ENTUSIASTAS

ENTUSIASTAS

ENTUSIASTAS. Muitos protestantes modernos compreendem sob esse nome todos aqueles que, no cristianismo, foram, ou se julgaram, objeto de favores particulares de Deus, e dirigiram sua vida, não apenas segundo os ensinamentos, comuns a todos os cristãos, da Escritura e da Igreja, mas segundo as inspirações milagrosas que receberam, ou julgaram receber, do céu. São assim classificados entre os entusiastas, numa graciosa mistura, ao lado dos profetas de Israel, os apóstolos e são Paulo em particular, todos os místicos da Igreja primitiva, da Idade Média e dos tempos modernos, ortodoxos tanto quanto heréticos; santa Teresa e a B. Margarida-Maria são entusiastas como os camisards e os quakers. Cf. a bibliografia e os textos citados por K. Thieme, art. Verzückung da Realencyklopädie für protestantische Theologie, t. xx, p. 586 sq. Habitualmente, a palavra é tomada em sentido pejorativo e designa aqueles que, sob pretexto de inspirações diretas de Deus, se subtraem à direção das autoridades espirituais. Assim Teodoreto, falando dos massalianos: «Chamam-se entusiastas, porque, submetidos à influência de um certo demônio, o tomam pela presença neles do Espírito Santo», ἐνθουσιασταὶ γὰρ καλοῦνται, δαίμονός τινος ἐνέργειαν εἰσδεχόμενοι, καὶ πνεύματος ἁγίου παρουσίαν ταύτην ὑπολαμβάνοντες.

E ele os mostra afastando-se do trabalho manual como de um vício, entregando-se ao sono, e tomando as fantasias de seus sonhos por profecias. H. E., 1. IV, c. X, P. G., t. LXXXII, col. 1144. Os primeiros protestantes permaneceram, nesse ponto, fiéis ao uso antigo. Assim o art. 8 de Esmalcalda diz: Præmuniamus nos adversum enthousiastas, id est spiritus qui jactitant se, ante verbum et sine verbo, spiritum habere, et ideo Scripturam, sive vocale verbum judicant, flectunt et reflectunt, pro lubitu. Em virtude dessa noção, o papado é apresentado como «um puro entusiasmo», merus enthusiasmus, pretendendo o papa que «tudo o que pensa e ordena na Igreja é justo e bom, ainda que decidisse contrariamente à Escritura.» Adão e Eva foram «entusiastas» no paraíso terrestre, porque se deixaram arrastar «para longe dos preceitos formulados pelo próprio Deus, rumo às suas opiniões próprias e às suas inspirações pessoais.» A mesma doutrina na Fórmula de Concórdia, part. I, c. a. 6; part. II, ii, 4, c. ii, a. 6. Libri symbolici Ecclesiæ lutheranae, Leipzig, 1847, t. II, p. 34; t. III, p. 28, 99, 118. Lutero aplicou o qualificativo de entusiastas aos «profetas celestes» e outros iluminados que se recusavam a seguir sua direção, aos sacramentários.

Sämmtliche Werke, Erlangen, 1826 sq., LXIII, p. 387. Melâncton trata de fanáticos os entusiastas para quem «o Espírito Santo é dado, ou é eficaz, fora da palavra de Deus, e que por essa razão desprezam o ministério do Evangelho e dos sacramentos.» Confess. August. var., a. 5, em Corpus reformatorum, t. XXVI, col. 354 sq. No século XVIII, tratou-se de entusiastas os metodistas em seu primeiro fervor. Ainda hoje, dá-se o mesmo nome aos adeptos desses revivals que sacodem as multidões protestantes, e criam por vezes às autoridades espirituais e temporais sérias dificuldades. M. A. Matter está na tradição dos primeiros protestantes, quando escreve: «Em teologia, chamou-se por vezes entusiastas os místicos ou fanáticos que se fundam numa luz interior para negligenciar os ensinamentos da Sagrada Escritura.» Encyclopédie des sciences religieuses de Lichtenberger, t. IV, p. 435

Autor original: J. de la Servière

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