DULCINO

DULCINO

DULCIN. — I. História. II. Doutrinas. 1. História. — Sucessor de Segarelli como chefe dos apostólicos, ver t. I, col. 1639-1644, nas dioceses de Novara e de Vercelli, Dulcin, de Ossola, julgou-se chamado, no começo do século XIV, a reconduzir a Igreja à simplicidade e à pobreza dos primeiros tempos do cristianismo, dos quais ela se teria afastado cada vez mais, segundo pretendia, desde a época do papa São Silvestre e do imperador Constantino, por seu espírito de dominação e pelo abuso das riquezas. Em vão São Bento, no século VI, e, por último, São Francisco de Assis e São Domingos haviam tentado deter esse movimento de decadência. Em vão Segarelli havia tentado fazer-se reconhecer e aprovar pela Santa Sé; sua falta de ortodoxia, suas tendências e suas manobras revolucionárias o haviam conduzido à fogueira em 1300. Dulcin, apesar dessa execução e do descrédito em que eram tidos os apostólicos, gabou-se de conseguir êxito, acentuando o movimento de revolta, se necessário até apoiando-o pela força; tratava-se de ser hábil, audacioso e resoluto, cercando-se ao mesmo tempo das precauções necessárias. Aliás, os escrúpulos não o incomodavam; sabia manter uma aparência de ortodoxia e, para escapar aos tribunais da inquisição, o perjúrio não lhe custava nada. Aproveitando-se da liberdade assim comprada, Dulcin continuava sua propaganda junto a populações crédulas, onde recrutava discípulos que facilmente resvalavam para o fanatismo. Dava-se por um inspirado do céu, um enviado de Deus, um profeta. O fim do mundo estava próximo: ele o anunciava dentro de um prazo de três anos. O rei da Sicília, Frederico II, deveria tornar-se imperador e tomar em mãos a causa da seita; Bonifácio VIII e sua corte, os padres e os monges iriam sofrer o justo castigo de Deus; um novo papa iria enfim restaurar a Igreja, reconduzindo-a às práticas dos primeiros tempos, aquelas de que ele se fazia honra e glória, isto é, à pobreza absoluta, a uma vida sustentada exclusivamente de esmolas. Três mil fanáticos alistaram-se sob suas ordens, sem se deixar desconcertar pela não realização de suas profecias. O mundo, com efeito, obstinava-se em durar; Bonifácio VIII estava morto, mas de modo algum massacrado; e quanto ao novo papa, Clemente V, ele não parecia nada disposto a sustentar os apostólicos; ao contrário, para secundar os bispos de Vercelli e de Novara, que não haviam conseguido reduzir pela persuasão esses perturbadores da ordem religiosa e social, nem deter sua propaganda subversiva, ordenou contra eles, em 1306, uma cruzada, único meio eficaz de os reconduzir à fé ou de os tornar inofensivos. Cf. Bernard Gui, Practica inquisitionis heretice pravitatis, Paris, 1886, p. 340. Dulcin, longe de se render e de abjurar seus erros, refugiou-se nas montanhas e resistiu pela força. Mas, depois de alguns êxitos parciais, seus companheiros foram feitos em pedaços; ele próprio foi capturado, julgado e condenado; em 1º de junho de 1307, expiou, na fogueira, seus crimes contra a religião e a sociedade, sem se ter retratado.

II. Doutrinas. — Por suas tendências, por sua atitude e por seus princípios, Dulcin constituía um fermento de desordem, tanto do ponto de vista religioso quanto do ponto de vista social. Seu sonho escatológico não era o que havia de mais perigoso; mas sua opinião sobre o juramento, que não era outra senão a dos valdenses, revelava relações íntimas com uma seita herética já condenada. Ao mesmo tempo que proibia o juramento, salvo para confessar sua fé diante da morte, admitia de bom grado que se podia subtrair-se à morte pelo perjúrio. Diante da Igreja, havia pregado a independência da vontade e a liberdade do espírito; e, ao anunciar a seus partidários que o papa reformador, cuja vinda lhes predizia, estabeleceria a comunidade das mulheres, mostrava que a imoralidade não era estranha às suas concepções. Em suma, sua conduta e seus atos bastavam para justificar todo erro contra a fé e todo atentado contra os costumes. Ignora-se, porém, quais pontos de doutrina ele negava em particular. Ptolomeu de Lucca afirma que ele havia errado sobre a eucaristia. Vie de Clément V, em Baluze, Vita paparum Avenionensium, Paris, 1693, t. I, p. 27, 605. O fato é que foi considerado um herege por seus contemporâneos. Ignora-se também até que ponto havia caído na depravação, e se é ele pessoalmente o autor responsável de dois artigos secretos, imputados à sua seita, que não eram outra coisa senão a justificação e a glorificação da impudicícia. Cf. Bernard Gui, Practica, loc. cit., p. 339, e Historia Dulcini heresiarche Novariensis auctore anonymo synchrono, em Muratori, Rerum italicarum scriptores precipui, Milão, 1726, t. IX, col. 439. Ele próprio havia vivido e sofrido o suplício com «sua irmã» Marguerite. Fontes antigas: ver as obras assinaladas no t. I, col. 1634. Autores modernos: Schlosser, Abelard und Dulcin, Gotha, 1807; Baggiolini, Dolcino e i Patareni, Novare, 1838; Krone, Fra Dolcino und die Patarener, historische Episode aus den Piemontischen Religionskriegen, Leipzig, 1844; Mariotti, A historical memoir of Fra Dolcino and his times, being an account of a general struggle for ecclesiastical reforms and of an anti-heretical crusade in Italy, in the early part of the fourteenth century, Londres, 1853; Ferrari, Fra Dolcino, em la Revista europea, Florença, 1879, t. XVI, p. 534-552, 639-653; Tocco, Gli apostolici e Fra Dolcino, em Archiv. storic. italiani, 1896, t. XIX, p. 241-272; Realencyklopädie, t. IV, p. 766-768; Chevalier, Répertoire des sources historiques du moyen âge, Bio-bibliographie, 2ª ed., col. 1246.

Autor original: G. Bareille

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