ESDRAS E NEEMIAS (LIVROS DE)

ESDRAS E NEEMIAS (LIVROS DE)

ESDRAS E NEEMIAS (LIVROS DE). Em hebraico, ʿEzrâ, ao qual se acrescenta Nehemyâh. Nos Setenta ⟦grego ilegível⟧, compreendendo os dois livros, o segundo trazendo a inscrição ou ⟦grego ilegível⟧ʹ, ⟦grego ilegível⟧ʹ. Na Vulgata Liber primus Esdræ, liber Nehemiæ : Esdræ qui et secundus dicitur. Várias razões impõem a reunião num único artigo das questões relativas a esses dois livros. Os problemas de ordem literária e histórica que eles suscitam, em grande número, não podem ser tratados separadamente, e sua história nos ensina sua unidade primitiva. Na Bíblia hebraica, Josefo não conhece senão um único livro de Esdras, compreendendo o de Neemias, pois, de Moisés a Artaxerxes I, conta apenas treze livros históricos. Cont. Apion., i, 8. O Talmude, na enumeração dos livros transmitidos pelos doutores, menciona apenas Esdras, escrito pela personagem do mesmo nome, que continuou as genealogias das Crônicas até seu tempo. Baba Bathra, fol. 14b, 15a. Os massoretas não pensam de outro modo e contam, para o livro de Esdras, 685 versículos cujo meio se encontra em Neh., iii, 32. Enfim, certo número de manuscritos hebraicos transcreve o livro de Neemias como a segunda parte de Esdras, às vezes sem deixar nenhum intervalo entre os dois escritos. De Rossi, Variæ lectiones Veteris Testamenti, Parma, 1788, t. iv, p. 157.

Foi somente no século XVI que se introduziu na Bíblia judaica a prática da divisão em dois livros. 523 Na versão dos Setenta, a separação talvez tampouco seja original; manuscritos muito antigos, tais como o Vaticanus, o Alexandrinus e o Sinaiticus, reproduzem sob o mesmo título ⟦grego ilegível⟧ʹ e ⟦grego ilegível⟧ʹ, os dois livros reunidos; contendo o escrito apócrifo chamado terceiro livro de Esdras. Swete, The Old Testament in Greek, Cambridge, 1896, t. ii. Na Igreja cristã, conheceu-se e por vezes adotou-se o uso judaico. Orígenes, que distingue os dois livros, não ignora sua reunião em um só na Bíblia hebraica. Eusébio, H. E., vi, 25, P. G., t. xx, col. 581. São Jerônimo escreve a Paulino : Ezras et Nehemias... in unum volumen coarctantur. Epist., liii, ad Paulinum, n. 7, P. L., t. xxii, col. 548 ; Præf. in lib. Esdr., P. L., t. xxviii, col. 1403. A mesma afirmação se encontra em numerosos escritores gregos e latinos. Vigouroux, Dictionnaire de la Bible, t. ii, col. 1934.

Certos cânones latinos da Bíblia mencionam apenas um único livro de Esdras, assim o catálogo do codex Claromontanus, do codex Amiatinus, de um manuscrito de Bobbio, publicado por Mabillon, Museum italicum, Paris, 1687, t. i, p. 397. Em vários manuscritos da Vulgata, Esdras e Neemias são divididos como um todo único, em sessenta e cinco, trinta e seis ou trinta e oito capítulos. S. Berger, Histoire de la Vulgate pendant les premiers siècles du moyen âge, Paris, 1893, p. 349. A antiga Vulgata latina compreendia talvez os dois livros reunidos. Loisy, Histoire du canon de l'Ancien Testament, Paris, 1892, p. 92. Sobre a origem da divisão em dois livros, faltam precisões; não se poderia atribuí-la à dificuldade de transcrever a obra num único volume; a razão que pode valer para Samuel, os Reis, as Crônicas, não existe para Esdras-Neemias, que, mesmo somados, não ultrapassam a extensão de uma ou outra metade desses livros. A inscrição que marca o início do atual Neemias pode ter sido tomada pelo título de um livro novo. L. Gautier, Introduction à l'Ancien Testament, Lausanne, 1906, t. II, p. 380. Foi em Alexandria que a divisão teria sido introduzida pela primeira vez no texto. Orígenes em Eusébio, H. E., vi, 25, P. G., t. XX, col. 581. Que essa divisão não seja original, os testemunhos acima relatados o indicam suficientemente, como aliás a história da composição do livro. Ver mais adiante.

— Texto e versões. II. Canonicidade. III. Modo de composição. IV. Data de composição. V. Autor. VI. Objetivo. VII. Valor histórico. VIII. Cronologia. — IX. Comentários.

— I. Texto e versões. 1. O texto original dos livros de Esdras e de Neemias chegou até nós, parte em hebraico, parte em aramaico. 1° Texto hebraico. No conjunto, esse texto, tal como o temos, está num estado bastante defeituoso, sobretudo no que diz respeito aos números, às listas e à ordem das passagens, provavelmente transtornada. A. Klostermann, art. Esra und Nehemia, dans Realencyclopädie für protestantische Theologie und Kirche, Leipzig, 1898, t. v, p. 514-515, e os comentadores. — Edições críticas. S. Baer, Libri Danielis, Esdræ et Nehemiæ, Leipzig, 1882; H. Guthe e L. W. Batten, The Books of Ezra and Nehemiah, Leipzig, 1901, dans a edição policromada de P. Haupt, The sacred books of the Old Testament; M. Löhr, Libri Danielis, Esræ et Nehemiæ, Leipzig, 1906, à parte e em Kittel, Biblia sacra, Leipzig, 1905-1906, p. 1185-1221. Do ponto de vista da língua, há que distinguir entre os diferentes elementos constitutivos do livro; de um lado, as Memórias de Esdras e de Neemias, de outro, a parte narrativa que lhes serve de certo modo de moldura.

Sem dúvida, por toda parte se reencontram traços de decadência, comuns à literatura hebraica posterior ao exílio, mas enquanto esses traços são particularmente marcados e numerosos em uma dessas partes, na outra, a das Memórias, sobretudo as de Neemias, o hebraico é mais fácil e mais natural, o vocabulário menos rico em palavras e expressões de baixa época e a sintaxe mais clássica. As Memórias de Esdras não se distinguem tão nitidamente do resto do livro, talvez porque o redator tenha tomado mais liberdade em sua transcrição, ou então porque este último e o autor das Memórias, por sua comunidade de origem e de funções, estavam mais familiarizados com as coisas do templo e de seu culto, das quais falam nos mesmos termos. Driver, Introduction to the literature of the Old Testament, Edimburgo, 1898, p. 553. Ao lado dos aramaísmos, cumpre assinalar a introdução, fácil de compreender, de palavras de origem assírio-babilônica e persa. Ryle, The books of Ezra and Nehemiah, 1893, p. lix, dans Cambridge Bible for schools and colleges. Ver ainda, sobre o texto hebraico, Böhme, Ueber den Text des Buches Nehemias, Stettin, 1871; Cheyne, From Isaiah to Ezra, dans American Journal of Théologie, julho de 1901, p. 433-441; P. Riessler, Der Urtext der Bücher Esdras und Nehemias, dans Biblische Zeitschrift, 1906, t. IV, p. 113-118.

— 2° Texto aramaico. Documentos oficiais, Esd., IV, 8-22; v, 6-17; vi, 6-12; vii, 12-26; o relato da reconstrução do templo, iv, 23-vi, 18, chegaram até nós em aramaico, sob a forma do dialeto ocidental, o da Bíblia e dos targuns. O aramaico de Esdras parece, no entanto, pertencer a uma época mais antiga que o de Daniel e se aproximar mais da língua dos documentos recentemente descobertos em Assuã e Elefantina. Sayce e Cowley, Aramaic papyri discovered at Assuan, 1906; Sachau, Drei aramäische Papyrusurkunden aus Eléphantine, Berlin, 1907.

As semelhanças são numerosas e impressionantes; contudo, esses papiros, todos datados do século V antes de Jesus Cristo, aparecem como um pouco mais antigos que os documentos aramaicos de Esdras em seu estado atual; é o que prova sobretudo o emprego de z em vez de d, nos pronomes demonstrativos e relativos, e também o emprego normal do sufixo em hôm (hwm) em vez de hôn. Lagrange, Les nouveaux papyrus d'Éléphantine, dans la Revue biblique, 1908, p. 337. « Fragmentos (da parte aramaica de Esdras) remontam certamente à época persa e a comparação com os papiros de Elefantina não permite fazer descer o conjunto abaixo da época alexandrina. » J.-B. Chabot, Les langues et les littératures araméennes, Paris, 1910, p. 10.

Ao contrário da maioria dos críticos, Torrey data as partes aramaicas de Esdras do século II ou III antes de Jesus Cristo, recusando-se a reconhecer nelas uma língua mais antiga que em Daniel. Ezra Studies, Chicago, 1910, p. 161-166. Edições especiais da porção aramaica : K. Marti, Kurzgefasste Grammatik der biblisch-aramäischen Sprache, Berlin, 1896; H. Strack, Grammatik des biblisch-aramäischen, 5e édit., Leipzig, 1911; Torrey, op. cit., p. 184-207. O estado de conservação das passagens aramaicas é, no conjunto, muito satisfatório; encontram-se nelas certo número de palavras estrangeiras, persas, babilônicas, gregas. Cf. Torrey, op. cit., p. 166-177; Tony André, L'araméen d'Esdras, Genève, 1895.

— II. Versões. 1° Gregas. 1. A dos Setenta. O livro de Esdras-Neemias foi provavelmente traduzido para o grego na mesma época que o livro dos Paralipômenos, isto é, o mais tardar antes de meados do século II antes de nossa era, se Eupolemus, que se servia da versão grega das Crônicas, for de fato aquele que menciona 1 Mach., viii, 17. H. B. Swete, Introduction to the Old Testament in Greek, Cambridge, 1900, p. 24-25.

Onde encontrar atualmente essa versão dos Setenta? Está no Ἔσδρας Β ou no Ἔσδρας Α de nossos manuscritos gregos? Problema análogo ao que apresentam as duas versões de Daniel. Segundo a maioria dos críticos, Ἔσδρας Β seria a verdadeira tradução dos Setenta, em estrita conformidade com o texto massorético, sem nenhuma pretensão de estilo; Ἔσδρας Α, ou o apócrifo, ou ainda o III livro de Esdras, seria, ou uma simples compilação do grego dos Setenta, redigida para leitores gregos, incomodados pelo literalismo estrito da versão canônica (Keil, Schürer, Bissell), ou então o retrabalho de uma versão grega anterior, mas completamente independente da dos Setenta (Ewald). Para outros, o apócrifo representaria uma tradução mais antiga e melhor do que a reproduzida nos livros canônicos, a qual, esta sim, não seria senão a obra de Teodocião. Essa hipótese, já formulada por vários autores desde o século XVII (Grotius, Whiston, Pohlmann, Lagarde), foi exposta novamente por Howorth, primeiro numa série de artigos da Academy de 1893, The real character and the importance of the first book of Esdras, e The true Septuagint Version of Chronicles-Ezra-Nehemiah, depois mais longamente em Proceedings of the Society of Biblical archæology, 1901-1902.

O principal argumento invocado em favor da hipótese era a existência de numerosos traços de origem tardia observados na versão grega canônica, comparada sobretudo à do apócrifo, que representaria a verdadeira versão dos Setenta, suplantada pela de Teodocião na coletânea dos Livros sagrados.

Torrey pretende acrescentar à demonstração uma prova nova, e desta vez decisiva, ao reencontrar no texto grego canônico do grupo Paralipômenos-Esdras-Neemias um traço característico do modo de traduzir de Teodocião, a saber, a simples transcrição em caracteres gregos das palavras hebraicas difíceis ou duvidosas. Op. cit., p. 70-77. Cf. Field, Origenis Hexapla quæ supersunt, Oxford, 1875, t. i, p. XL sq. A tese da anterioridade e da superioridade da versão de Ἔσδρας Α sobre a de Ἔσδρας Β estende suas conclusões ao próprio texto massorético, que estaria menos próximo da forma original do livro do que o apócrifo; « se houvesse, diz Howorth, um dos dois livros a rejeitar como apócrifo, seria Ezra (o canônico), e não Esdras (o III), que deveria sê-lo. » Academy, 1893, p. 11. Jahn, Die Bücher Esra (A und B) und Nehemja, Leyde, 1909, p. iii; Riessler, Der literarische Wert des dritten Esdrasbuches, dans Biblische Zeitschrift, 1907, p. 146-158; Theis, Geschichtliche und literarkritische Fragen in Esra 1-VI, Munster en Westphalie, 1910, p. 6-34, estes dois últimos católicos, aderiram à tese da anterioridade e da superioridade de Ἔσδρας Α.

Aos argumentos tirados do estudo e da comparação dos textos, acrescentam-se outros fornecidos pela história desses mesmos textos. Na Sinagoga, na Igreja primitiva até São Jerônimo, era grande o crédito do livro que chamamos apócrifo. Josefo, em sua grande obra sobre as Antiguidades judaicas, toma-o por guia sem consideração pelo livro canônico, o que prova a consideração de que gozava então o III livro de Esdras. Cf. Hölscher, Die Quellen des Josephus für die Zeit vom Exil bis zum jüdischen Krieg, Leipzig, 1904. Tanto na Igreja grega quanto na Igreja latina, os Padres o citam frequentemente e o empregam como livro canônico; numerosas referências em Pohlmann, Ueber das Ansehen des apokryphischen dritten Buches Esras, dans Tübinger Theologische Quartalschrift, 1859, p. 263 sq. O favor de que gozara esse apócrifo entre os judeus de língua grega, a grande semelhança que guardava com os livros recebidos por todos como canônicos explicam essa atitude, autorizada ainda por sua admissão nas Hexaplas de Orígenes. Howorth, The Hexapla and the Tetrapla of Origen, and the light they throw on the books of Esdras A and B, dans Proc. of the Soc. Bib. arch., 1902, p. 147-171.

Enfim, sua designação de Ἔσδρας Α (Ἔσδρας Β Esdras-Neemias), e o lugar que ainda lhe é dado, embora bastante raramente, nos catálogos de livros sagrados, mostram que, mais do que qualquer outro apócrifo, era estimado; foi preciso nada menos que a autoridade de São Jerônimo para impor sua rejeição pela tradição latina : Nec quemquam moveat, escreve ele em seu prefácio ao livro de Esdras-Neemias, quod unus a nobis liber editus est, nec apocryphorum tertii et quarti somniis delectetur; quia et apud Hebræos Esdræ Nehemiæque sermones in unum volumen coarctantur, et quæ non habentur apud illos, nec de viginti quatuor senibus sunt, procul abjicienda. P. L., t. xxviii, col. 1403. São Jerônimo, no entanto, não inovava ao se pronunciar tão formalmente contra o III livro de Esdras (Howorth, The modern Roman Canon and the book of Esdras A, dans The Journal of theological studies, 1906, p. 343-354), e pela designação de Esdras I e II ele não entendia outra coisa que Orígenes e os concílios africanos, que neles reconheciam Esdras e Neemias segundo o texto massorético, e não Esdras A e B dos manuscritos gregos. H. Pope, The third book of Esdras and the Tridentine canon, ibid., 1907, p. 218-232.

Apesar desse conjunto de argumentos trazidos pela crítica e pela história dos textos, a tese favorável ao apócrifo não conseguiu, no entanto, impor-se à maioria dos críticos; estes, diz a Revue biblique na resenha do livro de Torrey, Esra Studies, 1910, p. 623, « a consideraram quase unanimemente como um paradoxo » ; continuam a considerar o III livro de Esdras como de época tardia, por causa de sua grande semelhança com o grego de Ester e do I livro dos Macabeus, por causa também do caráter de compilação de certas passagens, manifestamente tomadas de empréstimo aos livros canônicos, por exemplo, o decreto de Dario, III Esd., iv, 47 sq. Cf. Fischer, Das apocryphe und das kanonische Esrabuch, dans Biblische Zeitschrift, 1904, p. 351-354. Das discussões sobre esse assunto, cumpre reter que o apócrifo, oferecendo uma versão independente da dos Setenta, fato que parece bem estabelecido, poderá ser utilmente consultado para a crítica textual, e também para o estudo literário e histórico, em razão das indicações que dele se podem tirar sobre a origem de nossos livros canônicos e sua cronologia.

Sobre o III livro de Esdras, veja-se, quanto ao texto, Swete, The Old Testament in Greek, Cambridge, 1896, t. II, p. 1-161 ; e quanto aos problemas que suscita, independentemente dos trabalhos acima mencionados, Calmes, « Esdras (terceiro livro de) », dans Vigouroux, Dictionnaire de la Bible, t. II, col. 1943-1945 ; Thackeray, First book of Esdras, dans Hastings, Dictionary of the Bible, p. 758-763 ; W. J. H. Moulton, Ueber die Ueberlieferung und den textkritischen Wert des dritten Esrabuches, dans Zeitschrift für alttestamentliche Wissenschaft, 1899, p. 200 sq. ; 1900, p. 1 sq. ; Volz, dans Cheyne, « Ezra (the greek) », Encyclopaedia Biblica, t. II, p. 1488-1494 ; T. André, Les apocryphes de l'Ancien Testament, Florence, 1903, p. 132-146, 160-165 ; Schürer, Geschichte des jüdischen Volkes im Zeitalter Jesu Christi, Leipzig, 1901-1909, t. III, p. 444-449, avec une abondante bibliographie ; Ed. Bayer, Das dritte Buch Esdras und sein Verhältnis zu den Büchern Ezra-Nehemia, Fribourg-en-Brisgau, 1911, dans Biblische Studien, t. XVI, fasc. 1 ; P. Riessler, Der textkritische Wert des dritten Esdrasbuches, dans Biblische Zeitschrift, 1907, t. V, p. 146-158.

A versão dos Setenta, cujos três principais manuscritos, Vaticanus, Alexandrinus e Sinaiticus, apesar de suas divergências, derivam de um mesmo texto primitivo, é caracterizada por sua docilidade à letra hebraica e sua indiferença às exigências do ouvido grego; assim se compreendem facilmente as tentativas de correção de que foi objeto, entre outras, a recensão de Luciano, e os acréscimos ao Sinaiticus, provenientes, segundo a subscrição de Neemias e de Ester, de um exemplar muito antigo assinado por Panfilo, que o teria corrigido segundo o próprio texto de Orígenes nas Hexaplas. Klostermann, op. cit., p. 510 ; Torrey, op. cit., p. 105-113.

Edição crítica dos Setenta : Swete, The Old Testament in Greek, t. II, p. 162-212 ; quanto aos manuscritos e às diferentes edições, cf. Swete, Introduction to the Old Testament in Greek, Cambridge, 1900, p. 122-195. Edição da recensão de Luciano : Lagarde, Librorum Veteris Testamenti canonicorum pars prior graece, Gœttingue, 1883. — 2. Outras versões gregas. — Da versão de Teodocião, as Hexaplas não oferecem nenhum texto, cf. Field, op. cit., sem dúvida, dirão os partidários do apócrifo, porque é preciso buscar a obra desse tradutor no grego canônico. De Áquila e de Símaco nenhum vestígio certo foi até o presente reencontrado.

siríacas. — 2° Versões. Já no século IV, esses livros, que não faziam originalmente parte da Peschito, eram traduzidos para o siríaco, como resulta das citações feitas por Afraates e santo Efrém. Em 616-617, Paulo de Telia traduziu para o siríaco a versão grega do Antigo Testamento, a partir da edição das Hexaplas, donde o nome siro-hexaplar. O literalismo, que é uma das características dessa versão, torna-a muito útil para a crítica do texto alexandrino; infelizmente, o codex de Másio (André Maes), que continha Esdras e Neemias, desapareceu. Numa Chaîne do British Museum, encontram-se passagens dele. J. Gwynn, Remnants of the later syriac versions of the Bible, part. II, Old Testament, Londres e Oxford, 1909. Cf. Swete, Introd., p. 113. A versão siríaca que possuímos seria de época tardia, e o mais das vezes uma simples paráfrase do hebraico, influenciada pelo texto dos Setenta. Klostermann, op. cit., p. 504-507. Segundo Torrey, a Peschito não teria compreendido Esdras-Neemias.

— 3° Versões latinas. Sobre as antigas versões latinas, veja-se Volkmar, Esdras propheta, ex duobus manuscriptis Italiae, Tubingue, 1863. São Jerônimo fez sua versão por volta de 394 a partir do hebraico, mas sem deixar de recorrer às antigas traduções gregas, entre as quais soube escolher com habilidade, permanecendo ainda sob a influência de seus mestres judeus. Klostermann, op. cit., p. 513-514. 4° Versão etiópica. O livro de Esdras, traduzido a partir do grego, foi editado por A. Dillmann, Berlin, 1894, t. V, Libri apocryphi. — 5° Versão gótica. Ver E. Launer, Die got. Nehemiafragmente, Sprottau, 1903.

Versão árabe. Tardia e de pouca utilidade para a crítica textual, sobretudo no livro de Neemias, a versão árabe ressente-se da influência dos Setenta e da tradução siríaca. Klostermann, op. cit., p. 501-503; S. Rœdiger, De origine et indole arab. lib. V. T., Halle, 1829, p. 78 sq. Os livros de Esdras e de Neemias, assim como o de Daniel, não tiveram — provavelmente — targum.

II. Canonicidade. 1° No judaísmo. O livro do Eclesiástico, composto por volta de 180 antes de nossa era, faz o elogio dos antepassados de Israel, cf. xliv-xlix, com base nos antigos escritos bíblicos. Entre outras omissões características, encontra-se a do nome de Esdras, ao passo que Zorobabel e Neemias são celebrados, um por ter reconstruído a casa de Deus, o outro por ter reerguido os muros da cidade, xlix, 11-13. Essa omissão não implica necessariamente o desconhecimento da personagem, nem tampouco do livro de Esdras, já que se faz alusão aos acontecimentos nele relatados, mas «o papel histórico de Esdras não havia até então sido exagerado pela lenda, e a figura de Neemias ainda dominava a do famoso escriba na lembrança tradicional». Loisy, Histoire de l'Ancien Testament, Paris, 1890, p. 44.

Não se poderia encontrar nas epístolas dos reis «acerca das ofertas», II Mach., ii, 13, uma designação do livro de Esdras; «trata-se antes de uma coleção de cartas emanadas dos reis da Pérsia, coleção de caráter puramente profano, mas muito útil a um governador de província como Neemias, e de onde o autor de Esdras pôde tirar documentos epistolares que inseriu em seu livro.» Ibid., p. 45. Se o Antigo Testamento não oferece nenhum testemunho relativo aos livros de Esdras-Neemias, a tradição judaica, em compensação, é unânime em inscrevê-los no catálogo dos Livros santos.

Josefo conheceu todos os livros do cânon hebraico; Esdras-Neemias deve encontrar-se entre os treze livros dos profetas. Cont. Apion, i, 8. Mas seria realmente o nosso livro canônico que o historiador judeu tinha em vista? Pohlmann, Tüb. theol. Quartalschrift, 1859, p. 258-262, não o pensa assim; seria antes o apócrifo, por causa do uso constante que dele faz em seu livro das Antiguidades judaicas, XI, 1-5. Cf. Theis, op. cit., p. 14-15. O Talmude, Baba bathra, fol. 14b-15a, enumera entre os últimos profetas Esdras, Neemias, as Crônicas; esse lugar bastante singular dado a Esdras antes das Crônicas, das quais é a continuação, indicaria talvez que este último livro não teria sido admitido tão cedo quanto o precedente no cânon judaico. Ryle, Ezra and Nehemiah, Cambridge, 1893, p. xv; Loisy, op. cit., p. 40.

2° Na Igreja cristã. Nos livros do Novo Testamento não se encontra nenhuma alusão a Esdras-Neemias. A tradição cristã, exceto na escola de Antioquia, jamais manifestou a menor dúvida quanto à sua canonicidade; por vezes lhes anexou o apócrifo, mas São Jerônimo a reconduziu à pureza da tradição judaica. Não teria ele, ao contrário, feito desviar do caminho até então seguido, ao substituir por Esdras I e II — equivalentes de Esdras A e B — um Esdras I e II reduzidos ao texto massorético? Howorth, dans Journal of theological studies, 1906, p. 350-351. Os Padres do concílio de Florença, seguidos pelos de Trento e do Vaticano, teriam se enganado quanto ao sentido dado pelos concílios africanos às palavras «Esdræ libri duo» (cân. 36 do concílio de Hipona, em 393); para eles, como para os Padres que escaparam à influência de São Jerônimo, essas palavras designavam Esdras A e B das bíblias gregas. Além da inverossimilhança de semelhante ignorância da parte dos Padres do concílio de Florença, entre os quais tinha assento o sábio cardeal Bessarion, é falso que a tradição anterior a São Jerônimo, e particularmente a da África do século IV, tenha dado à expressão «Esdræ libri duo» o sentido pretendido.

O autor do Prologus galeatus conhece, com base em manuscritos gregos e latinos mais antigos que o Vaticanus, o Alexandrinus e o Sinaiticus, a divisão em dois livros do único Esdras hebraico, P. L., t. xxviii, col. 554; não se poderia, pois, atribuir-lhe a origem dela (Howorth). Orígenes já conhece essa divisão; por diversas vezes se refere ao II livro de Esdras, em seu comentário a São Mateus, tom. XV, 5, e no do Cântico dos cânticos, IV, P. G., t. xiii, col. 1264, 196. Que entende ele por II livro de Esdras, Esdras ou nosso atual Neemias (as passagens citadas provêm dele)? Ele mesmo nos dá a resposta no cânon que se encontra no comentário do ps. i: o décimo primeiro livro segundo os hebreus, Esdras, diz-se ali, é I e II, que não formam senão um só, chamado Esdras. P. G., t. xii, col. 1084. Ignorariam os Padres dos concílios africanos esse cânon de Orígenes? É pouco provável; e se tivessem querido, como é verossímil para os deuterocanônicos, protestar contra o Esdras I e II de São Jerônimo, teriam indicado claramente que entendiam por «Esdræ libri duo» o Esdras A e B das bíblias gregas. Cf. Pope, The third book of Esdras and the Tridentine canon, dans Journal of theological studies, 1907, p. 218-232.

A omissão de Esdras no cânon de Mommsen é apenas fruto de uma distração do copista, pois a lista que, segundo a indicação final, deveria conter vinte e quatro livros, não conta senão vinte e três. Cf. Vigouroux, Dictionnaire de la Bible, t. ii, col. 152. Todavia, na Igreja síria, as Crônicas, Esdras e Neemias, com Ester, não faziam originalmente parte do cânon do Antigo Testamento. Não eram traduzidos na Peschito, mas o eram, contudo, já no século IV; nos antigos manuscritos, esses livros são distintos dos protocanônicos. Wright, Syriac literature, 2e édit., Londres, 1894, p. 4-5; B. Duval, La littérature syriaque, Paris, 1899, p. 38. A escola de Antioquia tampouco os admitia. Diodoro de Tarso jamais os cita. São Crisóstomo só lhes faz alusão uma vez.

Segundo o testemunho de Léonce de Byzance, P. G., t. lxxxvi, col. 1300, Théodore de Mopsueste os excluía expressamente do cânon bíblico, assim como os Paralipômenos, mas Théodoret os admitia nele. Ignoram-se as razões pelas quais Théodore não os admitia no número dos livros canônicos. L. Dennefeld, Der alttestamentliche Kanon der antiochenischen Schule, dans Biblische Studien, Fribourg-en-Brisgau, 1909, t. xiv, fasc. 4, p. 49-51. L. Pirot, L'œuvre exégétique de Théodore de Mopsueste, Bourges, 1911, p. 121 sq. (lithog.).

Junilius, eco de Théodore de Mopsueste, exclui ainda o primeiro livro de Esdras (incluindo Neemias) do número dos livros históricos divinos e das Escrituras canônicas do Antigo Testamento. Institutiones regularia divinae legis, dans Kihn, Theodor von Mopsuestia und Junilius Africanus als Exegeten, Fribourg-en-Brisgau, 1880, p. 472. São essas as únicas vozes discordantes que se ouvem em meio ao concerto da tradição eclesiástica sobre a canonicidade dos livros de Esdras e Neemias.

III. MODO DE COMPOSIÇÃO. Os livros de Esdras-Neemias narram alguns acontecimentos importantes da história da restauração judaica após o cativeiro, deixando longos períodos, de 516 a 458, ou mesmo 445, por exemplo, sem nenhuma informação.

A simples leitura já faz descobrir ali um conjunto de traços que constituem, por si sós, uma indicação sobre a maneira como a obra foi composta; eis os principais: a passagem brusca de um assunto a outro sem transição (Esd., II, 1; V, 1; Néh., I, 1; VII, 73; XII, 27; XIII, 14); o recurso a fórmulas tão vagas quanto: depois desses acontecimentos (ocorridos uns 60 ou 70 anos antes), quando essas coisas foram concluídas (Esd., VII, 1; IX, 1); o emprego intermitente da primeira pessoa sem nenhuma palavra de explicação; a inserção de dois fragmentos consideráveis redigidos em aramaico, Esd., IV, 8-VI, 18; VII, 12-26; a inserção de listas sem relação imediata com o contexto, Néh., VII, 6-73; XI, 3-36; XII, 1-26; a menção de personagens importantes sem qualquer outra explicação, como se seu nome já tivesse aparecido em um contexto anterior, assim para Zorobabel, Esd., II, 2, para Assuero, Dario, Esd., IV, 5, 6; enfim, o estilo e o vocabulário sensivelmente diferentes conforme as passagens. Trata-se, portanto, de uma compilação de elementos de origem e natureza diversas. Nas suas grandes linhas ao menos, é bastante fácil distingui-los uns dos outros.

I. MEMÓRIAS DE ESDRAS E DE NEEMIAS. — Porções consideráveis de um e outro livro se apresentam sob a forma de relatos pessoais; o escriba e o governador narram eles mesmos a parte que tomaram na obra de restauração de Israel; tais são as passagens: Esd., VII, 27-IX, 15; Néh., I-VII, 73a; XII, 27-43; XIII, 4-31 (algumas divergências entre os críticos quanto à delimitação dessas passagens).

Trata-se evidentemente apenas de uma parte de suas Memórias, aquela que o compilador julgou necessária ao seu propósito; é assim que o relato de Esdras aparece privado de seu início e de seu fim; o de Néhémie se abre ex abrupto, e é fácil constatar nele lacunas; também poderiam ser assinaladas glosas aqui e ali. Cf. Bertholet, Die Bücher Esra und Nehemia, Tubingue et Leipzig, 1902, p. xiv. A essas passagens reproduzidas integralmente, acrescentam-se algumas outras igualmente extraídas das Memórias, mas em parte remanejadas, não o suficiente, porém, para não trair sua origem. Esd., vii, 1-10, que não é obra do escriba (omissão de seus ancestrais imediatos em sua genealogia), é verossimilmente um resumo do relato feito pelo próprio Esdras à frente de suas Memórias, para lhes servir de introdução. Cf. as expressões dos versículos 6 e 9 e as dos versículos 27 e 28.

O c. x, que se distingue dos precedentes pelo emprego da terceira pessoa e por um relato às vezes menos circunstanciado (em particular 16-17), poderia também ele ser apenas um resumo das Memórias de Esdras. Devem-se ainda procurá-las no livro de Néhémie nos c. viii e ix, por causa da grande semelhança da oração dos levitas, Neh., ix, com a de Esdras, Esd., ix, e de certas expressões já encontradas sob a pena do escriba?

Alguns críticos assim o sustentam: Ewald, Bertheau, Schrader, Bertholet, Gautier. Outros explicam essas semelhanças pela identidade do assunto e pelo emprego, já corrente no tempo de Esdras, de algumas expressões frequentes no Cronista. Driver, Introduction, p. 550-551. Outros ligam esses capítulos à obra pessoal de Néhémie. Van Hoonacker, Nouvelles études sur la restauration juive après l'exil de Babylone, Paris et Louvain, 1896, p. 259-263. Bertholet e Gautier fazem o mesmo para Neh., x, xi, 3-24. Sobre as particularidades do estilo das Memórias, ver Driver, op. cit., p. 553; Mangenot, art. Néhémie, dans Vigouroux, Dict. de la Bible, t. iv, col. 1575-1576.

II. DOCUMENTOS ARAMAICOS. A correspondência de Réhum com Artaxerxès a respeito da reconstrução dos muros, Esd., iv, 8-23, a correspondência de Thathanaï com Darius a respeito da reconstrução do templo, Esd., v, 6-vi, 12, o decreto de Artaxerxès em favor de Esdras, Esd., vii, 12-20, enfim o relato que liga esses documentos, cartas de governadores e respostas dos reis, tudo está escrito em aramaico.

Sem nos pronunciarmos aqui sobre a origem primitiva desses documentos, digamos que o autor de Esdras-Neemias os tomou de empréstimo, segundo a hipótese mais verossímil e aceita pela maioria, a uma obra histórica redigida em aramaico, da qual extrai livremente diversas passagens que respondem ao seu propósito, conhecendo ele mesmo, aliás, aramaico o bastante para ligar esses trechos por alguma transição na mesma língua, e para remanejar um pouco o texto primitivo. Segundo Howorth, Transactions of the ninth Congress of Orientalists, 1893, p. 68-85, essa fonte aramaica não seria outra senão as ἐπιστολαὶ βασιλέων περὶ ἀναθεμάτων de II Mach., ii, 13.

III. LISTAS. Os dois livros contêm certo número de listas que compreendem, na maior parte, a enumeração dos que participaram da obra da restauração judaica: nomes dos que voltaram da Babilônia — primeiro com Zorobabel, a Jerusalém, Esd., II, 1-70; Neh., VII, 6-73 a, depois com Esdras, Esd., VIII, 1-14; nomes dos que tomaram mulheres estrangeiras, Esd., x, 18-41; dos que reconstruíram os muros de Jerusalém, Neh., III; dos que apuseram seu selo à aliança do povo com seu Deus, Neh., x, 1-27; dos que se estabeleceram em Jerusalém e nas outras cidades, Neh., XI, 3-30; enfim, lista dos sacerdotes e dos levitas, Neh., XII, 1-20.

A própria natureza dessas listas e o modo como são introduzidas no texto permitem crer que foram extraídas de documentos oficiais, tendo os judeus, com efeito, o costume de estabelecer e conservar as listas dos nomes importantes e de traçar genealogias, Neh., VII, 5; a escolha foi ditada aqui pela preocupação de justificar os direitos políticos e religiosos dos verdadeiros judeus, os que haviam voltado do exílio, e seus descendentes. Cabe notar a identidade da lista Esd., II, com a de Neh., VII, 1-73 a, apesar de numerosas variantes, análogas às que se encontram em todos os trechos reproduzidos em diferentes lugares da Bíblia; a notar também as abreviações e as modificações a que essas listas foram submetidas, cf. Neh., IX, e I Par., IX, e a tendência do redator a reduzir as enumerações.

— IV. OBRA DO REDATOR. Tudo o que não foi compreendido sob os títulos precedentes não é necessariamente a obra pessoal do redator; mas aqui se torna mais difícil indicar a origem de suas informações. Esd., I, 1-3 a, é a repetição de II Par., XXXVI, 22-23; o edito de Cyrus, Esd., I, 2-4, supõe um original mais ou menos remanejado e traduzido em língua judaica; Esd., I, 5-11, é obra do redator, mais preocupado em enumerar os objetos do culto e os dons recebidos para o serviço do templo do que em narrar a história do retorno.

A esse c. I assemelha-se, quanto à forma literária, o c. III, 1-IV, 5, que se pode assim atribuir à mesma mão; notar em particular as expressões: oferecer, homens de Deus, segundo o que está escrito na lei de Moisés, III, 2. Driver, op. cit., p. 547. Ao final dos documentos aramaicos, o redator reaparece para contar como, após a conclusão do templo, a celebração da Páscoa se realizou exatamente segundo as prescrições da lei. Esd., VI, 19-22. No livro de Néhémie, a obra do redator aparece ainda menor, ao menos para os que não se recusam a encontrar traço das Memórias de Esdras ou de Néhémie nos c. VIII sq. Pode-se atribuir-lhe XII, 10, 11, 22-26, que nos faz descer a uma época mais recente que a do governador de Jerusalém, assim como XII, 44-XIII, 3, que fala dos dias deste último como de um passado já longínquo. Dele é também a disposição das diferentes partes de Esdras-Néhémie, disposição que suscita tantos problemas históricos e cronológicos. Driver, op. cit., p. 544-554; Siegfried, Esra, Nehemia und Esther, Gœttingue, 1901, p. 7-12; Bertholet, op. cit., p. XIII-XIV; Fischer, Die chronologischen Fragen in den Büchern Esra-Nehemia, dans Biblische Studien, Fribourg-en-Brisgau, 1903, t. VIII, fasc. 3, p. 1-19.

IV. Data de composição. Em que época foram reunidos esses elementos de proveniência tão diversa? De certo número de indícios assinalados aqui e ali se desprende a conclusão de uma redação bastante tardia, posterior à dominação persa. Em Neh., XII, 10, 11, 22, a genealogia dos grão-sacerdotes prossegue até Jeddoa ou Jeddua, isto é, três ou quatro gerações depois de Eliasib, o contemporâneo de Néhémie, Neh., XIII, 4, 28; Josèphe, Ant. jud., XI, VII, 2; VIII, 2, faz de Jeddoa o contemporâneo de Alexandre, o Grande; além disso, a própria expressão «nos dias de Jeddoa» indica um tempo bastante recuado no pensamento de quem a emprega. Darius, o Persa, mencionado Neh., XII, 22, é, com toda probabilidade, Darius Codoman, que reinou de 335 a 330. Sem dúvida, continua sendo possível que essas passagens sejam glosas acrescentadas por algum escriba a um livro que já havia recebido sua forma definitiva, Vigouroux, Manuel biblique, Paris, 1899, t. II, n. 519, mas essas constatações se somam a outras que decidiram bom número de críticos, mesmo católicos, a reportar a data de composição de Esdras-Néhémie para depois da época em que viviam os dois principais personagens do livro.

Assim o redator parece tão afastado do tempo de que se faz historiador, que passa sob silêncio períodos consideráveis, Esd., VII, 1, e isso sem notar semelhante lacuna. Para ele, os dias de Néhémie, 445 e anos seguintes, aparecem em um passado já longínquo, quase tanto quanto os de Zorobabel, um século antes. Neh., XII, 46. A expressão, tão frequente sob sua pena, de «rei da Pérsia», Esd., I, 1, 2, 8; III, 7; IV, 3, 5, 7, 24; VII, 1, compreende-se em uma época em que a supremacia persa já não existia; antes, com efeito, ela teria sido supérflua e, aliás, de todo contrária ao uso, como o provam numerosas passagens das Memórias, onde se diz simplesmente «o rei», Esd., VII, 27, 28; VIII, 22, 25, 36; Neh., I, 11; II, 1 sq.; V, 4, 14; VI, 7, etc., e os títulos dados aos Aquemênidas nos documentos oficiais: o grande rei, o rei dos reis ou o rei. Driver, op. cit., p. 546, en note. Cf. aussi Aggée, I, 1, 15, e Zacharie, VII, 1.

As dificuldades e inverossimilhanças cronológicas supõem, elas também, um redator muito afastado dos acontecimentos, cuja sucessão lhe escapa; enfim a determinação do autor corroborará ainda a conclusão que se desprende deste conjunto de observações e que nos faz descer aos anos de Alexandre. Kaulen, Einleitung in die heilige Schrift, Fribourg-en-Brisgau, 1890, p. 212; Piat, Histoire des livres de l'Ancien Testament, Paris, 1902, t. II, 377; Gigot, Special introduction to the study of the Old Testament, New York, 1903, t. I, p. 333; Holzhey, Die Bücher Esra und Nehemia, Munich, 1902, p. 62-64; Mangenot, Néhémie; Fischer, op. cit., p. 1. Cf. art. du Dict. de la Bible, t. IV, col. 1577-1578.

V. Autor. A quem se deve atribuir a redação de Esdras-Néhémie? Se se der crédito à tradição judaica, o redator definitivo seria Esdras: «Esdras, diz-se no Talmud, Baba bathra, fol. 15 a, escreveu seu livro e continuou as genealogias das Crônicas até seu tempo.» O sentido desse testemunho foi discutido: trata-se de nosso primeiro livro canônico de Esdras, ou da obra única que compreende também Néhémie? Escritores judeus, para conciliar a afirmação talmúdica e o título do segundo livro: Palavras de Néhémie, filho de Hacalias, restringiram a atribuição ao primeiro livro. Wogue, Histoire de la Bible et de l'exégèse biblique, Paris, 1881, p. 80-82. Hipótese bastante pouco verossímil, dada a unidade primitiva dos dois livros e o caráter de acréscimo tardio do título de Néhémie. Gigot, op. cit., p. 330-331.

A tradição cristã e, segundo alguns, a tradição judaica (Talmud, loc. cit.), atribuíram, na maioria das vezes, os dois livros aos dois personagens cujos nomes trazem. Vigouroux, Manuel biblique, t. II, n. 515, 519. A existência de documentos de proveniência diversa não contradiria a opinião tradicional, tendo os dois heróis da restauração judaica eles mesmos inserido esses documentos em sua obra; quanto aos traços de redação tardia, tampouco poderiam suscitar sérias dificuldades, não sendo, na maior parte, senão palavras ou frases interpoladas por escribas ou acrescentadas em alguma revisão da obra. Contudo algumas objeções permanecem sem resposta satisfatória. Se Esdras é o autor do livro ao qual dá seu nome, por que essa interrupção tão brusca do relato pouco tempo depois da chegada do escriba a Jerusalém, por que esse silêncio absoluto sobre longos anos após 516, quando os acontecimentos desse período certamente não lhe eram desconhecidos e sua exposição teria ajudado a melhor compreender sua missão? No caso de Néhémie, a questão mais difícil de resolver é a da diferença muito sensível entre os trechos certamente autênticos e o resto do livro, sem falar das expressões já assinaladas, manifestamente de época mais recente.

Tudo se explica, dizem a maioria dos críticos, se os livros forem vistos como obra de um compilador ou último redator que não é nem Esdras, nem Néhémie, nem um de seus contemporâneos, mas sim o próprio autor dos Paralipômenos, que, em qualquer hipótese, não escrevia antes do IVe século. Mangenot, art. Paralipomènes, dans Vigouroux, Dict. de la Bible, t. IV, col. 2140-2141.

Eis as razões invocadas em favor da comunidade de origem entre as Crônicas, Esdras e Néhémie: o caráter geral desses escritos é o mesmo; compostos em grande parte de documentos mais antigos, são compilações mais do que obras originais; a semelhança no modo de compor se encontra tanto no conjunto quanto em numerosos detalhes; nos três, é fácil notar uma preferência nitidamente acentuada pelas estatísticas e pelas genealogias. Esd., I, 9-11; VII, 1-6; VIII, 1-14, 18-20; x, 20-44; Neh., III, VII, 6-73 a; X, 1-27; XI, 3-36; XII, 1-26; I Par., os primeiros capítulos; a mesma precisão se encontra no detalhe das prescrições cultuais, cuja observância se impõe rigorosamente, Esd., III, 1-7, 8-13; VI, 15-18, 19-22; VIII, 35; x, 1-14; Neh., VII, 73-VIII, 12, 13-18; IX, 1-5, 38; x, 29-30; XII, 27, 43; I Par., XIII, XV, XVI; II Par., V-VII, XXIX-XXXI; o nome dos levitas e dos demais servidores do templo volta com frequência sob a pena do autor de um ou outro livro, mais de sessenta vezes em Esdras-Néhémie e cerca de cem vezes nas Crônicas, e o que torna a aproximação significativa é que os levitas, por exemplo, aparecem apenas duas vezes em Samuel, I Sam., VI, 15; II Sam., XV, 24, Ryle, op. cit., p. XXVII; os cantores do templo, tão frequentemente mencionados em Esdras-Néhémie, Esd., II, 41, 65, 70; VII, 7...; Neh., VII, 1, 44; x, 28, 39; XI, 22, e não menos nos Paralipômenos, quase não aparecem em outras partes; o mesmo ainda para os porteiros, Esd., II, 42, 70; Neh., x, 28; I Par., XXVI.

O vocabulário e o estilo não oferecem menos semelhança que os assuntos tratados; alguns exemplos de palavras e expressões características: chefes de família, Esd., I, 5; II, 68; III, 12; IV, 2, 3; Neh., VII, 70, 71; VIII, 13; XI, 13, e mais de vinte vezes nos Paralipômenos; a casa de Deus, Esd., I, 4; III, 8; VI, 22; Neh., VIII, 16; XI, 16; XII, 40; XIII, 7, e mais de trinta vezes nos Paralipômenos (em outros lugares, casa de Jahvé); os povos das terras, dessas regiões, Esd., III, 3; IX, 2, 7, 11; Neh., IX, 30; x, 28; e Par., mais de doze vezes, etc. G. Ryle, op. cit., p. XXVIII-XXIX; Driver, op. cit., p. 539-540; Hastings, Dictionary of the Bible, t. I, p. 389-391.

Não há apenas comunidade de origem entre as Crônicas e Esdras-Néhémie, mas ainda unidade primitiva. Esta se deduz do modo como termina o primeiro desses livros; o v. 21 do c. XXXVI, que é seu fim real, não é uma conclusão completa; algum escriba, tendo procedido bem, acrescentou ali os versículos do início de Esdras, eles mesmos inacabados nesse lugar. Cf. II Par., XXXVI, 23, e Esd., I, 3. Theis, op. cit., p. 5-6. Essa brusca interrupção do relato ao final das Crônicas se explica pelo fato de um corte mais ou menos feliz em uma obra que compreendia a sequência dos acontecimentos que precederam e seguiram o cativeiro. A mesma conclusão nos é fornecida pelo IIIe livro de Esdras; a narração nele prossegue sem interrupção desde II Par., XXXV, até Neh., VIII, 13, apesar de algumas lacunas e acréscimos, mas sobretudo sem reproduzir duas vezes o edito libertador de Cyrus, como o faz nosso texto canônico; o tradutor ignorava, portanto, a divisão tripartite atual, considerando nossos três livros como uma obra única. A unidade de origem é, aliás, geralmente admitida. Kaulen, Keil, Havernick, Lesêtre, Vigouroux a aceitam, mas tendo Esdras por autor.

Por que razões se teria dado a separação entre as diferentes partes dessa obra histórica? O lugar de Esdras-Néhémie no cânon judaico, antes das Crônicas, sugere uma resposta. A seção da Bíblia hebraica, chamada os Profetas, deixava o relato da história de Israel em meio ao cativeiro, II Reg., XXV, 27, para continuá-lo, isto é, narrar o retorno do exílio, a reconstrução do templo e dos muros da cidade; a última parte da obra do Cronista, isto é, Esdras-Néhémie, era a mais indicada, dando a continuação desejada sem reproduzir o relato de acontecimentos já narrados em Samuel e nos Reis. Somente mais tarde a primeira parte do livro assim dividido teria tomado lugar no cânon hebraico, paralelamente à história profética que vai do livro do Gênesis ao dos Reis. Reuss, Chronique ecclésiastique de Jérusalem, Paris, 1878, p. 12-13, dans la Bible, t. VI; Ryle, op. cit., p. LXV; Gigot, op. cit., p. 328-329.

— VI. Finalidade. Não se trata da finalidade perseguida por Esdras ou Néhémie ao escreverem suas Memórias, cujo estado fragmentário atual não permite, aliás, um julgamento sobre a obra primitiva; o que se pode dizer, no entanto, segundo os trechos que chegaram até nós, é que seus autores se propunham, não a compor uma espécie de autobiografia, mas a indicar a parte tomada por cada um deles na restauração judaica, após o cativeiro, um no restabelecimento e na reorganização do culto em Jerusalém, o outro na conclusão dos muros da cidade e no repovoamento da antiga capital do reino de Judá.

Trata-se do redator ou compilador, do Cronista. É certo, antes de tudo, que ele não quer nos contar a história do judaísmo desde o cativeiro até Néhémie; sem dúvida esses dois termos marcam o começo e o fim de seu relato, mas as lacunas consideráveis desse próprio relato, e sobretudo seu ponto de vista muito exclusivo, mostram que a composição de tal história não entrava nas intenções de seu autor. A ausência de todo acontecimento da história estritamente profana, a atenção sempre concentrada em torno do templo, do culto e das prescrições legais fazem do livro Esdras-Néhémie, como aliás dos Paralipômenos, um relato antes de tudo religioso, uma história do templo, de sua reconstrução, e da vida religiosa da qual ele é o centro; o restabelecimento dos muros da cidade santa só é narrado porque deve contribuir para a salvaguarda do templo e de seu povo de fiéis. Se tanta importância se prende à casa de Deus, é porque ela é a condição necessária da unidade nacional e religiosa.

Essa ideia da unidade é cara ao redator; é ela que o leva a escolher a história da exclusão dos inimigos de Israel que se ofereciam para participar da reconstrução do templo, Esd., iv, e, nas Memórias de Néhémie, o relato das dificuldades do governador com os samaritanos, os quais, com efeito, não poderiam pretender aos direitos e privilégios da comunidade judaica: só podem fazê-lo os que são os verdadeiros descendentes dos exilados retornados do cativeiro; por isso as listas genealógicas são cuidadosamente estabelecidas para manter em sua pureza essa descendência. Tudo o que a comprometesse é criminoso, tais são as uniões de israelitas com mulheres estrangeiras; elas são rigorosamente proibidas e os que haviam tomado companheiras entre as filhas dos povos do país são enumerados, Esd., x, 18-44. Ao salvaguardar assim a unidade e a pureza da raça e da religião, o israelita se conforma não somente à lei recebida de Jahvé, mas ainda às ordens dos reis da Pérsia.

Esdras, à frente do movimento de reforma religiosa, é o enviado de Artaxerxès; dele recebeu plenos poderes para impor a todos os seus compatriotas tudo o que é conforme a lei do Deus do céu, e para punir impiedosamente quem quer que ousasse contravir as ordens de Jahvé, que são também as do grande rei. Esd., vii, 23, 26. Que os samaritanos e demais adversários dos judeus não se autorizem, pelo apoio e pela aprovação dos senhores da Pérsia, a impedir a restauração de Israel: sua oposição é ilegítima, o bom direito está do lado dos judeus, e o redator faz questão de demonstrá-lo; daí a inserção em seu relato dos documentos aramaicos. Holzhey, op. cit., p. 9-10; Fischer, op. cit., p. 1-3. Essas ideias mestras, cuja trama é fácil de seguir através das diferentes partes dos livros de Esdras e de Néhémie, mantêm sua unidade apesar de seu caráter de compilação.

— VII. Valor histórico. A concepção tradicional, que vê em Esdras-Néhémie a história dos começos da comunidade judaica após o exílio e data os acontecimentos segundo a ordem cronológica que lhes é ali atribuída, teve de sofrer, desde meio século, numerosas contradições: as grandes linhas dessa história foram abaladas, a veracidade dos documentos que permitiam estabelecê-la foi negada ou, ao menos, muito posta em suspeita, a cronologia foi declarada incompatível com a sucessão real dos fatos: em uma palavra, se se excetuam as Memórias de Néhémie, nada nos dois livros deixou de ser posto em questão.

Importa, pois, depois de um rápido olhar sobre o estado da crítica histórica, mostrar o que o historiador de Israel ainda pode pedir a esses livros de nossa Bíblia, que materiais neles pode buscar e em que ordem dispô-los, para restituir a esse período tão interessante da vida do povo hebreu sua fisionomia original. Já em 1867, Schrader, Die Dauer des zweiten Tempelbaues, dans Theologische Studien und Kritiken, p. 460-504, recusava-se a admitir a tentativa de reconstrução do templo, no segundo ano do retorno, pela razão de que não se encontra nenhum vestígio dela antes do segundo ano de Darius, nem no trecho aramaico do c. iv de Esdras, nem nos profetas contemporâneos, Aggée e Zacharie; a origem desse erro cronológico deveria ser buscada na hipótese que via nos exilados homens animados de um zelo muito ardente e demasiado devotados à causa da antiga religião para deixar passar uns quinze anos antes de empreenderem a reconstrução do santuário nacional.

Kosters atacou o conjunto da história tradicional; segundo ele, o relato do retorno sob Cyrus não seria senão uma invenção tardia e tendenciosa, a reconstrução do templo seria obra dos israelitas que ficaram no país, tendo à frente Zorobabel e Josué; o único retorno seria o de Esdras, e ainda assim seria preciso situá-lo durante a segunda estada de Néhémie em Jerusalém, por volta de 432. Het Herstel van Israël in het perzische tijdvak, Leyde, 1894; trad. allemande Die Wiederherstellung Israels in der persischen Periode, Hasedow, Heidelberg, 1895. No mesmo sentido, com nuances diversas, le Manuart, Wildeboer, Cheyne. Embora rejeitasse a tese de Kosters, Wellhausen lhe concedia a presença na Palestina, por ocasião da restauração, de boa parte da antiga população e, mais ainda do que o crítico holandês, punha em dúvida a autenticidade dos documentos aramaicos, Esd., iv-vi. Die Rückkehr der Juden aus dem babylonischen Exil, dans Göttinger Gelehrten Anzeigen, 1895. Essa desconfiança em relação aos documentos aramaicos, Kuenen e Stade já a haviam experimentado, e Nöldeke não via no decreto de Artaxerxès, Esd., vii, senão pura ficção.

Contra essa tendência dos críticos, que abandonavam uma após outra as diferentes partes de Esdras como não históricas, Ed. Meyer reagiu vigorosamente em sua obra Die Entstehung des Judentums, Halle, 1896, brilhante alegato em favor dos documentos conservados no livro de Esdras. Wellhausen tentou uma refutação, não querendo ver nos pretensos documentos senão uma forma dramática de exposição. Gött. Gel. Anz., 1897, p. 89-97. Cf. la réponse d'Ed. Meyer, Julius Wellhausen und meine Schrift « Die Entstehung des Judentums », Halle, 1897. Renan, em sua Histoire du peuple d'Israël, Paris, 1893, t. iv, p. 99, note 2, escrevia: «Embora se considerem as Memórias de Esdras como obra artificial, é permitido reter alguns traços que o falsário teria tomado de empréstimo a uma tradição séria ou aos dados históricos gerais da época.»

Essa não era, contudo, a opinião geralmente aceita entre os críticos sobre o valor das Memórias de Esdras, quando Torrey empreendeu demonstrar que essas Memórias atribuídas ao escriba Esdras, assim como parte das próprias de Néhémie, não eram senão obra do Cronista, por conseguinte sem valor histórico. The composition and historical value of Esra-Nehemia, Giessen, 1896, supplément à la Zeitschrift für die alttestamentliche Wissenschaft. O sucesso foi medíocre e, à parte algumas raras expressões, H. P. Smith, Old Testament History, Edimbourg, 1903, p. 390; Foster Kent, Israel's historical and biographical narratives, New York, 1905, p. 29-34, dans The Students Old Testament; G. Jahn, Die Bücher Esra und Nehemja, Leyde, 1909, p. i-vi, os críticos continuaram a considerar as Memórias de Esdras e de Néhémie como documentos de grande valor histórico. Cf. Torrey, Ezra studies, Chicago, 1910, p. VII-VIII. Há, pois, motivo para estabelecer o caráter de veracidade de textos tão importantes e tão contestados.

— 1° Memórias de Néhémie. Todos concordam em reconhecer sua autenticidade (mesmo Torrey e Jahn, ao menos em parte). «Em seus últimos dias, diz Renan, ele (Néhémie) escreveu sua autobiografia, e esse curioso documento, um dos mais preciosos da literatura hebraica, nos foi transmitido com leves alterações provenientes do compilador das Crônicas. Poucos escritos trazem um selo tão pessoal.» Op. cit., p. 93. Essas Memórias são, com efeito, «de uma autenticidade indiscutível e respiram uma sinceridade de tom que torna muito simpático um escritor que narra com simplicidade o que fez.» Mangenot, art. Néhémie, dans le Dict. de la Bible, t. iv, col. 1578.

— 2° Memórias de Esdras. A questão já não é tão simples. Sem dúvida muitos, a maioria, veem nelas, como nas precedentes, um escrito autêntico, mas a afirmação precisa ser provada. As principais razões pelas quais certos críticos (ver mais acima) creem dever recusar a Esdras a composição das Memórias são as seguintes: o vocabulário e a sintaxe são os do compilador, cuja maneira de escrever, bem caracterizada, se reencontra não somente em algumas partes dos livros de Esdras-Néhémie, mas sobretudo em passagens precisamente consideradas como extraídas da obra pessoal do escriba. Torrey, Ezra Studies, p. 240-248. Toda a história do papel de Esdras é muito improvável: as circunstâncias tornavam difícil, para não dizer impossível, a aplicação das medidas que ele teria, no entanto, conseguido impor; o silêncio de Néhémie a esse respeito é bem significativo, não menos que o de Sirach e do autor do IIe livro dos Machabées, para os quais Néhémie aparece como o único e verdadeiro campeão do judaísmo nessa época. Eccli., xlix, 12 sq.; II Mach., i, 10 sq.

As pretensas Memórias de Esdras não encerrariam, por conseguinte, senão uma lenda inventada de cabo a rabo pela reação sacerdotal e levítica que se produziu após a morte de Néhémie; não convinha, com efeito, deixar a um herói leigo toda a glória da restauração judaica; deu-se-lhe, pois, um colega no seio da ordem sacerdotal, com papel paralelo e Memórias análogas; a lenda de Esdras faz assim sua aparição na literatura apócrifa e talmúdica, e depois nos livros canônicos.

O argumento do vocabulário e do estilo, reduzido a proporções mais modestas e mais justas, não obriga de modo algum a renunciar à autenticidade das Memórias de Esdras. Um exame atento das palavras e expressões características do Cronista mostra que, em parte, elas se encontram em outros escritores pós-exílicos, e que, em outra parte, encontradas de fato somente nas Memórias e nos Paralipômenos, algumas se devem ao trabalho de elaboração das Memórias pelo Cronista, outras se explicam pela origem comum dos dois autores. Há mais: muitas expressões características do Cronista estão ausentes das Memórias, sobretudo das orações, Esd., ix, 6-15, e Neh., ix, 6-38; encontra-se ali antes a influência do Deutéronome, esta completamente estranha aos Paralipômenos. G. A. Smith, Ezra and Nehemiah, dans Expositor, juillet 1905, p. 5-6; Joh. Geissler, Die litterarischen Beziehungen der Ezramemoricn insbes. zur Chronik und den hexateuchischen Quellschriften, Chemnitz, 1899. Quanto às dificuldades de ordem histórica, elas são sem dúvida reais, mas várias se prendem à cronologia atual do livro, e se a ordem Néhémie-Esdras, proposta por alguns críticos, é de fato a verdadeira, as pretensas inverossimilhanças da missão de Esdras desaparecem por isso mesmo. Ver mais adiante.

A omissão do nome do escriba no catálogo dos personagens que ilustraram a história de Israel não é, certamente, estranha, e não se poderia explicá-la em certa medida pela importância, na obra de restauração judaica, do papel de Néhémie, que a lenda de Esdras ainda não havia relegado a segundo plano? Ainda que permanecesse, aliás, inexplicada, ela não poderia prevalecer contra as boas razões que militam em favor da autenticidade das Memórias. Fazer do Cronista o autor de relatos tão ricos em incidentes, em detalhes, é não levar em conta sua maneira de escrever, que deixa tão pouco espaço à invenção; é esquecer que o Esdras das Memórias é antes de tudo um escriba versado na Lei de Moisés, ao passo que o Esdras que o compilador teria imaginado teria sido antes de tudo sacerdote, como aparece em alguns trechos remanejados ou acrescentados.

Notemos, por fim, que as Memórias não eram um gênero literário desconhecido em Israel no século V e no século IV; sem falar das de Neemias, cuja data fixaremos, pode-se encontrar nos escritos compostos durante ou antes do exílio, sobretudo entre os profetas, muitas passagens com a forma de memórias; não é esse sobretudo o caso do livro de Ezequiel?

3º Documentos aramaicos. — São muito importantes para a história da restauração judaica, se seu valor documental, objeto de numerosas discussões, puder ser estabelecido. Enquanto Kosters, Wellhausen, Torrey, H. P. Smith etc. lhes recusam praticamente todo caráter histórico, a maioria dos críticos, embora reconhecendo o traço de algumas modificações introduzidas por redatores judeus, mantém sua autenticidade. Muitos aderiram à tese de Ed. Meyer, que vê nos documentos conservados no livro de Esdras as próprias cópias dos originais; assim Cornill, Siegfried, Bertholet, Guthe, Budde. Desses textos, uns, Esd., iv-vi, faziam parte de uma história escrita em aramaico; os outros, Esd., vii, de algumas Memórias; todos, por conseguinte, passando por várias mãos, estiveram expostos a remanejamentos que a crítica sabe distinguir sem renunciar à autenticidade.

Nenhuma dificuldade tampouco quanto ao fato de esses documentos terem sido redigidos em aramaico, já que essa era a língua oficial das províncias do Oeste dos Aquemênidas em suas relações com os povos. O persa, com efeito, não podia servir para as comunicações a fazer aos súditos dessas regiões, cuja língua era preciso adotar: o aramaico. Essa preocupação de se pôr ao alcance dos diferentes povos do imenso império encontra-se até nas inscrições reais; algumas vêm acompanhadas de tradução nas línguas da Babilônia e de Susa, outras trazem uma versão hieroglífica (inscrição do canal de Suez), outras um texto grego. Meyer, op. cit., p. 9-10.

Aliás, havia muito tempo o aramaico se impunha como a língua das relações entre as províncias do Oeste. II Reg., xviii, 26. Quando a dominação persa sucedeu à caldeia (538), o aramaico não perdeu nada de sua importância; permaneceu língua oficial do império em todas as províncias ocidentais: encontra-se ele nas moedas da Ásia Menor, nos papiros e nas estelas do Egito, nos éditos e na correspondência dos sátrapas e do grande rei. » Maspero, Histoire ancienne des peuples de l'Orient, Paris, 1904, p. 776. Quanto às relações com o próprio Egito, com efeito, o aramaico se impusera. Corpus inscriptionum semiticarum, Paris, t. ii, n. 138, 144, 146, 147; Clermont-Ganneau, Origine perse des monuments araméens d'Égypte, 1880. Nada, portanto, além do muito verossímil na redação em língua aramaica desses documentos do livro de Esdras, cujo caráter oficial é manifesto. Segundo Ed. Meyer, op. cit., p. 21 sq., seriam traduções oficiais, reconhecíveis pelo emprego de palavras, expressões e construções de origem persa; Brünkel e Löhr combateram essa hipótese, Zeitschrift für die alttestamentliche Wissenschaft, 1900.

Como puderam esses documentos chegar até o autor judeu que primeiro os utilizou? A destinação de vários deles fazia deles escritos públicos; são, com efeito, ordenanças a cujas instruções todos os judeus deviam se conformar; fossem favoráveis ou não à sua causa, deviam ser-lhes manifestadas, e as que traziam concessões tinham seu lugar marcado, com os privilégios, nos arquivos do templo. A descoberta da inscrição de Gadata, contendo uma decisão do rei dos reis, Dario, filho de Histaspes, em favor dos servidores do santuário de Apolo em conflito com o funcionário real Gadata, veio confirmar essas conclusões sobre a realidade histórica, o caráter público e a conservação, pelos próprios interessados, desse tipo de rescritos. Bulletin de correspondance hellénique, t. XIII, p. 529; Ed. Meyer, op. cit., p. 19-21.

Quanto às cartas dos governadores aos reis da Pérsia e às respostas destes, é mais difícil estabelecer-lhes o caráter público, ainda que se possa dizer que a queixa de Réhum, por exemplo, não era formulada apenas em seu próprio interesse, mas em nome dos habitantes da Palestina, que podiam assim conhecer-lhe o texto. Meyer, op. cit., p. 19. Talvez tenham sido conhecidas por algum judeu bem colocado na corte dos reis da Pérsia, como Daniel ou Neemias, a ponto de buscar nos arquivos reais as peças que interessavam à história de Israel, e intervir, se necessário, em favor de seus compatriotas; foi assim que o sacerdote Uzzar-jor usou de sua influência na corte persa em benefício dos egípcios. Cheyne, Das religiöse Leben der Juden nach dem Exil, trad. alemã de Stocks, Giessen, 1899, p. 41 sq.

O texto aramaico que liga entre si os diferentes documentos autoriza a hipótese de sua primeira elaboração por um judeu que vivia na corte dos Aquemênidas, sendo o aramaico, com efeito, a única língua suscetível de ser compreendida tanto por leitores judeus quanto persas; além disso, algumas passagens indicam que a composição não se fez na Palestina. Esd., iv, 23; v, 5. A essas considerações gerais podem-se acrescentar algumas outras, mais específicas, que corroboram o valor de cada uma das peças conservadas em aramaico.

1. Troca de cartas entre o governador Réhum e Artaxerxes. A atitude do rei, aqui contrário aos projetos dos judeus, parece estar em contradição com as autorizações dadas a Esdras. Esd., vii, 12 sq. Se se observar que, no primeiro caso, se trata da reconstrução das muralhas da cidade, e, no segundo, da restauração do culto, não se encontrará mais motivo de contradição, ainda menos se, como querem alguns, a carta, Esd., iv, 18-22, for de Artaxerxes Ier, e o firmã, Esd., vii, 12-26, de Artaxerxes II. A pretensa coloração judaizante de certas passagens que exaltam a antiga glória de Jerusalém não é, na realidade, senão um meio hábil de fazer crer no perigo, ou de realçar o brilho das vitórias outrora alcançadas pelos ancestrais do rei. Mesma habilidade na escolha dos pretextos invocados contra os judeus, a saber, sua recusa em pagar o imposto e o tributo, uma vez que se sentissem ao abrigo atrás de suas muralhas reconstruídas. Esd., iv, 15, 19, 20.

2. Troca de cartas entre o governador Thathanaï e Dario. Esd., v, 6-vi, 12. A carta de Thathanaï (Sisinnès segundo III Esd., vi, 3) ao rei Dario não oferece dificuldade, se deixarmos de lado a questão da tentativa de reconstrução do templo, mencionada no c. III. Ver mais adiante.

Incerto quanto à legitimidade da obra empreendida pelos judeus, o governador informa seu soberano numa carta em que a influência da língua persa não seria estranha. Meyer, op. cit., p. 29, 43. Se Kosters recusa a autenticidade a este documento, é porque nega, sem razões suficientes, ver mais adiante, o retorno sob Ciro e a primeira tentativa de reconstrução.

A resposta de Dario, filho de Histaspes, é precedida de um extrato da autorização outrora dada por Ciro. Cf. Esd., i. O fato de esse texto ter sido descoberto em Ecbátana, residência de verão dos reis da Pérsia, é uma prova da veracidade do relato; um falsário de época tardia teria, com efeito, situado essa descoberta na Babilônia ou, pelo menos, em Susa. Meyer, op. cit., p. 47-48. Quanto ao teor do decreto de Dario, ele está inteiramente conforme ao que sabemos desse rei. Para ele, uma vez reencontrado o texto da decisão de Ciro, a questão estava resolvida. Como na inscrição de Gadata, remete-se ele ao modo de ver de seus ancestrais ἀγνοῶν ἐμῶν προγόνων εἰς τὸν θεόν..., e a parte que toma na construção do templo e na celebração cotidiana do culto, ambas asseguradas pela cobrança de impostos do outro lado do rio, não tem por que surpreender, quando se sabe sua atitude nitidamente favorável aos cultos estrangeiros, tanto na Ásia Menor quanto no Egito. Inscrições de Gadata e de Uzzar-jor; nesta última, Ntairiush (Dario) dá ordens para que o nome de todos os deuses, seus templos, suas rendas e suas festas sejam conservados para sempre, Brugsch, Geschichte Egyptens, 1877, p. 748-751; Heródoto, vi, 97, relata que Dátis, general do exército persa, poupou os habitantes de Delos, tendo recebido a ordem de seu rei Dario de não fazer nenhum mal aos homens da terra que viu nascer Apolo e Diana.

A expressão Deus do céu, 9, 10, não deve ser rejeitada; ela não assustava o espírito de tolerância dos reis da Pérsia, correspondia à empregada no pedido de Thathanaï, Esd., v, 11, e era, aliás, frequentemente usada na designação das divindades sírias. Bertholet, op. cit., p. 27. O suplício reservado aos transgressores da ordem real, Esd., v, 11, é manifestamente de origem persa. Heródoto, iii, 159. Cf. Schrader, Die Keilinschriften und das Alte Testament, 2ª ed., Berlim, p. 378, 616. Por fim, a ameaça do v. 12, que parece visar o próprio rei, levou a ver nela uma glosa da época do perseguidor Antíoco Epifânio; trata-se, na verdade, tão somente dos vizinhos de Israel, avisados de que não deveriam mais se opor, como no passado, à reconstrução do templo, sob pena dos mais severos castigos.

3. O rescrito de Artaxerxes. Esd., vii, 11-26. O rei não fala aí como um fiel de Zaratustra, mas como um crente israelita. Kuenen, Einleitung, t. II, p. 166. Por causa da coloração judaica dessa passagem, muitos, com efeito, recusam-se a ver nela um documento autêntico: Kosters, Cheyne, Cornill, Wellhausen, Torrey, Jahn. A enumeração dos animais do sacrifício, 17, das diferentes classes de servidores do templo, 24, o tom geral que um adorador de Javé poderia reivindicar, tudo isso denunciaria um redator judeu, o próprio compilador. Alguns supuseram, e não sem verossimilhança, que os próprios termos do decreto teriam sido inspirados por Esdras, a quem se deveria a precisão necessária nas ordens relativas à reorganização do culto, Meyer, Nikel, Bertholet; o texto original seria o aramaico, destinado que era aos compatriotas de Esdras, junto aos quais era preciso acreditá-lo. Nikel, Die Wiederherstellung des jüdischen Gemeinwesens nach dem babylonischen Exil, Fribourg-en-Brisgau, 1900, p. 170.

Outros veem nos traços especificamente judaicos a obra do Cronista, remanejando um documento cujo valor histórico nem por isso deixa de subsistir; pode-se estabelecê-lo assim: um decreto real era necessário a Esdras para empreender sua obra, e sem dúvida encontrou lugar nas Memórias; o caso é inteiramente análogo ao de Neemias, que, antes de seu retorno, solicitou cartas para os governadores do outro lado do rio. Neh., ii, 7. O zelo pelo cumprimento da lei de Javé concorda bem com a política dos reis pagãos em geral, cujo panteão era hospitaleiro para todo tipo de divindades, e com a dos reis da Pérsia em particular, cf. inscrições de Ciro, de Gadata...; e não é próprio de um hábil político impor ao mesmo tempo o respeito às leis religiosas e às leis civis? quem não observar a lei de seu Deus e a lei do rei, que se lhe faça exata justiça, 26. O título de rei dos reis, dado a Artaxerxes, é um dos títulos empregados nas inscrições reais; o compilador teria escrito rei da Pérsia. Enfim, o que o soberano ouvira contar por Esdras, viii, 22, era bem próprio para decidi-lo à benevolência; o Deus do céu, em Jerusalém, era, com efeito, um Deus poderoso que convinha honrar, favorecendo seu culto, para que « sua cólera não venha sobre o reino, sobre o rei e sobre seus filhos, » vii, 23. Meyer, op. cit., p. 69-70; Fischer, op. cit., p. 6-9.

4. As listas. As numerosas listas de nomes próprios, que se encontram em Esdras-Neemias como nos Paralipômenos, estavam expostas, da parte de leitores ou copistas negligentes ou zelosos demais, a sofrer muitas modificações. Mas, no conjunto, sua autenticidade não pode ser seriamente contestada. Kosters, Torrey, Marquart, no entanto, não dão nenhum crédito à lista de Esdras, ii; Neh., vii. Seria, segundo eles, uma peça cujo quadro histórico deve ser buscado na época de Esdras e Neemias, contendo « os nomes de todos os que, em Jerusalém como fora da cidade, pertenciam à comunidade judaica recém-estabelecida após o retorno de Esdras. » Kosters, op. cit., p. 102.

Se assim fosse, não se deveria antes de tudo reencontrar nessa lista o nome de Esdras, que nela não figura, nem tampouco o de várias famílias, David, Sequenias, Joabe, Selomite, que voltaram da Babilônia ao mesmo tempo que o escriba? Esd., viii, 3, 5, 9, 10. Numerosos indícios, ao contrário, denunciam uma redação bem pouco posterior ao retorno do exílio: o título da lista nas duas passagens; o ponto de partida de certas famílias, 59; o caráter provisório da situação, insinuado no v. 63; a menção dos animais de carga e a importância dada a esse detalhe, 66-67; as medidas tomadas, 50, 63, inteiramente circunstanciais, por ocasião do estabelecimento no país de colonos recém-chegados; a oferta de ornamentos sacerdotais, sem dúvida para restaurar o culto — nada semelhante entre os tesouros que Esdras traz consigo a Jerusalém, nem entre os donativos que o povo se compromete a fornecer sob a direção de Neemias, pois então o culto já estava reorganizado.

Quanto ao desacordo entre a cifra total dos emigrantes, 42.360, a mesma nos três lugares, Esd., ii, 64; Neh., vii, 66; III Esd., 41 (42.340), e a soma obtida somando-se as cifras indicadas para as diferentes famílias — 31.089, Neh., 29.818, Esd., 30.141, III Esd. —, explica-se pelo mau estado de conservação do texto, pelas omissões de nomes de família, pelas transcrições errôneas de números; é assim que a família de Megbis, mencionada em Esd., ii, 30, está ausente em Neh., e que a diferença entre os números dados nas listas de Esd. e de Neh. para a família de Azgad é de 1.100.

A cifra total dos repatriados permaneceria, dizem, demasiado considerável e fora de proporção com a dos cativos deportados para a Babilônia. Um simples olhar sobre os últimos tempos da história de Judá prova que nada disso é verdade. A dupla deportação, ocorrida sob os reinados de Joaquim, 597, e de Sedecias, 586, havia retirado não só a parte mais influente da população, mas também a mais numerosa. IV Reg., xxiv-xxv. O texto de Jeremias, lii, 28-30, não a contradiz. Van Hoonacker, Nouvelles études sur la restauration juive après l'exil de Babylone, p. 47-57.

O relato da campanha de Senaqueribe contra Ezequias, rei de Judá, dá uma ideia da importância dessas deportações: 200.150 homens e mulheres... pequenos e grandes, foram levados de suas casas como despojo. Inscrição do cilindro hexagonal, dito de Taylor, publicada em Rawlinson, The cuneiform inscriptions of the Western Asia, t. I, pl. 37-42; cf. Vigouroux, La Bible et les découvertes modernes, Paris, 1896, t. IV, 28. O número de deportados, já elevado em 586, era ainda maior por ocasião da ascensão de Ciro; os judeus, verdadeiros colonos, levando em terra estrangeira uma existência bastante suportável, não podiam deixar de multiplicar-se, Jer., XXIX, 4-7, e assim, mesmo contando apenas os homens no número de 42.360, segundo o costume israelita, o que pode dar de 150 a 200.000 para o conjunto dos repatriados, não se chega à pretensa desproporção com o número dos judeus outrora partidos para o exílio. Van Hoonacker, Nouvelles études, p. 31-66; Smend, Die Listen der Bücher Esdras und Nehemias, Bâle, 1881; Sellin, Studien zur Entstehungsgeschichte der jüdisch. Gemeinde nach d. babyl. Exil, Leipzig, 1901, p. 104-115; Meyer, op. cit., p. 190-198; Kosters, op. cit., p. 29-42; Nikel, op. cit., p. 71-80.

5. Obra do redator. a) Edito de Ciro e retorno dos exilados sob Sassabasar (hebraico Sêsbassar). Que o edito de Ciro, Esd., i, 2-4, não seja um extrato literal do original, é o que indica o título de rei da Pérsia dado ao libertador; que não seja digno de fé, é o que não se poderia demonstrar; algumas observações confirmarão seu valor histórico. O início « Assim fala » é o que se poderia esperar de um documento emanado da corte persa. Cf. a grande inscrição de Dario, Vigouroux, op. cit., t. I, p. 163; Halévy, Cyrus et le retour de l'exil, na Revue des études juives, julho de 1880. A expressão Deus me deu todos os reinos da terra também não carece de analogia nas inscrições reais. A dupla autorização de voltar a Jerusalém e ali reconstruir o templo insere-se nas medidas gerais tomadas por Ciro; hábil político, ele devolvia à liberdade todos aqueles que a Babilônia havia sujeitado, fazendo-se assim amigos e aliados: « Fiz voltar todos os povos à sua pátria, » diz ele mesmo numa inscrição descoberta em 1879. Halévy, loc. cit.; Vigouroux, op. cit., t. IV, p. 404-419.

Sem dúvida, Judá não é aí mencionado, tampouco seu deus Javé, mas a atitude de Ciro para com as divindades estrangeiras torna muito verossímil sua benevolência para com o deus dos israelitas e seu povo: « Possam todos os deuses que fiz voltar às suas cidades, diz Ciro na inscrição, possam eles, todos os dias, diante de Bel e Nabu, pedir o prolongamento dos meus dias e exprimir-me sua benevolência... » Cf. Van Hoonacker, Notes sur les lignes 30 sq. de l'inscription du cylindre de Cyrus, em Mélanges Charles de Harlez, 1896, p. 325 sq.

Da autenticidade do edito de Ciro não decorre necessariamente a verdade do retorno imediato dos exilados. Para negá-la, apoia-se sobretudo na atitude dos profetas Ageu e Zacarias, que « nunca fazem alusão a um acontecimento tão considerável quanto o do retorno do cativeiro; supõem sempre, ao contrário, ter diante de si os restos da nação, que a deportação caldeia não havia atingido; supõem que a Gola, a comunidade moral dos exilados, vive ainda dispersa longe do território. As primeiras colônias de repatriados só teriam sido trazidas bem mais tarde por Esdras. Esd., vii sq. E eis como, segundo Kosters, se teria datado do reinado de Ciro o retorno: a leitura das profecias do Dêutero-Isaías, onde é designado o Ciro de quem Javé devia servir-se, fez nascer, depois dos fatos, a persuasão de que, com efeito, foi a Ciro que Jerusalém devia seu templo reconstruído, e de que, logo após sua conquista, o vencedor da Babilônia havia enviado à Judeia um oficial de nome Sassabasar, com a missão de erguer das ruínas o santuário de Javé. A existência, na seção aramaica, Esd., v-vi, de restos de dois documentos, um dos quais teria ignorado por completo qualquer parte tomada por Ciro na reconstrução do templo, justificaria ainda essa reconstituição da história. Cf. Van Hoonacker, Nouvelles études, p. 18-31; Les douze petits prophètes, Paris, 1908, p. 539-540.

Se os profetas Ageu e Zacarias chamam seus compatriotas de o resto do povo ou deste povo, Ageu, i, 12, 14; 2; cf. Zac., viii, 6, 11, 12, não pretendem com isso designar unicamente aqueles que a deportação caldeia de 586 havia poupado e deixado no país, pois os judeus levados ao cativeiro, e os que, mais tarde, voltaram do exílio, eram, eles também, um resto, o resto do povo de outrora, tanto quanto e no mesmo título que os que ficaram no país; nos antigos profetas, a expressão empregava-se correntemente para designar o povo do futuro renovado pela provação. Van Hoonacker, Nouvelles études, p. 67-68. Pode-se, aliás, encontrar em Ageu uma alusão ao retorno que se seguiu bem de perto à queda da Babilônia: « Javé, diz ele, todos os males que atingiram o povo sobrevieram por causa da minha casa, que está em ruínas, enquanto vós vos apressais cada um para sua casa, » Ageu, i, 9, censurando com isso os judeus por sua atitude, durante os últimos anos decorridos, nos quais teriam estado mais preocupados em construir e instalar definitivamente sua própria morada do que em reconstruir o templo; não é essa a situação de uma população nova, estabelecida havia pouco no país?

Quanto ao profeta Zacarias, « longe de não fazer nenhuma alusão ao retorno do cativeiro, ele atesta da maneira mais formal que, em sua época, o grande acontecimento acabava de se cumprir. Toda a profecia de Zacarias o supõe. Nos c. vii-viii, proclama-se que o tempo da provação terminou para o povo judeu; os dias de penitência, incluindo o que celebrava a lembrança da dispersão da nação, são transformados em dias de festa. Nos c. i-vi, o profeta celebra a libertação do povo numa série de visões proféticas..., essa libertação é um fato atual, tanto quanto o da reconstrução do templo, tanto quanto o do castigo da Babilônia. Enfim, no c. vi, 9-15, Zacarias afirma em termos explícitos que a Gola, os judeus voltados da Babilônia, estão estabelecidos na Judeia. » Van Hoonacker, Nouvelles études, p. 87-88. Cf. seu comentário a Zacarias.

— b) Reconstrução do templo. Esd., iii-iv, 5. No segundo ano do retorno, Zorobabel, Josué e seus companheiros começaram os trabalhos do novo templo; os alicerces foram lançados e solenemente inaugurados, iii, 1-8. Depois de terem recusado o concurso « dos inimigos de Judá e de Benjamim », os repatriados foram impedidos, pelas intrigas destes últimos, de continuar os trabalhos, que só puderam ser retomados no segundo ano de Dario, iv, 1-5, 24. Essa representação dos primeiros tempos do retorno é exata, ou não seria antes uma invenção tendenciosa do Cronista, contradita pelo relato aramaico de Esd., v-vi, e sobretudo por Ageu e Zacarias?

Notemos, antes de tudo, o caráter de perfeita verossimilhança intrínseca que distingue o relato em questão. Se os exilados voltaram à Judeia, foi para reedificar o templo de seu deus. O altar que haviam erguido no lugar santo, e ao qual Ageu faz incidentalmente uma vaga alusão, ii, 14, e os donativos que o povo e seus chefes se apressaram a oferecer testemunham o zelo de que os companheiros de Zorobabel estavam animados pela restauração imediata do culto. O objetivo atribuído à expedição dos emigrantes era, segundo o edito, conforme nisso aos dados das inscrições de Ciro, o restabelecimento dos muros do templo; daí ser muito natural o empenho dos judeus repatriados em empreendê-lo.

O papel hostil atribuído às populações semipagãs vizinhas traz, também ele, a marca da história; a menção de Assaradão, iv, 2, como autor da colonização da Palestina, está em harmonia com as informações fornecidas pelas inscrições e só pode ter sido sugerida ao narrador por testemunhos precisos e seguros a respeito dos fatos que relata. » Van Hoonacker, Les douze petits prophètes, p. 544. Cf. Nouvelles études, p. 138-150.

Quanto à contradição entre Esd., iv e v, ela não existe. A carta endereçada a Dario sabe que Sassabasar, no começo do reinado de Ciro, veio a Jerusalém lançar os alicerces do templo, v, 16; o dado de v, 1-2, a respeito da construção do templo por instância dos profetas Ageu e Zacarias, não é incompatível com a suposição de que se trata « da retomada dos trabalhos, da construção do próprio edifício sobre os alicerces já existentes, ainda que sem dúvida deteriorados e a serem reparados após quinze anos de interrupção. » O v. 1, aliás, não é o início do relato; esse início se encontra no versículo precedente, iv, 24, o qual, por sua vez, deve ser ligado diretamente a iv, 1-5, cuja narrativa continua, interrompida pela inserção indevida de iv, 6-24, relativa ao caso da reconstrução dos muros.

O testemunho de Ageu e de Zacarias, frequentemente invocado contra o caráter histórico de Esd., não lhe é contrário. No c. i, 2 de Ageu, a palavra do povo « ainda não chegou o tempo de construir a casa de Javé » refere-se à retomada dos trabalhos, interrompidos em consequência das manobras hostis das populações rivais vizinhas, que haviam provocado uma reviravolta nas disposições do rei, a princípio favoráveis aos judeus. A ocasião de retomar a obra assim deixada inacabada só se apresenta por ocasião da ascensão de Dario, filho de Histaspes, graças, em particular, às guerras que se desencadearam e naturalmente desviaram a atenção de Jerusalém; as circunstâncias então se prestavam maravilhosamente à realização da grande empresa; o momento « estava bem escolhido quando Ageu se levantou para censurar seus compatriotas por suas longas delongas e estimular seu zelo. » Van Hoonacker, Les douze petits prophètes, p. 546. « O dia da fundação do templo, » Ageu, ii, 15-19, entende-se, no pensamento do profeta, como um termo fixado a certa distância no passado, para servir de ponto de partida à consideração das provações suportadas desde então; é o que prova o emprego da partícula 𐤌𐤍, lemin, que jamais serve para introduzir, seja na ordem do espaço seja na do tempo, um termo a quo considerado como presente, relativamente ao sujeito que fala ou que segura a pena. » Ibid., p. 573.

Tampouco há motivo para concluir contra a veracidade de Esd., iii, a partir de Zac., i, 16; vi, 12; iv, 9 — esta última passagem, relativa ao templo, antes advogando em favor de uma fundação anterior ao segundo ano de Dario. No c. viii, 9, o profeta não supõe como data da fundação do templo a época do início de seu ministério; sem dúvida « as fórmulas estes dias, o dia: tempo em que o templo foi fundado designam o presente atual em oposição ao tempo dos pais, aos quais os antigos profetas haviam feito ouvir suas promessas relativas a uma restauração futura; » mas « deve-se reconhecer que as palavras de Zacarias conservam todo o seu pleno significado na suposição de que o templo havia sido fundado já desde o segundo ano do retorno dos cativos. » Ibid., p. 644. A identificação dos fatos relatados nos c. iii e v de Esdras, formando um duplo relato de um mesmo acontecimento — a reconstrução do santuário sob Dario —, uma vez demonstrada, suprimiria, se suficientemente estabelecida, toda dificuldade. Cf. III Esd., v, 1-6, 46 sq. Theis, Geschichtliche und literarkritische Fragen in Esra, i-vi, p. 68-82.

— VIII. Cronologia. O compilador dos livros de Esdras-Neemias deixou-nos, portanto, um conjunto de documentos cujo valor permite empregá-los na reconstituição da história pós-exílica, não sem antes ter tentado estabelecer, entre esses documentos, uma ordem cronológica. É bem evidente, com efeito, que a sequência dos acontecimentos, tal como aparece na distribuição atual do livro, não pode corresponder inteiramente à realidade. A constatação desse fato é particularmente fácil para os c. iv-vi de Esdras. Os primeiros versículos, 1-5, narram as dificuldades suscitadas aos judeus por seus adversários na reconstrução do templo sob Ciro, e a impossibilidade de retomar a obra, interrompida em razão dessas dificuldades, antes do reinado de Dario Ier (521); os versículos seguintes, 6-23, relatam novas intrigas junto a Xerxes (Assuero) (485-465) e a Artaxerxes (465-424), com o objetivo de impedir o restabelecimento dos muros de Jerusalém; com iv, 24, retoma-se o relato da construção do templo: do segundo ano de Dario (520) ao sexto ano deste rei, tudo está terminado graças às ordens de Ciro, de Dario e de Artaxerxes, vi, 14. Há, portanto, erro seja nos nomes dos reis sob os quais se desenrolam esses acontecimentos, seja na sequência desses mesmos acontecimentos.

A história das missões de Esdras e de Neemias suscita numerosas dificuldades, provenientes sem dúvida de erros cronológicos na disposição atual dos relatos: quais foram as relações entre as duas personagens, por que as Memórias de um guardam o mais profundo silêncio sobre a obra do outro, etc. A cronologia inteiramente diferente do III livro de Esdras vem ainda complicar os problemas. Bayer, Das dritte Buch Esdras, p. 96-109.

— 1º Os reis Dario e Artaxerxes. Antes mesmo de abordar o estudo das relações cronológicas entre as diferentes partes de Esdras-Neemias, importa precisar a quais personagens exatamente correspondem os nomes dos reis da Pérsia mencionados por diversas vezes, pois isso também foi objeto de numerosas discussões e exige, antes de qualquer outra questão, uma solução. A qual Dario, a qual Artaxerxes é preciso atribuir os acontecimentos em que se acham misturados seus nomes? Vários reis, com efeito, da dinastia dos Aquemênidas trouxeram esses nomes, e o texto bíblico, ao citá-los, não acrescenta nenhuma indicação que permita distinguir as personagens de mesmo nome a quem devem ser atribuídos. A missão de Neemias prossegue sob o reinado de um rei de nome Artaxerxes.

Seria Artaxerxes Ier (465-424) ou Artaxerxes II (405-358)? A interpretação tradicional, adotada pela maioria dos críticos, faz dele o primeiro dos reis desse nome; a descoberta de papiros aramaicos em Elefantina deu-lhe plenamente razão. Sachau, Drei aramäische Papyrusurkunden aus Éléphantine, Berlim, 1907. Eis como: o primeiro desses documentos aramaicos, datado do ano 17 do rei Dario (o II, isto é, de 406), menciona uma carta enviada em nome da comunidade judaica residente em Elefantina a Delaiah e Chemaiah, filhos de Sanaballat, governador de Samaria; ora, esta última personagem não é outra senão o Sanaballat que está à frente dos inimigos de Neemias para impedi-lo de levar a bom termo a reconstrução dos muros de Jerusalém, Neh., ii, 33-34; iv, 1-2 (segundo a Vulgata, iv, 1-2, 7-8), no vigésimo ano de Artaxerxes; logo, o Artaxerxes cujo vigésimo ano marca o começo dos acontecimentos em que se acham envolvidos Neemias e Sanaballat, pai dos destinatários da carta, não pode ser senão Artaxerxes Ier (465-420), e assim o início da missão de Neemias fica fixado em 445. O mesmo papiro cita ainda outra carta, enviada a Jehokhanân, o sumo sacerdote, e a seus confrades, os sacerdotes de Jerusalém.

Por ocasião de sua primeira estada na capital de Judá, Neemias ali se encontrou com Éliasib, o sumo sacerdote, Neh., iii, 4, que era pai, Neh., xii, 22, ou mais provavelmente avô de Jehokhanân (Johanan), pois Éliasib gerou Joiada, que gerou Jonathan, Neh., xii, 10, o mesmo que Jehokhanân, ou talvez seu filho, « um elo dessa genealogia, curta demais para o lapso de tempo que deve cobrir, » podendo « ter sido omitido por causa da semelhança dos nomes. » Lagrange, Les nouveaux papyrus d'Éléphantine, na Revue biblique, 1908, p. 343. Seja como for, essa aproximação entre Neemias e o pai ou o avô de Jehokhanân, mencionado no documento aramaico de 406, confirma a conclusão anteriormente obtida: Neemias, governador de Jerusalém no vigésimo ano de Artaxerxes Ier, 445. Nessa época, a casa de « Deus » já estava erguida de suas ruínas, Neh., vi, 10, 11; xiii, 4 sq.; havia sido erguida sob o sumo sacerdote Josué, avô de Éliasib, Neh., xii, 10, contemporâneo de Neemias; assim, portanto, o Dario que permitiu a reconstrução do templo e viu sua conclusão no sexto ano de seu reinado é Dario Ier, filho de Histaspes, 521-485, ao contrário da opinião de Haneberg, Imbert, Howorth, que sustentam tratar-se de Dario II, 423-405.

A menção de Artaxerxes (I), Esd., vi, 14, poderia causar dificuldade, se não fosse uma glosa (Siegfried, Bertholet), ou antes uma grafia errônea de um copista desatento. Theis, op. cit., p. 37-39. Tampouco se poderia objetar a menção de Xerxes (485-465) e de Artaxerxes (465-424) no c. iv de Esd., 6-23; na opinião da grande maioria dos críticos, essa passagem, em que se trata do restabelecimento dos muros de Jerusalém, está fora de seu lugar natural e interrompe violentamente o relato da construção do templo, Esd., iii, iv, 1-5, 24, v, vi; deve ser colocada imediatamente antes das Memórias de Neemias, e assim o Dario do c. v é o mesmo que o de iv, 1-5, a saber, Dario Ier. Ao contrário da opinião comum, Theis vê, nos versículos 6-23 do c. iv, o relato da construção do templo; os nomes de Xerxes e de Artaxerxes, que poderiam suscitar dificuldade, devem ser rejeitados, o último como uma glosa muito tardia, o primeiro para dar lugar ao de Ciro, nome dado por vezes ao Aquemênida que reinou de 485 a 465, o que provocou a confusão entre ele e Ciro o libertador. Josefo, Ant., jud., XI, vi, 1; — Theis, op. cit., p. 39-55.

2° Sassabasar-Zorobabel. Postos esses primeiros marcos cronológicos: Dario I (521-485) o contemporâneo da reconstrução do templo, e Artaxerxes I (465-424) o contemporâneo de Neemias, resta determinar a ordem de sucessão dos acontecimentos. Como, desde o início, representar-se a história do retorno e das primeiras tentativas de restauração? Dois nomes dominam todos os outros, os de Sassabasar (Scheschbassar), o príncipe de Judá, vindo a Jerusalém para reconstruir o santuário de Javé, e de Zorobabel, retornado à Judeia à frente dos emigrantes; a disposição do relato é tal que se colocou a questão da identidade ou da distinção das personagens assim designadas.

Em favor da identidade, apresentam-se as seguintes razões: ambos são príncipes de Judá, um porque tem expressamente esse título, Esd., I, 8, o outro porque é neto do rei Jeconias, I Par., III, 18-19; Sassabasar é apresentado como o chefe dos emigrantes, enviado por Ciro; Zorobabel aparece à frente das caravanas de repatriados, Esd., II, 1; é o organizador da comunidade, II, 63, o representante da autoridade em suas relações com as populações vizinhas, IV, 2 sq.; a um e a outro é atribuída a colocação dos fundamentos do templo, V, 16; III, 10; Zac., IV, 9; Sassabasar recebeu de Ciro o título de pehâ, governador, Esd., V, 14, no ano 2 de Dario; Zorobabel também é governador, Ag., I, 1, e já o é há algum tempo, visto que nem o sátrapa Thalhanaï, nem o rei Dario parecem conhecê-lo. Esd., V, 10. Van Hoonacker, Les douze petits prophètes, p. 513. O uso de dois nomes para uma só personagem se explicaria assim: Sassabasar é o nome babilônico do príncipe judeu; Schamasch-bal- usur ou "Sin protege o filho ou o príncipe" é o sentido exigido pelas palavras que o compõem, V. 18: Sassabasar (ou forma do nome na Bíblia grega Sassabasar); esse nome, portanto, não lhe foi dado por seus compatriotas, que o designavam sob outro nome, o de Zorobabel, cuja etimologia permanece incerta. Fischer, op. cit., p. 24-30.

Contra essa identidade, várias objeções foram formuladas: a própria dualidade dos nomes, uma passagem de Esd., V, 2, onde, após a menção de Zorobabel, fala-se de Sassabasar, V, 14, como de um personagem diferente, outra, I Par., III, 18 sq., onde Zorobabel é distinguido por sua própria genealogia de Senécer, o mesmo, crê-se, que Sassabasar. Elas não parecem insolúveis. Van Hoonacker, Zorobabel et le second temple, Gand e Leipzig, 1892 (extrato do Muséon, 1891); Notes sur l'histoire de la restauration juive, na Revue biblique, 1901, p. 7-10; Dictionnaire de la Bible, art. Sassabasar. A cronologia dos acontecimentos, referidos nos c. III-VI, está suficientemente estabelecida pelo que foi dito acima sobre o valor histórico desses relatos. Esdras-Neemias ou Neemias-Esdras. No c. vii começam as Memórias de Esdras e também a questão das relações de seu autor com Neemias. Se a ordem dos fatos corresponde à dos documentos, Esdras veio a Jerusalém no 7º ano de Artaxerxes I, 13 anos antes de Neemias; essa é a opinião tradicional.

Em uma memória cujo título já enuncia a tese, Néhémie et Esdras, nouvelle hypothèse sur la chronologie de l'époque de la restauration juive, Louvain, 1890, Van Hoonacker acreditou poder abandoná-la, mantendo o 20º ano de Artaxerxes I, 445, para o retorno de Neemias, mas fazendo descer o de Esdras ao 7º ano de Artaxerxes II, em 398, de acordo nesse último ponto com de Saulcy, Étude chronologique des livres d'Esdras et de Néhémie, Paris, 1868; Havet, La modernité des prophètes, na Revue des deux mondes, 1889, t. xciv, p. 799; Imbert, Le temple rebâti par Zorobabel, no Muséon, 1888-1889. Em apoio à nova hipótese e em resposta aos contraditores, surgiram sucessivamente Néhémie et Esdras: en l'an 20 d'Artaxerxès I, en l'an 7 d'Artaxerxès II, réponse à un mémoire d'A. Kuenen, Gand e Leipzig, 1892; Nouvelles études sur la restauration juive après l'exil de Babylone, p. 151-310; Notes sur l'histoire de la restauration juive après l'exil, na Revue biblique, 1901, p. 5-26, 175-199. Se a maioria dos críticos não aderiu às conclusões desses trabalhos, aos quais J. Wellhausen, A. Kuenen, J. Nikel, J. Fischer, entre outros, não pouparam seus ataques, outros reconhecem o seu fundamento, ao menos no que diz respeito à anterioridade da primeira missão de Neemias em relação à de Esdras; assim W. H. Kosters, T. K. Cheyne, Meignan, Lagrange, Pelt, Gigot.

Eis, aliás, os principais argumentos invocados por Van Hoonacker. À notícia das desgraças de Jerusalém, Neemias pede ao rei autorização para retornar à cidade de seus pais para reerguer-lhe os muros, Neh., ii, 5; nem ele, nem o rei parecem suspeitar da existência na Judeia de um dignitário judeu, encarregado de plenos poderes para a administração dos negócios, e que, por conseguinte, teria sido o indicado para a obra que Neemias solicita empreender. Em Jerusalém, a mesma ignorância, os estrangeiros, então todo-poderosos, não conhecendo ali homem capaz de " procurar o bem dos filhos de Israel". Neh., ii, 10. No relato de seus primeiros passos na capital de Judá, Neemias não faz alusão alguma a Esdras, nem mesmo no c. vii, onde dá os nomes de seus colaboradores, silêncio que parece bem incompatível com a nomeação de Esdras alguns anos antes ao título de administrador-chefe de todos os assuntos judaicos. Em 458, os muros da cidade santa ainda não haviam sido erguidos de suas ruínas; não é, portanto, extraordinário ver Esdras não compartilhar das preocupações de seus compatriotas quanto à reconstrução da muralha, Esd., iv, 11-22, sem fazer pedido algum, sem tentativa alguma nesse sentido? Por outro lado, na confissão das infidelidades do povo, Esd., ix, 9, a alusão aos muros em Judá e em Jerusalém, quer se entenda no sentido próprio ou figurado, dificilmente se concebe senão na hipótese de uma restauração já feita da muralha da cidade, ou seja, na hipótese da vinda e da obra de Neemias, anteriores às de Esdras.

Repovoar Jerusalém foi parte da tarefa do governador enviado em 445, Neh., xi, 1-2; ora, Esdras teria encontrado, alguns anos antes, uma cidade habitada: os chefes de famílias sacerdotais, levíticas e leigas ali residiam, uma multidão imensa ali se reunia na hora do sacrifício da tarde, Esd., viii, 29; x, 1; não é porque Neemias já havia devolvido à capital seus muros, suas casas e seus habitantes? Cf. Eclo., xlix, 13. O estado lamentável em que se encontrava o culto, em meados do século V, testemunhado pelo profeta Malaquias e pelas reformas empreendidas por Neemias, Neh., x, 32 sq., não se compreenderiam depois da missão de Esdras, carregado de presentes pelo rei e seus ministros, coberto de favores e privilégios para o templo e o serviço divino, Esd., vii; ou então seria preciso concluir por um fracasso completo e rápido da restauração do culto, fracasso inverossímil se se observar que essa parte das Memórias de Esdras, vii, 12-28, deve ter sido escrita ao mesmo tempo que o conjunto, isto é, alguns anos pelo menos depois do retorno do escriba, quando o insucesso deveria tê-lo feito calar o relato de esperanças tão prontamente frustradas. Esd., vii, 27.

A desorganização da comunidade judaica, resultante da invasão e da preponderância dos elementos estrangeiros, no momento da chegada do novo governador de Jerusalém, Neh., primeiros capítulos, não se concebe tampouco como consequência imediata da missão oficial e da "obra de Esdras. Esd., vii-x." A atitude das duas personagens na questão dos casamentos mistos constitui, por si só, uma prova incontestável de que os fatos relatados, Esd., vii-x, ocorreram em época mais recente que os relatados, Neh., vii sq. Em sua primeira estada, Neemias, que não perde ocasião alguma de condenar as ações repreensíveis de que é testemunha, não tem uma palavra sequer para desaprovar esses casamentos, fala deles de um modo que não permite crer que fossem então proibidos. Neh., vi, 17-19. Só mais tarde, na assembleia geral, realizada depois da reconstrução do muro, estendeu-se a todos os estrangeiros a lei deuteronômica, que proibia os casamentos entre judeus e cananeus, Neh., x, 30; também, vindo pela segunda vez a Jerusalém, Neemias repreendeu e puniu severamente os violadores do compromisso então assumido, relativo aos casamentos mistos. Neh., xiii, 23-29.

Nos primeiros tempos de Esdras, tais uniões não são raras, mas são consideradas contrárias à Lei, e, por consentimento unânime da comunidade, devem ser desfeitas, mesmo as contraídas há muito tempo. Esd., x. Essa reforma radical operada pelo escriba não aparece como o desfecho da campanha iniciada por Neemias? A situação respectiva das duas personagens na grande assembleia de Jerusalém, Neh., viii sq., não é menos significativa. O papel de Esdras, se se deixar de lado a glosa: καὶ εἶπεν Ἔσδρας· da versão grega, Neh., viii, 9, e a provável interpolação de viii, 9, que menciona o escriba e os levitas, reduz-se à simples leitura da Lei. Bem diferente é o papel de Neemias; a ele é preciso atribuir a convocação da assembleia, Neh., v, 7, a ele cabe a presidência, viii, 9, a ele incumbe ainda a preocupação de assegurar a fiel observância das resoluções tomadas, xiii, 8 sq., seu nome enfim encabeça a lista das famílias signatárias da aliança concluída entre Deus e seu povo, x, 2, o de Esdras ali não figura. Esdras aparece assim, em seus primeiros anos, com idade de 25 a 30 anos, e, se se data a assembleia dos anos 442-440 no mínimo, seguir-se-á que, no 7º ano de Artaxerxes II ou 398, ele tinha por volta de 70 anos, idade que corresponde bem ao retrato que nos traçam do escriba os c. ix-x de Esdras.

O sumo sacerdote, contemporâneo das duas estadas de Neemias em Jerusalém, é Eliasibe, cujo neto Joanã, Neh., xii, 22, se encontra com Esdras. Esd., x, 6. Enfim, os dados da história profana parecem, eles também, favoráveis à hipótese. O ano 458 marca, na história da Pérsia, um período desastroso; as derrotas esmagadoras sofridas pelos exércitos do grande rei no mar e no Egito não podiam permitir a Artaxerxes I mandar de volta à pátria o escriba Esdras, encarregado de tesouros para o templo, e autorizado a reclamar subsídios dos cofres públicos. O 7º ano de Artaxerxes II, isto é, a época em que esse rei acabava de triunfar sobre a revolta de Ciro, o Jovem, presta-se, ao contrário, perfeitamente à história do retorno de Esdras, e assim já não é necessário atribuir ao mesmo rei, primeiro o edito de Esd., vii, 12-26, que colma os judeus de favores, depois o de Esd., iv, 8-23, onde eles são muito maltratados, e enfim a missão de Neemias. Van Hoonacker, na Revue biblique, 1901, p. 175-199; Lagrange, ibid., 1894, p. 561-585; cf. 1895, p. 186-202; 1908, p. 343, nota 1. Ver também as razões dadas por Riessler para datar o retorno de Neemias de 538 e o de Esdras de 523. Ueber Nehemias und Esdras, na Biblische Zeitschrift, 1903, p. 232-245; 1904, p. 15-27, 145-153; Wann wirkte Nehemias? na Theol. Quartalschrift, 1910, t. xcii, p. 1-6.

Terão esses argumentos peso suficiente para autorizar uma modificação tão considerável na história tradicional da restauração judaica e na disposição dos livros que a narram? Muitos se recusam a admiti-lo. Insistem na natureza própria da missão desempenhada por Esdras e Neemias, uma antes de tudo política, a outra antes de tudo religiosa, e essa distinção responderia a muitas objeções. Lesêtre, art. Artaxerxès II, no Dictionnaire de la Bible, t. I, col. 1042-1043. Observam, em textos que relatam fatos passados no tempo de Neemias ou antes dele, alusões ao retorno de Esdras, por exemplo, na carta de Reum e Samsai, Esd., iv, 12; na lista dos colaboradores de Neemias, notam os nomes de personagens retornados com Esdras, entre outros Hasabias, Neh., iii, 17, e Esd., viii, 19, Hatus, Neh., iii, 10, e Esd., viii, 2, Malquias, Neh., iii, 11, e Esd., x, 31, etc. Só encontram a explicação do papel de Esdras ao lado de Neemias na assembleia do c. viii de Neh., e do pedido do povo ao escriba para apresentar a Lei, na hipótese de uma missão especial confiada a Esdras pelo grande rei, e de uma parte dessa missão já realizada. Esd., vii-x. J. Nikel, Die Wiederherstellung des jüdischen Gemeindewesens nach dem babylonischen Exil, p. 151 sq. Fischer, Die chronologischen Fragen, p. 69-83. Cf. Van Hoonacker, na Revue biblique, 1901, p. 5-26.

A cronologia dos diferentes acontecimentos da história de Neemias tampouco está isenta de alguma dificuldade. Em que momento situar as reformas religiosas relatadas nos c. viii-x? A opinião de Schlatter, que as remete ao tempo de Zorobabel, Zur Topographie und Geschichte Jerusalems, Stuttgart, 1893, p. 405, e a de Kosters, que as faz descer até o segundo governo de Neemias, não são fundamentadas. Op. cit., p. 76-87. A sucessão dos fatos, tal como se apresenta no relato atual, é natural, e o deslocamento exige supostas alterações do texto ou se baseia em hipóteses gratuitas." Mangenot, art. Néhémie, no Dictionnaire de la Bible, t. IV, col. 1572. Cf. Van Hoonacker, Nouvelles études, p. 204-254. O relato da dedicação dos muros, Neh., xii, 27-46, não deve ser colocado antes da designação dos habitantes de Jerusalém, xi, Nikel, op. cit., p. 196-218; a dedicação pode muito bem ter seguido as reformas religiosas e civis.

— IX. Ensinamentos doutrinais e morais. O período correspondente aos livros de Esdras-Neemias é muito importante do ponto de vista da história religiosa de Israel, é o das origens do judaísmo; vários problemas interessantes a ele se ligam, entre outros o da influência das religiões da Pérsia e da Babilônia sobre a religião de Javé, e o da determinação do código de leis promulgado solenemente por Esdras. Neh., viii. O estudo desses problemas não caberia no quadro deste artigo; indicaremos apenas alguns dados religiosos apontados nos livros de Esdras-Neemias.

— 1° Deus. A onipotência de Javé se traduz nos títulos que acompanham seu nome: o Deus grande, Neh., viii, 6; Esd., v, 8; o Deus do céu, grande e temível, Neh., i, 5; o criador do céu e da terra, cujo nome está acima de todo louvor, Neh., ix, 6. Sua autoridade ultrapassa os limites de Israel; Nabucodonosor e Ciro não são senão instrumentos a serviço de sua vontade para a ruína ou a libertação de seu povo, Esd., v, 11; i, 1; os próprios estrangeiros, aliás vencedores, e os reis lhe prestam homenagem: "Javé, o Deus do céu, me deu, disse Ciro, todos os reinos da terra, e me ordenou que lhe construísse uma casa em Jerusalém." Esd., i, 2. Dario não ignora a soberania e a autoridade do Deus de Israel, que não se pode desconhecer impunemente. Esd., vi, 12. Sua justiça, com efeito, se manifesta no castigo daquele que falta à sua palavra, Neh., v, 13, e na fidelidade com que ele mesmo mantém sua própria palavra. Neh., ix, 8.

Criador do céu e da terra, senhor dos impérios, Javé é também o Deus de Israel, Esd., i, 3; iv, 1; v, 1; vi, 21-22; residindo em Jerusalém, Esd., i, 3; ii, 68; suas intervenções em favor de seu povo foram inúmeras no passado, Neh., ix, 7 sq., elas continuam, Esdras, Neemias, todos os judeus se sentem protegidos pela mão benfazeja de seu Deus, Esd., vii, 9-10, 28; viii, 18, 31; Neh., ii, 8, 18; com ele, seu povo nada tem a temer de seus inimigos, Neh., iv, 11; o próprio Javé combaterá, Neh., iv, 20, para aniquilar seus desígnios. Neh., iv, 15. Contudo, por causa das iniquidades de Israel, ele o entregou ao estrangeiro, Esd., ix, 7, 13, pois é um Deus justo, mas não menos misericordioso e clemente, Neh., ix, 31; não o abandonou, salvaguardou alguns deles, Esd., ix, 9; poupando-os mais do que mereciam suas iniquidades, Esd., ix, 13; sua misericórdia para com Israel subsiste para sempre, Esd., iii, 11; ele é lento à ira e rico em bondade. Neh., ix, 17.

— 2° Os deveres de Israel para com Deus. 1. A fidelidade. A comunidade judaica deve reconhecer seu Deus pelo culto exclusivo que lhe prestará, nada do que possa atentar contra isso deve ser tolerado. Os repatriados haviam trazido do exílio o horror a toda ingerência estrangeira em sua religião, ao passo que os que haviam permanecido em Judá, por suas alianças com seus vizinhos, haviam comprometido a pureza do culto; doravante todo contato com os não judeus deverá ser evitado, a estes últimos não cabe concorrer para a construção da casa de Deus, "nós a construiremos sozinhos para Javé, o Deus de Israel", dizem Zorobabel, Josué e os chefes de família. Esd., iv, 3. Os que tomaram mulheres estrangeiras deverão repudiá-las e medidas rigorosas são adotadas para garantir a pureza do judaísmo, representada por aqueles que voltaram do cativeiro. Esd., x. As numerosas dificuldades, consequência dessa atitude intransigente para com o estrangeiro, não detêm o zelo dos reformadores, eles não faltarão à sua missão, as prementes exortações de Ageu e de Zacarias farão vingar, apesar de tudo, a reconstrução do templo, a energia e a perseverança de Esdras e de Neemias assegurarão uma observância mais estrita da Lei. A reorganização do culto contribuirá para isso em boa parte.

— 2. O culto. As diferentes categorias de ministros, sacerdotes, levitas, cantores, porteiros, natineus, têm todos suas funções especiais; para os sacerdotes, sua origem deve ser rigorosamente estabelecida segundo os registros genealógicos, sob pena de serem rejeitados do sacerdócio como impuros. Esd., ii, 62; Neh., vii, 64. As festas são celebradas solenemente, festa da Dedicação e dos Tabernáculos, luas novas, sábados; todos devem impor-se a obrigação de pagar um terço de siclo por ano para o serviço da casa de Deus, para os pães da proposição, o sacrifício perpétuo, as coisas consagradas e os sacrifícios de expiação. Neh., x, 32, 33. Aos sacrifícios do templo, às purificações legais, o fiel adorador de Javé junta a oração, o jejum, a humilde confissão de suas iniquidades, Neh., i, 4, 6, 7; ix, 2, 3; ele sabe que as ordenanças de seu Deus fazem viver os que as põem em prática, e que o sofrimento é uma expiação. Neh., ix, 29, 32. A confiança em Deus, a generosidade, o desinteresse são outros tantos títulos ao favor divino, o governador de Jerusalém os reivindica no cumprimento de sua obra. Neh., vi, 9; xiii, 14, 22, 31. Cf. Smend, Lehrbuch der alttestamentlichen Religionsgeschichte, Fribourg, 1899, p. 332-341.

3. A Lei. A expressão autêntica das ordens do alto se encontra na Lei de Moisés; ela é a regra que se impõe a todos para garantir a fidelidade a Javé, por isso é lida a todos para ser ouvida e compreendida por todos. Neh., viii. Não se trata, de modo algum, nessa passagem, da primeira promulgação de código algum. Não somente Esdras, que deveria atingir o apogeu de sua carreira uns quarenta anos mais tarde, não podia estar investido, por ocasião da primeira estada de Neemias em Jerusalém, de autoridade suficiente para figurar como promulgador de leis, mas o próprio teor do relato de Neh., viii, protesta contra o abuso que dele se fez. Não se descreve aqui outra coisa senão uma leitura solene do livro da Lei, em conformidade com os usos tradicionais nas assembleias judaicas. Van Hoonacker, Les douze petits prophètes, p. 699-700.

— X. Comentários. Nem os Padres gregos nem os Padres latinos comentaram os livros de Esdras-Neemias. O Venerável Beda foi o primeiro a fazê-lo, na obra intitulada In Esdram et Nehemiam prophetas allegorica expositio, P. L., t. xci, col. 807-924.

Pouco estudados durante a Idade Média, Esdras e Neemias foram objeto de alguns comentários especiais, citemos entre outros, a partir do século XVI, Sanchez, Commentarius in libros Ruth, Esdrœ, Nehemiœ, Lyon, 1628; A. Crommius, In Job..., Esdram, Nehemiam, Louvain, 1632; N. Lombard, In Nehemiam et Esdram, commentarius litteralis, moralis, allegoricus, Paris, 1643; L. Mauschberger, In libros Paralipomenorum, Esdrœ, Tobiœ, Olmütz, 1758; E. Bertheau, Die Bücher Ezra, Nehemia und Esther, Leipzig, 1862; reeditado por V. Ryssel 1887; Ad. Kamphausen, em Ch. J. Bunsen, Vollständiges Bibelwerk für die Gemeinde, Leipzig, 1865, t. I, fasc. 3; F. C. Keil, Biblischer Commentar über die nachexilischen Geschichtsbücher: Chronik, Esra, Nehemia und Esther, Leipzig, 1870; G. Rawlinson, Ezra, Nehemiah, Londres, 1873; H. J. Matthews, Commentary on Ezra and Nehemiah, editado por R. Saadjah, Oxford, 1882; F. W. Schultz, Die Bücher Esra, Nehemia und Esther, Bielefeld e Leipzig, 1876, em J. P. Lange, Theol. homilet. Bibelwerk; S. Oettli e J. Meinhold, Chronik, Esra und Nehemia, Munique, 1889, em Zöckler-Strack, Kurzgef. Kommentar; W. Adeney, Ezra, Nehemiah and Esther, Londres, 1893; H. E. Ryle, The books of Ezra and Nehemiah, Cambridge, 1893, em Cambridge Bible for schools; Reuss, Chronique ecclésiastique de Jérusalem, Paris, 1878, na Bible, t. vi; H. Guthe e L. W. Batten, The books of Ezra and Nehemiah, Leipzig, 1901, na edição policromada de P. Haupt; D. C. Siegfried, Esra, Nehemia und Esther, Gotinga, 1901, em Nowack, Handkommentar zum A. T.; A. Bertholet, Die Bücher Esra und Nehemia, Tübingen e Leipzig, 1902, em K. Marti, Kurzer Hand-Commentar zum A. T.; John, Die Bücher Esra (A und B) und Nehemja, Leiden, 1909; T. W. Davies, Ezra, Nehemiah and Esther, em The Century Bible, Londres, 1910; H. E. Ryle, Ezra and Nehemiah, Cambridge, 1911.

Entre os católicos, Vatable, no Cursus completus de Migne, t. XII; B. Neteler, Die Bücher Esdras, Nehemias und Esther aus dem Urtext übersetzt erklärt, Münster, 1877; 1908; Clair, Esdras et Nehemias, Paris, 1882; Fillion, Le livre d'Esdras, livre de Néhémie, na Sainte Bible commentée, Paris, 1891, t. III; M. Seisenberg, Esdras, Nehemias und Esther, Viena, 1901, em Kurzgef. wissenschaftl. Commentar zu den heil. Schrift. des A. T.

F. Vigouroux, Manuel biblique, 12ª ed., Paris, 1906, t. II, p. 158-168; R. Cornely, Introductio specialis in historicos V. T. libros, Paris, 1887, p. 351-370; F. E. Gigot, Special Introduction, Nova York, Cincinnati, Chicago, 1903, t. I, p. 317-336; H. Cornill, Einleitung in das Alte Testament, 3ª ed., Freiburg im Breisgau e Leipzig, 1896, p. 128-136; Driver, Introduction to the literature of the Old Testament, Edimburgo, 1898, p. 540-554; trad. Rothstein, Berlim, 1896, p. 576-592; H. Strack, Einleitung in das Alte Testament, 6ª ed., Munique, 1906, p. 164-166; G. Wildeboer, Die Literatur des Alten Testaments, trad. alemã, 2ª ed., Gotinga, 1906, p. 404-420; L. Gautier, Introduction à l'Ancien Testament, Lausanne, 1906, t. II, p. 380-400; A. H. Sayce, Introduction to the books of Ezra, Nehemiah and Esther, Londres, 1885; 5ª ed., 1909; em geral, as introduções ao Antigo Testamento. F. Vigouroux, Dictionnaire de la Bible, art. Esdras (Premier livre d'), t. II, col. 1929-1943; Néhémie (Livre de), t. IV, col. 1565-1579; Hastings, A Dictionary of the Bible, art. Ezra and Nehemiah, t. I, p. 821-824; Cheyne, Encyclopædia biblica, art. Ezra-Nehemiah, t. II, col. 1478-1488; The catholic encyclopedia, t. v, p. 535-538; Hauck, Realencyclopädie, art. Ezra und Nehemia, t. v, p. 500-523; Nehemia, t. XIII, p. 700-705.

A acrescentar às obras assinaladas no decorrer do artigo, para a crítica literária: Winckler, em Altorientalische Forschungen, 2ª série, t. III, 2, p. 458-489; Nestle, Esdras, em Marginalien und Materialien, Tübingen, 1893, p. 23-31; para a crítica histórica: Margraf, Zur Aufhellung der nachexilischen Chronologie, na Tub. theol. Quartalschrift, 1870; Nöldeke, Aufsätze zur persischen Geschichte, Leipzig, 1887; Rosenzweig, Das Jahrhundert nach dem babylonischen Exil, Berlim, 1885; Ch. Huyghe, La chronologie des livres d'Esdras et de Néhémie, na Revue des questions historiques, 1893, p. 5-48; Kuenen, Die Chronologie der persischen Periode in der jüdischen Geschichte, em Gesammelte Abhandlungen, Fribourg, 1894, p. 211; Marquart, Die Organisation der jüdisch. Gemeinde nach dem sogenannten Exil, em Fundamente israelit. und jüd. Geschichte, Gotinga, 1896, p. 28-68; Winckler, Die Zeit der Herstellung Judas, em Altorient. Forschungen, 2ª série, t. XI, 1, p. 210-227; Nehemias Reform, p. 228-236; Die Zeit von Ezras Ankunft in Jerusalem, p. 241-244; Jampel, Die Wiederherstellung Israels unter den Achämeniden, em Monatsschrift für Geschichte und Wissenschaft des Judentums, t. XLVII e XLVIII; H. J. Bornstein, Neu aufgefundene chronologische Daten der Epoche Ezras und Nehemias (em hebraico), em Festschrift Harkavys, São Petersburgo, 1908, p. 63-104; G. Klameth, Ezras Leben und Wirken, Viena, 1909; Vom Ausbau des zweiten Tempels bis zum Mauerbau Nehemias (progr.), 1909-1910. As histórias de Israel de Stade, Wellhausen, Cornill, Guthe

Autor original: A. Clamer

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