commandements de Dieu et de l'Église; Avis aux confesseurs et directeurs pour discerner les opérations de Dieu de celles du malin esprit dans les âmes; Manière de faire le catéchisme; Statuts de la confrérie de la sainte croix; Statuts pour les prêtres de la Sainte-Maison de Thonon; para os cônegos regulares de Sixt; para os eremitas do Monte Voiron; para as beneditinas de Puits d'Orbe.

Os diversos avisos do santo aos confessores foram reunidos em perguntas e respostas por um santo sacerdote de Rodez, Raymond Bonal, fundador dos primeiros oblatos de São Francisco de Sales, ou sacerdotes de Santa Maria. Eles formam, sob este título Idée d'un bon confesseur selon la doctrine et la vie de saint François de Sales, a I parte de seu Cours de théologie morale, obra clássica no fim do século XVII. Ver t. II, col. 956. A Idée d'un bon confesseur foi várias vezes reimpressa à parte, e mesmo no século XIX.

2. Opúsculos teológicos. Alguns, em parte inéditos, são suas notas e cadernos de estudante. O título I do Código Fabriano De summa Trinitate et fide catholica, publicado em 1606 por Favre, presidente, deve doravante ser incluído entre as Obras do santo doutor. Talvez ocorra o mesmo com um tratado da demonomania, que o santo certamente compôs e do qual não restou vestígio em seus papéis; dom Mackey crê reconhecê-lo no Traité des énergumènes do cardeal de Bérulle, a quem São Francisco de Sales o teria cedido. Esta categoria de escritos se completa com alguns escritos polêmicos sobre a santa eucaristia, em particular Simple considération sur le symbole des apostres, pour confirmation de la foy catholique touchant le très saint sacrement de l'autel, impresso em 1597 ou 1598. Outros escritos de polêmica sobre a eucaristia são inéditos, assim como uma peça sobre a Virgindade da santíssima Virgem.

3. Opúsculos de espiritualidade, concernentes ao próprio santo: seus regulamentos de piedade, de estudante, e o que se poderia chamar o Diretório espiritual que ele havia composto para si e que havia praticado desde aquele tempo, preludiando aquele que devia dar um dia à Visitação. Podem-se incluir aqui o Règlement, dito de Pádua, para a conversação com toda sorte de pessoas, as piedosas considerações e orações que Francisco fazia tanto antes quanto depois da santa comunhão, e enfim seu Judicieux Règlement de vie (?) pale.

4. Opúsculos de espiritualidade, escritos para o bem das almas que lhe pediam conselho. Vem aqui em primeira linha a Déclaration mystique sur le Cantique des cantiques, estudo sobre os diferentes obstáculos e sobre os diferentes graus da oração. É a respeito deste escrito muito particularmente que o breve de doutorado afirma que, aos olhos do santo, « muitos mistérios das Escrituras, relativos ao sentido moral e anagógico, são desvendados, dificuldades são aplainadas e obscuridades esclarecidas por uma luz nova, donde é lícito inferir que Deus, inundando-o com as ondas celestes de sua graça, abriu o espírito deste santo prelado para que compreendesse as Escrituras e as tornasse acessíveis aos sábios e aos ignorantes », t. I, p. XIX.

Vem em seguida toda uma série de pequenos Tratados ou Avisos, para o Exercice du matin, a Préparation de la journée, a oração, a « conduite utile » do dia, o recolhimento e o retiro espiritual, o despojamento e o perfeito abandono de si mesmo nas mãos de Deus; avisos e preparações para a confissão e a comunhão; a maneira de ouvir devotamente a santa missa; avisos sobre a tristeza e a inquietação, etc. A espiritualidade dos três últimos séculos veio alimentar-se abundantemente nestes opúsculos de São Francisco de Sales, encontrando neles a fórmula, praticamente realizada, dos ensinamentos dados a Filoteia e a Teótimo: a Conduite pour la confession et la communion, de Adrien Gambart, discípulo e amigo de São Vicente de Paulo; o Directeur spirituel des âmes dévotes et religieuses, Reims, 1634, e sobretudo a Vraie et solide piété, de Collot, doutor da Sorbonne, Paris, 1728, inspiraram-se largamente neles, e tiveram uma voga que ainda não morreu. —

III. Doutrina teológica e mística. 1º A doutrina teológica dogmática de são Francisco de Sales é, antes de tudo, segura e sólida. É a doutrina tradicional da Igreja.

Apoia-se na Sagrada Escritura, ou antes, jorra dela; e o texto sagrado tornou-se, não apenas a regra, mas como que a substância, e muitas vezes até a expressão de seu pensamento: torna-se como a própria trama de seu discurso, como dissemos a respeito de seus Sermões. Apoia-se nos Padres, e sobretudo em santo Agostinho; nos grandes teólogos, e particularmente em são Tomás. Ele só adotou uma opinião diferente da de são Tomás em três ou quatro questões.

A primeira é a questão do motivo determinante da encarnação: são Tomás declara que esse motivo é a queda de Adão, para a qual era necessário um redentor; são Francisco de Sales, na esteira de Escoto, ensina que tudo foi feito para o Verbo encarnado, centro e finalidade de todas as obras de Deus; e que o Verbo ter-se-ia encarnado mesmo se o homem não tivesse pecado. Preludiava com isso a bela doutrina dos teólogos do Oratório, Bérulle, Condren, Thomassin; dessa opinião, como de uma consequência natural, decorre a doutrina da imaculada conceição.

A segunda questão é a da predestinação. Depois da terrível tentação de desespero da qual quase morreu em Paris, depois de longos anos de estudos e reflexões sobre esse assunto, chegou à conclusão de que o decreto divino da predestinação de uma alma adulta é emitido post praevisa merita, como ensinam os molinistas, e não ante praevisa merita, como sustenta a escola tomista. Exprime com muita nitidez sua convicção sobre esse ponto no l. III, c. v, do Tratado do amor de Deus: «Ele quis a salvação de todos aqueles que quisessem contribuir, de sua parte, para as graças e favores que lhes distribuiria, ofereceria e ... com essa intenção.» É provavelmente nesse capítulo, diz dom Mackey, que se inserem as quatorze linhas que lhe custaram a leitura de doze centos de páginas de grande volume, como ele confiou mais tarde a seu amigo Mons. Camus. Outra questão é a das condições do ato sobrenatural, de que falamos um pouco mais adiante.

O breve de doutorado assinala a autoridade de que já gozava, em vida, a ciência teológica de Francisco de Sales: Clemente VIII o escolheu para ir discutir com Beza e tentar reconduzir o heresiarca. «Outra prova, não menor, da estima de que gozava o santo bispo, acrescenta ele, é que, na época em que se agitava em Roma a célebre discussão De auxiliis, nosso predecessor Paulo V, de santa memória, quis ter sobre a matéria a opinião do santo prelado, e que, deferindo ao seu parecer, julgou que a discussão, tão viva e tão longamente prolongada, sobre uma questão muito sutil e cheia de perigos, devia ser abafada pelo silêncio imposto às partes», t. i, p. xvi.

Essa teologia sólida e profunda, que admiramos no Tratado do amor de Deus, Francisco soube torná-la simples, clara, acessível a todos. Em primeiro lugar, não gostava que se sobrecarregasse a teologia, como era moda então, de um amontoado de palavras «metódicas, as quais, embora seja preciso empregá-las ao ensinar, são contudo supérfluas e, se não me engano, importunas ao escrever.» Cartas, t. xv, carta dccxxiv. Tanto em seus livros como em seus sermões, adaptava suas lições à capacidade intelectual de seus leitores e ouvintes, de modo a ser sempre compreendido. Ele mesmo constata, com certa satisfação, que «reina nos passos mais difíceis desses discursos uma boa e amável clareza.» E, ao mesmo tempo que se colocava assim ao nível dos humildes, não deixava de cativar a atenção dos mais sábios.

Outra característica de sua teologia é ser afetiva; fala não somente à inteligência, mas ao coração, e faz do estudo uma verdadeira oração. Recomendava esse método ao autor de um tratado de teologia: «Aprovaria que, nos lugares em que comodamente se possa, fizésseis os argumentos para vossas opiniões nesse estilo (afetivo).» Ibid. Essa característica muito particular, que pode parecer um tanto singular à primeira vista, é a consequência imediata do grande princípio prático sobre o qual o santo doutor apoiou toda a sua vida: tudo, em nossa vida, deve ser empregado para nos unir a Deus: oração, trabalho, estudo, ocupações, dever, sofrimentos, contradições, em toda circunstância, a todo instante. Não é apenas uma bela teoria que ele expõe, é uma direção de intenção que ele quer incessante; a teoria passa à prática; e é assim que a teologia especulativa se torna, para grande proveito seu, aliás, uma oração.

2º A teologia moral de são Francisco caracteriza-se também pela clareza. Ele quer que se veja claro na consciência humana, da qual explorou todos os cantos e recantos. Expôs nitidamente essas lutas misteriosas da vontade às voltas com o pecado, no drama obscuro da tentação, e ajuda a discernir o ponto preciso e capital em que a alma passa do sentimento ao consentimento. Essa moral tão nítida é ainda uma moral humana, vivida, ao alcance de todas as boas vontades, acomodando-se a todas as situações que estão no dever; está bem distante da moral austera e exagerada dos jansenistas. O princípio que dirigiu suas especulações dogmáticas penetra também em sua teologia moral.

Ele insiste junto à alma para que ela não se contente, em suas relações com Deus, com a simples vida cristã; prega a devoção, a perfeição sempre crescente do amor de Deus, que quer ver operar « cuidadosa, frequente e prontamente ». Chamaram-no com razão o doutor da devoção, o doutor da piedade cristã.

3° A doutrina ascética do santo pode resumir-se assim. 1. O fim é a união da alma com Deus pela conformidade incessante com a vontade divina: « Que toda a sua vida e exercício sejam para se unir com Deus », escreve ele na primeira página do Diretório espiritual das visitandinas; é uma vida de obediência, de fidelidade amorosa, delicada, generosa, constante à vontade de Deus, a qual vontade de Deus, ele no-lo ensina, Tratado do amor de Deus, l. XII, c. vi, não é outra coisa, na prática, senão o dever do momento presente.

2. O método, o caminho a seguir, é ir direto ao fim, confiando-se a Deus para triunfar dos obstáculos. Toda vida espiritual compreende em geral dois grandes exercícios: a) a luta contra a natureza viciada; b) a união da vontade a Deus; em outros termos, a penitência e o amor. São Francisco de Sales toma por primeiro e principal objetivo o amor. Não negligencia de modo algum a penitência, elemento absolutamente necessário. Exige a mortificação dos sentidos; recomenda a Filotéia a disciplina e o jejum; contudo, coloca em primeiro lugar a mortificação do espírito, da vontade e do coração. E a mortificação que ele põe antes de qualquer outra é aquela que consiste em cortar cerce a natureza para ser todo do dever do momento presente e da vontade de Deus, todo do amor. Essa mortificação interior, sempre possível, mesmo quando certas mortificações exteriores não o são, ele a pede incessante, e cumprida por amor.

3. O modelo, o sustentáculo, é Nosso Senhor, que é preciso olhar a todo instante: « Aprendereis suas atitudes e formareis vossas ações pelas dele », Introdução à vida devota, parte II, c. i; é sob o seu olhar que se deve fazer todas as coisas: « embora não o vejamos, ainda assim, lá do alto, ele nos considera », c. ii; é nele que devemos apoiar-nos com confiança: « Tudo por ele, tudo para ele, tudo com ele, tudo ele! », t. iv, carta dxcii, p. 289.

4. Os meios práticos para ajudar a alma no cumprimento da vontade de Deus são: a) a oração simples e afetuosa; b) a lembrança da presença de Deus; c) a direção de intenção frequente; d) o recurso a Deus por piedosas e confiantes invocações de boca, ou aspirações de coração. É preciso juntar a isso a humilde confissão e a comunhão frequente. Essa doutrina espiritual, simples, acessível a todos, segura, é assim apreciada no breviário romano: Suis : etiam scriptis, caelesti doctrina refertis, Ecclesiam illustravit, quibus iter ad christianam perfectionem tutum et planum demonstrat. Os termos empregados pelo decreto e pelo breve de doutorado exprimem a mesma ideia, quase nos mesmos termos: caminho aplainado e seguro, t. i, p. xi, xviii.

Ao querer tornar acessíveis a todos as ásperas veredas da virtude, o santo doutor não rebaixou o nível da perfeição evangélica. Se torna a virtude mais fácil, é num sentido inteiramente relativo. Em cada página de seus escritos, com efeito, é insinuada a renúncia; o que ele quer em primeiro lugar é a morte à natureza má; é impiedoso contra ela e não faz graça a nenhum de seus mais mínimos rebentos. O Sr. Olier não o chamava o mais mortificante dos santos? « Sem dúvida, diz dom Mackey, poder-se-iam extrair de suas obras, como da própria Sagrada Escritura, passagens em que o relaxamento julgaria encontrar uma desculpa; nunca se deve perder de vista que os ensinamentos do santo doutor formam um sistema completo, que deve ser encarado em seu conjunto; assim considerada, cada parte faz contrapeso à outra; a liberdade é concedida, mas sob condições que a tornam inofensiva; uma barreira só é removida para ser substituída por outra igualmente eficaz e mais prática. Seus preceitos de espiritualidade, apesar de sua modesta aparência, elevam ao heroísmo da virtude pela continuidade de sua aplicação e pelo cativeiro a que submetem o homem inteiro », t. i, p. lxviii.

Acrescentemos uma palavra sobre sua doutrina da oração e da comunhão frequente. A « oração » que são Francisco de Sales ensina a Filotéia, e a « meditação que explica a Teótimo », são o que os autores modernos chamam oração afetiva. Cf. Poulain, As graças de oração, parte I, c. ii. A meditação que ele pede é « um pensamento atento, reiterado ou mantido voluntariamente no espírito, a fim de excitar a vontade a santas e salutares afeições e resoluções ». Não gostava dos longos discursos na oração, onde uma só consideração basta: não é preciso tomar várias. « É preciso soltar as rédeas às afeições »; « nessas afeições nosso espírito deve derramar-se e estender-se o mais possível ». A oração afetiva conduz a alma à oração de simplicidade ou de simples entrega em Deus, que não é outra coisa senão uma das formas da contemplação ordinária. Ver Contemplação, t. iii, col. 1622. É o entendimento, nessa espécie de oração, mas é o mais das vezes a vontade que age e « contempla », entregando-se à vontade de Deus. Cf. Tratado do amor de Deus, l. VI, c. iv. Essa oração de simples entrega a Deus tornou-se logo habitual na Visitação. O santo falou dela de modo geral no Tratado do amor de Deus, loc. cit., e nos Colóquios espirituais, col. ii e xviii, vi, p. 29, 349.

Quanto à comunhão frequente, são Francisco de Sales foi um precursor; foi um dos campeões mais destacados da corrente de reação que se formou antes e depois do concílio de Trento, contra os hábitos que afastavam os fiéis da sagrada mesa havia já vários séculos. Depois de ter praticado ele próprio a comunhão frequente, tal como então se entendia, e de se ter feito seu apóstolo desde a juventude, tornado sacerdote e bispo, ele a prega do alto do púlpito, ensina-a em seus livros, conduz as almas a ela, como confessor e como diretor. Nas Constituições, concede às visitandinas mais comunhões do que tinha qualquer instituto religioso na França naquela data.

E é interessante seguir em suas Cartas o método, a tática, se assim posso dizer, pela qual ele conduz as almas pedetentim da comunhão espaçada à comunhão mensal, depois à comunhão de quinze em quinze dias, depois à comunhão semanal, a "comunhão frequente" daquele tempo. Quando encontrava uma alma dócil e generosa, ao risco de chocar-se com os preconceitos dos sacerdotes e religiosos mais santos e mais sábios, ele a impelia discretamente a uma comunhão cada vez mais frequente; santa Joana de Chantal foi logo convidada por ele à comunhão de todos os dias, quase inaudita naquela época.

Seríamos levados, em nossos dias, a censurar-lhe a severidade da regra que ele dá na Introdução à vida devota, part. II, c. xx, para a comunhão frequente (isto é, semanal), regra que impõe não conservar afeição ao pecado venial. Se são Francisco de Sales aparece mais exigente do que outros quanto à condição da pureza de consciência, em compensação, quando encontra essa pureza, ele se adianta aos teólogos e aos diretores de seu tempo para autorizar a frequência das comunhões, e os historiadores relatam que teve de sofrer muitas [contradições] a esse respeito.

No fundo, o pensamento pelo qual todo o seu ensinamento não é o mesmo que inspirou o decreto de Pio X: "Duas espécies de pessoas devem comungar frequentemente: os perfeitos, porque bem dispostos, teriam grande erro em não se aproximar da fonte e manancial da perfeição, e os imperfeitos, para poderem justamente pretender a perfeição; os fortes, para que não se tornem fracos, e os fracos, para que se tornem fortes; os doentes, para serem curados, os sãos, para que não caiam em doença." Introdução à vida devota, part. II, c. xxi. Ver R. Pernin, Relatório ao congresso eucarístico de Viena, 1912, sobre são Francisco de Sales e a comunhão frequente, nos Annales salésiennes, Paris, setembro e outubro de 1912.

4° A teologia mística (tomando esta palavra mística em sua acepção atual e não naquela que lhe dá são Francisco de Sales) tem, nesse santo doutor, as mesmas três qualidades. 1. Seu ensinamento é sólido e seguro, apoiado que está nos autores aprovados e em particular em santa Teresa, que o santo havia estudado a fundo, e em sua experiência pessoal. Bossuet, induzido em erro pelas palavras humildes demais do santo e pelo desejo de triunfar sobre Fénelon, diz que em 1610 o bispo de Genebra ainda não conhecia a oração de quietude. Cf. Poulain, op. cit., c. xxviii, n. 23.

As testemunhas de sua vida falam de outro modo: santa Joana de Chantal, Depoimento, a. 33; dom Jean de Saint-François, que declara, no processo de canonização, que esse bem-aventurado ensinou "não tanto o que sabia quanto o que sentia," Process. remiss. Paris.; e um dos que o conheceram mais intimamente, o Padre de Coëx, afirmava: "Ele nada escreveu que não tivesse recebido do Espírito Santo, e mil vezes degustado e experimentado."

Seu ensinamento místico fundava-se, enfim, na experiência que adquiriu nos primeiros anos da Visitação, com a santa madre de Chantal primeiro, e depois com as religiosas da fundação. "A imensa bondade de Deus, diz a madre de Chaugy, Mémoires, part. II, c. ii, gratificava essas queridas almas com favores inteiramente sobrenaturais. Pela graça divina, várias tiveram em pouco tempo orações de quietude, de sono amoroso, de união altíssima; outras, luzes extraordinárias sobre os mistérios divinos, nos quais estavam santamente absorvidas; algumas outras, frequentes arrebatamentos e santas saídas de si mesmas para serem felizmente todas detidas e tomadas em Deus, onde recebiam grandes dons e graças de sua divina liberalidade." Trata-se aqui das madres Favre, de Bréchard, de Chatel, de Blonay, de la Roche e sobretudo Anne-Marie Rosset, cuja vida era uma sequência ininterrupta de operações sobrenaturais da ordem mais elevada; são Francisco de Sales as teve em vista na composição de vários capítulos dos l. VI-VIII do Tratado do amor de Deus.

2. Seu ensinamento era claro, ordenado, ao alcance de todos os espíritos, em matérias, contudo, muito elevadas e pouco nítidas nos autores. Ele não quer tratar das "suréminences," que não entende. Prefácio do Tratado do amor de Deus.

Ele tampouco se ocupará dos fenômenos místicos, visões, revelações, palavras interiores, que não são a oração propriamente dita. Ele nem mesmo nomeia o que santa Teresa e os autores chamam de matrimônio místico, a sétima e última morada do Castelo interior, que ele, entretanto, seguiu passo a passo até ali em sua classificação dos estados de oração. Em compensação, tem vários capítulos encantadores sobre um assunto que os outros omitem, a última palavra da oração mística aqui embaixo, o efeito supremo do amor afetivo, que é a morte de amor.

3. Seu ensino místico é, enfim, afetivo, e arrasta toda alma no odor dos divinos perfumes; sempre que encontra em seu caminho uma alma que está ainda muito embaixo, e que talvez jamais se elevará a essas alturas sublimes, o santo doutor quer ao menos ensinar-lhe a tirar algum proveito desse estudo e a reanimar seu fervor ao contato ardente da oração dos santos. Ele fala da oração de união e de suas sublimidades, mas, à falta de uma união elevada: « não temos nós, diz ele, o sacramento da santíssima eucaristia, do qual cada um pode participar para unir o seu Salvador a si mesmo realmente e por maneira de alimento? Teótimo, essa união sacramental nos solicita e nos ajuda à espiritual da qual falamos. » Tratado do amor de Deus, l. VII, c. ii. E depois, se não podemos pretender um estado prolongado de semelhante união, podemos ao menos praticá-la de algum modo « por meio de arroubos curtos e passageiros, mas frequentes, de nosso coração em Deus, por maneira de orações jaculatórias feitas com essa intenção », l. VII, c. iii. Os êxtases e arrebatamentos excitam nossos desejos infrutuosos. Se os êxtases do entendimento e os êxtases da afeição são demasiado altos para a nossa pequenez, restam-nos os êxtases e arrebatamentos da ação, nos quais podemos dar-nos livre curso, « quando não vivemos mais segundo as razões e inclinações humanas, mas acima delas, segundo as inspirações e instintos do divino Salvador de nossas almas », l. VII, c. viii. Enfim, nos ensinamentos dados a Teótimo, como naqueles que Filoteia já havia recebido, nosso santo coloca o exercício da humildade e das virtudes sólidas muito acima das « uniões deíficas e outras tais perfeições...; essas perfeições não são virtudes... E não se deve pretender tais graças, pois elas não são de modo algum necessárias para bem servir e amar a Deus. » Introdução à vida devota, part. III, c. ii.

Resta-nos dizer algumas palavras sobre o apoio que Fénelon julgou encontrar em certos textos do santo doutor, sobre as respostas de Bossuet, e também sobre seus ataques. Fénelon havia apoiado na autoridade de são Francisco de Sales suas teorias do puro amor. Nesse estado, segundo ele, nossa alma, considerando Deus como infinitamente amável em si mesmo, sem nenhum olhar sobre seus benefícios e sobre nosso próprio interesse, podia tornar-se indiferente a tudo e deixar de lado o desejo das virtudes, e mesmo o desejo da salvação. Era a supressão prática da virtude teologal da esperança.

Bossuet, em sua Instrução sobre os estados de oração, vinga admiravelmente a virtude da esperança, e mostra o abuso clamoroso que fazem « os novos místicos » de palavras isoladas de seu contexto e desviadas de seu verdadeiro sentido, « embora não haja nada que lhes seja mais oposto do que a doutrina e a conduta do santo bispo..., que era, nessa matéria, sem contestação, o primeiro homem de seu século. » Ele faz notar judiciosamente que os escritores que, como este santo, são cheios « de afetos e de sentimentos, não querem ser tomados sempre ao pé da letra. É preciso apreender o grosso de sua intenção, e jamais homem quis menos levar suas comparações e suas expressões ao rigor extremo do que este. » Entra em seguida em cheio na questão e mostra o verdadeiro sentido de todas essas passagens que Fénelon toma emprestadas ao santo: a máxima « Nada pedir, nada recusar »; a santa e perfeita indiferença que ele ensinou no Tratado do amor de Deus, como também as comparações que permaneceram célebres da estátua, do músico surdo, da filha do cirurgião, da rainha Margarida, etc.

São Francisco de Sales recomenda a indiferença em tudo o que não é a vontade de Deus; mas essa indiferença, que no fundo é a última palavra do verdadeiro amor, não deve nem pode jamais recair sobre o que é da vontade de Deus declarada e significada; seu domínio exclusivo é o que concerne à vontade dita de beneplácito, aquela que diz respeito aos acontecimentos da vida que devemos suportar independentemente de nossa vontade. Não somente o santo bispo jamais sacrificou nem diminuiu a esperança, à qual dá um lugar tão belo no Tratado do amor de Deus, mas ainda « tudo está repleto, em suas Cartas, da pátria celeste. » Bossuet, Estados de oração, l. VIII, IX, edit. Gaume, t. ix.

Bossuet, cansado de chocar-se sem cessar com novas alegações tiradas do santo bispo, exasperado de ouvir Fénelon repetir a todo propósito que « os particulares nunca devem dar-se a liberdade de condenar nem os sentimentos nem as expressões de um tão grande santo », sentiu um dia a paciência escapar-lhe.

Depois de reclamar o direito de nem sempre conceder uma autoridade doutrinal infalível aos santos canonizados, ele quis derrubar o último baluarte de seu adversário e empreendeu estabelecer que o bispo de Genebra, afinal, não era uma autoridade tão grande em matéria de dogma quanto em matéria de direção. Nem sempre se encontrará sua doutrina: « tão ligada nem tão exata quanto seria de desejar ».

E em apoio de sua tese Bossuet pretendeu encontrar três erros pelagianos ou semipelagianos nos c. xvi e xvii do l. I do Tratado do amor de Deus, onde o santo doutor fala da « inclinação natural de amar a Deus sobre todas as coisas » que se encontra em nós. São Francisco de Sales considera esses « começos de amor como uma afeição de ordem sobrenatural »? Bossuet assim pensa e denuncia o erro. Uma leitura atenta não permite semelhante interpretação. O santo encara esses « começos de amor como um sentimento puramente natural » que não pode preparar positivamente a alma para a justificação, mas que é capaz apenas de dispô-la negativamente, afastando os obstáculos e pondo o homem em condição de ser tomado, de modo inteiramente gratuito, pela graça. É o que Fénelon demonstrou vitoriosamente em sua resposta, mais sólida nessa defesa do santo doutor do que o era em seu próprio terreno. Cf. Bossuet, Préface sur Introduction pastorale de M. de Cambrai, sect. xi, edit. Gaume, t. ix, p. 413. Fénelon, 5e lettre en réponse aux divers écrits..., edit. Gaume, p. 620 sq.; dom Mackey, Œuvres complètes, t. iv, t. ii, p. lvi.

No fundo, em vários pontos desse desacordo entre Bossuet e são Francisco de Sales, havia apenas uma questão livre de escola, na qual Bossuet pretendia encontrar uma questão de doutrina. No que diz respeito, em particular, às condições do ato sobrenatural, sente-se em são Francisco de Sales a influência de são Boaventura e de Molina. Sabe-se como a luta que havia apaixonado a Igreja da França terminou com a humilde submissão de Fénelon.

As alegações de Bossuet contra a doutrina de são Francisco de Sales deixaram vestígios no espírito dos contemporâneos, e lançaram algumas nuvens sobre a reputação doutrinal do bispo de Genebra? Talvez, nos primeiros tempos que se seguiram. Entretanto, no decorrer do século xviii, o sábio papa Bento XIV prestou à doutrina de são Francisco um testemunho notável, que é citado no breve de doutorado Suis antecessoribus concinens Benedictus XIV sanctissimae memoriae, libros Genevensis praesulis scientia divinitus acquisita scriptos affirmare non dubitavit, illius auctoritate usus difficiles quaestiones solvit, « sapientissimum animarum rectorem appellavit, t. i, p. xiii. »

Enfim, Pio IX, resumindo os sentimentos de seus predecessores e respondendo ao voto expresso pelos Padres do concílio do Vaticano, declarou solenemente que a doutrina de Francisco de Sales resplandece de tal modo que é inteiramente a de um doutor da Igreja: nimirum: Quae in sublimi sanctitatis culmine ita in eo illa propria virtus supereminet, ut doctoris Ecclesiae sit ut hunc inter praecipuos magistros Sponsae suae a Christo Domino datos, accensendum suadeat, t. i, p. xviii. E a auréola dos doutores da Igreja veio consagrar definitivamente a autoridade da doutrina salesiana.

A influência que são Francisco de Sales exerceu durante sua vida não fez senão crescer nos três séculos seguintes, trazendo às almas o contraveneno dos erros protestantes, jansenistas e naturalistas, tão diametralmente opostos às suas lições. Seus escritos, difundidos por toda parte, e populares hoje como no século xvii, ensinaram a verdadeira e sólida piedade; abriram a todos os caminhos da oração mental e da vida espiritual; favoreceram e desenvolveram a comunhão frequente. A devoção ao Sagrado Coração, que nasceu na Visitação de Paray-le-Monial, havia sido preparada por ele, como reconhece o breve de doutorado: Illud plane mirabile est, quod Spiritu Dei ipsum plenus, et ad suavitatis auctorem accedens, devoti cultus erga Sacratissimum Cor semina misit, t. i, p. xix. A Visitação de Santa Maria continua a ser a fiel depositária e o modelo da doutrina salesiana.

No século xix, uma verdadeira floração de religiosos e de sacerdotes veio reclamar-se das lições do bispo de Genebra: os missionários de São Francisco de Sales de Annecy, desejosos de reproduzir a vida apostólica; os salesianos do venerável dom Bosco, que o tomaram por patrono de suas obras de educação cristã e profissional da classe operária; os oblatos de São Francisco de Sales da venerável Maria de Sales Chappuis e do venerado pe. Brisson, de Troyes, que procuram reproduzir, nas obras do santo ministério, o espírito religioso dado pelo santo à Visitação; os sacerdotes de São Francisco de Sales do venerado sr. Chaumont, de Paris, que se compenetram do espírito sacerdotal do santo na vida do sacerdote secular; outras associações sacerdotais ou leigas; várias congregações religiosas de mulheres consagradas às obras exteriores, formam a posteridade espiritual do santo doutor.

Encontrar-se-á acima, col. 738 sq., a nomenclatura das diversas edições das Obras. Deixamos de lado as referências puramente literárias e históricas. As Vidas de são Francisco de Sales publicadas no século xvii têm todas um encanto particular.

Eis a lista dos principais autores dom Jean de Saint-François, Paris, 1621; de Longueterre, : Lyon, 1624; de Bonne- o abade o P. Philibert ville, Lyon, 1621; o P. de la Rivière, Lyon, 1624; Charles-Auguste de Sales, primeiro em latim, depois em francês, Lyon, 11; e 1634 (reeditada na edição de Vives) o 1* Nicolas Talon, S. J., impressa no início das Œuvres complètes de 1640, 164 '>, 1617, depois impressa à parte, reeditada pelo abade de Baudry, Lyon, 1837; Henri de Maupas du Tour, bispo do Puy, depois de Évreux, Paris, 1657; de Hauteville a casa são Francisco de Clermont : natural de Sales, e Paris, 1669; a Madre de Chaugy, Abrégé de la Vie du bienheureux François de Sales, 1646, reeditada pelo abade de Baudry, Lyon, 1837; anônimo (o advogado Cotolendi), Vie de saint François de Sales, Iuxt. que é sobretudo um romance histórico; Bussy-Rabutin, ou antes, sob o seu nome, Louise-Françoise de Rabutin, sua filha, 1699; Marsollier, Paris, 1700, Vida muitas vezes reimpressa, mas que contém numerosas inexatidões.

Não houve Vidas novas de são Francisco de Sales publicadas na França no decorrer do século XVIII. No século XIX, sem falar do romance de Loyau d'Amblis. Paris, in;;:', apareceram os trabalhos sérios do abade de Baudry, dos quais uma parte foi publicada em Migne; os do abade T. Boulangé, Études sur saint François de Sales, 2 in-8", Paris, 1841; depois as Vidas por M. Hamon, 2 ln-8°, completada pelos Srs. Gonthier Paris; i.i 7 édil a «' i «'• e Letourneau, Paris. 1909; François Pérennès, cuja Vida apareceu primeiro no início da edição das Œuvres complètes do santo por Migne, Paris, 1861, depois foi publicada à parte e em várias edições; o conde Anatole de Ségur, Vie populaire, Paris; \ de Margerie, na coleção Les saints >, Paris, 1902. •nt iin bem-aventurado François de Sales, por Jean-Pierre Camus, bispo de Belley Paris. 1641 obra abreviada por I 1727 em ; Mons. Depéry, Collot, Paris. ; reeditado sr,n integridade por i • '. Paris, 1840; Traicté de la conduite spirituelle selon 'in I, François de Sales, pelo P Nicolas < s Inserido no fim do h des xplÈU di 1M7; I t. Âdoi pai leP Dagnel, S -l ci Régula Salestante, fond' trdlnal Mermlll saint François de Sales, Paris, 1871; Sauvage, Saint François de Sales prédicateur, Paris, 1874; P. Desjardins, S. J., Saint François de Sales, docteur de l'Église, Paris, 1877; Mons. Freppel, Cours d'éloquence sacrée, IV e leçon, Paris. 1893; Annales salésiennes, passim sobre a vida, as obras, o espírito de são Francisco de Sales, Paris, 1889-1913; R. Pernin Directoire spirituel pour les prêtres, Paris, 1896; dom Mackey, Saint François de Sales et la formation du clergé, na Revue du clergé français, t. xxv, p. 516; L'idéal du séminaire selon saint François de Sales, t. xxix, p. TiHl Saint François de Sales, directeur spirituel, t. xxxvn. 390; ; Strowsky, Introduction à du sentiment p. F. l'histoire religieux en France, Paris, 1898; Saint François de Sales, na « la Pensée chrétienne », Paris, 1908. R. Pernin.

11.

Autor original: R. Pernin

A extração e a tradução foram feitas por IA e em caso de algum erro podem entrar em contato com o editor