EVÁGRIO, O PÔNTICO

EVÁGRIO, O PÔNTICO

EVÁGRIO, escritor eclesiástico morto nos primeiros anos do século V. Discípulo de são Martinho, retirou-se perto de Sulpício Severo depois da morte do célebre bispo de Tours. Atribui-se-lhe uma obra intitulada Altercatio Simonis judœi et Theophili christiani, publicada por Martène, Thésaurus novus anecdotorum, in-fol., Paris 1717, t. v, p. 1, e P. L., t. XX, col. 1155. Segundo as pesquisas do Sr. Harnack, Texte und Untersuchungen, Leipzig, 1883, t. i, fasc. 3, p. 1-136, essa obra não seria senão a tradução do diálogo entre o judeu-cristão Jasão e o judeu alexandrino Papisco, publicado em grego de 135 a 165 por Aristão de Pella. Ver t. i, col. 1867-1869. Do mesmo Evágrio seriam ainda Consultationum Zacchœi christiani et Apollonii philosophi libri tres, editado por dom d'Achery, Spicilegium, in-4°, Paris, 1671, t. X, p. 1 sq., e P. L., t. xx, col. 1061 sq. Histoire littéraire de la France, in-4°, Paris, 1735, t. ii, p. 119; dom Ceillier, Histoire générale des auteurs ecclésiastiques, 1747, t. xiii, p. 507; Fabricius, Bibliotheca latina mediœ œtatis, in-8°, 1858, t. ii, p. 523. B. Heurtebize.

2. EVÁGRIO, apelidado Pôntico, do nome da província onde nasceu, por volta do ano 345, na aldeia de Íbora, figura entre os grandes mestres do ascetismo cristão no século IV. Ordenado leitor por são Basílio de Cesareia, recebeu o diaconato das mãos de são Gregório de Nissa por volta de 380, e acompanhou seu bispo, no ano seguinte, a Constantinopla por ocasião do II concílio ecumênico; depois permaneceu ali algum tempo na qualidade de arquidiácono do patriarca Nectário. Os perigos que, em Constantinopla, ameaçavam sua virtude, decidiram-no a fugir dessa cidade, e, depois de uma breve estada em Jerusalém, foi para o Egito, para se fazer monge, por volta de 383, no deserto de Nítria, esse foco tão famoso da vida monástica no século IV, sob a direção de são Macário o Jovem; passará dali para o deserto das celas, onde terminará seus dias. Evágrio teria recusado, ao que parece, obstinadamente uma sé episcopal que lhe oferecia Teófilo de Alexandria. Morreu no deserto, em 399, com cinquenta e quatro anos de idade, célebre ao longe por sua santidade pessoal como por seus talentos de escritor. Paládio, Hist. Laus., c. LXXXVI, P. G., t. xxxiv, col. 1188-1197.

Todavia, são Jerônimo, P. L., t. xxii, col. 1151; t. xxiii, col. 496; t. xxiv, col. 794, o acusa de origenismo e o denuncia como um precursor de Pelágio. Evágrio será, dois séculos depois de sua morte, anatematizado por origenismo, tanto quanto Dídimo o Cego, não pelo V concílio ecumênico, mas pelo presidente do concílio, Eutíquio de Constantinopla, ao notificar os decretos conciliares aos sacerdotes e aos fiéis de sua jurisdição; o VI concílio, do ano 680, e o VII, de 787, se apoiarão no ato de Eutíquio, que confundirão com uma sentença do próprio concílio, para renovar por sua vez essa condenação de Evágrio. As obras foram traduzidas para o latim, umas por Rufino, P. L., t. xxii, col. 1151, outras por Gennadius, P. L., t. lviii, col. 1067; talvez tenha havido, já naquele tempo, uma versão siríaca. O P. Basile Sarghiseau publicou nos nossos dias, Veneza, 1907, com uma antiga vida de Evágrio em armênio, uma versão de suas obras, também em armênio, que data igualmente do século X. Des heiligen Vaters Evagrius Pontikus Leben und Wirken, in-8°, Veneza, 1907. Da herança literária do fecundo e hábil moralista, não nos restam senão fracos fragmentos, a maior parte em muito mau estado.

Encontram-se em P. G., t. XL. A edição se abre com dois escritos, que J.-B. Cotelier exumou primeiro em 1686, um, Monachus seu vita activa (liber), col. 1219-1252, que contém as regras da perfeição cristã, o outro, Rerum monachalium rationes earumque juxta quietem adpositio, col. 1251-1264, onde são retraçados a grandes traços, em 11 capítulos, os deveres da vida monástica. Um opúsculo, que talvez fizesse par com o Monachus, o Γνωστικός (Gnosticus) sive de iis qui cognitionis munere donati sunt, pereceu. Seguem-se, col. 1263-1280, diversas séries de sentenças, de aforismos, de regras de conduta, das quais várias somente em latim; o que sobreviveu em grego traz também, embora sem direito, o nome de são Nilo. O opúsculo De octo vitiosis cogitationibus, col. 1271-1278, não é talvez senão o resíduo de uma coletânea de textos escriturísticos, próprios para repelir as principais tentações, no número de oito. Nova edição por A. Elter, Gnomica, I, Sexti Pythagorici, Clilarchi, Evagrii Pontici sententiœ, Leipzig, 1892. Um escrito mais extenso, Sobre os oito pensamentos maus, existe mutilado numa versão siríaca, e Fr.

Baethgen o traduziu para o alemão num apêndice do livro de Zockler, Evagrius Pontikus, Munique, 1893. Evágrio é o primeiro nome conhecido a que se prende a teoria dos oito vícios, precursora da dos sete pecados capitais. A autenticidade da escólia Εἰς τὸ πιπι (Eis ta onomata), onde se trata dos dez nomes divinos, entre os judeus, col. 1278-1286, parece ser bastante contestável. Nova edição por P. de Lagarde, Onomastica sacra, Göttingen, 1870, t. I, p. 205-206. Parece bem que a disposição estiquométrica dos Atos dos apóstolos, atribuída comumente a um certo Eutálio, diácono de Alexandria, seja obra do Evágrio de que nos ocupamos. A. Ehrhard, em Centralblatt für Bibliothekswesen, 1891, p. 385-411. Cf. E. Nestlé, Einführung in das Griechische Neue Testament, 3ª edição, Göttingen, 1909, p. 210, 212. Encontram-se, além disso, aqui e ali, nas vidas dos Padres, nas Catenas, numerosos fragmentos de obras, hoje perdidas, de Evágrio. Tillemont, Mémoires, t. x, p. 368-386; Fessler-Jungmann, Institutiones patrologiœ, Innsbruck, 1890, t. i, p. 628-631; Bardenhewer, Les Pères de l'Eglise, nova edição francesa, Paris, 1905, t. ii, p. 128-129; O. Zockler, Evagrius Pontikus, Munique, 1893; Dräseke, Zu Evagrios Pontikos, em Zeitschrift für wissenschaftl. Theol., 1894, p. 125-137

Autor original: P. Godet

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