IGREJA (III. SISTEMAS QUE REJEITAM A CONSTITUIÇÃO DIVINA DA IGREJA)

IGREJA (III. SISTEMAS QUE REJEITAM A CONSTITUIÇÃO DIVINA DA IGREJA)

SISTEMAS RELIGIOSOS QUE SE APRESENTAM COMO CRISTÃOS E REJEITAM AO MENOS PARCIALMENTE A DIVINA CONSTITUIÇÃO DA IGREJA. — Esses sistemas, devendo ser expostos completamente em outro lugar, têm aqui direito apenas a uma rápida menção, estritamente indispensável para a plena inteligência de nossas demonstrações apologéticas ou dogmáticas.

1° Embora a maioria das heresias ou dos cismas anteriores ao século XVI tenha, ao menos por via de consequência, causado algum dano à divina constituição da Igreja, é contudo verdade que o primeiro herege a atacar diretamente o próprio conceito de Igreja foi Wicleff (1324-1387), cuja doutrina sobre esse ponto se resume nestas duas afirmações: 27. Ecclesia romana est synagoga Satanae, nec papa est proximus et immediatus vicarius Christi et apostolorum. 41. Non est de necessitate salutis credere romanam Ecclesiam esse supremam inter alias ecclesias. Denzinger-Bannwart, Enchiridion, n. 617, 621.

2° João Huss (1370-1415), ao mesmo tempo que negou, como Wicleff, que Pedro jamais tivesse sido o chefe da Igreja ou que o pontífice romano jamais tivesse possuído esse poder, prop. 7-10, Denzinger-Bannwart, n. 633-636, atacou mais radicalmente o conceito de Igreja ao afirmar que ela se compõe apenas dos predestinados: 1. Unica est sancta universalis Ecclesia, quae est praedestinatorum universitas. 6. Sumendo Ecclesiam pro convocatione praedestinatorum, sive fuerint in gratia sive non secundum praesentem justitiam, isto modo Ecclesia est articulus fidei. Denzinger-Bannwart, n. 627, 632.

3° No início do século XVI, Lutero, admitindo que a Igreja não é outra coisa senão a comunhão dos crentes, sem qualquer hierarquia ou autoridade, e sustentando aliás que esses crentes são simplesmente aqueles que, em seu sentido teológico, têm absoluta confiança na não imputação de seus pecados, graças à apreensão totalmente exterior dos méritos de Jesus Cristo, devia chegar logicamente a uma Igreja invisível composta apenas desses crentes. Conservou, contudo, a noção de uma Igreja visível, resultante necessariamente da reunião desses mesmos crentes que manifestam exteriormente sua fé. Essa Igreja é caracterizada por duas marcas exteriores, a pregação da pura palavra de Deus e a administração conveniente dos sacramentos, segundo o art. 7 da Confissão de Augsburgo, que reproduz o ensinamento do mestre. Realencyklopädie für protestantische Theologie und Kirche, art. Kirche, Leipzig, 1901, t. X, p. 336. Todavia, para satisfazer a necessidade de ordem, Lutero admitiu, em sua carta aos irmãos da Boêmia, uma autoridade proveniente da eleição dos fiéis e exercida com a proteção dos soberanos temporais. Calvino seguiu um caminho bastante diferente. Ao mesmo tempo que admitia expressamente, no sentido de Wicleff e de João Huss, uma Igreja invisível composta apenas dos predestinados, Institution de la religion chrétienne, l. IV, c. 1, n. 2 sq., Genebra, 1566, p. 686 sq., afirmou, ao mesmo tempo, a existência de uma Igreja visível, caracterizada pelas mesmas marcas exteriores já indicadas por Lutero, a pregação da pura palavra de Deus e a administração conveniente dos sacramentos, l. IV, c. 1, n. 9 sq., p. 693 sq., mas na qual reside alguma autoridade, cuja origem divina é mal estabelecida e à qual, todavia, se é rigorosamente obrigado a submeter-se, l. IV, c. 1, n. 1, 5, p. 686, 689-691. Sob a influência dessas noções luteranas e calvinistas, as seitas protestantes substituíram a hierarquia tradicional de direito divino por ministros escolhidos ou delegados pela assembleia dos fiéis para exercer exclusivamente uma função para a qual nem todos podiam, de fato, ter aptidão suficiente. Ao mesmo tempo, e por uma consequência não menos fatal, afastou-se também a visibilidade da Igreja, ou dela se manteve apenas uma vã aparência, como frequentemente demonstraram os apologistas católicos. P. Murray, Tractatus de Ecclesia Christi, disp. V, sect. 1, n. 145 sq., Dublin, 1860, t. I, p. 253 sq. No anglicanismo, é verdade, encontraram-se alguns partidários do direito divino do episcopado, como Hooker no século XVI, Laud no século XVII e numerosos puseístas ou ritualistas no século XIX. Ver ANGLICANISMO, t. I, col. 1292 sq. Mas esse episcopado foi sempre um episcopado desprovido de todo poder de ordem em sua fonte primeira, desprovido de toda autoridade doutrinal segundo suas próprias declarações, desprovido enfim de toda unidade orgânica e de toda independência em relação ao poder secular, segundo sua constituição primeira e segundo sua conduta habitual.

4° Aquilo que o protestantismo ainda conservava do conceito de Igreja foi radicalmente negado pelos protestantes liberais do século XVIII e do século XIX que, rejeitando absolutamente toda verdadeira revelação divina, rejeitaram não menos formalmente em Jesus Cristo qualquer vontade de estabelecer uma Igreja dotada de alguma autoridade determinada. P. Batiffol, L'Église naissante et le catholicisme, Paris, 1909, p. 174 sq.; A. Sabatier, Les religions d'autorité et la religion de l'esprit, 4ª edição, p. 54 sq.; Realencyklopädie für protestantische Theologie und Kirche, 3ª edição, X, p. 319 sq. Sabe-se, aliás, que essas negações do protestantismo liberal, por mais audaciosas que sejam, são quase identicamente reproduzidas pela escola modernista. É isso que se pode facilmente deduzir das indicações que demos, no art. DOGMA, sobre as teorias do sr. Loisy, particularmente em sua obra L'Évangile et l'Église, 4ª edição, Paris, 1908, p. 125 sq., e em Autour d'un petit livre, 2ª edição, Paris, 1903, p. 153 sq. É também isso que se deve deduzir das proposições 52, 53, 54, 56, 59, condenadas pelo decreto Lamentabili de 3 de julho de 1907, bem como das passagens concernentes à Igreja, na exposição dos erros dos teólogos modernistas, feita por Pio X na encíclica Pascendi, de 8 de setembro de 1907.

5° Por outro lado, os diversos cismas orientais, antigos e atuais, persistindo em sua obstinada insubmissão e procurando justificar dogmaticamente o fato de sua separação obstinada, segundo a tendência habitual de todos os cismáticos, como já observava são Tomás, Sum. theol., IIa IIae, q. XXXIX, a. 1, ad 3um, quase sempre causaram algum dano à divina constituição da Igreja, no que concerne à unidade que Jesus Cristo quis proporcionar à sua Igreja pelo primado efetivo de Pedro e de seus sucessores. É isso que se pode particularmente constatar no cisma grego, desde seu primeiro surgimento até a época contemporânea. L. Duchesne, Églises séparées, Paris, 1896, passim. É contra esses erros que devemos agora provar a verdade da Igreja católica.

Autor original: E. Dublanchy

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