ELEUTÉRIO (Santo), em grego Eleutheros, foi papa de 174 a 189, depois de Sotero. Segundo o Liber pontificalis, ele era grego de nação, filho de Habundius, e originário de Nicópolis. Foi diácono da Igreja romana sob Aniceto, se se pode crer em Hegesipo (por volta de 154-164). Não foi mártir. Sob Marco Aurélio († 180), não é certo que tenha havido perseguição violenta em Roma, e a atribuição do martírio de santa Cecília por M. De Rossi ao fim de seu reinado não está absolutamente provada. Sob Cômodo (180-192), houve paz, embora o senador Apolônio tenha então sofrido a morte. Sua atitude em relação ao movimento montanista, que passou da Ásia Menor para Roma e para a Gália na segunda metade do século II, não é bem conhecida. Os confessores da Igreja de Lião escreveram a esse respeito uma carta que foi levada por Irineu, então presbítero, a seus irmãos da Ásia e da Frígia e a Eleutério. Segundo as observações de Eusébio, vê-se que, embora opostos aos montanistas, os fiéis de Lião defendiam a conservação da unidade eclesiástica. Por outro lado, se se crê em Tertuliano, Adversus Praxeam, 1, um papa teria enviado primeiro aos inovadores cartas conciliadoras, e depois, essas cartas, segundo Práxeas, teriam sido revogadas.
Esse papa seria talvez Eleutério, que, depois de ter hesitado, teria se declarado contra eles. A respeito dos gnósticos e dos marcionitas, o Liber pontificalis atribui a Eleutério um decreto estabelecendo que nenhum alimento devia ser desprezado pelos cristãos. Et hoc iterum firmavit ut nulla esca a christianis repudiaretur. Isso não é impossível. A ele se liga também a lenda do rei Lúcio da Britânia: Hic accepit epistula a Lucio Brittano rege ut christianus efficeretur per ejus mandatum. Esse rei lhe teria escrito para pedir-lhe missionários. Esse fato é rejeitado por todos os críticos modernos. Foi tomado de empréstimo pelos escritores ingleses ao autor do Liber pontificalis, que dele fala pela primeira vez. Este não pôde tê-lo tomado das discussões que houve entre os discípulos de santo Agostinho e os antigos bretões, pois estas só ocorreram no começo do século VII, enquanto a redação do Liber pontificalis remonta ao começo do século VI. Harnack supõe engenhosa e verossimilmente que o redator teria trocado, num texto, Britio, que é o nome de Edessa, por Brittano, e que o rei em questão seria Lucius Aelius Septimus Megas Abgar IX, rei de Edessa. Ver, para o desenvolvimento da lenda, o verbete Lucius.
Eleutério morreu em 24 de maio e foi enterrado no Vaticano perto do corpo de são Pedro. Sua festa é celebrada em 26 de maio. Acta sanctorum, t. II maii, p. 363-386; Liber pontificalis, edição Duchesne, t. I, p. 136, e Introdução, p. cii-civ; Harnack, Geschichte der altchristl. Literatur, t. I, p. 144; Id., Der Brief des britischen Königs Lucius an den Papst Eleutherus, em Sitzungsberichte der Berliner Akademie, 1904, t. I, p. 906-916; Cabrol, L'Angleterre chrétienne avant les Normands, Paris, 1909, p. 29-80; Duchesne, Éleuthère et le roi breton Lucius, na Revue celtique, 1883-1885, t. VI, p. 491-493; Zimmer, The Celtic Church in Britain and Scotland, trad. Meyer, Londres, 1902
Autor original: A. Clerval
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