ESPAGNE — (ÉGLISE D'). AS CIÊNCIAS SAGRADAS. I. Idade Média. II. Tempos modernos, visão geral. III. Trabalhos escriturísticos. IV. Teologia dogmática e polêmica. V. Teologia moral e casuística. VI. Teologia ascética e mística. I. IDADE MÉDIA. Desde a aurora da Idade Média, as ciências sagradas parecem querer tomar um impulso maravilhoso. Trazida do arianismo ao catolicismo pelo cuidado de seus grandes bispos, a Igreja da Espanha terá seu doutor e seu guia na pessoa de santo Isidoro de Sevilha. Isidoro nasceu em Cartagena na segunda metade do século VI. Formado na escola de são Leandro, seu irmão, trabalhou primeiro com ele para trazer os fiéis de volta à religião católica. Em seguida, empreendeu, sobretudo por meio dos célebres concílios de Toledo, dos quais foi a alma, dar-lhes uma sólida organização; elevá-los e instruí-los nas ciências divinas e nas ciências humanas, e assim se tornou o pai e o promotor de um grande movimento científico. Não se contentou com um ensino oral, compôs ainda obras enciclopédicas, das quais a mais célebre é a das Etimologias. Formou assim discípulos ilustres que, por sua vez, criaram ou revitalizaram novas escolas e lhes deram um impulso tal que sobreviveram às invasões muçulmanas, várias vezes seculares.
O movimento isidoriano perpetuou-se sobretudo nas escolas de Sevilha, Toledo e Saragoça, onde brilharam os Ildefonso, os Julião, os Braulio, os Tajón, etc. Em suma, Isidoro foi para a Espanha o que foram, nessa mesma época ou um pouco mais tarde, Cassiodoro e Boécio para a Itália, Beda para a Inglaterra, Alcuíno e Mamerto Cláudio para a França e a Alemanha, e deve ser colocado entre os grandes instrutores do Ocidente. As invasões dos discípulos do Corão paralisaram esse belo movimento. O clero fez grandes esforços para conservar a tradição científica; mas que podia a melhor boa vontade em meio a tantas ruínas e a tantas calamidades! Contudo, os estudos não foram abandonados; e foi na Espanha que o famoso Gerbert veio iniciar-se nos segredos da ciência. Além disso, a vida intelectual teve um grande desenvolvimento entre os muçulmanos de Córdoba, e os católicos espanhóis não deixaram de sofrer a influência de seus dominadores. Assim, à medida que conseguiram libertar-se do jugo estrangeiro, estabeleceram por toda parte escolas que foram o berço das brilhantes universidades da idade de ouro.
Várias dessas escolas começaram a ter certa importância já no século XIII e no século XIV; no século XV, a universidade de Salamanca ocupava um lugar à parte, e sua reputação começava a estender-se para além da Península. Durante o último período da Idade Média, a Espanha deu à luz um homem de gênio, Raimundo Lúlio, esse homem prodigioso que criou do nada uma filosofia nova, e que sozinho representa todo um movimento. Dotado de vistas largas e elevadas, esse filósofo ousou pretender converter todo um mundo por meio de uma ciência maravilhosa da qual era o autor. Deixou após si discípulos entusiastas que perpetuaram sua doutrina. Estes fizeram ouvir sua voz em várias universidades e difundiram os ensinamentos de seu mestre na Catalunha, no Aragão e no reino de Valência. No início do século XVI, o grande Ximenes tinha formado o projeto de estabelecer cátedras para explicar o lulismo em todas as universidades da Península. Em nossos dias, Lúlio ainda tem discípulos, e sua doutrina continua a ser ensinada e defendida por homens de profundo saber. No decorrer desse mesmo período, a Espanha conta, além disso, com escritores que não são sem mérito.
No século XIII, são Raimundo de Peñafort deixou trabalhos de primeira ordem sobre o direito canônico e a moral. No início do século XIV, o franciscano Antônio Andréa, aragonês, um dos mais fiéis discípulos de Escoto, escreveu excelentes comentários sobre as Sentenças de Pedro Lombardo. Por volta do ano de 1460, o Padre Francisco Ximenes, também franciscano e patriarca de Jerusalém, compunha um grande número de obras que tiveram, mais tarde, a honra de numerosas edições. No século XV, o dominicano João de Torquemada escreveu um tratado sobre a Igreja muito notável, enquanto Afonso Tostado, bispo de Ávila, fazia para si um nome célebre entre os comentadores da Sagrada Escritura. De uma fecundidade prodigiosa, escreveu 27 in-fólios, dos quais 24 de comentários. Poderíamos aumentar nossa enumeração; mas temos pressa em passar à idade de ouro da ciência espanhola. — II. TEMPOS MODERNOS. — Visão geral. Ao mesmo tempo em que via o Novo Mundo oferecer um campo imenso à sua atividade, a Espanha acabava de libertar-se do jugo dos Mouros, e reconstituía sua unidade nacional. Seus generais conquistavam-lhe reinos, e suas uniões davam-lhe impérios.
A Espanha colocava-se em primeiro plano entre as nações europeias pela abundância de suas riquezas, pelo poder de seus exércitos e pela extensão de suas possessões. Não se contentou com essa grandeza material; teve ainda a ambição de colocar-se em primeiro lugar nas ciências e nas artes. Esse foi o sonho de Isabel a Católica e sobretudo do gigante que foi Ximenes. Tornado arcebispo de Toledo e primaz da Espanha, esse franciscano concebeu o vasto desígnio de dotar seu país de um centro intelectual capaz de rivalizar com a célebre universidade de Paris, que, havia mais de três séculos, detinha o cetro. Com esse propósito, criou Alcalá. Fê-lo com tanta sabedoria e tal altura de vistas que, desde a sua origem, essa escola pôde disputar a palma com os centros intelectuais mais poderosos da Europa. Essa fundação deu às ciências eclesiásticas na Espanha um impulso irresistível, e é com justiça que Ximenes é considerado o verdadeiro criador do grande movimento teológico espanhol. A criação de Alcalá estimulou o zelo da universidade de Salamanca, que pretendia manter o primeiro lugar na Espanha; e as duas ilustres rivais, igualmente célebres pelo talento dos mestres e pelo entusiasmo dos discípulos, tornaram-se dois viveiros de doutores em todas as formas do saber eclesiástico.
A Espanha viu desenvolver-se simultaneamente o dogma, a moral, a ascética, a mística, a exegese, o direito canônico, todos professados por homens de primeiro valor. O impulso foi incomparável, e atingiu seu apogeu no fim do século XVI e no início do XVII. Quando os erros do protestantismo fizeram nascer novos problemas tanto na moral quanto no dogma, os sábios espanhóis mostraram-se aptos a elucidá-los em um sentido sempre ortodoxo; e a fé da Península não pôde ser abalada. Sem dúvida, a preservação do contágio deveu-se em grande parte a uma Inquisição severa; mas a ciência dos teólogos também teve nisso ampla participação. Sabe-se o papel importante que desempenharam os sábios de Salamanca e de Alcalá nas solenes assembleias que a Igreja docente realizou em Trento para deter o contágio e opor-se a seus estragos. Com o século XVIII, a Espanha sábia declinou lentamente. Sua prodigiosa vitalidade enfraqueceu-se, e as ciências eclesiásticas perderam vigor. Os escritores da segunda parte do século XVII e os do XVIII são geralmente inferiores aos primeiros. Sem dúvida, os enormes in-fólios não são raros então; mas já não trazem o cunho pessoal impresso nos da época anterior.
Se a doutrina permanece pura, íntegra e sem mescla, ela já não é exposta senão por doutores de segunda ou terceira ordem. A Espanha intelectual logo não viverá mais senão de seu glorioso passado. Durante o século XIX, a organização dos concursos impede o alto clero de esquecer as ciências sagradas; é sempre o mesmo ensino que persiste. Os espanhóis de hoje ainda buscam a teologia em seus autores da idade de ouro. O papel brilhante que desempenharam há pouco no concílio do Vaticano mostra bem que não estão de todo errados. Deve-se desejar que, em vez de se contentarem em registrar, em seus manuais, as descobertas modernas, enriqueçam a herança de seus pais com seus próprios trabalhos. Parecem, porém, decidir-se a tomar maior contato com os outros centros intelectuais da Europa; mas ainda estão em segundo plano no movimento científico contemporâneo. — III. TRABALHOS ESCRITURÍSTICOS. Nos primeiros dias do século XVI, o cardeal franciscano Ximenes de Cisneros concebeu o plano de sua célebre Poliglota, e fê-lo executar pelos primeiros sábios da época, na nascente universidade de Alcalá.
Essa obra é a mais importante que os espanhóis escreveram sobre os nossos Livros Sagrados; primeiro, porque é concebida segundo os verdadeiros métodos dos estudos escriturísticos; em seguida, porque dá a esses estudos sua verdadeira orientação, desejada havia tanto tempo pelo frade menor Rogério Bacon; enfim, porque imprime a essa orientação um movimento decisivo e irresistível. Ela honra não só o grande homem que a concebeu e a Espanha que no-la deu, mas ainda todo o mundo cristão que dela herdou. Assim como, pela fundação de Alcalá, Ximenes merece o nome de criador do grande movimento teológico espanhol, tem direito, por sua Poliglota, ao título glorioso de restaurador dos estudos escriturísticos na Igreja de Deus. Ximenes não se contentou em traçar as grandes linhas da nova orientação, quis ainda assegurar o sucesso de seu método e torná-lo duradouro por meio do ensino das línguas orientais. Conseguiu-o perfeitamente, pois os teólogos de Alcalá só se julgavam verdadeiramente dignos desse nome se pudessem ler a Bíblia no texto original. Aquele que melhor entrou nas vistas de Ximenes foi o célebre Bento Arias Montano.
Educado em Alcalá, ali adquiriu uma erudição imensa, e quando Filipe II quis editar a nova Poliglota de Antuérpia, Arias Montano encontrou-se de todo preparado para executar essa empresa difícil e levar a uma perfeição maior a obra do cardeal. O que sobretudo lhe assinala um lugar à parte é uma preciosa obra em nove livros sobre as antiguidades judaicas, na qual cria uma nova ciência. A escola de Alcalá produziu outra obra não menos estimada, da pena de Luís de Tena, doutor e professor nessa mesma universidade. Intitula-se Isagoge totius Scripturæ. Graças ao estudo das línguas, os espanhóis puseram à luz comentários muito notáveis e numerosíssimos; citaremos apenas os mais importantes. Entre esses comentadores, uns, como João Mariana e Manuel Sá, interpretaram quase toda a Escritura; outros limitaram-se ao Antigo ou ao Novo Testamento. Os comentários dos jesuítas Gaspar Sanchez, Francisco de Ribera, João de Pineda, os do beneditino José de la Cerda, do cisterciense Cipriano de la Huerga, do agostiniano Luís de León e do dominicano Tomás de Malvenda são muito estimados. Roma e a Itália devem à Espanha vários de seus melhores exegetas.
Basta citar os três jesuítas Francisco Tolet, Bento Pereira e Afonso Salmerón, cujos trabalhos são de primeiro valor. Por seus comentários sobre os quatro Evangelhos, o P. João Maldonado, jesuíta, ocupa um lugar sem igual entre todos os exegetas espanhóis. Todos esses escritores pertencem à idade de ouro da Espanha. Encontram-se ainda comentadores no século XVII e no XVIII; mas seu valor vai diminuindo; e hoje a ciência escriturística deseja ter outro Ximenes que lhe devolva a vida e o movimento. Devemos assinalar, porém, a obra do P. Murillo, jesuíta, sobre o Evangelho de são João, publicada nos últimos anos, que não é sem mérito. IV. TEOLOGIA DOGMÁTICA E POLÊMICA. — Nos séculos XIV e XV, três grandes doutrinas repartiam entre si a vida teológica na universidade de Paris: o tomismo, o escotismo e o nominalismo. Cada uma, como tinha seus partidários e seus defensores, tinha também seus contraditores e seus adversários. Essas mesmas doutrinas tornaram-se o fundo de todo o ensino teológico das universidades espanholas. Já desde o início do século XV, o escotismo e o tomismo foram ensinados em cátedras públicas em Salamanca, e para o fim do século ali se ergueram cátedras para o ensino do nominalismo.
Ao criar a universidade de Alcalá, Ximenes ali estabeleceu cátedras para os três grandes sistemas, e essas cátedras subsistiram durante a idade de ouro da teologia espanhola, de tal modo que se deve dizer que a Espanha deu asilo à teologia de Paris. O nominalismo, depois de ter reinado em Paris durante quase duzentos anos, tinha feito sua entrada na Espanha com o agostiniano Francisco de Córdoba e Martinho Siliceo, tornado mais tarde cardeal e primaz da Espanha. Mas estava sem chefe, ou antes, seu verdadeiro chefe, aquele a quem se chamou com justiça o príncipe dos nominalistas, Guilherme de Ockham, não tem a autoridade que dá uma vida irrepreensível. Falta-lhe a auréola de que estão cercados o doutor angélico e o venerável Duns Escoto; mais ainda, carrega para sempre uma mancha indelével que lhe imprimiu sua revolta contra João XXII. E por isso não se gosta, com razão, de colocar-se sob sua tutela e proclamar-se seu discípulo. Os quatro mestres do nominalismo: Durando, Auriol, Gregório de Rimini e Gabriel Biel, não têm o valor de verdadeiros chefes. Além disso, o nominalismo não tem uma ordem religiosa para sustentá-lo e defendê-lo; assim, depois de ter feito uma entrada brilhante na Península, não tardou a apagar-se como sistema.
Os teólogos beberam abundantemente em seus tesouros; foi muitas vezes sem o dizer. Vários enriqueceram-se com seus despojos, mas preferiram atribuir a si mesmos a propriedade deles. Continua sendo verdade que há, entre os teólogos espanhóis, muito mais páginas nominalistas do que se creria à primeira vista, notadamente entre os escritores da Companhia de Jesus: Molina, Vasquez, Suárez, Arriaga, Eusébio Amort, etc. Amort pôde escrever, no século XVIII, que a escola dos jesuítas não é senão a própria escola nominalista. O escotismo tinha um chefe, e um chefe venerável. Ele inspirava mais simpatia e mais respeito; os franciscanos, irmãos de Duns Escoto, estavam ali para defendê-lo e propagá-lo. Ximenes o tinha posto em primeiro lugar em Alcalá.
Infelizmente para a escola escotista, seis anos depois da morte do grande cardeal, a ordem de são Francisco renunciou ao ensino público; desde então as cátedras de Escoto foram confiadas a mestres que pouco se importavam com a glória do doutor sutil, e que preferiam apropriar-se de suas doutrinas sem sequer nomeá-lo, como muito justamente observava o P. Delgadillo em seu prefácio ao tratado dos anjos. Foi uma desgraça para a escola escotista, pois os frades menores tinham então mestres que em nada ficavam atrás dos mais ilustres da época; e sem dúvida alguma a escola do doutor sutil teria brilhado com um esplendor incomparável. Basta recordar os nomes de Carvajal, Castro, Miguel de Medina, Orantes, Vega, Córdoba, Angles, etc., todos teólogos de primeira força. Não se deveria crer, porém, que o doutor sutil carecesse de partidários. Teve brilhantes representantes sobretudo nos claustros franciscanos. No grande convento de São Francisco, em Salamanca, no de São Diego, em Alcalá, e mais tarde no convento de Saragoça, elaboraram-se célebres obras escotistas. Vários comentaram os livros das Sentenças ad mentem Scoti; outros comentaram diretamente o Opus Oxoniense do doutor sutil; outros ainda compuseram tratados ou cursos completos de teologia segundo o pensamento do mesmo doutor.
Para não sair dos limites que nos traçamos, contentar-nos-emos em fornecer uma lista de teólogos que nos deixaram obras inteiramente escotistas. São primeiramente os Padres Francisco Herrera, João de Ovando, Mateus de Sousa, João de Rada, que escreviam em Salamanca por volta de 1600. Depois vêm os Padres João Merinero, Pedro de Urbina, Francisco Félix, Cristóvão Delgadillo, Francisco del Castillo Velasco, João Muñoz, Miguel de Villaverde, Francisco Diaz, João Sendin e João Bernique, da escola de Alcalá, entre 1630 e 1680. Enfim, os Padres Jacinto Hernandez, de la Torre, João Perez Lopez, Antônio Lopez, Antônio Castel, Tomás Francès de L'Utigoyti e Jerônimo de Lorte, sucederam-lhes em Saragoça para o fim do século XVII. A todos esses autores vêm juntar-se, de diferentes províncias, os Padres Brás de Benjumea, Tomás Llamazarès, Tomás de São José, Gregório Ruiz, Afonso Brizeno, Damião Giner, João da Encarnação, Jerônimo Tamarit, João de Iribarne, Francisco de Ovando. Vários desses escritores têm grande valor, como Herrera, Merinero, del Castillo; e a comparação que João de Rada estabelece entre as doutrinas tomista e escotista em seus 4 in-fólios valeu-lhe uma reputação universal; não queremos outra prova disso senão as múltiplas edições que se fizeram dele sucessivamente em Salamanca, 1599, em Veneza, 1599 e 1616, em Colônia, 1616 e 1620, e em Paris, na casa de Arnauld Littat.
A série dos escotistas continua durante o século XVIII e é desde então aumentada por certo número de autores estranhos à ordem de são Francisco. O tomismo, que em Paris tinha sido posto em inferioridade pelos nominalistas durante tantos e tão longos anos, tomou sua revanche no século XVI. Salamanca foi o berço dessa poderosa restauração, e o dominicano Francisco Vitória, o principal promotor desse grande movimento. Vitória tomou por texto de suas lições a própria Suma de são Tomás; e seu método teve tal sucesso que foi primeiro adotado por seus numerosos discípulos e depois por todas as universidades. É com justiça que se pode chamar esse douto teólogo o restaurador do tomismo. O método deveu seu sucesso à altura de vistas do Padre Vitória, que não temeu lançar por sobre bordo certas teses bastante comprometedoras para o tomismo em geral. O que lhe deu um futuro assegurado foi a aplicação inteligente que dele fizeram toda uma plêiade de espíritos de elite. Que nomes, com efeito, os de Soto, Cano, Medina, Bañez, Álvarez, Ledesma, Lorca, João de Santo Tomás, Valentia, Tolet, Molina, Suárez, Vasquez, etc. Sobre os Salmanticenses, ver t. II, col. 1785-1786.
Mas o que mais poderosamente contribuiu para dar a são Tomás uma autoridade e um prestígio que não tinha até então foi o ato pelo qual o dominicano, tornado papa sob o nome de Pio V, colocou o poderoso chefe de escola entre os doutores da Igreja. Esse ato teve um alcance considerável; ligou ao tomismo as ordens religiosas que se encontravam sem verdadeiro chefe, ao mesmo tempo que a grande maioria do clero secular. Entretanto, produziram-se então duas correntes entre os que se diziam tomistas. Houve os tomistas autênticos, que se recrutaram sobretudo entre os dominicanos, e os tomistas não autênticos, que se recrutaram fora de suas fileiras, principalmente entre os jesuítas. Os Padres da Companhia tinham adotado são Tomás para a teologia. Mas os espíritos de elite que entraram na ordem recém-estabelecida não quiseram deixar-se aprisionar num sistema. Consentiram, sim, em interpretar são Tomás, em intitular suas obras comentários de são Tomás, mas entenderam, uns mais outros menos, comentar com independência. Seguindo um método antes eclético, permitiram-se corrigir, modificar e transformar as doutrinas do mestre. Os tomistas autênticos protestaram contra essa interpretação, foi em vão.
Os de Salamanca quiseram, em 1627, proscrever as doutrinas opostas à de são Tomás. Mas essas medidas de ostracismo só fizeram dar mais voga às doutrinas combatidas, e, durante os séculos XVII e XVIII, os ensinamentos de Suárez, que eram especialmente visados, encontraram nas universidades da Península partidários que os expuseram e os defenderam não sem brilho. Quando dizemos que os teólogos espanhóis reproduzem as doutrinas dos séculos XIII e XIV, não pretendemos tirar-lhes todo mérito pessoal. É justo reconhecer que os primeiros mestres da idade de ouro reformaram a escolástica e a trouxeram de volta ao poderoso método dos doutores de outrora. Ximenes tinha chamado a atenção dos teólogos para o valor da prova escriturística. Afonso de Castro tinha refutado os hereges à maneira dos mestres; mais ainda, em seu primeiro livro, tinha fixado os lugares teológicos próprios à polêmica em geral. Um terceiro franciscano, o P. Luís Carvajal, tinha composto um tratado, impresso em Colônia, em 1545, para reformar a teologia. Os dominicanos Francisco Vitória e Domingos Soto, os franciscanos André Vega e Miguel de Medina tinham escrito obras totalmente clássicas, e em tudo conformes aos verdadeiros princípios de uma sã e substancial teologia.
Mas será a glória do dominicano Melchor Cano ter reunido em sua imortal obra De locis theologicis o conjunto das leis e dos princípios capazes de manter a teologia em seu verdadeiro caminho. Nessa obra, traçou regras próprias para guiar o teólogo, para permitir-lhe apreciar em seu justo valor as provas teológicas; em suma, essa obra tornou-se um capítulo capital da teologia, e exerceu uma imensa influência sobre todos os teólogos posteriores. Ver t. II, col. 1537-1540. Os teólogos espanhóis não apenas reformaram a teologia, trazendo-a de volta às suas verdadeiras fontes, mas também trabalharam para elucidar todas as questões novas suscitadas pela pretensa Reforma. No concílio de Trento, foram dois espanhóis, o dominicano Soto e o franciscano Vega, que desempenharam o papel principal nas questões tão difíceis da justificação. A obra deste último sobre a justificação mereceu ser impressa em Veneza em 1546 e 1548, em Alcalá em 1564, em Colônia em 1572, em Aschaffenburg em 1621, em Colônia em 1685; e o P. Canísio, não encontrando nada melhor para opor aos protestantes, dela fez fazer uma edição em 1572. As questões da graça e do livre-arbítrio foram levadas adiante com grande vigor perante a congregação De auxiliis, e, embora não se tenha resolvido o problema, é preciso reconhecer que a discussão projetou sobre ele muita luz.
O predeterminismo, o molinismo, o congruísmo não foram erigidos em sistemas sem um grande esforço intelectual e sem um poder pouco comum. A polêmica nasce do choque das doutrinas entre católicos e não católicos. Ela só é possível e só pode desenvolver-se se os dois adversários gozam de certa liberdade de fato, que lhes permite expor as razões ou aparências de razões em favor de suas respectivas teorias. Na Espanha, a Inquisição suprimia a controvérsia. Não se pedia aos hereges que provassem o que afirmavam, tirava-se-lhes o direito de existir; suprimiam-nos. Era o direito da verdade de guardar suas posições e de não permitir que o erro a suplantasse. Entretanto, como a coroa da Espanha se estendia sobre as províncias do Norte infestadas pelas heresias de Lutero e de Calvino, os teólogos espanhóis voltaram sua atenção para os erros novos, e forneceram armas para combatê-los muito utilmente, nos tratados que lhes opuseram. Aquele, de todos os espanhóis, que merece ser colocado em primeiro lugar sob esse ponto de vista é o sábio franciscano Afonso de Castro. Sua obra contra os hereges é absolutamente clássica e a melhor nesse gênero.
Mereceu ser editada sucessivamente em Paris em 1534, 1565, 1571 e 1578, em Lyon em 1541 e 1546, em Veneza em 1546, em Antuérpia em 1568, em Madrid em 1773. Sua outra obra, intitulada De justa haereticorum punitione, teve oito edições, em Salamanca em 1547 e 1557, em Lyon em 1556, em Paris em 1565, 1571 e 1578, em Antuérpia em 1568, em Madrid em 1773. Seu tratado De potestate legis pœnalis, dividido em dois livros, obteve sete edições em Salamanca em 1550 e 1551, em Lyon em 1556, em Paris em 1565, 1571 e 1578, e em Madrid em 1773. Ver t. I, col. 905-906. Castro tinha combatido todos os hereges antigos ou modernos. Vários atacaram todas as heresias protestantes, outros contentaram-se com simples questões particulares. O franciscano Francisco Orantes, discípulo de Castro, compôs uma obra intitulada De theologicis locis contra Calvinum. Outro franciscano, Miguel de Medina, a quem um bispo de Trento chamava o Hércules da teologia, escreveu um tratado muito douto, De recta in Deum fide, e um tratado extremamente erudito sobre o celibato. Antônio de Córdoba, também franciscano e discípulo de Castro e de Medina, compôs vários tratados contra os protestantes, que foram editados várias vezes em Toledo, em Veneza, em Roma e em Ingolstadt; o conjunto se intitula Quaestionarium theologicum.
O jesuíta Valentia tornou-se muito célebre como controversista. Foi ensinar em Ingolstadt e teve brilhantes discípulos; os grandes controversistas alemães foram formados em sua escola. Outro jesuíta, o P. Francisco de la Torre, merece, também ele, um lugar de honra entre os adversários da Reforma. Deveríamos ainda mencionar o beneditino Antônio Pérez, o cisterciense Pedro de Lorca, o dominicano Pedro Soto e muitos outros; mas devemos limitar-nos. Estes poucos detalhes bastam para mostrar que a polêmica não foi negligenciada na católica Espanha. — V. Teologia moral e casuística. Os escolásticos da Idade Média não separavam a moral do dogma; as duas partes da teologia eram expostas nos quatro livros das Sentenças, que serviram de texto durante três séculos. Dogma, moral, casuística estavam compreendidos nessa obra única. No século XIV, começou-se já a escrever Sumas de moral e Sumas de casos de consciência. As mais célebres são as dos franciscanos Astesano e Angelo de Clavasio e a do dominicano santo Antonino. Ver seus artigos. Contudo, ainda não se tinha uma teoria orgânica da moral.
Foi um espanhol, Bartolomeu de Medina, da ordem de são Domingos, quem, primeiro, tratou sistematicamente do probabilismo em seu comentário à Suma de são Tomás; foi seguido nesse caminho por todos os seus confrades de Salamanca. O P. Vasquez introduziu o probabilismo nas escolas da Companhia de Jesus e foi seguido pela grande maioria de seus confrades. Mais tarde, um jesuíta espanhol, o P. Tirso Gonzalez, tornado geral de sua ordem, tentou impor o probabiliorismo a seus confrades, mas sua tentativa permaneceu infrutífera. Devemos dizer, em louvor dos moralistas espanhóis, que são geralmente moderados. Os dominicanos Vitória, Soto, Medina, Bañez, Álvarez, João de Santo Tomás, Ledesma, os jesuítas Vasquez, Suárez, Valentia, Tolet, Sanchez, Castropalao, de Lugo, os franciscanos Córdoba, Angles, Villalobos, Manuel Rodriguez, os capuchinhos Torrecilla e Corella, o carmelita Lezana e os Salmanticenses, o cisterciense Lorca, o agostiniano Barbosa, são todos moralistas moderados e de grande valor. Contudo, alguns caíram no sentido de um laxismo comprometedor para a moral cristã. Desse número foi o cisterciense João Caramuel, a quem santo Afonso de Ligório chama o príncipe dos laxistas.
Ver t. II, col. 1709-1712. Em compensação, mal conhecemos rigoristas na Espanha. Coisa digna de nota, os dominicanos espanhóis são moderados, ao passo que os das outras nações têm antes uma tendência ao rigorismo; basta citar Noël Alexandre, Contenson, Vicente Baronio, Billuart e Vicente Patuzzi. Este último colocou-se como adversário de santo Afonso de Ligório. Não podemos entrar em detalhes. Baste-nos dizer que a moral organizou-se sobretudo nos tempos modernos e que os espanhóis contribuíram para isso em grande parte. É a Espanha que forneceu o maior número de moralistas de valor, e ela conta em suas fileiras vários príncipes da moral. O cardeal de Lugo não foi superado. A casuística não é senão a aplicação prática dos princípios da moral aos diversos casos particulares e concretos que se apresentam na vida do homem. Devemos aqui dizer uma palavra sobre a casuística na Espanha. Além de seus canonistas e seus moralistas, que são todos mais ou menos casuistas, a Espanha teve seus casuistas propriamente ditos. Devemos citar primeiro o franciscano Antônio de Curara, que escreveu um manual dos confessores e dos penitentes. Essa obra, impressa em Toledo em 1557, adquiriu grandíssima celebridade pelos comentários que dela fez o famoso Martinho de Azpilcueta Navarro, uma das mais brilhantes luzes do direito canônico na Espanha. Essa obra teve um número muito grande de edições.
Alguns anos mais tarde, o célebre franciscano Antônio de Córdoba, que era consultado de toda a Espanha como um oráculo sobre todas as questões de moral, publicou em língua espanhola uma Suma de casos de consciência. Ela teve um bom número de edições, entre outras a de Toledo 1583, a de Alcalá 1592, etc.; apareceu também em italiano em 1599. Ver t. II, col. 1872. Em 1622, outro franciscano, o P. Henrique de Villalobos, depois de ter ensinado moral em Salamanca durante 30 anos, publicou uma Suma de teologia moral e canônica que teve 11 edições em 10 anos, e que mereceu ser traduzida para o latim, o italiano e o francês. Em 1601, o P. Emanuel Rodriguez, também franciscano, professor de teologia em Salamanca, compôs, entre outras obras, uma Suma de casos de consciência que apareceu nesta cidade em 1604, 1607 e 1616, em Barcelona em 1616, em Madri e em outros lugares. Foi traduzida para o latim e apareceu em Douai em 1614, em Colônia em 1620, em Veneza em 1622; foi, além disso, traduzida para o italiano. Entre os grandes casuístas, é preciso ainda colocar o jesuíta João Azor, cujas Institutiones morales, publicadas em Roma em 1600, foram desde então frequentemente reeditadas na França, na Itália e na Alemanha.
Ver t. I, col. 2053. Na segunda parte do século XVII, houve ainda casuístas famosos. Baste-me nomear o capuchinho Martinho de Torrecilla, cujos pareceres eram muito procurados por seus compatriotas e que deixou sozinho toda uma biblioteca de moral. As obras de outro capuchinho, o P. Jaime de Corella, formam por si sós uma verdadeira enciclopédia, como diz muito justamente o P. Torrecilla. As edições repetidas que delas se fizeram mostram em que estima essas obras eram tidas na Península. — VI. Teologia ascética e mística. A Espanha é por excelência, no século XVI, a terra clássica da teologia ascética e mística. Assim que Ximenes instalou sua tipografia em Alcalá, ele se preocupou em fazer editar às suas custas várias obras italianas ou alemãs para ensinar aos espanhóis essa parte da ciência sagrada. Fez sucessivamente aparecer em castelhano ou em latim as cartas de santa Catarina de Sena, as obras de santa Ângela de Foligno e da B. Mectilde, a Escada de são João Clímaco (Clímaco), as regras de vida de são Vicente Ferrer e de santa Clara, as meditações sobre a vida de Jesus Cristo de Ludolfo, o Cartuxo. Todos esses escritos foram lidos avidamente pelos espanhóis.
Estes não tardaram a compor eles mesmos obras análogas. Os franciscanos Afonso de Madri, Antônio de Guevara e sobretudo Francisco de Osuna publicaram tratados ascéticos de grande valor que mereceram um grande número de edições e foram traduzidos para várias línguas. O terceiro Abecedário deste último foi mais tarde a obra preferida de santa Teresa, como podem testemunhar as inúmeras anotações que ela fez à margem do exemplar de seu uso, e que se conserva como uma relíquia da santa. Foi ali, segundo o P. Antônio de São Jorge, carmelita, que ela aprendeu a oração de quietude. O dominicano Luís de Granada exprime, numa língua maravilhosa cujo segredo ele detém, uma doutrina pura, abundante e absolutamente admirável; ele não foi superado. Não conhecemos nada mais delicioso que as meditações sobre o amor de Deus do franciscano Diego de Estella. Sua obra sobre a vaidade do mundo, assim como o tratado do reino de Deus, de seu confrade em religião o P. João dos Anjos, são de uma grande riqueza de pensamento, de imaginação e de sentimento. A Escada da vida espiritual do P. Diego Murillo e a obra da perfeição cristã do jesuíta Rodriguez são manuais clássicos por excelência.
As obras de João de Ávila, do cartuxo Antônio de Molina, do agostiniano Afonso de Orozco, do jesuíta Luís do Ponte, que respiram uma piedade e uma unção maravilhosas, fazem-nos passar do ascetismo para a mística propriamente dita. Basta nomear Pedro de Alcântara, João da Cruz, Jerônimo Graciano e a seráfica Teresa para evocar a lembrança do que há de mais elevado na mística cristã. A santa do Carmelo tratou dos estados místicos com um método perfeito. Ela sintetizou em sua obra todo o movimento místico do século XVI. Muitos lhe comunicaram suas luzes; os carmelitas, os jesuítas, os franciscanos, os dominicanos e o clero secular influenciaram sua direção. Ela soube aproveitar de todos e permanecer ela mesma, e assim se colocou na primeira fila dos autores místicos. Ver t. I, col. 2050. Todos os autores acima enumerados escreveram no século XVI. Ver t. I, col. 2053. Durante os séculos posteriores, a Espanha ainda teve escritores de grandíssimo valor nessa ciência. Tais são João de Palafox, bispo de Osma, o jesuíta Eusébio de Nieremberg, o franciscano Antônio Arbiol, etc. Mas não podemos nos estender. Não nos é permitido, entretanto, passar em silêncio a Cidade mística de Deus, escrita pela venerável Maria de Ágreda. Atacada por uns com uma paixão manifesta, defendida por outros com uma constância incansável, essa obra teve uma multidão de edições, e o que se escreveu a seu respeito forma toda uma biblioteca. Nela se misturaram questões de política e disputas de escola. Sem querer nos ocuparmos dos debates suscitados no século XVII, basta-nos dizer que um grande número de teólogos, e dos melhores, julgaram que essa importante obra podia proveitar grandemente às almas. Ver t. I, col. 627-631
Autor original: P. Dominique de Caylus
A extração e a tradução foram feitas por IA e em caso de algum erro podem entrar em contato com o editor