EUGÊNIO III, PAPA

EUGÊNIO III, PAPA

EUGÊNIO III, papa (1145-1153), chamava-se Bernardo Pignatelli; nascido de uma nobre família nas cercanias de Pisa, foi sucessivamente educado na igreja daquela cidade, cônego da catedral, vice-dominus, ou econômico temporal. Encontrou são Bernardo em 1130, no concílio de Pisa, e o seguiu até Claraval, onde foi monge; depois de ter sido empregado em diferentes assuntos, foi mandado de volta à Itália para reerguer a abadia de Farfa; depois Inocêncio II o fez abade das Três-Fontes, perto de Roma. Era abade de São Vicente e de Santo Anastácio quando foi eleito, em 15 de fevereiro de 1145, imediatamente após a morte de Lúcio II, morto ao sitiar o Capitólio. Roma estava em plena revolta; os cardeais tinham se reunido logo no claustro de São Cesário; temendo que o povo exigisse do novo eleito a abdicação do poder temporal, entronizaram-no sem demora na igreja de São João de Latrão, e depois se refugiaram secretamente com ele em Farfa, onde se fez a consagração. Dali, Eugênio se estabeleceu, à espera dos acontecimentos, na cidade fiel de Viterbo. Ele haveria de passar quase todo o seu pontificado fora de Roma, faminta de independência, pelos grandes caminhos da França, da Alemanha e da Itália.

Eugênio foi o primeiro monge da ordem cisterciense a ser papa. Por isso, são Bernardo logo lhe escreveu uma carta em que se misturavam felicitações e lições. Seu primeiro ato foi tentar reconquistar Roma. O senado, exasperado com sua fuga, havia substituído o prefeito por um patrício de sua escolha; o povo havia saqueado os palácios dos nobres e dos cardeais, as igrejas, mesmo a de São Pedro, e violentado os peregrinos. Com o concurso dos condes da Campânia, dos habitantes de Tívoli e a conivência de alguns romanos fiéis, Eugênio reduziu seus adversários, restabeleceu a prefeitura e estatuiu que o corpo senatorial, puramente municipal, seria composto de 50 membros eleitos pelo povo, mas aprovados por ele. Depois fez sua entrada solene em 19 de dezembro de 1145. Mas foi por pouco tempo: teve de partir novamente em janeiro de 1146, só voltando em novembro de 1149. Essa revolução era obra de Arnaldo de Bréscia que, condenado no concílio de Latrão de 1139 a deixar a Itália, havia voltado para lançar-se aos pés de Eugênio, em Viterbo, e obtido seu perdão, com a condição de se submeter. Mas suas promessas não resistiram diante de suas tendências revolucionárias e das do povo, que o repôs à sua frente, proclamou-se em república, saqueou de novo as igrejas, os palácios e os peregrinos.

Por outro lado, Eugênio recusou-se a destruir a cidade de Tívoli, que os romanos detestavam porque ela o havia ajudado a reconduzi-los à obediência. Depois de retirar-se para o castelo de Sant'Angelo, teve de fugir para Viterbo, e depois passar à França, para onde, aliás, o chamavam os preparativos da segunda cruzada. Havia excomungado Arnaldo em 1148; em 1149, apoiado pelo rei da Sicília, ditou suas condições aos romanos e voltou em 28 de novembro. Mas, já em junho de 1150, teve de partir de novo. Dessa vez, associou-se a Frederico Barba-Ruiva contra Arnaldo. Os burgueses também, e mesmo parte do povo, cansaram-se dos projetos do monge revoltado, hostis ao imperador e à Igreja, e, em 9 de dezembro de 1152, Eugênio fez sua paz com os romanos; ia destruir de vez o senado quando morreu. Além do restabelecimento do poder temporal, sua grande obra política foi a cruzada; ocupou-se dela durante seus exílios. A queda de Edessa, no Natal de 1144, havia comovido a cristandade; os apelos dos bispos, dos armênios, de toda a Palestina ressoaram no fundo de seu coração; convocou toda a cavalaria e especialmente a da França para uma nova cruzada, e encarregou seu mestre, são Bernardo, de pregá-la.

Sabe-se o que aconteceu; em dois anos, dois exércitos foram organizados na França e na Alemanha e conduzidos, um por Luís VII, o outro por Conrado; eram acompanhados por dois legados pontifícios. Mas as rivalidades dos príncipes e as desordens dos cavaleiros levaram ao insucesso dessa expedição; Eugênio III pediu, segundo o voto do concílio de Chartres, 1149, que são Bernardo se ocupasse de novo da cruzada e reparasse esse fracasso; mas o entusiasmo havia caído. Por ocasião da cruzada, Eugênio III entrara em relações com a Igreja do Oriente e tentara, aproximando o imperador Manuel de Rogério da Sicília, preparar uma união religiosa. Mas fracassou. Enviou o futuro papa Adriano como legado à Escandinávia. Durante suas viagens, realizou diversos concílios, os de Paris em 1147, de Trier e de Reims em 1148, onde se ocupou fortemente da reforma eclesiástica e da doutrina teológica. Não temeu depor os metropolitanos de York e de Mainz. Foi nos concílios de Paris e de Reims que os livros de Gilberto de la Porrée, bispo de Poitiers, sobre a Trindade, denunciados por são Bernardo, foram discutidos, e que se condenou Éon de l'Étoile e os hereges do Midi.

Em Trier, o papa também foi favorável aos escritos místicos de santa Hildegarda. Aliás, ele apoiava Pedro Lombardo, o mestre das Sentenças, o cardeal Pullus, que fundou a universidade de Oxford, Graciano, que redigiu o Corpus decretorum em Bolonha. Eugênio favoreceu todas as ordens religiosas; foi amigo do abade de Cluny, Pedro, o Venerável; foi visto em Claraval sob são Bernardo. Esses dois grandes homens lhe prestaram homenagens muito gloriosas. São Bernardo lhe dirigiu seu De consideratione (1149-1152), obra inspirada por uma grande audácia apostólica. Inúmeros são os privilégios que dirigiu aos mosteiros; ele próprio viveu constantemente como religioso. Seu bulário está também repleto de cartas aos bispos das Igrejas do mundo inteiro. Morreu em Tívoli, em 8 de julho de 1153, e foi sepultado em São Pedro. Pio IX, em 28 de dezembro de 1872, aprovou o culto que lhe prestavam os pisanos desde tempos imemoriais. Jaffé, Reg. pont. rom., 1ª ed., p. 615-652, 950; 2ª ed., t. II, p. 20-82; P. L., t. CLXXX, col. 1009; t. CXCVII, col. 145; 1192 Duchesne, Liber pontificalis, t. II, p. 386; Watterich, Pont. rom. vitæ, 1862, t. II, p. 281-321; Hefele, Histoire des conciles, trad. Leclercq, Paris, 1912, t. V, p. 795-847. Ver as obras sobre são Bernardo, Conrado e Frederico, Suger e Luís, o Jovem; Otto de Freising, Gesta Friderici, Historia pontificalis, em Monumenta Germaniae historica, t. XX; Sainati, Vita del beato Eugenio III, Monza, 1874

Autor original: A. Clerval

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