IGREJA (IV. DEMONSTRAÇÃO APOLOGÉTICA DA VERDADE DA IGREJA CATÓLICA)

IGREJA (IV. DEMONSTRAÇÃO APOLOGÉTICA DA VERDADE DA IGREJA CATÓLICA)

DEMONSTRAÇÃO APOLOGÉTICA DA VERDADE DA IGREJA CATÓLICA. — I. FINALIDADE DESTA DEMONSTRAÇÃO E NATUREZA DOS ARGUMENTOS A EMPREGAR.

1° Supondo já provado o fato da revelação cristã segundo o programa anteriormente indicado, ver APOLOGÉTICA, t. I, col. 1519 sq., devemos agora demonstrar que essa revelação foi confiada por Jesus Cristo a uma autoridade, à qual ele mesmo atribuiu propriedades claramente definidas, e que essa autoridade divinamente estabelecida existe unicamente na Igreja católica, a única verdadeira Igreja de Jesus Cristo.

2° Nossa demonstração atual, para ser uma demonstração verdadeiramente pertencente à apologética científica, deve apoiar-se em motivos de credibilidade que possuam em si mesmos um incontestável valor crítico, de modo que os espíritos cultos fiquem inteiramente satisfeitos e que, mesmo para eles, toda dúvida, por leve que seja, possa ser suficientemente afastada. Certamente tais provas, incapazes de fornecer por si mesmas a evidência intrínseca da verdade revelada, não são científicas em sentido estrito, pois a ciência sempre supõe necessariamente uma plena evidência que satisfaz a inteligência. Merecem, contudo, em certo sentido, o nome de provas científicas, por causa dos procedimentos científicos empregados para constatar, no caso, a evidência extrínseca do fato da revelação. Todavia, deve-se observar que, para serem plenamente aceitas, essas provas, por mais científicas que sejam em sua exposição, supõem alguma intervenção da vontade, que detém deliberadamente a inteligência sobre as considerações favoráveis à aceitação e a afasta das objeções contrárias. Esse papel da vontade, já assinalado na questão da certeza, t. II, col. 2162 sq., será particularmente estudado no art. FÉ.

3° As provas que assim atestam cientificamente a verdade da Igreja católica são o testemunho historicamente irrecusável de Jesus e de seus apóstolos, e os milagres historicamente constatados em favor da Igreja católica e que provam autenticamente sua divindade. 1. O testemunho de Jesus e o de seus apóstolos, afirmando o fato da instituição divina da Igreja, devem ser controlados com os procedimentos críticos rigorosamente exigidos para a certeza científica, tal como foi anteriormente definida. Nessas condições, tratando-se do testemunho divino, a prova é absolutamente certa, pois a palavra divina é sempre uma prova irrecusável da verdade que afirma; e tratando-se do testemunho dos apóstolos, as circunstâncias em que ele se apresenta como um eco fiel do próprio ensinamento de Jesus Cristo fazem dele um critério certo de verdade. É nesse sentido que Leão XIII, em sua encíclica Satis cognitum de 29 de junho de 1896, indica a afirmação de Jesus Cristo sobre a natureza da Igreja como a prova principal da verdade revelada. 2. Os milagres, realizados em favor da Igreja católica e devidamente controlados, provam autenticamente sua divindade, pois todo milagre é um testemunho infalível dado pelo próprio Deus. Esses milagres não são outra coisa senão a série ininterrupta de intervenções divinas todas especiais, que necessariamente supõe o fato da existência constante da Igreja católica, considerado em todas as suas circunstâncias concretas e através de toda a história eclesiástica, com a permanente posse da unidade de fé e de governo e o incessante gozo de uma incomparável fecundidade espiritual. Esses fatos, ultrapassando certamente a ação das causas humanas, atestam manifestamente uma intervenção divina toda especial, única capaz de explicar suficientemente efeitos tão maravilhosos, tanto mais que eles se encontram unicamente na comunhão católica. Esta prova, apesar de toda a sua força demonstrativa, comporta aqui muito poucos desenvolvimentos, porque não é substancialmente diferente da prova dos milagres realizados em favor da revelação cristã, e, estando essa prova exposta em outro lugar com toda a amplitude desejável, basta assinalar aqui as aplicações particulares à própria Igreja.

4° À prova dos testemunhos e dos milagres pode ainda juntar-se uma prova confirmatória, deduzida do fato de que a doutrina católica é julgada particularmente apta a satisfazer as necessidades e as aspirações do homem, seja do ponto de vista individual, seja do ponto de vista social. Quanto ao valor dessa prova, observaremos que aqui, como na demonstração da religião cristã, ela é de aplicação difícil e de importância antes secundária, e que, na prática, deve servir principalmente para afastar as objeções dos adversários, e sobretudo para preparar os espíritos cultos para a aceitação dos argumentos positivos extraídos do testemunho e dos milagres.

II. AFIRMAÇÕES NEOTESTAMENTÁRIAS. — 1° Testemunho de Jesus Cristo. — Ao contrário dos sistemas protestantes ou modernistas que pretendem decidir a priori o que Jesus devia ou não devia fazer, devemos antes de tudo indagar o que Jesus realmente fez, pois, na verdade, nesse domínio que depende unicamente da livre vontade de Deus, nada nos autoriza a presumir, por um apriorismo necessário e rigoroso, o que Deus verdadeiramente quis. Este é o princípio fundamental justamente estabelecido por Leão XIII no início de sua encíclica Satis cognitum de 29 de junho de 1896: Ecclesiae quidem non solum ortus sed tota constitutio ad rerum voluntate libera effectarum pertinet genus: quocirca ad id quod revera gestum est judicatio est omnis revocanda, exequendumque non sane quo pacto una esse Ecclesia queat, sed quo unam esse is voluit qui condidit. As afirmações de Jesus a esse respeito estão contidas principalmente nos textos de Matth., XVI, 18 sq., e Joa., XXI, 15 sq., concernentes aos poderes especialmente conferidos a Pedro e a seus sucessores, e nas passagens de Matth., XVIII, 18; XXVIII, 20, e de Marc., XVI, 15 sq., relativas à autoridade concedida coletivamente a todos os apóstolos e a seus sucessores. Deixando ao art.

Deixando de lado a demonstração apologética da perfeita autenticidade dos textos de Matth., xvi, 18 sq., e Joa., xxi, 15 sq., bem como sua explicação dogmática, limitar-nos-emos a indicar aqui brevemente as principais conclusões que estamos autorizados a deduzir desses textos, cuja autenticidade nos é, por ora, suficientemente garantida pela tradição cristã constante e universal, solenemente afirmada pelo concílio do Vaticano, sess. IV, c. I, e provada por numerosos testemunhos na encíclica Satis cognitum, de Leão XIII, de 29 de junho de 1896.

1. Afirmação de Jesus Cristo prometendo a instituição de sua Igreja. — Esta promessa está contida nas palavras referidas por São Mateus, xvi, 18 sq.: Et ego dico tibi quia tu es Petrus et super hanc petram ædificabo Ecclesiam meam, et portæ inferi non prævalebunt adversus eam. Et tibi dabo claves regni cælorum, et quodcumque ligaveris super terram erit ligatum et in cælis, et quodcumque solveris super terram, erit solutum et in cælis.

a) Ecclesia, no v. 18, não pode significar, como em muitas passagens do Antigo Testamento, o povo israelita escolhido por Deus por uma vocação toda especial. Pois sabemos, pelo conjunto das profecias que provam a verdade da revelação cristã, que a aliança de Deus com o povo israelita devia terminar com o advento do Messias, e ceder lugar a uma nova aliança doravante estendida a toda a humanidade e definitivamente estabelecida até a consumação dos séculos. Aliás, o pronome mea empregado por Jesus no v. 18 sugere manifestamente a ideia de um povo novo ou de uma sociedade nova sobre a qual o Redentor tem direitos especiais.

b) Esta nova Igreja é caracterizada principalmente pela autoridade que Jesus promete nela estabelecer e que indicam claramente as três metáforas que ele emprega.

α. A pedra sobre a qual a Igreja deve ser edificada, não sendo outra, segundo o contexto, senão o apóstolo Pedro, designa necessariamente, no sentido metafórico que é aqui o único possível, o fundamento moral sobre o qual deve repousar essa sociedade, isto é, a autoridade suprema da qual todos os membros devem depender e sob cuja direção devem concorrer para o fim comum dessa sociedade.

β. As chaves desse reino espiritual que é a Igreja, significando, segundo o uso de todos os povos sancionado pela Escritura, Is., xxii, 22; Apoc., i, 18; iii, 7, o poder concedido sobre uma coisa para dela dispor a seu talante, e por conseguinte, numa sociedade, a autoridade plena e inteira sobre essa sociedade, é manifesto que, por essas palavras, Jesus promete o estabelecimento de uma autoridade capaz de reger sua Igreja, quer se considerem essas palavras em si mesmas, quer se as considere em sua harmonia com todo o contexto.

γ. A mesma ideia de autoridade é expressa pelas expressões metafóricas: ligar e desligar. Pois, segundo o uso escriturístico, o poder de ligar significa o poder de ligar as vontades por leis ou preceitos, por sentenças judiciais ou por penas, como indica o texto de Matth., xviii, 18, referindo-se manifestamente, segundo o contexto, ao exercício da jurisdição nos litígios surgidos entre os membros da nova sociedade. Inversamente, o poder de desligar significa o poder de livrar desses diversos vínculos, segundo Joa., xx, 23, quorum remiseritis peccata, remittuntur eis, exprimindo o poder de remitir os pecados. É, pois, manifesto que, por essas palavras, o divino fundador da Igreja promete o estabelecimento futuro de um poder legislativo e judiciário, estendendo-se universalmente a tudo o que convém ao bem da nova sociedade. É, pois, manifesto que as três metáforas do texto escriturístico conduzem à mesma conclusão: a promessa divina de uma autoridade que rege a nova sociedade, para dirigir efetivamente todos os seus membros para o fim querido por seu divino fundador.

c) Todas essas explicações, solidamente apoiadas em todo o contexto, autorizam-nos a concluir que regnum cælorum, no v. 19, embora em outros lugares designe ora o reino individual de Deus nas almas, Luc., xvii, 20 sq., ora o reino eterno dos eleitos, Matth., xxv, 34, significa manifestamente aqui um reino espiritual, que deve constituir-se na terra com uma soberana autoridade visível estendendo-se a tudo o que requer o bem da nova sociedade. Quanto ao termo cælorum acrescentado a regnum, duas razões o justificam: a origem e o caráter sobrenatural do poder conferido a essa sociedade, e a necessidade de afastar as ideias carnais dos judeus, que interpretavam de maneira demasiado humana as expressões proféticas do Antigo Testamento que prediziam o reino universal do Messias.

2. Afirmação de Jesus Cristo instituindo sua Igreja. — Esta afirmação é muito explícita, seja na concessão de poder feita a Pedro e a seus sucessores até o fim dos séculos, seja na comunicação dos poderes realmente conferidos aos apóstolos e a seus sucessores sob a dependência de Pedro.

a) As palavras dirigidas por Jesus a Simão Pedro, segundo o relato de São João, Pasce agnos meos, pasce oves meas, xxi, 15 sq., exprimem a instituição de uma autoridade suprema na Igreja, estendendo-se a todos os atos de uma sábia e completa administração. Pois, segundo o uso dos povos orientais de que testemunha a expressão clássica ποιμένες λαῶν, e segundo a linguagem da Escritura, cf. II Reg., v, 2; Is., xl, 11; Jer., iii, 15; xxiii, 4; Zach., xi, 9; Mich., v, 4; Act., xx, 28; I Petr., v, 2; Apoc., vii, 17, a expressão pascere significa normativamente o poder de governar. Não tendo sido feita por Jesus Cristo restrição alguma, segundo o texto escriturístico, nessa concessão de poder, podemos concluir que esse poder é, de fato, ilimitado e universal, estendendo-se a tudo o que exigem os interesses da nova sociedade cristã.

b) A comissão dada por Jesus a todos os apóstolos conjuntamente: Euntes ergo docete omnes gentes, baptizantes eos in nomine Patris et Filii et Spiritus Sancti, docentes eos servare omnia quæcumque mandavi vobis, et ecce ego vobiscum sum omnibus diebus usque ad consummationem sæculi, Matth., xxviii, 19 sq.; Euntes in mundum universum prædicate evangelium omni creaturæ. Qui crediderit et baptizatus fuerit, salvus erit; qui vero non crediderit, condemnabitur, Marc., xvi, 15 sq., comporta, como demonstraremos em breve ao tratar da infalibilidade da Igreja, o poder de ensinar toda a doutrina revelada por Jesus Cristo e de ensiná-la de maneira integral, sem nenhuma diminuição nem nenhuma infidelidade, graças à assistência constante prometida por Jesus para assegurar efetivamente esse ensino perpetuamente fiel, assistência positivamente expressa pelas palavras ecce ego vobiscum, que na linguagem escriturística exprimem habitualmente a proteção e a bênção de Deus para assegurar final e completamente o sucesso desejado ou esperado. Exod., iii, 12; Jud., vi, 12; I Reg., iii, 19; Is., xli, 10; Jer., i, 8, 19; Judith, vi, 16; Act., xviii, 9 sq.

3. Afirmação de Jesus Cristo relativamente à duração perpétua de sua Igreja. — a) Esta afirmação resulta manifestamente destas duas garantias formais dadas por Jesus: super hanc petram ædificabo Ecclesiam meam, et portæ inferi non prævalebunt adversus eam. Matth., xvi, 18. Visto que todos os esforços das potências do inferno ou das potências das trevas, várias vezes mencionadas no Novo Testamento, Luc., xxii, 53; Eph., vi, 12; Col., i, 13, devem ser para sempre malogrados, é, pois, certo que a Igreja subsistirá sempre. Como, por outro lado, ela não pode existir sem seu fundamento necessário, que é a autoridade sobre a qual Jesus a estabeleceu, essa autoridade deve rigorosamente durar tanto quanto ela, isto é, perpetuamente.

b) É também isso que exprime a promessa positiva, feita por Jesus a seus apóstolos, de assisti-los até a consumação dos séculos no exercício da autoridade doutrinal que lhes confere, a eles e a seus sucessores: et ecce ego vobiscum sum omnibus diebus usque ad consummationem sæculi, Matth., xxviii, 20. A perpetuidade da assistência prometida por Jesus supõe necessariamente a perpetuidade daquilo que ele deve assistir, isto é, da autoridade doutrinal estabelecida em sua Igreja.

4. Afirmação implicitamente contida nas parábolas empregadas por Jesus. — Estas parábolas, sem nos informar positivamente sobre a constituição da Igreja, ensinam-nos algumas particularidades que não são sem importância, notadamente o duplo fato de que ela deve conter não somente justos, mas também pecadores, como indicam as parábolas do campo semeado de joio, Matth., xiii, 24 sq., das redes, 47 sq., e do banquete nupcial, xxii, 2 sq., e de que ela deve espalhar-se por todo o universo, como significam as parábolas do grão de mostarda e do fermento. Matth., xiii, 31 sq.

2° Testemunho dos apóstolos. — 1. Testemunho de São Paulo. — Deixando de lado os textos em que o apóstolo fala, de maneira geral, da Igreja de Deus, I Cor., x, 32; xi, 22; Gal., i, 13; ou a menciona simplesmente sob o título de esposa de Jesus Cristo, Eph., v, 23 sq., ou de corpo místico de Jesus Cristo, Eph., i, 23; v, 23, 30; Col., i, 18, deter-nos-emos nos dois textos em que São Paulo esboça o conceito da nova Igreja, Eph., iv, 4 sq., e I Tim., iii, 15, dois textos cuja autenticidade paulina é, para nós, fora de contestação.

a) No c. iv da Epístola aos Efésios, o apóstolo, depois de recordar que os fiéis formam um só corpo, pois há apenas um só Senhor, uma só fé, um só batismo, afirma que o próprio Jesus Cristo deu apóstolos, profetas, evangelistas, pastores e doutores, ut non jam simus parvuli fluctuantes et circumferamur omni vento doctrinæ, in nequitia hominum, in astutia ad circumventionem erroris, 14. Ainda que, na enumeração precitada, se tratasse parcialmente de alguns ministérios passageiros, ou de alguns carismas temporários que não deviam subsistir depois da era apostólica, permanece contudo verdadeiro que o fim, positivamente indicado nos versículos 15 sq., deve realizar-se em todos os tempos e para todos os fiéis, visto que nenhuma restrição é indicada. Não podendo esse fim ser realizado senão por uma autoridade infalível perpetuamente subsistente, é, portanto, manifesto que tal autoridade deve existir perpetuamente. Assim, o texto de São Paulo contém uma afirmação explícita da autoridade que deve existir na Igreja cristã. Ao mesmo tempo, essa autoridade é claramente assinalada como estabelecida pelo próprio Jesus Cristo, segundo o v. 11: Et ipse dedit quosdam quidem apostolos, quosdam autem prophetas, alios vero evangelistas, alios autem pastores et doctores. São Paulo, portanto, não inventa o conceito da Igreja; limita-se a reproduzir o ensinamento do Mestre.

b) Na Ia Epístola a Timóteo, São Paulo chama a Igreja de Deus columna et firmamentum veritatis, palavras que supõem manifestamente, na Igreja, uma completa imunidade a todo erro. Não podendo essa perfeita imunidade realizar-se sem uma autoridade doutrinal infalível, a existência dessa autoridade deve ser consequentemente admitida. Este ensinamento de São Paulo, não sendo senão a reprodução do ensinamento anteriormente dado pelo apóstolo como sendo o de Jesus mesmo, Eph., iv, 11 sq., deve igualmente provir de Jesus Cristo, embora o apóstolo não forneça aqui indicação positiva alguma sobre esse ponto.

2. Testemunho de São Pedro. — Ao exortar os πρεσβύτεροι a apascentar seus rebanhos, ποίμνιον τοῦ θεοῦ, de modo a receber a eterna recompensa do ἀρχιποίμενος, I Pet., v, 2 sq., São Pedro dá claramente a entender que a autoridade deles vem de Jesus Cristo, a quem deverão prestar contas rigorosas; interpretação aliás confirmada pela denominação dada a Jesus de ποιμὴν καὶ ἐπίσκοπος τῶν ψυχῶν. I Pet., ii, 25. Este testemunho de São Pedro não é de modo algum enfraquecido pela passagem em que os fiéis são chamados γένος ἐκλεκτόν, βασίλειον ἱεράτευμα, ἔθνος ἅγιον, λαὸς εἰς περιποίησιν, I Pet., ii, 9, pois o contexto e a comparação com Exod., xix, 6, indicam bastante claramente, como sentido único, o de raça santa e povo de Deus.

3° Conjunto dos fatos neotestamentários relativos à Igreja. — 1. O Novo Testamento apresenta todo um conjunto de fatos gravitando em torno do apostolado estabelecido por Jesus e exercido em seu nome com plena autoridade. a) O apostolado, tal como foi estabelecido por Jesus, compreende, como mostram os textos anteriormente citados, a missão especial de enviados que receberam de Jesus a plenitude de seus próprios poderes, para ensinar em seu nome aos fiéis a doutrina por ele revelada e para governá-los ou dirigi-los em tudo o que é necessário para seu bem espiritual. Ver APÓSTOLOS, t. I, col. 1651 sq.

b) O apostolado assim estabelecido por Jesus é exercido em seu nome com plena autoridade. De fato, os apóstolos ensinam como enviados de Jesus, por ele credenciados e falando em seu nome, e sua palavra é dada como palavra de Deus, à qual se deve plena submissão. I Thess., ii, 13; II Cor., v, 20; x, 5 sq.; Rom., i, 5; II Tim., iii, 2, 10. Os que rejeitam esse ensinamento são considerados como tendo naufragado na fé, como sedutores e como anticristos e como dignos de anátema. II Thess., i, 8; Gal., i, 8 sq.; I Tim., i, 19 sq.; II Tim., iv, 3 sq.; II Petr., ii, 1 sq.; I Joa., ii, 18 sq.; iv, 1 sq.; II Joa., 7 sq. Ao mesmo tempo, os apóstolos, em virtude da autoridade que lhes confere sua missão, exercem um poder de comando sobre os fiéis. Act., xv, 28 sq.; xvi, 4; I Cor., v, 3 sq.; xi, 2, 34; II Cor., xi, 2, 10. Cf. Mgr P. Batiffol, L'Église naissante et le catholicisme, Paris, 1909, p. 49 sq.

2. O conjunto desses fatos não pode ser suficientemente explicado por um puro carisma, pois o carisma, dom individual do Espírito Santo, não supõe por si mesmo autoridade ou missão divina alguma naquele que dele é dotado, e seu próprio exercício está regularmente submetido à autoridade. A única explicação racional é, pois, que os apóstolos possuíam realmente um poder permanente de ensinar e governar, em virtude de uma missão especial dada por Jesus Cristo; poder que, aliás, aparece manifestamente concedido para todos os tempos e para todas as gerações cristãs, visto que os testemunhos anteriormente citados não indicam restrição alguma. Batiffol, op. cit., p. 66 sq.

Conclusão.

De tudo o que relatamos das afirmações de Jesus e dos apóstolos, bem como do conjunto dos fatos neotestamentários, estamos autorizados a concluir que uma autoridade foi estabelecida a perpétuo por Jesus Cristo na sociedade cristã, para ensinar fielmente toda a sua doutrina e para dirigir efetivamente os fiéis para seu fim sobrenatural. Apoiados neste mesmo fundamento escriturístico, podemos ainda deduzir, com não menos certeza, várias propriedades essenciais desta Igreja divinamente estabelecida, notadamente sua perpétua visibilidade, seu título de sociedade perfeita, sua unidade, sua apostolicidade, sua catolicidade, sua santidade e sua perpétua indefectibilidade na doutrina revelada por Jesus Cristo e na divina constituição por ele estabelecida, como demonstraremos em breve ao estudar a divina constituição da Igreja segundo o dogma revelado.

III. TESTEMUNHO DA TRADIÇÃO CRISTÃ NOS QUATRO PRIMEIROS SÉCULOS. — Nossa demonstração, estritamente apologética e circunscrita ao terreno histórico, no sentido anteriormente definido, deter-se-á após os quatro primeiros séculos, porque, além dessa época, os adversários do catolicismo já não contestam hoje a exclusiva predominância do conceito católico de Igreja, embora não queiram admitir sua origem divina. Nesse período dos quatro primeiros séculos, nosso estudo, necessariamente sintético, deter-se-á nos traços principais do conceito geral de Igreja, deixando de lado os pontos particulares que serão objeto de artigos especiais, tais como as notas da Igreja, o episcopado, o primado do papa e sua infalibilidade.

1° Primeiro período, dos tempos apostólicos até o fim do século II. — 1. São Clemente papa (+ por volta de 101), em sua carta aos Coríntios, ocasionada pela sedição ocorrida naquela Igreja, insiste principalmente na obediência devida, segundo a ordem divina, à autoridade dos bispos em matéria de disciplina: ὑμεῖς οὖν οἱ τὴν καταβολὴν τῆς στάσεως ποιήσαντες ὑποτάγητε τοῖς πρεσβυτέροις καὶ παιδεύθητε εἰς μετάνοιαν κάμψαντες τὰ γόνατα τῆς καρδίας ὑμῶν . I Cor., XLIV, 1; Funk, Patres apostolici, 2e édit., Tubingue, 1901, t. 1, p. 170 sq. Não se trata de um simples conselho, mas de uma obrigação rigorosa, cuja inexecução privaria de toda esperança em Cristo Jesus e exporia a ser rejeitado de seu rebanho, p. 172. Se alguns não obedecerem ao que Jesus lhes diz por nosso intermédio, saibam que faltam gravemente, e que se colocam em um perigo considerável, , p. 174. A unidade da Igreja é afirmada ao menos implicitamente na passagem em que Clemente fala da unidade de fé no Pai, no Filho e no Espírito Santo, da unidade de vocação em Cristo, e da unidade do corpo de Jesus Cristo do qual todos os fiéis são membros, XLVI, 6, p. 158. Aliás, a unidade da Igreja ressalta bastante claramente da autoridade que o bispo de Roma exerce sobre a Igreja de Corinto, autoridade tanto mais manifesta quanto, segundo o texto da carta, Clemente parece ter intervindo de maneira inteiramente espontânea, XLVII, p. 160, e ter querido desincumbir-se do dever de seu cargo, LIX, 2, p. 174.

2. Santo Inácio de Antioquia (+ 101), ao combater as heresias de seu tempo, insiste com grande frequência na submissão à hierarquia eclesiástica constituída pelo bispo, o τῷ πρεσβυτερίῳ e os diáconos. Ad Eph., VI, 2; IV; V, 3; XX, 2, Patres apostolici de Funk, 2e édit., Tubingue, 1901, t. 1, p. 214, 216, 218, 230; Ad Magn., II sq.; VI; VII, 1; XIII, 2, p. 232, 234, 236, 240; Ad Trall., II, VII, XIII, 2, p. 242 sq., 246 sq., 250; Ad Philad., IV, VII, p. 266, 270; Ad Smyrn., VIII, p. 282. Essa submissão não é exigida apenas em matéria de disciplina eclesiástica, como na carta de São Clemente aos Coríntios. Santo Inácio exige expressamente que se esteja de acordo na submissão, τῇ τοῦ ἐπισκόπου γνώμῃ, Ad Eph., IV, p. 216; submissão não somente às vontades, mas também aos juízos do bispo. Essa submissão é necessária para que se esteja unido τῇ γνώμῃ τοῦ θεοῦ, pois Jesus Cristo, que é nossa vida indispensável, é ἡ γνώμη τοῦ πατρός, assim como os bispos estabelecidos por toda a terra, ἐν Ἰησοῦ Χριστοῦ γνώμῃ εἰσίν. A submissão à autoridade do bispo é exigida em virtude da ordem divinamente estabelecida. Ad Eph., III, 2, p. 214. Deve-se estar na unidade imaculada com o bispo, para participar sempre de Deus. Ad Eph., IV, p. 216. Deve-se ter o cuidado de não resistir ao bispo, para permanecer submisso a Deus. Ad Eph., V, 3, p. 218. Deve-se considerar no bispo o próprio Deus. Ad Eph., VI, p. 218. Deve-se ser submisso ao bispo ὡς χάριτι θεοῦ e ao presbyterium ὡς νόμῳ Ἰησοῦ Χριστοῦ. Ad Magn., II, p. 232. O bispo ocupa o lugar de Deus, e o presbyterium o do senado apostólico. Ad Magn., VI, p. 234. Aliás, a maneira pela qual o bispo de Antioquia denuncia os hereges e os cismáticos supõe, em uns e outros, a rebelião contra uma autoridade divinamente estabelecida. Se alguém corrompe por uma doutrina perversa a fé de Deus, pela qual Jesus foi crucificado, irá ao fogo eterno, e igualmente aquele que o escuta. Ad Eph., XVI, p. 226. Se alguém segue um cismático, não obterá a herança do reino divino; se alguém segue uma doutrina estranha, não participa da paixão de Jesus Cristo. Ad Philad., III, p. 266.

Quanto à unidade da Igreja, ela resulta do fato de que Jesus Cristo faz a unidade de todos os bispos estabelecidos no mundo: καὶ γὰρ Ἰησοῦς Χριστός, τὸ ἀδιάκριτον ἡμῶν ζῆν, τοῦ πατρὸς ἡ γνώμη, ὡς καὶ οἱ ἐπίσκοποι, οἱ κατὰ τὰ πέρατα ὁρισθέντες, ἐν Ἰησοῦ Χριστοῦ γνώμῃ εἰσίν. Ad Eph., III, 2, p. 216. Em outro lugar, Santo Inácio fala expressamente do corpo da Igreja universal, que é um só, ἐν ἑνὶ σώματι τῆς ἐκκλησίας αὐτοῦ. Ad Smyrn., I, 2, p. 276. Essa mesma unidade é ainda afirmada, ao menos implicitamente, no conceito de Igreja universal, expressamente chamada, pela primeira vez entre os autores eclesiásticos, ἡ καθολικὴ ἐκκλησία, Ad Smyrn., VIII, 2, p. 282. Enfim, está-se suficientemente autorizado a reconhecer, na denominação toda particular dada à Igreja de Roma, ἥτις καὶ προκάθηται ἐν τόπῳ χωρίου Ῥωμαίων, Ad Rom., init., p. 252, uma indicação bastante explícita em favor do primado dessa Igreja, e por conseguinte em favor da unidade da Igreja, necessariamente ligada a esse primado. Ver L. Duchesne, Églises séparées, Paris, 1896, p. 127 sq.; J. Tixeront, La théologie anténicéenne, Paris, 1906, p. 142 sq.; P. Batiffol, op. cit., p. 168 sq. Ver PAPA.

3. Entre as obras que nos restam de São Justino, a única em que ele fala explicitamente da Igreja é o Diálogo com Trifão, destinado a leitores cristãos ou judeus. Aplicando ao Verbo encarnado o salmo XLIV, São Justino mostra na Igreja a rainha predita pelo profeta. Essa Igreja é composta de todos os que creem em Jesus Cristo e que formam uma só alma, uma só sinagoga, uma só Igreja. Dial. cum Tryph., n. 63, P. G., t. VI, col. 621. O mesmo pensamento é expresso em várias outras passagens, n. 110, 116, 117, 149, col. 729, 745 sq., 752 sq. Em seu Diálogo, como em suas Apologias, São Justino não tem ocasião alguma de falar diretamente da autoridade divinamente estabelecida para instruir e reger os fiéis. Mas essa divina autoridade ressalta suficientemente da maneira como Justino fala do ensinamento recebido de Jesus Cristo, fielmente transmitido pelos apóstolos e por seus sucessores, e atualmente dado como sendo o único verdadeiro e como se impondo integralmente à aceitação dos fiéis. Apol., I, 23, 61, 65, 66, 67, P. G., t. VI, col. 364, 420, 428, 432; Dial. cum Tryph., n. 119, col. 753. Aliás, ao censurar os hereges por ensinarem, sob a inspiração do demônio, a impiedade e a blasfêmia, e por seguirem a doutrina do homem cujo nome trazem, em vez de se submeterem à de Jesus Cristo, Justino deixa entender bastante claramente que existe uma autoridade divinamente instituída contra a qual os hereges se insurgem. Apol., I, 26, col. 368 sq.; Dial. cum Tryph., n. 35, col. 552. Está-se autorizado a crer que é também esse o pensamento dominante de uma obra perdida, que o apologista cristão diz ele mesmo ter composto contra todas as heresias: ἔστι δὲ ἡμῖν καὶ σύνταγμα κατὰ πασῶν τῶν γεγενημένων αἱρέσεων συντεταγμένον· ᾧ εἰ βούλεσθε ἐντυχεῖν, δώσομεν, Apol., I, n. 26, col. 369, e à qual Santo Ireneu, Cont. her., l. IV, c. VI, n. 2, P. G., t. VII, col. 987, e Tertuliano, Adv. valentinianos, c. V, P. L., t. II, col. 547, parecem aludir, quando citam São Justino contra as heresias de seu tempo.

4. De São Justino a Santo Ireneu, encontram-se ainda alguns testemunhos bastante explícitos. São Policarpo de Esmirna, na única carta que dele nos resta, fala como Inácio de Antioquia. Exige que os filipenses se submetam aos πρεσβύτεροι e aos diáconos como a Deus e a Cristo, ὑποτασσομένους τοῖς πρεσβυτέροις καὶ διακόνοις ὡς θεῷ καὶ Χριστῷ. Ad Phil., V, 2, Patres apostolici de Funk, 2e édit., Tubingue, 1901, t. 1, p. 302. Deve-se servir a Jesus Cristo com temor e respeito, como ele mesmo nos ordenou e como nos ordenaram os apóstolos que anunciaram o evangelho. Ad Phil., V, 3, p. 304. Deve-se também abandonar as falsas doutrinas e voltar ao ensinamento que nos foi dado desde o princípio: διὸ ἀπολιπόντες τὴν ματαιότητα τῶν πολλῶν καὶ τὰς ψευδοδιδασκαλίας ἐπὶ τὸν ἐξ ἀρχῆς ἡμῖν παραδοθέντα λόγον ἐπιστρέψωμεν, VII, 2, p. 304. Os que ensinam de modo diferente são chamados falsos irmãos que trazem hipocritamente o nome do Senhor, VI, 3, p. 304. Aquele que deturpa as palavras do Senhor ao gosto de seus desejos e nega a ressurreição e o juízo, é o primogênito de Satanás, VII, 1, p. 304. Papias (+ 150), em sua Exegese dos logia do Senhor, da qual Eusébio nos conservou alguns fragmentos, atesta que a regra que segue para julgar o ensinamento dado é o ensinamento dos antigos que referem os preceitos dados pelo próprio Senhor (Eusébio, H. E., l. III, c. XXXIX, 3, 4, P. G., t. XX, col. 297 sq.); em outros termos, dá a tradição proveniente dos apóstolos como regra da fé. Papiæ fragmenta, n. 7, 14, Patres apostolici de Funk, 2e édit., Tubingue, 1901, t. 1, p. 354, 358. É também o método de Hegésipo (+ 180), segundo o que Eusébio nos conservou de seus escritos, l. IV, c. VIII, 22, col. 321, 377 sq. Por volta da mesma época, um fragmento de uma carta de São Dionísio de Corinto (+ 180), conservado por Eusébio e atestando a inesgotável caridade da Igreja romana para com todas as Igrejas que estão em necessidade, Eusébio, H. E., l. IV, c. XXIII, P. G., t. XX, col. 386, mostra bastante claramente a preeminência toda especial dessa Igreja. Uma prova não menos manifesta em favor dessa mesma preeminência é fornecida pela inscrição de Abércio, do começo do século III, segundo muitos críticos. Ver t. I, col. 61 sq., e o artigo Abercius, no Dictionnaire d'archéologie chrétienne de dom Cabrol, t. I, col. 83; Batiffol, L'Église naissante et le catholicisme, Paris, 1889, p. 221.

5. Santo Ireneu (+ 202), em seu Contra hereses, dirigido sobretudo contra os gnósticos de seu tempo, insiste principalmente em duas características da verdadeira Igreja de Jesus Cristo:

a) Só a Igreja possui a verdade integral e a possui de maneira constante; prega-a incessantemente, e é somente a ela que se deve pedi-la. Contra her., l. III, c. II, n. 3; c. IV, n. 1; l. IV, c. XXVI, n. 5; l. V, c. XX, n. 4, P. G., t. VII, col. 851, 855, 966, 1056, 1177.

b) Só a Igreja possui também a dupla apostolicidade de missão e de doutrina, marca certa de sua instituição divina e da verdade de sua doutrina. Contra her., l. III, c. III, n. 4 sq.; l. IV, c. XXVI, n. 5; c. XXXIII, n. 8, col. 848 sq., 1056, 1077. É aliás sobre esse sólido fundamento da apostolicidade que o bispo de Lyon apoia o argumento de tradição ou de prescrição, por ele inaugurado, Contra her., l. III, préf. et c. I-V, col. 843 sq., e tão eficazmente utilizado em seguida por Tertuliano em todo o seu livro De prescriptionibus, e pelo conjunto dos Padres e dos teólogos subsequentes. Essas duas características da verdadeira Igreja implicam necessariamente uma autoridade doutrinal divinamente estabelecida, para ensinar infalivelmente e manter em toda a sua integridade a doutrina revelada por Jesus Cristo, e ao mesmo tempo uma autoridade remontando até os próprios apóstolos enviados por Jesus Cristo. É ainda isso que confirma a doutrina do bispo de Lyon sobre a heresia. Visto que o crime de heresia consiste em rejeitar a autoridade da Igreja, acusando-a de erro ou de incompetência, e que, agindo assim, torna-se culpado de blasfêmia por atacar o próprio Deus, Cont. her., l. III, c. XXIV, n. 2; l. V, c. XX, n. 2, col. 967, 1177 sq., é manifesto que há realmente uma autoridade divinamente estabelecida e constantemente existente, à qual se deve submeter-se efetivamente. Essa autoridade, Santo Ireneu a mostra principalmente na Igreja romana, na qual a tradição apostólica sempre se conservou integralmente e com a qual todas as outras Igrejas devem positivamente concordar. Contra her., l. III, c. III, n. 2, col. 849. Ver PAPA.

2° Segundo período, do fim do século II ao começo do século IV. — 1. Tertuliano (+ 243), em sua obra De prescriptionibus, composta por volta do ano 200 contra os gnósticos daquela época, insiste principalmente na autoridade da tradição viva na Igreja. Essa tradição é o ensinamento unânime das Igrejas fundadas pelos apóstolos, e que possuem em toda a sua integridade a doutrina pregada pelos apóstolos e por eles recebida do próprio Jesus Cristo. De praescript., c. XXI, XXVIII, XXXI sq., XXXVII, P. L., t. II, col. 38, 40, 44 sq., 50 sq. Esse ensinamento é uma regra de fé muito segura por causa da assistência do Espírito Santo prometida por Jesus Cristo: Age nunc, omnes erraverint; deceptus sit Apostolus de testimonio reddendo quibusdam; nullam respexerit Spiritus Sanctus uti eam in veritatem deduceret, Joa., XIV, 26, ad hoc missus a Christo, ad hoc postulatus de Patre, ut esset doctor veritatis, Joa., XV, 26; neglexerit officium Dei villicus, Christi vicarius, sinens Ecclesiam aliter interim intelligere, aliter interim credere, quam ipse per apostolos prædicabat: ecquid verisimile est ut tot ac tantæ in unam fidem erraverint? c. XXVIII, col. 40. Aliás, Tertuliano denuncia vigorosamente as heresias e os hereges. Os hereges não podem ser cristãos, pois têm suas doutrinas não de Jesus Cristo, mas de sua própria escolha e dos chefes que a si mesmos deram.

Eles são deserdados e repudiados pelos apóstolos como estranhos e inimigos, por causa da oposição entre sua doutrina e a dos apóstolos, c. xxxvii, col. 51. A heresia vem do demônio, cujo papel é opor-se à verdade e imitar, nos mistérios dos ídolos, os divinos mistérios da religião, c. xl, col. 54 sq. As heresias não têm outra unidade senão o cisma. Se as examinarmos de perto, constatamos que estão em divergência com seus próprios autores em muitos pontos. Os hereges não têm igreja constituída: plerique nec ecclesias habent, sine matre, sine sede, orbi fide, extorres, sine lare vagantur, c. xl, col. 58. Desse duplo ensinamento de Tertuliano resulta necessariamente a afirmação de alguma autoridade doutrinal divinamente instituída, que sozinha pode assegurar na Igreja a manutenção íntegra da doutrina de Jesus Cristo e dos apóstolos, autoridade cuja violação constitui verdadeiramente o pecado de heresia. Aliás, Tertuliano menciona várias vezes, de modo bastante explícito, o conceito da Igreja universal, esposa de Jesus Cristo, Contra Marcion., l. IV, c. xi, P. L., t. ii, col. 382; l. V, c. xi, col. 502, e mãe de todos os fiéis, como Deus é seu pai, Ad mart., c. 1, P. L., t. 1, col. 621; De orat., c. ii, col. 1150; De spectaculis, c. xxv, col. 657; De pudicitia, c. i, col. 981; c. vi, col. 990; c. xviii, col. 1018; c. xxi, col. 1026 sq.; De monogamia, c. vii, col. 939; Igreja certamente una em sua doutrina, que ela recebe de Jesus Cristo e guarda integralmente, una também em sua autoridade, exercida em virtude da missão transmitida pelos apóstolos, que eles mesmos haviam recebido de Jesus Cristo, De prescript., c. xxxvii, P. L., t. ii, col. 50 sq.; una sobretudo em virtude do primado da Igreja Romana, que é claramente indicado, c. xxxvi, col. 49. Igreja, enfim, que, por seu título de católica, se distingue de todas as seitas heréticas, sempre particularistas, c. xxxvi, xxx, col. 38, 42.

2. Clemente de Alexandria, nas obras que dele nos restaram, indica, ao menos de maneira incidental, o verdadeiro conceito da Igreja. Como há apenas um só Verbo, ὁ τῶν ὅλων Λόγος, e apenas um só Espírito Santo, que está em toda parte, há apenas uma só Igreja, ao mesmo tempo mãe e virgem, Paed., l. I, c. vi, P. G., t. viii, col. 299. A Igreja é comparada a uma cidade regida pelo Logos. Strom., IV, c. xxvi, col. 1381. É sobretudo na denúncia das heresias que Clemente mostra a ideia que faz da Igreja. As heresias abandonam a Igreja que existe desde o princípio, τὴν ἐξ ἀρχῆς ἀπολείπουσαι Ἐκκλησίαν. Strom., I, c. xix, col. 812. Semelhantes ao adultério, elas fazem com que, por uma verdadeira apostasia, alguém se afaste de Deus, que é o único esposo da Igreja. Strom., III, c. xii, col. 1180. O nome de heresia significa necessariamente oposição à verdade. Strom., VII, c. xv, P. G., t. ix, col. 528. Os que abraçam as opiniões das heresias humanas repudiam a tradição eclesiástica e deixam de ser homens de Deus e fiéis ao Senhor. Strom., VII, c. xvii, col. 532. Por isso, o catequista de Alexandria exige do verdadeiro gnóstico que guarde τὴν ἀποστολικὴν καὶ ἐκκλησιαστικὴν ὀρθοτομίαν τῶν δογμάτων, Strom., VII, c. xvi, col. 544, e não admite como gnose verdadeira senão a gnose que ele chama ἐκκλησιαστικὴ γνῶσις, col. 536. Não há senão uma só Igreja verdadeira, aquela que é verdadeiramente antiga e que é ao mesmo tempo católica, e cuja unidade as heresias se esforçam por rasgar. Strom., VII, c. xvi, col. 552.

3. Orígenes († 254) insiste particularmente sobre o ensinamento eclesiástico dado pelos apóstolos e que persevera nas Igrejas até o momento presente pela sucessão dos bispos: ecclesiastica praedicatio per successionis ordinem ab apostolis tradita et usque ad praesens in ecclesiis permanens. De princip., l. I, praef., n. 2, P. G., t. xi, col. 446. Esse ensinamento deve ser a regra da fé: illa sola credenda est veritas quae in nullo ab ecclesiastica et apostolica discordat traditione. Loc. cit. Por isso, não se deve crer nos hereges nem separar-se da tradição eclesiástica. Sed nos illis credere non debemus nec exire a prima et ecclesiastica traditione, nec aliter credere nisi quemadmodum per successionem Ecclesiae Dei tradiderunt nobis. In Matth., commentariorum series, n. 46, P. G., t. xiii, col. 1667. É da Igreja somente que proveio a verdadeira verdade de Deus, que se difundiu por toda a terra, col. 1668. A Igreja do Deus vivo tem a verdade do Verbo por baluarte. In Jer., homil. v, n. 16, col. 319. Ao mesmo tempo, Orígenes reprova energicamente as heresias e os hereges. Toda doutrina herética é comparável a uma moeda falsa: Ego puto quod Valentini sermo humana pecunia est et reproba; et omnium haereticorum sermo non est probata pecunia, nec dominicam integre in se habet figuram, sed adulteram quae, ut ita dicam, extra monetam ita figurata est, quia extra Ecclesiam composita est. In Ps. xxxvi, homil. iii, n. 14, P. G., t. xii, col. 1384. Enquanto os mestres que estão na Igreja edificam a casa de Deus que é a Igreja, os hereges constroem por toda parte casas de devassidão: haeretici aedificant lupanar in omni via; ut puta magister de officina Valentini, magister de coetu Basilidis, magister de tabernaculo Marcionis et ceterorum haereticorum aedificant meretrici domum. In Ezech., homil. vii, n. 2, P. G., t. xiii, col. 721. Enquanto os que ensinam segundo a Igreja são profetas de Jesus Cristo, os pregadores de cada uma das heresias são profetas de mentira e profetas do Anticristo. In Matth., commentar. series, n. 47, col. 1669. De todo esse ensinamento de Orígenes resulta evidentemente a existência de uma autoridade divinamente instituída, contra a qual é criminoso insurgir-se. É ainda o que supõe manifestamente a doutrina formal do catequista de Alexandria sobre a necessidade de pertencer à Igreja para obter a salvação: Nemo ergo sibi persuadeat, nemo semetipsum decipiat: extra hanc domum id est extra Ecclesiam, nemo salvatur. In librum Jesu Nave, homil. iii, n. 5, P. G., t. xii, col. 841 sq.

4. Santo Cipriano (†258), por seu ensinamento preciso sobre as heresias e sobre os cismas, deixa entender não menos claramente a existência de uma autoridade divina na Igreja: Hanc Ecclesiae unitatem qui non tenet, tenere se fidem credit? Qui Ecclesiae renititur et resistit, qui cathedram Petri super quem fundata est Ecclesia deserit, in Ecclesia se esse confidit? De unitate Ecclesiae, iv, P. L., t. iv, col. 500 sq. Quisquis ab Ecclesia segregatus, adulterae jungitur, a promissis Ecclesiae separatur; nec perveniet ad Christi praemia qui relinquit Ecclesiam Christi. Alienus est, profanus est, hostis est. Habere jam non potest Deum patrem, qui Ecclesiam non habet matrem. Si potuit evadere quisquam qui extra arcam Noe fuit, et qui extra Ecclesiam foris fuerit evadit, col. 503. Aversandus est atque fugiendus quisquis fuerit ab Ecclesia separatus. Perversus est hujusmodi et peccat et est a semetipso damnatus, col. 513. A mesma doutrina é expressa em várias de suas epístolas, Epist. lix, n. 4, col. 1205; l. lxix, n. 2 sq., col. 1049 sq. Essa autoridade divina que existe na Igreja, o bispo de Cartago a considera principalmente em cada bispo governando sua Igreja particular e no conjunto dos bispos de todas essas Igrejas, Epist. lix, n. 14, col. 1228; lxvi, n. 8, col. 1414. Embora os bispos sejam mencionados como iguais em poder e em dignidade, De unitate Ecclesiae, iv sq., P. L., t. iv, col. 499 sq., e que cada bispo seja considerado independente em sua própria esfera, Epist. lxvi, n. 8, col. 1414; lxxi, n. 2, col. 1429; é muito certo que todos os bispos formam um só corpo: episcopatus unus est, cujus a singulis in solidum pars tenetur, De unit. Eccl., v, P. L., t. iv, col. 501, e que a Igreja é una, de tal maneira que todos os que violam essa unidade se insurgem contra o próprio Deus. De unit. Eccl., iv sq., col. 500 sq.; Epist. lxix, n. 2 sq., col. 1049 sq. Por fim, o doutor africano afirma várias vezes a divina instituição do primado de Pedro e de seus sucessores, De habitu virginum, x, P. L., t. iv, col. 449; De unitate Ecclesiae, iv, P. L., t. iv, col. 500; Epist. xliii, n. 5, col. 556; lv, n. 14, col. 818 sq.; lxvi, n. 2 sq., col. 993 sq.; lxx, n. 3, col. 1050; lxxi, n. 3, col. 1074; lxxiii, n. 11, col. 1114, 1116; De exhortatione martyrii ad Fortunatum, xi, P. L., t. iv, col. 668. Todavia, a natureza do poder inerente a esse primado não é claramente precisada no conjunto dos escritos do bispo de Cartago. Ver CIPRIANO, t. III, col. 2468 sq. A esses testemunhos tão explícitos dos autores do século III em favor de uma autoridade divinamente instituída na Igreja, deve-se juntar os numerosos fatos que já atestam, nessa época, o exercício dessa autoridade, seja em matéria de doutrina, seja em matéria de disciplina. Em matéria de doutrina, é um fato constante que, durante esse período, mais manifestamente ainda do que nos dois primeiros séculos, todo aquele que, diante das heresias que assaltam a Igreja, não se submete plenamente ao ensinamento de Jesus Cristo e dos apóstolos, tal como é proposto pela Igreja, é rejeitado de seu seio, como rebelde a Deus e como discípulo do demônio e do Anticristo, como demonstram manifestamente todas as palavras anteriormente indicadas dos Padres e dos escritores eclesiásticos dos três primeiros séculos, palavras que não teriam sentido algum na hipótese protestante da ausência de toda autoridade divina na Igreja. Em matéria de disciplina, é um fato não menos constante que, diante dos diversos cismas ou das revoltas mais ou menos graves contra a autoridade eclesiástica, todos os que se insurgem contra a autoridade legítima dos sucessores dos apóstolos ou contra a do pontífice romano, ou que se associam a semelhantes rebeliões, são igualmente considerados infiéis a Deus e a seu Cristo, e tidos como decaídos de todos os seus direitos de cristãos, como demonstram os textos anteriormente citados.

3º Terceiro período, desde o início do século IV até o início do século V. — Durante esse período, em que as controvérsias principais gravitam em torno da consubstancialidade do Verbo e de sua encarnação, a ocasião se apresenta raramente para expor diretamente o conceito da Igreja, exceto, no entanto, a catequese xviii de são Cirilo de Jerusalém, P. G., t. xxxiii, col. 1044 sq., a obra de santo Optato, De schismate donatistarum, e os escritos de santo Agostinho contra os donatistas.

1. É sobretudo por fatos muito numerosos e muito evidentes que se manifesta, ainda mais do que na época precedente, a crença numa autoridade divinamente estabelecida na Igreja. Todos esses fatos se resumem nesta lei universal e indiscutível: todo aquele que não se submete à autoridade divinamente estabelecida na Igreja é considerado rebelde a Deus e excluído de toda participação na salvação eterna ou na felicidade do céu. É o que atestam os numerosos concílios realizados nessa época, lançando anátema, isto é, exclusão da Igreja, acarretando a privação de todo direito à herança eterna, contra todos os que rejeitavam com obstinação o ensinamento proposto pela Igreja como divinamente revelado e imposto como tal à aceitação de todos os fiéis. É também o que atestam as catequeses dessa época, indicando aos fiéis o ensinamento que deviam professar, tanto quanto podemos julgar pelas catequeses de são Cirilo de Jerusalém, pedindo aos fiéis que fugissem das abomináveis reuniões dos marcionitas e dos maniqueus, e que aderissem sempre à santa Igreja católica, na qual haviam recebido um novo nascimento; Igreja que, sozinha em todo o universo, detém de Deus todo poder, e na qual obteremos a herança do reino eterno. Cat., xviii, n. 26 sq., P. G., t. xxxiii, col. 1047, 1049; Cat., vi, n. 36, col. 601 sq. É ainda o que atestam os testemunhos formais dos Padres dessa época, afirmando que os hereges, rejeitando a doutrina ensinada pela Igreja, deixam de ser cristãos e que não se deve ter comunhão alguma com eles. S. Atanásio, Orat., I, contra arianos, n. 4 sq.; Orat., iii, n. 28, P. G., t. xxvi, col. 13 sq., 384; Epist. ad Epictetum, n. 8, col. 1056; Epist. ad monachos, col. 1188; que os hereges, pelo próprio fato de sua heresia, se separam da Igreja, S. Hilário, De Trinitate, l. VII, n. 4, P. L., t. x, col. 202; e que as igrejas dos hereges são rejeitadas como estranhas por Jesus Cristo, que é sponsus unius Ecclesiae. S. Optato, De schismate donatistarum, l. I, c. x, P. L., t. xi, col. 900.

2. A esses fatos assim interpretados, deve-se juntar os testemunhos dos principais defensores da verdade católica contra os hereges dessa época. Santo Atanásio, ao refutar os arianos, indica, ao menos incidentalmente, as principais notas da Igreja: sua unidade, Tomus ad Antiochenos, n. 8; Epist. heort., v, n. 4, P. G., t. xxvi, col. 806, 1373; a apostolicidade e a catolicidade de sua doutrina. Epist. ad Epictetum, n. 3, col. 1056. Santo Hilário, ao mesmo tempo que mostra a Igreja como esposa de Jesus Cristo, In ps. cxxvii, n. 8, P. L., t. ix, col. 708, e corpo de Jesus Cristo, In ps. cxxiv, n. 5; cxxv, n. 5; cxxviii, n. 24, col. 688, 715, 742 sq.; Comment. in Matth., xvii, n. 8, col. 1014; e que afirma sua unidade, In ps. xiv, n. 3; cxxi, n. 5; cxxxi, n. 14, col. 301, 662, 736, insiste frequentemente, contra os hereges, sobre a necessidade de não se separar do corpo dessa Igreja, se se quiser obter a salvação. In ps. xiv, n. 4; cxviii, lit. xv, n. 5; cxxi, n. 5; cxxxiv, n. 8, col. 302, 607, 663, 751; Comment. in Matth., vii, n. 10, col. 957. Contra os donatistas, que à autoridade da Igreja católica queriam substituir sua igreja particular, santo Optato mostra os direitos exclusivos da Igreja católica, que é a única esposa de Jesus Cristo. De schismate donatistarum, l. II, n. 4, P. L., t. xi, col. 941. Somente ela está difundida por todo o universo, como deve estar a verdadeira Igreja, segundo as promessas universais de Deus para a nova aliança, col. 942 sq. Somente ela possui as cinco propriedades distintivas da verdadeira Igreja: cathedra, angelus, Spiritus, fons, sigillum, l. II, n. 2 sq., col. 944.

946 sq., isto é, a) a cátedra de Pedro, in qua sederit omnium apostolorum caput Petrus, unde et Cephas appellatus est, in qua una cathedra unitas ab omnibus servaretur, ne ceteri apostoli singulas sibi quisque defenderent, ut jam schismaticus et peccator esset, qui contra singularem cathedram alteram collocaret, col. 947; b) bispos dotados de poder legítimo na Igreja; c) o Espírito Santo, que dá à Igreja filhos adotivos de Deus; d) a verdadeira fonte, que o bispo de Mileve associa ao selo íntegro, sem dar da primeira uma noção precisa: nam et fontem constat unam esse de dolibus, unde haeretici non possunt vel ipsi bibere, vel alios potare; quia solum sigillum integrum, id est symbolum catholicum, non habentes, ad fontem verum aperire non possunt, col. 961. Um pouco mais adiante, o doutor africano observa que as quatro últimas propriedades que atribui à Igreja decorrem da primeira, que é a cátedra de Pedro, col. 962. Ao mesmo tempo que santo Optato prova a verdade da Igreja católica, mostra que as igrejas particulares são privadas de todo direito, que são rejeitadas como estranhas por Jesus Cristo, esposo da Igreja única, e que não possuem nenhuma das propriedades que distinguem a verdadeira Igreja, l. I, n. 10, 12; l. II, n. 9 sq., col. 900, 906 sq., 962 sq.

Uma vez que encerramos nossas pesquisas ao final do século IV, não tentaremos mostrar como santo Agostinho, diante desse mesmo erro dos donatistas, deu um ensinamento bem mais preciso e mais completo sobre a constituição divina da Igreja, sobre sua dupla autoridade doutrinal e legislativa e sobre seu poder santificador exercido pelos sacramentos. Teremos aliás em breve a ocasião de expor em detalhe todo esse ensinamento do santo doutor, ao estudar especialmente cada um dos dogmas que dizem respeito à constituição da Igreja e às suas divinas prerrogativas.

Ao encerrar, no final do século IV, nosso estudo apologético sobre o conceito da autoridade da Igreja na tradição cristã, resumamos brevemente o resultado de nossa investigação: 1. Do ponto de vista doutrinal, os testemunhos que possuímos desses quatro primeiros séculos afirmam, de maneira mais ou menos explícita, à medida que a organização da Igreja se desenvolve, estas três verdades: a) A existência de uma autoridade estabelecida pelos apóstolos, segundo instituição divina, e à qual se deve obediência em virtude da instituição divina. A natureza dessa autoridade, bem como as divinas prerrogativas que dela decorrem, são mais explicitamente afirmadas a partir de santo Cipriano, mas já estão bastante manifestamente contidas nos textos anteriores. — b) A apostolicidade de doutrina e de missão, bem como a unidade que dela é consequência necessária, ensinadas de modo muito explícito por santo Irineu e Tertuliano e já indicadas anteriormente nas cartas de santo Inácio, continuam a ser habitualmente invocadas nos séculos seguintes contra as diversas heresias, para convencê-las de mentira e de oposição à palavra de Deus. — c) O primado da Igreja Romana ou do pontífice romano, já indicado nos escritos apostólicos e mais claramente afirmado por santo Irineu, Tertuliano e santo Cipriano, é, no século IV, objeto de um ensinamento mais preciso. Essas três verdades continuam, aliás, a receber, no decorrer dos séculos, desde essa época até nossos dias, um considerável aperfeiçoamento dogmático, por ocasião das heresias ou dos cismas e sob a influência do trabalho teológico, auxiliado pela direção do magistério eclesiástico.

2. Do ponto de vista histórico, todo um conjunto de fatos rigorosamente constatados durante todo esse período testemunha a crença cristã universal e constante numa autoridade divinamente estabelecida, à qual se deve plena submissão em matéria de doutrina e em matéria de disciplina. Fatos que, aliás, se manifestam com evidência sempre crescente, à medida que aparece cada vez mais o desenvolvimento normal dessa autoridade divinamente instituída.

IV. NOTAS CARACTERÍSTICAS DA VERDADEIRA IGREJA, RESULTANTES DE SEU CONCEITO NEOTESTAMENTÁRIO E TRADICIONAL.

1º De direito, a existência de notas características, que distinguem infalivelmente a Igreja estabelecida por Jesus Cristo, é uma consequência necessária de sua divina instituição. Uma vez que ela deve continuar, para todos os fiéis, até o fim dos tempos, a obra de Jesus Cristo, ensinando sua doutrina, administrando seus sacramentos e governando com sua autoridade, e que todos devem necessariamente submeter-se ao seu ensinamento e à sua direção, é indispensável que ela seja facilmente discernível para todos. Para que esse objetivo seja alcançado, é preciso que a Igreja possua propriedades que lhe pertençam exclusivamente e sejam fáceis de constatar, que a distingam infalivelmente de qualquer outra sociedade religiosa. Ora, são essas propriedades bem manifestas e de constatação fácil e segura que constituem as notas positivas da Igreja, porque, sendo mais conhecidas do que a Igreja, conduzem efetivamente ao seu conhecimento.

2º De fato, a existência de notas características da verdadeira Igreja resulta manifestamente do ensinamento tradicional em todos os séculos. Estando esse ensinamento exposto em detalhe, para cada uma das notas da Igreja, nos artigos especiais, bastar-nos-á dar aqui uma síntese rápida. a) Entre os escritos que nos restam dos três primeiros séculos, os que são particularmente dirigidos contra os hereges insistem particularmente na apostolicidade e na unidade que caracterizam a Igreja de Jesus Cristo. Limitar-nos-emos a assinalar brevemente as conclusões que se depreendem dos textos anteriormente citados. A apostolicidade de doutrina e de missão, indicada por são Justino, Apol., I, 23, 61, 65, 66, 67, P. G., t. VI, col. 364, 420, 428, 432; Dial. cum Tryph., n. 119, col. 753, é particularmente destacada por santo Irineu, Cont. hær., l. III, c. III, n. 4 sq.; l. IV, c. XXVI, n. 5; c. XXIII, n. 8, col. 848 sq., 1056, 1077, e por Tertuliano, De præscript., c. XXI, XXVIII, XXXII sq., XXXVIII, P. L., t. II, col. 33, 40, 44 sq., 50 sq. É também mencionada por Clemente de Alexandria, Strom., VII, 17, P. G., t. IX, col. 549, e por Orígenes, De princ., l. I, præf., n. 2, P. G., t. XI, col. 116. Ao mesmo tempo, encontra-se frequentemente nesses autores a reivindicação geral da unidade da Igreja. S. Clemente papa, I Cor., XLVI, 6, in Patres apostolici, 2ª ed., Tubinga, 1901, t. I, p. 158; S. Inácio, Ad Philad., 2, p. 246; Ad Smyrn., 8, p. 276, 282; S. Justino, Dial. cum Tryph., n. 63, P. G., t. VI, col. 624; Clemente de Alexandria, Pæd., III, 12, P. G., t. VIII, col. 677; Strom., VII, 17, col. 549; S. Cipriano, De unitate Ecclesiæ, IV sq., col. 500 sq.; Epist., XLIII, n. 1 sq., col. 586; XLV, n. 2, col. 600; XLVIII, n. 3, col. 614; LV, n. 8, col. 640; ou a reivindicação particular da unidade de doutrina certamente existente na Igreja, porque a doutrina revelada por Jesus Cristo e pregada pelos apóstolos nela se conserva sempre a mesma. S. Irineu, Cont. hær., l. III, c. III, n. 1 sq.; IV, c. XXVI, n. 2; c. XXXIII, n. 7 sq., P. G., t. VII, col. 848, 1056, 1077; Tertuliano, De præscript., c. XXVIII, XXXII, XXXVIII, P. L., t. II, col. 40, 45, 50 sq. b) Do século IV ao XVI, após a primeira menção oficial das quatro notas de unidade, de santidade, de catolicidade e de apostolicidade, feita pelo concílio de Constantinopla em 381, εἰς μίαν ἁγίαν, καθολικὴν καὶ ἀποστολικὴν ἐκκλησίαν, Denzinger-Bannwart, Enchiridion, n. 86, essas quatro notas se encontram habitualmente nos símbolos e nas profissões de fé; mas não se encontram, ao menos coletivamente, nos Padres ou nos teólogos subsequentes. Santo Optato, em seu De schismate donatistarum, como já notamos anteriormente, enumera cinco notas distintivas da verdadeira Igreja, cathedra, angelus, Spiritus, fons, sigillum, insistindo principalmente na catolicidade que deve possuir a Igreja estabelecida por Jesus Cristo. Santo Agostinho, sem dar enumeração das notas características da verdadeira Igreja, põe particularmente em relevo sua catolicidade e sua santidade, especialmente atacadas ou mal compreendidas pelos donatistas. Ver AGOSTINHO, t. I, col. 2410. Do século V ao X, fora do texto comumente usado do símbolo de Constantinopla, não se encontra, entre os escritores eclesiásticos ou entre os teólogos, nenhuma afirmação explícita das notas características da verdadeira Igreja, provavelmente porque nenhuma necessidade se apresentava de expor sobre esse ponto a demonstração católica. No século XIII, santo Tomás, em seu opúsculo De symbolo apostolorum, conta quatuor conditiones, que, segundo toda a sua exposição, são antes propriedades da Igreja do que notas que a distinguem das comunhões rivais: Hæc autem Ecclesia sancta habet quatuor conditiones, quia est una, quia est sancta, quia est catholica id est universalis, et quia est fortis et firma. Embora o santo doutor observe de passagem que só a Igreja católica possui a unidade, e que só ela foi sempre firme na fé, ele apresenta principalmente essas quatro condições da Igreja como qualidades que decorrem evidentemente de sua divina constituição, sem fazer disso a aplicação ex professo à demonstração católica. Quanto ao sentido que ele atribui a fortis et firma, na realidade, é o de apostolicidade e de indefectibilidade. A Igreja é firme, porque repousa sobre Jesus Cristo como fundamento principal e sobre os apóstolos como fundamento secundário, e é por esta última razão que a Igreja é dita apostólica: et inde est quod dicitur Ecclesia apostolica. A Igreja é ainda firme neste sentido, que não pode ser destruída, nem pelas perseguições, que antes lhe deram crescimento, nem pelos erros, que sempre serviram para melhor manifestar a verdade, nem pelas tentações dos demônios, pois, segundo a promessa de Jesus Cristo, as potências do inferno jamais prevalecerão contra a Igreja. Matth., XVI, 18. Por isso, a Igreja de Pedro sempre foi a única firme na fé. No século XV, diante dos erros de Wicleff e de João Huss sobre o conceito da Igreja, Turrecremata (†1468), depois de estabelecer a verdadeira noção da Igreja, que não é composta apenas dos predestinados, nem apenas dos membros unidos a Jesus Cristo pela caridade, mas que compreende todos os fiéis que possuem a fé católica íntegra e não estão separados da Igreja pela censura de seu pastor, Summa de Ecclesia, Roma, 1489, sem paginação, l. I, c. 1 sq., trata em detalhe da unidade, l. I, c. VI sq., da santidade, l. I, c. IX sq., da catolicidade, c. XIV sq., da apostolicidade, c. XVI sq., e da indefectibilidade da Igreja, c. XXVIII sq., e de seu título de esposa de Jesus Cristo, c. XXXVIII sq., sem dar uma síntese do conjunto das notas distintivas da verdadeira Igreja. c) No século XVI, as novas afirmações dos protestantes atraem particularmente a atenção para a questão das notas características da Igreja verdadeira. Lutero, identificando a Igreja com a comunhão dos santos mencionada no símbolo, e não exigindo outra condição para a ela pertencer senão a fé ou a confiança na não imputação dos pecados devida à mediação de Jesus Cristo e manifestada ou excitada pelos sacramentos, dá consequentemente como únicas notas características da Igreja verdadeira a pregação do puro Evangelho e a boa administração dos sacramentos. Realencyklopädie für protestantische Theologie und Kirche, art. Kirche, 3ª ed., Leipzig, 1901, t. X, p. 336 sq. Calvino e seus discípulos admitem as duas mesmas notas que Lutero, ao menos para a Igreja visível, Calvino, Institution de la religion chrétienne, l. IV, c. 1, n. 9 sq., Genebra, 1566, p. 693 sq.; Realencyklopädie, loc. cit., p. 339 sq., pois, segundo eles, a Igreja invisível, que é a principal, é composta apenas dos predestinados, segundo o sistema de Wicleff e de João Huss. Os teólogos católicos rejeitaram unanimemente essas notas, que não podem provar a verdadeira Igreja, uma vez que são menos conhecidas do que ela. Aliás, elas não provam necessariamente, por si mesmas, o direito exclusivo ao título de verdadeira Igreja. Por fim, elas supõem o conhecimento prévio da verdadeira Igreja, único juiz autêntico da pregação do puro Evangelho e única depositária legítima dos verdadeiros sacramentos. Gregório de Valência, Analysis fidei catholicæ, Ingolstadt, 1585, p. 152 sq.; Belarmino, De Ecclesia, l. IV, c. 1; Suárez, De fide, disp. IX, sect. IV. Todavia, em suas reivindicações positivas, os teólogos católicos, ao menos desde o início, não tiveram a mesma unanimidade. Melchior Cano (†1560), em sua célebre obra De locis theologicis, que abriu o caminho aos teólogos dos séculos seguintes para o estudo do tratado da Igreja, apenas indicou as quatro notas tradicionais, De locis theologicis, l. IV, c. VI, Veneza, 1759, p. 117. Stapleton (†1598) indica três propriedades da verdadeira Igreja cristã, pelas quais se a distingue de toda falsa Igreja dos hereges e dos cismáticos: a universalidade, a visibilidade e a perpetuidade. Principiorum fidei doctrinalium demonstratio methodica, l. V, prooem., Paris, 1582, p. 102. Mas, na realidade, ele estima que todas as propriedades da Igreja estão compreendidas na catolicidade ou universalidade de lugar e de duração, e que é por essa catolicidade que a verdadeira Igreja se distingue das falsas comunhões heréticas, l. IV, c. II, p. 103 sq. Que a dupla catolicidade de lugar e de duração contenha necessariamente a unidade e a apostolicidade é, para o controversista inglês, uma conclusão evidente. Pois, se houvesse falta de unidade na fé ou na obediência, haveria na realidade várias Igrejas distintas segundo os lugares ou segundo os tempos, não haveria mais Igreja verdadeiramente católica, l. IV, c. IV, p. 110 sq. Do mesmo modo, pelo fato de a Igreja ter a dupla catolicidade dos lugares e dos tempos, ela é a Igreja apostólica que os apóstolos propagaram por toda a terra e que, desde eles, se conservou sempre a mesma, l. IV, c. V, p. 111 sq. Assim, segundo Stapleton, todas as marcas distintivas da verdadeira Igreja se resumem realmente na catolicidade. Báñez (†1604) enumera cinco propriedades da Igreja, a unidade, a catolicidade, a santidade, a apostolicidade e a visibilidade, mas sem fazer disso nenhuma aplicação à questão particular das notas distintivas da verdadeira Igreja. In IIa IIae, q. 1, a. 10, Veneza, 1602, col. 99 sq.

Gregório de Valência (†1603), depois de enumerar oito propriedades da Igreja — a unidade, a santidade, a catolicidade, a apostolicidade, recta ordinatio, a visibilidade, a indefectibilidade na fé e a necessidade para a salvação, Analysis fidei catholicæ, Ingolstadt, 1585, p. 128 sq. —, retém seis que atribui como notas distintivas da verdadeira Igreja, porque são mais conhecidas do que a verdadeira Igreja, porque convêm todas a essa Igreja e porque, ao menos em seu conjunto, convêm unicamente a ela, p. 174 sq. Belarmino (†1621) enumera quinze notas que, diz ele, podem reduzir-se às quatro notas, quæ communiter a recentioribus assignantur ex symbolo Constantinopolitano, a unidade, a santidade, a catolicidade e a apostolicidade. Controv. de Ecclesia, l. IV, c. 11. Essas quinze notas são: a catolicidade, a antiguidade, uma longa e constante duração, a extensão em todos os lugares e em todos os tempos, a apostolicidade, o acordo doutrinal com a Igreja dos primeiros tempos, a união dos membros dessa Igreja entre si e com seu chefe, a santidade da doutrina, a eficácia dessa doutrina para a conversão das almas, a santidade de vida de seus autores ou dos primeiros Padres de nossa religião, a glória dos milagres atestando o testemunho de Deus em favor dessa religião, o dom de profecia indicando igualmente o favor de Deus sobre ela, as confissões dos adversários, o fim infeliz dos inimigos da Igreja e a felicidade temporal concedida por Deus a seus defensores, l. IV, c. IV-XVIII. Suárez (†1617), depois de afirmar que as quatro propriedades principais da Igreja são a unidade, a santidade, a apostolicidade e a catolicidade, De fide, disp. IX, sect. VII, n. 1, serve-se dessas quatro propriedades para provar que a Igreja Romana é a verdadeira Igreja, conforme o ensinamento cujos testemunhos ele indica, sect. IX, n. 5 sq. A essa demonstração Suárez acrescenta quatro outras provas que, pela maneira como são expostas, parecem ser principalmente provas complementares: a presença na Igreja de dons que atestam o favor de Deus, tais como o dom dos milagres e o de profecia; o excelente governo da Igreja resultante de sua perfeita constituição; o uso legítimo dos sacramentos, que deve sempre encontrar-se na verdadeira Igreja, ao menos no que diz respeito à sua substância e ao que é necessário para cumprir os preceitos divinos; enfim, o uso legítimo dos sacramentos que pertencem apenas à verdadeira Igreja e que são, só por ela, conservados em sua integridade, ao passo que os hereges os usurpam injustamente e os mutilam a seu bel-prazer, sect. IX, n. 5 sq. Os teólogos posteriores a Belarmino e a Suárez deixaram de lado o que era apenas complementar em sua demonstração e ativeram-se o mais habitualmente às quatro notas tradicionais, observando aliás que todas as outras notas por vezes atribuídas pelos apologistas católicos se reduzem verdadeiramente a estas. Gonet, Clypeus theologiæ thomisticæ, De fide, disp. III, a. 2, Antuérpia, 1744, t. IV, p. 238 sq.; Henno, Theologia dogmatica moralis et scolastica, De virtutibus, tr. II, disp. II, q. 11, a. 2, Veneza, 1719, t. I, p. 304 sq.; Tournely, Prælectiones theologicæ de Ecclesia Christi, q. II, a. 2, Paris, 1739, p. 87 sq.; Billuart, De regulis fidei, diss. III, a. 4; Gotti, Vera Ecclesia Christi, c. 1, n. 23 sq., Veneza, 1750, trad. latina do P. Covi, p. 4 sq. Ao mesmo tempo, deve-se notar que, desde o final do século XVII, após o aparecimento das duas obras de Jurieu sobre um novo sistema de unidade na Igreja, proveniente de uma vaga crença em alguns artigos fundamentais, ver t. I, col. 2027 sq., os apologistas católicos insistiram mais fortemente no conceito muito explícito da unidade, tal como é exigida na fé e na submissão à autoridade legítima, segundo a divina constituição da Igreja. No século XIX, as seitas protestantes assumem, sobre a questão das notas da Igreja, posições um pouco diferentes, conforme o conceito que fazem da Igreja. A maioria das seitas protestantes, inclinando-se para o racionalismo e rejeitando toda Igreja hierárquica divinamente instituída, não admitem na realidade, do ponto de vista da instituição divina, senão uma Igreja invisível, para a qual nem sequer se coloca a questão das notas distintivas. Quanto às seitas protestantes que admitem alguma instituição divina de uma Igreja hierárquica e que se esforçam por identificar, numa mesma Igreja católica universal, as três comunhões acidentalmente desunidas — a comunhão romana, as igrejas orientais e as comunidades protestantes —, elas procuram apoiar suas pretensões numa nova noção da unidade, modificando consequentemente a da apostolicidade e da catolicidade. Contra esses diversos adversários, os teólogos católicos, depois de terem demonstrado a existência de uma revelação sobrenatural e a divina instituição de uma autoridade encarregada de ensinar e interpretar essa revelação, insistem sobretudo no conceito da unidade da Igreja, tal como nos é manifestado pela Escritura e pela tradição cristã constante. Essa unidade, resultando necessariamente do primado do papa, tal como Jesus Cristo o instituiu, não consiste numa crença imprecisa em alguns artigos reputados fundamentais no cristianismo, nem numa autoridade vagamente definida na Igreja, nem tampouco num primado incompleto e inefetivo do papa, mas numa submissão integral ao magistério infalível da Igreja, particularmente à infalível autoridade do pontífice romano, em tudo o que ele define como ensinamento revelado ou como intimamente conexo com esse ensinamento. Do mesmo modo, a unidade de governo, tal como Jesus Cristo a quis, comporta uma obediência integral aos pastores legítimos, particularmente ao pontífice romano, em tudo o que releva da autoridade eclesiástica. Ver UNIDADE. Ao mesmo tempo em que os apologistas católicos insistem no verdadeiro conceito da unidade, tal como Leão XIII o definiu ulteriormente em sua encíclica Satis cognitum, de 29 de junho de 1896, eles se dedicam também a mostrar a noção verdadeira da apostolicidade e da catolicidade, decorrentes dessa unidade. Ver APOSTOLICIDADE e CATOLICIDADE. Estabelecidas bem essas noções, os apologistas católicos, apoiando-se no testemunho constante e universal da tradição cristã e na atestação não menos constante de toda a história da Igreja, mostram que só a Igreja católica romana sempre possuiu essas quatro notas e que só ela as possui de direito e de fato, estando as comunidades protestantes e as igrejas orientais cismáticas com razão excluídas de todo título legítimo a essa posse, como o provam manifestamente todos os argumentos citados em detalhe em cada um dos artigos especiais.

V. CONFIRMAÇÃO DA VERDADE DA IGREJA CATÓLICA, DEDUZIDA DO FATO DE SUA EXISTÊNCIA CONSIDERADA EM TODAS AS SUAS CIRCUNSTÂNCIAS CONCRETAS DURANTE TODO O DECURSO DE SUA HISTÓRIA. — 1° O conjunto da história da humanidade, desde Jesus Cristo até nossos dias, mostra-nos, na existência constante da Igreja católica durante todo esse período, um fato único, sobretudo se o considerarmos em todas as suas circunstâncias concretas.

1. A primeira circunstância muito particular é o maravilhoso desenvolvimento da Igreja, já desde os primeiros séculos, apesar das paixões humanas que se opunham com todo o seu ímpeto à religião nova, tão austera e tão exigente, apesar dos poderes humanos que também desdobravam contra ela todo o seu poderio, apesar da falta absoluta daquilo que humanamente deveria ter assegurado o êxito da nova instituição. Desenvolvimento, aliás, sempre persistente, senão em todos os países ao mesmo tempo, ao menos no conjunto dos países abertos à atividade dos pregadores da fé cristã; e desenvolvimento certamente único, ao qual nada se pode comparar na história das religiões da humanidade.

2. Com esse maravilhoso desenvolvimento, a Igreja apresenta também, através dos séculos, uma admirável continuidade, apesar de todos os obstáculos que humanamente deveriam ter causado a destruição dessa Igreja ou posto em perigo as propriedades que lhe pertencem essencialmente; obstáculos exteriores resultantes da frequente hostilidade dos poderes humanos, muitas vezes obstinados em subjugar a Igreja sob sua despótica dominação, ou dos repetidos assaltos dos cismas e das heresias que lutam em todas as épocas contra o que constitui a vida da Igreja; obstáculos interiores de toda espécie, escândalos que se produzem no seio da Igreja, às vezes mesmo da parte daqueles que devem contribuir mais particularmente para o bem da Igreja, discórdias que paralisam quase toda ação eficaz para o bem, muitas vezes também condescendência ou fraqueza excessiva para com tendências inovadoras ou erros, que se deixa espalharem no seio da Igreja em seu grande detrimento. Essa persistente continuidade da Igreja é tanto mais notável quanto é sempre acompanhada de uma indefectibilidade não menos constante, em tudo o que sua constituição encerra de divino, bem como em toda a doutrina revelada da qual ela é guardiã. Indefectibilidade sempre intacta, que só ela conserva perpetuamente em meio às incessantes mudanças das sociedades humanas e dos sistemas humanos, e em face das variações não menos frequentes das seitas heréticas, fatalmente levadas, pelas consequências lógicas de seus falsos princípios, a incessantes contradições com o que se esforçam em vão por reter da doutrina verdadeira, como mostra particularmente Bossuet em sua admirável Histoire des variations des Eglises protestantes.

3. Uma terceira circunstância não menos notável do fato da existência contínua da Igreja católica é sua incomparável fecundidade espiritual, manifestando-se por numerosos e muito poderosos meios de produzir a santidade em todos os seus membros; meios que, de fato, produziram, em todas as épocas, tanto na vida individual como na vida social, frutos eminentes aos quais nada se pode comparar em nenhuma outra instituição. Essa maravilhosa fecundidade é, aliás, frequentemente acompanhada de milagres que são o selo de Deus sobre essa obra e que não se encontram em nenhuma outra parte, ao menos no mesmo grau e com as mesmas circunstâncias. P. Schanz, Apologie des Christenthums, 3e édit., Fribourg-en-Brisgau, 1906, p. 366 sq.

2° Prova deduzida desse fato em favor da divindade da Igreja católica. — Essa prova consiste em que tal fato, com todas as circunstâncias indicadas, só pode provir de uma ação divina exercida em favor da Igreja católica e provando consequentemente sua divindade. Certamente a existência, a propagação e uma continuidade bastante relativa de religiões de origem humana, tais como o bramanismo, o confucionismo, o budismo, o maometismo, podem explicar-se por causas naturais, desde que se admita, como ponto de partida, a necessidade que o homem tem de uma religião e os recursos naturais que possui para realizar seu objetivo. Entre essas causas naturais, segundo o testemunho da história, devemos contar principalmente a satisfação dada às paixões humanas por essas religiões, a influência soberana dos poderes humanos que as favoreciam ou as impunham, e a perfeita adaptação dessas religiões ao caráter e aos hábitos dos povos entre os quais se espalharam. Foi isso que já indicava santo Tomás a respeito da rápida difusão do maometismo, Cont. gentes, l. I, c. VI; é ainda isso que mostram os apologistas contemporâneos. De Broglie, Problèmes et conclusions de l'histoire des religions, 2e édit., Paris, 1886, p. 194 sq.

Mas nenhuma dessas causas pode explicar suficientemente todas as circunstâncias tão particulares que acompanham constantemente a rápida propagação e a maravilhosa continuidade da Igreja católica através dos séculos, sobretudo sua perfeita indefectibilidade e sua eminente fecundidade. Essas propriedades tão singulares, que não se encontram em nenhuma instituição humana, e que, em razão de seu caráter em si mesmo sobrenatural, ultrapassam absolutamente todas as atividades naturais, não podem manifestamente ser atribuídas senão à causalidade divina, aliás claramente manifestada pelos milagres realizados em favor da Igreja católica. É, na realidade, isso que demonstram quase todos os nossos apologistas, quando estabelecem, de maneira geral, a divindade do cristianismo, por todas as circunstâncias especiais que acompanham sua difusão e sua conservação no mundo inteiro. Embora falem diretamente apenas da religião cristã, é verdadeiramente a religião católica que está constantemente presente em seu pensamento, e é à verdade da Igreja católica que finalmente conduz toda a sua demonstração. Aliás, alguns autores, omitindo a demonstração geral em favor da religião cristã, provam imediatamente a divindade da Igreja católica pelo fato maravilhoso que acabamos de lembrar, fazendo ressaltar todas as suas particularidades humanamente inexplicáveis, J. Didiot, Logique surnaturelle objective, Paris, 1892, p. 311 sq.; ao passo que outros apologistas expõem separadamente as duas demonstrações, insistindo, na segunda, no que é mais particularmente próprio da Igreja católica. Wilmers, De religione revelata, Ratisbonne, 1897, p. 681 sq.

Toda essa demonstração é confirmada por este argumento irrefutável: que o cristianismo, apesar das promessas formais de Jesus Cristo, falhou inteiramente, ou então não é outro senão o catolicismo atual, que só ele, com sua hierarquia, com seu magistério infalível, com sua constante indefectibilidade e com todas as suas outras prerrogativas, pode justamente reivindicar uma identidade real com o cristianismo primitivamente estabelecido por Jesus Cristo. Pois todas as outras comunhões não possuem senão um cristianismo incompleto, sujeito a numerosas e frequentes variações, como mostra toda a sua história; cristianismo aliás incapaz de manter uma unidade efetiva, por falta de autoridade doutrinal. Só o catolicismo atual pode justamente reivindicar uma verdadeira identidade substancial com o cristianismo primitivo.

Contra essa identidade substancial não se pode objetar os desenvolvimentos dogmáticos adotados pela Igreja católica no decurso dos séculos, pois, como mostramos no artigo DOGMA, col. 1641 sq., esses desenvolvimentos dogmáticos jamais introduziram na Igreja uma doutrina nova; eles nunca foram senão uma manifestação explícita do que já se cria até então de maneira menos explícita ou menos clara, como afirmam os documentos oficiais da Igreja católica anteriormente citados, notadamente a bula Ineffabilis de Pio IX, definindo o dogma da imaculada conceição, e o concílio do Vaticano. Sess. III, c. IV; sess. IV, c. IV.

Quanto aos desenvolvimentos ocorridos, no decurso dos séculos, no próprio exercício da autoridade da Igreja católica, eles consistiram, de fato, unicamente em aplicações novas de um poder sempre reconhecido como substancialmente idêntico, mas que exige, para exercer-se em toda a sua plenitude, condições ou circunstâncias que o permitam, como santo Tomás insinua nesta resposta: Dicendum quod Augustinus respondet in epistola contra donatistas et habetur super illud ps. 11: Quare fremuerunt gentes? Distinguit enim diversa tempora Ecclesiæ. Ait enim tempus quando astiterunt reges adversus Christum, et in illo tempore non solum non dabant fidelibus, sed eos occidebant. Aliud vero tempus est nunc quo reges intelligunt et eruditi serviunt Domino nostro Jesu Christo in timore, etc., et ideo in isto tempore reges sunt vassali Ecclesiæ. Et ideo est alius status Ecclesiæ nunc et tunc, non tamen est alia Ecclesia. Quodlib., XII, a. 19, ad 6um.

Somos, pois, autorizados a concluir que só o catolicismo atual possui manifestamente o direito de ser considerado como a religião primitivamente estabelecida pelo próprio Jesus Cristo, ou, em outros termos, que a Igreja católica é manifestamente de instituição divina.

Notemos, ao terminar esta exposição, que este argumento, ao menos em sua forma geral, é ratificado por Leão XIII em sua encíclica Immortale Dei, de 1º de novembro de 1885: Vera autem religio quæ sit, non difficulter videt qui judicium prudens sincerumque adhibuerit; argumentis enim permultis atque illustribus, veritate nimirum vaticiniorum, prodigiorum frequentia, celerrima fidei vel per medios hostes ac maxima impedimenta propagatione, martyrum testimonio, aliisque similibus, liquet eam esse unice veram quam Jesus Christus et instituit ipsemet et Ecclesiæ suæ tuendam propagandamque demandavit.

VI. CONCLUSÃO GERAL DE TODA ESTA DEMONSTRAÇÃO APOLOGÉTICA. — De toda esta exposição temos o direito de concluir que a Igreja católica é a única verdadeira Igreja realmente instituída por Jesus Cristo, e que esta divina instituição, em si mesma evidentemente crível por causa de todas essas provas tão demonstrativas, pode, com uma boa vontade constante proveniente da graça e por ela mantida, ser suficientemente percebida por todas as inteligências às quais é convenientemente proposta. Até que ponto esta verdade, em si mesma tão manifesta, pode ser acidentalmente ignorada de maneira invencível, é o que procuraremos determinar numa questão subsequente.

Autor original: E. Dublanchy

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