FILLASTRE (ou PHILASTRE) — Guillaume, decano de Reims e cardeal. I. Vida. II. Obras. Vida. Era originário do Maine e não de Anjou, como às vezes se disse, e nasceu provavelmente em La Suze, em 1347 ou 1348. Estudou direito na universidade de Angers e obteve o grau de doutor in utroque. Tornou-se logo cônego dessa cidade; depois cônego capitular na igreja de Le Mans. Em 1389, era oficial de Reims e decano de Saint-Symphorien na mesma igreja. Foi testamenteiro do arcebispo Richard Picque, morto em 6 de dezembro daquele ano, e em abril de 1391 publicou a prestação de contas de tudo o que fez para atender às intenções do testador. Cf. Varin, Archives administratives de Reims, t. III, p. 731. Nomeado decano de Reims, foi confirmado nesse cargo pela Santa Sé em 8 de março de 1392. Dois anos depois, o rei Carlos VI convocou em Paris uma numerosa assembleia de príncipes, senhores e bispos, que desejava consultar sobre os perigos comuns da Igreja e do Estado. O decano foi enviado a ela por seu arcebispo Guy de Roye. Seu papel no seio desse concílio não foi muito notado. Em dezembro de 1398, Fillastre foi chamado a fazer parte da escolta de Luís de Orléans, que queria dirigir-se a Avignon junto a Bento XIII sitiado, mas essa viagem foi cancelada. 1° Sínodo de Paris.
Em um novo sínodo (o IVe), realizado em Paris no fim de 1406, Guillaume desempenhou um papel bem mais importante. Havia sido escolhido pelo papa Bento XIII para defender sua causa contra os oradores régios e universitários, Pierre aux Bœufs, mestre Jean Petit, o patriarca de Alexandria, Simond de Cramaud, Pierre Le Roy, abade de Mont-Saint-Michel, e o liegense Pierre Plaoul. Bourgeois du Chastenet conservou-nos o discurso (ms. de Saint-Victor, 827, p. 94-234: atualmente, Bibliothèque nationale, 23428) que ele proferiu em 3 de dezembro, primeiro domingo do Advento. « Os delegados do papa, diz ele, vieram procurá-lo e, não sabendo exprimir-se em francês, pediram-lhe que falasse em seu lugar. Puseram então em suas mãos um memorial que ele traduzirá. » Mas, terminado esse exórdio, o orador começa a exposição dos fatos e sua linguagem torna-se mais viva. Qual é o principal acusador do papa? É a universidade de Paris. Essa poderosa corporação merece certamente que se leve em conta seus pareceres sobre os assuntos da Igreja; sua autoridade não é, porém, soberana, e ela se convence com demasiada facilidade de que só lhe cabe mandar. Ela acusa, pois, com veemência, e, à falta de argumentos melhores, recorre à calúnia.
Desde o advento de Bento XIII, espera-se o fim das perturbações que assolam a Igreja; mas a responsabilidade dessas perturbações e o insucesso de todos os esforços empregados para acalmá-las, é ao papa de Avignon que se devem imputar? Ele fez tudo para condescender aos menores desejos do rei; mas, aconselhado pela universidade, o rei nunca se deu por satisfeito e as coisas foram de mal a pior. Fazem-se ouvir hoje grandes ameaças; declara-se um papa herege, cismático, sem ter qualidade para pronunciar tal sentença, e chega-se a declarar que um rei pode, por sua própria autoridade, destituir um papa por causa de heresia. Que se tome bem cuidado! Os soberanos têm grandes obrigações para com os papas; os papas quase nada lhes devem, e quando reis, inchados de orgulho, tiveram a temeridade de tocar nas coisas espirituais, que não lhes dizem respeito, cometeram uma falta que pouco lhes aproveitou. Lembra-se sem dúvida a infeliz aventura de Ozias, afastando os sacerdotes para sacrificar em seu lugar. Deus o castigou por esse sacrilégio dando-lhe a lepra. Mais uma vez, a universidade de Paris aconselha mal o rei. Que se fala, aliás, de destituir um papa?
Isso não pode ser, e se os príncipes são sem poder contra os pontífices, os próprios papas destituídos terão sempre poder suficiente contra os reis. Pode-se sem dúvida declarar que não se reconhece um papa; mas essa declaração não o priva de suas chaves, e ele continuará a servir-se delas. Suponhamos os habitantes de Paris muito mal dispostos em relação a seu prebostre, acusando-o de maus costumes, de más práticas, e declarando que doravante lhe recusam toda obediência. Pois bem! essa declaração não impedirá o dito prebostre de mandar prendê-los e de mandar enforcá-los, enquanto lhe restarem archeiros dóceis a suas ordens. Do mesmo modo, sempre possuidor das chaves que ninguém lhe pode arrebatar, o pontífice excomungará seus inimigos, e, apesar de todos os protestos que puderem fazer ouvir, eles serão e permanecerão excomungados... » Em 7 de dezembro, ele retomou a palavra para responder a Pierre Le Roy, « o maior canonista do reino. » Sua doutrina é firme e muito teológica, quando nega aos fiéis e aos bispos o direito de julgar e condenar o soberano pontífice. Infelizmente, o tom do orador, embora em geral cheio de bonomia, é por vezes mais vigoroso que hábil.
Devia desagradar aos grandes senhores diante dos quais falava, tanto mais que tinha parecido fazer uma alusão pouco discreta à doença mental do rei. O duque de Berry, mais irritado que o próprio príncipe, falou em castigar sem demora a audácia de Guillaume. « Quem havia de crer, diz Juvénal des Ursins, alguns do sangue e outros jovens, ter-lhe-iam feito muito má companhia, isto é, um mau partido. » Tendo-se, pois, avançado demais, o decano de Reims recuou demasiado humildemente, e, diz o cronista, pediu perdão, pois era acusado do crime de lesa-majestade. Em 11 de dezembro, Pierre d'Ailly, o ilustre bispo de Cambrai, também partidário do papa, mas mais reservado, acabava de refutar com argumentos muito graves a doutrina da universidade. Foi então que nosso decano entoou sua palinódia: « Locutus sum, disse ele, in lingua mea: Domine, fac mihi finem. Senhor, falei apenas com minha língua; já que isso vos desagrada, fazei de mim o que vos aprouver. Falei de algumas coisas sem cuidado; não o digo para mim, mas para me desculpar, digo-o para obter vossa clemência... Senhor, venho à vossa clemência; sou um pobre homem, que fui criado nos campos; sou rude por natureza, não morei com os reis nem com os senhores, pelo que não sei a maneira nem o estilo de falar em sua presença.
Se falei simplesmente, disso estou muito pesaroso... Senhor, sei bem que vossa Senhoria não é como as outras. O imperador tem seu império do papa, mas vosso reino é por herança... E por isso, Senhor, suplico à vossa clemência, e serei no futuro mais avisado, se aprouver a Deus, ego magis fidelis vestrae majestatis regiae, se vos aprouver ter misericórdia de mim. » O chanceler respondeu de modo emburrado e seco a Guillaume: « Meu Senhor decano, o rei ouviu o que dissestes outro dia. Quando falastes, meu Senhor de Berry esteve presente, o que muito o desagradou. Ele não está aqui presente; segunda-feira, decidir-se-á. » (Ms. cit., fol. 39 v°). Na sessão de 17 de dezembro, o decano de Reims tomou de novo a palavra; mostrou-se dessa vez mais moderado em suas expressões, mas nem por isso deixou de sustentar energicamente a doutrina. « O concílio, disse ele, ainda não propôs, para acabar com o cisma, um expediente praticável. Não andemos tanto ao redor do assunto. Busquemos juntos hoje os meios de acabar com essa divisão. O rei não tem autoridade na Igreja, não é ele que trará remédio à situação. Pedi-lo-emos aos concílios? Diz-se, é verdade, que os concílios gerais têm superioridade sobre os papas.
É uma opinião falsa; mas, ainda que fosse verdadeira, vinte e cinco bispos reunidos em Paris podem considerar-se como representando toda a Igreja e deliberar em seu nome? » Era a própria razão; e, no entanto, como se sabe, Pierre d'Ailly e Guillaume Fillastre não obtiveram ganho de causa completo no concílio de 1406. No mês de março de 1407, os dois prelados fizeram parte da embaixada diplomática enviada aos dois papas Bento XIII e Gregório XII para convidá-los a entenderem-se. Talvez tenha assistido com o bispo de Cambrai ao concílio de Pisa de 1409. Em todo caso, é a partir dessa data que ambos abandonaram publicamente Bento XIII. Ambos também foram nomeados cardeais no mesmo dia (6 de junho de 1411) por João XXIII, e Guillaume tomou o título de cardeal de Saint-Marc. Dois anos depois, a Igreja de Reims elegeu Fillastre abade de Saint-Pierre d'Hautvillers. Por outro lado, João XXIII conferiu-lhe em 1413 a expectativa do arcebispado de Aix, e, em 1414, o priorado de la Haie-aux-Bons- Hommes, perto de Angers. (Arch. nat., X, 1a, 9198, fol. 128, v°). — 2° Concílio de Constança. Nesse mesmo ano abriu-se o concílio de Constança, no qual nosso cardeal tomou a parte mais ativa com seu amigo Pierre d'Ailly, cujas opiniões partilhou quase todas.
Pôde-se até censurá-los por terem praticado uma independência de coração que toca à ingratidão para com o pontífice que os havia cumulado de favores. Mas pode-se dizer em seu abono que sempre quiseram inspirar-se no bem geral da Igreja e no interesse público. Uma segunda censura, mais grave, que se pode fazer a Fillastre, é a de ter rejeitado, em 1415, os princípios teológicos que havia sustentado com tanta franqueza e brilho no seio do sínodo parisiense de 1406. Com d'Ailly, o cardeal de Saint-Marc professou a superioridade do concílio sobre o papa, não como um expediente transitório reclamado pela necessidade presente da Igreja, mas como uma doutrina comprovada e definitiva. Chegou mesmo a reivindicar para o concílio o direito verdadeiramente excessivo de depor o soberano pontífice. Desde o começo do concílio, d'Ailly, de acordo com Fillastre, resistiu às pretensões de alguns italianos que haviam proposto encerrar a assembleia já na 1ª sessão, depois de confirmados os decretos de Pisa.
Os prelados estabeleceram os dois princípios seguintes: o próprio papa e o sacro colégio obrigaram o concílio de Pisa a prosseguir a reforma, sem a qual a união não seria senão uma vã palavra; logo, o presente sínodo tendo sido convocado para a reforma tanto quanto para a união, os que querem dissolvê-lo são suspeitos de heresia. O concílio de Pisa não deve ser confirmado pelo de Constança; é antes este que depende do primeiro, ou melhor, os concílios de Pisa, de Roma e de Constança formam um todo indissolúvel entre os três. Confirmar o primeiro pareceria duvidar de sua validade » (7 de dezembro de 1414). O cardeal Zabarella esforçou-se por refutar esse importante escrito, mas os dois cardeais continuaram sua campanha contra João XXIII. Sem dúvida, num escrito datado de 10 de janeiro (Quia Christi fidelibus) e numa cédula que se seguiu logo depois (Quia in praesenti concilio), d'Ailly ainda preconiza as vias de suavidade, mas Fillastre, mais ardente, assume a direção do ataque e reclama resolutamente a demissão dos três papas rivais. Essa ideia de tríplice cessão, que a princípio parecera excessiva, foi enfim aprovada por d'Ailly.
Apesar das objeções dos partidários de João XXIII, o cardeal de Cambrai afirmou de novo que o concílio podia, no interesse da união, forçar o papa a abdicar, e, em caso de recusa obstinada, condená-lo como cismático (Summopere caveant). O cardeal de Saint-Marc acrescentou que, nas circunstâncias atuais, quem quer que reprovasse a via de cessão deveria ser considerado fautor de cisma (Icel via executionis). Além disso, para tirar de João XXIII seus meios de defesa, os dois cardeais franceses reivindicaram para os doutores em teologia e em direito civil ou canônico, que eram no concílio em número de trezentos, a faculdade de tomar parte ativa nas deliberações e nos votos. Fillastre queria mesmo ir mais longe e, se o tivessem escutado, teria feito votar os arquidiáconos, os párocos, os padres e até simples diáconos (cédulas Ad obiurgandum proterviam e Tu, quisquis es, qui praetendis). Não se chegou a tanto. Essa medida cheia de imprudência era sem fundamento tanto no direito quanto na tradição, mas retomava-se e aprovava-se assim na prática todas as pretensões dos doutores da época.
No fundo, ela não era em Constança senão um expediente político inventado para neutralizar a influência dos prelados de segunda ordem, italianos em sua maioria, acorridos em grande número ao concílio para sustentar João XXIII. Mais tarde, o concílio de Basileia renovará essa experiência; será a fonte de sua impotência e a causa de sua revolta. O sistema de voto por cabeça, longamente preconizado pelos italianos, cedeu lugar ao agrupamento por nações, admitido pelos alemães, depois pelos ingleses e pelos franceses. Não era, porém, o parecer de Guillaume Fillastre e de Pierre d'Ailly, que preferiam com razão, como mais equitativo, o voto por província eclesiástica. Entretanto, a ideia da tríplice demissão que o cardeal de Saint-Marc tão a propósito havia posto em circulação avançava rapidamente. Em 14 de fevereiro, o autor fez chegar a João XXIII um memorial pouco reservado e pouco respeitoso, que colocava o papa na obrigação de aceitar a via de cessão. Após algumas hesitações, Pierre d'Ailly acolheu essa maneira de ver (cédula inédita Benignissime Pater em Keppler). A delegação da universidade de Paris, que chegou nessa data com Gerson, reforçou o partido dos dois cardeais, que logo se tornou vitorioso.
Já o rei dos Romanos havia se aliado a essa opinião de Fillastre e de d'Ailly, e desde então os acontecimentos se precipitaram. O papa cedeu; foi forçado a jurar solenemente, na presença do concílio reunido em sua IIIª sessão, que abdicaria, contanto que seus dois concorrentes fizessem o mesmo (2 de março). Os dois cardeais não quiseram, contudo, levar as coisas ao extremo e contentaram-se em pedir a abdicação por procurador. Recusavam-se assim a obedecer às sugestões demasiado imperiosas do rei dos Romanos e a uma influência política que tendia a exercer-se de modo demasiado visível. Sigismundo ficou grandemente irritado com isso. Numa reunião muito agitada realizada em 19 de março, d'Ailly, indignado, retirou-se e Fillastre foi censurado. Então se produziu um golpe de teatro. Na noite de 20 para 21 de março, o papa, tendo-se combinado previamente com o duque Frederico da Áustria, fugiu de Constança disfarçado e refugiou-se em Schaffhouse. O concílio ficou com isso profundamente perturbado e quase se dissolveu: os cardeais foram alvo de certas acusações de cumplicidade com o papa fugitivo.
Para dissipar essas suspeitas, Fillastre, acompanhado dos cardeais Orsini e de Saluces, foi delegado pelo sacro colégio para dirigir-se já em 22 de março junto a João XXIII. Os três cardeais exortaram o papa a não renunciar à sua intenção de abdicar e aconselharam-lhe a tomar todas as medidas que exigiam seu afastamento do concílio e o interesse da união. Fillastre ainda não havia retornado quando se realizou a IIIª sessão (26 de março), presidida pelo cardeal d'Ailly. Só voltou a Constança no dia seguinte. Em 29 de março, apesar de suas promessas, o papa deixou Schaffhouse, que lhe parecia um asilo pouco seguro, e refugiou-se no castelo de Laufenburg, entre Schaffhouse e Basileia. O concílio ficou cada vez mais agitado e foi sob o efeito dessas disposições pouco pacíficas que se realizou a famosa e tumultuada IVª sessão (30 de março). A intervenção de Fillastre trouxe primeiro um acordo entre os partidários do rei dos Romanos e o sacro colégio. Foi depois desse ato que os cardeais decidiram tomar parte nessa sessão, onde foram votados os cinco artigos que proclamam a superioridade do concílio sobre o papa e que são tão célebres na história quanto os quatro artigos de 1682. A Vª sessão (6 de abril), à qual assistiram todos os cardeais presentes em Constança, exceto Jean de Brogny e Pierre d'Ailly, apenas agravou essas decisões, cujo sentido irrespeitoso e cismático é demasiado claro.
O papa, sentindo que o concílio lhe torna-se cada vez mais hostil, refugia-se em Friburgo, e a situação se agrava. Fillastre é um dos onze embaixadores encarregados de intimar João XXIII a reintegrar Constança ou a encerrar-se numa outra cidade sem poder dela sair sob pena de decadência, a menos que o concílio o autorizasse. Depois de novas tentativas de fuga, João XXIII recebeu da assembleia de Constança uma citação pessoal para comparecer (11 de maio). Em vez de comparecer ele mesmo perante o concílio, o papa, por uma decisão inesperada, encarregou os três cardeais Fillastre, Zabarella e d'Ailly de defender sua causa. Estes recusaram esse mandato comprometedor e recusaram-se a defender o pontífice (13 de maio). O cardeal de Saint-Marc preferiu fazer-se nomear examinador das testemunhas que deviam depor contra João XXIII. Devemos à verdade dizer que se mostrou em suas funções relativamente moderado. No decorrer da Xª sessão, insurgiu-se contra a pretensão de imputar ao papa crimes que não eram notórios, tais como os de cooperação no cisma e de heresia; obteve que o decreto fosse emendado nesse sentido. Logo depois, a doença veio reduzi-lo a uma impotência momentânea.
Não tomou parte no processo de Jean Huss nem no de Jean Petit, e só voltou à cena nos primeiros meses do ano de 1417. Em 12 de maio, tratava-se de obter a demissão de outro competidor à papado, a de Bento XIII, o papa de Avignon. Fillastre informa ao concílio sobre as diligências que foram feitas e que permaneceram vãs. O pontífice, obstinadamente afastado da assembleia, afeta desprezar-lhe as ordens. É preciso terminar. Em 5 de junho, o cardeal de Saint-Marc é encarregado de anunciar a conclusão desse assunto e a destituição de Bento XIII. Faz um discurso perante o concílio sobre este texto: « Eis o tempo em que Deus deve começar seu julgamento por sua própria casa. » Todos os pretendentes à papado tendo alienado os espíritos ao invocar direitos considerados sem valor, o concílio vai conferir a herança de são Pedro a um homem novo, que será verdadeiramente, ao menos assim se espera, o servo dos servos de Deus. Enfim, em 26 de julho de 1417, na XXXVIIª sessão, Fillastre é ainda encarregado de ler a sentença que condenava e depunha Pierre de Luna como perjuro, cismático incorrigível e herege, sentença que foi, no mesmo dia, por ordem de Sigismundo, publicada ao som de trombetas nas ruas da cidade. Assim, João XXIII, o papa de Pisa, foi condenado, Gregório XII, o papa romano, deu sua demissão, Bento XIII, o papa de Avignon, acaba de ser deposto. Os últimos vestígios do cisma desapareceram. Não há mais papa, nem antipapa, e a Santa Sé está vacante.
A eleição do futuro papa preocupa todos os espíritos, mas antes de fazer sua escolha, as nações decidiram que o pontífice a eleger modificaria por sábios decretos seu próprio governo, e ditaram os artigos, em número de dezoito, sobre os quais versaria a reforma. Fillastre chegou, pois, ao último ato desse grande drama no qual desempenhou um papel tão importante. Já desde 29 de maio, seu colega Pierre d'Ailly havia precisado o pensamento dos cardeais. Seu projeto consistia em juntar, para essa vez, ao sacro colégio uma espécie de segundo colégio composto de delegados das nações em número igual ou inferior ao dos cardeais, e no qual, assim como no sacro colégio, o futuro eleito deveria reunir pelo menos dois terços dos sufrágios. Essa combinação foi apresentada por Fillastre ao rei dos Romanos, que não a aprovou. Mas todas as nações fizeram-lhe uma acolhida muito calorosa. O sucesso diplomático dos dois prelados franceses irritou Sigismundo, que, por manobras suspeitas, tentou em vão dificultar o projeto dos cardeais. Após múltiplos incidentes, discutiram-se enfim em outubro os detalhes do modo de eleição: os alemães imaginaram um sistema fundado na igualdade da representação de cada nação no corpo eleitoral.
Assim havia quinze cardeais italianos que bastariam para representar a nação italiana; aos sete cardeais franceses juntar-se-iam oito membros da nação francesa, ao único cardeal espanhol quatorze de seus compatriotas; enfim, escolher-se-iam quinze membros da nação inglesa e quinze membros da nação alemã, para completar a constituição de um colégio de setenta e cinco eleitores, que designaria o futuro papa pela maioria dos dois terços. Mas o cardeal Fillastre opôs-se energicamente a isso, primeiro porque essa combinação excluía o colégio dos cardeais como corpo. Ora, é a este que, por direito, cabe eleger o papa. Em segundo lugar, objetou que um papa poderia do mesmo modo ser eleito sem ter obtido o voto de um único membro do sacro colégio. Fillastre interpôs em seguida sua autoridade para acalmar certas disputas, rogans quod nullus moleste ferret alterius verba. Enfim, a nação francesa retomou o projeto dos cardeais, emendando-o e completando-o do seguinte modo: cada nação juntaria ao sacro colégio seis delegados; o eleito deveria reunir os dois terços dos sufrágios, não somente entre os cardeais, mas em cada um desses cinco grupos. Essa moção recebeu logo a adesão universal.
Em 30 de outubro, o cardeal de Saint-Marc leu os decretos sobre o modo de eleição, depois propôs que todos os eleitores prestassem juramento. Pediu ao mesmo tempo que se fizessem preces e procissões durante toda a duração do conclave para obter um bom pastor para a santa Igreja. Enfim, em 8 de novembro de 1417, às quatro horas da tarde, os cinquenta e três eleitores entraram em conclave na imensa Casa dos Mercadores, que ainda existe hoje. Na quarta-feira, dia 10, procedeu-se à votação: Diversi diversimode vota sua emitterent. Aliqui allegabant causas, alii non. Aliqui nominaverunt plures, aliqui unum solum. Et qui plures, diversas formas habuerunt, diz o diário de Fillastre. O cardeal romano Ottone Colonna encontrou-se com votos em cada um dos seis grupos que compunham o corpo eleitoral e, em duas das nações, já obtinha a maioria dos dois terços. Pouco a pouco, reuniu os votos de quatro ou cinco cardeais, depois conquistou a unanimidade nas duas nações alemã e espanhola. O cardeal de Saint-Marc e o cardeal Pierre de Foix conferenciavam entre si e ainda não haviam feito adesão. Vendo essa quase unanimidade, Fillastre levantou-se e disse: Ad consummationem huius operis et unionis Ecclesiæ, accedimus nos duo ad dominum cardinalem de Columpna.
O cardeal de Foix falou do mesmo modo e logo Ottone Colonna foi proclamado. Cantou-se o Te Deum, e o novo papa tomou o nome de Martinho V em honra do santo do dia. Logo depois, nosso cardeal foi ainda encarregado de ler os decretos promulgados pelo pontífice. Guillaume Fillastre diz, terminando seu diário: Laudetur et benedicetur Altissimus, qui dedit in pace fieri et Ecclesiam sub uno capite constitui. Vê-se que, em todas essas solenes circunstâncias, o cardeal de Saint-Marc foi, com o cardeal de Cambrai, o chefe do grupo francês, e mais de uma vez ambos deram aos acontecimentos um impulso decisivo. Desempenharam frequentemente o papel de moderadores, e muitas vezes também sua influência vitoriosa fez malograr as combinações políticas de Sigismundo. Esforçaram-se por salvaguardar a honra do sacro colégio e a liberdade do concílio; abreviaram a duração da assembleia e fizeram enfim triunfar um expediente extralegal sem dúvida, mas que conciliava os interesses mais diversos, ao mesmo tempo que preparava e assegurava a autoridade do futuro papa sobre a Igreja universal. Martinho V foi reconhecido a Guillaume pelos serviços eminentes que havia prestado; proveu-o em 1422 do bispado de Saint-Pons.
Vemo-lo ao mesmo tempo prior de Saint-Ayoub e legado do papa na corte de Paris. Mas sua estadia na França não foi de longa duração. Quando voltou a Roma, foi nomeado arcipreste de São João de Latrão, e mandou construir um esplêndido palácio, onde morreu em 6 de novembro de 1428. Foi sepultado na igreja de São Crisógono, título cardinalício de seu amigo d'Ailly. Hauréau falou mal da moralidade do cardeal de Saint-Marc; suas acusações não se apoiam em prova alguma e, nem nas obras de Fillastre, nem nos escritos de seus contemporâneos, encontramos documento que possa dar alguma verossimilhança a essas caluniosas afirmações. As armas de Guillaume eram de goles com uma cabeça de veado de ouro, com uma bordadura engrelada do mesmo, os olhos de negro. A cabeça de veado indica o decano de Reims; a divisa que às vezes a acompanha traz esta simples palavra « liement », isto é, alegremente. É talvez isso que deu origem às afirmações sem fundamento de que Hauréau se fez eco demasiado complacente. II. OBRAS. O cardeal é mais conhecido pelo papel que desempenhou na política eclesiástica e pela influência que exerceu no seio dos concílios do que por suas obras teológicas ou canônicas.
Como orador, parece ter sido um dos mais franceses de todos os que falaram naquele sínodo de 1406, o único que se estudou até agora do ponto de vista da eloquência e da língua. Como escritor, suas obras estão dispersas um pouco por toda parte, seja na poeira das bibliotecas de manuscritos, seja nas coletâneas de peças pouco conhecidas. Suas teses de estudante encontram-se na biblioteca de Reims, n. 745, fol. 234, 249 sq., ao lado de certo número de livros por ele doados à biblioteca do cabido. Muitas foram copiadas em Constança durante o concílio. Seus discursos do sínodo parisiense de 1406 foram publicados de modo imperfeito por Bourgeois du Chastenet, mas os manuscritos encontram-se na Bibliothèque nationale, n. 23428, 17220, 17221 e 741. Dois de seus memoriais latinos, distribuídos no concílio de Constança, foram impressos em Von der Hardt; um terceiro foi publicado recentemente por Keppler. Sua obra mais importante do ponto de vista teológico e histórico é a que permaneceu até agora quase completamente desconhecida.
É o diário que o cardeal de Saint-Marc manteve durante o concílio de Constança e que Heinrich Finke, o sábio professor de Friburgo, encontrou na biblioteca do Vaticano, ms. do século XV, 4173 e 4175. Por uma série de induções engenhosas, o historiador demonstrou que o autor desse diário é uma testemunha ocular e que ele põe sobretudo em relevo o papel de Fillastre no seio do concílio. As lacunas que se notam correspondem ao tempo em que o cardeal estava doente; além disso, o escritor foi depois legado na França. Tudo concorre, pois, para demonstrar que o autor não é outro senão o próprio Fillastre. Finke deu a conhecer fragmentos importantes dessa obra a Noël Valois, e nós deles nos aproveitamos largamente no relato que precede. Além disso, ele mesmo publicou parte desse manuscrito na Römische Quartalschrift. Resulta dessa publicação que as afirmações de Lenz e de Caro, a respeito do conclave e do papel de Sigismundo, precisam ser verificadas e não estão de todo conformes à verdade. Esse diário é uma das principais fontes históricas para o concílio de Constança. O cardeal também se ocupou de ciências e sobretudo de cosmografia; deu à biblioteca do cabido de Reims, que ele havia fundado, as obras de Ptolomeu e de Pompônio Mela, que havia mandado copiar em Constança em 1417 e 1418. Bibliothèque de Reims, 1330 e 1321. Possuía também o livro de P. d'Ailly intitulado: Imago mundi. Ibid., 1322.
Esperamos que um dia um historiador francês reúna todas essas obras dispersas, as publique, e nos dê, a partir das fontes, uma bibliografia completa de Guillaume Fillastre, cujo papel foi tão considerável na história religiosa do começo do século XV. Albans, Gallia christiana novissima, 1899, t. i, p. 96-98; X. Barbier de Montault, no Bulletin de la Société d'agriculture de la Sarthe, 1867-1868, t. xi, p. 621; Calmet, Bibliothèque lorraine, Nancy, 1751, p. 368; H. Finke, na Theologische Quartalschrift, 1887, t. i, p. 58-79; Forschungen und Quellen zur Geschichte des Konstanzer Konzils, Paderborn, 1889; B. Hauréau, Histoire littéraire du Maine, 1872, t. iv, p. 219-214; Keppler, Die Politik des Kardinals-Kollegiums in Konstanz, Munster, Doctor-Dissertation, Müligenstadt, 1899; Piolin, Histoire de l'Église du Mans, t. v, p. 124; Port, Dictionnaire biographique de Maine-et-Loire, 1876, t. ii, p. 151; Revue des Sociétés savantes, 1869, t. x, p. 266-267; Rest, Kardinal Fillastre bis zur Absetzung Johanns XXIII mit dem Konstanzer Konzil, Fribourg, 1908; L. Salembier, Petrus de Alliaco, thèse de doctorat, Lille, p. 67-89, 101; Le grand schisme d'Occident, 1re édit., Paris, 1902, p. 216, 297, 334; R. Thomassy, De Guillaume Fillastre considéré comme géographe..., no Bulletin de la Société géographique, Paris, 1842, t. xvii, p. 144; cf. Bibliothèque de l'École des Chartes, t. iii, p. 513-516; N. Valois, La France et le grand schisme, 1902, t. iv; von der Hardt, Rerum concilii œcumenici Constantiensis, Francfort e Leipzig, 1697-1700, t. II, col. 208, 226. Índice por Bohnstedt
Autor original: L. Salembier
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