EUQUITAS, massalianos ou messalianos. I. Fontes. II. História. III. Erros de doutrina e de prática. — I. Fontes. A melhor fonte de informações sobre a seita dos euquitas seria provavelmente os dois únicos livros de que se faz menção na história, como contendo suas doutrinas, um, o Ascético, Ἀσκητικός, de autor desconhecido, mas que poderia bem ser Adélfio, o outro, o Testamento, Διαθήκη, de Lampécio. Mas não os possuímos; ignoramos, portanto, o que continham integralmente e tampouco temos as refutações de que foram objeto, seja da parte de santo Anfilóquio de Icônio nas atas do sínodo de Side, seja da parte de Arquelau de Cesareia, que escreveu vinte e quatro anatematismos contra os euquitas, seja da parte do monofisita Severo de Antioquia, que se voltou contra a obra de Lampécio. Restam, então, os heresiólogos e os historiadores, contemporâneos ou posteriores. O primeiro em data é santo Epifânio de Salamina, que inscreve os euquitas no último capítulo de seu Πανάριον, Hær., lxxx, P. G., t. XLII, col. 756 sq., mas o que ele diz a respeito se reduz a bem pouco, pois na época em que compunha sua obra, isto é, entre 374 e 377, a seita, saída da Mesopotâmia e já espalhada na Síria sob a forma de um movimento religioso suspeito e inquietante, estava ainda sem chefe, sem ordem, sem organização aparente, sem uma doutrina perfeitamente coordenada ou suficientemente conhecida.
Ele dá, no entanto, uma ideia geral bastante justa e um ensaio de refutação que merece ser assinalado. Cinquenta anos depois, em 428, quando santo Agostinho elabora por sua vez, a pedido de Quodvultdeus, um catálogo das heresias, muitos acontecimentos haviam se produzido no Oriente, vários bispos tinham escrito contra a seita, e três sínodos, realizados em Side, em Antioquia e em Constantinopla, a haviam condenado, mas ele ignorava tudo isso, pois não fala nisso e apenas resume santo Epifânio, salvo por acrescentar um traço de pouca importância tirado de fonte desconhecida. De hær., 57, P. L., t. xlii, col. 41. Melhor informado e mais preciso mostra-se Teodoreto de Ciro (m. por volta de 458), sem contudo ser completo. H. E., IV, 10, P. G., t. LXXXII, col. 1144, 1145; Hæret. fab., IV, 11, P. G., t. LXXXIII, col. 429-432. Depois é preciso esperar até o começo do século VII, quando um sacerdote de Constantinopla, guardião dos vasos sagrados, Timóteo, publica um Περὶ τῶν προσερχομένων τῇ Ἐκκλησίᾳ, de receptione haereticorum, P. G., t. LXXXVI, col. 45-47, no qual consigna dezenove pontos da doutrina e das práticas dos euquitas; ele os tira sem dúvida alguma dos livros da seita ou de documentos oficiais que lhe diziam respeito; é, em todo caso, uma pequena Suma das mais preciosas.
São João Damasceno, no século VIII, dela se valeu largamente para enriquecer os empréstimos que fazia a santo Epifânio. Hær., 80, P. G., t. XCIV, col. 728-734. No século seguinte, Fócio, mais atento aos fatos que às doutrinas, e de posse de peças autênticas cuja leitura anota, confirma e completa o relato de Teodoreto. Bibliotheca, cod. 52, P. G., t. CIII, col. 88 sq. Ele recorda todos os incidentes relativos à oposição feita aos euquitas nas cartas episcopais e nas atas sinodais desde o fim do século IV. Mas não podemos controlar seu resumo histórico, visto que todos os documentos que ele possuía desapareceram, à exceção da condenação pronunciada no concílio de Éfeso, em 431, da qual não resta mais que a versão latina, Act. VII, Hardouin, t. I, col. 1627; Mansi, t. IV, col. 1447, mas pode-se confiar em seu testemunho, que é o de um erudito consciencioso. Depois de Fócio, só no fim do século XI e no começo do XII é que se voltou a falar dos euquitas, por ocasião dos bogomilos.
A maioria dos historiadores dessa época, com efeito, cuida de assinalar o parentesco e como que a filiação que existe entre os novos hereges e os antigos, tais como Jorge Cedreno, Historiarum compendium, P. G., t. CXXI, col. 559, 560, 596; Ana Comnena, Alexiadis, XV, I. P. G., t. CXXXI, col. 1168; Nicéforo Grégoras, Byzantinæ historiæ, XIV, c. vii, n. 2; XVIII, c. XIX, l. 1, n. 9; l. c. I, n. 4, P. G., t. CXLVIII, col. 948, 1133, 1181; Harmenópulo, De hæresibus, 18, P. G., t. CL, col. 25-28. Só Eutímio Zigabeno, em sua Panoplia dogmatica, tit. xxvi, P. G., t. CXXX, col. 1273-1289, recorda e refuta os diversos erros da seita, salvo que, em sua Confutatio et eversio impiæ et multiplicis exsecrabilium massalianorum sectæ, P. G., CXXXI, col. 39-48, engloba sob esse mesmo nome genérico e sem nenhuma ordem cronológica os fundaítas, os bogomilos, os euquitas, os entusiastas, os encratitas e os marcianitas. Não nos ensina nada de novo, mas ao menos permite constatar que a seita prosseguiu sua existência para além da época de Fócio e que não esteve isenta da imoralidade prevista, desde suas origens, por santo Epifânio. II. História. 1º Os nomes.
Os sectários de que aqui se trata foram geralmente conhecidos sob o nome de massalianos ou messalianos, palavra síria que significa aqueles que oram, os orantes ou os que rezam, ou sob o nome grego correspondente de euquitas, εὐχῆται, εὐχίται, de oração, que tem exatamente o mesmo sentido. Essa expressão servia, com efeito, para designar um dos traços característicos daqueles que preconizavam a oração como o meio por excelência de expulsar o demônio, de possuir o Espírito Santo e de operar a salvação, em detrimento do batismo e dos demais sacramentos. Mas outras expressões ainda foram empregadas para designar os euquitas, tomadas de seu modo de ser ou de agir, tais como as de entusiastas, ἐνθουσιασταί, e de coreutas, χορευταί, dançarinos. Poder-se-ia igualmente muito bem dar-lhes o título de preguiçosos, já que abominavam toda espécie de trabalho manual, ou de mendigos, já que só viviam de esmolas. Deu-se-lhes em todo caso o nome de seus principais chefes e chamaram-se sucessivamente adelfianos, do nome de Adélfio, lampecianos, do nome de Lampécio, eustatianos, do nome de Eustácio, marcianitas, do nome de Marciano. Quanto a eles próprios, qualificavam-se simplesmente de pneumáticos ou espirituais, πνευματικοί.
Teodoreto, Hæret. fab., iv, 11, P. G., LXXXIII, col. 429. Chegava-lhes mesmo, quando lhes perguntavam «Sois patriarca, profeta, anjo, Jesus Cristo?», responder invariavelmente «Sim». S. Epifânio, Hær., lxxx, 3, P. G., t. XLII, col. 760. 2º Origem e começos. Os euquitas eram de origem oriental: saíam da Mesopotâmia, mais particularmente da Osroena, das cercanias de Edessa, que permaneceu sempre um de seus centros, sem que se possa saber com certeza em que circunstâncias e sob a ação de que homens se haviam primitivamente agrupado. Na segunda metade do século IV, invadem, em bandos numerosos de homens e de mulheres, a Síria e as províncias da Ásia Menor. Assim que ali aparecem sob o reinado de Constâncio (m. 361), assemelham- se menos a uma seita religiosa propriamente dita, organizada com clérigos e sacerdotes, do que a uma tropa de vagabundos, sem lar nem lugar certo, sem clero e sem guias, à mercê da caridade pública, passando a vida sem fazer nada ou dormindo, e não tendo por único exercício religioso senão a oração.
Tal é ao menos a impressão que produzem em santo Epifânio, que cuida antes de tudo de distinguir outras personagens, de costumes bastante semelhantes, mas de origem pagã, qualificadas de massalianos ou de eufemitas, que, tendo sofrido a hostilidade de alguns oficiais, notadamente do general Lupiciano, passaram a honrar os seus que haviam sido mortos, reunindo-se em torno de seus túmulos, e tomaram o nome de martirianos. Deram origem à seita dos satanianos, assim chamada pelo culto que prestava a Satanás para tê-lo por favorável. S. Epifânio, Hær., lxxx, 1-3, P. G., t. XLII, col. 756-760. Bem diferentes eram os massalianos de origem cristã; estes, por seu número e pelos distúrbios que suscitaram entre os fiéis, não tardaram a provocar medidas disciplinares da parte dos bispos. 3º Sua condenação no século IV. A primeira foi pronunciada em Side, na Panfília, por volta de 390. Santo Anfilóquio de Icônio, na Licaônia, amigo de são Basílio e de são Gregório de Nazianzo, ali presidiu um sínodo de vinte e cinco bispos contra a heresia dita dos massalianos, euquitas ou adelfianos. Fócio, Bibliotheca, cod. 52, P. G., t. CIII, col. 88.
Este novo nome de adelfianos vem do de um de seus principais chefes, o velho Adélfio; este, com efeito, junto com outras personagens de destaque, menos elevadas em dignidade sem dúvida, mas já conhecidas nessa época, tais como Sabas, Dadoés, Hermas e Simeão, marchava à sua frente. Teodoreto, H. E., iv, 10, P. G., t. Lxxxii, col. 1144; Hæret. fab., iv, 11, P. G., t. Lxxxiii, col. 432. Ele não era, contudo, nem monge nem clérigo, enquanto Sabas, apelidado o Eunuco por ter-se mutilado a si mesmo, dava-se o título e trajava o hábito de monge. O sínodo de Side enviou a Flaviano de Antioquia uma carta sinodal contendo o relato das decisões tomadas contra esses sectários. Flaviano, que também tinha do que se queixar quanto à presença turbulenta deles em sua diocese, assim prevenido, quis igualmente tomar medidas disciplinares, mas depois de se inteirar por si mesmo dos costumes da seita. Com esse fim, enviou a Edessa um grupo de monges, que trouxe de volta alguns massalianos, entre outros o célebre Adélfio. Interrogados pelo bispo para saber a que se ater sobre os boatos desagradáveis que corriam a seu respeito, estes negaram tudo e atestaram que os erros e os crimes de que os acusavam eram puras calúnias.
Flaviano então recorreu à astúcia e fingiu querer instruir-se como um futuro adepto. Censurando pois a conduta de seus emissários, ainda muito jovens, disse a Adélfio: «Nós, que vivemos por muito tempo, conhecemos melhor a natureza do homem e todos os artifícios do demônio, e sabemos por experiência o proceder da graça. Esses jovens que não examinaram tudo isso não podem suportar os discursos espirituais. Dizei-me, pois, como explicais que o espírito maligno se retire e que o Espírito Santo se comunique.» Adélfio, lisonjeado por procedimentos tão insinuantes e crendo ter diante de si um futuro prosélito, explicou-se claramente e revelou o fundo secreto de sua doutrina. Assim que terminou, Flaviano replicou: «Homem em crime, és condenado por tua própria boca; teus lábios testemunharam contra ti mesmo.» Reunindo logo em sínodo trinta de seus sacerdotes e diáconos, e assistido por três bispos de passagem, Bize de Seleucia, Samos, cuja sé episcopal não é indicada, e Marutas de Sofarena, o patriarca julgou Adélfio e seus companheiros.
Estes pediram em vão para ser admitidos à penitência, Flaviano não atendeu e os condenou; sabia o pouco fundamento que se podia dar a eles, a facilidade que tinham em mentir descaradamente e as relações secretas que mantinham por cartas com os de sua seita que haviam previamente anatematizado; em consequência, mandou-os expulsar da Síria e comunicou suas decisões aos bispos da Osroena, que lhe agradeceram por uma carta de aprovação. Teodoreto, loc. cit.; Fócio, loc. cit. Ora, a Licaônia, a Panfília e a Síria não tinham sido as únicas províncias contaminadas pela seita massaliana; vários conventos da Armênia Menor haviam sido também invadidos. Um bispo mesmo se deixara mais ou menos seduzir por ela. Flaviano se comoveu com isso e escreveu duas vezes a esse bispo, censurando-lhe notadamente em sua segunda carta o favor que concedera a semelhantes hereges. Não foi esse o caso do bispo de Melitene, o zeloso Letoio, que se informou primeiro junto ao patriarca de Antioquia sobre o que era essa heresia e que, uma vez informado pelas atas do sínodo de Antioquia, não hesitou em pôr fogo aos mosteiros ou antes «às tocas» desses sectários e assim expulsou os lobos de seu rebanho; depois escreveu contra a seita.
Teodoreto, Hæret. fab., iv, 11, P. G., t. lxxxiii, col. 432; Fócio, loc. cit., col. 89. — 4º Primeira metade do século. Nem as cartas episcopais, nem as sentenças sinodais detiveram a difusão e a propaganda cada vez maiores dos massalianos. Na Síria, depois da morte de Flaviano (m. 404), eram mais numerosos que nunca; na Panfília, na Lícia e na Licaônia, o mesmo; já tinham invadido a Capadócia, e tal era a preocupação que causavam aos chefes das Igrejas que Ático, patriarca de Constantinopla, teve de escrever contra eles e dirigiu uma carta ao metropolita da Panfília, Anfilóquio de Side. À morte de Ático, em 425, quando da consagração de seu sucessor, Sisínio (m. 427), este, de comum acordo com Teódoto, patriarca de Antioquia, e os demais bispos presentes à sua sagração, escreveram uma carta coletiva a Beriniano ou Beroniciano de Perge, a Anfilóquio de Side e a todos os bispos da Panfília.
Nessa carta, o bispo Neon propunha como medida disciplinar não perdoar de modo algum a quem, uma vez anatematizado, se visse novamente surpreendido nos laços da seita, ainda que pedisse para fazer rigorosa penitência, e tratar com igual rigor quem quer que, doravante, ainda que fosse bispo, se permitisse testemunhar o menor favor aos euquitas ou massalianos. Fócio, loc. cit., col. 89. Tal rigor se explica quando se pensa na extrema facilidade com que esses sectários se prestavam a tudo aceitar, mesmo a participação nos sacramentos e as provas da penitência, sem por isso renunciar a seus sentimentos íntimos, a seus erros de doutrina e de moral. Importava, pois, que não encontrassem o menor testemunho de simpatia da parte do clero, pois isso equivaleria a favorecê-los em vez de trabalhar para sua supressão. Sisínio morreu cedo demais para levar a bom termo a campanha enérgica que assim se anunciava. É verdade que seu sucessor, o famoso Nestório, mostrou ainda mais energia. Desde o início de seu episcopado, havia dito a Teodósio o Jovem: «Comigo, príncipe, derrubai os hereges, convosco eu derrubarei os persas.» Sócrates, H. E., VII, 29, P. G., t. Lxvii, col. 804. Estava, portanto, bem disposto a fazer limpeza completa e a reduzir à impotência todos os hereges. Obteve assim do imperador uma lei severa, a de 30 de maio de 428, Cod. theod., XVI, tit. v, leg. 65, na qual se proibia aos euquitas, massalianos ou entusiastas de realizar qualquer reunião, de fazer qualquer oração pública, seja nas cidades, seja no campo.
Sobreveio logo depois o III concílio ecumênico, realizado em Éfeso em 431. Na sessão VII, Valério de Icônio e Anfilóquio de Side pediram aos Padres que dirimissem a questão dos massalianos. Apresentaram a carta sinodal do sínodo de Constantinopla, realizado seis anos antes por ocasião da sagração de Sisínio, e um livro dessa seita, o Ascético, o primeiro cuja existência nos é conhecida. A carta foi aprovada e decidiu-se que os que fizessem parte dessa seita ou fossem simplesmente suspeitos de fazer parte dela seriam intimados a anatematizar por escrito os artigos que lhes fossem indicados; que os que subscrevessem seriam mantidos em seu estado; que os que recusassem seriam degradados e até privados da comunhão, se fossem clérigos, e anatematizados, se fossem leigos, e que os monges que fossem convencidos de haver pactuado com ela não seriam admitidos a governar mosteiros. Anatematizou-se também o livro Ascético e todo escrito que contivesse o que quer que fosse da doutrina condenada. Concílio de Éfeso, act. VII, Hardouin, t. i, col. 1627; Mansi, t. iv, col. 1447. Timóteo de Constantinopla nos faz conhecer um detalhe que mais tarde Fócio negligenciou, a saber, que são Cirilo de Alexandria havia combatido os massalianos.
Isto não pode ser senão uma alusão a um sínodo realizado em Alexandria, cuja existência aliás nos revela o decreto do concílio de Éfeso, e à carta a Calosírio, que serve de prefácio ao tratado contra os antropomorfitas, e onde ele refuta certos monges que, recusando-se a trabalhar, faziam da piedade um manto para a preguiça. De recept. haer., P. G., t. Lxxxvi, col. 47. Por outro lado, sabemos por Fócio, loc. cit., col. 89, que João, sucessor de Teodósio na sé de Antioquia, dando continuidade à tradição de seus predecessores, havia escrito a Nestório a respeito dos massalianos; que alguns anos mais tarde, por volta de 440, Heráclidas de Nissa publicou duas cartas contra esses sectários, e que, por essa mesma época, Arquelau de Cesareia da Capadócia condenou vinte e quatro proposições nas quais se resumia sua doutrina. 5º Segunda metade do século. — Aconteceu com essas cartas e esses decretos o que já acontecera com os precedentes; mesmo apoiados por uma lei imperial, não conseguiram vencer a seita. Uns trinta anos, com efeito, depois do concílio de Éfeso, um de seus membros mais influentes, chamado Lampécio, conseguira surpreender a boa-fé de Alípio, bispo de Cesareia da Capadócia, e, tendo-se feito ordenar sacerdote por ele, fora propagar seu erro no Ponto.
Mas não escapou à vigilância de Gerôncio, arquimandrita de Gitis, que denunciou sua conduta equívoca e indecente, seus propósitos abomináveis tais como este, φέρε μίαν κόρην πρὸς ἐμὲ καλὴν καὶ δεῖξω σοι ἁγιωσύνην, assim como suas zombarias contra a salmodia cristã. Alípio encarregou Hormisdas, bispo de Comana, de instruir o caso e de pronunciar a sentença. Hormisdas o fez, e Lampécio, convencido de culpa tanto por testemunhas quanto por suas próprias confissões, foi condenado a ser deposto de seu sacerdócio. O arcebispo de Cesareia ratificou a sentença. Ora, esse Lampécio havia posto em uma obra de sua própria mão, intitulada Διαθήκη, Testamento, todo o veneno de sua impiedade; e esse livro foi mais tarde objeto de uma refutação da parte do monofisita Severo, futuro patriarca de Antioquia. Apesar de sua condenação, Lampécio não deixou de conservar grande influência sobre muitos massalianos, que tomaram seu nome e foram chamados lampecianos. Encontrou até defensores no fundo do Egito entre os ortodoxos: o bispo de Rinocorura, um certo Ἀλφείος, escreveu a seu respeito como se ele nada tivesse dito ou feito do que lhe era imputado.
Mas, embora seu escrito nada tivesse de mau em si mesmo, Atério foi deposto como culpado dos mesmos erros de Lampécio. Um sacerdote alexandrino, chamado Atério como o bispo, foi também deposto por ter sustentado o mesmo herege, como se sabe por um relatório dirigido a Timóteo de Alexandria, provavelmente aquele que é conhecido pelo apelido de Salofaciolo (460-482), pelo bispo Ptolomeu, sucessor de Atério na sé de Rinocorura. Fócio, loc. cit., col. 92. — 6º Do século VI ao XI. Sobre a história da seita a partir do século VI, estamos menos bem informados. Apenas se colhem alguns traços esparsos salvos do esquecimento, mas que testemunham que ela continuava a viver apesar de tudo e a fazer sempre falar de si sob nomes novos. Trata-se então de eustatianos, do nome de um dos chefes, Eustácio de Edessa, e de marcianitas, do nome de um certo Marciano, banqueiro do tempo de Justiniano (527-565) e de Justino II (565-578). Timóteo, De recep. hæret., P. G., t. LXXXVI, col. 45. Na Armênia também, diz dom Duchesne, «Histoire ancienne de l'Église, Paris, 1910, t. III, p. 305», os massalianos causaram escândalo e incorreram em condenações eclesiásticas.
Veja-se a esse respeito, escreve ele em nota, Ter-Mkritschian, Die Paulikianer, Leipzig, 1903, p. 39 sq. É possível que o Malpat de que se trata em uma carta de Isaac de Nínive, Mai, Nova Patrum bibliotheca, t. VIII, p. 184, esteja relacionado com um episódio edesseno da história dessa seita. Aproximou-se Malpat de Lampécio. É certo que no Oriente nunca se deixou de vigiar esses sectários e que, quando o caso o exigia, aplicaram-se a alguns deles as penalidades indicadas pelo concílio de Éfeso. Foi o que aconteceu notadamente, em 595, com um sacerdote de Calcedônia, chamado João, que foi condenado como marcianita. Tendo havido recurso ao papa, são Gregório Magno quis conhecer o caso; instruiu, pois, o processo. Feitas as diligências, comunica ao conde Narsés que não encontrava nas atas do concílio de Éfeso a condenação de Adélfio, de Sava (Sabas) e dos demais hereges. Epist., l. VI, epist. xiv, P. L., t. LXXVII, col. 806. Ignorando, por outro lado, o que se entendia por marcianita e não tendo podido sequer aprendê-lo dos acusadores de João, proclamou a ortodoxia deste último e o mandou de volta ileso. Ibid., epist. xv, col. 807-808.
É de crer que a acusação não se sustentava e que a prova não pôde ser feita, pois os orientais conheciam sem dúvida a heresia dos massalianos, qualquer que fosse o nome que se lhe desse. Os católicos sabiam perfeitamente a que se ater. Desde o começo do século VII, Timóteo de Constantinopla, em seu tratado sobre a maneira de receber os hereges, ocupa-se bastante longamente deles, sem contudo situá-los em ordem cronológica, pois cita na seguinte ordem os marcianitas, os massalianos, os euquitas, os entusiastas, os coreutas, os lampecianos, os adelfianos e os eustatianos. Um pouco mais tarde, são Máximo o Confessor (m. 662), em seu comentário sobre o pseudo-Dionísio, De eccl. hier., VI, P. G., t. III, col. 548, relata, sempre sem ordem cronológica, que os lampecianos, massalianos, adelfianos ou marcianitas, o que é tudo o mesmo, exigiam de seus adeptos três anos de abstinência, após os quais tudo lhes era permitido, mesmo os atos de luxúria, visto que assim se haviam tornado imunes. Mas os católicos não eram os únicos a perseguir os massalianos; os próprios heterodoxos os tinham em horror. Já, notamo-lo, no começo do século VI, o monofisita Severo, antes de se tornar bispo de Antioquia, havia refutado o Testamento de Lampécio.
Sua obra está perdida; mas, como afirma o autor do artigo consagrado aos euquitas no Dictionary of Christian biography, um fragmento dela se conservaria em uma catena do New College de Oxford, com uma passagem de outra obra do mesmo Severo contra esses hereges, tirada de uma carta ao bispo Solon. Por outro lado, Assemani, em seu relato do cisma dos nestorianos da Síria, notou, segundo fontes orientais, que vão de 577 a 694, os esforços dos nestorianos contra os massalianos, onde se faz menção da aversão desses sectários pelo uso da eucaristia, do jejum e da salmodia. Bibliotheca orientalis, t. III, p. 172. Se, em seguida, antes e depois de Fócio até o fim do século XI e o começo do XII, os documentos se calam, isso não é de modo algum prova de que a seita tenha desaparecido. Continuava, ao contrário, a viver, sem grande brilho sem dúvida, mas oferecendo um terreno todo preparado para o surgimento de novas heresias, que deveriam acentuar seus erros de doutrina e de moral, tal primeiro a dos paulicianos, que se recrutou especialmente entre os euquitas sobreviventes e foi tão energicamente combatida por Miguel Psellos, autor do diálogo Περὶ ἐνεργείας δαιμόνων, e tal em seguida a dos bogomilos, que fez reviver tantos elementos gnósticos. Cf. Dœllinger, Sektengeschichte des Mittelalters, Munique, 1890, t. I, p. 34; t. II, p. 926-930.
Desde então, absorvidos que parecem ter sido nessas novas seitas, não se fala mais deles, como seita distinta ainda viva. É de notar que, se os euquitas encheram todo o Oriente desde as margens do Mediterrâneo e do mar Cáspio até a Mesopotâmia, incluindo o Egito, eles não penetraram no Ocidente. — III. Erros de doutrina e de prática. 1° Sobre a Escritura. A exemplo de todos os hereges, que se diziam cristãos entendendo e praticando o cristianismo de modo diferente da Igreja, os euquitas ou massalianos tinham a pretensão de justificar sua doutrina e sua conduta pela Escritura. Antes de tudo, não admitiam o cânon eclesiástico, pois repudiavam a Lei e os Profetas e só aceitavam os livros do Novo Testamento. E mesmo aí se limitavam a uma escolha sem nenhum guia e sem levar em conta a interpretação dos Padres; ateviam-se a certos textos, interpretados segundo uma exegese bastante simplista, mas peremptória, e negligenciavam completamente todos os outros que serviam para esclarecê-los e completá-los num conjunto coerente e harmonioso. Ver-se-ão adiante alguns exemplos disso. — 2° Sobre a Trindade. As especulações filosóficas e teológicas não parecem ter sido sua grande preocupação; entre eles não havia nem metafísicos nem teóricos.
Não se diz, contudo, que tenham mergulhado no erro ariano que agitou o século IV ou nos erros subsequentes do V; todavia a maneira singular como falavam da Trindade lembra um pouco o sabelianismo. Uma vez alcançado o estado de impassibilidade, como diziam, pretendiam ver com os olhos do corpo Deus e a própria Trindade. Teodoreto, Hæret. fab., IV, 11, P. G., t. LXXXIII, col. 429; Timóteo, De recept. hær., P. G., t. LXXXVI, col. 48; Eutímio Zigabeno, Panoplia dog., tit. XXVI, P. G., t. CXXX, col. 1277. As três hipóstases divinas se confundiam a ponto de não formarem mais que uma, Timóteo, ibid., col. 49; Zigabeno, ibid., col. 1273; e esta se unia estreitamente às almas dignas de Deus. Um Deus acessível aos sentidos, eis o que já estava em contradição formal com a Escritura e com o ensino cristão sobre a natureza divina; isso se assemelhava a um antropomorfismo disfarçado. Por outro lado, três hipóstases que não formam senão uma, era pura e simplesmente negar a Trindade para recair mais ou menos abertamente no sabelianismo.
Segundo a lógica do sistema, as três hipóstases unificadas não deviam ser outra coisa senão o Espírito Santo, pois, segundo os massalianos, é visivelmente o Espírito Santo que entra na alma assim que ela é libertada da presença do demônio, da maneira bizarra que será indicada. 3° Sobre Jesus Cristo. Essas ideias nebulosas ou falsas sobre as três pessoas da Trindade vinham acompanhadas de ideias não menos errôneas sobre Jesus Cristo. Que os euquitas tenham negado formalmente sua divindade, isso não resulta de nenhum texto; mas que estranha concepção tinham de sua encarnação! O Verbo, diziam eles, desceu de fato ao seio de Maria, mas ao mesmo tempo que o esperma do homem. Timóteo, De recept. hær., P. G., t. LXXXVI, col. 49. Não teria, portanto, sido concebido do Espírito Santo como proclamava a fórmula do símbolo. Quanto ao seu corpo, acrescentavam, foi primeiro cheio de demônios como o de todos os seres humanos, e só depois de tê-los expulsado é que se teria revestido da divindade; e desde então esse corpo participava de certo modo da natureza infinita de Deus; era mutável, ora material, ora espiritual. Timóteo, ibid. Não se assemelhava, pois, a um verdadeiro corpo humano.
A encarnação assim entendida não era de modo algum a que a Igreja ensinava. Quanto à redenção pela morte sangrenta de Jesus Cristo na cruz, há de se crer que a rejeitavam, embora nunca se fale disso entre os erros que lhes são atribuídos; pois Harmenópulo afirma que tinham em abominação a cruz e a santa Virgem. De hær., 18, P. G., t. CL, col. 25-28. Por outro lado, a atitude deles perante a comunhão eucarística era bastante significativa, pois tratavam esse sacramento como coisa indiferente, que não era útil aos bons nem nociva aos pecadores, embora dele participassem, quando fosse o caso, para não parecer que se separavam da Igreja. Não criam, portanto, na presença real de Jesus Cristo na eucaristia. Nessas condições, quais podiam ser a natureza e o papel de Cristo? Bem pouca coisa, pois só falavam do Espírito Santo, e era apenas à presença e à ação do Espírito Santo que atribuíam a santificação. Havia aí, portanto, um desconhecimento característico da economia divina da encarnação e da redenção. 4° Sobre a natureza e as consequências do pecado original. Sem pôr em dúvida a existência da falta de Adão e de suas funestas consequências, os massalianos se enganavam estranhamente, se não sobre a própria natureza do pecado original, ao menos sobre seus efeitos.
Em vez de ver nele simplesmente a perda da graça santificante e a ausência da vida sobrenatural, criam que, em consequência da queda, o homem, ao vir ao mundo, tem a alma habitada pelo demônio e que, se é levado ao mal, é a esse hóspede inimigo que o deve. Ora, a presença do demônio é um obstáculo à entrada e à permanência salutar do Espírito Santo. Consideravam, pois, a mais urgente necessidade e o mais imperioso dever livrar-se para sempre do demônio para receber em seu lugar o hóspede absolutamente benfazejo e garantia segura da salvação que é o Espírito Santo. Mas o meio de assegurar esse resultado capital e decisivo não era, segundo eles, o batismo, pois desconheciam sua natureza e sua eficácia; consideravam-no bom, quando muito, para fazer desaparecer o pecado, e para cortá-lo superficialmente como uma navalha, mas de modo algum capaz de ir até o fundo e de arrancar até as últimas fibras de sua raiz. Teodoreto, Hæret. fab., IV, 11, P. G., t. LXXXIII, col. 429; Timóteo, De recept. hær., P. G., t. LXXXVI, col. 48; S. João Damasceno, Hær., 80, P. G., t. XCIV, col. 729. Esse papel indispensável, atribuíam-no à oração. 5° Sobre a eficácia soberana da oração.
Deixando, pois, de lado esse meio sobrenatural de regeneração que é o batismo, instituído e declarado necessário por Jesus Cristo, ou a ele recorrendo, já que se pretendiam cristãos, apenas como a uma prática de importância muito secundária, tinham tomado por divisa esta palavra de são Paulo aos Tessalonicenses: ἀδιαλείπτως προσεύχεσθε, orai sem cessar, I Tess., V, 17, e fizeram da oração o instrumento por excelência, ou antes único, da salvação. Ao ouvi-los, só eles compreendiam bem o πάτερ ἡμῶν, Pater noster, e sabiam recitá-lo. Ora, diziam eles, só a oração é capaz de livrar a alma do demônio que a habita desde o nascimento e de nela introduzir o Espírito Santo. O homem que reza expulsa o demônio pelo muco de suas narinas ou pela saliva de sua boca, Teodoreto, loc. cit., col. 429; Timóteo, loc. cit., col. 48; e o demônio foge sob forma de fumaça, de serpente ou até mesmo sob forma de porca seguida de seus leitões. S. Agostinho, De hær., 57, P. L., t. XLII, col. 41. E quanto ao Espírito Santo, ele penetra então em nossa alma de maneira invisível ou sob forma de um fogo que não queima. Tal é o resultado primeiro e decisivo da oração.
Para fazer admitir semelhantes dados, era preciso contar com uma forte dose de ingenuidade ou de credulidade; mas há de se crer que os adeptos, vítimas talvez de alguma grosseira superchería, se deixavam seduzir sobretudo pelas consequências de ordem prática, que lhes deixavam toda liberdade de ação ao mesmo tempo que lhes proporcionavam, pensavam eles, singulares privilégios de salvação. Pois a oração, quando é intensa, profunda, concentrada e prolongada, acaba produzindo na alma, segundo a doutrina da seita, um estado incomparável e único, que não é outro senão a impassibilidade, fonte de favores excepcionais e verdadeiramente maravilhosos. 6° Sobre o estado de impassibilidade, ἀπάθεια. Uma vez alcançada pela oração a ἀπάθεια, esse estado de impassibilidade, mas não de insensibilidade, a alma, pretendiam os euquitas, sente-se unida ao Espírito Santo, tornado seu esposo, por laços tão sensíveis e mais doces que os das relações conjugais do homem e da mulher. Toca-se aqui num misticismo dos mais sutis, cujos efeitos se comparam aos do mais grosseiro sensualismo; toca-se até numa espécie de panteísmo que desfigura completamente a doutrina católica da elevação do homem à ordem sobrenatural e de sua santificação pela graça.
A alma, dizem os euquitas, não forma então mais que um com a hipóstase divina sobrevinda nela; entra doravante na esfera do divino, possui a própria natureza divina. Timóteo, De recept. hær., P. G., t. LXXXVI, col. 49. Não só vê Deus e a Trindade com os olhos do corpo, mas nada mais escapa à penetração de seu olhar, nem os pensamentos íntimos alheios, nem o estado das almas separadas do corpo, ibid., col. 52, nem os segredos do porvir, nem a significação misteriosa dos sonhos. Ibid., col. 49. O euquita experimenta então às vezes os frêmitos íntimos de um delírio sagrado; põe-se a saltar ou a dançar como quem pisa aos pés o demônio expulso e vencido; daí o nome de entusiastas e de coreutas dado aos massalianos; ou então toma a atitude do arqueiro que retesa seu arco e lança uma flecha contra um inimigo invisível, mas presente. Teodoreto, Hæret. fab., IV, 11, P. G., t. LXXXIII, col. 432; Timóteo, De recept. hær., P. G., t. LXXXVI, col. 49. Essas pretensões extravagantes e esses atos desconcertantes deviam naturalmente impressionar a imaginação, excitar a curiosidade e provocar adesões; mas que perigo também de fanatizar os simples de espírito e de desencadear os piores instintos sob o pretexto do sentimento religioso! 7° Consequências.
Os euquitas, com efeito, em seu estado de ἀπάθεια, vangloriavam-se de ter atingido a perfeição moral e até a impecabilidade. O pecado já não lhes era possível: nenhuma necessidade, pois, de instruir o espírito nem de disciplinar o corpo pelo ascetismo. De que servia o ensino dado pela Igreja e os jejuns que ela prescreve, uma vez que já se estava a salvo da ignorância que leva ao erro e da concupiscência que arrasta ao mal: o corpo já não estava submetido à tirania dos sentidos e a alma já não era capaz de decair. Assim, durante o verão, chegada a noite, deitavam-se ao ar livre, homens e mulheres, em completa promiscuidade, sem que isso acarretasse consequência alguma; podiam mesmo saborear os pratos mais delicados e levar a vida mais luxuriosa: para outros, isso teria constituído uma tentação irresistível ou uma ocasião certa de queda; mas sobre eles, pretendiam, isso não tinha o menor efeito. Timóteo, loc. cit., col. 52. Certamente não somos obrigados a crer em sua palavra. Santo Epifânio já havia manifestado o temor de que tal conduta não estivesse isenta de toda censura moral.
E esse temor era demasiado bem fundado, como o provaram mais tarde a atitude escandalosa e as palavras licenciosas de Lampécio, um de seus chefes, os atos de roubo e de fornicação devidamente constatados entre eles, S. João Damasceno, Hær., 80, P. G., t. xciv, col. 733, e a acusação claramente formulada contra eles por são Máximo, o Confessor. São Paulo tinha dito: «Que a mulher escute a instrução em silêncio, com toda submissão. Não permito à mulher ensinar» I Tim., ii, 11-12, mas os euquitas não levaram isso em conta, e por isso tinham entre eles mulheres desempenhando o papel de doutoras, que honravam acima do clero. Timóteo, loc. cit., col. 52. Aliás, descartavam todo texto escriturístico que pudesse incomodá-los. Tendo tomado ao pé da letra o conselho do Salvador: Πωλήσατε τὰ ὑπάρχοντα ὑμῶν, καὶ δότε ἐλεημοσύνην· ποιήσατε ἑαυτοῖς βαλλάντια μὴ παλαιούμενα, θησαυρὸν ἀνέκλειπτον ἐν τοῖς οὐρανοῖς, Luc., XII, 33, tinham abandonado tudo, desprendido-se generosamente dos bens deste mundo e praticavam a pobreza. Era preciso, porém, viver, e para isso trabalhar; os apóstolos tinham dado o exemplo, I Cor., IV, 20, e formulado o preceito. Eph., iv, 28. São Paulo tinha mesmo acrescentado: «Se alguém não quer trabalhar, que também não coma.»
II Tess., III, 10. Eles entendiam, quanto a si, comer e nada fazer, apoiados nesta palavra do Salvador: Ἐργάζεσθε μὴ τὴν βρῶσιν τὴν ἀπολλυμένην, ἀλλὰ τὴν βρῶσιν τὴν μένουσαν εἰς ζωὴν αἰώνιον. Joa., vi, 27. O trabalho recomendado não é de modo algum pelo alimento que perece, diziam, mas pelo que permanece para a vida eterna, e não se trata absolutamente do trabalho manual, mas unicamente da oração. Esses preguiçosos por partido tomado, que passavam o tempo sem fazer nada ou dormindo, Teodoreto, Hæret. fab., iv, 11, P. G., t. lxxxiii, col. 429, inovavam, pois, estranhamente e revolucionavam o ideal da vida religiosa, tal como era entendido e já realizado naquela época; pois não se admitia a ideia de monges que passassem todo o seu tempo na contemplação ou na oração sem jamais se ocuparem de trabalho manual algum. Daí o escândalo suscitado e as admoestações que são Nilo lançava do Sinai contra a preguiça inculcada «por Adélfio, o Mesopotâmio, e por esse Alexandre que há pouco perturbou Constantinopla», De paupertate, 21, P. G., t. lxxix, col. 997, alusão ao fundador dos acemitas, associado assim, sob a pena de são Nilo, a um dos chefes dos euquitas.
O monge do Sinai mostrava que a pretendida ἀπάθεια deles, em vez de ajudar à devoção e à piedade, dava lugar a pensamentos maus e a paixões culpáveis, e era no fundo inimiga da verdadeira oração. Não se entregando, pois, a trabalho algum para obter o alimento necessário à vida, os massalianos, constituindo uma espécie de frades mendicantes, recorriam à caridade pública; chegavam mesmo a reivindicar como direito pessoal e exclusivo a percepção das esmolas, já que eram verdadeiramente, eles sim, os pobres de espírito de que fala o Evangelho. Não é, pois, às viúvas, diziam, nem aos órfãos, aos infelizes, aos prisioneiros, que se deve fazer esmola quando se a entende e se quer torná-la meritória, mas unicamente a eles. Timóteo, loc. cit., col. 52. Em consequência, comiam até saciar-se e bebiam até saciar a sede a qualquer hora do dia, sem se preocupar minimamente com as prescrições eclesiásticas relativas ao jejum, tão escrupulosamente observadas no Oriente. Esse desprezo pelas regras não chegava, contudo, a fazê-los querer separar-se ostensivamente da Igreja.
Participavam, pois, da comunhão eucarística, com finalidade puramente política; pois, contrariamente à doutrina de são Paulo, não criam na presença real de Jesus Cristo na eucaristia e tratavam esse sacramento, como já se viu acima, como coisa indiferente. Teodoreto, H. E., iv, 10, P. G., t. lxxxii, col. 1145; Timóteo, loc. cit., col. 49. E tal era o cuidado deles em não romper com a Igreja que os falsos juramentos e os perjúrios não lhes custavam nada. De boa vontade, mesmo, renegavam de boca seus próprios erros e anatematizavam seus próprios partidários. Timóteo, loc. cit., col. 52. Estivessem formalmente convencidos de professar esses mesmos erros, nem por isso deixavam de tomar Deus por testemunha de que nada disso era verdade, ou, renegando-os imediatamente, declaravam-se dispostos, antes que serem expulsos da comunhão, a sofrer o quanto se quisesse os rigores do regime penitencial. Tal aplomb na negação dos fatos mais comprovados, tal hipocrisia não enganaram por muito tempo a ninguém; e isso acaba de retratá-los sob o aspecto mais desfavorável.
Compreende-se que, com princípios de conduta tão cômodos e teorias tão tranquilizadoras, tenham feito tantos adeptos e se mantido tanto tempo apesar das sanções eclesiásticas e das leis imperiais; compreende-se sobretudo que tenham finalmente caído no desregramento e na imoralidade, oferecendo assim assuntos já preparados para perpetuar as abominações tão justamente censuradas mais tarde aos paulicianos e aos bogomilos. Cotelier, Ecclesiæ græcæ monumenta, Paris, 1677-1686, t. III, p. 401 sq.; Tillemont, Mémoires pour servir à l'histoire ecclésiastique des six premiers siècles, Paris, 1701-1704, t. VIII, p. 527-537; t. xiv, p. 449-451; Ceillier, Histoire des auteurs sacrés et ecclésiastiques, Paris, 1858-1864, t. iv, p. 643-647; Jacobi, Ueber die Euchiten, dans Zeitschrift für Kirchengeschichte, 1888, t. ix, p. 507-522; Döllinger, Sektengeschichte des Mittelalters, Munich, 1890; Conybeare, The key of truth, Oxford, 1898; Mgr Duchesne, Histoire ancienne de l'Église, Paris, 1907-1910, t. ii, p. 582-584; t. iii, p. 303-305; Migne, Dictionnaire des hérésies, Paris, 1847, t. i; Smith et Wace, Dictionary of Christian biography; Hauck, Realencyklopädie für protestantische Theologie und Kirche, vo Messalianer, 3e édit., Leipzig, 1896 sq.; Wetzer et Welte, Kirchenlexikon, 2e édit., Fribourg-en-Brisgau, 1880 sq.; Ul. Chevalier, Répertoire. Topo-bibliographie, Paris, 1905, col. 1057
Autor original: G. Bareille
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