FIM DO MUNDO. A Igreja católica crê e ensina que o mundo atual, tal como Deus o formou e tal como existe, não durará eternamente. O conjunto das criaturas visíveis, que foi criado por Deus no tempo — ver t. III, col. 2042 sq. —, deixará de existir e chegará ao fim, transformado que será em uma criação nova. — I. Certeza. — II. Modo. — III. Época. I. Certeza. Ela resulta de diferentes provas, afirmada que é pela Escritura, pela tradição e pela teologia católicas, e confirmada pela ciência moderna.
— 1º Provas escriturísticas. Já indicado no Antigo Testamento, o fim do mundo atual é claramente ensinado no Novo. — 1. Antigo Testamento. O fim das principais criaturas do mundo visível é assinalado de passagem em alguns lugares do Antigo Testamento. Jó, xiv, 12, diz que o homem, uma vez morto, não despertará nem sairá do seu túmulo « enquanto houver céus » ou, segundo a tradução de são Jerônimo, « até que o céu seja triturado ». A expressão hebraica marca uma longa duração, uma duração indefinida. O autor fala aqui apenas do retorno à vida primeira nas condições passadas, o que nunca acontecerá; ele não nega, pois, a ressurreição dos mortos, que espera alhures, xix, 25; diz apenas que, enquanto existirem os céus atuais, o homem dormirá o sono da morte.
Pode-se concluir que, em seu entender, quando os céus não mais existirem, os homens ressuscitarão. H. Lesêtre, Le livre de Job, Paris, 1886, p. 101; J. Knabenbauer, Comment. in librum Job, Paris, 1886, p. 124. Um salmista, Ps. Lxxi, 5, 7, anuncia profeticamente que a dinastia davídica, em sua descendência messiânica, durará tanto quanto o sol e a lua, de geração em geração, e que a justiça e a abundância da paz aparecerão nos dias do Messias até que a lua seja destruída. Etã relata as palavras que Deus disse a Davi em uma visão: Deus prometeu a esse rei estabelecer sua raça pela sucessão dos séculos e o seu trono « pelos dias dos céus », isto é, por uma duração sem limites. Ps. Lxxxviii, 30. É verdade que o Senhor, seu criador, estabeleceu para sempre e para os séculos dos séculos o sol e a lua, os astros luminosos, os céus dos céus ou os céus sidéreos e as águas que estão acima do céu atmosférico; impôs-lhes leis e não as ultrapassará. Ps. cxlviii, 3-6. Mas trata-se ainda de sua duração indefinida e da perseverança das leis naturais, que não se opõem à transformação dessas criaturas celestes no fim dos tempos. H. Lesêtre, Le livre des psaumes, Paris, 1883, p. 687. Outro salmista diz no mesmo sentido que Deus estabeleceu a terra sobre o seu fundamento e que ela é inabalável de século em século. Ps. ciii, 5.
Ele fala apenas da estabilidade da terra, como Jeremias, xxxi, 35, 36, da permanência das leis da natureza. Cf. J. Knabenbauer, Comment. in Jeremiam prophetam, Paris, 1889, p. 395. Quando o autor do Eclesiastes, i, 4, diz que a terra permanece perpetuamente, ele não quer falar nem de sua eternidade nem de sua imobilidade aparente; os versículos 5-8 mostram claramente que se trata da imutabilidade permanente da lei que preside à marcha do mundo e sobre a qual o homem nada pode: as gerações passam, ao passo que a terra permanece, que o sol, o vento e as águas continuam seu curso perpétuo e constante. A. Motais, L'Ecclésiaste, Paris, 1883, p. 136; G. Gietmann, Comment. in Ecclesiasten, Paris, 1890, p. 70-71; E. Podechard, L'Ecclésiaste, Paris, 1912, p. 236-237. Mais adiante, iii, 11, 14, fala da imutabilidade das leis que Deus traçou às coisas deste mundo e da impotência do homem para compreendê-las e mudá-las. A. Motais, op. cit., p. 146; G. Gietmann, op. cit., p. 164-165; E. Podechard, op. cit., p. 78, 236, 295, 298-499.
O autor do Eclesiástico, xvi, 27 (Vulg.), fala ainda da perpetuidade e da constância da ordem que Deus estabeleceu no mundo no momento da criação, e descreve a obediência que os astros dão inflexivelmente às leis que o criador lhes impôs. H. Lesêtre, L'Ecclésiastique, Paris, 1884, p. 102; J. Knabenbauer, Ecclesiasticus, Paris, 1902, p. 193-194. Nenhum desses textos ensina, portanto, a eternidade do mundo atual. Aliás, um salmista da época do cativeiro de Israel em Babilônia afirma explicitamente que a terra e os céus, que são obra das mãos do Senhor, perecerão, ao passo que seu criador é eterno. Eles se gastarão como uma veste; vós os « mudareis como um manto, e eles mudarão de forma. Mas vós, sois sempre o mesmo, e vossos anos não terão fim ». Ps. ci, 26, 27. É o ensinamento formal da não eternidade do mundo atual e de sua transformação pela vontade de Deus. O salmista faz da eternidade o atributo exclusivo de Deus, e afirma a caducidade da terra e dos céus ao mesmo tempo que sua transformação futura. Pode-se perguntar se essa transformação futura do mundo material é predita e descrita pelos profetas de Israel, que anunciam por meio de grandes imagens seja a futura restauração de Jerusalém, capital de seu povo, seja os benefícios futuros do reino messiânico, seja mesmo a consumação celeste desse reino.
Os Padres e os teólogos, como veremos, entenderam muitas vezes como referentes à transformação final os textos de Isaías, li, 16; lxv, 17; Lxvi, 22, que falam da criação de novos céus e de uma nova terra, e o P. Knabenbauer dá-lhes esse sentido. Comment. in Isaiam prophetam, Paris, 1887, t. II, p. 490-492, 520. Mas essa interpretação não é certa. Menos certa ainda é a que reconhece traços descritivos desse novo mundo nas passagens metafóricas de Isaías, xxx, 26; Lx, 19, 20, e de Zacarias, xiv, 6, 7, 20, 21. Isaías fala aí de acontecimentos particulares, que ele considerava na perspectiva de um julgamento exercido sobre o mundo inteiro. Cf. L. Atzberger, Die christliche Eschatologie in den Stadien ihrer Offenbarung im Alten und Neuen Testamente, Fribourg-en-Brisgau, 1890, p. 77-78. As passagens de Zacarias em particular não têm relação alguma com o mundo renovado. Enfim, os livros do Antigo Testamento falam frequentemente do fim dos dias e dos últimos dias, Gên., xLix, 1; Núm., xxiv, 14; Deut., iv, 30; xxxii, 29; Os., iii, 5; Miq., iv, 1; 2; Jer., xxx, 24; Is., ii, Ez., xxxviii, 16, sem precisar todavia os limites desse último período de tempo, que abrange por vezes toda a época messiânica, senão o seu término.
Essas fórmulas indicavam, ao menos, que Israel não subsistiria eternamente e que, para ele, o tempo teria um fim. — 2. Novo Testamento. a) Nosso Senhor. No discurso da montanha, afirma incidentalmente o fim do mundo. Falando da imutabilidade da lei, declara solenemente que « até que o céu e a terra passem, nem um iota nem um traço da lei passarão ». Mt., v, 18. Cf. Lc., XVI, 17. O céu e a terra passarão, portanto, um dia, mas, enquanto durarem, a lei será cumprida. Nas parábolas do joio e da rede, trata-se da consumação das coisas. A colheita da primeira dessas parábolas simboliza a consumação do mundo. Então, o joio, que representa os filhos do maligno, será recolhido e lançado na fornalha de fogo, enquanto os justos, a boa semente, brilharão como o sol no reino de seu Pai. Mt., XIII, 39-43. Na segunda, diz-se que, na consumação do mundo, os anjos farão a triagem dos peixes bons e maus, recolhidos na rede do pescador. Mt., xiii, 47-50. Haverá, pois, uma συντέλεια αἰῶνος, na qual terão lugar a recompensa dos bons e a punição dos maus.
Por isso os discípulos, instruídos por Jesus, tinham o direito de lhe perguntar qual seria o sinal dessa consumação do século. Mt., xxiv, 3. É muito difícil discernir, na resposta do Salvador, tal como é relatada pelos três Sinóticos, quais serão os sinais da consumação do mundo, porque são colocados na mesma perspectiva que os da ruína de Jerusalém. Ver mais adiante. Na continuação do mesmo discurso escatológico, Jesus declarou solenemente que o céu e a terra passarão, mas que suas palavras sobre a sua segunda vinda não passarão e se cumprirão certamente. Mt., xxiv, 35; Mc., XIII, 31; Lc., xxi, 33. Depois de sua ressurreição, prometeu aos Onze estar com eles todos os dias até a consumação do século. Mt., xxviii, 20. O céu e a terra passarão, portanto, e o século presente terá um fim. Esse fim virá quando o Evangelho tiver sido pregado em toda a terra a todas as nações. Mt., xxiv, 14. Nosso Senhor diz também que ressuscitará no último dia os que fazem a sua vontade e que creem nele, Jo., vi, 39, 40 (e era a fé de Marta de que Lázaro ressuscitaria no último dia, Jo., xi, 24) e que — julgará o mundo — no último dia. Jo., xii, 48.
b) Os apóstolos. São Paulo ensina também aos Coríntios que o fim virá quando Jesus ressuscitado tiver assegurado a seu Pai o domínio sobre todas as coisas e tiver destruído todos os seus inimigos. I Cor., xv, 24, 25. Cf. F. Prat, La théologie de saint Paul, Paris, 1912, 523-525, constata que a figura deste mundo t. II, p. 11 passa, I Cor., vii, 31, o que não significa que o mundo: por natureza, as coisas deste sejam passageiras sua, mas que o seu estado exterior está em vias de mudar e de sofrer transformações, que são o sinal e o prelúdio de sua transformação final. O autor da Epístola aos Hebreus, i, 12, cita a palavra do i, sl. CI, 27, e repete com o salmista que a terra e os céus, que são obra das mãos de Deus, passarão, ao passo que o Senhor permanecerá, que envelhecerão como uma veste e que Deus os mudará como um manto usado e fora de uso. São Pedro diz que o fim de todas as coisas se aproxima e daí tira uma lição de prudência e de vigilância. I Ped., iv, 7. São João diz também que o mundo passa com as suas concupiscências. I Jo., ii, 17.
Depois de ter assistido em espírito ao juízo final, vê um céu novo e uma terra nova, pois o primeiro céu e a primeira terra desapareceram, e já não há mar. Apoc., xxi, 1. Os apóstolos falam também dos últimos tempos, I Ped., i, 5, 20; Jud., 18; I Tim., iv, 1; dos últimos dias, Atos, 17; II Tim., iii, 1; Heb., ii, 2 (grego); II Ped., iii, 3; da última hora, I Jo., ii, 18; da plenitude dos tempos, Gál., iv, 1; Ef., i, 10; do fim dos tempos, I Cor., x, 11; e da consumação dos séculos. Heb., ix, 26. Esse último período já começou e compreende todos os tempos messiânicos; a sua duração é indeterminada, mas não é eterna. Cf. Atzberger, op. cit., p. 371-372.
— 2º Ensinamento dos Padres e dos teólogos. Os Padres apostólicos falam dos últimos tempos quase nos mesmos termos que os escritores do Novo Testamento. Na Didaqué, xvi, 2, 3, Funk, Patres apostolici, 2e édit., Tubingue, 1901, t. I, p. 34, 36, o último tempo e os últimos dias são os do fim do mundo, distintos dos séculos precedentes. Para o pseudo-Barnabé, iv, 9; vi, 13, ibid., p. 48, 56, eles já começaram e Deus já realizou aí a segunda criação. Na II Cor., xiv, 2, ibid., p. 202, datam do aparecimento do Salvador Jesus.
Para santo Inácio, as coisas têm um fim. Ad Magn., v, p. 234, e os últimos tempos chegaram. Ad Eph., xi, p. 222. Segundo Hermas, Pastor, Sim., IX, xii, 3, p. 598, o Filho de Deus apareceu nos últimos dias da consumação. Contudo, o último dia ainda não chegou e os pecadores podem fazer penitência até ele. Vis., II, ii, 5, p. 420. Cf. L. Atzberger, Geschichte der christlichen Eschatologie innerhalb der vornicänischen Zeit, Fribourg-en-Brisgau, 1890, p. 99-100. Os Padres apologistas são mais precisos. São Justino fala da σύγχυσις καὶ κατάλυσις do mundo inteiro. Apol., I καὶ II, 7, P. G., t. VI, col. 150. Taciano menciona o fim de todas as coisas, que terá lugar, não periodicamente, como pretendem os estoicos, mas uma única vez, no juízo, Orat. adv. Grœcos, 6, ibid., col. 817; fala também do dia da conflagração final. Ibid., 17, col. 841. Diz com mais precisão que o mundo acabará e será dissolvido, 12, col. 832, que não é indissolúvel, mas que só será dissolvido uma vez e não várias vezes, como ensinam alguns filósofos, 25, col. 861. Cf. L. Atzberger, op. cit., p. 102. Santo Irineu conhece a consumação universal. Cont. haer., II, xxii, n. 2, P. G., t. vii, col. 782. O firmamento, o sol, a lua e as estrelas durarão enquanto seu criador o quiser. II, xxxiv, n. 3, col. 830. Assim como Jerusalém foi destruída, também o estado atual do mundo inteiro será destruído, quando chegar o tempo para isso, e ele se apoia em Marcos, iv, 1, em são Paulo, I Cor., vii, 31, no salmo ci, 26, 27, e em Isaías, li, 6. Ibid., IV, iv, 3; iii, 1, col. 982, 980.
Nem a substância nem a matéria da criação serão aniquiladas, pois seu fundamento é real e sólido; somente o estado do mundo será destruído, porque foi o teatro da transgressão dos homens. O mundo presente, portanto, só foi criado por um tempo. Ibid., V, xxxvi, 1, col. 1221-1222. Cf. L. Atzberger, op. cit., p. 202. Segundo Tertuliano, o fim do mundo está próximo e será, para o globo inteiro, causa de uma violência extrema. Apolog., 32, P. L., t. i, col. 447. Nessa última tempestade, o mundo sensível perecerá. A terra desaparecerá com o mundo inteiro. De resurrectione carnis, 20, t. ii, col. 833. Toda a sabedoria terrestre será destruída e confundida com o mundo atual. De patientia, 1, t. i, col. 1251. Cf. L. Atzberger, op. cit., p. 331. Clemente de Alexandria fala da consumação do século ou das coisas, Quis dives salvetur, 42, P. G., t. ix, col. 952. Cohort., 9, t. viii, col. 196, mas também de um mundo futuro. O mundo atual durará até o último dia, depois deixará de existir, e um novo mundo começará. Pæd., i, 6, t. viii, col. 285. Cf. L. Atzberger, op. cit., p. 365. Orígenes sabe pelo ensinamento eclesiástico que, assim como o mundo foi criado e teve começo no tempo, do mesmo modo deve ser dissolvido pro ipsa sui corruptione. De princ.A. praef., 7, P. G., xi, col. 119.
Essa consumação do século foi promulgada a todos na Escritura. Ibid., m, col. 320-327. Aos pagãos, que negavam o fim do mundo, ele declara que ela faz parte da revelação cristã. In Matth., tom. xiii, l, P. G., XIII, col. 1088. Ele a denomina τέλος τῶν πραγμάτων e συντέλεια τοῦ αἰῶνος. Ibid., tom. X, 2, col. 840. Cf. L. Atzberger, op. cit., p. 451-452. São Cipriano reconhece, em seu tempo, sinais visíveis do fim do mundo, que vacila e caminha para sua ruína. De mortalitate, C, P. L., t. iv, col. 586. Seu fim se aproxima, tudo o indica. De unitate Ecclesiæ, 16, col. 512. O mundo envelheceu e traz em si mesmo as marcas de sua decrepitude. Ad Demetrianum, 3, 5, col. 546-548. O fim do mundo está próximo; é preciso preparar-se para ele. Ibid., 23, col. 561. Não devemos mais esperar nada deste mundo que está morrendo. Epist., Lviii, 2, m, col. 974. Cf. L. Atzberger, op. cit., t. p. 542. Alguns outros Padres ou escritores eclesiásticos posteriores acreditaram descobrir, em sua época, sinais visíveis do fim do mundo. Os males da Igreja e mesmo as misérias temporais lhes pareciam ser precursores da consumação final.
Aproveitavam-se disso para exortar os cristãos à penitência, à conversão ou à paciência. Encontravam nessas considerações um meio eficaz de regeneração moral, e encaravam a própria catástrofe final como a condição necessária para a purificação física do mundo atual. Se os teólogos, em geral, não reconheceram nos acontecimentos de sua época os sinais precursores do fim do mundo, tomaram emprestada dos Padres sua doutrina sobre a necessidade de purificar o mundo antigo, teatro dos pecados dos homens. Durante os três primeiros séculos do cristianismo, o fim do mundo era objeto do ensinamento corrente na Igreja, fundado que estava na revelação cristã. Mais tarde, os Padres e os escritores eclesiásticos fizeram valer frequentemente o caráter passageiro das coisas deste mundo, porque elas são criaturas. Relataremos seus testemunhos ao tratar da maneira como se dará a consumação das coisas. Ver em particular S. Máximo, o Confessor, Epist., i, P. G., t. xci, col. 377; Hesíquio, In ps. Cl, 21, P. G., t. xciii, col. 1280.
3º Confirmação fornecida à revelação cristã — pelos filósofos e pelos sábios modernos. Os filósofos também põem em destaque o caráter contingente, finito, limitado, transitório e passageiro das criaturas materiais. Assim como esse caráter prova que elas tiveram um começo, ver t., col. 2101-2108, do mesmo modo mostra que elas terão um fim; já que são caducas, não podem ser eternas.
Os sábios que se ocupam das ciências da natureza ensinam também que o mundo não perseverará sempre em seu estado atual e que a ordem visível das coisas terá um fim. A vida cessará um dia sobre a terra, e a própria terra firme será, por sua natureza, arrastada para a ruína do universo. Os céus também, ou o mundo planetário, que os antigos criam incorruptíveis, não são infinitamente estáveis do ponto de vista mecânico. Os planetas, com efeito, são sede de ações que, acumulando seus efeitos, resultarão primeiro em alongar a duração da rotação desses planetas sobre si mesmos, a ponto de torná-la igual à de sua revolução, e depois, em razão da resistência do meio em que se movem, em precipitá-los finalmente no sol, do qual não são senão porções destacadas da nebulosa primitiva. Se o próprio sol é satélite de uma estrela mais poderosa que ele, sofrerá também a mesma sorte que os planetas que dele dependem. Todos os astros do universo, passando pelas mesmas fases, acabarão por se confundir num único e mesmo corpo. H. Poincaré, Sur la stabilité du système solaire, dans l'Annuaire pour l'an 1898, publié par le Bureau des longitudes, B, p. 1-16. Está, portanto, cientificamente demonstrado que o universo terá um fim. Ver X. Stainier, la fin du monde, dans la Revue des questions scientifiques, 2e série, — Bruxelles, 1898, t. xiv, p. 379-413.
II. Modo. O fim do mundo não será o aniquilamento do céu e da terra; consistirá apenas na cessação das condições atuais de sua existência e de sua ordenação. O curso presente das coisas desaparecerá e o mundo antigo será substituído por um mundo novo, que será apenas a restauração do precedente.
Os dois elementos que caracterizam o fim do mundo foram anunciados na Bíblia. 1º A dissolução — do mundo atual. 1. No Antigo Testamento. Muitos Padres e comentadores viram sua predição no oráculo de Isaías, xxiv, 1-4, 18-20. Depois de predizer os juízos particulares de Deus, primeiro contra Judá e Israel culpados, i-xii, e depois contra as nações pagãs, xiii-xxiii, o profeta teria descrito profeticamente o juízo final e universal, a sorte final dos bons e dos maus e mesmo a do mundo. A terra inteira não será apenas despovoada e devastada, ela perecerá e o céu com ela, xxiv, 1-4. Seus fundamentos se abalarão; ela se despedaçará: será sacudida e cambaleará como um homem embriagado; cairá para não mais se levantar, 18-20. Cf. J. Knabenbauer, Commentarius in Isaiam prophetam, Paris, 1887, t. i, p. 449-454, 460. Mas o contexto mostra claramente que se trata apenas da terra de Judá, que será despovoada e devastada em punição de seus crimes.
Viu-se também um anúncio da dissolução final no oráculo contra todas as nações pagãs, no qual Javé, indignado contra todas elas, as devota à carnificina e declara que todo o exército dos céus se desagregará, que os céus serão enrolados como um livro e que todo o seu exército cairá como caem as folhas da vinha e as da figueira. Is., xxiv, 4. Cf. J. Knabenbauer, loc. cit., p. 582. Mas o massacre universal dos pagãos sobre a terra nunca foi considerado pela tradição cristã como um acontecimento dos últimos tempos. Por isso, as imagens da queda das estrelas e do enrolamento dos céus, se dizem respeito ao fim do mundo, só poderiam ter um sentido metafórico; não se deveria tomá-las ao pé da letra. O autor da Sabedoria termina sua descrição do juízo final com um traço que retrata o despovoamento da terra inteira, reduzida a deserto pela destruição dos ímpios, v, 24. Cf. R. Cornely, Commentarius in librum Sapientiæ, Paris, 1910, p. 208. Parece exagerado concluir daí, com M. Lesêtre, Le livre de la Sagesse, Paris, 1884, p. 55-56, que a terra não será aniquilada, mas apenas transformada, depois do juízo final. O autor da Sabedoria fala apenas da sorte final dos homens, bons ou maus; nada diz sobre a sorte da própria terra. Assim, portanto, nenhum texto do Antigo Testamento nos informa diretamente sobre a catástrofe final.
— 2. No — Novo Testamento. a) Nosso Senhor. Em seu discurso apocalíptico, Jesus descreveu, por meio de imagens tomadas dos profetas de Israel, Is., xiii, 10; xxiv, 21, 23; Ezeq., xxxii, 7, 8; Joel, II, 10, 30, 31; III, 15, antes os sinais precursores do fim do que esse próprio fim: o sol se escurecerá, a lua não dará mais sua luz, as estrelas cairão do céu e as potências que estão nos céus serão abaladas. Matth., xxiv, 29; Marc, XIII, 24, 25; Luc, xxi, 25, 26. M. Loisy, Les Évangiles synoptiques, Ceffonds, 1908, t. ii, p. 430-431, reconhece aí o anúncio da convulsão do universo e da queda das estrelas, que será a consequência de todo o abalo do céu. Mas, segundo a justa observação do P. Lagrange, L'avènement du Fils de l'homme, dans la Revue biblique, 1906, p. 388; Évangile selon S. Marc, Paris, 1911, p. 322, «coloca-se menos no ponto de vista dos fenômenos cósmicos naturais do que no da salvação. No momento em que tudo parecia perdido, é a intervenção divina, é o céu que se abala, é o Filho do homem que vem. Os eleitos são salvos. Não se trata, portanto, de pródromos marcados por transformações dos astros, mas de imagens fortes para marcar que Deus entra em cena».
Essas imagens eram correntes entre os antigos profetas e nas apocalipses judaicas. Ver Apocalypse de Moïse, X, 5, dans Kautzsch, Die Apokryphen und Pseudepigraphen des Alten Testaments, Tubingue, 1900, t. II, p. 327. Permaneceram em uso entre os judeus. Ver J. Lagrange, Le messianisme chez les Juifs, Paris, 1909, p. 49-50; C. Clemen, Religionsgeschichtliche Erklärung des Neuen Testaments, Giessen, 1909, p. 100-108. Eram apenas metáforas aplicadas por Isaías à queda da Babilônia e de Edom, e por Ezequiel à do Egito. Elas não descrevem, portanto, a catástrofe final, e não é de forma alguma necessário explicá-las pela queda de meteoros, cujo grande número obscureceria o sol e a lua. Cf. J. Knabenbauer, Evangelium secundum Matthæum, Paris, 1893, t. ii, p. 338-339; Evangelium secundum Marcum, Paris, 1894, p. 350. Jesus descreve em seguida sua vinda. Marc, xiii, 26, 27; Matth., XXIV, 30, 31; Luc, xxi, 27. São Mateus acrescenta a descrição do juízo final, xxv, 31-46. O discurso apocalíptico do Salvador não contém, portanto, nada sobre a consumação final e a dissolução do mundo.
— b) Os apóstolos. São Pedro é o único escritor do Novo Testamento que, em sua IIª Epístola, III, 3-13, fala expressamente da maneira como se dará a dissolução final do mundo e do meio pelo qual ela se dará, o fogo. Seu testemunho é difícil de interpretar, e discute-se tanto sobre seu significado quanto sobre sua origem. A seção que contém esse testemunho não tem uma ligação estreita com a que a precede. Desde o início, o autor se refere a uma carta anterior, na qual recordou a seus leitores, como ainda vai fazer, as predições dos santos profetas e o ensinamento dos preceitos do Senhor transmitido pelos apóstolos. Cf. Pet., I, 10-12. Ora, a primeira verdade predita pelos profetas e pregada pelos apóstolos, cuja lembrança ele quer reavivar, é que nos últimos dias surgirão zombadores, que perguntarão o que foi feito do anúncio da vinda do Senhor. Esperava-se uma catástrofe; ora, os pais dos cristãos atualmente vivos, os homens da primeira geração cristã, morreram, e tudo permanece como no início da criação. Tal é a objeção; eis a resposta.
Esses zombadores, que opõem à consumação final a imutabilidade do universo, fingem ignorar que outrora houve céus e uma terra tirada da água e formada pela água por meio da palavra de Deus, cf. Gen., 6-10, e que o mundo de então pereceu submerso pela água. Gen., vi, 9-viii, 14. Ora, os céus e a terra de agora são conservados como um tesouro pela mesma palavra, estando reservados ao fogo para o dia do juízo e da ruína dos homens ímpios. Cf. II Pet., ii, 4, 9. Portanto, eles perecerão da mesma forma que o mundo já foi destruído uma primeira vez pelo dilúvio, quando, recoberto pela água de onde fora tirado pela palavra divina, cf. Heb., xi, 3, havia, por assim dizer, retornado ao caos primitivo do mundo. Gen., i, 2. Se uma nova destruição não ocorreu até agora, é porque a palavra de Deus, que criou os céus e a terra antigos, destruídos pelo dilúvio, mantém os céus e a terra atuais, os que são posteriores ao dilúvio, e os reserva até o dia do juízo, quando serão destruídos não mais pela água, mas pelo fogo. Cf. Calmes, Épîtres catholiques, Apocalypse, Paris, 1905, p. 62-65. A catástrofe final, anunciada por Cristo, teve, portanto, um precedente: o cataclismo diluviano. Cf. Matth., XXIV, 37-39; Luc, xvii, 20-27.
Ora, comparando essas duas ruínas do mundo, santo Agostinho e, depois dele, os teólogos escolásticos que criam que os céus eram incorruptíveis e indestrutíveis, procuraram determinar por analogia com a primeira qual seria a natureza da última. Ela terá o mesmo sujeito que a primeira, o κόσμος, compreendendo, como esta, os céus e a terra. Mas o dilúvio submergiu apenas a terra e uma parte da atmosfera, elevando-se quinze côvados acima das montanhas mais altas da terra, Gen., vii, 17-20; santo Agostinho e os teólogos escolásticos concluíram que o fogo da conflagração universal teria o mesmo teatro e purificaria somente a terra e o céu atmosférico até uma altura ao menos igual à das águas diluvianas. L. Atzberger, Die christliche Eschatologie, p. 375. E, para confirmar essa interpretação, acrescentavam que os dois acontecimentos tinham por finalidade, ao punir os culpados, purificar o teatro de seus crimes, a terra manchada pela malícia dos homens, uma primeira vez pela água, Gen., vi, 5-7; II Pet., uma última vez pelo fogo, como as cidades, II, 5, de Sodoma e Gomorra foram reduzidas a cinzas para servir de exemplo aos ímpios. II Pet., ii, 6.
O mundo atual, reservado ao fogo para o dia da perdição dos ímpios, II Pet., iii, 7, era, portanto, o κόσμος καινός, assim como o κόσμος ἀρχαῖος atingido pelo cataclismo diluviano. II Pet., ii, 5. Esses teólogos acrescentavam que, não tendo o dilúvio aniquilado a terra, mas apenas transtornado sua superfície, a conflagração final também não aniquilará o mundo, mas apenas mudará sua figura e forma exterior. Mas os comentadores racionalistas modernos, que veem nessa passagem um simples empréstimo feito a uma doutrina estranha à revelação de Cristo, pensam que o autor da IIª Epístola de são Pedro engloba no incêndio final toda a criação, compreendendo os céus e a terra. Sua cosmologia abrange o céu e a terra; se o mundo antigo pereceu, submerso pelas águas, os céus e a terra de hoje estão destinados ao fogo. Trata-se dos céus que, para os judeus, eram múltiplos, e não da atmosfera. Aliás, no dia do Senhor, os céus se dissiparão com estrondo, os elementos incendiados se dissolverão e a terra será consumida com todas as obras que ela encerra. II Pet., iii, 10. É, portanto, o mundo inteiro que será presa das chamas.
Para conhecer exatamente o pensamento do autor, procuremos determinar, segundo a própria Epístola, o que eram para ele o κόσμος e os οὐρανοί. Para ele, o κόσμος é a terra, e os cristãos devem fugir da corrupção da cobiça que ali reina, i, 4. Esse κόσμος, o mundo de antes do dilúvio, o ἀρχαῖος, que datava, portanto, do princípio, e a quem Deus não perdoou, exceto ao justo Noé, era um mundo de ímpios, ii, 5; é, portanto, ainda a terra que foi inundada pelo dilúvio. Fala-se, enfim, das miasmas ou das cobiças do mundo que os cristãos haviam abandonado e que tornariam sua condição pior que a primeira se nelas se comprometessem de novo, ii, 20. O κόσμος designa, portanto, em todas essas passagens, a terra habitada pelos homens, cf. I Pet., v, 9, e por homens pecadores. O κόσμος de outrora, que foi submerso pelo dilúvio, II Pet., iii, 6, era, portanto, a terra, habitada pelos homens corrompidos.
Quanto ao céu, são Pedro fala primeiro do céu de Deus, de onde saía a voz que, na transfiguração, deu testemunho do Filho ao Pai celeste e que ele próprio ouviu sobre o monte santo, i, 18. É nesse céu que Jesus subiu novamente e onde está à direita de seu Pai, Pet., iii, 22, e onde uma herança imortal, incorruptível e inalterável está reservada aos cristãos, i, 4. Mas os céus designam também o céu dos astros, que existia antigamente, desde a constituição do mundo, I Pet., i, 20, e que foi formado de água.
Ora, enquanto o κόσμος antigo, isto é, a terra habitada pelos pecadores, foi o único submerso pelo dilúvio, os céus e a terra estão agora reservados para o fogo no dia do juízo; e, como verossimilmente o céu de Deus não deve perecer pelo fogo, os céus, reservados ao fogo tanto quanto a terra, parecem bem ser os céus dos astros, mais do que o céu atmosférico. A comparação da conflagração universal com o dilúvio não incide sobre o teatro comum das duas catástrofes, que é, aliás, expressamente distinto pelo emprego do termo κόσμος para designar o teatro do dilúvio, e dos termos οὐρανοί e γῆ para indicar as criaturas reservadas ao fogo. Estas, que primitivamente saíram da água, perecerão finalmente no fogo. A oposição incide exclusivamente sobre o meio da ruína: no dilúvio, a água; no dia do juízo, o fogo. A comparação com o dilúvio permitiria, contudo, se se considerar apenas ela, determinar a natureza da ruína predita: não será um aniquilamento completo, assim como a terra primitiva não pereceu completamente sob a submersão do dilúvio: foram seus habitantes culpados que pereceram sob a água, cf. I Pet., iii, 20; serão sobretudo os homens ímpios que perecerão no incêndio universal do dia do Senhor. II Pet., iii, 7.
O fogo, que é um meio de purificação, cf. I Pet., i, 7, só incendiará o mundo para purificá-lo da corrupção nele produzida pela presença dos pecadores e dos ímpios. Aliás, se a predição do Senhor ainda não se realizou, não é porque tenha sido adiada; o Senhor usa antes de longanimidade para com os cristãos, a fim de que nenhum deles pereça e de que todos cheguem à penitência, II Pet., iii, 9, escapando assim à ruína dos ímpios no dia do juízo. O dia do Senhor, por outro lado, virá como um ladrão, e nesse dia, «os céus se dissiparão com estrondo, os elementos incendiados se dissolverão, e a terra e as obras que nela estão serão consumidas.» Será uma dissolução de todas essas coisas. No dia de Deus, «os céus inflamados se dissolverão e os elementos incendiados se fundirão.» Aqui, segundo a promessa divina, haverá céus novos e uma terra nova, onde habitará a justiça. II Pet., iii, 10-13. Esses versículos descrevem os efeitos da conflagração final. Cada traço da descrição precisa ser explicado. O fogo é o agente que produz esses efeitos. Os céus, primeiramente distintos dos elementos e da terra, são os céus dos astros que os hebreus criam múltiplos.
Ora, esses céus se dissiparão com estrondo. Dissipar-se-ão sob o crepitar da chama e se dissolverão sob a ação do fogo que os incendiará. Os verbos empregados indicam a natureza da ação do fogo sobre eles: o fogo os dissolverá e os destruirá. Os στοιχεῖα, de que aqui se trata, são diferentes dos στοιχεῖα τοῦ κόσμου, dos quais fala são Paulo. Gal., iv, 3, 9; Col., ii, 8, 20. Não designam os astros, pois o emprego da expressão στοιχεῖα οὐράνια é posterior à era cristã e só remonta ao século II, nem os «espíritos elementares», ou os anjos que conduzem os astros ou zelam pela conservação dos elementos do mundo. Designam os elementos de que se compõem os corpos materiais. Platão teria sido o primeiro a empregar a palavra στοιχεῖα nesse sentido, e Empédocles é tido por ter fixado em quatro o número dos elementos corporais: o fogo, o ar, a água e a terra. Esse sentido havia sido adotado pela escola judaica de Alexandria. Sap., vii, 17; xix, 17; Philon, De incorruptione mundi, 21, Opera, Londres, 1742, t. II, p. 508. Era usual entre os judeus da dispersão. São Pedro a adota aqui. Cf. F. Prat, La théologie de saint Paul, Paris, 1912, t. ii, p. 156-164.
Ora, na conflagração geral, esses próprios elementos, incendiados pela chama, se fundirão e se dissolverão. O mundo corporal perecerá pelo fogo até nos elementos que compõem todos os corpos. Quanto à terra e a todas as obras que ela contém, serão consumidas e queimadas. O incêndio final produzirá, portanto, segundo são Pedro, a dissolução completa do mundo corporal e do universo material. Todavia, essa dissolução provavelmente será apenas uma transformação, já que haverá céus novos e uma terra nova, verossimilmente produzidos da dissolução dos antigos. Ver mais adiante. Qual é agora a origem dessa doutrina sobre a conflagração universal, que é peculiar ao autor da IIª Epístola de são Pedro? Como não se a encontra expressamente formulada em nenhum outro livro do Antigo e do Novo Testamento, vários críticos racionalistas concluem daí que ela não faz parte do ensinamento de Jesus nem da revelação cristã; que não é, contudo, uma doutrina original, inventada por esse autor, mas que lhe foi tomada de empréstimo, no fim do século I (depois de 90), de uma tradição persa, babilônica ou judaica. Cf. Böklen, Die Verwandtschaft der jüdisch-christlichen mit der parsischen Eschatologie, 1902, p. 119-125; W. Bousset, Die Religion des Judenthums, 2e édit., p. 323-324, 573-574, 583, 588; Der Antichrist, 1896, p. 159-165.
Os iranianos esperavam uma torrente de chamas que devia purificar o mundo inteiro, e os estoicos ensinavam que o mundo atual acabaria numa conflagração. Cf. Arnim, Veterum stoicorum fragmenta, Leipzig, 1803, t. i, p. 32; t. ii, 183-191; Sénèque, Ad Marciam de consolatione, Opera, édit. F. Haase, Leipzig, 1852, t. i, p. 138-139. Sêneca atribuía a origem dessa ideia aos babilônios. Natur. quæst., iii, 29. São Pedro não tomou diretamente de empréstimo sua doutrina da conflagração final nem aos babilônios, nem aos persas, nem aos estoicos, cuja doutrina é diferente, como bem observaram os santos Padres. Ver mais adiante. Cf. Clemen, Religionsgeschichtliche Erklärung des Neuen Testaments, Giessen, 1909, p. 127-128. Se há empréstimo, ele vem antes da tradição judaica, que talvez tenha sofrido, ela própria, a influência de doutrinas estrangeiras anteriores. Cf. Clemen, op. cit., p. 125. É, pois, necessário comparar seu texto com a tradição judaica sobre a destruição do universo pelo fogo. M. Windisch encontra disso traços obscuros nos Salmos de Salomão, no livro de Enoque e no IVº livro de Esdras, e depois descrições claras nos oráculos sibilinos, em Josefo e na Vida de Adão e Eva. Die katholischen Briefe, dans Handbuch zum Neuen Testament, Tübingue, 1911, t. iv, p. 100.
Mas o Livro de Enoque, nas Parábolas, lii, trad. Martin, Paris, 1906, p. 105-107, com a imagem das montanhas de ferro, de cobre, de prata, de ouro, de estanho e de chumbo que, após o estabelecimento do reino dos justos sobre a terra, estarão diante do Eleito «como a cera diante do fogo e como a água que cai do alto sobre essas montanhas» e que se amolecerão a seus pés», não descreve a dissolução das montanhas no fim do mundo. Essas montanhas parecem simbolizar os diferentes reinos que precederão o reinado do Messias, ou os poderes que existirão sobre a terra quando esse reinado se estabelecer, e seu amolecimento significa que esses poderes serão abatidos diante do Messias e que os metais de que são formadas não terão valor algum a seus olhos. Os versículos 7-9 indicam claramente esse sentido simbólico. Cf. J. Lagrange, Le messianisme chez les Juifs, p. 93. O Salmo de Salomão, xv, 6, 7, não tem nada em comum com a conflagração final.
O justo que, em suas tribulações, invoca o Senhor e canta um salmo de alegria «jamais será abalado pela desgraça; a chama do fogo e o furor dos maus não o tocarão, quando vierem da face do Senhor sobre os pecadores, para aniquilar toda a substância dos pecadores.» J. Viteau, Les Psaumes de Salomon, Paris, 1911, p. 329. Se «a chama de fogo» fosse tomada ao pé da letra, designaria antes o fogo do juízo do que o fogo da conflagração; mas o sentido figurado é mais provável: essa chama de fogo é a maldade dos ímpios que desejariam devorar os justos; a imagem é traduzida literalmente pela expressão que se segue: «o furor dos maus.» O homem que o autor do IVº livro de Esdras (fim do século I de nossa era) vê, em sua sexta visão, xiii, 5-11, subir do mar e ser atacado por uma grande multidão, não mata seus adversários golpeando-os com o braço, ou com uma espada, ou com qualquer outra arma, mas como que por um sopro de fogo expirado por sua boca, por um espírito de chama emitido por seus lábios e por centelhas e tempestades produzidas por sua língua; essas três coisas, reunidas numa só, caem sobre a multidão dos inimigos e os queimam a todos, de modo que deles não resta senão cinzas e um cheiro de fumaça.
A explicação que em seguida se dá da visão, 25-38, indica claramente o sentido: o Messias, filho de Deus, vindo à terra para libertar os bons, isto é, os israelitas, destruirá as nações conjuradas contra ele e contra Sião; e, se ele não tem armas, se as fere com chamas, isso quer dizer que lhes imporá tormentos simbolizados por essas chamas, e que as destruirá sem esforço por uma lei que é assimilada ao fogo. Cf. Kautzsch, Die Apocryphen und Pseudepigraphen des Alten Testaments, t. II, p. 395-397. A doutrina do incêndio final do mundo não aparece, portanto, na literatura judaica apócrifa anterior à era cristã. O historiador judeu Josefo, ao falar das colunas de Sete, relata incidentalmente que Adão havia predito que, no fim dos tempos, uma parte dos homens pereceria pela força do fogo e outra parte pela violência e abundância da água. Ant. jud., I, ii, n. 3, Opera, Amsterdam, 1726, t. i, p. 11. Esse dado se reencontra na Vida de Adão e Eva, 49, 50, em Kautzsch, op. cit., t. II, p. 528. Mas trata-se apenas da ruína do gênero humano.
O IIIº livro dos Oráculos sibilinos, que os críticos atuais atribuem a um judeu e cuja composição situam por volta do ano 80 depois de Jesus Cristo, fala pela primeira vez da conflagração universal: πῦρ ἔσται κατὰ κόσμον ὅλον, 172; depois, após indicar os sinais, descreve seus efeitos: φλέξει δὲ χθόνα πᾶσαν, ἅπαν δ' ὀλέσει γένος ἀνδρῶν καὶ πάσας πόλιας ποταμούς θ' ἅμα ἠδὲ θάλασσαν ἐκκαύσει δέ τε πάντα, κόνις δ' ἔσετ' αἰθαλόεσσα.α. Depois disso, quando tudo estiver reduzido a pó, Deus ressuscitará todos os homens e procederá ao juízo, 172-182. J. Geffcken, Die Oracula sibyllina, dans Die griechischen christlichen Schriftsteller, Leipzig, 1902, p. 101-102. Cf. J. Lagrange, Le messianisme chez les Juifs, p. 94. Do Vº livro desses Oráculos, que é do fim do século I, não se devem citar os versos 155-161, nem os 200-213, que visam, os primeiros, à ruína de Roma e da Itália por meio de uma estrela que cairá do céu, Geffcken, op. cit., p. 111-112, e os segundos à ruína da Índia e da Etiópia por um incêndio aceso a partir do céu. Ibid., p. 114. Mas outras passagens anunciam diretamente o fim do mundo. Os maus se esconderão; ἔσται δ' ἐκ νεφέων ὄμβρος πυρὸς αἰθομένοιο, e não haverá mais colheita enquanto o gênero humano não reconhecer a Deus, que governa tudo.
Então só os hebreus colherão os frutos da terra, 274-285. Ibid., p. 117. Trata-se, portanto, de felicidade temporal para os judeus. O final do livro descreve o conflito dos astros no fim dos tempos. O próprio céu se abalará e lançará para baixo as estrelas, que incendiarão o oceano e a terra, e o éter permanecerá sem astro, 512-531. Ibid., p. 129. Noções astronômicas se misturam à visão profética. Cf. J. Lagrange, op. cit., p. 100-101. Essas descrições nada têm em comum, à parte o próprio fato da conflagração geral, com a de são Pedro, que, mesmo não sendo original, ao menos delas não tomou emprestado nenhum traço. Mas cabe perguntar se o apóstolo não é o intérprete do pensamento dos profetas e daquele de Nosso Senhor. Com efeito, nas advertências que dirige a seus leitores, propõe-se expressamente lembrar-lhes as predições dos santos profetas e o mandamento do Senhor, transmitido pelos apóstolos. Para resolver a objeção dos zombadores que escarnecem da promessa de Jesus a respeito de sua segunda vinda, ele recorre constantemente ao Antigo Testamento. Ao falar da criação e do dilúvio, refere-se visivelmente ao Gênesis. O dia do Senhor é uma expressão profética que voltou aos lábios de Jesus.
Para explicar o atraso da parusia, ele cita, iii, 8, o salmo lxxxix, 4. Suas alusões às palavras do Mestre e ao ensinamento dos apóstolos não são menos numerosas. A própria existência dos zombadores dos últimos dias foi anunciada pelos apóstolos, Jud., 18; são eles os fautores de distúrbios e de heresias mencionados nas Epístolas pastorais, I Tim., IV, 1; II Tim., iii, 1. A longanimidade do Senhor tendo em vista a salvação dos homens é salutar, como nosso amado irmão «Paulo vos escreveu segundo a sabedoria que lhe foi concedida», 9, 15, e ela está conforme à vontade divina de salvar todo o mundo, mesmo os judeus rebeldes, I Tim., ii, 4; Rom., ix-xi. O dia do Senhor, que virá como um ladrão, é uma palavra de são Paulo, I Tess., v, 2, fundada numa comparação empregada pelo próprio Mestre. Mt., xxiv, 43. Cf. Apoc., III, 3; XVI, 15. A lição de são Pedro termina por uma exortação à vigilância, iii, 17; é precisamente a grande lição que resulta do discurso escatológico de Nosso Senhor e que se resume nestas palavras: «Vigiai e estai prontos.»
E se quereria que, numa exposição tão nutrida de Escritura, iii, 10, sobre o ponto preciso da objeção dos zombadores, o autor, seja ele quem for, ainda que não fosse o próprio apóstolo são Pedro, como pretendem os críticos racionalistas, tivesse introduzido sobre o embrasamento final do mundo um ensinamento estranho à doutrina dos profetas, de Jesus e dos apóstolos, que ele teria tomado de empréstimo aos babilônios, aos persas, aos estoicos ou mesmo aos judeus de seu tempo? Os zombadores teriam então jogo fácil para escarnecer da resposta dada à sua objeção. Todo empréstimo a uma fonte não escriturística parece, pois, inverossímil, sem contar que não se pode fazer disso a prova direta. É, portanto, mais racional concluir que são Pedro interpretou, a respeito mesmo da conflagração última, as predições dos antigos profetas e o ensinamento do Mestre e dos outros apóstolos. E, de fato, encontram-se nas Escrituras bastantes indícios que serviram de fundamento ao anúncio da ruína final do mundo pelo fogo. O agente da dissolução do universo, o fogo, é mencionado simbolicamente no Antigo Testamento. Vários juízos de Javé contra os inimigos de Israel são descritos pelos profetas como teofanias e juízos no e pelo fogo da cólera divina. Ver Fogo do juízo, col. 2239.
Todos esses oráculos, ainda que fossem puramente metafóricos, puderam servir de base à doutrina de são Pedro sobre o juízo e a purificação do mundo por um fogo real. Essa conclusão, tornada verossímil já por essa consideração antes exposta, de que o apóstolo apoia toda esta passagem na Escritura, torna-se ainda muito mais forte quando constatamos que, em matéria de escatologia geral, ele toma de empréstimo a Isaías, ii, 16; lxv, 17; lxvi, 22, os termos «novos céus» e «nova terra onde habitará a justiça», iii, 13. O apóstolo são Paulo, por outro lado, a quem são Pedro se refere expressamente a propósito da longanimidade salutar de Nosso Senhor no retardamento de sua parusia, tinha dito que o Senhor Jesus se manifestará ἐν πυρὶ φλογός, II Tess., i, 8, e que o dia do Senhor, esse dia que são Pedro, iii, 10, manifestará as obras de cada um pelo fogo que as provará. I Cor., iii, 13. Não ignoro que a primeira dessas passagens pode entender-se, como as do Antigo Testamento, de um fogo metafórico, e que a segunda é interpretada de maneiras diferentes. Fica, ao menos, que a imagem do fogo permanece ligada à manifestação dos juízos de Deus sobre os homens e sobre suas obras.
Tendo que falar do último juízo de Deus sobre o mundo inteiro, são Pedro adotou as palavras dos profetas e do apóstolo são Paulo, tomou-as ao pé da letra e entendeu-as de um fogo real, que deve dissociar todas as coisas, mesmo os elementos dos seres materiais; interpretou assim, segundo a tradição oral, conhecida e recebida no meio dos destinatários de sua carta, os oráculos proféticos e o ensinamento apostólico, e sua interpretação devia estar suficientemente fundada para que pudesse concorrer para resolver as objeções dos zombadores de seu tempo, que nada deviam encontrar para lhe opor. Introduziu esse dado novo numa escatologia que é a dos Evangelhos sinóticos e que difere da do Apocalipse, onde o juízo final deve ser precedido e anunciado por toda uma série de acontecimentos, xix, 11-xx, 15, ainda que se encontre com são João a respeito da criação de novos céus e de uma nova terra. Apoc., xxi, 1. Uma palavra de Nosso Senhor, Lc., xvii, 20, forneceu-lhe a comparação com o dilúvio. A doutrina sobre a conflagração geral não é, pois, estranha à revelação cristã, e ela foi recebida na Igreja, como veremos mais adiante, como fazendo realmente parte dessa revelação.
— 2° A renovação do mundo antigo. A dissolução do mundo corporal pelo fogo será o começo da eterna consumação de todas as coisas. Nesse estado permanente, o universo material não terá sido aniquilado; sob a ação do fogo, instrumento purificador posto em obra pela vontade de Deus, este mundo será purificado, transformado, renovado. Já ouvimos o profeta Isaías, são Pedro e são João depois dele, anunciar a criação de novos céus e de uma nova terra para substituir os antigos. Em seus oráculos, o verbo «criar» não deve ser tomado ao pé da letra e entendido de uma criação ex nihilo. Isaías, que forneceu o termo, empregava uma linguagem poética, figurada, que indicava por essa criação uma simples renovação do passado, do reino messiânico, de Israel ou dos justos no céu.
O texto mais rigoroso de são Pedro não deve ser entendido de uma destruição completa do mundo corporal; os elementos dos corpos materiais serão sem dúvida dissociados pelo calor do incêndio universal, não serão aniquilados, e pode-se pensar que voltarão a entrar, como diríamos em termos modernos, na composição química e física dos novos céus e da nova terra, que serão conformes ao estado dos justos ressuscitados, seus habitantes. Essa renovação da criação material no fim dos tempos é anunciada em outras passagens da Escritura. A παλιγγενεσία, de que fala Nosso Senhor, Mt., XIX, 28, e na qual recompensará seus apóstolos que deixaram tudo para segui-lo, designa a renovação geral que se seguirá ao juízo final e que será introduzida pelo cataclismo em que se abismará o mundo atual. Cf. A. Loisy, Les Évangiles synoptiques, Ceffonds, 1908, t. ii, p. 221. Num discurso pronunciado no templo de Jerusalém depois da cura do coxo, são Pedro declarou que Jesus Cristo subira aos céus até os tempos da restauração de todas as coisas de que Deus falou pela boca de seus antigos profetas. Atos, III, 21. Essa ἀποκατάστασις πάντων é a instauração física e moral do mundo inteiro no estado de perfeição a que ele está destinado. Crelier, Les Actes des apôtres, Paris, 1883, p. 44; H. J. Holtzmann, Die Apostelgeschichte, 3ª ed., Tubinga e Leipzig, 1901, p. 41-42; H. Wendt, Die Apostelgeschichte, Gotinga, 1899, p. 111-112.
Uma interpretação bem fundada vê a razão da restauração final de todas as coisas exposta por são Paulo, Rom., viii, 19-22. Toda a criação material espera e deseja ser libertada da corrupção a que foi sujeitada, por um tempo e apesar de sua natureza, por Deus, que amaldiçoou o mundo e o submeteu à alteração e ao definhamento por causa do pecado de Adão. Essa criação, personificada pelo apóstolo, guarda a esperança de ser libertada dessa servidão e de ter parte um dia na liberdade e na glória dos homens tornados filhos adotivos de Deus. De corruptível que era, tornar-se-á incorruptível. Enquanto espera a realização de sua esperança, ela geme e sofre as dores do parto; mas formará mais tarde um mundo novo, incorruptível e glorioso. Beelen, Comment. in Epist. S. Pauli ad Romanos, Lovaina, 1854, p. 251-257; R. Cornely, Comment. in Epist. ad Romanos, Paris, 1896, p. 423-434; F. Godet, Commentaire sur l'Épître aux Romains, Neuchâtel, Paris, 1890, t. II, p. 180-191; B. Weiss, Der Brief an die Römer, Gotinga, 1899, p. 360-366; F. Prat, La théologie de saint Paul, t. ii, p. 527-528; C. Toussaint, Épîtres de saint Paul, Paris, 1913, t. ii, p. 209, 223-224.
Vários comentadores entendem ainda no sentido da renovação futura do mundo inteiro a restauração que Deus queria fazer de todas as coisas em Jesus Cristo. Ef., i, 10. Cf. L. Atzberger, op. cit., p. 372-374.
1° Padres apostólicos. Não parece que a tradição apostólica sobre o fim do mundo e a renovação futura tenha sido fixada em todos os seus detalhes de modo a impor a todos os cristãos um ensinamento absolutamente uniforme. O pseudo-Barnabé entende a mudança do sol, da lua e das estrelas no sentido milenarista e vê no sétimo dia da criação um símbolo desse reino terrestre num mundo renovado. Epist., xv, 5, Funk, Patres apostolici, t. i, p. 84. O autor da II Cor., xvi, 3, ibid., p. 204, faz notar a seus leitores que o dia do juízo já vem como uma fornalha ardente, e acrescenta, inspirando-se em Isaías, xxxiv, 4, e em são Pedro, II Pe., iii, 10: τακήσονταί τινὲς τῶν οὐρανῶν καὶ πᾶσα ἡ γῆ ὡς μόλιβδος ἐπὶ πυρὶ τηκόμενος. Ele já restringe, se a leitura τινές for autêntica, a desagregação dos céus a apenas alguns.
Hermas tinha visto uma besta que tinha na cabeça quatro cores, preto, fogo e sangue, ouro e branco. Vis., IV, 1, 10, ibid., p. 460. Ora, a virgem que ele encontrou em seguida explicou-lhe a significação dessas quatro cores: o preto representa o mundo; sangue, mundo, e a cor de fogo e de... indica que isto perecerá pelo sangue e pelo fogo, iii, 2, p. 464. Em 3, sua 1ª visão, iii, p. 422, havia retido uma palavra, 4, que lhe dissera a mulher descida do céu, a do criador do céu e da terra: transfere os céus, os montes, as colinas e os mares e aplana todas as coisas para os eleitos, a fim de realizar as promessas que lhes tinha feito. Cf. L. Atzberger, Geschichte der christlichen Eschatologie, p. 109-110.
2° Padres apologistas. Ensinam que o mundo deve perecer pelo fogo. Haverá, pois, no fim dos tempos, um embrasamento universal. São Justino diz que a consumação de todas as coisas perecíveis pelo fogo foi anunciada pela Sibila e por Histaspes. Apol., i, 20, P. G., t. VI, col. 357. Mas Moisés, Deut., xxxii, 22, Malaquias, iv, 1, e Isaías, xxx, 28, 30, também predisseram esse embrasamento futuro. S. Justino, Apol., 60, 420; Teófilo de Antioquia, Ad Autolyc., l. II, 38, col. 1117. Os Padres apologistas conheciam a doutrina estoica sobre a conflagração final, mas não a adotavam quando estava em desacordo com a doutrina cristã.
Assim, enquanto os estoicos criam que o mundo seria purificado pelo fogo em diversos períodos, Taciano observa que a conflagração geral só ocorrerá uma vez. Adversus Graecos, 6, col. 817. Para os estoicos, o embrasamento do mundo era, a cada período, a consequência necessária da lei do curso variável das coisas; são Justino atribuía-o diretamente a Deus e o considerava como uma punição do mundo. Apol., II, 7, col. 456. Alguns estoicos pensavam que o próprio Deus seria dissolvido pelo embrasamento do mundo. São Justino, Apol., i, 20, col. 357, sabia bem que Deus era inalterável. O mesmo doutor parece dizer, em sua IIª Apologia, 7, que o fogo do juízo destruirá tudo para fazer desaparecer os ímpios, anjos e homens, como o dilúvio, que não deixou nenhum homem vivo, exceto Noé e sua família. Inspirava-se em são Pedro e não nos estoicos, mas, quando diz que, para salvar os cristãos, a conflagração universal é adiada, Apol., i, 28, 45; II, 7, col. 372, 396, 456, não quer dizer que o embrasamento final acarretaria a ruína total do mundo.
Aliás, ele sabe que Deus Pai renovará o céu e a terra pelo Cristo, Dialogus cum Tryphone, 113, col. 737, mas talvez seja isso apenas para o reino de mil anos. Vê ainda na nuvem do deserto uma figura de um povo novo. Ibid., 131, 780-781. Atenágoras pensa que, no mundo glorificado, não haverá mais seres ininteligentes e inanimados. De resurrectione, 10, col. 992. Santo Teófilo de Antioquia parece dizer, ao contrário, que todos os animais voltarão à sua primeira natureza e que serão inofensivos e que assim o homem será reconduzido ao seu primeiro estado, em que não pecará mais. Ad Autol., l. II, 17, col. 1080-1081. Cf. L. Atzberger, op. cit., p. 162-163. Aos testemunhos dos apologistas juntemos o dos Atos de Paulo, obra católica composta provavelmente em Antioquia da Pisídia entre 160 e 170. O apóstolo exorta Longo e Cesto a se converterem e a se salvarem do fogo que acorre contra o mundo inteiro. «Feliz o homem que crer em Deus e que viverá na eternidade, quando esse Deus vier queimar, purificando-a, esta terra.» Martyre de S. Paul, iv, L. Vouaux, Les Actes de Paul et ses lettres apocryphes, Paris, 1913, p. 298-301.
— 3° Os Padres do século II ao IV. São Ireneu. Santo Ireneu faz perecer o Anticristo e seus aliados pelo fogo, antes do estabelecimento do reino terrestre de Cristo. Assim como houve, nos dias de Noé, um dilúvio de água, haverá então um diluvium ignis. Cont. haer., l. V, c. xxix, n. 2, P. G., t. VII, col. 1201-1203. Cf. c. xxx, 1207-1208. No fim dos tempos haverá um incêndio. l. IV, xx, n. 11, col. 1041. Pode-se perguntar, ibid., loc. cit., se ele é diferente do primeiro. Seja como for, o bispo de Lyon sabe que o mundo não será aniquilado, mas que mudará apenas de figura e de forma. Ver mais acima, col. 2507. Os novos céus e a nova terra serão apropriados ao estado novo da humanidade, e essa ordem de coisas durará sem fim. Ibid., V, c. xxxvi, n. 1, col. 1222.
Para santo Hipólito, o mundo será renovado no fim dos tempos do ponto de vista físico. O agente dessa renovação será o fogo. Empédocles e os estoicos o ensinavam, Philosophoumena, l. i, 3, P. G., t. xvi, col. 3028, assim como Heráclito, l. ix, 10, col. 3375. Davi fala disso também no sl. xviii, 7, e ninguém pode escapar aos raios dessa chama. De Christo et Antichristo, P. G., t. X, col. 784. Hipólito tinha se proposto a falar da conflagração final no curso de seu tratado, ibid., 5, col. 733; mas limita-se a dizer, loc. cit., que Cristo, em seu advento, acenderá esse incêndio e fará o juízo contra os que não creram nele. Cf. H. Achelis, Hippolyts kleinere exegetische und homiletische Schriften, em Die griechischen christlichen Schriftsteller. Hippolytus, Leipzig, 1897, t. I, p. 44.
Para Tertuliano, o mundo envelhecido e tudo o que nele nasceu perecerão pelo fogo. De spectaculis, 30, P. L., l. I, col. 000. Esse fogo é um fogo de juízo e de castigo que atingirá tudo o que serviu ao pecado. De baptismo, 8, P. L., ibid., col. 1209; cf. Adv. Marcionem, l. III, c. xxiv, t. ii, col. 313. Será também um fogo de purificação, que renovará e rejuvenescerá todas as coisas. O mundo será, pois, renovado, e sua ruína será apenas uma mudança, transactio. De anima, 55, t. II, col. 744. No mundo futuro, só o mal terá desaparecido; o estado primitivo da inocência será restabelecido; os animais domésticos pastarão com os animais selvagens e as crianças brincarão com as serpentes. Adversus Hermogenem, 11, ibid., col. 207.
Clemente de Alexandria relata que os pagãos, sobretudo os estoicos, Heráclito e Platão, souberam que o mundo devia perecer e que seria renovado por um grande embrasamento. Strom., V, 1, P. G., t. ix, col. 21, 24. Orígenes ensina a conflagração final. Distingue o dilúvio de água, narrado no Gênesis, vii, 6, do futuro dilúvio de fogo. Selecta in Genesim, P. G., t. xii, col. 105. O primeiro é a figura do segundo. In Gen., homil. II, 3, ibid., col. 107. Para desculpar as filhas de Ló, observa que elas tinham experimentado algo do que se passará no fim do mundo pelo fogo e que não sabiam que, depois da destruição de Sodoma pelo fogo, o mundo ainda duraria muito tempo. Tinham ouvido dizer que, no fim do mundo, a terra e todos os elementos seriam embrasados na chama do fogo. Creram que esse acontecimento tinha ocorrido e que viam o fogo, suas chamas e a devastação do universo. In Gen., homil. V, n. 4, col. 191; Cont. Celsum, l. IV, n. 45, t. XI, col. 1102.
Celso pretendia que os cristãos tinham compreendido mal as ideias pagãs relativas a dilúvios e a incêndios periódicos e que representavam Deus como um carrasco, armado de fogo, descendo à terra no fim do mundo. Orígenes lhe responde que os filósofos gregos aprenderam de Moisés, que era bem mais antigo do que eles, a doutrina do embrasamento do mundo. Cont. Celsum, l. IV, n. 11, col. 1040-1041. Os cristãos não atribuíam nem o dilúvio nem a conflagração do universo aos cursos dos astros; encontravam a causa disso no pecado. Como o mal tomou na terra uma grande extensão e um grande poder, a terra será purificada dele pela água ou pelo fogo. Ibid., n. 12, col. 1041.
Orígenes, é verdade, restringe o mal aos homens e às suas obras, e também sua purificação pelo fogo, e não diz expressamente que o mundo corporal será destruído por esse fogo. Ibid., n. 13, col. 1044. Esse fogo brilhará, mas não consumirá. L. V, n. 14-17, col. 1201-1205; VIII, n. 72, col. 1624-1625. Orígenes pergunta-se se o mundo sensível deve ser aniquilado ou se mudará simplesmente de forma. As passagens bíblicas de são Paulo, 1 Cor., VII, 31, do salmista, sl. ci, 27, e de Isaías, lvi, 28, parecem-lhe favorecer o segundo sentimento. Aliás, ele não compreenderia como naturezas imortais poderiam viver sem corpo, visto que só as pessoas da santíssima Trindade têm a propriedade de ser independentes de toda matéria. Outros poderão pretender que, depois da consumação universal, toda a matéria corporal será purificada e se tornará tão pura quanto o éter celeste. Mas só Deus sabe o que será disso. De princ., I, vi, 4, P. G., t. XI, col. 169-170. Cf. L. Atzberger, op. cit., p. 452. É muito difícil determinar exatamente o que adviria da criação material na apocatástase universal imaginada por Orígenes, ibid., p. 453-456. Ver Inferno, t. v, col. 57-60. Mas isso não é senão uma especulação pessoal do catequista alexandrino, sem ligação com a tradição eclesiástica. Ver Orígenes.
São Metódio de Olimpo diz primeiramente que o mundo perecerá pelo fogo. Convivium decem virginum, x, 4, P. G., t. xviii, col. 200. Mas não se pode dizer que tudo será destruído, que a terra, o ar e o céu não existirão mais. O mundo inteiro será queimado para ser purificado e renovado; será inundado por um fogo destruidor, mas o incêndio não o aniquilará nem o destruirá completamente. De resurrectione, col. 273. A criação permanecerá, pois se terá tornado melhor e mais bela e se alegrará com a ressurreição dos filhos de Deus, que ela agora aguarda como a libertação da corrupção. Is., lii, 2; Rom., viii, 22, 23; Is., lvi, 22; xlv, 18. Não é para aniquilá-las que Deus criou todas as coisas; é para conservá-las para sempre. Por isso o céu e a terra existirão ainda depois do incêndio e da revolução que terão sofrido. Ibid., 8, col. 274-277. Que não se invoquem Mt., xxiv, 35, e sl. ci, 27, para sustentar a destruição de tudo; é uma particularidade da Escritura chamar de destruição o melhoramento e a glorificação do mundo, e essa linguagem é verdadeira, visto que o antigo estado de coisas não existe mais depois que tudo foi embelezado.
São Paulo disse: « A figura deste mundo passa », e não: « este mundo passa ». I Cor., vii, 31. É um aperfeiçoamento, como a passagem da infância à idade de homem perfeito, I Cor., xiii, 11, Ibid., 9, col. 276-277. Cf. L. Atzberger, op. cit., p. 490.
Na parte cristã dos Oráculos sibilinos, a ruína do mundo pelo fogo é descrita várias vezes, l. II, 253-255. Geffcken, Die Oracula sibyllina, p. 40. Os justos passarão rapidamente por esse fogo e sem dor, l. II, 330-338. Op. cit., p. 44. O fogo se espalhará como uma inundação e destruirá tudo. Os maus que arderem não poderão mais olhar o céu, que não estará mais cheio de estrelas, mas cheio de fogo. Não desaparecerão, mas se afundarão eternamente em seus corpos e arderão em suas almas; verão assim que a lei de Deus não engana, l. VII, 120-129. Op. cit., p. 139. O fogo devorará primeiro tudo, e os cumes das montanhas, como as cabeças de toda carne, cobrir-se-ão de uma fina poeira, VIII, 15, 16. Op. cit., p. 143. O fogo explorador queimará a terra, o céu e o mar e até as portas do inferno. Depois da ressurreição, o fogo queimará eternamente os maus, l. VIII, 225-228. Op. cit., p. 155. Cf. l. VIII, 243, 411, 412, p. 152, 168. Cf. L. Atzberger, op. cit., p. 504-505.
Alexandre de Licópolis, Tractatus de placitis manichaeorum, 26, P. G., t. xviii, col. 448, refuta as ideias dos maniqueus sobre a natureza do fogo que, segundo eles, preexistia e era incriado, e que produzirá o incêndio final do mundo. Pergunta a seu adversário qual será a natureza desse fogo, que arderá mas não luzirá. Se está fora do mundo, onde se encontra então? Mas, se está no mundo, por que o mundo permanece até agora são e salvo? Se um dia cair sobre o mundo para destruí-lo, já está desde agora unido ao mundo? Se está fora do mundo, num lugar especial, como cairá um dia sobre o mundo? Como sairá desse lugar, com que força e com que violência? Como se pode conceber um fogo que não tem nada para queimar? Será a umidade que deve alimentá-lo? Esse fogo que está fora do mundo só pode ser matéria, visto que o sol e a terra são, como essências puras, distintos desse fogo. Se assim for, quando o mundo for destruído pelo poder divino, esse fogo perseverará? Como poderá destruir alguma coisa ou ser destruído por outro? Não se pode compreender que possa ser destruído por um fogo semelhante, e de que serviria Deus destruir o que não fez? Esse fogo tenebroso é maior ou menor que a matéria que Deus deve destruir?
Se lhe é interior, como o atacará? Se lhe é superior, poderá replicar-se sobre si mesmo, visto que é da mesma natureza, mas não se destruirá, contudo, tal como o Nilo não destrói os canais que forma. Ao refutar a doutrina dos maniqueus sobre o fogo tenebroso, que existiria fora do mundo, Alexandre raciocina conforme a doutrina cristã, que faz do fogo da conflagração geral uma criatura de Deus. Cf. Atzberger, op. cit., p. 520. Entre os latinos, são Cipriano nada diz sobre a maneira como o mundo terminará nem sobre a natureza do mundo que substituirá o antigo. Minúcio Félix trata da conflagração final como filósofo. O vulgo admite geralmente que o fogo pode cair de repente, ou que é difícil não o crer. Com efeito, que filósofo duvida, que não sabe que tudo o que existe cai, que tudo o que foi feito será aniquilado? Os estoicos ensinam que o céu e tudo o que ele contém serão um dia presa das chamas, pois, depois de ter sido mantido pela umidade, este mundo deve passar pelo incêndio. Os epicuristas são da mesma opinião a respeito do embrasamento dos elementos e do desmoronamento do mundo. Platão pensa a mesma coisa. Não é, pois, de admirar que essa massa seja destruída por aquele que a fez. Octavius, n. 34, P. L., t. iii, col. 344-345.
Os filósofos ensinam, pois, a mesma coisa que os cristãos, não porque os cristãos tenham seguido seus passos, mas porque os filósofos guardaram, misturada de erros, a verdade que Deus tinha anunciado por seus profetas, col. 346. Cf. L. Atzberger, op. cit., p. 549. Novaciano ensinava que a criação inteira, assim como a humanidade, seria renovada. Ad itjncum diem judicii nutndiis iste festinet. De Trinitate, 8, P. L., iii, col. 900. Todas as coisas esperam de Deus sua libertação, quando tiverem perdido sua corruptibilidade, e devem voltar a Deus, seu criador. Ibid., 3, col. 892. Segundo Comodiano, o juízo final e o fim do mundo terão lugar logo depois do reinado de mil anos. O fogo será de novo enviado por Deus sobre a terra, e esta suspirará pelo fim de todas as coisas. Toda a natureza será mudada pelas chamas; o fogo arderá sob a terra e as montanhas se derreterão; não restará nada do mar, que será devorado pelo fogo; tudo o que está no céu e na terra será transformado. Um outro céu, novo e eterno, uma nova terra serão criados; os justos habitarão o mundo renovado. Instructiones, xlv, P. L., t. v, col. 234, 236.
Descreve ainda mais longamente o fim do mundo em seu Carmen apologeticum, 999-1021, em Pitra, Spicilegium Solesmense, Paris, 1852, t. i, p. 48-49. Será um dia terrível, um dia de fogo. Depois de diversos sinais preliminares, o fogo cairá com o estrondo do trovão. Relâmpagos descerão dos astros e acenderão uma tempestade de fogo. As estrelas cairão do céu e serão elas mesmas julgadas. Os habitantes dos céus ficarão apavorados, quando se consumar a ruína do mundo. Uma parte dos incrédulos será queimada a fogo lento. O poder do fogo irá a toda parte aonde os homens se refugiarem. O próprio ar será embrasado. A terra será assim purificada pelo fogo durante sete meses. Só depois Cristo descerá do céu e os mortos ressuscitarão. L. Atzberger, op. cit., p. 565-566.
Vitorino de Pettau fala da consummatio mundi. In Apoc., XIV, 15, P. L., t. v, col. 340. Descobre a maneira como se produzirá o fim do mundo na comparação daquele que está sentado no trono com o jaspe e a sardônica. A primeira dessas pedras preciosas tem a cor da água, a segunda a do fogo. Essas duas pedras figuram os dois grandes juízos: o dilúvio e o embrasamento futuro. O arco-íris que rodeia o trono significa que os homens não têm mais que temer a água, mas o fogo. In Apoc., iv, 3, col. 324.
Arnóbio relata três opiniões sobre o fim do mundo: a de Aristóteles, que pretende que o mundo não foi criado e que não desaparecerá; a de Platão, que o diz imortal, ainda que tenha tido um começo e esteja sujeito à fraqueza; a dos estoicos, segundo a qual é frágil, foi criado e deve necessariamente perecer. Adversus nationes, ii, 56, P. L., t. v, col. 898. Recorda o parecer de Platão, segundo o qual os dilúvios e os embrasamentos do mundo têm por efeito purificar a terra, ibid., i, 5, col. 731, e o de Panécio, de Crisipo e de Zenão, segundo o qual o fogo que deve destruir o mundo já existe e arderá quando chegar o tempo. Ibid., ii, 9, col. 824. Quanto a ele, não admite nenhuma dessas opiniões e sustenta antes que, sobre esse assunto como sobre muitos outros problemas, não se pode saber nada de certo e que não adianta nada estar informado. Ibid., ii, 55-61, col. 897-908. Cf. L. Atzberger, op. cit., p. 582.
Segundo Lactâncio, no fim do reinado de mil anos, o mundo será renovado por Deus, o céu se enrolará sobre si mesmo e a terra será transformada. Os homens se tornarão semelhantes aos anjos. A segunda ressurreição terá então lugar, e os ímpios arderão eternamente no fogo à vista dos anjos e dos justos. Inst. div., vii, 26, 1-7, P. L., t. vi, col. 813-814. Cf. Epitome, 72, col. 1092.
— — 4° Padres do IV e do v século. 1. Padres gregos. Segundo Eusébio de Cesareia, o mundo deve mudar, tal como o ensinam a Escritura, 1 Cor., vii, 31, e Platão no Timeu e na República. Praep. evang., XI, c. xxxii, P. G., t. XXI, col. 929-933. A tragédia grega dizia que o mundo seria destruído pelo fogo, XIII, c. XIII, col. 1129.
Segundo os estoicos, tudo será mudado primeiro em ar, depois finalmente dissolvido pelo fogo etéreo. Crisipo não admitia a destruição da substância das coisas, o que é impossível, mas apenas uma certa mudança. O fogo será como uma semente, de onde provirá um mundo mais perfeito do que aquele que existia antes. É a doutrina de Zenão, de Cleantes e de Crisipo, XV, c. xviii, col. 1348. Ver a maneira como eles explicavam essa renovação, c. xix, col. 1348-1349. Segundo Pitágoras, Platão e os estoicos, o mundo, produzido sem Deus e naturalmente destinado à corrupção, por ser corporal, não perecerá contudo; será conservado pela providência divina. Epicuro, ele, como dizia, pereceria, porque foi engendrado, como um animal e uma planta. Xenófanes o declarava eterno, sem começo, e isento de toda corrupção. Para Aristóteles, a parte sublunar do mundo é passível e as coisas terrestres nela morrem por um destino fatal, XV, c. xxxv, col. 1385. Mas a doutrina cristã sobre o fim do mundo não vem dos filósofos.
Aprendemos de Cristo, diz Eusébio, que o mundo foi feito e que o céu, o sol, a lua e as estrelas são suas obras. Os filósofos concordam com os hebreus em afirmar a criação do mundo inteiro. Da mesma forma, aprendemos das Escrituras a consumação do mundo e sua mudança para melhor, que Platão já ensinava. Demonstr. evang., l. III, n. 3, P. G., t. XXII, col. 192-193. Se os céus não tivessem sido criados, durariam sempre e não poderiam mudar nem passar a outra condição. Porque Deus os criou, ele pode mudá-los se quiser, pois são de natureza corruptível; só o criador é eterno. Os céus, que são tão belos, serão submetidos à corrupção. Essa corrupção os renovará, e Deus realizará essa renovação tão facilmente quanto um homem troca de roupa. Os céus serão mudados numa forma melhor e sofrerão uma transformação que os aperfeiçoará: passarão da vetustez à renovação e à incorruptibilidade. In ps. II, 26, P. G., t. XXIII, col. 1261. Comentando o mesmo salmo, santo Atanásio diz que os céus, embora sejam uma obra grande e excelente, serão eles próprios submetidos à corrupção. Mas essa corrupção será para eles uma renovação: eles se enrolarão, com efeito, mudados numa forma melhor. P. G., t. XXVII, col. 432.
Para santo Basílio, o mundo, que teve um começo, terá um fim; as mudanças que ele sofre o demonstram. I Cor., vii, 31; Matth., xxiv, 35. In Hexaemeron, homil. i, n. 3, P. G., t. XXIX, col. 9. Muitos homens célebres, mas ainda maiores por sua loquacidade do que por sua dignidade, pretendem que o universo será queimado e que reviverá a partir de algumas razões seminais que restarão das coisas queimadas. Deles deduzem infinitas corrupções e regenerações do mundo. Mas se afastam da verdade nesses dois pontos e estão em erro. Ibid., homil. iii, n. 8, col. 73. O céu não é composto dos elementos primeiros, embora alguns o tenham pensado. Mas a formação de elementos contrários é causa de ruína e dissolução. Os céus também não são compostos de um quinto elemento, o éter. Ignoramos sua natureza, que Deus criou, n. 11, col. 25, 28. Nas perseguições presentes é preciso aguardar a revelação do céu e a vinda do Salvador. Com efeito, se toda criatura se dissolve, se a figura deste mundo deve mudar, que há de espantoso em que nós, que somos criaturas, estejamos submetidos aos males comuns e a aflições que o justo juiz recompensará? Epist., cxxxix, n. 2, P. G., t. XXXII, col. 584.
O mundo inteiro, no qual habitamos, está repleto de mortais; tudo nele está sujeito à corrupção. O céu será dissolvido um dia, o próprio sol não persistirá; todas as estrelas, os animais terrestres e aquáticos, que fazem o ornamento da terra, a própria terra, tudo o que está submetido à corrupção, em breve não existirão mais. É uma consolação na dor, Epist., vi, n. 2, col. 244.
São Gregório Nazianzeno declara que as mudanças futuras do céu e da terra, anunciadas pela Escritura, Agg., ii, 7, serão semelhantes às que ocorreram anteriormente. Em sua opinião, a Escritura enuncia assim uma ilustre renovação das coisas. É preciso crer em são Paulo, que diz que a última mudança da terra não será senão a segunda vinda de Cristo, a transformação de tudo e sua translação ao repouso, ao abrigo de toda agitação. Orat., xxi, in laudem S. Athanasii, n. 25, P. G., t. XXXV, col. 1109. Para são Gregório de Nissa, quem admite que o mundo teve uma origem não pode deixar de conceder que ele terá um dia um fim. A palavra de Deus necessariamente predisse que todas as coisas cessarão de se mover, e nós a aceitamos. Como isso se fará? Nossa curiosidade não é satisfeita nesse ponto. De hominis opificio, c. xxiii, P. G., t. XLIV, col. 209, 212.
Segundo Dídimo, tudo pode se corromper e ser mudado; é próprio das criaturas. As coisas criadas no tempo envelhecem com o tempo. Quando o céu e a terra forem destruídos ao mesmo tempo, para onde passarão, segundo a palavra de Nosso Senhor? Pode-se dizer com razão que serão enrolados como uma coberta. Acrescenta-se: serão mudados. Só Deus é imutável. In ps. II, 28, P. G., t. XXXIX, col. 1517, 1520.
Os céus e a terra são reservados para o fogo, mas haverá novos céus e uma nova terra, distintos dos que existem agora. Haverá três mundos sucessivos: um século e uma terra sem céus, os céus e a terra atuais, novos céus e uma nova terra. Os céus e a terra atuais serão mudados, e sua mudança será semelhante à que produziu o dilúvio. O autor da II Epístola de são Pedro o soube pelas palavras de Nosso Senhor. Luc., xvii, 26, 27. Acrescenta que a criação deve ser dissolvida pelo fogo. O dia do juízo virá como um ladrão. Nesse dia, os céus passarão com grande estrondo e sem demora, sendo os elementos destruídos pelo fogo. Depois disso, quando os céus forem radicalmente removidos, haverá novos céus e uma nova terra, nos quais os justos possuirão a justiça e as promessas de Deus. Mas Dídimo acrescenta que essa Epístola é falsa e que, embora seja divulgada, não está no cânon das Escrituras. Enarrat. in Epist. II Pet., III, 5, col. 1773-1774.
Para são Cirilo de Jerusalém, quando Nosso Senhor vier ao fim do mundo, ocorrerá a consumação derradeira e o mundo criado será renovado. Por causa dos crimes nele cometidos, este mundo passará para que o teatro desses crimes não permaneça, para que um mundo mais belo seja produzido. A Escritura dá disso a garantia. Is., xxxiv, 4; Matth., xxiv, 29. Os astros morrerão; talvez ressuscitem. O Senhor enrolará os céus não para fazê-los perecer, mas para torná-los mais belos. Ps. ci, 26, 27. Perecerão, isto é, envelhecerão, como diz a sequência, e serão mudados. Ibid., 27, 28. Diz-se igualmente que o homem perecerá, Is., lvii, 1; contudo, como ele ressuscitará. Assim aguardamos uma espécie de ressurreição dos céus. Joël, ii, 31; Act., ii, 20; Matth., xxiv, 35. As coisas visíveis passarão, e daí resultará que serão mais belas. Cat., xv, n. 3, 4, P. G., t. XXXIII, col. 873, 876. O mundo inteiro deve passar e toda casa deve ser destruída. Como voltará Jó à sua casa? Job, vii, 9, 10. Ele mesmo o explica pelo exemplo da árvore que renascerá. Job, xiv, 7, 10. Cat., xviii, n. 15, col. 1033.
Depois de citar Rom., viii, 22, 23; Is., lxv, 22; xlv, 8, santo Epifânio acrescenta que não é coisa vã, sustentada por homens ineptos, dizer que Deus criou o universo inteiro para que fosse habitado e subsistisse sempre. Donde é necessário que a terra e o céu ainda existam depois da conflagração universal. A explicação dessa doutrina exigiria longos desenvolvimentos. Todas as coisas não serão mudadas numa matéria em repouso e sem movimento, nem numa matéria semelhante à que existia antes, nem no nada absoluto e na destruição.
O bispo de Salamina propõe então esta objeção: se o universo inteiro não perecerá, como disse o Senhor que o céu e a terra passarão, Matth., xxiv, 35, e o profeta que o céu se dissipará como a fumaça e que a terra envelhecerá como uma veste, Ps. ci, 27? Ele responde dizendo que é costume da Escritura chamar τὴν ἀπώλειαν τὴν εἰς τὸ κρεῖττον καὶ ἐνδοξότερον ἀποκατάστασιν ταύτης τοῦ κόσμου μεταβολήν, οἷον τοῦ πρόσθεν σχήματος ἀπολλυμένου κατὰ τὴν εἰς τὸ φαιδρότατον ἁπάντων ἐξαλλαγήν. Não há nada de contraditório nem de absurdo nas santas Letras. Ora, em 1 Cor., vii, 31, são Paulo não diz: O mundo passa, mas: A figura deste mundo passa.
A Escritura tem por costume chamar de morte a mudança de uma figura anterior em algo melhor e mais belo: assim, a passagem da infância à idade madura. Como em 1 Cor., XIII, 1. A criatura ficaria perturbada se devesse perecer nessa conflagração para ser criada de novo, mas ela não será destruída, para que habitemos num mundo restaurado, sendo nós mesmos restaurados e isentos de dor. Ps. ciii, 30. Enfim, Deus fará um ar mais temperado. Como a terra perseverará depois do fim do século presente, é preciso que seja habitada por homens imortais, que não mais gerarão, mas serão como anjos. Seria, pois, loucura perguntar-se como viveriam os homens se não houvesse nem ar nem terra, nem nada de nada. Hær., lxiv, n. 31, 32, P. G., t. XLI, col. 1120-1121.
Segundo são João Crisóstomo, quando Jesus disse: O céu e a terra passarão, Matth., xxiv, 35, ele o entendia do fim das coisas e falava dos elementos, para mostrar que a Igreja é maior que o céu e a terra. In Matth., homil. lxxvii, n. 1, P. G., t. LVIII, col. 762. Ver também o autor do Opus imperfectum in Matth., homil. xlix, P. G., t. LVI, col. 921.
A criatura está sujeita à vaidade. Que quer isso dizer? Ela se tornou corruptível. Por quê? Por causa do homem pecador. A terra foi amaldiçoada. O próprio céu, envelhecendo com a terra, será enfim reconduzido a uma sorte melhor, segundo o profeta. Ps. ci, 26, 27; Is., li, 6. Ele não está destinado a uma perda absoluta, uma vez que os homens sofrem apenas uma morte temporária, pela qual passarão à imortalidade: o mesmo se dará com a criatura. Ela não será mais corruptível, mas seguirá a beleza do corpo do homem ressuscitado. Tornada corruptível por causa do homem, ela será incorruptível quando ele mesmo o voltar a ser. In Epist. ad Rom., homil. xiv, n. 5, P. G., t. LX, col. 530.
Teodoro de Mopsuéstia declara que os sábios da Grécia, que ensinam τὴν ἐκπύρωσιν τοῦ κόσμου, admitem facilmente o que se diz do sol e da lua, mas recusam-se a admitir o que se diz da queda das estrelas do céu, porque ignoram o poder de Deus, às ordens e à vontade de quem todas as coisas obedecem. In Ev. Matth., xxiv, 29, P. G., t. LXVIII, col. 712-713.
Teodoreto diz que o céu e a terra, que foram criados, são mutáveis e que só o criador é imutável. Tudo o que se vê envelhece e imita a vetustez das vestes. Deus mudará o céu e a terra e os renovará, tornando-os incorruptíveis de corruptíveis que eram. In ps. ci, 26, P. G., t. LXXX, col. 1684. São Paulo anunciou a mudança do estado presente do mundo. In I Cor., vii, 31, P. G., t. LXXXIII, col. 281. Ensinou que a criatura corruptível se tornará incorruptível depois da ressurreição dos eleitos. In Epist. ad Rom., viii, P. G., t. LXXXII, col. 136-137.
São Cirilo de Alexandria se declara incapaz de falar com exatidão sobre a renovação dos elementos do céu e da terra, que ocorrerá segundo a vontade de Deus. O sol e a lua se obscurecerão, as estrelas cairão como flores, o criador as mudando como quiser. Os próprios elementos serão perturbados. Sendo o gênero humano renovado, ἀνακεφαλαιοῦται καὶ συνανακτίζεται καὶ ἡ διὰ τὸν ἄνθρωπον δημιουργηθεῖσα κτίσις. Comment., in Matth., xxiv, 29, P. G., t. LXXII, col. 441.
Santo Isidoro de Pelúsio faz temer o dia terrível, no qual o céu será enrolado como um livro, os astros cairão, Órion, a terra e tudo o que ela abrange serão queimados e tudo ficará nu diante de Deus. Epist., l. I, epist. clxxxviii, P. G., t. LXXVIII, col. 304. O mundo tende ao seu fim derradeiro, e a Verdade não engana, ela que anuncia a συντέλεια. Epist., l. V, epist. cccxxix, col. 1525.
2. Padres latinos. Para santo Hilário de Poitiers, o juízo seguirá a consumação do século. Tract. in ps. cxviii, litt. xi, P. L., t. IX, col. 573.
O dia que « persevera » é o tempo dos bens futuros, no qual haverá um novo céu e uma nova terra e a glória feliz dos corpos transformados. Contudo, todas as criaturas deste mundo, na constituição imutável de seus ofícios, atestarão a magnificência de Deus, pois tudo está assim estabelecido, fundado e regulado, de tal sorte que perseverarão perpetuamente em seus cursos, nos quais foram constituídas na origem dos tempos. Ibid., litt. xii, n. 9, col. 580-581. Santo Zenão de Verona viu na coluna de nuvem e de fogo a imagem de dois juízos: um de água, que já ocorreu, o outro de fogo, que está por vir. Tractatus, l. II, tr. LIV, P. L., t. XI, col. 510. Santo Ambrósio cita as palavras do Ps. ci, 26 sq., e de Nosso Senhor, Matth., xxiv, 35, que anunciam a ruína do céu e da terra, contra os que sustentam a perpetuidade do céu etéreo. In Hexaemeron, l. I, c. VI, n. 23, 24, P. L., t. XIV, col. 135. Diz ainda: Cælum incorruptibile putatur et deperit. Epist., xliii, n. 9, t. XVI, col. 1131. Para explicar Is., li, 6, são Jerônimo cita Matth., xxiv, 35; Ps. ci, 26, e daí conclui: Ex quo ostenditur perditionem cælorum non interitum sonare, sed mutationem in melius. Apoc., xxi, 2. Isso não é verdadeiro apenas dos corpos ressuscitados.
Cum autem cælum veterascat et terra, consequenter et ea quæ cæli circulo continentur et homines qui sunt habitatores terræ, sicut hæc morientur: non in interitum sui, sed in abolitionem vilitatis antiquæ et innovationem futuræ gloriæ; quando fulgebunt justi sicut sol (Matth., xiii, 43), et abeuntibus præteritis atque antiquis, facta fuerint omnia nova. Alguns entendem perire e veterascere como abolição e morte. Apoiam-se em II Pet., iii, 17. É a opinião dos filósofos do mundo que tudo o que vemos deve perecer pelo fogo. I Cor., vii, 31; I Joa., ii, 7. Depois de discutir as diversas lições desta passagem de Isaías, o santo doutor conclui: illudque dicendum quod si cælum et terra peribunt atque veterascent, qua consequentia habitatores ejus sicut ista moriuntur atque dispereant, cum animas esse perpetuas et resurrectura corpora noverimus? Ex quo perspicuum est cælum et terram non perire et in nihili redigi, sed in melius commutari. In Is. prophetam, l. XIV, c. li, 6, P. L., t. XXIV, col. 485-486.
Ele entende no mesmo sentido Is., lxv, 17, 18. Cælum autem novum et terram novam qui putant omnia interire quæ cernimus, Evangelii interpretantur testimonio, Matth., xxiv, 35, et Pauli, II Cor., iv, 18. Porro qui novitatem, commutationem in melius et non elementorum arbitrantur interitum, illo utentur exemplo: Ps. ci, 26, 27. In quo perspicue demonstratur perditionem et interitum non abolitionem in nihili, sed commutationem sonare in melius. Ele encontra o mesmo sentido em Is., xxx, 26, e cita o exemplo do homem que não perece, apesar de suas mudanças insensíveis. Segundo são Paulo, I Cor., vii, 31, figura præterit, non substantia. O mesmo se dá com são Pedro, II Pet., iii, 5 sq., que é preciso interpretar segundo o versículo 13. Non dixit alios cælos et aliam terram videbimus, sed veteres et antiquos in melius commutatos. Ibid., l. XVIII, c. lxv, 17, 18, col. 644-645. Quando comenta Matth., xxiv, 35, diz ainda: Cœlum et terra transibunt immutatione, non abolitione sui: alioquin quomodo sol obscurabitur et luna non dabit lumen suum et stellæ cadent, si cœlum in quo ista sunt terraque non fuerit? In Matth., l. IV, c. xxiv, 35, t. XXVI, col. 180-181.
Santo Agostinho falou frequentemente do fim do mundo e propôs interpretações novas que tiveram grande êxito no Ocidente. Expôs os erros dos filósofos e dos hereges e a verdadeira doutrina cristã. Os filósofos pretendem que o mundo, que é um animal vivo, é eterno, que deve sempre existir e que não terá fim. Agostinho os refuta, provando contra Porfírio que não se deve fugir de tudo o que é corpo. Serm., ccxlii, c. vii, n. 7, P. L., t. XXXVIII, col. 1137. Outros pensam que o mundo não é eterno nem único, e imaginam mundos inumeráveis ou um único e mesmo mundo que se renovará um número inumerável de vezes, em certos intervalos de séculos. De civitate Dei, l. XII, c. xi, t. XLI, col. 359; l. c. xiii, n. 1, 2, col. 360-361. É o sentimento de Platão e dos acadêmicos. Aut nos isto credamus, etsi... col. 362. Cícero diz, com os platônicos, que o mundo não perecerá. Ibid., l. XXII, c. vi, col. 759. Santo Filastro assinala uma heresia sem autor nem nome, que pretende que este mundo permanecerá, mesmo depois da ressurreição dos mortos, no mesmo estado de agora, e que não mudará de tal forma que não haverá um céu novo e uma nova terra, como promete a santa Escritura. De hær., 67, t. XLII, col. 42.
O fim deste século é predito bem claramente no Ps. ci, 26-28. Porfírio, que louva os judeus por sua piedade para com seu Deus terrível, acusa os cristãos de grande loucura, porque dizem, mesmo segundo os oráculos dos deuses hebreus, que este mundo deve perecer. Os cristãos não precisam dos oráculos hebreus para admiti-lo, pois, nas Escrituras que lhes são próprias, o fim do mundo é anunciado: I Cor., vii, 31; I Joa., ii, 17; Matth., xxiv, 35; II Pet., iii, 9, 10, 11. Segundo esta última passagem, os céus são reservados ao fogo; mas são os céus situados na parte baixa do mundo, onde subsistem os elementos que serão destruídos pelo fogo, permanecendo os céus superiores intactos e em sua integridade, a saber, aqueles no firmamento dos quais os astros estão fixados. A palavra de Nosso Senhor: As estrelas do céu cairão, Matth., xxiv, 29, pode muito mais provavelmente ser entendida de outro modo. Ela provaria antes que esses céus devem permanecer, mesmo que as estrelas devam cair deles. Pode-se tomá-la como uma locutio tropica, o que é mais crível, ou dizer que isso se fará in imo isto cælo.
A expressão mais absoluta do salmo deve ser explicada segundo são Pedro: a parte é tomada pelo todo e não se trata senão dos céus inferiores. Assim, na Epístola do príncipe dos apóstolos, a parte é tomada pelo todo a respeito do dilúvio: diluvio cum periisse dictus est mundus, quamvis solo ejus, suis cœlis pars, imo perierit. De civitate Dei, l. XX, c. xxiv, n. 1, t. XLI, col. 696-698. Quando são Pedro fala da ruína deste mundo, II Pet., iii, 3-13, a comparação com o dilúvio mostra o que deve perecer: não somente o globo terrestre, mas também os céus aéreos, cujo espaço a água havia enchido, portanto todo ou quase todo esse ar ventoso, que Pedro chama céu ou antes céus, mas os céus inferiores, não os superiores, onde o sol, a lua e os astros estão colocados. O mesmo mundo, que foi inundado, está reservado ao fogo para o dia do juízo e a perdição dos ímpios. Alguém perguntará talvez se este mundo arderá depois do juízo, antes que em seu lugar sejam postos um novo céu e uma nova terra, e onde estarão, entretanto, os santos que têm um corpo. Podemos responder que estarão nessas partes superiores, aonde a chama do incêndio não subirá mais do que subiu ali a água do dilúvio.
Seus corpos estarão onde quiserem; os santos não temerão o fogo da conflagração, pois serão imortais e incorruptíveis, como os três meninos hebreus na fornalha. Ibid., l. XX, c. xviii, col. 683-685. Peracto quippe judicio tunc esse desinet hoc cœlum et hæc terra, quando incipiet esse cœlum novum et terra nova. Mutatione namque rerum, non omni modo interitu transibit hic mundus, como diz o apóstolo. I Cor., vii, 31, 32. Figura ergo præterit, non natura. Ibid., l. XX, c. xiv, col. 679. O santo doutor volta a esse assunto no c. xvi, col. 682. O céu e a terra fugirão, diz ele, à vista do juiz, sentado em seu trono. Depois do juízo, tunc figura hujus mundi mundanorum ignium conflagratione præteribit, sicut factum est mundanarum aquarum inundatione diluvium. Illa itaque, ut dixi, conflagratione mundana elementorum corruptibilium qualitates, quæ corporibus nostris corruptibilibus congruebant, ardendo penitus interibunt, atque ipsa substantia eas qualitates habebit, quæ corporibus immortalibus mirabili mutatione conveniunt, ut scilicet mundus, in melius innovatus, apte accommodetur hominibus etiam carne in melius innovatis. Quanto ao mar, não é fácil dizer se ele secará sob a ação desse calor tão grande, ou se será mudado para melhor.
Não se fala de mar novo, a não ser em Apoc., iv, 6; xv, 2; mas não se trata do fim do século, nem propriamente do mar, diz-se tanquam mare; é uma imagem. À sorte final dos maus, Salviano opõe a dos bons, que descreve nestes termos: Alia hæc præclara novam et bellissima: novos scilicet cœlos et terram, multum omnium rerum pulchriorem, æternum justitiæ habitaculum, recens ædificium creaturorum, aureas super rudes cœlos sanctorum omnium domos, etc. Adversus avaritiam, l. II, n. 10, P. L., t. LIII, col. 200. Genádio declara muito explicitamente: elementa, cœlum id est, et terram, non credimus abolenda per ignem, sed in melius commutanda; figuram quoque mundi, id est, imaginem, non substantiam, transituram. De eccl. dogmatibus, 70, P. L., t. LVIII, col. 996-997. Em sua Confessio, 25, P. L., t. LIII, col. 814, são Patrício diz: Nam sol iste, quem videmus, Deo jubente, propter nos oritur, sed nunquam regnabit neque permanebit splendor ejus. Os que o adoram serão miseravelmente punidos. O único sol que permanece in æternum é o Cristo que adoramos. O cristão Zaqueu responde ao seu interlocutor que os elementos de que se compõe o mundo foram criados por Deus e que, à sua vinda para o juízo, destructa in melius mutabantur ut immortalia cum homine perdurent.
Serão então purificados das manchas que nossos crimes lhes imprimiram a contragosto e das quais gemem, e recuperarão sua pureza primeira. Consult., l. I, c. XXV, P. L., t. XX, col. 1094. Essa restauração não é absolutamente compreensível para nossas inteligências. Podemos, contudo, medir as coisas invisíveis pelas visíveis. Justis autem in gaudia æterna surgentibus, cœlum novum et rudis terra revelabitur: ali brilhará uma luz mais forte que a do sol; não haverá mais noite, mas um dia perpétuo; não haverá mais dor nem pecado; gozar-se-á ao mesmo tempo da primavera e dos frutos do outono, sem variação de estações, nem chuva, nem calor, nem frio, com uma temperatura agradável e suave; nenhuma lembrança dos males passados perturbará a felicidade. Ibid., c. xxvi, col. 1094-1095.
5º Escritores eclesiásticos do século VI ao XII. 1. De língua grega. Procópio de Gaza diz que o céu não é eterno, pois o que é eterno não tem corpo, nem figura, nem limites. In Gen., i, 1, P. G., t. LXXXVII, col. 41.
Alguns pagãos compreenderam que o mundo era corruptível, mas que, no entanto, não pereceria. Ibid., ii, 19, col. 217. Contudo, o mundo, por ter tido um começo, deve ter um fim, τέλος ἔχειν, Rom., τροπῆς γενησομένης, viii, 21; I Cor., xv, 53; vii, 31; Luc., xxi, 33. In Is., xxiv, col. 2196. Severo, sobre II Pet., iii, 13, diz que toda criatura espera ser libertada da corrupção e restituída à glória. Rom., viii, 20, 21. Cramer, Catena græcorum Patrum in N. T., Oxford, 1840, t. VIII, p. 101-102. Santo André de Cesareia, In Apoc., c. xviii, P. G., l. cvi, col. 273, entende este texto: O céu será enrolado como um livro, no sentido de que o céu não perecerá nem será destruído, mas sofrerá um enrolamento, uma mudança para melhor, como santo Irineu ensinava. Mais adiante, c. lxiv, col. 420-424, diz que a criatura, sujeita à mudança e à corrupção, será, segundo o apóstolo, quando todos os homens forem filhos de Deus, renovada e transformada numa forma mais bela. Tal é o ensinamento de santo Irineu, de são Metódio e de Davi. Ps. ciii, 30. Isaías, lxv, 17, 18; lxvi, 22, a isso se refere.
Aretas de Cesareia diz também que o mundo será mudado para melhor. Cramer, op. cit., t. VIII, p. 570. Para são João Damasceno, os céus, por serem criaturas, são corruptíveis, e não perecerão inteiramente; envelhecerão, e haverá céus novos e uma nova terra. Apoc., xxi, De fide orthodoxa, l. II, c. vi, P. G., t. XCIV, col. 884-885. Œcuménio interpretou vários textos do Novo Testamento que dizem respeito ao fim do mundo. Sobre Rom., viii, 21, diz que a criatura, submetida à corrupção, recuperará sua liberdade, quando, de corruptível que era, se tornar incorruptível. In Epist. ad Rom., c. xiv, P. G., t. CXVIII, col. 481, 484. Sobre I Cor., vii, 21, declara que o mundo que vemos passa e tem um fim, é o que parece do mundo: comentário que não é firme nem estável. Seu comentário sobre II Pet., III, 5 é mais desenvolvido.
Assim como o sq., o dilúvio sobreveio ao céu e à terra, assim está estabelecido que a destruição do mundo se fará pelo fogo, que fará perecer também os ímpios. Estes perecerão pelos dois elementos de todas as coisas, a água e o fogo. Os próprios filósofos gregos souberam que o mundo devia perecer; tais Heráclito e Empédocles. Œcuménio propõe a si mesmo esta objeção: Por que o mundo foi criado, se é para ser destruído? Ele responde que o mundo não tende de todo à destruição, mas à renovação, πρὸς ἀνακαινισμόν. Ps. ciii, 32. É o pecado dos homens que tornou vã a criatura, que era boa. Como havia poucos homens bons, o dilúvio fez perecer quase toda a humanidade. Por causa dos bons, a consumação é retardada. a final As coisas corporais que devem ser restauradas pelo fogo não perecerão, mas serão purificadas. Deus criará novos céus e uma nova terra: não serão outros quanto à matéria; serão criados, como uma casa que não se constrói sem materiais preexistentes. Para tornar a matéria incorruptível, Deus destruirá o que nela é inútil e supérfluo: ao que ela tem de útil, dará uma forma nova, de uma beleza imortal e inacreditável, a fim de fazer dela um mundo incorruptível.
Assim como a terra foi purificada pela água no tempo de Noé, assim Deus purificará o mundo pelo fogo na consumação dos tempos, como nós purificamos certos objetos pelo fogo. O mundo, inundado pelo dilúvio, não pereceu, mas somente os animais que o habitavam. A terra e o que nela existe, não os homens, devem ser queimados; só os ímpios perecerão com suas impiedades. In Epist. II Pet., iii, 5 sq., t. CXIX, col. 609, 612, 613, 616. Ver seu comentário sobre Apoc., xxi, 1, em Cramer, op. cit., p. 477. Teofilato explicou, ele também, as mesmas passagens. Em sua Expositio in Epist. ad Rom., viii, 19-21, P. G., t. CXXIV, col. 445, 448, reconhece que, para mostrar que glória adquiriremos, são Paulo diz que a própria criatura será mudada para melhor. Ela espera grandemente que será transformada em outro estado; será glorificada pela incorruptibilidade, como nós mesmos. Ela foi sujeita à corrupção por nossa causa, e o céu envelhecido precisa ser mudado. A natureza inanimada e insensível será transformada como os homens. Tornada corruptível pela corrupção dos homens, ela se tornará incorruptível quando os homens se tornarem o mesmo.
Na Expositio in I Cor., vii, 31, col. 652, Teofilato observa que o apóstolo diz: A figura do mundo passa e se dissolve, para designar o que os olhos veem do mundo. Seu comentário de II Pet., III, 5 sq., t. CXXV, col. 1280-1281, é idêntico ao de Œcuménio, segue o mesmo curso, é, no entanto, mais desenvolvido. Acrescenta notadamente que Deus, no fim do mundo, destruirá pelo fogo as coisas supérfluas, a saber, as plantas, os animais, as ervas e outras coisas do mesmo gênero, que são inúteis à vida imortal. Nós purificamos pelo fogo as coisas impuras; Deus fará como nós, col. 1284. Os novos céus e a nova terra, que ele criará, serão novos, não pela substância e pela matéria, mas como uma casa nova que se constrói com materiais antigos. Ele destruirá o que era inútil e supérfluo: reformará com uma beleza imortal o que é útil e oportuno para um outro mundo incorruptível, col. 1285. Eutímio Zigabeno, In ps. ci, 26-28, P. G., t. CXXVIII, col. 1008-1009, por céus entende o primeiro céu e o firmamento, segundo Gen., i, 1, 8. Perecerão e serão mudados enquanto criaturas; só o criador é imutável. As criaturas todas envelhecerão, os dois céus e a terra com elas, como as a das vestes pelo uso e pelo tempo.
As palavras « serão mudados » explicam a frase « perecerão ». Os próprios céus serão mudados e renovados na incorruptibilidade, como são Paulo, I Cor., VII, 31, e Isaías, xxxiv, 4, o anunciaram. Alguns explicam que serão enrolados como uma cobertura e uma veste que cumpriram o uso ao qual — v. 80 se destinavam; assim o céu, advindo um uso melhor, será ele próprio mudado para melhor. Sobre a palavra de Jesus, In Matth., xxiv, 35, P. G., t. CXXIX, col. 621, Eutímio diz somente: Os céus, essas criaturas compactas e imóveis, perecerão antes que minhas palavras passem.
— 2. De língua latina. Segundo são Gregório Magno, a ruína do mundo in ipsis jam causarum effectibus comprobatur. Epist., l. I, epist. xi, P. L., t. LXXVII, col. 458. No símbolo de fé que compôs para si mesmo, diz de Nosso Senhor: innovaturus sæculum per ignem in carnis resurrectione. J. Diácono, S. Gregorii Magni vita, l. II, n. 2, P. L., t. LXXV, col. 88. Ao dia do juízo, o juiz aparecerá com seus anjos, cælis ac terris ardentibus, cunctis videlicet elementis in sui obsequii terrore commotis. Homil., xlvi, in Ev., n. 10, P. L., t. LXXVII, col. 1203. A propósito de Eccle., i, 4, e de Job, ix, 24, este papa examina se terra et cœlum vel qualiter transeat vel qualiter maneat.
Utraque namque per eam quam nunc habent speciem transeunt, sed tamen per essentiam sine fine subsistant. Ele cita e explica nesse sentido I Cor., vii, 31 Matth., xxiv, novos; 35. Sobre os céus e a nova terra do Apoc., xxi, 1, ele diz: Quæ quidem non alia condenda Cœlum sunt. sed hæc ipsa renovantur. igitur et terra et transit et erit, quia et ab ea quam nunc habet specie per ignem tergitur, tamen in sua semper natura servatur. Daí o sl. ci, 27, fala de mudança. Quam quidem ultimam commutationem suam ipsis nobis tunc vicissitudinibus nuntiant quibus nostris usibus indesinenter alternant. Moral., XVII, c. IX, l. n. 11, P. L., t. LXXVI, col. 16, 17. Para provar quod essentia cœli et terræ in æternum subsistat, Taïo, bispo de Saragoça, cita esta passagem das Morais de são Gregório. Primásio, In Epist. ad Heb., i, 11, P. L., t. LXVIII, col. 694-695, explica o plural cœli. Não se trata do firmamento onde estão nem os astros nem o céu etéreo por onde correm os planetas, mas do ar onde voam os pássaros. No dia do juízo, este céu perecerá não para deixar de existir, mas será mudado em uma forma melhor: de espesso se tornará sutil e claro. São Paulo disse que o mundo só passou quanto à figura.
O fogo se elevará tão alto quanto a água do dilúvio, e alguns pretendem que até o círculo da lua. Haverá novos céus. Ele repete a mesma coisa, In Apoc., l. V, col. 921, e escreve uma frase que reencontraremos textualmente sob a pena de são Juliano de Toledo e que é tomada de empréstimo a santo Agostinho. São Juliano, Prognosticon, l. III, c. xlvi, P. L., t. XCVI, col. 518, explica assim o fim do mundo Evi- majorum : denti sententia definitur quod, peracto judicio, tunc desinet esse hoc cœlum et hæc terra, quando incipiet esse cœlum novum et terra nova. Mutatione namque rerum, non omnimodo interitu transibit hic mundus. Tunc ergo figura hujus mundi mundanorum ignium conflagratione peribit, sicut factum est mundanarum aquarum inundatione diluvium. Illa itaque conflagratione mundi, ut dixi (l. III, c. xviii, col. 504-505), elementorum corruptibilium qualitates, quæ corporibus nostris corruptibilibus congruebant, ardendo penitus interibunt, atque ipsa substantia eas qualitates habebit, quæ corporibus immortalibus mirabili immutatione conveniunt, ut scilicet mundus in melius innovatus apte accommodetur hominibus etiam carne in melius innovatis.
Ele cita em seguida, c. XLVII, col. 518-519, santo Agostinho, De civitate Dei, XX, c. xvi, xviii. Em seus comentários bíblicos, o Venerável Beda ensina a mesma doutrina. Cœlum enim et terra per commutationem innovationis transibunt. In Matthæi Evangelii expositio, l. IV, P. L., t. XCII, col. 104. Sua explicação de II Pet., iii, é mais desenvolvida. Os céus formados de água não são, para ele, senão o ar úmido e turvo, segundo Jer., viii, 7. O dilúvio não atingiu as partes superiores do mundo. Os céus perecerão secundum quantitatem et spatia aeris hujus. Ele cita santo Agostinho e entende por céus aqueles que estão próximos da terra, onde voam os pássaros. Existe uma discussão aliquanto scrupulosior inter doctos para saber se os céus dos céus perecerão eles mesmos pelo fogo, ou somente os que pereceram pelo dilúvio. São Pedro só fala destes últimos, que foram refeitos depois do dilúvio. Ora, estes são sem dúvida este ar, próximo da terra, que deve perecer pelo fogo, e somente, ut recte creditur, sobre um espaço igual àquele que ocuparam as águas do dilúvio.
Se se pretende que os céus superiores, onde estão o sol, a lua e os astros, devem perecer, como entender esta palavra do Senhor Tunc sol obscurabitur? Matth., xxiv, 29. Se o lugar dos astros passa, como dizer que neste dia do Senhor os astros se obscurecerão ou cairão e o lugar onde estão fixados passará, devorado pelo fogo? Dos quatro elementos, apenas dois serão consumidos pelo grande incêndio final e não existirão mais, e os outros dois serão mudados para melhor. Os velhos e antigos céus e terra serão mudados para melhor. Sl. CI, 23. Os que perecerão envelhecerão e serão mudados. Constat pro certo, quia consumpta per ignem, mox, abeunte igne, gratiorem resument speciem. A figura do mundo passa, não a sua substância, como acontecerá com a nossa carne na ressurreição. I Cor., vii. A Escritura não fala assim do fogo e da água; ela diz, ao contrário, que não haverá mais mar, Apoc., XXI, 1, nem luz, xviii, 23. In II Epist. Pet., iii, P. L., t. xciii, col. 80-82. Beda volta a este assunto. In Apoc., xxi, 1, col. 194. Tunc figura hujus mundi supernorum ignium conflagratione praeteribit, ut, caelo et terra in melius commutatis, incorruptioni et immortalitati sanctorum corporum congrua utriusque commutationis qualitas conveniat.
Sobre o texto Et mare jam non est, ele diz: Utrum maximo illo ardore siccetur, an et ipsum in melius vertatur, non facile dixerim. Caelum quippe novum et terram novam: non autem et mare novum futurum legimus. Nisi forte ut assolet prophetica locutio propriis verbis translata miscere, turbulentam hujus saeculi vitam, quae tunc cessabit, maris nomine figuravit. Em sua Glossa ordinaria, Walafrido Estrabão diz sobre Matth., xxiv, 35 Innovabuntur deposita priori forma, permanente autem substantia, unde dicitur: Terra in aeternum stat. P. L., t. cxiv, col. 162. Para comentar II Pet., iii, 10, 13, cita o Venerável Beda, col. 694. Os escolásticos citaram frequentemente a Glosa ordinária, bem como a Glosa interlinear, que dá as mesmas interpretações. Haymon de Halberstadt interpretou todas as passagens da Escritura que predizem o fim do mundo. Eis o comentário do sl. ci, P. L., t. cxvi, col. 537-538: Ipsi caeli peribunt: non quod substantia pereat, sed qualitates mutabuntur. Haec quidem inferiora quae ex nostra habitatione corrumpuntur, per ignem purgabuntur; ipsum etiam firmamentum mutabitur, quia stabile fiet. Quomodo peribunt quia secundum corruptionem hominum ipsa elementa corrumpuntur, velut terra quae jam minus fertilis est quam prius, aer minus salubris...
Mutabuntur, quando recipient aliam qualitatem... et in illa immutatione permanebunt. Esta mudança não consistirá, como pretenderam certos hereges, em que os elementos voltem à sua antiga aparência, do mesmo modo que os homens. Quando Isaías, xxxiv, 4, fala dos céus no plural, este plural está posto pelo singular, pois é preciso entender estes céus como o ar. É a linguagem corrente; assim se diz as aves do céu. A milícia do céu compreende o sol, a lua e as estrelas. Non defluent ita sidera ut cadant, sed, adveniente vera luce Christo, obtenebrabuntur illa, Matth., xxiv, 29, cadere videbuntur... Complicabitur iste aer, quia igne involvetur et videbitur complicari sicut liber... Non dicit interire caelos, sed complicari quasi librum. In Is., II, c. XXXIV, ibid., col. 890-891. Lê-se, ibid., III, 1. Saepe l. c. Lxv, col. 1071-1072 multis in locis diximus: superius caelum et terram non per naturam neque per essentiam transire, sed per immutationem et innovationem atque in meliorationem. Apoc., xxi, 1; I Cor., vii, 13. Cum dicit: Praeterit figura, ostendit substantiam. Creo significa innovabo.
Por isso ele explica esta última passagem Transibit figura et species mundi: per ignem, remanebit substantia renovata per ignem; ela será melhorada e isso será para sempre. Eccle., I, 4. In Epist. I ad Cor., vii, 13, col. 548. Transibunt caelum et terra, non ut esse desinant, sed immutabuntur. I Cor., vii, 13. Eis como eles se renovarão Fugient quippe a conspectu judicis ab ea quam nunc ea specie habent, et ostendent pulchritudinem quam nunc celant. Apoc., xxi, 1. O fogo ocupará no ar tanto espaço quanto a água do dilúvio. Alguns, considerando a Escritura minus caute, disseram que o céu e a terra passariam pelo fogo antes do juízo. Outros colocaram primeiro a ressurreição dos homens, depois a renovação do mundo. Minus cauta conspectio, segundo são Paulo, I Cor., iii, 13, e sl. XLIX, 3. A vinda de Cristo, a ressurreição da carne e a renovação do mundo serão simultâneas. Elementa igne solventur, omnia Deo judicante per ignem. Então os novos céus e a nova terra aparecerão como a primavera depois do inverno. Figura praeterit, natura permanet. I Cor., vii, 13. Expos., in Apoc., l. VII, c. xx, col. 1189-1190. Quanto ao texto Mare jam non est, Apoc., xxi, 1, col. 1191-1192, há dúvida se é preciso entendê-lo à letra ou espiritualmente.
Estando a terra rodeada de águas, não se pode dizer facilmente se as águas se secarão naturalmente ou pelo grande incêndio final, ou se o mar se mudará para melhor. Se Deus o fizer, a terra poderá permanecer seca. Dois dos elementos serão mudados para melhor; o céu e a terra passarão, isto é, serão mudados. Só Deus sabe se o mar e o fogo passarão ou serão mudados, embora se leia: Não haverá mais mar, e a luz não brilhará mais. Saberemos melhor como isso se fará, quando lá chegarmos. São Paschásio Radberto diz mais simplesmente: Caelum et terra transibunt, ut non sint, sed ut sint in melius, immutati et incorrupti. Tudo será renovado. Apoc., xxi, 5. Exposit. in Matth., 1. XI, c. xxiv, P. L., t. cxx, col. 825. Ato de Vercelli, In Epist. I ad Cor., vii, 31, P. L., cxxxiv, col. 358, diz também brevemente Non mundus, sed figura transit; terra enim in aeternum stat. Eccle., I, 4. Ergo manet per essentiam, transit per innovationem. São Bruno, o Cartuxo, explica esta passagem em um sentido diferente Mundus quidem praeteribit, sed formae substantiae ejus destruentur, ut aurum, rubore perdita, redibit in terram et cetera similiter. In Epist I ad Cor., vii, 13, P. L., t. CLiii, col. 162.
Ele admite, portanto, uma mudança substancial e o retorno das coisas ao seu estado elementar primitivo. Anselmo de Laon conserva a interpretação comum. Enarrat. in Matth., xxiv, P. L., t. clxii, col. 1454, diz: Peribunt. Quomodo? Quia renovabuntur, deposita priori forma, permanente autem substantia, ut in Ecclesiaste legitur, i, 4. Enarrat. in Apoc., XX, col. 1574, ele escreve ainda: Fugit terra ab hac specie, et caelum, aer, et locus est inventus ab eis, secundum priorem statum. Um pouco mais adiante, 2534 XXI, col. 1575, ele acrescenta que, nesta visão, se trata da renovação dos elementos. O ar será renovado e o primeiro estado das coisas mudado. Não haverá mais mar, nem com os seus movimentos, nem mesmo nas suas primeiras qualidades, e no entanto não é certo que ele será purificado pelo fogo que purificará o ar e a terra, ou por alguma purificação material. Em suma, ecce nova facio omnia, diz Deus, tam elementa quam sanctorum gloriam, col. 1576. A exegese de Bruno de Asti é ainda mais completa. In ps. CI, P. L., t. CLXiv, col. 1087, ele cita Matth., xxiv, 35, e explica transibunt, quia in hac specie in qua modo sunt in aliam mutabuntur.
Haverá céus novos e uma nova terra, Apoc., xxi, 1, et illi caeli qui superiores sunt mutabuntur in melius. In Matth., part. IV, c. xxiv, t. clxv, col. 174: Caelum secundum et terra transibunt, quia hoc quo modo sunt in melius commutabuntur. In Apoc., l. VI, c. xxi, 1, col. 716-717: Quoniam universalis ignis omni mundana corruptione exusta, ad primam pulchritudinem omnis redibit creatura, exceto o diabo e os seus membros. Illa scilicet omnia, quae corrupta et a pristina pulchritudine deformata fuerunt. O mar não será mais salgado e estará no estado primitivo da sua criação. Os santos não sentirão mais as suas amarguras nem sofrerão mais as suas tempestades.
Guiberto de Nogent expõe assim o seu sentimento: Depois do último dia, tutto uniformiter in solita sua puritate mundus quanto per eum ultra transire fieri valebit nemo potuerit. Hinc est quod, cœlo novo terraque nova, interior exteriorque pervius ac habitabilis erit sanctis. Sanctis namque tam igne purgatis quam beata corporum immutatione promotis, et sæculo, imo mundo ipso a veteris sordibus conflagrato et in incorruptibilem habitum reparato, fieri status habitationis habitationumque undecumque conveniens, fieri utrobique una facto repurgio mansor ac mansio florens. Et sicut corpus ac anima in sanctis sub unius beatitudinis gloria jubilabunt, sic exterior interiorque mundus ad unam puritatem ex alterius concrematione redacti, splendidos sine omni importunitate, discursus sanctis ubique triumphantibus, apparebunt. De pignoribus sanctorum, IV, c. III, P. L., t. CLVI, col. 673.
1. Rupert de Deutz é ao mesmo tempo teólogo e exegeta. Como teólogo, ele diz que no dia do juízo o juiz virá in flamma ignis. Illo igne cœli solventur, mare siccabitur, ut Patrum quidam arbitrantur, hinc forte in Apocalypsi Joannes inquit, xxi, 1. Cœlos vero colore solvendos apostolica Scriptura non tacuit. II Pet., III, 7, 10.
A dissolução deles pelo fogo precederá o juízo. De Trinitate et operibus ejus, II, c. VIII, P. L., CLXVII, col. 1813. O comentador do Apocalipse desenvolve mais o seu pensamento. Sobre Apoc, XX, 11, pergunta-se Quomodo tunc ille fugiet terra aut cœlum? Nimirum terra magno conflagrata incendio pristinam amittet speciem simulque opera terrena disperebunt. O céu fugirá, como o salmista, sl. ci, 27, o predisse dele e da terra. O céu que são João nomeia no singular é o mesmo que o salmista designa no plural, a saber, o céu aéreo, uma vez que o ar é chamado céu. Não há senão um único ar, mas ele tem qualidades diversas segundo as regiões, e diz-se que há vários céus. De istis cœlis non dubium est quia perituri sint, videlicet nimio calore soluti, quando o juiz aparecer. II Pet., III, 7. É preciso temer esta espantosa fuga do céu. Ouvir-se-á o ruído dos fugitivos, que se romperão como uma velha veste que se rasga. Ignis quippe non leviter tunc suas jussus exercebit vires ut non parumper cœli crepitent, como o fazem por vezes agora sob o calor do verão (e os físicos chamam a este crepitar de trovões), sed erit tempestas valida validusque ignis qui in circuitu ardebit venientis. In Apoc, XI, P. L., t. CLXIX, col. 1185-1186.
Sobre Apoc, xxi, 1, col. 1189, Rupert acrescenta que, depois do extermínio dos que corrompiam a terra, haverá novos céus e uma nova terra, isto é, que o seu aspecto será novo e mudado para melhor. O céu e a terra precedentes terão perdido a sua antiga aparência. Os doutores duvidam se a substância fluida do mar será inteiramente ressecada e aniquilada pela grandeza do incêndio que devorará tudo, ou se será mudada para melhor de tal modo que a sua substância permaneça, mas que a sua aparência seja outra. Honório de Autun, como exegeta, comenta o sl. CI, 27, 28: Cum dicuntur Cœli pereunt, quæritur quomodo illa Scriptura dicat: Terra in œternum stat, Eccle., i, 4, et item: Omnis creatura Dei manet in œternum? Sciendum quod forma rerum peribit, ipsa substantia in œternum manebit... Cœli sunt quasi uestimentum mundi, qui senescunt et vetustate deficiunt in hac forma quæ nunc sunt... Cœlum est terræ opertorium, quod revolvitur ut tabernaculum. Peracto autem judicio, Cœli in aliam formam mutabuntur, quia Dominus tunc novum cœlum et novam terram faciet, et luna gloriam solis et sol lumen septem dierum habebit. In ps. CI, 27, 28, P. L., t. CLXXII, col. 304-305.
Catequista, ele expõe o seu ensinamento por perguntas e respostas, Elucidarium, 1. III, 45, 46, col. 1168 D. Q. Quid mundo postea deerit? M. Conflagrabitur. Sicut enim aqua diluvii mundo prævaluit et super montes omnes cubitis quindecim excrevit, ita tunc ignis prævalens super omnes montes quindecim cubitis altius ardebit. Q. Interibit penitus mundus? M. Rerum pœnæ mutabilitas et peccati, scilicet, frigus, æstus, grandines, turbines, fulgura, tonitrua et aliæ incommoditates penitus interibunt; elementa vero purgata permanebunt. Ps. ci, 27. Sicut enim præsens figura nostræ corporum transibit et longe aliam huic incomparabilem habebit, ita præsens mundi figura penitus præteribit, et longe alia incomparabilis gloriæ forma erit. Is., Lxv, 17. Habitarão os céus, os astros, as águas, que agora se apressam numa corrida que não se pode retardar, quasi cupientes in meliorem statum immutari, então permanecerão fixos e estáveis, e quietos, e mudados por uma glorificação admirável. Nam cœlum gloriam solis induet, e a sua luz será sete vezes maior do que hoje. A lua e as estrelas brilharão com um esplendor inefável. A água ultrapassará a beleza do cristal. A terra inteira será como um paraíso, coberta de flores imarcescíveis.
Em suas Quæstiones in Epist. 1 ad Cor., q. Lxviii, P. L., t. CLXXV, col. 526, Hugo de São Vítor, sobre o texto Præterit enim figura mundi, pergunta-se quomodo verum cum hoc sit, scriptum est: Terra in œternum stat. Eccle., 4. Eis a sua solução: Non dixit: Præterit mundus, sed figura mundi, id est, forma et species, quam modo habet, mutabitur in formam meliorem; si tamen alicubi legatur quod mundus transeat, hoc intelligendum est secundum formam, non secundum substantiam, quæ semper erit. Noutro lugar, De sacramentis, II, part. XVIII, c. I, t. CLXXVI, col. 609, ele expõe a maneira como se fará esta mudança. Depois do juízo, tunc figura hujus mundi mundationis ignium conflagratione præteribit, sicut factum est mundanarum aquarum inundatione diluvium. Illa itaque, ut dixit, conflagratione mundana elementorum corruptibilium qualitates, quæ corruptibilibus nostris corporibus congruebant, arrendo penitus interibunt, atque ipsa substantia eas qualitates habebit, quæ corporibus immortalibus mirabili mutatione conveniat, ut scilicet mundus immutatus in melius aperte accommodetur hominibus etiam carne immutatis in melius. Estas são as próprias palavras de santo Agostinho. Hervé de Bourges é um exegeta.
Ele interpretou as passagens escriturísticas que tratam do fim do mundo. Sobre Isaías, lxiv, 2, ele diz que os céus se romperão, por assim dizer, para deixar passar o rei dos reis que vem julgar os homens. Ignis ante ipsum ardebit... Nam ignis universos montes comburens ille œquabit vallibus et omnem terram complanabit. In Is., 1. VIII, P. L., t. CLXXXI, col. 565. Um pouco mais adiante, sobre Lxvi, 16, col. 584, 585, ele repete que o Senhor virá julgar, igne circumdatus. Este fogo será purificador. Uniuscujusque opus quale sit ignis probabit. Cor., III, 14, 15. Os réprobos, sobretudo, estarão no fogo. Na terra, os pecadores, igne circumdati, qui inferiora hujus aeris omnia cremabit, aguardarão a sentença do juiz e provarão de antemão a aspereza dos tormentos do inferno. Nam ignis ille tantum spatium istius aeris occupaturus est quantum occupavit aqua diluvii. A sentença será proferida, estando os justos em cima, no ar, e os pecadores embaixo, no meio deste fogo, in flamma positis increpatione sua. Deus julgará neste fogo todos os homens carnais. In Epist. 1 ad Cor., III, 14, 15, col. 842: Cum enim in die Domini se manifestará o fogo.
Viderint omnes ignem illum ubi faciem judicis per totum diffundi orbem, scient adesse diem judicii. Vel Dominus in illo igne revelabit, id est, apparebit omnibus bonis malis. II Thess., I, 8. Este fogo provará as obras, isto é, a doutrina; ele será purgatorius. O versículo 31 do capítulo VII da mesma Epístola é explicado no sentido de uma mudança acidental: Præterit figura mundi, non natura, ut in aliam speciem vertatur et de hoc veteri cœlo ac terra fiat cœlum novum et terra nova. As qualidades dos elementos corruptíveis perecerão absolutamente pelo fogo, ipsa mundi substantia qualitates habere incipiet quæ corporibus immortalibus mirabili mutatione conveniant, ut scilicet mundus in melius innovatus apte accommodetur hominibus etiam carne in melius innovatis, col. 885-886. Esta última frase é de estilo corrente, e muitos a transcrevem sem indicar que é uma citação de santo Agostinho. Os Padres e os escritores eclesiásticos até o século XII expõem a maneira como se dará o fim do mundo, não conforme a filosofia grega que muitos conhecem e que geralmente rejeitam, mas segundo os oráculos do Antigo e do Novo Testamento. Os textos em que se apoiam são os que estudamos anteriormente; algumas passagens de Isaías ou do Apocalipse, que alguns invocam, não têm o alcance que lhes atribuem.
Apesar desta pequena perda, a base escriturística do ensinamento tradicional é sólida. Quaisquer que sejam também as variações das interpretações sobre os pontos de detalhe, permanece um fundo comum ao ensinamento tradicional, um ponto certo: que o mundo atual será destruído pelo fogo, fogo purificador, mas que não perecerá inteiramente, uma vez que será renovado, purificado e melhorado. Será reconduzido à sua condição primitiva, onde se tornará incorruptível, e será assim adaptado à situação nova dos homens ressuscitados. Novos céus e uma nova terra sucederão aos primeiros céus e à primeira terra. Os Padres gregos unanimemente, todos os antigos Padres latinos até santo Agostinho e um bom número de escritores que escaparam à influência do bispo de Hipona, dizem correntemente que o mundo inteiro será assim purificado pelo fogo e renovado, mesmo os céus superiores e com eles o sol, a lua e as estrelas. Santo Agostinho, o primeiro, considerando que são Pedro comparou a conflagração final ao dilúvio, explica o seu texto neste sentido: que o céu aéreo e a terra sofrerão o incêndio final e se renovarão nas chamas purificadoras. Certo número de escritores ocidentais adotou o seu sentimento e repetiu a sua interpretação.
Agostinho permaneceu indeciso sobre a sorte futura do mar e não sabia se ele seria aniquilado ou conservado num estado mais perfeito. Doutores do Ocidente partilharam a sua indecisão e estenderam-na à purificação do quarto elemento, o fogo. As opiniões diferem também quanto à época em que se acenderá o fogo da conflagração final: o fogo purificador precederá ou seguirá o juízo final? Vários, que o identificam com o fogo do juízo, colocam a conflagração do mundo antes da sentença do juiz. Divergências de detalhe manifestam-se, enfim, na descrição do estado futuro do mundo renovado, sobre o qual a Escritura nada diz de preciso.
— ENSINAMENTO TEOLÓGICO. Os teólogos conheceram suficientemente as variações de opinião do ensinamento tradicional. Resta-nos ver como, a partir do século XII, eles sistematizaram os dados da Escritura e da tradição e que especulações lhes acrescentaram. Infelizmente, nesta matéria, a especulação teológica, fundada em parte numa ciência física falsa, está longe de ter feito progredir a teologia. As épocas subsequentes tiveram de abandonar quase inteiramente as opiniões escolásticas sobre o fim do mundo. —
1º Os teólogos do século XII ao XIII. Podemos considerar como o primeiro teólogo o Mestre das Sentenças, que no entanto ainda é exegeta.
Como exegeta, Pedro Lombardo comentou primeiro o sl. CI. A sua exegese é tributária da de santo Agostinho. Pelos céus que perecerão, ele entende, com o bispo de Hipona, os céus próximos da terra, e reduz a sua destruição a uma mudança de qualidades, segundo a XIª carta de são Pedro. De superioribus autem caelis coelorum non est certum, sed si manent, non in se, sed Deo manente. Os céus que cobrem tudo serão mudados. Mutata vel mutanda recte dicuntur quia jam non subjacebunt corruptioni sicut ante. In ps. CI, 27, P. L., t. CXCI, col. 910. Para o Lombardo, o fogo do juízo será o fogo purificador. In Epist. I ad Cor., III, 13-15, col. 1558. Se a figura do mundo passa, é a sua beleza, e não a sua substância. Esta figura envelhece todos os dias, et tandem in judicio mundanorum ignium conflagratione peribit. A substância do mundo libertada terá as qualidades que convêm aos corpos imortais. Substantia non perit, sed qualitas. Ibid., VII, 32, col. 1597-1598. Nas Sentenças, IV, dist. XLVII, 4, P. L., CXCII, t. col. 955, o Mestre resume brevemente o seu pensamento sobre este assunto: Domino veniente, praecedet ante eum ignis: mundi quo comburetur facies hujus; et peribit coelum et terra, non secundum substantiam, sed secundum speciem quae immutabitur; coelum quidem aereum, non aethereum.
Tantum enim ascendet ignis in judicio quantum ascenderunt aquae in diluvio. Os maus que ainda estiverem vivos serão consumidos pelo fogo; os bons terão a sorte das três crianças hebreias na fornalha. Todavia, quibus (os bons), si quid purgandum fuerit, per illum ignem purgabit. O juízo final terá lugar, purgato mundo per ignem. Este texto, cuja parte principal reproduz o pensamento de santo Agostinho, será comentado pelos teólogos durante vários séculos. Ricardo de São Vítor expõe o seu sentimento no seu comentário do Apocalipse. O início da sétima visão trata de innovatione futura elementorum. Dos quatro elementos, apenas três, segundo o texto, serão renovados: o ar, a terra e a água — a terra, porque o vidente a viu nova; o ar, porque há céu novo; a água, porque ele diz que já não há mar. Pode-se crer que ele não falou do fogo que deve ser renovado, porque constata que o fogo é maculado por pouca ou nenhuma corrupção e que os outros elementos devem ser purificados pela sua virtude na última conflagração.
Se se diz que o primeiro céu e a primeira terra desapareceram, e se o vidente atesta que viu outros novos, não se deve pensar que estes dois elementos, o ar e a terra, serão absolutamente consumidos e que outros serão criados em seu lugar; mas ambos serão queimados quanto à sua primeira forma e à sua aparência, ressuscitarão e serão renovados de modo duradouro e inestimavelmente melhor. Alguns dizem, a respeito desta passagem, que a água será completamente consumida pela força deste último incêndio; mas é preciso ver com sutileza que não se fala da água, mas sim do mar, para mostrar claramente que a água não será aniquilada de modo absoluto, sed a corpulentia et omni corruptione et falsa amaritudine tunc purgari. Quanto aos três elementos que ele nomeia, o vidente não fala do seu consumo absoluto, mas da sua purificação perfeita pelo fogo e da renovação que Deus fará deles. In Apoc., l. VII, c. I, P. L., t. CXCVI, col. 859-860. Alano de Lille ocupa-se do fim do mundo em seu tratado Contra haereticos, l. I, c. XXVI, P. L., t. CCX, col. 327.
Quod autem legitur quod Deus in die judicii omnia faciet nova, sic intelligendum est: omnia innovabit, quia et tempora innovabuntur, et terra innovabitur, quantum scilicet ad exteriores qualitates, quia terra erit marmore planior et crystallo clarior. Sic cetera elementa erunt nova, id est, innovata, sicut pannus dicitur novus quando per reparationem est innovatus. Et homo dicitur filius novus per poenitentiam innovatus. A simili, caro nostra nova, id est per glorificationem innovata. É preciso entender do mesmo modo Apoc, XXI, 1, a saber, da terra renovada e do ar renovado. Aqui, sob o nome de céu, é o ar que é designado, como em Marcos, IV, 4. No dia da ressurreição, o ar não se alterará mais secundum diversas qualitates, como faz agora. A palavra de Nosso Senhor, Matth., XXIV, 35, deve entender-se de transitu accidentali, non substantiali: o céu e a terra não passarão a ponto de deixar de existir, nem serão mudados em outros, o que seria um transitus substantialis, sed transibunt secundum exteriores qualitates.
— 2º Teólogos do século XIII ao XIV. Guilherme de Paris tocou em diversas questões que aqui nos interessam em seu tratado De universo, l. II. No c. XII, Opera, Veneza, 1591, p. 662, ele expõe que, depois do fim do mundo, não haverá mais tempo. Se os movimentos dos céus perseverassem, haveria tempo, pois o movimento não pode existir sem tempo. Se cessarem, o que fariam os seus motores inteligentes e as suas almas? Seriam infelizes. Contudo, segundo a doutrina dos cristãos, o movimento do céu deve cessar completamente. No c. XXXVIII, p. 699, ele explica qual será a renovação do mundo, insinuada pelos profetas e predita explicitamente no Novo Testamento. O céu e a terra não são incorruptíveis. Deus os conserva. Pode, portanto, renová-los e melhorar os céus e os corpos celestes. Se Deus, para alguns eleitos, aperfeiçoou a terra que eles habitam durante a sua vida, que não fará ele por um número muito maior de eleitos, por uma duração eterna, para a sua esposa espiritual, para coroar os seus filhos, para os seus hóspedes?
Para remunerar os céus, as estrelas e os luminares pelos seus serviços, como ensinaram com razão os sábios dos cristãos, ele os conservará, e eles continuarão a iluminar os eleitos. No c. XXXIX, Guilherme descreve o estado futuro do mundo. A paz reinará entre os elementos. Os animais, os vegetais e os minerais já não serão necessários ao homem. Os quatro elementos serão conservados; a terra será mais ornada, o ar mais puro; não haverá mais nuvens, nem chuvas, nem tempestades; a água será purificada. Essa será a recompensa deles pelos serviços que tiverem prestado aos eleitos. No c. xl, ele repete que não haverá mais movimento no outro século. Em seu comentário às Sentenças, são Boaventura propõe primeiramente esta questão: O fogo da conflagração subirá até os astros? Ele responde que subirá apenas tão alto quanto houver corpos consumíveis passíveis. Como os corpos celestes não podem receber impressão estranha, a chama subirá tão alto quanto o espaço que contém os elementos, e não mais alto. Ela não chegará, pois, até os astros; subirá, contudo, mais alto que as águas do dilúvio. In IV Sent., IV, dist. XLVII, q. iii. Este fogo produzirá duas purificações.
A primeira, quæ est a fœditate peccati, chegará até o ar tenebroso onde se comete o pecado. Essa fœditas é local e foi produzida no lugar pelo pecado ali cometido e pela fumaça dos sacrifícios. Sob esse aspecto, a chama subirá tão alto quanto as águas do dilúvio. A segunda purificação será a vetustate corruptionis sive naturæ corruptæ. Ela se produzirá nos outros três elementos, que serão incorruptíveis depois da ressurreição dos mortos. Sob esse aspecto, a chama subirá até a esfera do fogo. Ibid., ad 1um. Haverá também uma dupla renovação: 1° per abjectionem; 2° per additionem et meliorationem. A primeira será para os corpos elementares, nos quais as qualidades corporais serão purificadas, e a segunda nos corpos celestes, cuja luz será aumentada. A primeira será obra do fogo, que rejeita as escórias e purifica; a segunda não será seu efeito. Ibid., ad 3um. Quanto aos textos da Escritura que o doutor seráfico opõe a si mesmo, ele declara que o da II Epístola de são Pedro não fala dos céus incorruptíveis, mas do céu de ar e de fogo. As estrelas que cairão, cairão do céu aéreo.
Serão aparências de estrelas, que caem, segundo a opinião vulgar, quando descem do alto. Essa linguagem está conforme ao modo ordinário de falar. A qualidade ígnea abundará então, e Deus o fará para aterrorizar os pecadores. A segunda questão que são Boaventura se propõe é esta: O fogo da conflagração precederá ou seguirá o juízo? Ele expõe primeiro as opiniões diferentes da sua. Para alguns, haverá dois juízos: um juízo de definição, que precederá a conflagração (a sentença contra os maus será proferida antes do incêndio), um juízo de execução, que a seguirá (os réprobos serão envolvidos no fogo e levados com ele para o inferno). Esse parecer é insustentável, segundo santo Agostinho, De civitate Dei, XX, xvi. Outros distinguem dois efeitos do fogo: purificar e renovar. Ratione purgationis, o fogo da conflagração precederá o juízo; ratione innovationis, ele o seguirá. Esse parecer também não parece sustentável. Esses dois efeitos são conjuntos, e não separados secundum tempus; se são distintos ordinem, sunt simul.
Segundo a Glosa, haverá dois fogos: um purificará os eleitos e atormentará e precederá o juízo, o outro os réprobos depois da sentença proferida. São Boaventura pergunta-se se haverá dois distintos substancialmente em razão dos dois efeitos produzidos. O primeiro purificará os eleitos para torná-los absolutamente puros e queimará os inimigos. O segundo purificará o mundo e o renovará; seguirá o juízo e queimará a face do mundo, para em seguida atormentar os réprobos. Ibid., q. iv. O santo doutor explica a natureza da renovação do mundo, dist. XLVIII, a. 2. Segundo ele, os corpos celestes serão recompensados em certa medida, quia habebunt dispositionem ad præmiandos bonos, q. i. Depois do juízo, estarão em repouso e permanecerão na ordem em que foram criados. Seus movimentos só eram necessários para completar o número dos eleitos, q. ii. Depois do juízo, as qualidades dos elementos e as formas substanciais persistirão quoad substantiam; innovabuntur quoad rationem corruptionis, q. iii. As plantas e os animais não serão renovados, cum tantum sint ad obsequium mortalis hominis et terræ ornamentum pro eo tempore, q. iv. O B. Alberto Magno teve ocasião de explicar, em seus comentários bíblicos, as principais passagens escriturísticas relativas ao fim do mundo.
Ele as interpreta no sentido tradicional. Os céus e a terra perecerão secundum formam in qua nunc sunt, non secundum substantiam. Cf. I Cor., vii, 31; Eccle., i, 4. Envelhecerão, isto é, perderão subitamente sua primeira forma. Serão mudados para melhor. Cf. Heb., i, 12; II Pet., iii, 13; Apoc., XXI, 1. In ps. CI, 27. Passarão, non quoad substantiam, sed quoad actus et figuram generationis. In Matth., XXIV, 35. Os céus novos serão o ar renovado, segundo santo Agostinho. O mar permanecerá in primo statu, tamen innovato et meliorato. In Apoc., XXI, 1. Em seu comentário In IV Sent., IV, dist. XLVII, ele trata de algumas questões relativas ao fogo da conflagração final que, para ele, é o mesmo fogo que precederá o juízo. Declara-o da mesma espécie que o fogo elementar, e entende por céu o céu aéreo, a. 6. Sobre os efeitos da conflagração, reconhece que se pode falar dela por conjectura mais do que por ciência. Ninguém pode saber como isso se dará, senão aquele que o vir. Ele próprio, contudo, não pensa que algum elemento deva ser consumido inteiramente.
Todos os quatro permanecerão segundo seu ser específico, não, porém, segundo a força de suas qualidades ativas e passivas, nisi ut in radice subjecti manet passio quæ non potest venire in actum. Essas qualidades lhes foram dadas em vista da geração e da corrupção, que se sucederão no mundo enquanto o número dos eleitos não estiver completo. Estando esse número perfeito, os elementos permanecerão em outro estado sine permixtione ad invicem et sine actione et passione in pleno lumine. Alberto relata em seguida diversas opiniões. A verdade, em seu parecer, é que os elementos não serão destruídos, mas serão mudados: serão continuamente luminosos, a terra translúcida em sua superfície exterior como o vidro, a água como o cristal, o ar luminoso como o céu e o fogo brilhante como a luz do céu. Suas autoridades são a Glosa sobre I Cor., vii, 31, e sobre Apoc., XXI, 1. O fogo queimará a infecção do pecado, mas não dará a beleza da glória, a. 7. Quanto a seus efeitos sobre os homens, queimará todos os corpos dos bons e dos maus para consumir a fomes peccati, e purificará as almas como instrumento da justiça vindicativa de Deus, a. 8.
Quando tiver cumprido seu ofício, irá ao inferno para punir os maus; ali estará por seu calor, não por sua luz, a. 9. Os bons serão purificados ao menos quanto à forma habitual do pecado, que existe neles e que ele exterminará, mas não os molestará, a. 10. Precederá o juízo quoad incendium mundi; o seguirá quoad involutionem malorum. Dan., vii, 10. É o parecer de santo Agostinho, a. 11. Na dist. XLVIII, Alberto diz que, se houver eclipse simultâneo do sol e da lua, isso será pela vontade de Deus para atemorizar os maus, a. 7. O sol terá uma luz mais brilhante do que agora, em recompensa por ter concorrido para completar o número dos eleitos, a. 8. Não haverá noite, senão no centro da terra, ainda que o sol, a lua e as estrelas continuem a existir. O sol será iluminado dos dois lados, a. 9. Iluminará os bem-aventurados, mas para outro fim que não o de hoje, para fazer admirar a sabedoria do criador, não para iluminar as trevas que só existirão mais no inferno, a. 10. Santo Tomás de Aquino deu algumas precisões sobre o fim do mundo, como sobre muitos outros pontos de doutrina.
Em seu comentário In IV Sent., IV, dist. XLVII, q. iii, a. 4, trata do fogo que precederá o juízo para purificar o mundo. Todos os corpos, que foram feitos para o homem, deverão, no fim dos tempos, ser dispostos conforme o estado glorioso do homem. Ora, os homens, antes de chegar à glória, deverão ser purificados pelo fogo de toda infecção do pecado e de todo defeito de natureza, que não podem coexistir com a glória. Embora os elementos corporais não tenham a infecção do pecado, resta, contudo, neles quædam indecentia ad gloriam ex peccatis in eis commissis, da qual deverão ser purificados, como se purifica um lugar antes de nele celebrar o santo sacrifício da missa. Há também neles algum defeito de natureza e alguma impureza, sobretudo circa medium locum, onde os homens pecaram e onde se fazem as misturas dos elementos. Um fogo muito ativo, e que não permitirá mais nenhuma mistura, os purificará sob esses dois aspectos. Aliás, tendo o primeiro mundo sido purificado pela água, convém que o segundo o seja pelo fogo. Os céus superiores não serão purificados pelo fogo nem a esfera do fogo, mas somente o fogo que nela está contido, nem o paraíso terrestre onde o homem pecador não habitou, nem o inferno onde todas as impurezas estarão reunidas, nem alguns elementos que desaparecerão substancialmente, segundo alguns, mas antes somente quantum ad mutuas actiones et varios motus, ad 2um; Cont. gentes, l. IV, c. xcvii.
Este fogo se acenderá antes da ressurreição e queimará os corpos dos bons e dos maus ao mesmo tempo que purificará a face do mundo. Seguirá ainda a ressurreição e arrastará os réprobos para o inferno. Será produzido pelo concurso de todas as causas inferiores e superiores circa locum medium, ad 3um. O firmamento dos astros não será queimado, mas somente os céus vizinhos da terra. Cont. gentes, loc. cit. Quanto à renovação do mundo, santo Tomás distingue os sinais precursores do juízo, que não se podem conhecer com certeza e que não são necessariamente os relatados nos Evangelhos, da renovação que seguirá o juízo. In IV Sent., IV, dist. XLVIII, q. ii, a. 1. A renovação do mundo corresponderá à beatitude e à incorruptibilidade do homem. Ibid., a. 2; Sum. theol., IIIa Suppl., q. xci, a. 1. Por conseguinte, o movimento dos corpos celestes, causa da geração e da corrupção, cessará. In IV Sent., IV, dist. XLVIII, q. i, a. 1, ad 2um, 3um; Cont. gentes, loc. cit.; IIIa Suppl., q. xci, a. 2. Mas sua substância perseverará, assim como a dos elementos, exceto para estes no que têm de corruptível.
Os corpos mistos não permanecerão como partes principais do mundo, mas secundariamente para o ornamento e a utilidade das outras partes. In IV Sent., IV, dist. XLVIII, q. i, a. 2, ad 5um; Cont. gentes, loc. cit. Os corpos celestes serão aperfeiçoados sobretudo em claridade, para melhor manifestar Deus ao homem. A quantidade e o modo desse aperfeiçoamento só são conhecidos de Deus. IIIa Suppl., q. xci, a. 3. Por comunicação com os corpos celestes tornados mais brilhantes, os elementos serão revestidos de certa claridade, mas desigualmente e cada um segundo seu modo próprio: diz-se que a terra será como que transparente em sua superfície como o vidro, a água como cristal, o ar como o céu, e o fogo como os luminares do céu. In IV Sent., IV, dist. XLVIII, q. ii, a. 2, ad 1um; IIIa Suppl., q. xci, a. 4. Os animais, as plantas e os corpos mistos, não tendo relação alguma com a incorruptibilidade, não existirão no mundo renovado. Cont. gentes, loc. cit.; IIIa Suppl., q. xci, a. 5. Segundo Ricardo de Middleton, In IV Sent., IV, dist. XLVII, q. i, a. 2, convém que, tendo o homem sido renovado pela ressurreição dos corpos, o mundo que foi criado para ele seja renovado de maneira a corresponder ao novo estado da humanidade. Apoc, XXI, 1.
Ora, devendo o homem ser purificado de sua corruptibilidade e de sua culpabilidade, convém que o mundo receba uma dupla purificação, correspondente à do homem, a saber, a separação dos elementos de natureza estranha; uma certa reconciliação do mundo, que foi o teatro dos pecados do homem. O fogo, por sua natureza, convém a essa dupla purificação; ele desagrega e purifica. Como não há lugar acima do meio do ar onde se produzem essas duas impurezas, bastará que o fogo se eleve tão alto quanto as águas do dilúvio. Não atingirá, pois, nem o céu empíreo, nem o paraíso terrestre, nem os corpos celestes, que são incapazes de sofrer as duas impurezas de que o fogo é o instrumento purificador. Este fogo começará em cima e descerá para baixo, porque no meio está a habitação dos demônios, e para significar que este fogo não agirá por virtude natural, mas como instrumento do poder divino. Os elementos permanecerão em sua natureza própria. Este fogo é da mesma espécie que o fogo elementar. A purificação da terra pelo dilúvio foi feita por meio da água natural.
Aliás, Deus, que poderia, certamente, criar um fogo novo, não cria mais espécies novas, q. ii. Alguns pensam que este fogo será produzido naturalmente por uma constelação celeste. Mas o parecer deles é falso, pois, do contrário, poder-se-ia saber quando isso ocorrerá; os outros elementos deveriam servir de matéria; o dilúvio também poderia ter sido natural: o que o bispo de Paris Estêvão condenou. A produção deste fogo será, portanto, sobrenatural, como sua própria ação principal, embora uma grande secura natural deva favorecê-la, q. iii. Ele se acenderá antes do juízo, progredirá durante o juízo, completará sua obra depois, q. iv. Purificará os eleitos que ainda estiverem vivos e que precisarem ser purificados, e reduzirá a cinzas os mortos. Os demais eleitos morrerão, visto que todo movimento celeste terá cessado, e o fogo incinerará seus corpos, para que se assemelhem aos outros, q. v. Atormentará os réprobos antes e depois do juízo, e o que houver nele de impuro descerá ao inferno, q. vi. O que ele tiver de puro deixará de existir e, por sua ação purificadora, se resolverá em sua matéria primeira, q. vii. Na dist. XLVIII, a. 1, Ricardo estuda os sinais precursores do juízo final.
As estrelas só cairão do céu em aparência, q. iv; o escurecimento do sol e da lua só ocorrerá no tempo do juízo, e resultará da presença de uma luz maior; será sucessivo ou simultâneo, mas não consistirá em um eclipse natural, e terá por finalidade aterrorizar os homens, q. v; as virtudes dos céus abaladas serão ou o coro das virtudes, espantado de que tais fenômenos se produzam sem ele, ou então todos os anjos, surpreendidos com o que acontecerá, q. vi. O art. 2 é consagrado à renovação do mundo. Diferirá da purificação, que a precederá saltem ordine naturae, q. i. Os movimentos dos céus cessarão pela vontade dos anjos motores, q. ii. Os céus interromperão seu movimento in convenientissimo situ, não, porém, naquele em que foram criados, pois não conviria ao seu novo estado incorruptível, q. iii. Essa cessação não será causa suficiente da inatividade dos elementos; será necessária a intervenção do poder divino, que privará os elementos de sua transmutação natural, q. iv. A luz dos corpos celestes será aumentada por causa dos bem-aventurados, q. v. Os vegetais e os animais deixarão de existir: serão destruídos; não sendo incorruptíveis, seria necessário um milagre para perpetuá-los, o que não convém, q. vi. Quando o mundo for renovado, Deus não poderá mais acrescentar-lhe nada, nem para a beleza, nem absolutamente, nem para aperfeiçoá-lo, q. vii. Duns Escoto é mais sóbrio sobre todas essas questões.
A purificação final do mundo pelo fogo é predita sobretudo por são Pedro. II Pet., iii. Ela poderá se realizar de diferentes maneiras. Qual é a maneira mais conforme à natureza das partes do universo? Ou bem se fará por um fogo novo, criado em pequena ou em grande quantidade, ou mais largo e mais espesso ao redor da terra e não sobre toda a terra, salvo sucessivamente. Ou então o fogo será criado sobre uma parte determinada da terra e fará o giro da terra. Se for criado, será necessário que uma quantidade igual seja aniquilada em outro corpo. Quanto ao lugar de sua criação, será talvez fora da esfera do fogo, em uma matéria estranha. Os vapores que estão no ar poderão arder. Este fogo não se purificará a si mesmo; não pode sê-lo e não tem necessidade disso; mas purificará o ar sobreposto à terra habitável. In IV Sent., IV, dist. XLVII, q. i, a. ii. Segundo o Filósofo e os teólogos, o movimento dos corpos celestes cessará depois do juízo. Mas as autoridades em que se apoiam os teólogos, Is., LX, 19, 20; Apoc, xxi, 23; x, 6, não o provam, e o argumento de razão que dá santo Tomás não é bom: deficiente effectu (a geração e a corrupção), non ideo cessat causa (o movimento dos corpos celestes).
A cessação desse movimento não está, pois, provada. O movimento do céu pode ser eterno; pode-se afirmar que continuará, e o mais provável é que assim seja. Ibid., dist. XLVIII, q. II. Ver t. iv, col. 1934. Outros teólogos do século XIII, Henrique de Gand, Pedro de Tarentaise, Pedro de la Palu, raciocinaram no mesmo sentido sobre o fim do mundo. Seus pareceres só diferem em especulações de detalhe. Assim, Pedro de la Palu diz que, depois da renovação do mundo, a luz penetrará através da terra até os limbos das crianças. In IV Sent., IV, dist. XLVIII, q. i, a. 1. Até o século XVI, todo o tempo que a escolástica reinou, considerações de mesma natureza foram desenvolvidas nos comentários do IV livro das Sentenças, da IIIa parte da Suma Teológica de são Tomás ou nas obras de Duns Escoto. Seria pouco interessante expô-las. Para mostrar a continuidade do ensino escolástico, resumamos apenas as conclusões de Durando de Saint-Pourçain no século XIV. Ele se pergunta unicamente se o mundo será purificado por um fogo da mesma espécie que o nosso.
Mas sob esta única questão ele agrupa três. Prova pela Escritura, mais do que pela razão, que o mundo será purificado e renovado circa tempus judicii. Essa purificação é chamada uma renovação; ela removerá uma dupla impureza, que provém ou da mistura das naturezas ou das faltas cometidas. Por conseguinte, o mundo não será purificado por inteiro, mas somente em tudo o que serviu aos usos dos homens, ou nas partes a que os homens puderam chegar, portanto até a altura que atingiram as águas do dilúvio. Logo, nem os céus superiores, nem a esfera do fogo, nem a parte superior do ar serão purificados; só a parte inferior do ar o será. M. Durando interpreta assim o sl. CI e o cap. da II Epístola de são Pedro. Ora, é muito conveniente que essa purificação se faça pelo fogo, que é o elemento mais puro, sem mistura e sem defeito, ao menos em sua esfera. Quanto à sua natureza, se for um verdadeiro fogo, será composto de matéria e forma. Será então criado do nada ou engendrado de uma matéria preexistente.
Alguns não querem ver nele senão a ignitio elementi purgandi, ou um calor veemente nos elementos, que permanecerão o que eram. A opinião comum dos doutores tende a esta solução. Mas, se for um fogo verdadeiro, será da mesma espécie que o nosso, assim como a água do dilúvio foi uma água natural. Enfim, precederá o juízo, segundo o sl. XCVI, 3; mas a renovação dos elementos ocorrerá ao mesmo tempo que a ressurreição dos mortos; todavia, a conflagração durará ainda depois. In IV Sent., IV, dist. XLVII, q. III. O ensino dos escolásticos sobre o fim do mundo está realmente fundado na sagrada Escritura e nos dados da tradição eclesiástica. Mas todos eles adotam as interpretações particulares de santo Agostinho, e sobretudo lhes ajuntam considerações apoiadas, na maior parte, na física de seu tempo. Estas são, pois, caducas como a ciência que lhes serviu de base, e os argumentos de razão só têm o valor do raciocínio que os estabelece. Por isso, as especulações dos escolásticos foram, com razão, abandonadas pelos teólogos posteriores.
Alguns textos novos da Bíblia foram citados para confirmar as especulações racionais, mas não tinham relação alguma com o assunto. De sua doutrina não restou senão o ensino tradicional da Igreja, a saber, que o mundo perecerá pelo fogo, mas que esse fim não será uma destruição; será uma purificação, uma renovação e um aperfeiçoamento.
— 3° Os teólogos do século XVI ao XVIII. Durante esse período, a teologia, a respeito do fim do mundo, tornou-se cada vez mais positiva. Os teólogos perscrutaram as fontes da fé: a Escritura e a tradição da Igreja. Multiplicaram mais ou menos os textos, mas dentro do quadro das especulações escolásticas, das quais não se desembaraçavam, porque suas obras permaneciam comentários das Sentenças. Assim, Estius prova longamente que a doutrina do fogo da conflagração e da renovação do mundo ex sacris litteris et antiquissima, id est, apostolica traditione doctrina certissima est. Sobre as relações desse evento final com o juízo final, expõe os pareceres diferentes dos doutores e conclui que provavelmente o advento de Nosso Senhor o precederá. Reduz a quatro os seus efeitos sobre o mundo: purificar e renovar o elementar, provar e purificar os justos, fazer morrer todos os homens vivos, enfim punir os ímpios depois do juízo. In IV Sent., IV, dist. XLVII, § 14-16, Paris, 1662, t. II b, p. 259-262.
Suárez desenvolve mais o assunto; é também mais crítico, pois discute as opiniões diferentes dos Padres e dos doutores. Pergunta-se qual será a futura renovação do mundo. Ela não será uma aniquilação. Alguns autores católicos pensaram que essa renovação seria substancial e que todos os corpos simples, terrestres e celestes, seriam substancialmente aniquilados, ou ao menos corrompidos, e que outros seriam criados ou engendrados, de outra natureza ou substância. Suárez cita Ambrósio Catarino, Comment. in Epist. ad Heb., et in II Petri, III; Jerônimo Maggi, De exustione mundi, II, c. VI, VII; J. F. Vallesius, De sacra philosophia, c. LXXXIX. Ele crê que certo número de Padres seriam favoráveis a esse parecer. Mas seus textos apresentam apenas um sentido geral, segundo o qual os seres corruptíveis se tornarão incorruptíveis, ou então dizem que os próprios céus serão renovados, o que parece bem ser o pensamento de são Pedro. Suárez cita ainda como favorável a esse parecer Sisto de Sena, Bibliotheca sancta, III, c. De ethnicorum rapsodia.
Outros doutores ensinaram que a mudança dos elementos será substancial, visto que alguns serão aniquilados. Por sua parte, Suárez julga que nem os corpos nem os elementos celestes serão aniquilados; sua substância permanecerá algo equivalente a si mesmos. É certamente de fé quanto ao céu e à terra, pois a Escritura diz que permanecerão perpetuamente e que serão novos. Ela nada diz a respeito dos outros corpos. A opinião communior et probabilior dos teólogos é que os quatro elementos permanecerão seja sob a mesma substância e forma que agora, seja sob outra. Aos argumentos escriturísticos e tradicionais ele ajunta razões desta força: o ar será conservado para que não haja vazio entre o céu e a terra; o fogo não será corrompido pelo fogo da conflagração, que será da mesma natureza que ele. Todos os Padres e doutores dizem que o céu empíreo permanecerá o mesmo depois do juízo. A Escritura só fala da corrupção do céu visível. É provável que os outros céus sejam corrompidos. O céu dos bem-aventurados não será nem mudado, nem sequer acidentalmente, nem purificado nem renovado.
É perfeito como lugar dos bem-aventurados; não tem movimento e está perpetuamente em repouso; é muito claro e muito belo. Não precisa ser purificado, porque não é certo que os anjos ali tenham pecado e que, aliás, o pecado deles fosse puramente espiritual. Muitos Padres pensaram que os céus superiores não seriam mudados, senão acidentalmente, e assim renovados. Esta opinião é mais provável, mas não certa. A opinião que admite sua mudança, embora rejeitada pelas escolas, não carece de alguma probabilidade, pois tem um fundamento aparente na Escritura e foi aprovada por muitos Padres. O fogo do juízo final se elevará no ar até a altura a que chegaram as águas do dilúvio. É o parecer de santo Agostinho e dos escolásticos, e sua interpretação do texto de são Pedro. Suárez resolve as dificuldades que essa interpretação apresenta. Se o céu for corruptível por sua natureza, seria mudado em fogo, mas não transformado. Como instrumento de Deus, o fogo poderia queimar os céus. Deus poderia dar-lhe essa virtude; dar-lha-á?
Os céus são puros aos seus olhos, e não foram tornados corruptíveis pelo pecado do homem. Parece mesmo que não serão renovados, pois os novos céus, de que fala a Escritura, não são senão o céu aéreo. Serão apenas mais brilhantes, independentemente do corpo dos bem-aventurados, por uma espécie de propriedade intrínseca e permanente que Deus lhes dará. É menos certo que os elementos serão renovados e aperfeiçoados. O fogo não precisa de purificação; a água não será ressecada, e a terra, que sofrerá uma comoção e uma alteração exteriores, só será mudada superficialmente. A renovação será primeiramente uma purificação de todas as manchas, depois um aumento de luz e de claridade, que, contudo, não será igual para todos os elementos, mas proporcionada à sua natureza. É provável que a terra não possa ser penetrada por essa luz até suas profundezas, mas pode-se sustentar que será transparente como o vidro, com exceção do inferno. Eis a ordem em que se produzirão essa purificação e essa renovação.
Assim que Cristo e os santos tiverem subido de novo aos céus, verossimilmente, assim que chegarem aos céus superiores, se produzirá uma comoção, que será seguida da conflagração da terra e do ar. É mais provável que o fogo seja da mesma natureza que o nosso. Alguns querem que ele desça de sua esfera sobre a terra. Esse parecer não deve ser aprovado, pois esse fogo é raro e pouco ativo. Não é necessário dizer com outros que virá do ar, ou que será criado. Pensa-se geralmente que será produzido de alguma matéria facilmente inflamável, por exemplo, vapores ou exalações da terra. É provável que causas naturais, sob uma ordem de agir dada sobrenaturalmente, o produzirão. É verossímil que será engendrado na segunda parte do ar, por ordem de Deus, e que dela descerá. Será aceso pelo movimento. Estará em quantidade suficiente para envolver simultaneamente toda a terra e para subir acima das mais altas montanhas. A maior parte do ar será mudada em fogo e depois voltará a ser ar. Todavia, a conflagração se faria mais facilmente se o fogo não abrasasse tudo simultaneamente, e bastaria que queimasse uma grande parte das coisas sucessivamente.
Discute-se se todos os corpos mistos perecerão. Outros certamente não serão criados, e é mais provável que não haverá mais nem animais, nem plantas, nem minerais. Todas as imundícies do mundo descerão ao inferno. Depois do juízo, o céu estará em repouso; o sol, a lua e os astros não se moverão mais. Todos os teólogos ensinam que estarão na melhor situação e disposição que convenham à maior beleza do universo. Alguns fazem cessar seu movimento já na ressurreição dos mortos. Imediatamente depois da cessação desse movimento, a renovação do mundo se fará. O fogo e a terra permanecerão em sua situação natural, um em cima, a outra embaixo. Estará a terra totalmente coberta de água, ou apenas em parte? Isso depende da solução dada a esta outra questão: as crianças mortas com o pecado original estarão, depois da ressurreição, sob a terra ou na superfície da terra? No primeiro caso, não é necessário que uma parte da terra não esteja coberta de água; no segundo, isso seria necessário para ali colocar essas crianças. In Sum. S. Thomæ, IIIa, q. LXXIV, a. 6, disp. LVIII, sect. 1. Opera, Paris, 1866, xix, p. 1104 sq. Como se vê, o P. Suárez se limita a fazer uma escolha entre as opiniões dos teólogos escolásticos.
Lessius não prova o fato; disserta brevemente sobre o fogo que abrasará o globo e sobre a renovação do mundo. Discute-se se a conflagração precederá ou seguirá o juízo; em seu parecer, ela deve preceder. O fogo produzirá três efeitos: dissolverá todos os corpos mistos em seus elementos; não atingirá os céus superiores, como ensina santo Agostinho, mas somente a terra, que será como um vulcão; purificará os justos que ainda tiverem aliquid labis, culpæ vel reatus pœnæ, segundo 1 Cor., III, 15; enfim, expiará o que o mundo tem a expiar. Pergunta-se se todos os homens morrerão. Adota a opinião dos Padres e conclui que todos morrerão de algum modo. De perfectionibus divinis, XIII, c. xx. 1. Quando a sentença do juiz for proferida, eis como será executada e como o mundo será renovado. O fogo envolverá os réprobos e a terra os fará descer até os infernos. A renovação do mundo se dará subitamente, como a ressurreição dos mortos. Como se fará? Não haverá mudança de substância nos céus nem nos elementos.
Erit alia facies rerum ita ut omnia videantur nova. Estrelas sem número aparecerão; em consequência, parecerão escurecer-se. Denique omnia per hanc innovationem eam pulchritudinem assequentur; quæ respondeat gloriæ sanctorum, servata tamen proportione inter corpora: quanto mais sublimes são os corpos, mais convém que sejam revestidos de glória. Ibid., c. xxiii. Sílvio ensina que o mundo deve ser purificado e indica as conveniências de que o seja pelo fogo. O fogo elementar não será purificado ele mesmo em sua esfera, mas poderá sê-lo fora de seu lugar natural pelo fogo da conflagração, que será mais forte e mais puro que o nosso, embora da mesma espécie. Os céus superiores tampouco serão purificados. O fogo não consumirá os outros elementos, purificá-los-á somente até o meio do ar. A conflagração precederá e seguirá o julgamento. Seus efeitos consistirão em purificar e renovar o mundo elementar, em fazer morrer todos os homens vivos, os bons e os maus, em provar e purificar os justos para substituir o purgatório, em punir enfim os ímpios extinguindo neles o reatus pœnæ dos pecados e envolvendo-os após a ressurreição para arrastá-los ao inferno. In IIIam partem Summæ Thomæ, S. q. LXXIV, 6e édit., Anvers, 1695, p. 754-757.
Mastrius de Meldula situa a renovação futura do mundo depois do julgamento. Segundo a opinião mais comum, os céus e a terra só serão mudados acidentalmente. Os teólogos mais antigos e alguns modernos, entre os quais ele cita o P. Jean Bagot, jesuíta, sustentaram que os céus siderais, exceto o empíreo, seriam mudados substancialmente pelo fogo. Mais comumente, ensina-se, e Suarez o demonstrou muito bem, que eles serão renovados secundum aliqua accidentia. Comumente também se admite que os elementos serão apenas renovados. A conflagração ocorrerá antes ou depois do julgamento. O fogo será um fogo novo, criado por Deus, no sentir de Escoto, ou então um fogo engendrado da terra. Ele queimará o mundo inteiro, mas sucessivamente, todos os corpos, exceto os corpos celestes, os homens vivos, para que morram, mesmo os eleitos. Queimará certamente também os condenados ressuscitados. Suarez e Brancatus negam que os eleitos ressuscitados devam passar pelo fogo; é mais provável que aqueles que estão in via, os vivos e os falecidos ainda no purgatório, por ele passarão.
O movimento dos corpos celestes cessará, mas discute-se sobre a situação que esses corpos guardarão definitivamente. Não se sabe se todos os outros movimentos cessarão, nem exatamente quando se dará essa cessação, antes, durante ou depois do julgamento. Theologia moralis, 6e édit., Venise, 1723, disp. XXVIII. Todos esses trabalhos, e provavelmente ainda os da mesma época, de Alphonse Pandolfi, De fine mundi, Rome, 1658, e de Célestin Maur, beneditino alemão, De statu futuri sæculi, 1722, tinham o defeito de conservar as opiniões dos antigos sobre os céus incorruptíveis e os quatro elementos. Os progressos das ciências físicas deviam logo libertar os teólogos desses erros científicos que desfiguraram a teologia durante ao menos seis séculos e que deviam desaparecer.
— 4° Os teólogos do século XVIII e do século XIX. Aqueles dentre eles que conheceram os trabalhos dos sábios modernos sobre a composição química dos corpos deixaram de lado as especulações da Idade Média e se apoiaram exclusivamente na revelação divina, contida na Escritura, e na antiga tradição eclesiástica. Souberam menos coisas sobre o fim e a renovação do mundo, mas seu ensinamento mais circunspecto e mais reservado nem por isso deixou de se tornar mais seguro. Pode-se assinalar como tendo sofrido já, ao menos indiretamente, essa influência, a Dissertation sur la fin du monde et sur l'état du monde après le dernier jour, que dom Calmet inseriu em seu Commentaire littéral, 2e édit., Paris, 1726, t. VIII, p. 364-375. Para terminar nossa longa investigação sobre este assunto, indiquemos as conclusões de alguns teólogos contemporâneos. H. Hurter, Theologiæ dogmaticæ compendium, tr. X, De Deo consummatore, n. 715, 9e édit., Inspruck, 1896, III, p. 640, resume as suas em algumas linhas: A consumação do século não será a aniquilação completa ou a destruição da substância do mundo; será apenas a mudança da ordem presente e da forma do mundo. I Cor., VII, 31.
Far-se-á pelo fogo. II Pet., III, 6 sq. A renovação do mundo será simultânea à sua consumação. II Pet., III, 12; Rom., VIII, 19, 20. Hurter remete a Mack, Quartalschrift de Tubingue, 1833, p. 601-639; a J.-B. Krauss, Die Apokatasiasis der unfreien Creatur auf kathol. Standpunkte, Ratisbonne, 1850; a Scheeben, Mysterien des Christentums, § 96. Sobre a condição futura do mundo renovado, Hurter não sabe nada e não quer sequer fazer nenhuma conjectura. Que este mundo contenha animais e plantas ou que a renovação final seja orgânica, vegetal e animal, isso é a seus olhos uma questão grave. Bautz sustentou a afirmativa, em Der Katholik, 1877, p. 135-158; Der Himmel, p. 180 sq.; Das Weltgericht, § 20. A. Stentrup, Prælectiones dogmaticæ de Verbo incarnato, part. II, Soteriologia, Inspruck, 1889, t. II, p. 1087-1113, consagra duas teses, CLXVI e CLXVII, a este assunto.
O mundo será renovado, conforme ensina a Escritura, II Pet., iii, 13; Apoc., xxi, 1. Esta renovação não será uma criação nova, embora alguns autores católicos assim o tenham pensado; mas o poder divino dará como que uma nova forma ao mundo, que permanecerá substancialmente o mesmo, como se depreende de I Cor., vii, 31, e de Rom., viii, 19, 20, interpretados assim pelos santos Padres. Esta renovação será precedida da conflagração do mundo inteiro por um fogo real e corpóreo. As tradições mais antigas de quase todos os povos admitem a conflagração do mundo, de modo que se pode conjecturar, talvez não sem razão, que elas derivam da tradição primitiva. Vários testemunhos do Antigo Testamento anunciam bastante claramente essa conflagração. Ps. xcvi, 3 sq.; Is., lxvi, 15 sq.; Joël, ii, 1 sq.; Mal., iv, 1. O texto, tão claro quanto possível, de são Pedro, II Pet., iii, 5 sq., é formal, e fala do fogo corpóreo. As opiniões dos teólogos sobre sua origem são todas incertas e algumas até mesmo incompatíveis com o ensinamento atual sobre a natureza das coisas. Baste, pois, dizer com santo Tomás que causas naturais, entrando em ação por ordem de Deus, bastarão para produzi-lo.
Os teólogos concordam em dizer que o ar que envolve a terra será atingido pelo incêndio, o texto de são Pedro obriga a admiti-lo, mas esse texto não fala do céu sideral e nenhuma razão conveniente pode provar que o fogo queimará esse céu. Os teólogos são unânimes em reconhecer que a conflagração final tem por fim purificar o mundo do contágio das faltas que nele foram cometidas e livrá-lo da servidão da corrupção. Stentrup retém do sentir deles que o incêndio removerá do mundo toda podridão e toda corrupção e que o tornará assim apto a receber uma nova forma, correspondente à condição gloriosa dos bem-aventurados. Ele não vê nenhuma razão que prove que a conflagração deva preceder o julgamento e sustenta que ela o seguirá. Convém que o julgamento seja o fim do mundo antigo e o começo do novo. Quanto ao estado do mundo novo, no sentir comum dos teólogos, o céu sideral receberá de Deus um acréscimo de luz e de claridade, segundo Is., xxx, 26; estará em repouso e na situação mais conveniente à beleza do universo. Mas o P. Stentrup não ousa, apesar da opinião quase unânime dos teólogos, adotar a ideia do repouso absoluto do céu sideral; ignora as razões disso.
Discute e rejeita os argumentos pelos quais santo Tomás tentou provar que na terra nova não poderia mais haver animais, plantas nem corpos mistos: a opinião contrária não lhe parece carecer de alguma probabilidade e pode ser sustentada por um teólogo católico. Não se poderia mais ensinar a opinião dos escolásticos sobre a persistência e a glorificação dos corpos simples ou dos quatro elementos. Aliás, as fontes da revelação nada nos ensinam sobre a natureza do mundo renovado no fim dos séculos, e o teólogo nada tem a dizer que não possa confirmar pela Escritura, a tradição ou a razão teológica.
Em suas Quaestiones de novissimis, Rome, 1902, p. 163, o P. Billot disse apenas algumas palavras sobre o fim do mundo. O dia do julgamento é chamado παλιγγενεσία, Matth., xix, 28, porque então ocorrerão a restauração de todas as coisas e o novo nascimento de todas as criaturas, quando a ordem que reinava anteriormente for mudada de alto a baixo. M. A. Tanquerey, Synopsis theologiae dogmaticae specialis. De Deo remuneratore, § 2, n. 87, 8e édit., 1905, 744, é igualmente breve: E variis Scripturae locis colligunt Patres et theologi post conflagrationem mundi et judicium terram innovandam esse. II Pet., III, 13. In quo autem illa innovatio consistat incertum est, et hac de re theologi scientiaeque cultores libere disputare possunt.
Se esta última afirmação é justa, a primeira me parece incompleta, pois o texto de são Pedro não fala apenas da renovação da terra; fala também da do céu, e já mostrei anteriormente, ver col. 2511 sq., que não se trata apenas do céu aéreo, mas dos céus em geral, e portanto da criação inteira. Permanece provado, com efeito, que, segundo a revelação divina, interpretada pelos Padres da Igreja e pelos teólogos católicos, o mundo atual inteiro deve ser, no fim dos tempos, purificado, transformado e renovado pelo fogo. Sua renovação não será uma destruição nem uma aniquilação, mas um aperfeiçoamento e uma adaptação às condições dos eleitos, beatificados no céu. A revelação nada nos ensina de certo sobre a natureza da restauração final do mundo atual, e por conseguinte é mais prudente não fazer a esse respeito nenhuma conjectura, que correria o risco de não ser verificada pelo acontecimento.
— III. ENSINO CIENTÍFICO. Pouco alcance em uma matéria que depende exclusivamente da vontade divina e que é da alçada estrita da revelação. Contudo, os sábios procuraram várias vezes confirmar os dados escriturísticos sobre o fim do mundo. Reconheceram a possibilidade da destruição do mundo atual pelo fogo, sem poder afirmar o fato futuro. Se o fenômeno se produzir, será em consequência de uma catástrofe extraordinária e pelo efeito de uma causa acidental. Alguns haviam pensado que o choque de um cometa bastaria para incendiar a terra instantaneamente. Todavia as condições desse acidente poderiam realizar-se com muita dificuldade, e há pouca chance de que se realizem algum dia. Mas em virtude das leis da conservação da energia e da transformação do trabalho em calor, a repartição do calor tenderia cada vez mais a um estado de equilíbrio final de temperatura que desagregaria as moléculas dos corpos e levaria o universo inteiro a não ser mais do que um amontoado de matéria nebulosa e dissociada, de onde desapareceriam todo movimento e toda beleza. F. Folie, Du commencement et de la fin du monde d'après la théorie mécanique de la chaleur (memória lida na Academia Real da Bélgica em 15 de dezembro de 1873); R. Clausius, na Revue des questions scientifiques, Bruxelles, avril 1890, p. 485-486. Cf. Moigno, Les splendeurs de la foi, t. III, p. 1286; Les Livres saints et la science, Paris, 1884, p. 353-358.
Contudo, vários sábios modernos, fiéis aos métodos científicos, procuraram averiguar qual seria a sorte de nosso globo ou do universo se apenas as causas naturais entrassem em jogo, feita abstração de uma intervenção especial de Deus, com a qual não contavam, sem contudo negá-la. Mas por fim do mundo entendem geralmente o desaparecimento da vida, e os mais recentes atribuíram-no a três causas diferentes: ou à falta de água, ou à invasão dos mares sobre os continentes, A. de Lapparent, La destinée de la terre ferme et la durée des temps géologiques, no Compte rendu du Congrès scientifique international des catholiques, VIe section. Sciences mathématiques et naturelles, Paris, 1891, p. 275-293, ou enfim ao frio, resultante da extinção e da solidificação do sol. A. de Lapparent, Traité de géologie, Paris, 1883, p. 1259; H. Faye, Sur l'origine du monde, 2e édit., Paris, 1885, p. 306-308. Seja como for do curso natural das coisas, a conflagração universal do mundo, que Deus pode produzir por um ato de sua onipotência, não parece impossível do ponto de vista da ciência humana.
III. Época. Se o fim do mundo devesse ser produzido pelas causas naturais que lhe atribuem os sábios modernos, ele só chegaria a um prazo muito distante de nós. A Escritura, que o apresenta antes como o efeito de uma catástrofe acidental e súbita, ligou-o à data da segunda vinda do Messias para julgar os homens. Ora, esta data nos é desconhecida; logo também a época do fim do mundo.
1° Toda uma escola de críticos racionalistas contemporâneos pretende, é verdade, que o próprio Jesus teria acreditado na iminência de seu retorno ou de sua vinda messiânica na glória e por conseguinte na iminência do fim do mundo. Os apóstolos e os primeiros cristãos teriam esperado como próxima a παρουσία do Salvador, termo que se pode repetir sem ser modernista, pois se encontra nos lábios do próprio Jesus para designar seu último advento, Matth., xxiv, 3, 27, 37, 39, e sob a pena dos apóstolos. I Cor., xv, 23; I Thess., ii, 19; iii, 13; IV, 15; v, 23; II Thess., ii, 1, 8; Jac., v, 7, 8; II Pet., i, 16.
Mas como Jesus e os apóstolos falam, ao que parece, antes da proximidade do dia do Senhor do que do fim do mundo, do qual só se trata diretamente, Matth., xxiv, 14; I Pet., iv, 7, preferimos remeter a discussão desta grave questão ao art. Jugement dernier, onde será tratada longamente. Ver, entretanto, os artigos Fin du monde, no Dictionnaire de la Bible, t. II, col. 2267-2278, e o Dictionnaire apologétique de la foi catholique, édit. d'Alès, t. I, col. 1911-1928. Verá-se aí que Jesus nada ensinou sobre a data de sua segunda vinda e que os apóstolos, ainda que tenham esperado como próximo o retorno do Mestre, não afirmaram seu sentir, que não entrou no domínio da revelação divina. Jesus e os apóstolos ignoraram o dia e a hora da parusia, e assim a época do fim do mundo não é fixada pela Escritura.
2° Se tivesse havido uma tradição apostólica sobre a proximidade do fim do mundo, ela não teria persistido muito tempo na Igreja, pois a Epístola do pseudo-Barnabé, que é do fim do século I ou do começo do II, reporta a consumação das coisas a seis mil anos após a criação do mundo. Tendo Deus criado o mundo em seis dias e um dia valendo diante dele mil anos, xv, 4. Funk, Patres apostolici, t. I, 82, 84.
Santo Ireneu repete a mesma coisa, Cont. hær., 1. V, c. xxiii, n. 2; c. xxviii, n. 3, P. G., t. VII, 1185 sq., 1199; assim como são Cipriano, Ad Demetrianum, n. 3, 4, P. L., t. IV, col. 546-547; santo Hipólito, In Dan., IV, 23, édit. Bonwetsch, t. I, p. 244, e todos os milenaristas; o autor das Quaestiones ad orthodoxos, q. lxxi, P. G., t. VI, col. 1312; Lactâncio, Div. inst., 1. VII, c. xiv, P. L., t. VI, col. 782-783; Vitorino de Petau, In Apoc., XX, 6, P. L., t. V, col. 342. Cf. S. Agostinho, De civitate Dei, XX, c. VII, n. 1, P. L., t. XLI, col. 667. Ver 1. monde MILLÉNARISME.
A duração do mundo durante seis mil anos foi admitida por outros escritores eclesiásticos além dos milenaristas. Assim santo Ambrósio, In Luc., 1. VII, n. 7, P. L., t. XV, col. 1701, e santo Hilário de Poitiers, In Matth., XVII, n. 2, P. L., t. IX, col. 1013-1014, apoiavam-se nos seis dias que precederam a transfiguração de Nosso Senhor. São Gaudêncio de Bréscia colocava o dia da ressurreição no ano 7000 do mundo. Serm., x, P. L., t. XX, col. 916-917. Mas o fundamento desse cômputo não é sólido, e a duração de seis mil anos permaneceu, na Igreja, a opinião de alguns doutores.
3° Um pequeno número de Padres ou escritores eclesiásticos, sobretudo pregadores, pensaram que o fim do mundo se aproximava de seu tempo, e em todas as épocas houve cristãos que o esperaram a curto prazo. Mas o acontecimento ainda não realizou esses temores ou essas esperanças, que portanto não eram fundadas. Ver Tertuliano, Apologet., 32, P. L., t. I, col. 447; S. Cipriano, ver acima, col. 2508. Citemos, entre os antigos pregadores, são João Crisóstomo, In Matth., homil. XX, n. 6, P. G., t. LVII, col. 294; In Joa., homil. XXXIV, n. 3, t. LIX, col. 198; são Leão Magno, Serm., XIX, c. i, P. L., t. LIV, col. 186; são Gregório Magno, Moral., XVII, c. IX, n. 11, P. L., t. LXXVI, col. 17. Para S. Avito, ver t. I, col. 2643; S. Elói, ver t. IV, col. 2349.
4° A maior parte dos Padres e escritores eclesiásticos não se preocupam com a data do fim do mundo. São Filastro incluía entre as heresias a opinião que situava a consumação do século no ano 500, segundo a profecia de Daniel. Hær., 107, P. L., t. XII, col. 1221. Os escolásticos também não se detêm nisso, e a única menção de tempo que encontramos está em santo Tomás, Sum. theol., IIIa Suppl., q. xci, a. 2, ad 1um. Para rejeitar a opinião dos doutores que pensam que o céu repousará na situação em que foi criado, a fim de que nenhuma revolução do céu permaneça incompleta, o santo doutor não considera conveniente a razão dada quia, cum aliqua revolutio in caelo non fit, nisi in triginta sex millibus annorum, sequeretur quod mundus deberet tamdiu durare, quod non videtur probabile. Poder-se-ia também saber por aí quando o mundo deve acabar. Enfim ele conclui: Tempus autem finis mundi ponitur esse ignotum. Esta é a última palavra a dizer sobre esta questão. Todos os cálculos, feitos ao longo dos séculos, são sem fundamento e sem valor.
5° Só se poderiam fazer conjecturas sobre a duração do mundo atual, nenhuma seria fundada. Alguns espíritos gostam de pensar que é conveniente que os homens gozem na terra dos benefícios da encarnação do Verbo ao menos tanto tempo, senão mais, depois desse feliz acontecimento quanto antes dele, de tal sorte que o mundo duraria ao menos quatro ou seis mil anos ou ainda mais, segundo os cálculos cronológicos diferentes dos tempos pré-cristãos. Esta razão de conveniência pode ter valor, mas a duração do mundo, como a data de seu fim, permaneceram o segredo de Deus. Consultar os tratados De novissimis, além das obras citadas ao longo do artigo. Ver especialmente, para a Escritura e os primeiros tempos da Igreja, L. Atzberger, Die christliche Eschatologie in den Stadien ihrer Offenbarung im Alten und Neuen Testamente, Fribourg-en-Brisgau, 1890; Geschichte der christlichen Eschatologie innerhalb der vornicänischen Zeit, ibid., 1896, passim; E. Mangenot, art. Fin du monde, no Dictionnaire de la Bible de M. Vigouroux, t. II, col. 2262-2278
Autor original: E. Mangenot
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