ETIÓPIA (IGREJA DA). — I. As origens. II. Depois do concílio de Calcedônia. III. Depois das conquistas do islã na Síria e no Egito, agonia da Igreja da Etiópia. IV. Sob a dinastia dos Zaguês (960-1268). V. Sob a restauração da antiga dinastia. Nova fase religiosa (1268-1440). VI. Concílio de Florença. Zara-Jacob, reformador do culto. VII. Depois das invasões muçulmanas, a Etiópia e Portugal; fracasso de uma primeira união. VIII. Missão dos jesuítas (1556-1606). IX. Cristologia (1636-1900). X. Estado no século XIX.
— I. As origens. 1º Posição e extensão geográfica. Dizer Igreja ou império da Etiópia é tudo um. Trata-se do antigo império desse nome. A denominação posterior de Abissínia nos precisa melhor a posição geográfica, destacando-a da imensa e vaga Etiópia dos antigos. Mas, seja para a Igreja, seja para o Estado, o nome de Etiópia é oficial, sagrado, intangível. Aliás, do alto de seus cumes, não é ela a orgulhosa capital dos vales sem fim do Alto Nilo, povoados pelos descendentes de Cuche? Sabe-se que o apelido é sinônimo de Cuche. Ela compreende as praias ribeirinhas do mar Eritreu e do oceano Índico a leste, e os altos planaltos montanhosos entre os 6º e 15º graus de latitude norte e os 34º e 45º graus de longitude leste, meridiano de Paris. Essa vasta delimitação está longe de significar que a religião cristã tenha jamais reinado, seja universalmente sobre toda a nação, seja soberanamente sem rivalidade de outros cultos, como se verá mais adiante, mas que ela foi reconhecida como a religião oficial do império.
— 2º Introdução do cristianismo. Todos os historiadores concordam hoje em reconhecer que a origem da Igreja da Etiópia não remonta além do século IV. Nem a propaganda supostamente feita pelo eunuco da rainha Candace, nem as expedições apostólicas de são Mateus in Æthiopiam, e de são Bartolomeu in Indiam citeriorem, tiveram por teatro a Alta Etiópia.
1. A lenda de Aksum, referente à propaganda de conversão de Candace e relatada pelo P. d'Almeida, em Beccari, Rer. aeth., V, p. 133, 142, é uma asserção posterior, e de modo algum fantasiosa, sem nenhum fundamento nem vestígio na tradição cultual da Igreja da Etiópia. Sabe-se, aliás, que Candace era a denominação geral das rainhas de Meroé. 2. As Índias citeriores onde são Bartolomeu pregou ficam na Ásia, e o culto tradicional da Igreja persa o comprova. 3. Do mesmo modo, nenhum vestígio nas festas, nos ofícios, nem nos monumentos religiosos, de um título especial ao reconhecimento regional, nenhuma lembrança tradicional menciona a passagem de são Mateus no reino de Aksum.
Os nomes de Hirtaco e de Ifigênia e os detalhes da lenda implicariam um contrassenso onomástico e um álibi histórico. Cf. d'Almeida, op. cit., p. 142. A identificação dos nomes Αἰθιοπία e Ἰνδία, feita sem olhar mais de perto, resulta da vaga indeterminação desses termos nos autores dos sete primeiros séculos. A introdução do cristianismo e a fundação da Igreja da Etiópia se devem a são Frumêncio ou Kedus Faramanaios, dito Villuminator ou Kasalé-Berhân, nas circunstâncias aventurosas e romanescas relatadas por Rufino, H. E., I, c. ix, edit. 1. Cedreno, p. 384, e substancialmente de acordo, t. i, com a lenda de Aksum. D'Almeida, op. cit., p. 136. Das margens do mar Vermelho, sem dúvida de Adúlis, porto e empório importantes desde os Ptolomeus, os dois irmãos Frumêncio e Edésio, de origem fenícia, foram levados cativos à corte do rei da Etiópia, em Aksum (Axiûmitae, Auxumitae dos autores gregos e romanos), capital então no apogeu de sua glória. O autor do périplo do mar Eritreu, que a visitou no ano 67 de nossa era, relata que ali se falava correntemente a língua grega. Os dois prisioneiros conquistaram os favores do príncipe e foram encarregados por ele de ofícios de confiança e até mesmo da educação de seus filhos, herdeiros presuntivos do trono.
Aproveitaram-se da influência e do ascendente que lhes dava tão elevada posição para iniciar as pessoas da corte no conhecimento de Jesus Cristo, para facilitar aos mercadores gregos que frequentavam o país o exercício de sua religião, e para ganhar pouco a pouco adeptos para a Igreja cristã. Ao término de seu serviço junto aos príncipes, obtiveram a liberdade de retomar o caminho de sua pátria. Despediram-se da corte e voltaram a Alexandria. Enquanto Edésio foi até Tiro rever sua família, Frumêncio ficou em Alexandria para informar completamente santo Atanásio sobre as disposições dos etíopes, tão propícias à expansão do Evangelho. O patriarca não podia encontrar missionário mais apto para esse apostolado do que o próprio Frumêncio. Conferiu-lhe as ordens sacras e sagrou-o bispo da nova Igreja que iria se somar às vastas conquistas da «pregação de são Marcos». Todo esse relato, acrescenta Rufino, se deve ao próprio Edésio, que, ele também, se tornou padre da Igreja de Tiro. Frumêncio, oficialmente encarregado da evangelização do reino de Aksum, para lá se dirigiu e foi ali acolhido de braços abertos, com os auxiliares que santo Atanásio teve de lhe dar para ajudá-lo nos grandes trabalhos do ensino e da educação das almas, segundo o Evangelho.
As conversões foram prontas e numerosas. O santo bispo encontrou até mesmo almas de elite já maduras para as ordens sagradas e que colaboraram na propagação em torno da colmeia-mãe de Aksum. Segundo a lenda etíope, d'Almeida, op. cit., p. 136, esses acontecimentos se realizaram sob o reinado dos dois irmãos Abraha e Atsabaha (Aizanas e Saizanas das inscrições; Éla-Auda e Éla Azguagua do sinaxário ou martirológio etíope), no ano 333 do calendário etíope, correspondente ao ano 341 do calendário latino. Esses sucessos tiveram repercussão até Bizâncio e deram ali ocasião a um documento oficial que confirma o fato dessa missão extraordinária na Etiópia confiada a são Frumêncio por santo Atanásio, patriarca de Alexandria. Trata-se de uma carta endereçada em 356 pelo imperador ariano Constâncio aos reis de Aksum, Aizanas e Saizanas, Apologia ad Constantium, P. G., t. xxv, col. 636, na qual ele os põe em guarda contra Frumêncio, bispo de Aksum, sagrado e delegado outrora por Atanásio e, por conseguinte, seu discípulo e adepto de sua doutrina. Pede-lhes que o enviem a Alexandria, a fim de ali se submeter a um exame sobre a fé, junto a Jorge, bispo ariano, cuja intrusão na sede patriarcal de são Marcos ele havia favorecido, no lugar de santo Atanásio, condenado ao exílio.
Este documento autêntico, diz o Sr. Guidi, Dict. d'histoire et de géographie, t. i, col. 211, confirma o relato de Rufino, etc.; corrige-lhe o erro geográfico e precisa a cronologia (337-361). 3º Preservação do arianismo. Além disso, colhemos daí a preciosa garantia de que o arianismo nada teve a ver com a jovem Igreja, apesar dessa démarche imperial e apesar dos esforços de Teófilo de Dibas, se é verdade, como relata o ariano Filostórgio, l. III, 46, P. G., t. lxv, col. 481-489, que ele tenha ido a Aksum para ali infiltrar o veneno sutil e contagioso. No Tigré, precisamente o terreno onde ela poderia ter-se implantado, o horror a essa heresia permaneceu proverbial até o presente, mesmo apud vulgus; pois o arianismo, ou o nome execrado de Ário, serve de termo de imprecação e de reprovação diante de uma proposição revoltante. 4º Extensão progressiva. A graça maravilhosa de que o apostolado de são Frumêncio fora favorecido produziu grandes efeitos de conversão e de salvação em torno do núcleo primitivo, e oratórios gregos, a princípio privados, tornaram-se ali igrejas e centros de dia em dia aumentados e multiplicados.
Sem dúvida, o infinitus numerus barbarorum de Rufino, segundo Edésio, convertidos à fé cristã, pode ser uma expressão oriental sempre hiperbólica; mas, no mínimo, vê-se nisso uma expansão certamente considerável, seja em torno de Aksum no Tigré, cujas populações têm os olhos na corte imperial para lhe seguir os exemplos, seja em torno de Adúlis, nas margens do mar Vermelho, em suas vilas no alto planalto e por toda parte onde os negociantes gregos tinham um entreposto que se tornara centro cristão, seja enfim no arquipélago de Dahlâk, então bastante explorado por uma população civilizada e onde as ruínas semeadas mais tarde pelas piratarias dos muçulmanos atestam a antiga prosperidade industrial e religiosa por meio das relações comerciais com a baía de Adúlis.
1. Em seu laconismo lapidar, duas inscrições reencontradas em Aksum, Sr. Th. von Heuglin, Reise nach Abessinien, p. 146-147, constatam um sinal bastante claro da transformação religiosa operada nas ideias e no culto da corte, graças às instruções de Frumêncio. Ambas estão em nome de Aïzanas, o mais velho dos discípulos reais do missionário; mas a divergência textual testemunha uma evolução completa das convicções no espírito do rei, realizada durante o intervalo que separou as datas da primeira inscrição e da segunda.
A primeira é pagã, idólatra; a segunda só reconhece um único Deus verdadeiro, criador e senhor do universo. Sem dúvida, não se lê aí uma profissão expressa do Evangelho, mas já bem o primeiro artigo do símbolo dos apóstolos. Era a verdade fundamental pregada ao mundo pagão e que, uma vez admitida, autorizava a revelação dos mistérios da fé cristã. A conversão de Aïzanas e de Saïzanas, ou Abraha e Atsabaha, é celebrada por um culto que se presta na Etiópia. Em Aiba, no Inderta, uma grande igreja monolítica, escavada na rocha, lhes é dedicada. Faz-se remontar ao seu reinado a construção da catedral de Aksum, e só nesse sentido é que as crônicas imperiais atribuem a Abraha e Atsabaha a fundação dessa cidade; pois, doravante, Aksum só tem importância por causa desse santuário, Eda-Sion ou Domus Sion. Talvez são Frumêncio tenha tido apenas de consagrar um templo pagão para convertê-lo em igreja. Destruído no século X pelas chamas, não se podem reencontrar vestígios certos dele; mas a conjectura da existência de um antigo templo se funda na provável anterioridade dos obeliscos que, a ver os destroços deitados no solo, parecem ter formado o seu quadro. As pedreiras onde eram talhados estavam, aliás, em atividade sob o imperador Aïzanas; as tábuas ou estelas de suas inscrições o comprovam. Enfim, a Tarika-Nagast celebra o rei Kaleb (século VI) como um genial talhador de rocha ou escavador.
2. Do Tigré, o movimento religioso se estendeu pouco a pouco pelo interior do império, além do rio Tâkâzé, em Lasta, em Amârâ, etc., conforme se exercia a influência diretora do poder imperial sobre essas regiões. De fato, o berço do cristianismo na principal das ilhas do lago Sana, no centro do império, foi a famosa kalis ou Aklîs (ἐκκλησία), cuja fundação se faz remontar ao século V.
5º Estado informe e inorgânico. Seria mais exato dizer que essa Igreja permaneceu constantemente em estado de missão e de evangelização, estado primordial em que não é nem vitoriosa, nem livre das religiões e dos costumes heterogêneos que combate. É difícil aí reconhecer uma diocese constituída, uma província eclesiástica organizada à semelhança de todas as Igrejas regionais, seja no Oriente, seja no Ocidente, e gozando de seu self-government. É antes um vicariato apostólico in partibus infidelium.
1. O aspecto de missão, isto é, de um campo ainda por desbravar, encontra-se, mesmo hoje, quase como na origem. Com efeito, o cristianismo coabita na Etiópia com um fundo de paganismo idólatra ou de fetichismo persistente, por toda parte entremeado e disputando o passo ao verdadeiro Deus com costumes e usos judaicos que atestam a imigração da religião de Israel, mas como simples superfetação, deixando intacto o fetichismo preocupante; enfim, com um culto de base cristã, mas deformado por ideias e práticas supersticiosas. Cf. Piolet, Missions catholiques, t. i. Missions d'Abyssinie, por Coulbeaux, p. 3. Às emanações desses miasmas nocivos que desbotam a verdade e a pureza do Evangelho na Etiópia, se somará ainda mais tarde a infiltração invasora do islã.
2. O aspecto de um vicariato apostólico aparece igualmente na organização informe e anormal desta Igreja; pois, se nela se constata certa autonomia em seus quadros administrativos, é uma autonomia aparente, presa a uma servidão radical, originária, que sujeita todo o funcionamento de sua vida, mantendo-a atrelada a uma vassalagem que a priva do direito primordial, essencial ao self-government: a eleição, em seu próprio seio, de seu bispo, direito que é justamente o princípio da autonomia.
Esta condição é a do berço, da tenra idade, como diz santo Paulo, Gál., iv, 1, quanto tempore heres parvulus est, nihil differt a servo. Concebe-se naturalmente esta condição no período de evangelização e de educação cristã; mas ela é ultrapassada, anormal, depois da conquista da Igreja, sobretudo quando se trata de um vasto império bem mais considerável, por seu poder e por seu número, do que o domínio próprio do patriarcado de Alexandria. Ora, este estado primitivo e inorgânico permaneceu ao longo dos séculos e permanece ainda na Etiópia. Inferioridade humilhante consagrada por um dos pseudocânones de Niceia forjados pelos jacobitas no século vii e admitidos pelos abissínios. Estes, grandes ingênuos, comprazem-se em interpretá-lo, não como uma lei de ostracismo, mas como um direito junto ao patriarcado.
Segundo este cânone: a) o bispo encarregado da Igreja da Etiópia tem o título de catholicos ou metropolita sobre esta província eclesiástica e as honras ligadas a esta qualidade, à semelhança do bispo de Selêucia, primitivamente legado do patriarca de Antioquia ou catholicos; assim, este título não representa senão uma delegação patriarcal, e não uma autoridade sui juris; b) seu caráter de catholicos é essencialmente menor que o de Selêucia, pois não é apenas a consagração episcopal, mas até mesmo a eleição, que pertence unicamente ao patriarca de Alexandria, com exclusão de qualquer escolha pelos etíopes.
O metropolita, uma vez nomeado, tampouco tem, como o bispo de Selêucia, o poder de nomear bispos sufragâneos ou auxiliares em sua imensa província; todas essas nomeações são reservadas ao patriarca de Alexandria. Daí se concluiu pela inelegibilidade dos membros do clero etíope e, de fato, a candidatura é reservada aos monges egípcios de Santo Macário. 36º cânone, segundo a redação de Antioquia; 47º segundo a redação árabe; 42º na versão de Abraham Ecchellensis. Ludolf, Comm. ad hist.
II. Depois do concílio de Calcedônia (451). — 1º Providencial preservação da defecção copta. As discórdias teológicas, após as condenações do nestorianismo e do eutiquianismo, logo degeneraram no Oriente em lutas encarniçadas e até sangrentas, e transtornaram todas as Igrejas, durante os séculos v e vi, como que para preparar aí a sujeição mais servil que viria a seguir-se sob o jugo muçulmano. Durante esse período confuso, que é feito da jovem Igreja da Etiópia, atrelada ao reboque da do Egito? Os documentos históricos se reduzem a algumas notas breves das crônicas etíopes e a outras, muito pouco claras e precisas, dos autores gregos e sírios daqueles tempos conturbados.
Não é coisa fácil discernir aí o fundo verdadeiro, isto é, os fatos tais como devem ter ocorrido, as personagens e as circunstâncias características que iluminam as condições de vida da obra de são Frumêncio, através dos perigos que ela correu sob os inevitáveis contragolpes das tempestades do Egito e de todo o Levante. Providencialmente, a Etiópia receberá apoios, defensores que a preservarão da defecção e da revolta dos coptas e dos sírios.
— 2º Novos apóstolos. Na segunda metade do século v, sob o reinado do imperador da Etiópia Al-Amêda (o Ami-Ad), ocorreu a chegada a Aksum de nove santos de Roma, romawân, isto é, roums ou gregos do império bizantino, a nova Roma. Seus nomes foram conservados pelo culto que lhes é prestado e pelas igrejas que lhes são dedicadas no Tigré, nos arredores de Aksum: abba Miguel, dito Aragâwi ou o Ancião, abba Pantaléon, abba Isaac, dito Garimâ, abba Afsé, abba Cuba, abba Alêf, abba Yeniata ou, por abreviação, abba Mata, abba Likanos e abba Sâmâ. As crônicas acrescentam Ils hagmanota. Tarika-Nagast: retificaram a fé, anotado sobre Al-Amêda.
As igrejas que lhes são dedicadas foram erguidas nos lugares que eles santificaram por suas virtudes e pelo zelo com que se consagraram à instrução e à formação cristã das populações. Eles concluíram no Tigré a obra de são Frumêncio. Ora, eram esses religiosos calcedonianos ou anticalcedonianos? O sr. Guidi, Dict. d'histoire, t. I, col. 212, por certas deduções, inclina-se a pensar que eram monofisitas. Mas essas deduções são hipotéticas e, portanto, contestáveis. A escolha extraordinária dos termos do cronista Kedusân romawiân é, a meu ver, com uma precisão voluntária e significativa, feita com o efeito de atestar sua ortodoxia católica. Com efeito, o cronista, segundo a tradição regional, chama-os romawiân em vez de suriân ou gebsâwiân, isto é, sírios ou coptas, denominações contudo bem mais conhecidas e familiares na Etiópia. A própria estranheza do termo desperta a atenção e estabelece uma distinção manifesta entre os roums ou gregos calcedonianos e os coptas e sírios hereges. Além disso, a expressão rci'i hayimanot, de onde vem o verbo causativo urtaii hayimanota, ou «ortodoxia», só bem mais tarde foi desviada de seu verdadeiro sentido para se entender apenas do cisma do Oriente; era então sinônima da fé católica.
E se ecos da agitação subversiva de Alexandria e dos mosteiros do Alto Egito tivessem tido uma repercussão perturbadora em Adúlis e em Aksum, os referidos romawiân vieram bem a propósito para firmar as almas na ortodoxia de são Frumêncio. O sentido óbvio e a escolha dos termos fazem, pois, saber que esses religiosos eram calcedonianos. Esses termos significam igualmente que vieram à Etiópia com missão patriarcal e por ordem ou autorização dos imperadores Marciano ou Leão, ambos defensores dos decretos do concílio, contra as oposições obstinadas dos suriân, discípulos de Barsumas, como dos gebsâwiân, partidários de Dióscoro em Alexandria. Admitindo-se a proveniência síria desses religiosos, a denominação romawiân será a do partido e provará a fortiori sua separação de seus congêneres. A Síria era então, como o Egito, o teatro de uma divisão em dois partidos contrários, alternadamente senhores, em Antioquia e em Alexandria, das sedes patriarcais, conforme os imperadores favorecessem ou combatessem os decretos do IV concílio. Os monges, longe de se expatriarem, travaram uma luta encarniçada na Síria durante toda a segunda metade do século v; e o banimento só começou para eles, após Severo, patriarca de Antioquia, sob a enérgica repressão do imperador Justino I (518-527).
O fanatismo dos hereges havia suscitado tal movimento nacional na Síria, que os monges católicos teriam antes buscado a salvação na emigração. Os nove monges romawiân poderiam assim ter sido despojos lançados nas margens de Adúlis pela proscrição de seus congêneres enfurecidos. Mas prefiro ater-me à solução baseada no sentido óbvio e natural do texto da crônica etíope: eram religiosos da Igreja romana ou bizantina, vindos com missão oficial ou confidencial em socorro da Igreja ainda sem experiência das cisões, das lutas e dos escândalos inevitáveis à obra evangélica; quer os patriarcas católicos, quer os imperadores fiéis a seu dever, terão prevenido o perigo que ameaçava a Etiópia. As relações estabelecidas entre as duas cortes de Bizâncio e de Aksum, como resulta dos termos da carta de Constâncio já citada, desde a conversão dos etíopes ao cristianismo, em vez de cessarem, só puderam crescer ainda mais pela razão de interesse dos dois impérios; pois, de um lado, a Etiópia precisava manter a amizade dos senhores do Egito e da Palestina, e, de outro, sua dominação sobre as costas meridionais da Arábia e sua rivalidade com o rei da Pérsia faziam do imperador de Aksum o aliado natural de Bizâncio.
Teremos, pois, uma confirmação oficial incontestável da preservação do monofisismo durante os séculos v e vi, apesar do contágio ameaçador vindo das margens do Egito e da Arábia; quero dizer o fato próximo do recurso ao imperador Justino I junto a Kaleb ou El-Esban, rei da Etiópia, discípulo de são Pantaléon, sobrevivente dos nove religiosos, a fim de instá-lo a socorrer os cristãos de Nagrân, perseguidos na Arábia. Carta de Simeão, bispo de Beth-Arsâni, em siríaco, em Assémani, Bibliotheca orientalis, t. I.
Justino I, com efeito, era o defensor declarado da Igreja católica contra os cismáticos que perturbavam a Igreja e o Estado em todo o Levante; e, em vez de se dirigir como a um irmão ao rei Kaleb, se este fosse herege, tê-lo-ia antes combatido por todos os meios em seu poder. A Igreja da Etiópia permaneceu, pois, incólume no início do século vi, e, segundo o testemunho de Cosmas Indicopleustes, que passou por Adúlis nos primeiros anos do reinado de Justino I, ela era florescente: «Havia, diz ele, igrejas, um grande número de sacerdotes e de cristãos em toda a Etiópia, em Aksum e nas regiões vizinhas.» (Opinio de mundo, p. 179; Cosmographia, III, 7; P. G., t. LXXXVIII, col. 169).
Ainda que se lamentassem os dissabores que entregavam a sede de Alexandria alternadamente aos partidos contrários que a disputavam, os etíopes não tiveram de romper com essa sede, visto que puderam ter seu metropolita ou catholicos vindo dos patriarcas católicos, quer estes ocupassem a sede, quer dela fossem expulsos pelos monofisitas nas horas intermitentes de suas vitórias. Cosmas, ibid., e em Renaudot, p. 118, atesta-o expressamente e chega a exagerar, tratando-os de nestorianos por serem dyofisitas. Alexandria só se tornou definitivamente o centro e o foco do monofisismo depois da conquista do Egito por Omar e depois do acordo firmado com o heresiarca Benjamim (643).
— 3º Kaleb ou El-Esban e o imperador Justino I. O nome de Al-Amêda, dado três vezes a príncipes que se sucederam no trono em intervalos próximos (cf. lista dinástica, Tarika-Nagast), foi tomado como denominação comum dos reis etíopes pelos historiadores bizantinos. Malala, que dele fez Anda, chama assim primeiro o vencedor da Arábia, a quem mais adiante nomeia El-Esboas. Esse El-Esboas ou El-Esban dos historiadores gregos é o rei Kaleb das crônicas etíopes.
As relações desse príncipe com a corte de Justino I e, a pedido de Justino, sua expedição ao Iêmen, Arábia meridional habitada pelos homeritas, para libertar os cristãos da cruel perseguição do rei Dimnus ou Dunawas, são fatos que estabelecem a concordância de fé da corte etíope com a de Bizâncio, no século vi. Não obstante, o veneno do erro havia se infiltrado inevitavelmente em seus Estados. Depois de sua campanha contra os persas, Kaleb enviou a Alexandria uma solene embaixada para fazer chegar ao imperador de Constantinopla o feliz sucesso de suas armas contra o opressor, a conquista da Arábia e o restabelecimento de uma paz assegurada aos cristãos. Mas, por outro lado, esse príncipe religioso, comovido com as perdas da fé e dos costumes cristãos, pedia um bispo e doutores que pudessem assinalar e estigmatizar o erro em seus Estados e restabelecer as verdadeiras crenças em sua pureza. Jean Malala, Chronogr., l. XVIII, P. G., t. XCVII, col. 641; Iohannès Madabar ou João de Nikiou, Crônica, texto etíope publicado e traduzido por H. Zotenberg, Paris, 1883, p. 392. Por causa da dificuldade e da lentidão das comunicações entre Bizâncio, o Egito e a Abissínia, os embaixadores só chegaram a Alexandria sob o reinado de Justiniano.
Licínio era então vice-rei no Egito, e Apolinário, patriarca católico, ocupava a sede de são Marcos. O dos jacobitas, Timóteo, embora protegido pela famosa imperatriz Teodora, havia sido forçado por Justiniano, ou a se submeter, ou a se exilar. Desde então, os patriarcas coptas mantiveram-se ocultos no mosteiro de Santo Macário, in valle Habib; e, diz Eutíquio, cathedra patriarchæ jacobitarum eo translata est usque ad mahumedanorum tempora. Em Renaudot, p. 133.
— 4º Novo envio de apóstolos por ordem de Justiniano (527-565). O fato, as circunstâncias e o resultado da embaixada etíope são para nós outras tantas novas provas manifestas da catolicidade perseverante da Etiópia. Os embaixadores eram dois parentes do rei Kaleb, com uma comitiva de duzentas pessoas. Malala, loc. cit. Dirigem-se a Alexandria, junto ao patriarca grego Apolinário e ao governador Licínio, e não junto ao patriarca jacobita em Santo Macário. Em resposta à mensagem, Justiniano deu ordem de escolher, em Alexandria, religiosos recomendáveis pela santidade de seus costumes e pela segurança de sua instrução.
A caravana apostólica dirigiu-se a Aksum, onde foi acolhida com alegria pelo imperador Gabra Maskal, filho e sucessor de El-Esbân, e por toda a corte e todo o povo. Cf. Vida de S. Pantaléon, por um bispo de Aksum, catálogo de Abbadie, n. 110. Entretanto, os jacobitas, sabendo da démarche dos embaixadores abissínios, haviam se mobilizado e solicitado a intervenção de Teodora, favorável aos monotelitas. Ela mandou enviar às pressas, pelo patriarca Timóteo, uma tropa de monges jacobitas para a capital de Aksum. Estes só chegaram algum tempo depois dos missionários calcedonianos. Gabra Maskal não os acolheu, apesar das recomendações da imperatriz Teodora, e eles tiveram de voltar para seu patriarca, em Santo Macário. Cf. ms. cristão antioqueno, de Mons. Graffin. Essa segunda expedição de Sadekân, missionários na Etiópia no decorrer do século vi, encontra confirmação num relato recentemente descoberto pelo sr. Conti Rossini. Guidi, Dict. d'histoire, t. I, col. 213.
— 5º Apogeu da prosperidade. Foi o apogeu e, infelizmente, logo o fim da prosperidade e da glória da Igreja da Etiópia. 1. A prosperidade se manifesta primeiro pela extensão: a conquista do Iêmen acrescenta como dependência de Aksum à Igreja toda a cristandade da Arábia meridional, e a dominação imperial sobre o mar Eritreu e sobre a margem africana habitada pelos redjas e pelos blêmias estendeu até nos desertos de Meroé os progressos do cristianismo entre as tribos nômades. Vansleb, Hist. eccl. Alex.
2. Nessa época, isto é, sob Kaleb e seu filho Gabra Maskal, remonta a aquisição de várias posições no Egito e na Palestina, onde, graças à benevolência de Justino e de Justiniano, foram fundados hospícios e conventos para os peregrinos e para os religiosos etíopes, que, em massa, iam ano após ano a Jerusalém. Aliás, primitivamente, diz o historiador armênio Abusalah, esses conventos e essas igrejas eram ocupados por nestorianos, epíteto injurioso que os jacobitas infligiam aos dyofisitas ou calcedonianos, e que o armênio toma ao pé da letra, como que para relembrar uma lembrança gloriosa à sua seita. Kaleb, em reconhecimento à proteção divina em suas felizes guerras na Arábia, teria feito doação de sua coroa imperial ao Santo Sepulcro. Gabra Maskal foi ali representado por um de seus filhos, que viveu como anacoreta numa laura e cuja santa memória é venerada numa igreja que traz seu nome, abba Moussié, perto de Nablus.
3. A vitalidade da Igreja da Etiópia manifesta-se pela expansão do monaquismo anacorético no Tigré e além, nas ásperas solidões. Nascido dos primeiros eremitas sob Al-Amêda, esse modo de vida religiosa teve grande impulso, como na Tebaida. Gabra Maskal fundou no pico abrupto de Damo o primeiro mosteiro conhecido sob esse nome de Dabra Damo (Tigré), sob a regra do abba Aragawi, um dos nove primeiros Sadekân romawiân.
4. Como Carlos Magno, esse príncipe Gabra Maskal incentivou as escolas eclesiásticas e favoreceu a introdução do canto litúrgico por Yared, discípulo de são Pantaléon. A esse discípulo mestre remontam as três modulações, tipos sobre os quais são modelados todos os neumas e as frases musicais; atribui-se-lhe também a composição do Degwa, antifonário, coletânea de textos tirados da sagrada Escritura e adaptados às festas e aos períodos cultuais do ciclo eclesiástico, e hinos especiais devidos à sua piedade. O uso que aí se faz da Bíblia atesta que a versão em língua gueês já havia precedido. São Frumêncio deve ter-se preocupado com isso, e sobretudo os nove religiosos vindos em seguida, como mestres instrutores, e os discípulos que formaram nesses estudos. Note-se, a esse respeito, que a antiga tradução em gueês do Novo Testamento parece feita sobre o texto grego em uso na Ásia Menor.
III. Depois das conquistas do islã na Síria e no Egito, agonia da Igreja da Etiópia (séculos vii-xi). 1º Contragolpe da ruína da Igreja católica de Alexandria. Pela conquista de Omar ebn Élass (634-644), foi feito do catolicismo no Egito. Com as tropas bizantinas escapadas do massacre, por ocasião da tomada de Alexandria, o patriarca católico Cirus e sua comitiva precipitaram-se sobre as galeras do porto e refugiaram-se em Constantinopla. O patriarca herético Benjamim, exilado desde havia doze anos sob o reinado de Heráclio, saiu do convento de Santo Macário, graças a um pacto de submissão e conivência que consentiu com Omar, o representante do califa (640). Foi então a proibição, aos coptas, de qualquer relação com Constantinopla e Roma, e, aos abissínios, a proibição de eleger como bispo qualquer membro de seu próprio clero, ou de acolher outro que não viesse das mãos do patriarca, transferido de Alexandria para o Cairo, a fim de acabar com todas as lembranças ligadas à sé de são Marcos. Foi, portanto, doravante o triunfo do cisma na Etiópia, como no Egito.
Contudo, mesmo depois da ruína da Igreja de Alexandria e da do império bizantino no Egito, a Igreja da Etiópia ainda resistiu, ao menos parcialmente, durante quase três séculos, às heresias que continuaram a infestar todas as demais Igrejas do Oriente. Durante as persistentes querelas do monofisismo, do monotelismo e da teandria, que dilaceraram a Igreja oriental, o eco das dissensões teológicas quase não teve repercussão na Etiópia. Não foi para ela senão um rumor distante. De fato, ela ficou completamente isolada em seu isolamento e deixou desde então de figurar entre os grandes Estados do resto do mundo; uma barreira de ferro, o império muçulmano, a manteve desesperadamente separada.
— 2º Sua resistência ao cisma. Embora oficialmente presa à sé cismática do Cairo e forçosamente subordinada à Igreja copta ou jacobita pelo fato da proveniência de seu bispo, a Igreja da Etiópia, sob o jugo duplamente opressor do cisma e do islamismo conjurados, entrincheirar-se-á numa independência indomável do ponto de vista doutrinal. Ficou de tradição nos conventos e nas universidades... V.: [gr] em relação a todos, não quis reconhecer nenhuma autoridade doutrinal aos abunas ou bispos egípcios. Muitas vezes, até, sua ignorância os tornou desprezíveis aos olhos dos letrados; estes não veem neles senão ministros impostos fatalmente pela Igreja-mãe de Alexandria para abençoar, consagrar e dar ministros ao culto divino; mas nem sua autoridade nem sua ciência têm o que intervir nas crenças nacionais; quando se invocar seu prestígio junto à multidão, será apenas como reforço às decisões da escola. Os doutores Mamherân, likant das grandes escolas da Etiópia, serão seus guardiões tradicionais. Assim, mantendo com o patriarca do Cairo relações oficiais, necessitadas por sua organização defeituosa, a Igreja da Etiópia permanecerá por muito tempo ainda doutrinariamente separada da Igreja copta e intimamente ligada à fé católica.
Embora não tenhamos outros documentos históricos além de certas menções feitas passim na história dos patriarcas coptas, alguns indícios deixam bem ver que, à parte os membros do clero que frequentavam assiduamente o círculo do abuna, isto é, os cortesãos aduladores, parasitas ou ambiciosos, não se dava flanco às insinuações. O erro não transpunha visivelmente o recinto do palácio episcopal.
— 3º Seu abandono; séculos de viuvez. Aliás, sob as vergastadas dos califas, os patriarcas não tinham o ócio de se ocupar de questões especulativas; não tinham sequer a liberdade nem a facilidade de prover às vacâncias da sé de Aksum. Interstícios seculares, por exemplo, do patriarca Simeão ao patriarca Yusab (700-820), levaram os etíopes a administrar eles mesmos sua Igreja. Só a escassez de sacerdotes tornava necessária a vinda de um bispo. E ainda assim, apesar dessa necessidade, acontecia aos abunas mercenários sentirem que só eram admitidos a contragosto. Por volta de 820, o abuna Johanès, enviado pelo patriarca Yusab ou José, teve essa experiência. Quando chegou a Aksum, o imperador estava ausente, partido numa expedição distante. Um levante geral, aliás favorecido pela rainha regente, opôs-se ao recebimento do abuna.
Esse fato, acrescenta o historiador Renaudot, prova que os etíopes ainda se mantinham fora da comunhão da sé de Alexandria, Æthiopes a communione sedis Alexandriæ alienas, p. 283. Mais um segundo século (830-920) sem pastor, de Cosmas ao Cairo! Por isso, sob o patriarcado (930), foi um acontecimento extraordinário, tão nova, inaudita e incomum foi a coisa aos olhos da multidão, ver chegar uma embaixada etíope enviada pelo rei Del Na'âd para obter um metropolita. O patriarca escolheu um religioso que tomou o nome de abuna Pétros. Apesar do alegre acolhimento de um povo encantado por ver enfim um pastor, e apesar do triunfo e dos favores que puseram a seus pés toda a corte real, ou antes, por causa da própria influência de que se viu honrado e que o levou a se imiscuir em graves questões políticas, seu episcopado foi perturbado por intrigas vingativas. Conheceu até as humilhações da degradação e morreu no exílio. A sé pontifícia ficou à mercê de intrusos sem missão; seguiu-se um novo e longo interregno, pois cinco patriarcas se sucederam no Cairo sem que um bispo fosse dado à Igreja desolada.
— 4º Transtorno da Igreja e do Estado. Aliás, por volta do ano 920, sobreveio na Etiópia uma revolução desastrosa sob o audacioso arrastamento de uma mulher oriunda das tribos judias do Sêmen, Terda'abaz ou Gudit (Judite), apelidada «Esât', ou o fogo incendiário», porque pôs tudo a ferro e fogo. Derrubou a dinastia, da qual um único sobrevivente conseguiu escapar e se refugiou no Choa. Esse afastamento distante o preservou do cataclismo. As tropas revolucionárias saquearam a cidade de Aksum e o templo santo. As lendas populares conservaram a lembrança dos horrores cometidos por essa mulher cruel. O flagelo durou o que duram as violências extremas; semeada a ruína, desapareceu. O período de tumultos e de guerra intestina que se seguiu, entre o judaísmo senhor do trono e o cristianismo em desalento, durou até por volta do ano 960.
Um príncipe da província de Baguenâ (Lastâ setentrional) pôs-se à frente de um movimento nacional e cristão para sacudir esse jugo humilhante. Vencedor, foi reconhecido imperador e tornou-se o tronco de uma nova dinastia, dita dos Zaguês, que ocupou o trono por quase três séculos (960-1268). Mas sua capital permaneceu estabelecida no domínio senhorial dos Zaguês, do Lastâ.
IV. Sob A DINASTIA. 1º Recuperação — laboriosa; traições episcopais em favor do islã. Sob o patriarca Filoteu (981-1002), o novo rei da Etiópia dirigiu a Jorge, rei da Núbia, cartas urgentes, rogando-lhe que intercedesse junto ao patriarca em favor da Igreja da Etiópia arruinada por uma mulher ímpia e cruel, flagelo da justiça de Deus, dizia ele, em castigo dos maus-tratos com que o rei precedente havia acabrunhado o metropolita, o abuna Pétros. Jorge, com efeito, empenhou-se em favor de seu amigo junto ao patriarca Filoteu. Um certo Daniel foi concedido como metropolita na Abissínia, onde foi acolhido com toda a pressa e o júbilo das populações e da corte real. Foi o fim das calamidades públicas causadas pela tirania da mulher incendiária Terda Gabâz. Renaudot, p. 382. E a própria Etiópia tornou-se então, sob o 61º patriarca (1002-1032), o refúgio de massas de cristãos perseguidos no Egito pelo califa Hakim. Ibid., p. 392. Tal foi o terror que o patriarca seguinte, Cristódulo (1047-1078), não ousou responder às instâncias do rei da Abissínia, que reclamava um novo bispo. Um certo Abdun partiu secretamente sob o hábito de um simples monge e tomou na Etiópia o nome de abuna Kuril ou Kerlos.
Mas sua partida foi denunciada ao vizir, que dirigiu ameaçadoras reprimendas ao patriarca. Cristódulo defendeu-se, negando que tivesse alguma responsabilidade nisso. Contudo, quando soube do êxito do estratagema, enviou Mercúrio, bispo de Wisen, com cartas credenciais para conferir a Daniel a investidura oficial. Não se pôde saber se esse abuna aventureiro chegou algum dia a ser revestido do caráter episcopal ou mesmo sacerdotal, ou se foi puro simulacro. Renaudot, p. 444. Que estado miserável, o de uma Igreja de tal importância, tratada como um brinquedo pelo pastor supremo, ele mesmo entregue aos caprichos da autoridade muçulmana! Ela permanece vítima de uma vergonhosa covardia sacrílega e de disfarces, à mercê das ambições e das astúcias culpadas de que se abusava de sua boa-fé. Que podia sobreviver aí das leis divinas e da disciplina eclesiástica, dos costumes e das observâncias cristãs? Os santuários devastados, abandonados ou profanados! Que clero, se é que ainda restavam sobreviventes! O sucessor de Cristódulo, o abba Cirilo (1072-1092), empreendeu reparar tantas ruínas. Remediou primeiro a situação anormal criada por seu predecessor, isto é, a ocupação da sede do catholicos pelo falso titular Kuril.
Com o consentimento indispensável e até por recomendação do vizir Badr al-Gamal, em favor de um religioso chamado Severo, o patriarca fixou nele sua escolha. O eleito era ainda jovem, bastante instruído e formado no rigor monástico; mas havia disputado essa nomeação por promessas simoníacas e traiçoeiros compromissos de favorecer a construção de mesquitas na Abissínia. O falso metropolita Kuril, preso em fuga, sofreu no Cairo a pena capital. Severo tentou reformar os costumes e atacou sobretudo a poligamia, chaga inveterada da corte e das grandes casas. Seus esforços fracassaram diante da resistência geral, apesar da intervenção do próprio patriarca por meio de um mandamento especial. O único resultado foi a sanção coercitiva que consiste na proibição da comunhão eucarística aos polígamos. Era preciso defendê-la, ou, se era preciso, que restava então de senso moral? Vê-se por aí quão aviltadas estavam as almas, quão manchadas as consciências, quão rebaixada e aviltada a religião! Sua coragem custou ao abuna Severo a desgraça na corte; teve de resignar-se à tolerância, como todos os outros depois dele. Mas prevaricou em seu dever, favorecendo, como havia prometido ao vizir, seu protetor, a construção de várias mesquitas na terra tida como o Dízimo de Cristo. Suscitou a cólera do povo, que derrubou todos esses edifícios sub-repticiamente erguidos, e ele o teria pago com a cabeça, se a condenação não tivesse sido comutada por causa de seu caráter sagrado. Foi banido. Renaudot, p. 453-463.
2º Diversão — e trégua causadas pela entrada dos francos em Jerusalém. Esses entraves à infiltração do islamismo provocaram iras no Cairo, e, não fosse a diversão produzida pela notícia da tomada de Jerusalém pelos cruzados, as hostilidades se teriam envenenado. Mas os muçulmanos avisados pouparam os coptas no Egito e na Abissínia, com medo de que entrassem em conivência com os francos vitoriosos.
Aliás, os cismáticos, longe de se alegrarem com esse triunfo das armas cristãs, que para eles era a aurora da libertação do jugo dos sarracenos, ficaram desolados com isso. Seu ódio sectário preferia a servidão dura e humilhante do islã a uma liberdade da qual seriam devedores à generosidade dos católicos do Ocidente. Renaudot, p. 471. Por isso, o vizir Afdal mostrou-se solícito em favorecer, junto ao patriarca Miguel (1093-1102), a nomeação de um novo metropolita para a Abissínia, — o abuna Giorgis.
3º Escândalos dos abunas. Mas o triste abuna iria, depois dos excessos de diversas ordens de seus predecessores, tão nefastos à Igreja da Etiópia, oferecer o espetáculo da vida mais vergonhosa por seus costumes dissolutos. Sua imoralidade logo suscitou a indignação geral; pois, se o povo abissínio havia, em proveito de seus próprios instintos, legalizado a impudicícia, o que lhe restava de senso religioso não concedia ao monge, nem sobretudo ao bispo, o direito à impudicícia. À luxúria juntara-se a cúpida avareza, e ele amontoou rapidamente riquezas escandalosamente adquiridas sobre as paróquias espoliadas. Esse espírito e essa prática de espoliação e de comércio permaneceram nos hábitos de todos os abunas, até os nossos dias. Cf. Au pays de Ménélik, nas Missions catholiques, 1896-1897. A má conduta e a sórdida paixão pelo lucro de Giorgis causaram tamanho escândalo que o imperador, humilhado por sua deferência religiosa para com personagem tão indigno, teve de se resolver a mandá-lo prender e reconduzir ao Egito.
4º Tentativas de independência — constitucional da Igreja da Etiópia. Sob o reinado de Sinudâ no Lastâ e sob o patriarcado de Gabriel (1131-1136), teve lugar uma tentativa da Igreja etíope que tem, na sua história, uma grande e significativa importância, para obter sua constituição hierárquica normal, conforme ao direito comum de todas as Igrejas, e deixar de estar condenada à servidão humilhante que constatamos ser tão desastrosa para os interesses da religião na Etiópia. Apoiado nos cânones sinodais, o conselho da corte imperial, composto sobretudo pelos Mamherân e pelos Likâwunt da universidade, tomou uma resolução radical, que pareceu uma inovação à massa ignorante, mas que não era senão a reivindicação de um direito antigo, legítimo, de poder recrutar seus pastores no clero nacional. A inspiração de um conselho tão antitradicional e audacioso vinha sem dúvida de Jerusalém, por algum religioso que tivera contato com os da Igreja católica. Era necessário, para isso, obter um colégio de bispos exigido pelos cânones para a consagração episcopal de um prelado e para a provisão das sés vacantes. O número exigido era de sete, segundo o pseudo-concílio de Niceia arábico.
Uma embaixada foi delegada do Lastâ ao Cairo para obter a criação desse colégio episcopal. Mas, nessas instâncias demasiado legitimadas pelas desgraças dos tempos e pelos prejuízos que causavam à Etiópia, o patriarca Miguel não viu senão uma tentativa de autonomia ou um artifício de rebelião para se subtrair à sua dominação e retomar sua independência. O califa também havia recebido cartas do imperador Sinudâ, pedindo-lhe que apoiasse sua petição junto ao patriarca. Ele efetivamente se prestou a isso; mas Miguel lhe fez ver que a diminuição de sua própria autoridade seria também a ruína da influência preponderante do califado sobre essas regiões meridionais. O sarraceno não pôde senão render-se a essa razão política. A petição foi rejeitada e o rei da Etiópia foi exortado a desistir de um projeto irrealizável. Foi preciso contentar-se ainda com um único metropolita, o abuna Micael, anteriormente Habib. Os períodos episcopais sucedem-se como contos romanescos de aventuras imaginárias e, no entanto, vividas, em torno da sé metropolitana. E a continuação promete ser ainda longa, indefinidamente. Resta-nos narrar aquele que precedeu a queda dos Zaguês e a restauração da antiga dinastia de Aksum.
5º Ingerência — política. Tráfico sacrílego das ordenações. O patriarca Johanès (1147-1164) e o vizir Hali, filho de Selar, receberam de Sinudâ, rei da Abissínia, mensagens respectivas tendo por objeto o pedido de um coadjutor para o abuna Micael, envelhecido. Parece que essa démarche tinha por móvel menos a morte eventual do prelado do que suas injuriosas acusações a respeito do soberano. Ele o havia tratado de usurpador, de intruso, de rei ilegítimo. Esse detalhe é um marco na história da coroa da Etiópia. Um despertar, um movimento se operava na opinião pública em favor da antiga dinastia. Os Choans, que eram os seus guardiões, trabalhavam por sua restauração. As censuras do abuna provam que ele estava ganho para a causa de a Casa antiga, e é preciso que ela tivesse conquistado um grande terreno na opinião pública para que ele não temesse tratar de usurpador o príncipe reinante, embora a sucessão duas vezes secular (960-1160) de sua família no trono lhe assegurasse a legítima posse. O patriarca, avisado pelos enviados de Micael, não se prestou ao desejo do monarca Zaguê, e recusou a nomeação de outro bispo, apesar das instâncias do vizir Hali. Foi preciso esperar a morte do titular.
Então uma nova delegação chegou do Lastâ. O estado da Igreja copta era tão miserável, por volta do fim do século XII, que, entre todos os conventos do Egito desertados pelas vocações religiosas, não se encontrou, apesar de todas as buscas, durante três meses, um único candidato para a metrópole da Etiópia. Em sua desolação diante da recusa ou da escassez do patriarcado, os embaixadores abissínios recorreram ao sultão, pedindo-lhe que intervisse para a obtenção de um bispo. À falta de monges, o abba Johanès (1189-1216) decidiu-se a conceder o bispo de Fua, abba Kilos. Este mal fazia quatro anos que estava na Etiópia quando se o viu voltar ao Cairo. O abuna se havia deixado despojar por um ambicioso, chamado Gédrona, irmão da rainha. Sob a pressão desta, Kilos havia dado a esse monge intrigante a consagração episcopal contra todas as regras canônicas e o havia posto à frente da Igreja da capital. Gédrona usurpou logo todos os atributos do «catholicos»; graças à sua prestigiosa influência de cunhado do rei, atraiu para si todos os negócios eclesiásticos, sem mais permitir a ninguém dirigir-se ou apelar ao abuna Kilos.
Nesse estado de rebaixamento, a própria sombra de Kilos inquietava o usurpador; ele subornou emissários noturnos para atentar contra sua vida. Kilos não encontrou salvação senão na fuga. Ao relato de tais desventuras, o patriarca não se sentiu com força para lhe censurar sua vergonhosa e sacrílega felonia, a ponto de conferir a consagração episcopal contra todas as leis e os ritos da Igreja, despachou um sacerdote chamado Moisés para denunciar à corte a intrusão sub-reptícia e sacrílega do ambicioso Gédrona. Enquanto Moisés tratava disso na corte real, Gédrona veio a morrer. Sua missão não tendo mais objeto, ele se despediu da corte e voltou para prestar contas dos acontecimentos. O imperador o fez acompanhar de uma deputação encarregada de apresentar as explicações e as desculpas que lhe conciliassem as disposições do patriarca. Os mais ricos presentes facilitavam essa démarche, uma coroa de ouro oferecida ao patriarca, e diversos presentes igualmente preciosos, animais raros, elefantes, leões, girafas e zebras, destinados ao sultão. Os embaixadores obtiveram razão contra o infeliz Kilos, e, em seu lugar, um monge de Santo Antônio, abba Isaac, foi sagrado catholicos da Etiópia (1209-1210). Renaudot, p. 480-550.
— 6º Reinado de Lalibala. Lalibala havia sucedido a seu pai Sinudâ ou Djân-Siyum, no trono da Etiópia. Seu nome escapou ao esquecimento pretendido pelos cronistas sobre a dinastia Zaguê; ele ficou ligado pela veneração nacional ao grupo de monumentos que se admira no planalto de Adafa, sua capital. Pelo cuidado piedoso desse príncipe, onze igrejas monolíticas foram talhadas, escavadas na rocha por quatrocentos a quinhentos operários egípcios que ele escolhera dentre a multidão de emigrados expulsos de seus lares pela perseguição dos muçulmanos. O negus Lalibala fez ao mosteiro, que compreende dentro de seu recinto todos esses santuários, a doação de todos os domínios circundantes, doação respeitada até hoje. A devoção popular fez disso uma peregrinação igual à do Santo Sepulcro em Jerusalém, pela infalível garantia do paraíso. Ato de doação, em Raffray, Voyage en Abyssinie et description avec plans des sanctuaires, p. 24.
Por causa das perseguições dos sarracenos no Egito, a sé patriarcal permaneceu vacante durante vinte anos (1216-1236). Esse período foi marcado por um movimento de retorno das Igrejas da Palestina e mesmo do Egito à comunhão católica. Em 1237, o patriarca jacobita de Jerusalém fazia sua abjuração nas mãos do P. Filipe, dos frades pregadores, e escrevia a Gregório IX: «Enviamos alguns de nossos irmãos ao patriarca copta, abba Kerlos, no Egito... e esse patriarca nos manifestou também o desejo de voltar à unidade católica.» Macaire, Histoire d'Alexandrie, p. 300. Era o efeito de um abalo produzido pelas cruzadas. Sem dúvida, teve repercussão na Abissínia; veremos disso um efeito no recurso da Igreja etíope junto ao patriarca de Jerusalém para obter um bispo sírio, durante a aflição dos coptas. Ver mais adiante.
V. SOB A RESTAURAÇÃO — DINÁSTICA NOVA FASE RELIGIOSA. Uma grande revolução trouxe de volta a antiga dinastia ao trono imperial, por volta de 1268. A Igreja da Etiópia viu ali desabrochar uma era nova 1º por uma constituição e uma organização que respondeu às necessidades da condição anormal e prejudicial sob o vassalagem do Cairo; 2º por um renovo de vitalidade em si mesma e de expansão fecunda ao seu redor, nas regiões mais excêntricas do império. O nome que domina esse ponto de virada da história da Etiópia é o de um monge, Takla-Haymanot, venerado como um fenômeno de mortificação ainda mais cruelmente industrioso em crucificar a carne e, portanto, como um poderoso em suas palavras e suas obras.
A precocidade de seus gostos pelas coisas religiosas fez com que fosse admitido, desde a adolescência, pelo abuna Kerlos, na clericatura e mesmo no diaconato. O prestígio de sua santidade lhe deu tal ascendência sobre as multidões que ele converteu rapidamente ao cristianismo as regiões ainda pagãs às margens do rio Abây e de seus afluentes, no Choa e no Dâmot. Mas o sucesso de sua influência prestigiosa que ilustrou seu nome foi a restauração dinástica e a situação que daí resultou para a Igreja da Etiópia.
— 1º Nova constituição orgânica da Igreja. 1. Foi primeiro um pacto pelo qual o rei reintegrado ao trono, Ikouno-Amlak, consente a cessão do terço do território do império à gente de igreja, sob a alta tutela de Takla-Haymanot, e depois dele, sob a tutela de seus sucessores no cargo de abade geral de sua ordem. Segue-se que o terço de cada território comunal cabe à paróquia. Esse artigo, aquiescido pelo rei ao monge ditador, revela evidentemente os móveis de uma ambição interessada e de uma venalidade sem exemplo, — exorbitante, desonrosa para o monaquismo. 2. Como resultante desse acordo, seguiu-se a criação de um ministro geral dos bens e, por conseguinte, senhor das dignidades eclesiásticas, cargo que pertenceria de direito a Takla-Haymanot e a seus sucessores.
Após sua morte, os restos do poderoso abade foram transportados por seus discípulos para as estepes desertas a oeste do Choa, e sobre sua sepultura foram fundados um imponente santuário e um convento para ali conservar o culto de sua memória. Chamaram-no Dabra-Libanos, «Monte Líbano». Sua comunidade se estabeleceu nesse mosteiro, e ele será a casa central da ordem disseminada. Os abades de Dabra-Libanos são, portanto, de direito, os titulares do alto cargo eclesiástico, isto é, de chefe supremo de todas as ordens religiosas, o que põe em suas mãos todos os poderes administrativos e judiciários de a Igreja da Etiópia. Compreende-se, assim, que os reis se interessem muito por sua eleição e exerçam uma pressão para que saia eleito um homem de sua escolha. O eleito tomará o título de Echegué, junto ao atsé, assistindo-o no trono. Esse cargo é um corretivo à irregularidade e um suplemento à falta da constituição fundamental da Igreja da Etiópia. As vacâncias desmesuradamente prolongadas da sé episcopal haviam tornado necessário esse meio-termo na administração eclesiástica; mas doravante será uma instituição firme, oficial, mesmo na presença do bispo.
É um poder colateral ao poder episcopal, e efetivamente mais real, diminuindo o outro até não lhe deixar senão a supremacia de honra. Tudo na Igreja conta com ele, pois sua supremacia jurisdicional se estende sobre os mosteiros e as paróquias e ali se faz reconhecer ao menos pela cobrança de um dízimo de todos os benefícios.
— 2º Vitalidade e fecundidade. — 1. Crescimento e enxameação dos conventos. Independentemente dessa atribuição já desproporcionada, a devoção generosa ou vaidosa dos príncipes dotou ainda os mosteiros ou os santuários que preferia, com feudos e benefícios que puseram nas mãos dos monges as melhores terras, os oásis formados pelas fontes, isto é, a riqueza fundiária do país. Os conventuais exploram eles mesmos, ou então arrendam os vastos campos de que são senhores. Esses privilégios e as vantagens que daí resultam em favor do clero foram, compreende-se, fecundos geradores de vocações nas duas ordens eclesiásticas, a monacal e a levítica. Dabra-Libanos tornou-se um verdadeiro formigueiro de religiosos que, logo, se contaram por centenas e por milhares. Dessa colmeia partiram enxames tão numerosos que tomaram as proporções de um acontecimento histórico, consignado em detalhe nas crônicas imperiais (Tarika-Nagast, Ikouno Amlak).
Dispersaram-se em todas as direções em busca de solidões nas províncias mais afastadas do centro, seja para o norte, nos confins do Tigré, seja para o oriente e o sul, além do Choa. E por toda parte, a presença dessas plêiades continuava a evangelização dessas regiões, onde ainda se contavam muitos pagãos e onde ainda restam até hoje. Takla-Haymanot teve discípulos e êmulos cujos nomes têm também sua celebridade nos fastos da Igreja etíope: Eustácio de Allélô e seu discípulo Filipe de Da'ura-Bisân; Libanos, que teria vindo da Itália, fez colmeia no planalto de Bur (Tigré), e Lalibala lhe dedicou uma de suas capelas monolíticas; esse fato lhe assegura uma anterioridade secular ; Mercúrios, cujo nome permaneceu ligado ao mosteiro que fundou no Sérawé; Gabra-Manfas-Kedus, lendário sobretudo no Choa, sob o apelido venerado de Abbo, sem que se saiba nada de sua vida religiosa, etc.
— 2. Despertar da fé e renascença escolástica. No abandono em que jazia o cristianismo, durante os seis últimos séculos, o povo, rotineiramente apegado ao ensino tradicional, sem convicção pessoal esclarecida, apoiava-se unicamente nos Mamherân e nos Likâwent das escolas fundadas pelos Sadekan-romawan já em exercício fecundo sob Gabra Maskal.
O período sem trégua e sem fim dos sofrimentos internos não deixou lazer para as querelas doutrinais. Os abunas jacobitas haviam estado, aliás, demasiado ocupados para abrir debates teológicos. Os letrados permaneciam de posse das verdades ancestrais recolhidas da boca de seus mestres, de século em século, até a atual renascença po-lítica e religiosa. Essa herança escolar e tradicional é ainda sagrada entre os iniciados universitários. O século XIII viu operar-se uma reforma nos conventos coptas no Egito, e uma elite de eruditos ali fez reflorescer os estudos eclesiásticos, a teologia, o direito canônico, a liturgia, a hagiografia, etc. Essa corrente se estendeu do Alto Egito à Etiópia, imprimiu um impulso desconhecido à vida estudiosa e à literatura sagrada, pela tradução em gueês de diversas obras árabes, tratados homiléticos e dogmáticos dos Padres, decretos e interpretações dos concílios, e sobretudo a correção do Novo Testamento. Dessa emulação escolástica nasceram os debates teológicos que tomarão cada vez mais extensão até degenerar em discussões que agitarão e perturbarão tanto o reino quanto a Igreja da Etiópia.
3º Tentativa de romper a barreira copta e de se ligar com a Igreja católica: missão dos frades pregadores. — A revelação de um acontecimento tirado da poeira do esquecimento e do silêncio de que as crônicas etíopes são costumeiras nos assinala uma causa — a mais poderosa, embora até aqui insuspeitada — da agitação dos espíritos sob o novo regime inaugurado por Ikouno-Amlâk, o grande monge reformador. Na aflição dos coptas sob os excessos das malversações muçulmanas e, por outro lado, graças aos confortos da estada e dos benefícios de São Luís na Palestina, a Abissínia, isto é, o rei e seu tutor, preteridos pelas recusas de Bibars no Cairo, recorreram a Jerusalém. O patriarca estava reconciliado com a Igreja romana (ver mais acima); ele enviou um bispo sírio, abba Yub (Jó), à Etiópia. Sua estada permaneceu memorável no Tigré. Vasos sagrados que lhe pertenceram encontram-se em Dabra-Damo. Ele foi seguido por um grupo de frades pregadores que se estabeleceram não longe do convento de Dabra-Damo, no planalto de Gola-Makâdâ. O sincronismo é indubitável.
Segundo uma carta de Yagbâ-Sion, filho e sucessor de Ikouno-Amlâk, endereçada ao patriarca do Cairo, a estada do abuna sírio na Abissínia ocorreu por volta do fim do reinado de seu pai (1268-1283); e a missão dominicana remonta à mesma época (fim do século XIII). Ora, segundo as censuras que Yagbâ-Sion faz à política de seu pai, o abuna Yub foi enviado a pedido dele, e, concomitantemente, a expedição dominicana. Além disso, Yagba-Sion deplora os atos do abuna sírio, porque este não era partidário dos jacobitas. Todo um mistério histórico emerge de palavras reveladoras. Uma tentativa desse retorno da Igreja da Etiópia sob Ikouno-Amlâk é oficialmente denunciada por seu filho e sucessor junto ao patriarcado copta e ao califado do Cairo. Esse príncipe faz disso vergonhosamente reparação pública e toma o contrapé da política de seu pai, a quem acusa de ter sido fautor de dissensões ruinosas para a crença de Alexandria por seu recurso a um patriarca calcedônio, e perseguidor dos muçulmanos por represálias contra os que traficavam escravos na Abissínia e pela caça contra os beduínos das tribos adalitas. Makrizy, Kebabel selah, t. I, mss árabes de Paris, p. 372-373; vida de Kalaoun, mss de Saint-Germain de Paris, 118.
Os missionários haviam obtido grandes êxitos junto aos príncipes e a seus vassalos em toda a região que era então domínio da casa real, como atesta seu nome Gola-Makâdâ: «terra dos cativos». Mas isso foi efêmero. Os fatos correspondem às palavras de Yagbâ-Sion; seu reinado foi um reinado de traição contra o Estado diante do islamismo e de perseguição contra a Igreja. Ele começou por expulsar o abuna Yub, e os fiéis católicos, na esteira dos missionários dominicanos, sofreram uma cruel perseguição cuja memória é conservada pelos ossos dos mártires em vários santuários de Gier'âlta, Akrân, Tasné, Baraknéâ, vizinhos da residência dos padres dominicanos em Néëbi (Fak'âda), onde foram massacrados. Ant. d'Abbadie, Annales dominicaines et tradition locale.
4º Reação e emulação no ensino e nas observâncias cultuais. Fariseísmo e imoralidade. — Uma reação religiosa era inevitável; o patriarca copta vingou-se. Um monge notável por sua erudição e seu espírito combativo, o abuna Salâma II, foi concedido a Yagba-Sion, como metropolita (fim do século XIII). Ele empenhou-se por todos os meios para reforçar a crença dos jacobitas e, graças a esse zelo, a Igreja da Etiópia lhe deve o soerguimento dos estudos e o ânimo dos trabalhos de onde saiu a biblioteca de sua literatura sagrada. Guidi, Dict. d'histoire, t. I, col. 224. Uma nova tentativa de um dos sucessores de Yagbâ-Sion, Wedem-Ra'âd, por meio de uma embaixada junto ao papa Clemente V, em Avinhão, por volta de 1310, mal merece menção, como indício do sofrimento imanente da Igreja da Etiópia, sequestrada num círculo de ferro pelo cisma dos coptas e pelo ódio dos sarracenos.
À emulação dos estudos eclesiásticos correspondeu uma intensidade de vida religiosa que se manifestou por reformas de caráter fariseu e de um estreito rigorismo conventual, que do recinto monacal se estendeu e penetrou nos costumes da sociedade civil, já desde o século XIV. O monaquismo imprimiu seu selo sobre a vida secular e, sob o pretexto de perfeição evangélica, apertou-a no círculo estreito de obrigações rituais, em detrimento dos mais estritos e essenciais deveres da moral. Orgulhoso de sua religiosidade, o cristão da Etiópia, escravo de uma multidão de observâncias exteriores herdadas do judaísmo e ultrapassadas, e de práticas de base cristã mas acessórias e até supersticiosas, será sem escrúpulo algum a respeito dos preceitos mais graves da lei divina. Piolet, Missions catholiques, Abyssinie, por Coulbeaux, t. I, p. 4 sq. O formalismo suplantou o culto em espírito e em verdade. A costumeira facilidade dos costumes licenciosos da corte da Etiópia é um fato histórico, a tal ponto que, no espírito do povo, ela é um direito ligado à alta fortuna dos príncipes e dos grandes. A poligamia e o divórcio forçaram a barreira das leis divinas e são correntemente admitidos como usos necessários, fundados nas necessidades e nas fraquezas da natureza.
Por isso, nenhum dos doutores, dos capelães, dos religiosos que apinham os palácios e os acampamentos terá sequer a ideia de condená-los em nome da moral cristã. A fornicação e mesmo o adultério encontram junto a eles desculpas e acomodações. Nada parece excessivo dentro desses limites tidos por legais. Só o incesto é reprovado, e nem sequer em nenhum outro lugar a lei dos impedimentos de consanguinidade e de afinidade até o sétimo grau é de um rigor mais intransigente do que na Abissínia. Não foi preciso menos que tal excesso para que um monge de Dabra-Libanos, abba Anorios, se erguesse como um novo Natã contra o rei Amda-Sion, nos primeiros anos de seu reinado (1312-1342). Mas o homem de Deus não encontrou outro Davi. Amda-Sion, sob o jugo da paixão, não o escutou. O abade não viu outro remédio senão a excomunhão. Isso era pôr o imperador ao banimento do império. Exasperado, o rei dissimulou sua cólera e pareceu ceder. Vingou-se logo a propósito de uma questiúncula cultual: a legalidade ou a ilegalidade da observância do sábado judaico. Anorios, com todos os religiosos de Dabra-Libanos, sustentava a abrogação do sábado, e o partido de outro monge igualmente influente, o abba Eustácio, discípulo do fundador do mesmo nome, pretendia que o cristão não abolia o sábado de Moisés.
Amda-Sion tomou partido e causa contra Anorios, e tinha jogo fácil, seguro que estava de defender a tradição enraizada no espírito e na religião do povo contra protestos motivados que pareciam ser uma inovação. O abba Anorios foi condenado à flagelação, e um edito de proscrição baniu e dispersou a ordem de Dabra-Libanos. O abade geral, o superior Filipos, foi relegado à fortaleza de Ambâ-Géchèn. Os monges de Eustácio, que essa vitória litúrgica e o castigo dos adversários elevavam ao pináculo, pregaram a obrigação do repouso sabático, fundada no texto dos cânones apostólicos apócrifos, cuja autenticidade sustentavam. Daí a rivalidade que dividiu mais do que nunca os discípulos de Eustácio dos de Takla-Haymanot. O partido vencedor aproveitou-se da popularidade acrescida por seu triunfo para impor as demais opiniões doutrinais e as leis cultuais de que se erigia defensor. Após as loucuras dos primeiros anos, o reinado de Amda-Sion prosseguiu numa longa, gloriosa e fértil prosperidade: gloriosa por suas heroicas campanhas contra os maometanos, os adalitas invasores, que ele repeliu e reduziu à impotência, ao menos por algum tempo; fértil nas novas florações e no repovoamento dos mosteiros, na frutuosa produção da literatura religiosa, entre outras, da epopeia fabulosa do «Kebra-Nagast» ou a glória dos reis da Sião da Etiópia, do Livro das Horas ou «Matsehâfa-Saâtât», etc.
5º Calmaria relativa. Preponderância da comunidade etíope em Jerusalém. — A vida da Igreja da Etiópia durante todo o século XIV escoa-se num longo statu quo, vazio para a história da teologia. Os espíritos são desviados pelas lutas contra o islamismo, defensivas às portas da Abissínia oriental, ofensivas contra os sarracenos perseguidores dos cristãos no Egito. Os descendentes e sucessores de Amda-Sion mereceram bem da pátria e da Igreja. Sayfa-Arad e Daouit I (Davi) se assinalaram por suas campanhas no Alto Egito, «dizem as crônicas», isto é, a Núbia, pois não desceram mais longe. Mas essas expedições bastaram para pôr o Egito em alvoroço, pelo temor do desvio do Nilo e do ressecamento de seus ricos vales, que a opinião geral acreditava possíveis. O terror popular inquietou os califas. Eles cessaram suas vexações contra os coptas e suas violências contra os próprios patriarcas, que responsabilizavam pelos déficits dos impostos com que oprimiam o povo. Tiveram até de recorrer a eles para fazer a paz com a Abissínia. Sua laboriosa intermediação junto a Daouit I foi coroada de êxito. Trocas de mensageiros, de ricos presentes e de procedimentos amistosos entre Daouit e Barqouq trouxeram um modus vivendi favorável à Igreja copta.
A Abissínia daí tirou sobretudo o inestimável proveito de uma posição privilegiada, predominante, quase de um monopólio, sobre o Santo Sepulcro e todos os Lugares Santos. A mais insigne das provas disso foi o direito de produzir o pretenso milagre do fogo sagrado, no sábado santo. Os monges abissínios só o perderam por volta de meados do século XVII. Todos os partidos, jacobitas, siríacos e coptas, triunfavam com essa reviravolta que se seguiu ao desaparecimento dos francos. Seu reconhecimento recompensou a corte da Etiópia com o dom de um pedaço considerável da verdadeira cruz. O madeiro sagrado foi acolhido por grandes festas que, aliás, ainda se celebram cada ano sob o título de «Maskal-Atsé» ou festa real da cruz, no dia 16 de Maskaram (27 de setembro). O convento etíope em Jerusalém, Dar el-Seltân, goza doravante de grande importância na corte da Etiópia. O próprio Mamher ou «raïs», que é seu abade, tem a supremacia sobre os conventos e hospícios etíopes no Egito. A própria comunidade de Hévila, junto ao patriarca no Cairo, estava sob sua alta jurisdição. A corte de Tégoulet (Choa) contava sobretudo com sua intermediação junto ao patriarcado copta, quando se tratava da eleição de um sucessor para a sé episcopal da Etiópia.
A dignidade do Mamher de Jerusalém, com todos os poderes a ela ligados, era da mais alta importância, e o rei só a conferia ao religioso mais merecedor, mais fiel, em quem tinha inteira confiança. O convento de «Dar el-Seltân» tornou-se o empório onde convergiram as relações entre a Etiópia e o Ocidente. Apesar das relações menos tensas, aparentemente até tranquilizadoras, com o Cairo, o perigo islâmico preocupava todos os espíritos na corte imperial. A ideia das cruzadas, nascida dos relatos dos feitos dos francos, os assombrava como um sonho, tardiamente e muito tempo depois que a Europa abandonara a Palestina; ela é mantida pelas profecias dos anacoretas, complacentemente dóceis ao die nobis placentia; ela se exprime em todas as mensagens dos príncipes da Etiópia aos príncipes do Ocidente. Alvarez, p. 79. O rei Isaac, filho de Daouit I (1414-1429), «escreveu aos reis dos francos, diz a crônica, para associá-los ao seu desígnio.» Também veremos o papel oficial muito considerável do Mamher hierosolimitano, junto à Santa Sé.
— VI. Concílio de Florença. — 1º Dupla delegação ao concílio de Florença. Após o retorno dos gregos e dos armênios (1439), Eugênio IV não via mais a reconciliar senão os jacobitas da Síria, do Egito e da Etiópia.
Com esse fim, o franciscano Alberto Sarchiano foi delegado ao Egito e à Palestina. Ele não podia pensar em ir até a Abissínia. Aliás, o patriarca de Alexandria, Johanès, de quem dependia a Etiópia, e o abade do convento etíope em Jerusalém, o Mamher Nicodemos, agente oficial do imperador Constantinos ou Zara-Jacob, trataram cada um por seu lado com o legado, em nome da Igreja da Etiópia. O imperador não interveio pessoalmente nesse grave assunto. Mas, por um lado, o patriarca Johanès, por seu direito primacial, agia em nome de toda a pregação de são Marcos, da qual a Etiópia faz parte; por outro lado, o abba Nicodemos, em sua carta ao papa Eugênio IV, se responsabiliza pelas disposições ou mesmo pelos desejos de seu soberano para o feliz êxito da reunião com a Igreja universal. Mas é impossível que Zara-Jacob não tenha sido informado, durante os dois anos que tomaram as démarches de seus agentes, seguros que estavam de sua confiança e de sua inteira adesão. Virtualmente, o ato era seu. As démarches são paralelas e simultâneas (1440). Ver suas cartas, Bibl. vatic., ms. Ottoboni, n. 129, f. 109, 116. O patriarca Johanès enviou do Cairo o abade Andréas, prior do célebre convento de Santo Antônio, como plenipotenciário junto à Santa Sé, acompanhado de doze outros monges. Assémani, segundo Giacomo, Vita Eugenii IV.
Apesar dos títulos pomposos do cabeçalho da carta patriarcal, a cristandade copta figurava mal, por causa das defecções que haviam arrastado as massas ao islamismo no Egito, na Líbia e na Núbia. Só a Etiópia permanecia intacta do patrimônio da grande e gloriosa Igreja dita de são Marcos. Por isso, só a Etiópia parecia atrair o mais vivo interesse junto ao papa e aos bispos do concílio, e a embaixada da qual Andréas era o chefe foi anunciada como embaixada da Etiópia por Eugênio IV ao concílio, em 6 de maio de 1441. Aliás, o delegado patriarcal repetirá ainda, ao entregar no dia 26 suas cartas credenciais, ...nobis Aethiopibus... Transportados de Rodes: João na frota de Morosini, o abade Andréas e seu segundo, o diácono Pedro, com toda a sua comitiva, apresentaram-se em 31 de agosto de 1441 diante do concílio de Florença.
O assunto da reconciliação dos jacobitas com a Igreja romana não pôde se efetuar tão depressa quanto teriam desejado os delegados africanos. As negociações foram confiadas pelo papa aos cuidados de comissões especiais encarregadas de conferenciar com esses deputados a respeito dos diversos pontos nos quais sua Igreja divergia dos católicos; e eram numerosos, como se verá pela enumeração dos erros que o decreto conciliar condena.
Nesse ínterim, a embaixada fez uma piedosa peregrinação a Roma, em 9 de outubro de 1441, para venerar ali o chefe dos apóstolos e as santas relíquias que são o tesouro da cidade. Poucos dias depois, estavam de volta a Florença. Nesse intervalo, haviam também chegado os religiosos que o abba Nicodemos enviara de Jerusalém. Essa segunda delegação apresentou-se diante dos Padres do concílio em 2 de setembro de 1441. Ao final de seu discurso ao papa, discurso de um desembaraço todo abissínio, misturando a mirra ao incenso, o primeiro dos deputados, portador da carta de credenciais do Mamher Nicodemos, dizia: «...Nosso abade Nicodemos, vosso servo em Jerusalém, vos assegura antes de tudo que o imperador da Etiópia não tem sobre a terra nada mais a peito do que unir-se à Igreja romana e submeter-se a vossos pés sagrados, tão grandes são para ele o nome de Roma e a fé dos latinos.»
Entre as duas delegações, sendo a causa a mesma, essa segunda chegada foi reunida à precedente, presidida pelo abba Andréas, plenipotenciário patriarcal em nome da mesma Igreja. Card. H. Justiniani, Conc. flor., p. 3, n. 8.
— 2º Elaboração dos decretos; aceitação e ato de união. Somente em 4 de fevereiro de 1442 é que a dupla deputação foi admitida em sessão pública e que foi proclamada a reunião da Igreja jacobita, copta e etíope à comunhão da Igreja universal. Card. Justiniani, Assémani. O trabalho das comissões conciliares com os delegados coptas e etíopes havia estabelecido os temas de doutrina e de disciplina sobre os quais as Igrejas jacobitas tinham opiniões errôneas. Certo número delas já havia sido condenado pelos concílios incontestados junto a todos os cismáticos do Oriente. Mas o livre pensamento das seitas havia, ainda assim, deixado campo aberto aos espíritos e às imaginações na interpretação dos mistérios da fé.
Esses erros deram origem a um decreto especial que foi promulgado, sacro approbante concilio florentino; os decretos referentes aos gregos e aos armênios a ele foram anexados, porque se reconheceu que etíopes e coptas partilhavam os mesmos erros. O decreto de união foi lido solenemente em latim e em árabe. O deputado de Alexandria, o abba Andréas, em nome do patriarca Iohannès, em nome dos demais membros da dupla deputação de pé junto a ele e em nome de todos os jacobitas do Egito e da Etiópia, fez o ato de aceitação na forma que lhe foi traduzida em árabe. Decreta concil. oecumenici, t. VIII, p. 853.
A união foi concluída. Ai de nós, isso não foi senão um dia, uma derrota em meio a séculos de desolação, um clarão radioso, já desvanecido, entre as trevas da noite secular de ontem e as sombrias tempestades de um amanhã interminável! Os jacobitas do Egito e da Síria seguiram a covarde defecção dos gregos. Foi então tal o caos de cóleras cismáticas e muçulmanas que, na exasperação e no terror, as Igrejas foram arrastadas à deriva. A Igreja da Etiópia sofreu as repercussões disso. Makrizi relata que, em 1434 (832 da hégira), embaixadores etíopes, detidos em Alexandria, foram massacrados. A notícia da feliz solução de Florença só terá chegado à corte de Zara-Jacob como a de um triunfo abortado numa emboscada de bandidos na fronteira. Certamente ele não teve conhecimento do teor do decreto conciliar; os erros que transformou em leis são prova disso. Ver mais adiante.
3º As crenças maculadas de erro da Igreja da Etiópia, constatadas e expurgadas pelo concílio de Florença. 1. Sobre a divindade. Com o símbolo dos apóstolos, os etíopes admitem um só Deus pessoal, criador de todas as coisas visíveis e invisíveis. Mas suas ideias são pouco claras sobre o ser divino.
Alguns lhe dão uma forma sutil, antropomórfica, d'Almeida, em Beccari, t. VI, p. 123; em seguida a discussões de sábios letrados, em 1430, sobre esse assunto, Zara-Jacob promulgou uma ordenança impondo a crença que dá a Deus uma forma aparente ou imagem, malké, apoiando-se na Gênesis, I, 26; II Cor., XI, 7, que ele interpreta como uma forma ou figura visível, protótipo da forma humana, portanto antropomórfica. Outros, mais espiritualistas, interpretavam o termo ga? ou malké no sentido dos teólogos gregos. Mas, à parte essas raras exceções, o espírito abissínio, habituado a seguir antes as representações da imaginação do que as da pura inteligência, dá a Deus uma forma perceptível, nebulosa. Ouve-se correntemente chamar o ser divino de Sali Sabë' ou o homem negro, isto é, envolto em trevas que ocultam sua face.
— 2. Sobre a santíssima Trindade. Na representação desse mistério, a imaginação realista se extravia, ora para a negação (Za Michaël e Aska, em 1430, sob Zara-Jacob), ora para a confusão das três formas ou pessoas distintas. Um abuna mesmo, Barthélemi, sob Isaac (1414-1429), teria professado abertamente essa heresia grosseira.
— 3. Sobre o Verbo encarnado. A filiação eterna do Verbo é admitida sem contestação. Mas quanto à sua encarnação, os etíopes foram arrastados, na esteira dos coptas, ver acima, col. 930, para os erros do monofisismo, do monotelismo e da teandria, sem tomar parte, contudo, nas grandes controvérsias de Bizâncio. Suas especulações teológicas tomaram rumo e se detiveram sobre a unção encarnadora, ver mais adiante, com todas as absurdas consequências dos teopaschitas, ou, ao contrário, dos fantasistas que não fazem dos sofrimentos e da morte sobre os quais se funda a redenção do gênero humano senão uma simples ficção de comédia, bafakâdu ou: voluntate ipsius, isto é, porque ele quis fazer assim.
— 4. Sobre a processão do Espírito Santo. Mesmos erros que os gregos e todos os orientais, a reboque de Fócio. No entanto, um exemplar do símbolo, num antigo missal contendo waem'na wald ou Filioque, foi encontrado no mosteiro de Gundé-Gundé pelo venerável Mons. de Jacobis, mas posteriormente raspado por um corretor. Seria esse um manuscrito saído das escolas dominicanas de Néëbi? Ver acima, col. 938.
— 5. Sobre os anjos. Os etíopes os dividem em nove coros, como os classificou são Gregório Magno, acrescentando que Sa'itân ou Sâïtânaël (Satã) formava, com seu exército angélico, uma décima categoria. Creem nos anjos da guarda, malak-ekâbé, pessoais, coletivos, regionais, etc. A superstição a isso se misturou e os faz confundir com os bons gênios, mdlaëkt', aos quais oferece sacrifícios ou imolações... Os abissínios creem nos gênios, Qini, gânên, agânén', bons ou maus, que localizam nas árvores, nas fontes, nos rios, nos lares e nos artesãos em metais, etc.
6. Sobre a alma. A crença comum é que a alma dos filhos é uma centelha da de seus pais. D'Almeida, em Beccari, t. VI, p. 130. É o traducianismo, em virtude da lei crescite et multiplicamini da Gênesis, que interpretam nesse sentido.
7. Sobre o pecado original. Admitem a ruína do gênero humano em Adão, mas sem se dar conta da natureza e do efeito dessa tara inicial. Divagam, cada qual ao sabor de sua imaginação rude ou lasciva, sobre esse mistério da transmissão do pecado em nós, e o atribuem a um vício inerente ao seio da mãe, por uma interpretação toda carnal do sl. LVII, 4, alienati sunt peccatores a vulva, etc. No século XIX, alguns, fazendo escola em Gondar com um letrado chamado Arué, negaram o pecado hereditário e admitiram em seu lugar a capacidade de a criança, após sua concepção no seio materno, já ter a consciência responsável e sujeita a pecar. Ver Krapf, Gobât, etc. Ficção inventada em apoio à opinião dita das três nascenças, para a necessidade da regeneração espiritual. Ver mais adiante.
— 8. Sobre a sorte das almas após a morte. Tanto quanto os coptas e os demais orientais, os etíopes não criam, e ainda não querem crer, que as almas dos justos que são dignas disso entrem no céu ou no gozo da visão beatífica sem nenhuma demora. Para eles, vão provisoriamente para o seio de Abraão, isto é, para o paraíso terrestre, à espera da ressurreição de seus corpos e do juízo final. As almas dos criminosos vagueiam em diversos lugares subterrâneos ou submarinos. O purgatório não tinha razão de existir entre esses dois שְׁאוֹל (Seol) ou infernos. No entanto, todas as Igrejas do Oriente têm, tanto quanto a Igreja latina, o costume de oferecer pelos defuntos orações e o santo sacrifício; a Igreja da Etiópia, em particular, tem por seus mortos um culto tradicional, uma piedosa obrigação familiar tão estrita que a pessoa se arruinaria em despesas antes de deixar de cumpri-la, isto é, um Tezear ou comemoração por missas no 8º e no 30º dia após a morte, e depois, todos os anos; além disso, conforme suas posses, oferecem esmolas aos monges para fazer recitar o saltério por longos dias; fazem distribuições de víveres aos indigentes, etc., tudo isso sem saber, senão instintivamente, sob a perturbadora impressão de temores e inquietações inexplicadas, que há uma justa cólera vindicativa a apaziguar, uma misericórdia a tornar propícia em favor de seus defuntos.
— 9. Sobre as observâncias judaicas. Esse ponto diz respeito unicamente à Igreja da Etiópia, e o concílio ordenou sua abrogação. Trata-se principalmente: a) da circuncisão, cujo costume persistiu e cuja prática o rei Glaodios (Cláudio) desculpou por ser higiênica e puramente civil; mas um temor supersticioso a torna uma obrigação; b) a purificação de quarenta dias após o nascimento de um menino e de oitenta dias para uma menina, antes do batismo; c) a distinção das carnes, permitidas ou proibidas; d) a observância sabática do sábado. Ver acima. Zara-Jacob tornou sua obrigação muito estrita, com a prescrição de reunir-se na igreja tanto no sábado quanto no domingo.
— 10. Sobre a lista canônica dos Livros santos. Os etíopes tomaram o cânon dos coptas quanto aos livros que consideram santos ou inspirados. Ele é calcado sobre o último cânon das Constituições apostólicas. Acrescentam aos livros do Antigo Testamento: a) o Kufalé ou Gênesis; b) o livro de Henoc, apesar das enormidades que nele se leem; c) o Pastor de Hermas; d) a Ascensão de Isaías; e) o III e o IV livros de Esdras; f) os livros dos Macabeus, bem diferentes dos nossos, ver Gad'la-Marcurios, e, ao Novo Testamento, duas cartas e os oito livros de são Clemente (Constituições apostólicas).
— 11. Sobre os sacramentos.
O concílio teve igualmente de fazer os delegados etíopes admitirem reformas na administração e no uso dos sacramentos. Constatou-se que, teoricamente, a Igreja da Etiópia possuía os sete sacramentos, mas que, na prática, se haviam infiltrado graves omissões ou alterações. — a) Batismo ou Tamkat'. Um abuso prejudicial a um bom número de recém-nascidos é o prazo de quarenta ou oitenta dias, em virtude da purificação judaica. Ver acima. O batismo é feito por tríplice imersão. A fórmula varia conforme a diversidade das igrejas e das localidades; sofre alterações mais ou menos essenciais que expõem à invalidade, assim como a negligência dos sacerdotes ignorantes em unir as palavras sacramentais à imersão; daí, com frequência, a dupla dúvida juris et facti. As orações e as cerimônias do ritual batismal ou masâhefa-Tamkat' são tomadas do ritual copta. Fetha-Nagast', por Guidi, c. IV, p. 26. Quanto ao batismo da Epifania, em que todo mundo se mergulha na fonte ou no rio bento ad hoc, sua razão de ser é a comemoração do batismo de Nosso Senhor no Jordão. Mas a ignorância popular faz dele uma necessidade anual, como se fosse um batismo sacramental para se purificar do pecado.
Aliás, até mesmo os sacerdotes ignoram que o batismo imprime um caráter indelével e que, por conseguinte, não pode ser renovado, pois se os vê reiterar o batismo às pessoas de outra Igreja que não a jacobita, quando estas pedem para ser incorporadas à sua. — b) Confirmação ou Méron (μύρον). Sem dúvida por causa da dificuldade de obter o óleo santo requerido, esse sacramento caiu em desuso. Era administrado conjuntamente com o batismo. D'Almeida, em Beccari, t. VI, p. 137.
c) Eucaristia ou Kurbân. Como os coptas, etc., os sacerdotes etíopes servem-se de pão fermentado, exceto na quinta-feira santa, em lembrança do pão ázimo de que se serviu Nosso Senhor na instituição da eucaristia. A comunhão é dada sob as duas espécies; o celebrante fraciona a hóstia, cujo volume foi proporcionado ao número suposto de comungantes, numa grande patena ou sahâl, que dois diáconos sustentarão diante dele sobre uma bandeja coberta por um pavilhão; o sacerdote assistente ou najka-kasis retira, com uma colher dourada, erfa-maskal, algumas gotas no cálice que segura com a mão esquerda, e as verte na boca do comungante de pé diante dele.
A obrigação de comungar não é prescrita por nenhuma lei eclesiástica, exceto logo após o batismo, por causa da interpretação literalmente necessitante do texto de Jo., VI, 54, com medo de morrer sem ter comungado uma vez o corpo e o sangue de Cristo. Afora isso, julgam conveniente, de bom-tom, frequentar a santa mesa na idade do amadurecimento. A privação da comunhão é a sanção do crime de poligamia. Ver acima. O Fetha-Nagast' recorda o costume de acrescentar um terço de água ao vinho destinado à consagração. Mas, em vez de vinho natural ou artificial feito de uva passa, contenta-se, há três séculos, em triturar cinco bagos de uva passa e liquefazê-los com um pouco de água. Ora, isso não é vinho e não pode ser matéria do sacramento. A fé na transubstanciação é indubitável: para constatá-lo, basta ouvir com que ênfase os fiéis, prostrados com a fronte no pó, repetem a cada consagração: «Creio e professo que isto é verdadeiramente o corpo..., isto verdadeiramente o sangue de Cristo.» Esse duplo ato de fé é uma prova de que a Igreja do Oriente, desde a origem, considerou as palavras de Nosso Senhor como a forma pela qual se realiza a transubstanciação, e não a oração da epiclese, que vem depois dessa profissão de fé.
Pois esse duplo ato de fé faz parte da liturgia dita dos apóstolos, a primeira de todas e, sem dúvida, a única, na origem; e essa liturgia é a tradução da liturgia grega usada em Alexandria, sob santo Atanásio; e foi traduzida para o etíope durante ou depois da evangelização por são Frumêncio, em 340. Essa liturgia etíope remonta, assim, à segunda metade do século IV. Os helenismos e as palavras gregas, adotados sem serem traduzidos, testemunham a fonte da versão. O missal etíope ou mašâhefa-kedâsê contém: a. a ordem: o ordinário ou a sequência das orações e das cerimônias invariáveis que precedem o ser'ata-gebr ou o cânon da ação santa ou a liturgia; b. segue-se a liturgia ordinária dita dos apóstolos, zahâwâryât, a mais antiga e a mais usada. Renaudot, Hammond; d'Almeida, em Beccari, t. VI, p. 161-174. f. Seguem-se catorze outras liturgias, empregadas em dias de festas especiais, a saber: de Nosso Senhor; da santíssima Virgem (de Ciríaco de Behnesa); de são João Crisóstomo; de são João Evangelista; de são Tiago, irmão do Senhor; de são Gregório da Armênia; dos 318 Padres de Niceia; de santo Atanásio; de são Basílio; de são Gregório Nazianzeno; de santo Epifânio; de são Cirilo; de Jacó de Sarug; de Dioscoro, Afa-Warq.
Encontra-se o ordinário e a liturgia primitiva dita apostólica, publicada por Tasfa Sion, Roma, Vaticano; por M. Coulbeaux, em 1886, Kéren; cf. também, para a liturgia apostólica e as de Nosso Senhor, da santíssima Virgem e de Dioscoro, Bullarium patriarchatus Portugalliæ; a de são Crisóstomo, em Chrestomathia æthiopica, de Dillmann, p. 5; Swainson, Greek liturgy (the ordin. canon of the mass); Bezold, p. 349.
— d) Penitência ou Ser'âta-Nesehâ. O costume remonta à origem da Igreja etíope, mas não sem ter sofrido deformações pela incúria ao longo dos séculos. Sob Zara-Jacob, alguns monges teriam sustentado que as palavras divinas, Mt., XVII, 22, não significam a instituição do poder da absolvição sacramental, Dillmann, p. 44; mas a crença nesse poder sacerdotal é geral, a. A confissão, secreta ou auricular, é de uso bastante difundido; e, sem se confessar com frequência, cada qual tem seu confessor titular, o pai da alma, que será como uma garantia de salvação; ninguém se dirigirá a outro sem ter obtido licença ou permissão do primeiro. Não se crê numa obrigação estrita desse sacramento, senão por ocasião da primeira e muito tardia comunhão eucarística, e no artigo da morte, e mesmo assim não em virtude de um preceito, mas da convicção de sua necessidade como meio de salvação.
Cada qual se confessa quando lhe apraz e, segundo a opinião pública tradicional, somente a partir da idade viril, de vinte a vinte e cinco anos; o mesmo se dá para toda participação nas cerimônias do culto paroquial; até essa idade, ninguém se importa com isso. b. A confissão pública só se faz ao abuna e ao érogo, nos casos de censuras a eles reservadas. Um livro, Enkâ-Nesehâ ou Porta da penitência, ajuda no exame de consciência; mas está longe de estar ao alcance de todos; confessores e penitentes contentam-se com a acusação dos pecados que sua religião muito pouco esclarecida lhes representa como tais, por exemplo, o roubo, o homicídio, e infalivelmente a infração dos jejuns. A imposição das penas satisfatórias nem sempre está isenta de simonia. A fórmula da absolvição é deprecativa. Um manual, Masahefa-Keder ou Livro da penitência, contém as formalidades rituais para a reconciliação dos renegados e daqueles que tiveram relações com mulheres não cristãs; data da invasão muçulmana, século XVI. Um costume entrado nos hábitos sociais parece ser um travestimento do ato sacramental. A cada encontro, as pessoas, ao saudar um sacerdote ou ao despedir-se dele, inclinam-se e pedem a absolvição: l'ethiini, absolvei-me, e o sacerdote responde: yif-tâh'kâ ou absolvat te (Dominus). Esse ato é distinto do de simples bênção ou bons votos, burâké e marakâ.
— e) Ordem ou Kehenat. As ordens menores e maiores são enumeradas como existentes em teoria; mas, na prática, bispo e ordinandos só reconhecem o presbiterato e o diaconato, que abrange todos os ofícios subalternos. Aliás, o ritual não existe em língua gueeze, senão nas coletâneas sinodais, pela razão de que o pontífice ordenante é sempre egípcio e se serve do livro copta. As ordenações correm o risco de não ser válidas por causa da incúria dos abunas em conferi-las nas condições essencialmente requeridas. As incúrias notórias não faltaram, seja por ignorância, seja por negligência ou mesmo paródia sacrílega. Ver acima e Revue anglo-romaine, n. 14, p. 634, Abouna Salama, por M. Coulbeaux. Os reis, em sua sagração, eram ordenados diáconos, a fim de que lhes fosse permitido sentar-se no santuário das igrejas, reservado aos ministros do altar. Os abunas impõem um tributo simoníaco a cada ordinando. Extrema-unção. — Masāḥefa-Qandīl ou Livro dos círios. Esse sacramento praticamente só existe na enumeração sinodal dos sacramentos da Igreja. Como para a confirmação, a dificuldade de obter o óleo santo terá favorecido a incúria dos sacerdotes até o desuso.
No entanto, o ritual existe e dá nome a essa unção dos enfermos; esse nome tem sua origem na rubrica desse ritual, que obriga cada assistente a segurar um círio durante toda a cerimônia.
Véu. g) Matrimônio, Mamhcla-Taklil ou Livro do véu. Esse sacramento só entra na prática da vida entre os cristãos da Igreja da Etiópia numa idade já avançada. Então, marido e mulher vão procurar o sacerdote, que os recebe no tribunal da penitência, depois os abençoa como esposos após a recitação de um Pai-Nosso, e os esposos consagrarão sua união pela comunhão eucarística feita em conjunto. A partir desse momento, consideram seu matrimônio como indissolúvel; até então, ele era puramente civil, facilmente revogável; por isso o divórcio é frequente e, além disso, o concubinato, etc. Ver acima e mais adiante. O ritual desse sacramento existe, no entanto; contém leituras deprecativas muito longas; seu nome indica que um véu era estendido sobre os dois esposos durante essas bênçãos; mas, como essas cerimônias só se realizam nas primeiras núpcias, permanecem mesmo ignoradas, pelo menos dos fiéis, senão de muitos sacerdotes.
4º Zara-Jacob reformador do culto: festas, jejuns, horas canônicas e cânticos. Zara-Jacob ocupa um lugar principal na história teológica da Igreja da Etiópia. O móvel da união com a Igreja católica era, para a Abissínia como para todo o Levante, a esperança de um entendimento com os francos contra a dominação muçulmana. A acolhida que Zara-Jacob deu ao viajante veneziano, o pintor Francesco Brancaleone, é uma marca de suas disposições antes favoráveis a respeito da Igreja romana, quando se sabe o quanto deles a afastam a desconfiança e os preconceitos inveterados dos cismáticos. Esse príncipe mostrou constantemente um grande zelo pela reforma e pelo aperfeiçoamento do cristianismo na Igreja da Etiópia. Mas seu zelo, mal aconselhado por um fanático, o Ekâbé-Sa'ât 'Amda Sion, que gozava de toda a sua confiança, foi exagerado e demasiado inquisitorial.
— 1. Reforma do culto pela abolição das superstições. O primeiro de todos os imperadores da Etiópia, Zara-Jacob fez uma caça implacável a todas as formas de idolatria, sabeísmo e fetichismo, e a todas as práticas de superstição, de magia, de feitiçaria. Condenadas oficialmente, nem por isso deixaram de sobreviver efetivamente.
Sua intransigência não tolerou nenhuma concessão a qualquer resquício de paganismo; e, levado a medidas extremas por seu fatal conselheiro, ordenou que todos os seus súditos, em testemunho de sua fé na Trindade, trouxessem tatuados na fronte os nomes do Pai, do Filho e do Espírito Santo; no braço direito: «Renuncio ao diabo e sou servo de Maria, a mãe do criador»; e, enfim, no braço esquerdo: «Renuncio ao diabo impuro e adoro Cristo, meu Deus». Os refratários a seus editos foram impiedosamente submetidos à tortura e morreram nos suplícios. Não poupou nem mesmo seus filhos, habituados também a práticas de fetichismo no lar doméstico. Irado com o pouco caso que faziam de suas proibições, exclamou: «Ó habilidade do diabo! Enquanto afasto meu povo das abominações da idolatria, ele penetra em minha própria casa e perverte meus filhos.» Mandou flagelar quatro de seus filhos, Glaodios, Anula-Mariam, Zara-Abraham e Betra-Sion, e três de suas filhas, Del-Samarâ, Erum-Gualâ, Adal-Mogasâ; e, para que a lição exemplar impressionasse, os feridos foram expostos aos olhos da multidão. De fato, os ferimentos eram horríveis; as régias vítimas logo morreram deles. Toda a população irrompeu em soluços. Tarika-yagast; Beccari, t. v, p. 239-249.
— 2. Reformas no culto por prescrições rituais. Tendo feito tabula rasa dos cultos pagãos, o rei completou a restauração do verdadeiro culto de Deus por ordenanças litúrgicas. Digamo-lo desde já: Zara-Jacob, com as melhores intenções, foi o mau gênio da Igreja da Etiópia; quis salvá-la, e a perdeu (palavras de Socinios ao P. Paez).
a) Sabatismo. As discórdias dividiam as duas grandes ordens religiosas de Takla-haymânot' e de Eustatios, principalmente sobre a observância do sábado. Ver acima. Zara-Jacob impôs silêncio às querelas, fazendo uma lei do Estado, sancionada por penas graves, de observar o sábado como o domingo. Zelou por isso até a crueldade, pois aqueles dentre os monges de Dabra Libanos que se recusaram a judaizar, como diziam com razão, pagaram com a própria cabeça. Ibid. Ora, a observância sabática e dominical consistia na cessação do trabalho e na assistência ao ofício matinal. A cessação do trabalho compreendia a abstenção das obras servis enumeradas na ordenança real, isto é, além dos grandes trabalhos do campo, a caça, a pesca, a escrita, as viagens, o açoitamento dos escravos; eram permitidos o abate de animais, a cozinha, etc. A assistência aos ofícios religiosos obrigava os fiéis a se dirigirem à igreja por volta do romper do dia, hora dos cânticos e da missa, quando esta é celebrada.
A impureza dita legal, isto é, o uso do matrimônio, excluía não só da comunhão, mas da entrada na igreja. O canto das horas canônicas desde o canto do galo, por volta das duas horas da manhã, foi inaugurado por Giorgis de Gasecca, sob o reinado de Amda-Sion, mas regularmente estabelecido por Zara-Jacob no canto recitativo de orações ou versículos dos salmos; são as antífonas de Yared, intercaladas e executadas pelos dabtarâ com acompanhamento de sistros, tambor, palmas e batidas dos pés. As festas são celebradas como os domingos, mas com maior entusiasmo solene. As grandes festas dos mistérios cristãos sucedem-se no ciclo comum a todas as igrejas, tanto quanto ao número quanto quanto aos intervalos.
c) Quanto aos jejuns, são na Etiópia conformes aos jejuns do Oriente, seja quanto ao número, seja quanto ao rigor. O Fethâ-Nagast os enumera segundo o rito copta. Ver MONOFISISMO. d) Muitas outras festas, secundárias, mas também obrigatórias, foram instituídas em honra da santíssima Virgem; além das comuns a toda a Igreja, Zara-Jacob instituiu trinta e três; sabe-se que um culto especial e, entre muita gente simples, exagerado para com a Mãe de Deus é caro aos abissínios, em honra da cruz, dos anjos e dos santos; culto da cruz, ver acima, col. 940; Zara-Jacob estabeleceu doze festas mensais (no dia 12 de cada mês), em honra de são Miguel; três festas de são Gabriel; uma festa para cada um dos seguintes: Rufaël (Rafael), Raguël, Fanuël, Su-Riël, Tial, Sakuël, l'Uriël, os Afnim.
Honram-se os santos dos primeiros séculos, comuns a todas as confissões; os patriarcas e profetas do Antigo Testamento, Judite, Ester, etc.; depois dos apóstolos, acrescenta-se uma festa dita dos quatro animais, arbata-an'sasâ, isto é, dos quatro evangelistas. Os abissínios canonizaram muitas personagens, celebrando-as em seu sinaxário ou martirológio. São, no início, os nove santos romanos; Kaleb ou El-Esbân; Gabra-Yared, etc., depois, Lalibala, Nakueto-la-Ab, Manfas-Qeddus ou vulgarmente Abbo, Takla-haymânot', Eustatios, Mercurios, etc., dentre os mais ou menos dignos e os indignos. Ver o sinaxário.
O palácio de Zara-Jacob tornou-se um laboratório literário. Gênio comparável a Carlos Magno, era movido por um espírito todo cristão em sua política interna e externa, ilustre pelos feitos de suas armas contra os maometanos de Adal e, apesar da incompatibilidade aparente, pelo amor à literatura religiosa e aos hinos eclesiásticos. Favoreceu os estudos por meio de benefícios concedidos às escolas e aos mosteiros onde eram cultivados. Soldado-escritor, ele próprio compôs ou mandou compor o Maxâhefa-Berhân ou Livro da luz, coletânea das prescrições eclesiásticas mencionadas acima; o Egziabehêr-Nagsa ou O Senhor reina, coletânea de estâncias e hinos para as festas e para todos os dias.
A grande devoção do rei para com a Mãe de Deus deixou como testemunho o Taûmera-Mariam ou Os prodígios de Maria, coletânea de maravilhas lendárias de origem oriental e ocidental, e o Organon-Dan'gel ou Hino à Virgem, dividido em sete partes para cada dia da semana, pelo abba Giorgis (o Armênio). Enfim, sob seu reinado admira-se toda uma florescência de obras que dão corpo à biblioteca etíope, até então quase inexistente. São: a) para o direito canônico, o Sinodos ou compilação dos atos dos concílios, compreendendo as Constituições apostólicas, 127 cânones ditos também dos apóstolos, 38 cânones ditos de Aboulidès (Hipólito), papa; os atos de Niceia, de Ancira, de Neocesareia, etc. Zara-Jacob, orgulhoso da conclusão desse grande trabalho, enviou uma cópia dele à colônia conventual de Jerusalém.
b) Para a apologética, isto é, a defesa das crenças da Igreja da Etiópia, o Maxâhefa Mislir ou Livro dos mistérios, composto por um controversista famoso na corte imperial, abba Giorgis, filho de Hezba-Sion, originário de Saglâ (Amhârâ); só o sumário já dá uma ideia da importância atribuída a todas as questões suscitadas em torno do dogma e da história da teologia: nele são combatidas as doutrinas de Sabélio, de Ário, de Nestório, de Fotino, de Orígenes e de Bitor (?), dos antidicomarianitas, de Êutiques (embora seu líder Dioscoro tenha sido apenas seu aliado, os etíopes condenam Êutiques como priscilianista), de Severo de Antioquia, de Teodoro de Alexandria, de Aburios, de Manés, do papa são Leão e do concílio de Calcedônia, que ele trata de Mâh'ebara-akiâbât' ou Matilha de cães. D'Abbadie, Catalogue, n. 49. Essa obra se completa com uma série de cartas de Timóteo Éluro, de trechos de são Gregório Nazianzeno e de são Cirilo de Alexandria. Observou-se que é a primeira vez que a querela monofisita se produz ex professo; a controvérsia teve lugar oficialmente na corte, na presença do rei.
c) Outra obra importante, Haymanot-abau ou A fé dos Padres, viria logo em seguida, sob Ba'eda-Mariam. É uma coletânea de tratados e homilias dos Padres e de alguns bispos menos antigos, que goza de grande autoridade teológica na Abissínia. Facilmente se representaria Zara-Jacob como um austero no meio dos monges e dos letrados, únicos admitidos a transpor a paliçada do recinto reservado do palácio, fechado aos profanos. Todos os demais rigores das leis divinas e humanas, sim, ele os tem, o knute na mão; mas da casta lei do matrimônio cristão, os grandes reis, os Zara-Jacob, estão dispensados. Como seus antepassados, teve várias mulheres ao mesmo tempo; citam-se, entre outras, a «Çera-Itiégé ou imperatriz da esquerda», Djân-Haylu, primeira esposa; a «Kagn' Itiégé ou imperatriz da direita», Djân-Sela, segunda esposa oficial; Sion-Mogasâ, terceira mulher, mãe de Ba'eda-Mariam, que sucedeu no trono.
VII. — Depois das invasões muçulmanas (1520-1551). 1º A Etiópia em Roma e em Portugal. Fracasso de uma primeira união. A Igreja da Etiópia permaneceu nessa corrente de ideias e de vida religiosa, sem que se produzisse nada de saliente do ponto de vista teológico. A preocupação voltou-se inteiramente para a defesa nacional contra a invasão maometana cada vez mais ameaçadora.
E é justamente à ruína mais desastrosa para a Igreja e para o Estado, pela conquista do adalita Mohamed-Grâñ, que se deve o despertar da alma nacional, que estende as mãos para a Santa Sé; pois, no fundo, a disposição mental, herança atávica, reencontra-se em Lebna-Dan'gel ou Daouit IV (1508-1540), a mesma que na corte de Zara-Jacob, isto é, que a veleidade de um retorno à união católica está, tanto num quanto no outro, subordinada à necessidade de socorro no perigo extremo do Estado. A iniciativa das démarches etíopes junto a Roma e a Lisboa deve-se ao sábio gênio de uma mulher, a imperatriz viúva Helena, conselheira do jovem rei Daouit IV. Uma primeira mensagem foi confiada a um armênio, Matheus, junto ao papa Leão X e aos reis de Portugal Manuel e João II o Grande (1520); depois uma segunda embaixada confiada a dom Álvares e ao Lika-Kahenât' Çaçâ Za Ab junto ao rei João III e ao papa Clemente VII (1534), encerrada pela gestão mais expressa de que João Bermudez foi encarregado junto às duas cortes. Paulo III havia sucedido a Clemente VII. O momento psicológico havia chegado para o acolhimento na Etiópia de um bispo católico.
Mas nem Clemente VII nem Paulo III aproveitaram isso: o primeiro, por impedimentos, pois Za Ab, retido em Lisboa, do que ele não é responsável, porque retido em Lisboa, não pôde sequer dirigir-se a Roma, de 1533 a 1540; o segundo, por delongas em combinações sem efeito, cujos detalhes seguirão.
— 2° João Bermudez e Paulo III. O papel desempenhado por João Bermudez, o personagem que responde a esse nome, era um médico português, membro da segunda embaixada, permanecido na corte do Choa depois do retorno de Álvares, pareceria antes um conto fantástico do que uma realidade vivida. Acabou por ser uma mistificação. Por mais confuso que seja, deixa transparecer clarões sobre o caos histórico dessa hora do século XVI na Abissínia. O rei Lebna-Dan'gel e sua corte, o abouna Marcos ao término de seus cento e três anos e o conselheiro intermediário Bermudez, todos estiveram de acordo para operar sem alarde a transição do cisma à verdadeira Igreja. O velho bispo transmitiu, por uma espécie de abdicação, seus poderes episcopais ao Maïuher Iohanès (Bermudez) e o estabeleceu seu sucessor na sede metropolitana da Etiópia (1538). Bermudez parece não ter duvidado da licitude dessa combinação, fruto de uma habilidade toda oriental, nem da aprovação do papa.
Sob essa reserva e essa condição expressa, ele assumiu a aventurosa e gravíssima responsabilidade. Em consequência, o rei Daouit', depois da morte do abouna Marcos, em vez de enviar ao Egito segundo o uso constante, encarregou o próprio Bermudez, doravante o abouna Iohanès, de ir a Roma para fazer aceitar e regularizar sua elevação à sede episcopal da Etiópia. O fato dessa gestão peremptória é a prova incontestável da vontade muito sincera, dessa vez ao menos, por parte da corte imperial, de chegar a uma conclusão definitiva da questão religiosa com Roma e a um entendimento político com Lisboa. Junto ao rei de Portugal (1540), Bermudez conseguiu obter o socorro de um corpo de tropas contra as investidas dos adalitas. Mas o sucesso real de sua missão junto à Santa Sé permanece um enigma. Uma coisa certa é a não ratificação dos atos praticados à margem de toda legalidade eclesiástica, referentes à sua nomeação episcopal pelo velho prelado cismático inconsciente. Levou-se em consideração a exposição do estado das coisas e dos espíritos, tal como resultava da combinação supostamente engenhosa encontrada para resolver a dificuldade da mudança de regime.
Deliberou-se em conselho de cardeais, sob a presidência de Paulo III, sobre o projeto de fazer eleger pelo rei um arcebispo e de nomear um colégio de doze sacerdotes, que, na sequência, proveriam a vacância da sede pela eleição de um deles. Sem dúvida, Bermudez havia sido convidado a aproveitar a preponderância de que gozava na corte para fazer aceitar esse plano. Mas sua ambição o levou a exagerar e a falsear o papel de precursor e a se colocar ele mesmo como delegado pontifício, dando-se o título de patriarca (1540). Conseguiu passar por tal, primeiro na corte de Lisboa e em Goa, junto aos portugueses, depois na corte da Etiópia, como testemunha uma carta do rei Glaodios, filho de Lebna-Dan'gel (1542-1543), endereçada ao sumo pontífice: « ...Vós vos dignastes conceder-nos nosso pai (abouna) Iohanès pastor — e conferir-lhe a consagração episcopal — isso era falso — Nós o acolhemos e o colocamos na sede metropolitana, etc. »
Recebido esse rival, o papa Paulo III mandou reunir várias congregações a fim de deliberar sobre o meio de remediar a falsa situação criada pela intrusão de Bermudez. Resolveu-se levar prudentemente o rei a ordenar a deposição do pseudopatriarca e a proceder à eleição de um candidato à sede episcopal, segundo o modo indicado acima. Mas essa deliberação permaneceu sem ser posta em execução. Vat. urbin., n. 829, p. 293. Cf. M. Chaîne, Le patriarche Jean Bermudez d'Éthiopie (1540-1570), na Revue de l'Orient chrétien, 1909, t. XIV, p. 321-329. Entretanto, uma vez livre do flagelo muçulmano, o rei Glaodios voltou aos instintos cismáticos e se mostrou hostil aos católicos, começando pelo abouna Johanès, cujos poderes doravante se recusou a reconhecer. Aliás, João III, tendo o desígnio de fazer nomear um verdadeiro patriarca, o havia informado da fraude de Bermudez. O monarca etíope autorizou-se com isso para pô-lo de lado sem provocar o ressentimento dos portugueses ao seu soldo. Por fim, o envio ao Cairo de uma deputação para obter um abouna copta, segundo o uso tradicional, revoga o ato de repúdio realizado por seu pai. Bermudez censurou-lhe isso como um perjúrio e uma apostasia, depois de seus compromissos para com a sé de Pedro.
A querela se envenenou. As ameaças de Bermudez resultaram em sua expulsão (1556).
— VIII. MISSÃO DOS JESUÍTAS. 1ª fase. — 1° O patriarca André de Oviedo e o rei Glaodios. Nesse ínterim, o projeto de missão, longamente preparado em Lisboa, estava em vias de execução. As exortações perseverantes (1546-1554) de santo Inácio de Loyola, enfim acolhidas por João III, levaram-no a aceitar e apresentar ao papa Júlio III os nomes de três candidatos, um a título de patriarca, dois ao episcopado a título de coadjutores, para a Igreja da Etiópia. Mas na Etiópia, como já vimos, as condições estavam bem mudadas; as disposições da corte imperial haviam se tornado de todo hostis; todas as ordens civis e eclesiásticas estavam agrupadas em torno do bispo copta, o abouna Jusab (José). O patriarca Nuñez Barreto teve de esperar em Goa, porque, segundo as informações do P. Rodriguez Gonçalho, enviado como batedor à capital da Abissínia, as portas lhe estariam fechadas. Morreu ali em 1561. Uma tentativa fora, no entanto, decidida, e o primeiro bispo coadjutor, André de Oviedo, cujo caráter episcopal não era divulgado, dirigiu-se à Abissínia com o P. Manoel Fernandez (1557). D'Almeida, em Beccari, t. V, p. 370. A hostilidade do imperador Glaodios apareceu manifestamente em meio às maneiras da mais atenta cortesia que o distinguia.
Esse príncipe e todo o seu séquito leigo e religioso temiam que os missionários fossem os precursores de uma invasão portuguesa. A tática política da corte foi evitar todo atrito com o governo de Goa e a corte de Lisboa, mantendo-se ao mesmo tempo nas trincheiras do cisma religioso. André de Oviedo não foi perseguido como missionário católico; pôde até ensinar e seu caráter episcopal foi reconhecido, tacitamente, para os portugueses naturalizados. Apesar das admoestações do abouna Jusab, o rei não temeu deixar a liberdade de controvérsia em seu palácio; vê-se até ele próprio entrar na disputa, pois seu espírito perspicaz, sutil e ágil no estudo de sua religião, havia penetrado a fundo as razões teológicas sobre os mistérios e todas as questões eclesiásticas. Vangloriava-se, com um orgulho tingido de fatuidade, de segurar o cetro da ciência tanto quanto o da autoridade suprema. Mas os debates degeneraram em vaias, por falta de argumentos, e a obstrução cobria a voz dos missionários. Os abissínios chamavam isso de vitória. Os clérigos e os monges se agitavam muito na corte, nos acampamentos, em todos os centros em torno dos ardentes controversistas que enfrentavam os defensores católicos; as crônicas mencionam especialmente dois, abba Zakra e abba Paolos.
O grupo da rainha-mãe Sabla-Wanğël mantinha as intrigas e as manobras para dobrar o rei Glaodios, pois se temia que seu gosto pelo estudo aprofundado das questões religiosas o levasse a concessões prejudiciais ao partido jacobita. Diante dessa reação em discussões ruidosas e inúteis, Oviedo e seu companheiro se haviam afastado dela para se dedicar ao trabalho do apostolado obscuro e paciente, e não sem frutos sérios, para o despeito mal dissimulado do rei. Sua grande prudência, sua magnanimidade e sua caridade atraíram a Oviedo o respeito universal. Sait, t. II, p. 276. O dever de seu cargo, entretanto, pesava sobre ele, e seu zelo pela salvação das almas, mesmo contra a vontade delas, o levou a escrever (22 de junho de 1557) ao rei Glaodios uma carta em que o precavia contra as tramas e as intrigas de sua corte e sobretudo contra a influência tanto mais nefasta quanto mais poderosa da própria rainha sua mãe, esquecida dos protestos de apego durante os dias de infortúnio e das aclamações calorosas para com os libertadores. D'Almeida, em Beccari, t. V, p. 377-380. Os conselhos do apóstolo fracassaram diante da desconfiança e das apreensões que a mãe inspirava ao jovem soberano e diante da obstinação em seu próprio parecer e do orgulho ancestral.
Glaodios se declarou « filho da Igreja de Alexandria », e para a justificação de suas sentinelas e de sua conduta, mandou publicar sua « confissão de fé » motivada. Ludolf, Comm. hist., p. 237. Nela defende os erros dos jacobitas e repele a acusação de judaísmo invocando razões de usos puramente civis e indiferentes do ponto de vista religioso. Ele não ignorava, contudo, mas esquece as discussões ainda não distantes sobre essas observâncias.
— 2° Obras de polêmica; trabalhos litúrgicos. As reivindicações dos sectários se manifestavam de dia em dia mais intransigentes, como em toda recrudescência das reações. As justas da polêmica anticatólica provocaram a composição ou a tradução de tratados dogmáticos: Fekuré-Malakot ou Refúgio ou Explicação da divindade; Sawâna-nafs ou Repouso da alma; Mazgaba-haymanot ou Tesouro da fé, que será refutado mais tarde (1642) por Atânâtios em Maksafta-hassetât ou os Flagelos das mentiras. O renascimento à vida nacional e religiosa se manifesta não apenas na polêmica, mas também no culto litúrgico. O clero se recruta e se restabelece, as escolas reabrem, as igrejas, ao menos em parte, são restauradas.
Dois letrados, instruídos na arte do canto, os Azaj Géra e Raguël, facilitam a laboriosa aprendizagem pela notação do Degwa ou Antifonário, para todas as festas do ano. Vê-se então aparecer o Masâhifa-Kandil ou Livro dos círios, que não é senão o ritual da extrema-unção e da penitência.
3° Oviedo e Minas. Denúncia e condenação da heresia. Perseguição. As guerras e a morte prematura de Glaodios interromperam essa dupla corrente (4 de abril de 1559). No começo do mesmo ano, certo número de portugueses e de indígenas católicos se deixavam arrastar para os desvarios do partido jacobita. Vendo isso, o abouna Andréas (de Oviedo) lançou, em 2 de fevereiro de 1559, uma denúncia dos erros dos abissínios e de seus preconceitos contra a Igreja romana, a fim de prevenir contra eles suas ovelhas. Ele ordena aos fiéis de sua obediência que se acautelem contra esses erros, e aos etíopes que a eles renunciem, sob pena de excomunhão, isto é, « de incorrer nos julgamentos da santa Igreja e das autoridades eclesiásticas, seja para seu castigo em suas pessoas e em seus bens, seja para seu perdão na medida de seu arrependimento. » D'Almeida, em Beccari, t. v, p. 391.
O sucessor ao trono, Minas (1559-1563), excitado pelos dignitários e pelos monges de seu séquito, proibiu ao patriarca e a seus companheiros de continuar seu ensino e suas controvérsias, e, na irritação causada por sua resistência, tratou-os com brutalidade; e, por um exílio forçado, confinou-os numa província distante e, portanto, inóspita. Os católicos sofreram uma cruel perseguição. D'Almeida, em Beccari, t. v, p. 391.
Seu filho, Sarsa-Dengel (1563-1597), mostrou-se menos desfavorável e deixou o patriarca e os Padres se estabelecerem em Frémona, não longe de Aksum. Outros Padres seguiram grupos de famílias portuguesas que foram se fixar na província de Dambéa, às margens do lago Tânâ. Mas, se as preocupações políticas desviaram deles a atenção da corte, os missionários se sentiram feridos no coração por medidas tomadas em Lisboa e em Roma a respeito de sua obra apostólica. O rei de Portugal, dom Sebastião, desesperando de conseguir algo na Abissínia, pediu ao papa que retirasse de lá os jesuítas e os enviasse à Índia e à China. São Pio V, por um breve de 2 de fevereiro de 1566, endereçado ao patriarca André de Oviedo, deu-lhe ordem de retirar-se assim que pudesse fazê-lo com segurança e de dirigir-se às missões do Japão e da China.
Mas Oviedo, seja pela esperança fundada nas disposições das multidões favoráveis à reunião com a Igreja católica, seja porque as autoridades turcas lhe fechariam as rotas do mar Vermelho, esforçou-se por fazer o sumo pontífice voltar atrás nessa determinação. As coisas ficaram assim. D'Almeida, em Beccari, t. v, p. 423-432.
O zeloso patriarca morreu santamente em Frémona, em 1577; e os outros Padres também terminaram seus dias em paz, sob o peso de seus trabalhos apostólicos (1577-1596). O último, François Lobo, ao morrer, deixava a missão católica sem nenhum apoio em meio à provação. Um padre de Goa, Melchior de Silva, dedicou-se a ir levar-lhes socorro; graças à sua tez indiana, pôde atravessar os países ocupados pelos turcos, que o tomaram por um banian; prestou seus serviços aos católicos até a chegada do Padre Pierre Paëz, em 1603.
— 2ª fase. 1° Primeiros sucessos. Por um fenômeno singular, os sucessores de Sarsa-Dengel, ao mesmo tempo em que batalhavam uns contra os outros para se apoderar do trono, rivalizavam por assim dizer em benevolência para com o P. Paëz, e foram ainda mais longe, até a conversão ao catolicismo. Chamavam-se Jacob, Za-Dengel (1597-1607), e depois deles Socinios (1607-1632).
O reinado desse príncipe foi o apogeu do triunfo da Igreja católica na Etiópia, mas, ai de nós!, triunfo efêmero, moderado demais para uma longa duração. Os sucessos maravilhosos do P. Paëz deviam-se às suas virtudes apostólicas e a uma ciência multiforme e prática a serviço de seu zelo. Vê-se ele conduzir progressivamente o imperador Socinios da convicção à profissão de fé, d'Almeida, em Beccari, t. VI, p. 489; do reconhecimento de usos, ora abrogados, ora proibidos pelo cristianismo, à adoção das leis tão severas quanto essenciais da moral evangélica. Essa evolução religiosa, da qual o rei era o eixo, se fez em torno dele na corte, com precauções muito calculadas pelo prudente missionário. O monarca, ao tomar posse do trono, viu muitos vassalos, ainda ontem combatentes rebeldes, e submissos não sem rancor nem descontentamentos, e o menor pretexto os teria encontrado prontos para a revolta. O P. Paëz sabia tão bem quanto o rei o quanto o amor-próprio monacal, e, por ele aguçado, o amor-próprio nacional eram um obstáculo inatacável de frente e que infinitas precauções mal conseguiriam diminuí-lo pouco a pouco.
As questões de fundo, embora base do cisma, os teriam deixado bastante indiferentes, mas essa única ideia de ter de reconhecer que, há oitocentos ou novecentos anos, seus antepassados e eles próprios estão no erro, os fere e os revolta. Monofisismo, sabatismo, com razão ou sem ela, eram para eles coisas sagradas, porque tradicionais: crença ancestral, observância ancestral. Firmado nesse princípio do culto da tradição, dos usos e costumes de seus pais, o amor-próprio da raça revestia-se de um fanatismo irredutível. De 1607 a 1622, acompanha-se através desses obstáculos a marcha lenta, mas segura, de Socinios em seu régio desígnio de arrastar a corte primeiro, depois seus acampamentos e todo o seu povo para sua conversão ao catolicismo. É primeiro a simples, mas insistente manifestação de suas preferências pessoais nas justas das discussões religiosas, tema ordinário das conversas no palácio. Essa pressão pelo arrastamento do exemplo, da preferência do rei e da maioria dos grandes que o cercavam, favorecia poderosamente as pregações infatigáveis dos Paëz, Antoine Fernandez, Antoine de Angelis, Louis d'Azevedo, etc., nos acampamentos e nos centros que os príncipes abriam ao seu zelo.
Em 1613-1614, na sequência de vivas controvérsias com os mais versados dos letrados e os mais renomados dos monges, a causa da verdade havia feito tais conquistas na corte que o rei julgou chegado o momento de pronunciar e promulgar como doravante oficial a crença diofisita. O abouna Siméon fez-lhe mesmo admoestações por ter tomado uma determinação a seus olhos tão ruinosa, sem consultá-lo, a ele, o bispo, o guardião da fé e juiz da Igreja da Etiópia. Fez-se justiça à sua queixa; as controvérsias foram reabertas, mas para confusão de sua ignorância, apesar do reforço do enorme cortejo de monges e clérigos que o escoltavam. O resultado foi a confirmação do decreto por uma segunda publicação, motivada pelas provas tiradas dos livros doutrinais, especialmente o Haymanot-Abaw, que faz fé na Abissínia, e pelo testemunho de todos os letrados mais sábios. Impunha a crença nas duas naturezas em Jesus Cristo, e desta vez, sob a sanção da pena capital. O abouna, apoiado pelo ras Amâna Christos, irmão uterino de Socinios e irmão ciumento do ras Sela-Christos, zeloso campeão da fé romana, fulminou a excomunhão contra quem quer que se submetesse ao edito imperial. Era a guerra declarada, e os partidos iriam se decidir.
A excomunhão perturbou as consciências e a corte ficou em grande agitação, embora o prestígio do abouna estivesse perdido e sua autoridade espiritual muito diminuída por causa de seus costumes escandalosos. O imperador não se abalou com isso e manteve-se firme.
— 2° Guerras intestinas. Entretanto, a anarquia fermentava demais para não estourar. Sob os archotes do fanatismo, as províncias estavam em ebulição: o Tigré, o Begameder, o Damot e o Gojjam. Os ras que os comandavam, dissimulando ora sua ambição frustrada, ora seu ciúme descontente, sob o pretexto da fé ancestral, tomaram o partido do abouna Siméon contra o imperador, e sobretudo contra seu rival político, o ras Sela-Christos, a quem sua bravura e seus talentos militares haviam imposto como generalíssimo do exército (1617). Mendez, em Beccari, t. VIII, p. 106. A conjuração partiu para a guerra sob o rótulo « A fé de nossos Pais, o monofisismo. » Julios, genro do imperador, estava à frente da insurreição, acompanhado e abençoado pelo abouna Siméon. As tropas reais os encontraram entre Azazo e Dancaz, em maio de 1617. A vitória favoreceu o partido realista e católico; Julios e o abouna Siméon aí pereceram.
A resistência dogmática estava esgotada; mas, por outro lado, a questão do sabatismo, sob o sopro de um fanatismo inspirado pelos santões, numerosos anacoretas do Damot, reuniu em torno de Ionaël, o vice-rei do Begameder, todo um exército de guerrilheiros. Temiam-se esses frenéticos montanheses e não se escondia que, desta vez, do sucesso dependia a sorte da coroa, de tal modo a opinião pública exaltada havia posto a inquietação nas massas inconscientes. As mulheres, sobretudo subornadas, como « diziam os oficiais, pelos monges que as rondam enquanto estamos em campanha, » fomentavam as perturbações. A derrota de Ionaël no Begameder e a vitória do ras Sela-Christos sobre as bandas amotinadas no Damot (22 de janeiro-3 de outubro de 1621) resolveram ainda essa querela, e o pânico da multidão se acalmou. D'Almeida, em Beccari, t. VI, p. 352-356.
3° Gestão oficial junto à Santa Sé, e conversão efetiva de Socinios. O imperador, encorajado por esses felizes sucessos sobre esses motins, como um sinal das bênçãos do céu, resolveu, após consulta prévia aos grupos crescentes de adeptos entre os príncipes e os letrados, proclamar definitivamente a adesão do império à Igreja católica e fazer o pedido oficial de um patriarca junto ao pontífice de Roma, sucessor de são Pedro.
A vacância da sede pela morte trágica do abouna Siméon apressava a decisão e a execução. O P. Paëz, que havia reconfortado seu régio neófito em meio às perturbações e diante dos levantes populares sob a excitação de monges e eremitas enfurecidos, viera de Gorgora a Dancaz para felicitar Sua Majestade e unir-se às suas ações de graças a Deus, que o favorecera com todas essas vitórias. O Padre aprovou a régia e decisiva determinação; uma proclamação motivada a anunciou a fim de preparar a opinião pública, e ela foi renovada em 1624; ela é: a) um documento dogmático em favor da verdade contra o monofisismo e as consequências absurdas, ou grosseiras, ou contraditórias, e injuriosas à santíssima Trindade, etc.; b) um documento cultual condenando o judaísmo da observância do sábado (sábado), acrescentada à do domingo cristão; c) um documento histórico legitimando o apelo a Roma, a fim de obter um abouna, por motivos baseados na evidente rebelião de Dióscoro contra os 636 Padres do IV concílio (em Calcedônia), e nas prevaricações simoníacas dos abounas nas ordenações, e escandalosas em sua conduta privada, incluindo mesmo os três últimos, Marcos, Pétros, Siméon, notoriamente arruinados em sua reputação por causa de seus crimes inumeráveis.
Certamente, o golpe de Estado assim motivado desafiava toda censura de ilegalidade e de violência à verdade. Toda a corte aquiesceu e prestou juramento de fidelidade. D'Almeida, em Beccari, t. VI, p. 355-358; Mendez, ibid., t. VIII, p. 110-117. Realizado esse grande ato imperial, Socinios cumpriu o ato pessoal, ainda mais decisivo: sua conversão efetiva pela recepção dos sacramentos da penitência e da eucaristia (1622) em Fogara, das mãos do P. Paëz. Um exemplo do caráter mais impressionante nessa conversão foi a renúncia à poligamia; pois ela era, na corte, um obstáculo como que insuperável, dado o direito de cidadania que ali havia adquirido, a ponto de ser admitida não apenas como excepcionalmente permitida e lícita, mas como uma prerrogativa obrigatória da coroa. De que adianta ser « rei, diz um provérbio nacional, senão para gozar de todos os prazeres que sua fortuna lhe oferece, e para se rodear de uma numerosa prole, sua mais bela coroa? » A corte sempre teve seu harém: a esposa da direita, a esposa da esquerda, e toda uma falange de concubinas, sejam habituais, sejam ocasionais. Ora, Socinios, recorrendo ao P. Paëz, havia resolvido voltar à pureza matrimonial da lei evangélica.
Ele guardou apenas a primeira esposa, mãe dos filhos chamados à sucessão do trono. O régio exemplo devia ser seguido por muitos outros no palácio e nos acampamentos. Assim, houve um murmúrio geral de queixas e lamentações, e até de recriminações suscitadas por essa medida, tão falseado estava o senso moral acerca dessa lei fundamental da vida cristã. O divórcio era legal e frequente; o imperador revogou essa legalidade fundada nos hábitos ancestrais, contra os quais já haviam fracassado graves intervenções. Ver acima, col. 939, 950.
4° Graves dificuldades de ordem moral e de ordem litúrgica. 1. Esse novo edito causou ainda mais agitação em todas as camadas da sociedade; e durante os dois anos que se seguiram (1622-1624), os casos de divórcio se apresentaram ainda frequentemente perante os Wonber ou juízes de paz. Estes, não habituados à nova legislação, proferiam suas sentenças conforme o direito estabelecido segundo o modelo da lei mosaica.
Socinios instituiu um tribunal especial para as causas matrimoniais, sob o controle dos missionários, a fim de seguir as regras conformes ao direito divino e aos sagrados cânones. Uma sanção muito rigorosa atingia os refratários, isto é, aqueles que se divorciassem contrariamente a essas disposições: o confisco de todos os bens. Toda separação parecia tornar-se quase impossível. Respondeu-se a isso com tanto mais impaciência e murmúrios quanto os praticantes do divórcio saíam das grandes famílias e principalmente das que eram aparentadas à casa real, senão da própria casa real. Os desvios das volúveis princesas foram tão estrondosos e escandalosos que o descrédito público deu seu nome de Wazero às prostitutas. A licenciosidade dos costumes sob todas as formas tinha pleno direito de cidadania. D'Almeida, em Beccari, t. VI, p. 424. Era, portanto, jogar um jogo perigoso o combater essas desordens, por mais contrárias que fossem à moral cristã. A vã resistência íntima e as manobras surdas, somadas à fermentação endêmica dos descontentamentos da ambição ciumenta e frustrada. Não era preciso mais para envenenar os ódios do fanatismo ancestral e religioso contra os desmancha-prazeres que eram os apóstolos do catolicismo.
A conversão do imperador coroou os trabalhos do P. Pierre Paëz. Sua morte se seguiu de perto, nos primeiros dias de maio de 1622. O rei ficou muito aflito com isso e a corte esteve de luto durante vários dias. D'Almeida, em Beccari, t. VI, p. 359-361. O triunfo da graça sobre o monarca foi, portanto, laborioso e custou sacrifícios pessoais muito penosos; o triunfo da fé sobre o erro nacional foi igualmente muito difícil e custou ao príncipe, ele próprio o diz, d'Almeida, em Beccari, t. VI, p. 490, o risco da vida além de mais de uma cilada e de oposições sem trégua, irredutíveis, na intimidade familiar e nas tramas de fora. Ele havia vencido tudo, seja por sua enérgica inflexibilidade, seja pela feliz fortuna das armas. 2. Nas linhas gerais, a Igreja da Etiópia aparecia oficialmente ligada à Igreja universal. Restavam, contudo, questões litúrgicas e até sacramentais de grande importância, por exemplo, a validade das ordens sagradas e, por conseguinte, a administração dos sacramentos; a própria validade do batismo por causa do teor diverso e defeituoso das fórmulas empregadas; depois a fixação da festa da Páscoa, eixo de todas as festas móveis do ciclo anual.
Em 1625, a festa pascal dos orientais atrasava um mês em relação à da Igreja romana. Viu-se em apuros, por causa das inevitáveis recriminações da multidão ignorante, propensa a ver a ruína da religião em toda mudança cultual. O imperador convidou os missionários a não insistir nesse ponto naquele ano e a preparar com cautela a opinião pública. A solução dessas questões e de outras ainda concernentes à vida espiritual e à organização do ministério eclesiástico permanecia suspensa até a vinda do abouna esperado de Roma.
5° O patriarca Afonso Mendez. — Ato solene de adesão à Igreja romana. Em Roma, houve menos pressa, até hesitação, por causa da desconfiança nascida da ingratidão, da inconstância e da pouca consistência dos mais belos protestos, depois das experiências deploráveis feitas sob os reinados de Glaodios e de Minas. O patriarca Afonso Mendez, aprovado e confirmado pelo papa Urbano VIII, foi sagrado em Lisboa em 12 de março de 1623 e, dois anos depois, em 21 de junho de 1625, chegou à residência de Frémona. O imperador manifestou com isso uma grande alegria e, em uníssono, todo o seu acampamento ressoou de aclamações de júbilo.
Ocupado então na repressão das insurreições das populações judias do Sémièn, apressou seu retorno a Dancaz. A recepção do patriarca ocorreu em 7 de fevereiro de 1626 e foi seguida, no dia 11, do ato solene da profissão de fé e da submissão ao sumo pontífice Urbano VIII. Os dignitários de toda ordem civil e eclesiástica, o séquito do rei e de seu filho herdeiro presuntivo, prestaram o juramento de adesão. Assim se cumpriu o ato oficial pelo qual a Etiópia consagrava sua reunião à Igreja romana. O patriarca o sancionou com uma sentença de excomunhão contra os que fossem perjuros ao seu juramento, e, junto com ele, todos os sacerdotes presentes, latinos e indígenas, pronunciaram o mesmo anátema, segundo o uso abissínio, a fim de que esse aparato de cominações acrescentasse ainda mais efeito às ordenações de tamanha importância. Mendez, em Beccari, t. VIII, p. 170-177.
6° Reformas eclesiásticas — relativas ao sacerdócio, às festas e aos jejuns. Seguiu-se logo a publicação de um decreto imperial proibindo aos membros do clero regular e secular a celebração dos santos mistérios e todo ato do ministério sagrado sem se terem apresentado previamente diante do patriarca, a fim de dar a conhecer o valor de sua ordenação e de prestar juramento de adesão à fé católica, sob pena de morte; 2. a proibição, sob as mesmas penas, de dar ajuda ou refúgio aos refratários obstinados; 3. a ordem de seguir doravante as leis rituais de Roma para a fixação das festas pascais e o jejum da quaresma; 4. uma ordenança especial às damas de sangue real de prestarem os mesmos juramentos de adesão às verdades da fé e às leis da Igreja romana. D'Almeida, em Beccari, t. VI, p. 492. O harém do palácio era um foco das piores intrigas opostas aos atos reais relativos às reformas religiosas e morais que decorrem necessariamente da lei cristã.
— 7º Medidas inquisitoriais. Guerra intestina. Os Padres jesuítas, em número de vinte aproximadamente, e outros tantos colaboradores indígenas, puseram-se à obra da evangelização e da iniciação aos sacramentos, doravante impostas pela lei e vigiadas pelas autoridades oficiais em todas as províncias do império.
Viu-se afluir em massa em torno dos missionários vilarejos inteiros. Uns com sinceridade, outros hipocritamente por medo, recebiam o batismo e os demais sacramentos sob as coerções violentas exercidas sobre os obstinados, até a pena de morte. Foi em todo o reino um sobressalto de emoções pavorosas correndo de aldeia em aldeia, sob um regime de terror. A pressa, a brusquidão, as violências inquisitoriais iriam estragar tudo. Apressou-se demais, abraçou-se demais de uma só vez, em vez de se ater às sábias recomendações de santo Inácio de exigir de início apenas as reformas essenciais, tão urgentes quanto indispensáveis, e de contentar-se em predispor às de menor importância e menos urgentes, a fim de poupar a desconfiança e a suscetibilidade dos espíritos prevenidos. O foco dos descontentamentos surdamente fomentados explodiu subitamente (1628). Serviram de ocasião e de pretexto às ambições e às recriminações políticas. Reporto-me ao juízo severo e fundamentado do P. Beccari, em sua introdução sobre os atos do patriarca Afonso Mendez, t. VIII, n. 8-11, p. XIII-XVI.
Acrescentarei, porém, que se, hoje, apreciamos diferentemente e achamos criticáveis os atos de então segundo nossos costumes atuais, devemos lembrar que o sistema inquisitorial estava correntemente em aplicação na corte da Abissínia e que a opinião pública nada via aí de excepcional. Socinios apenas imitava a crueldade de seu avô Zara-Jacob, sem piedade mesmo para com os seus e mais ainda para com todos os seus súditos. Ver col. 948. O destino o quis, sofre-se fatalisticamente; mas à violência responder-se-á com o motim, isso também está nos costumes. As execuções cruéis semeavam o pavor, a consternação, a irritação. Os fautores de heresia e os cabeças das conspirações aproveitaram-se disso para legitimar suas tramas e impelir à insurreição. O próprio Basilidès, o herdeiro do trono, subornado pela rainha, sua mãe, os encorajava e os apoiava abertamente, contrariando seu pai em todas as suas medidas. A conivência das ambições políticas e das más paixões impacientes com o freio, sob o pretexto do apego à religião nacional, acendeu a guerra civil.
O imperador, envelhecido, esgotado pelas fadigas de debates supostamente pacíficos, mas dos mais odiosos de todos, e por um longo reinado costurado de combates sangrentos, entregou as armas e se declarou incapaz de reprimir o movimento insurrecional que transbordava por todos os lados. O levante do Tigré, na sequência de Takla-Giorgis, genro do rei (1627), teve por causa uma denegação de justiça por parte do sogro sobre a infidelidade escandalosa da Wazero, sua mulher; mas o cavalo de batalha escolhido foi a inquisição que violentava as consciências. Esse levante, mal reprimido, foi seguido de outro, bem mais temível, irredutível, nos montes do Lastâ (1629-1632). Uma centelha ateou esse furioso incêndio. Um oficial do governador do Bégameder, do qual dependia o Lastâ, executou com a brutalidade de um boiadeiro as instruções recebidas de levar as populações a aceitar a fé católica. Os montanheses não eram gado; em vez de serem empurrados em massa como na feira, pediram para ser tratados como seres racionais e ser instruídos previamente na religião que lhes era imposta. Responderam-lhes com extorsões. Os rudes camponeses replicaram aos golpes com golpes.
O conflito tomou mau rumo para os soldados imperiais, que tiveram de fugir. O imperador ficou muito contrariado com esse desagradável caso. Ordenou a repressão. Seguiu-se uma guerra que incendiou o Bégameder, o Amhâra e o Lastâ durante três anos. Os montanheses haviam permanecido muito devotados aos descendentes de seus príncipes Zaguês, que haviam reinado três séculos sobre todo o império. Ver col. 932 sq. Ofereceram o comando a um deles, Melka-Christos, que organizou imediatamente um exército desses rudes alpinos e se entrincheirou nos montes inacessíveis, de onde, na ocasião, desceria para tomar a ofensiva contra os imperiais. As campanhas se sucederam com sortes diversas, mas sem outro resultado que a extermínio e as ruínas (1629-1632). O imperador ficou muito abalado com isso.
8º Declínio da causa católica. Os inimigos da missão católica aproveitaram-se disso para esfriá-lo cada vez mais, apresentando a questão religiosa como a única causa dessas guerras fratricidas, e afirmando que a retirada dos editos ameaçadores restabeleceria a paz no império.
A causa católica havia perdido seus defensores na corte: o ras Keb'â-Christos, vice-rei do Tigré, e Buko, vice-rei do Damot, etc., haviam perecido; o azaj Tino estava em desgraça (foi mais tarde apedrejado pela fé); e as insinuações dos cortesãos e dos príncipes ciumentos do poder do ras Sela-Christos haviam conseguido fazê-lo perder a confiança do rei, seu irmão. Sua desgraça atingiu a santa causa da qual se declarara campeão. Não faziam eles crer ao monarca que esse príncipe tão favorecido visava, no fundo, à ruína do trono e que, de acordo com os Padres jesuítas, preparava a invasão e a conquista pelos portugueses? O imperador se deixava enganar; e essa mistificação o aconselhou a proibir aos Padres a construção de uma residência em Débaroa, no planalto que domina a vertente do mar Vermelho. O clã das damas da corte, a rainha em primeiro lugar, não deixavam ouvir senão essas queixas repetidas como um zumbido que fatiga o ouvido sem trégua. O primeiro sinal do esfriamento do rei para com o patriarca e a santa obra de restauração já bastante avançada foi, portanto, a desgraça imerecida de seu principal defensor.
Assediado por tantos conselheiros hostis, Socinios já havia pedido ao patriarca Mendez a concessão de três coisas aliás dispensáveis, concessão que teria bastado, a seus olhos, para acalmar a efervescência do povo: o retorno às antigas liturgias, semanal para a missa, à abstinência de quarta-feira em vez de sábado, à celebração das festas segundo o calendário etíope. Em 1629, o patriarca concedeu-a, a contragosto, pois temia, não sem razão, abrir a porta a outras concessões fatais. Vitoriosos nesse ponto, os sitiantes desferiram novos assaltos (18 de junho de 1632) a fim de obter a liberdade para as populações de escolher entre uma e outra das duas Igrejas, a romana ou a tradicional. Apesar das preces e das súplicas do abuna Alfonso, o decreto imperial foi publicado em 24 de junho.
— 9º Morte de Socinios, e destruição da missão. O velho imperador, esgotado por tantas questões inquietantes, minado pela doença somada ao declínio da idade, não deveria sobreviver por muito tempo. Chamado à cabeceira do moribundo, em 13 de setembro, o P. Diego de Matos exortou-o a pensar na salvação de sua alma e na fé em que devia morrer. O rei respondeu em voz bem alta e com muito sentimento: «Morro na fé romana; já estou confessado.»
Fez esta recomendação a seu filho Basilidès: «Meu filho, autorizamos a antiga crença por consideração aos camponeses; a fé romana é a boa e a verdadeira. Recomendo-te o patriarca e os Padres.» Rendeu a alma em 16 de setembro de 1632. Foi esse o dobre de finados anunciando sem demora o fim da Igreja católica na Etiópia. O novo rei Basilidès nem sequer esperou a morte de seu pai para proibir doravante toda comunhão com os sacerdotes romanos; e sem tardar, baniu-os do território abissínio. O patriarca Afonso Mendez e outros Padres regressaram a Goa, em 1636. A teologia havia soçobrado — não que não tivesse sido e não permanecesse vitoriosa, invencível em sua dogmática, pois, em seu próprio triunfo, os revolucionários o confessavam —, mas arrastada no naufrágio da moral sob as vagas lamacentas das mais baixas paixões irritadas e furiosas: «Queremos o restabelecimento da Igreja de nossos pais, menos intransigente, ela, mais tolerante e adaptada aos nossos costumes ancestrais.»
— IX. A cristologia. O monofisismo reapareceu à superfície sob o manto de fórmulas equívocas, como que para fazer crer numa transação em que a querela já não passava de um mal-entendido de palavras. Suprimiram-se os termos natureza e pessoa, para se ater à linguagem concreta: «Reconhecemos o Cristo, homem Deus, perfeito, perfeito, o filho de Deus encarnado.»
— 1º Nova orientação das querelas escolásticas. Os debates teológicos haviam atraído e habituado os espíritos às especulações dogmáticas; e as escolas não se ativeram ao enunciado da fórmula conciliadora. Confusamente ao menos, restava algo da verdade católica que havia ressaltado com tanto brilho na argumentação dos Padres jesuítas, entre os dois extremos perigosos do nestorianismo e do eutiquianismo.
O trabalho dos espíritos, então deixados à sua livre evolução, dividiu as escolas em dois campos de opinião: o partido dos discípulos de Takla-haymanot e o dos discípulos de Eustatios, já antagônicos, como vimos, em outras questões culturais. A discussão gira invariavelmente no estreito circuito da cristologia, isto é, da razão intrínseca desse nome ou da unção formadora do Cristo na união da humanidade com a divindade. Jogos bizantinos de outrora. A origem desses debates remonta a um certo maâllem Piétros (não o P. Paëz, que se chamava abba Piétros), mas Pedro Heiling, saxão luterano, vindo à Abissínia com o abuna Marcos, o novo metropolita enviado do Cairo (1637). Era médico de profissão, muito instruído, hábil e astuto, muito versado nas línguas orientais, até no etíope; sua ciência e sua perícia lhe valeram o qualificativo árabe de maâllem. Seus talentos, seus remédios, somados à confiança e à recomendação do abuna, puseram-no em favor junto a Basilidès. Seu antipapismo aumentou seu crédito; e os dois mártires capuchinhos, Agathange de Vendôme e Cassien de Nantes, devem-lhe suas palmas.
Ver sua Vida pelo P. Emmanuel de Rennes, e Le B. Agathange de Vendôme, pelo abade de Préville, Blois, 1905. Seu grande crédito no palácio atraiu junto a ele todos os letrados de toda condição, e seu ódio à Igreja romana retirava toda desconfiança ao sectarismo deles. As conversas cotidianas fizeram de sua morada uma escola, um centro de controvérsia. Certo dia ele lançou esta pergunta: «Cristo significa ungido; em que consiste essa unção? Qual foi seu efeito?» Pergunta muito simples, mas muito insidiosa junto aos monofisitas; é uma centelha que vai novamente pôr o país em chamas, e por três séculos. Não se pode deixar de ver nisso um castigo providencial da rejeição da verdade, sob pretexto de paz nacional. Hist. manuscr. de abba Takla-haymanot. O rei Basilidès convocou um sínodo em Aringo (1654), onde a questão foi posta diante de tudo o que a teologia contava de luzes e de autoridades científicas. Respostas foram dadas, mas não a solução. Ao contrário, o choque das fórmulas propostas pôs todas as escolas em confronto umas com as outras. As disputas estenderam-se das escolas aos campos e, dali, a todas as províncias. Elas vão desembocar na anarquia doutrinal e em discórdias intestinas sangrentas.
— 2º Opiniões e escolas adversárias. Dois sistemas surgiram frente a frente e disputaram a cátedra do ensino oficial, sob os reis Basilidès e Johanès I (1650-1682). A escola os distingue por denominações que indicam o matiz característico das fórmulas que enunciam suas teses opostas. A primeira intitula-se dos Keb'ât, e a segunda dos Sagâ-lidj. Os partidários do primeiro sistema opinam que o Cristo, enquanto homem, tornou-se filho natural de Deus pela unção do Espírito Santo: Ba-Keb'ât Walda-bâhry; a unção divinizou a natureza humana até fazer dela uma só: é o monofisismo absoluto até a absorção. Os adeptos desse sistema são os discípulos de Eustatios em Dabra-Wark, no Godjâm, e em Dabra Bizan, no Hamassèn, de onde se estendem pelas províncias vizinhas do Tigré. Os partidários do segundo sistema sustentam, por seu lado, a) que a unção não eleva de um estado inferior a um estado superior e que ela faz simplesmente do Cristo o segundo Adão ou primogênito de toda criatura: Ba-Keb'ât dâjmâwi Adam, o primogênito, o tronco dos regenerados, e por conseguinte Filho de Deus por graça ou Filho adotivo: Ba-Keb'ât Walda-Sagâ (em amárico — Ya-Sagâ lidj), ou per unctionem factus gratiæ filius; b) que a deificação ou a elevação à qualidade de Filho natural de Deus resultava da união da natureza humana com a divina: Kohara segâ ba-tawâhedo, ou ba-tawâhedo: W'alda-Egziabier, per unionem factus Filius consubstantialis Dei. Cf. Tarika-Nagast, sínodo de outubro de 1681, sob Johannès I. Os partidários desse sistema são os discípulos de Takla-haymanot, do convento de Dabra-Libanos.
São mais importantes pelo número, pela influência e pela extensão no império. No sínodo já citado, o orador de Dabra-Libanos foi o abba Nicolaos, e o de Dabra-Wark, o abba Akala-Christos. Este foi declarado derrotado, graças à parcialidade do rei; a excomunhão sancionou sua derrota e a proclamação da fórmula: Segâ Kabara ou unionem: ba-tawâhedo, per humanitas elevata est (id est, ad esse divinum Filii). Reduzido ao silêncio, mas não vencido, Akala-Christos defenderá ainda assim sua tese com a ajuda de discípulos tão combativos quanto ele e com uma obstinação não desmentida durante mais de vinte e cinco anos; nela tombará como campeão irredutível, na batalha de Kabaro-Méda, sob o reinado de Takla-haymanot (1707). Até então, durante o reinado de Yasu, o Ancião ou o Grande (1682-1706), as discussões não passarão de chicanas em que, sob subterfúgios e ambiguidades de palavras, se dissimularão as duas teses rivais: a natureza humana entrou em participação da natureza divina, pela unção segundo uns, pela união segundo outros.
O imperador Yasu, embora inclinado a favorecer a opinião dos unionistas, trabalhou constantemente para levar as duas escolas à conciliação. As reuniões, as negociações e cinco ou seis sínodos solenes, nos quais esperava dirimir o diferendo, só resultaram em obstinar os partidos em seu respectivo sentimento. A aparência de conciliação ou de aquiescência não foi senão dissimulação. Assim, a fórmula adotada pelo sínodo de 1686 foi concebida nestes termos: Tasar'â ba-hayla-Keb'ât manfas-Kedus, ou Walda-egziabier ordinatus est Filius Dei virtute unctionis Spiritus Sancti. Ela parecia conciliar as duas divergências, que aliás só têm importância no amor-próprio das partes adversárias. A ambiguidade do termo tasar'â ou ordinatus est comportava uma dupla interpretação em conformidade com uma e com a outra das duas teses. Os Keb'âtor, vendo que a interpretação dos adversários remetia à distinção fundamental dos Sagâ-lidj, rejeitaram a fórmula.
— 3º Hostilidades abertas degeneradas em facções. Em assembleias ulteriores, os Keb'âtor ou uncionistas recusaram-se a entrar em discussão, sob pretexto de que não eram livres, já que a excomunhão continuava a pesar sobre eles, mas sobretudo pela razão tácita de que os árbitros pertenciam ao campo dos Sagâ-lidjor ou unionistas.
À excomunhão que lhes proibia a entrada nas escolas, Yasu acrescentou o banimento. Retiraram-se para o Godjâm. — Os exilados, Sedudân foi seu qualificativo, pareciam submissos. Morderam o freio por dez a onze anos, mas não deixaram de manter uma surda agitação. O rei quis pôr-lhes fim e convocou dois novos sínodos em 1697 e 1699. Obteve, não o acordo, mas a submissão à vontade imperial. Os exilados, anistiados, puderam reaparecer em seus mosteiros e suas escolas. Das escolas e dos conventos, as chicanas dos doutrinadores haviam passado para os campos, onde degeneraram em facções e em intrigas políticas que correram por todas as províncias e ali semearam a divisão. As tramas dos monges estenderam-se mesmo além das fronteiras, por emissários junto à corte patriarcal do Cairo, e viu-se suas intrigas coroadas de sucesso pelas nomeações de abunas, em substituição, primeiro de Christodolu I por Sinoda, e depois deste por Marcos IV, ganhos para o monofisismo mitigado dos Sagâ-lidjor.
Com a ascensão de Takla-haymanot (1706-1708), recomeçaram novas tramas. A gestões dos Keb'âtor que solicitavam uma reviravolta a seu favor, o rei respondeu: «É possível restabelecer vossa crença como uma herança ou um feudo? Conceder-vos-ei a convocação de um sínodo onde podereis apresentar e defender vossa tese.» A assembleia realizou-se em Feker-Gemb, no palácio de Gondar (março de 1707). O grande campeão dos Keb'âtor, o abba Walda-Tensûë, esperou reunir os votos a seu favor com uma fórmula nova: Ba-Keb'ât tawâhâdu, ou per unctionem unitus est, isto é, a união é o efeito da unção, ao passo que até então esses dois termos exprimiam dois atos distintos, separados, com seu efeito próprio. Ver mais acima. Essa sutileza não modificava a fórmula primitiva, precisava-a com mais clareza, já que a união deificadora dos Sagâ-lidjoc se tornava resultado da unção. Não contentou ninguém. Os partidos permaneceram, portanto, em linha de batalha como antes. Marcos IV renovou a excomunhão contra os Keb'âtor, e o rei os condenou a ferros. Mesclados depois à insurreição de um pretendente ao trono, Amda-Sion, os doutrinadores do Godjâm pereceram em um combate em Kabaro-Méda, seu famoso líder Akala-Christos à frente (setembro de 1707). Cf. Tarika-Nagast. Com os reis Tewofilos e Yostos (1707-1717), a profissão de fé dos Keb'âtor tornou-se a do império: Ba-Keb'ât Walda-Bâhry, ou per unctionem filiatio ejus naturalis.
Yostos deixou os doutrinadores a seus debates, tendo entrado em relação secreta com três capuchinhos que haviam conseguido penetrar pelo país de Fougn (Sennâr), na província de Walkaït. Daouit III (1717-1721) inaugurará seu reinado com o martírio deles. A posição adquirida pelos Keb'âtor se mantivera durante dezessete anos, e a consagração de um santuário dedicado a seu fundador, Kedus Eustatios, pareceu ser uma garantia oficial disso; mas os Sagâ-lidjoc espreitavam a chegada do novo metropolita Christodolu II (1720). Com efeito, esse abuna, depois de manobrar, deu-lhes a vantagem ao final de uma assembleia tumultuada em que o rei submetera à sua decisão a querela sem saída.
— 4º Alvoroço e massacre. Uma primeira declaração: «Como meus predecessores», por mais oblíqua e insignificante que fosse, parecera antes favorável aos Keb'âtor. Os Sagâ-lidjoc, exasperados, juraram então sustentar sua crença até o extremo, até a morte. Dirigem-se em tropel ao bispo e perguntam se a fórmula publicada pelos Keb'âtor em seu nome era realmente dele. Então Christodolu respondeu: «Minha crença é que, por sua união, o Cristo segundo a carne é filho único do Pai, e que pela unção do Espírito Santo recebeu a qualidade de Messias.»
Foi um delírio de triunfo. Organizam de imediato uma manifestação na capital, no bairro do Éçagé, depois no palácio imperial. Na corte, não se viu com bons olhos essa ruidosa demonstração de caráter sedicioso; ela era uma revanche de rebeldes contra o edito real da véspera. Os Keb'âtor a denunciavam como tal e, sobretudo, acusavam a culpada duplicidade do bispo. Toda a cidade entrou em revolução. Daouit III deu ordem de dispersar o ajuntamento dos Sagâ-lidjoc, à força armada, se necessário fosse. Intimados a se retirar, os manifestantes escoltaram em massa o Éçagé e permaneceram agrupados em seu palácio. Deu-se ordem aos soldados de fazer evacuar. Um monge fanático gritou que via um querubim defendendo a morada do Éçagé; houve, no interior, uma resistência frenética; terminou em massacre geral; mais de cem vítimas, entre as quais as personagens mais elevadas da Igreja da Etiópia. Os que, com o Éçagé Takla-haymanot, escaparam da morte, sofreram a humilhação de serem despidos de suas vestes e as brutalidades mais grosseiras da soldadesca.
Prestou-se conta a Daouit III da terrível execução; e a ausência de indignação diante desse quadro mostrou bem que o rei tivera a vontade de acabar com a seita tornada sediciosa; pois, de ambos os lados, a causa original do diferendo, a fé, já não passava de pretexto às rivalidades e às paixões dos ambiciosos de toda espécie. «Cessai a carnificina, ordenou o rei, basta! Doravante todo atentado será punido de morte.» E a calma se restabeleceu, conclui o cronista. No dia seguinte, foi novamente editada a proclamação da fórmula dos uncionistas. Sob o terror, a conjuração fremia, a inquietação reinava. Os vencidos, embora dizimados, não desarmaram. A derrota chamou a revanche: o rei viria a morrer vítima de um envenenamento.
— 5º Trégua religiosa. Sob Bacâfâ (1721-1730), ao menos, nenhuma querela estrondosa. Depois, as agitações anárquicas que perturbaram os reinados de Yasu II e de Yoas (1730-1769) desviaram os espíritos das questões teológicas. Estas permaneceram confinadas na solidão das escolas ou no recinto das grandes igrejas onde se exercitam os monges e os letrados afetos ao serviço desses santuários. Sua honra será a de ser em breve, sob o regime oligárquico em vias de formação, a consolação e o passatempo dos reis fracos relegados ao Gemb imperial de Gondar (1769-1850).
— 6º Rebento e ramificação das opiniões uncionistas. Operou-se um desvio no ensino até então repartido entre os dois sistemas dos unionistas e dos uncionistas. Em vez de se ater a apreender a efetividade da unção ou da união no monofisismo, uma digressão provocada incidentalmente, como acontece nos cursos escolares, fez recair a atenção dos espíritos sobre o princípio ou o autor da unção, e assim reduzir seus efeitos à mais simples expressão. Keb'âtor e Sagâ-lidjoc estavam de acordo neste ponto: que o Cristo recebeu do Pai a unção do Espírito Santo, conforme os textos do Novo Testamento — os primeiros admitindo-a como causa eficiente da participação na essência divina, e os segundos como causa da qualidade de Messias ou novo Adão; essa consagração messiânica, chamaram-na nascimento espiritual devido à graça da unção, donde Ya-Sagâ Lidj. Daí foram levados a reconhecer na cristologia três nascimentos: 1. geração eterna do Pai; 2. geração segundo a carne de Maria; 3. geração espiritual de Jesus ao estado messiânico ou ao «ser-Cristo».
Essa explicação dos três nascimentos, Sost-ladat, teve curso em Gondar e no sul, por volta do fim do século XVIII. Os Keb'âtor só reconhecem as duas gerações, uma eterna do Verbo, qua unigenitus, e a outra temporal no seio de Maria, qua primogenitus. Mas os Sagâ-lidjoc discorriam longamente sobre esse termo de primogênito; à geração qua novus homo, primogenitus, acrescentavam a geração qua primogenitus omnis creaturas ou o primogênito dos regenerados ou filhos de Deus. 2º ramificação: do meio desse trabalho emaranhado surgiu uma terceira opinião, emancipadora dessas complexidades. Parece ter nascido no Tembièn (Tigray ou Tigré interior), da fantasia de um monge, Abba Adarâ, santão de oráculos muito ouvidos.
As escolas dessa região, constantemente em conflito com os , para quem a unção é tudo no monofisismo, à força de sustentar que é o tawahedo somente que unifica a natureza humana com a divina, negaram toda causalidade qualquer da unção no mistério da encarnação, pela razão de que o Filho de Deus, consubstancial ao Pai e ao Espírito Santo, não poderia receber do Pai o que já possui por sua essência; e que, por conseguinte, na e pela sua união com a natureza humana, era ele o único autor da elevação de sua humanidade à essência divina, de tudo, em uma palavra. Abba Adarâ pregou então esta fórmula Wald-Keb'âï, wald takab'âï, wald Keb', isto é, Filius in semetipso ungens, unctus, unguentum, em oposição à fórmula corrente Ab Keb'âï, wald taka-b'âï, manfas Keb'é, isto é, Pater est ungens, Filius unctus, Spiritus Sanctus unguentum. O Verbo, filho de Deus, encarnando-se em Maria, assumiu, elevou sua humanidade, e sua própria união foi a unção divinizante. Daí ter sido dado aos partidários desse monofisismo extremado o epíteto de Wald-Keb' ou ainda tawahedo, no sentido mais íntegro e absoluto, doravante exclusivo da escola de Dabra-Libanos, sua mãe, estigmatizada com os apelidos de Sost-lidj ou Sost-ladat'.
Os Sost-lidj, com sua tripla geração, são repudiados e tratados de nestorianos, porque, admitindo o tawahedo da união deificante, reconhecer um takab'o ou uma unção geradora do papel messiânico é reconhecer um ser diferente que dele seja o sujeito, Jesus, filho de Maria em carne e osso, na auréola da divindade: dualidade física e hipostática. Contra os Keb'âtos, os Wald-Keb' veem no tawahedo ou na união a causa da transformação da humanidade afogada na divindade, ao passo que eles, os uncionistas, tomam o efeito pela causa ao atribuir à unção a deificação. Contra seus antigos parceiros de Dabra-Libanos, negam a eficácia especial que estes atribuem à unção para o papel messiânico, visto que a unção é resultante da união; pois, uma vez apreendida pela união com a essência do Verbo, a humanidade não é mais senão uma só coisa com ela. Os outros, por sua vez, censuram os Wald-Keb' por reduzirem a nada o papel do homem, o novo Adão, o filho primogênito de toda criatura..., ao atribuírem os dois papéis, o ativo e o passivo, e toda a obra da encarnação ao só Verbo em si mesmo. Ao assumir a humanidade, ele a afoga na divindade; absorvida, ela desaparece na essência divina.
Por isso, deu-se a essa escola o apelido de Karra, «faca», porque sua fórmula é semelhante ao fio de um facão que reduz as carnes a pedaços, e reduz a nada a humanidade. Esse apelido lhes ficou neste refrão popular: Ten't tawahedo-Keb'ât nuio, Karra takiamero, Segâ halaka zen'dro. Era tawahedo-keb'ât que outrora se tangia; Acrescenta-se agora o karra dito cutelo. Ah, num só golpe, toda a carne se fez, num traço! O sistema Wald-Keb' permaneceu a princípio confinado no Tigray (1770-1850), enquanto o sistema Sost-ladat' se estendia das escolas de Gondar ao Choa, apesar da condenação do abuna Kerlos, e ali se estabeleceu sem contestação. Graças às ameaças do abuna Salamâ e de Teodoro (1856), o monofisismo do tawahedo e Wald-Keb' foi proclamado «fé de Estado», imposta sob pena de morte; ele derrubou a opinião choana. Os Keb'âtos guardavam suas posições no Hamassen, no Lasta e no Godjam, mas apagados, entrincheirados num silêncio prudente, sob o jugo de Teodoro e sobretudo o de Johanès IV (1868-1889), cujas conquistas foram as do partido do santão Adarâ, do qual se reclamava em seu triunfo e na posse de todo o império reconstituído em suas mãos. Seu sucessor Menelik manteve as coisas como estavam, e voltou sua atenção para outros cuidados.
X. Estado — no século XIX. 1º O clero secular e regular. O clero ou Kahnat' compreende duas categorias: 1. os clérigos leigos, escolares ou letrados, sob o nome geral de dabtara; 2. os clérigos eclesiásticos. Os primeiros têm o encargo do canto nos ofícios da igreja e do ensino nas escolas. Os segundos têm o das cerimônias, do serviço do santuário, da administração dos sacramentos. Os dabtara, ou clero letrado, desprezam o clero sacerdotal, porque o prestígio da ciência os eleva acima da ignorância clássica dos demais. Os dabtara se recrutam, ou pela descendência natural, pois podem ter família, ou pela livre escolha das vocações nos bancos da escola, para a qual até as famílias de mais alta condição gostam de enviar seus filhos desde a infância. São sustentados pela comuna para a escola, e pela paróquia para o canto na igreja. Os clérigos eclesiásticos dividem-se em regular e secular. Esses dois nomes não correspondem exatamente à classificação que exprimem na Igreja latina. É preciso tomá-los como sinônimos de levítico e monacal, porque o clero secular na Etiópia só compreende sacerdotes ligados pelos laços do matrimônio.
À maneira da tribo de Levi entre os hebreus, esse clero secular forma uma casta, na qual a descendência masculina é destinada ao serviço dos altares, naturalmente, mas não obrigatoriamente; daí chamar-se com propriedade «levítico». Todo sacerdote celibatário deve obrigatoriamente pertencer a uma das duas ordens religiosas reconhecidas na Igreja da Etiópia. Ver mais acima. Eis por que é chamado clérigo monacal, à diferença do clérigo levítico. Além do serviço do culto na igreja e o das bênçãos a distribuir de casa em casa, o pessoal do clero levítico pouco difere do bom camponês preso à gleba; pois, como a gente do campo, os sacerdotes e clérigos casados têm as mesmas preocupações materiais, o mesmo gênero de vida campesina. Os regulares ou monges dependem, por sua admissão e sua formação religiosa, de tal ou tal convento. Mas o número dos que ali guardam a clausura é muito restrito: o abade ou prior, Mamher, o administrador das coisas temporais, Magâbi, e seus assessores, isto é, os religiosos que se ligam a seu serviço ou a seu séquito, depois os velhos impotentes e os noviços, formam o pessoal residente do convento. O monge, como o letrado, é vagabundo.
Enquanto este voa de escola em escola ao sabor de sua curiosidade ou de seu amor pelo estudo, aquele percorre os conventos e sobretudo os castelos, a corte e os acampamentos dos senhores feudais. Os três votos de religião formam virtualmente o fundo da vida religiosa, mas não se assume nenhum compromisso expresso, formal e preciso quanto a eles. O principal consiste nos rigores das austeridades corporais; elas são o termômetro da progressão e da perfeição gradual na santidade monástica. É o ideal..., mas o real? Os próprios residentes do convento vivem pouco em comunidade. Só têm a obrigação de se reunir nos ofícios bem matinais na igreja, sem serem obrigados nem à confissão, nem à comunhão, mesmo anuais, nem à assistência à missa aos domingos e festas; enquanto os oficiantes da semana celebram o santo sacrifício, a maioria dos outros conversa à sombra, no recinto ou cemitério que circunda a igreja. A mesa ou refeitório em comum não é conhecido. Os dignitários vivem do rendimento dos benefícios que lhes são atribuídos, cada um deles mantém sua casa e sua mesa a seu bel-prazer. Quanto aos inferiores encarcerados pelas desgraças da sorte à guarda do convento, o magâbi manda distribuir a cada um sua parte da marmita de favas, lentilhas ou outros gêneros cozidos em água.
Às vezes, nas festas, eles também têm sua taça de uma cerveja forte feita pelos noviços. O traje religioso consiste em usar, desde a entrada, uma blusa ou camisa fechada e que desça pelo menos abaixo dos joelhos; na 1ª profissão, um cinto de couro, ken'ût; na 2ª, uma calota ou barrete branco, primeiro de forma menos alta, o barrete de bênção, e mais tarde de forma alta, o barrete de perfeição; enfim, o escapulário, askéma. Perto de alguns conventos, vê-se, a uma distância discreta, um mosteiro de religiosas dependente da mesma ordem. Elas estão supostamente sob a obediência de uma abadessa. A vizinhança e a facilidade das visitas às celas particulares, aliás construídas isoladamente, dão margem a abusos escandalosos e ao descrédito do convento.
— 2° As igrejas ou edifícios religiosos. Os edifícios religiosos não apresentam todos o mesmo aspecto, embora, no interior, devam todos corresponder à divisão do templo de Salomão ou do tabernáculo de Moisés: 1. o vestíbulo ou átrio, onde se posta o coro dos cantores, Kenê-Mahclêt'; 2. o santo onde se colocam os comungantes, Kedest; 3. o santuário, Makedès, reservado aos sacerdotes e aos ministros. Ver mais acima, col. 966. A forma antiga das igrejas era quadrangular, mais comprida ou profunda que larga. Tinham no interior três naves, como, em geral, as igrejas latinas. Encontram-se vestígios delas em Aksum, etc., e outras inteiramente conservadas em Dabra Damo, em Aiba (monolítica), em Lalibala, etc. Elas pertenceriam ao tipo das antigas basílicas. Por isso são interiormente espaçosas, sem esses muros que formam outro recinto interior reservado: apenas o grande véu as separa do abside ou santuário. O segundo tipo conservou a forma quadrangular, mas a muralha do edifício serve de recinto a uma construção central quadrada ou poligonal, separada ou isolada por uma galeria ou corredor que faz a volta em torno dela e faz as vezes de Kedest, ocupado pelos comungantes; esse edículo interior será o santuário fechado por uma porta; e no interior desse Makedès, atrás de um grande véu, erguer-se-á o altar, uma espécie de armário encimado por um baldaquino, e sobre a mesa acima do armário, coloca-se o tabot', o equivalente de nossa pedra sagrada; consiste numa tabuinha quadrada, de pedra rara ou de madeira dura, com a imagem, seja da cruz, seja da Virgem, seja da Trindade, seja de são Miguel, etc., grosseiramente gravada numa das faces.
Esse tabot' é objeto de um culto exagerado até a idolatria, pois prostram-se em adoração à sua passagem ou na igreja como diante da santa eucaristia no momento da consagração; além disso, a superstição popular atribui a essa tabuinha portátil efeitos prodigiosos de preservação contra as pragas, etc. O terceiro tipo é de forma redonda; é mais moderno; foi tomado de empréstimo da rotunda que circunda o Santo Sepulcro, por devoção a esse monumento santificado e glorioso entre todos. Esse gênero de igreja compreende, pois, duas rotundas uma dentro da outra; o corredor que forma círculo entre as duas é o átrio, Kené mahelêt'; a rotunda isolada no centro se ergue à semelhança do edículo do Santo Sepulcro e se chama o Kedest ou santo, como no tipo precedente; e atrás do véu, ergue-se o altar, como ali, no recesso interior do edículo onde se encontra o túmulo do Senhor. Esse tipo é o mais frequente hoje, talvez por causa da facilidade de construção semelhante à das grandes casas do país, peças circulares cobertas por um teto cônico de palha dominado por uma cruz às vezes de metal, mais frequentemente de madeira, e ornamentada com ovos de avestruz.
Os reis e os grandes tiveram todos, desde sua elevação, o cuidado zeloso de ligar seu nome a algum monumento religioso por eles construído. A antiga capital Gondar contava com 42, antes do saque de 1889 pelos mahdistas; as ilhas do lago Sâna também contam com muitas igrejas reais, e os imperadores escolhiam ali sua sepultura. A Tarika-Nagast' registra isso a cada reinado; mas esses santuários são mais ilustres pela menção dos cuidados, das despesas que custaram e dos nomes de sua dedicação, do que pela arte e pela solidez dos trabalhos. Fora dos monólitos, bem poucas resistiram às injúrias do tempo e conservam a lembrança de sua fundação; talvez as igrejas bem construídas em pedras talhadas pelos Padres jesuítas, em Gorgora, em Azazo, ainda subsistam; a de Frémona foi descoroada e rebaixada à meia altura pelo abuna Salamâ, sob Teodoro II, a fim de descatolicizá-la e de lhe tirar o selo que recordava aos olhos do povo as lembranças da missão do século XVII. As pinturas murais são admitidas como ornamentação das igrejas, mas não as esculturas. Mesmo o crucifixo não suporta o Cristo em relevo; só o desenho é ali gravado a esmo.
As pinturas murais representam na maioria das vezes a Virgem segurando seu divino filho, anjos flamejantes, santos, cenas de martírios ou até mesmo cenas representando os reis, fundadores da igreja, em alguns de seus feitos; é antes grotesco. As imagens visariam imitar as do estilo bizantino, mas geralmente sem gosto, sem proporções, etc. Excetuem-se as pinturas das atuais igrejas reais, devidas a mãos mais formadas nessa arte.
— 3° Missões católicas no século XIX. Citações incidentais, feitas mais acima, col. 960, já advertiram que, desde o golpe de ruína desferido contra a missão dos Padres jesuítas, a S. C. da Propaganda, recentemente instituída, havia enviado missionários experientes, filhos de são Francisco, ao resgate dos náufragos e dos destroços da Igreja católica na Etiópia. As tentativas sucederam-se às tentativas sem sequer conseguir transpor a fronteira estritamente interdita a todo sacerdote do Ocidente. Somente em 1839, as missões católicas puderam enfim se implantar e logo se desenvolver em diversas regiões da Etiópia.
Tendo o ensaio do venerável Justino de Jacobis, da congregação da Missão, aberto o grande campo da Abissínia e das regiões limítrofes, os lazaristas guardaram a Alta Etiópia propriamente dita; os capuchinhos, na esteira do ilustre cardeal Massaja, em 1846, ficaram encarregados das dependências Gala; e a oeste, Dom Comboni abre um pouco mais tarde um novo vicariato apostólico em Cartum, nas regiões sudanesas. Enfim, em 1894, a nova colônia, adquirida pela Itália sob o nome de Eritreia, forma uma prefeitura apostólica, um quarto lote confiado aos capuchinhos. Ver t. I, col. 542-543, e o mapa das missões católicas da África. A Igreja católica começa, pois, a reviver na Etiópia, apesar dos obstáculos, das oposições, até mesmo das perseguições. Penosamente, lentamente, cada uma dessas quatro missões continua as investidas e as aberturas para penetrar mais adiante, estender-se mais longe e restabelecer ali a verdadeira fé. Até a hora presente, o imperador Menelik, embora não hostil, não concedeu sequer o mínimo de liberdade para estabelecer alguma obra católica fora das posições ocupadas antes de sua ascensão ao trono.
Voir, pour plus ample information, Massaja, I miei trenta-cinque anni di missione nell'alta Etiopia, 5 in-8°, Rome, 1895-1898; Piolet, Les missions catholiques françaises au XIXe siècle, Paris, s. d., pour la mission d'Abyssinie, t. I, p. 1-44; pour la mission Galla, p. 45-78; Mgr Demimuid, t. I, Vie du vénérable Justin de Jacobis, 2e édit., Paris, 1906; H. Froidevaux, dans le Dictionnaire d'histoire, t. I, col. 227-235; G. Larigaldie, Le vénérable Justin de Jacobis, Paris, 1911. Goez, Fides, religio moresque Æthiopum, Paris, 1541; Alvarez, Historique description de l'Ethiopie, Anvers, 1558; surtout Ab. d'Almeida, Historia general de Ethiopia, par B. Tellez, 1660; Ludolf, Historia æthiopica, in-fol., Francfort, 1681; Id., Ad historiam æthiopicam commentarius, Francfort, 1683; les deux ouvrages réunis, Francfort, 1691; L. de Torretta, Historia ecclesiastica... de la Etiopia, in-4°, Valence, 1610; trad. portugaise avec additions de A. Colasso, in-4°, Evora, 1611; N. Godignus, De rebus Abyssinorum, in-8°, Lyon, 1615; J. U. Wildt, Ecclesia æthiopica breviter adumbrata, in-4°, Strasbourg, 1664; J. C. Dannhawer, Ecclesia Æthiopiae breviter adumbrata, in-4°, Strasbourg, 1672;
J. M. Vansleb, Histoire de l'Église d'Alexandrie, in-12, Paris, 1677; M. Geddes, The Church history of Ethiopia, in-4°, Londres, 1698; E. Renaudot, Historia patriarcharum Alexandrinorum jacobitarum, in-4°, Paris, 1713; Oertel, Theologia Æthiopum, Wittemberg, 1740; La Croze, Histoire du christianisme d'Ethiopie et d'Arménie, La Haye, 1733; A. J. Letronne, Matériaux pour l'histoire du christianisme en Egypte, en Nubie et en Abyssinie, in-4°, Paris, 1833; R. Basset, Études sur l'histoire d'Ethiopie, Paris, 1882; I. Guidi, Il Fetha Nagast o la legislazione dei re, Rome, 1897-1899; Uno squarcio della storia ecclesiastica di Abissinia, dans Bessarione, fasc. 19, 50; Le liste dei metropoliti di Abissinia, ibid., 1899; C. Beccari, Rerum æthiopicarum scriptores occidentales inediti a sæculo XVI ad XIX, 14 in-8°, Rome, 1904-1911; E. Littmann, Geschichte der äthiopischen Litteratur, dans Geschichte der christlichen Litteraturen des Orients, Leipzig, 1907; Corpus scriptorum christianorum orientalium, Scriptores æthiopici, sect. II, t. III, Historia regis Sarsa Dengel; t. V, Annales regum Johannis I, Iyasu I et Bûkâffâ; t. VI, Annales regum Iyasu II et Iyo'as; t. XVII, Acta S. Yared et S. Pantalewon; t. XX, Acta SS. Basalota Mikâ'êl et Anoréwos; Acta S. Aaronis et Philippi; t. XXI, Acta S. Eustathii; t. XXII, Acta S. Mercurii (Sârqorewos); t. XXIII, Acta S. Ferê-Mikâ'êl et S. Zar'a-Abrehâm; t. XXIV, Acta S. Abâkrazun et S. Hawaryât; t. XXVIII, Acta martyrum; I. Guidi, Le synaxaire éthiopien. Mois Sané, dans Patrologia orientalis, Paris, 1907, t. I, p. 519-705; Mois de Hamlé, ibid., 1911, t. VII, p. 205-456; le Mois de Nahasé sera au t. VIII, fasc. 5; I. Guidi, Abyssinie (Église d'), dans le Dictionnaire d'histoire et de géographie ecclésiastiques, Paris, 1909, t. I, col. 210-227; M. Chaîne, Ethiopia, dans The catholic encyclopedia, New-York, 1909, t. V, p. 566-571. Une bibliographie plus complète jusqu'en 1893 est donnée par G. Fumagalli, Bibliografia etiopica, Milan, 1893, et par U. Chevalier, Répertoire, Topo-bibliographie, col. 7-8, 1050-1052
Autor original: E. Coulbeaux
A extração e a tradução foram feitas por IA e em caso de algum erro podem entrar em contato com o editor