DU VERGIER DE HAURANNE (JOÃO), ABADE DE SAINT-CYRAN

DU VERGIER DE HAURANNE (JOÃO), ABADE DE SAINT-CYRAN

DU VERGIER ou DU VERGER DE HAURANNE Jean, mais conhecido sob o nome de abade de SAINT-CYRAN, um dos fundadores do jansenismo e seu primeiro apóstolo na França, nascido em Bayonne em 1581, morto em Paris a 11 de outubro de 1643. Depois de fazer seus estudos humanísticos em Bayonne, foi fazer sua teologia em Lovaina, onde sustentou, a 26 de abril de 1604, sobre toda a teologia escolástica, uma tese que lhe valeu os elogios de Justo Lípsio, um de seus examinadores. De Lovaina, onde as doutrinas de Baio sobreviviam apesar de tudo e mesmo acabavam de retomar vigor por ocasião do molinismo, ele trouxe provavelmente o germe de suas futuras doutrinas; em todo caso, foi lá que começou com Jansênio uma amizade que doze anos de relações cotidianas e como que uma cumplicidade nos desígnios tornariam inabalável. Nessa amizade, é ele quem desempenhará o papel preponderante, pois tem "uma vontade absoluta e sem contemplações," Hanotaux, Histoire de Richelieu, t. I, p. 113, e uma verdadeira necessidade de dominar as almas. Por volta de 1605, com efeito, ele volta a Paris; Jansênio o encontra lá; como está sem fortuna, du Vergier lhe consegue um lugar de preceptor que lhe garante a subsistência, e ambos seguem os cursos da Sorbona.

Em 1611, vão a Bayonne, onde o bispo, Bertrand d'Eschaux, nomeia de Hauranne cônego de sua catedral e Jansênio superior de um colégio que acaba de fundar. Mas o que ocupa sobretudo os dois amigos é o estudo de santo Agostinho. Não se trata de nada menos que regenerar o catolicismo desviando-o dos escolásticos para aproximá-lo dos Padres, fazer reviver em particular a pura doutrina da graça, segundo o Padre que melhor a expôs, santo Agostinho. Os protestantes lhes reprovarão a esse respeito terem parado no meio do caminho e não terem ido diretamente à Escritura. Cf. Lichtenberger, Encyclopédie, t. XI, p. 399. Desde então, portanto, preparam o Augustinus. Isso durou seis anos. Em 1617, sucedendo Bertrand d'Eschaux, em Tours, a Sébastien Zamet, demissionário, ambos deixavam Bayonne. Jansênio voltava a Lovaina; de Hauranne, após uma curta estadia em Paris, dirigia-se a Poitiers, para onde o chamava, por recomendação do arcebispo de Tours, o bispo Chasteignier de la Rocheposay. Grão-vigário, cônego de Poitiers, de Hauranne foi em seguida prior de Bonneville.

Em 1620, renunciou a esse priorado em favor de seu sobrinho, o Sr. de Barcos, para se tornar abade de Saint-Cyran, abadia na fronteira do Berry, do Poitou e da Touraine, à qual La Rocheposay renunciava em seu favor. Cf. Martineau, Le cardinal de Richelieu, t. I, p. 298, nota. Em Poitiers, por intermédio de Le Bouthilier, então abade de la Cochère e decano de Luçon, muito ligado a La Rocheposay, conheceu Armand du Plessis, bispo de Luçon, o futuro Richelieu, e Arnauld d'Andilly, que o pôs em relação com toda a sua família, particularmente com a madre Angélique, então em Maubuisson. Por outro lado, mantém correspondência com Jansênio, que prossegue seus estudos sobre santo Agostinho; em 1621, vai vê-lo em Lovaina, e ambos decidem definitivamente as doutrinas a propagar e os meios de propaganda. Saint-Cyran, que se reserva a propaganda, fixa ainda as principais grandes linhas da obra a compor. Voltarão a se ver em 1623 em Péronne, em 1624 e em 1626, em Paris, por ocasião de duas viagens que Jansênio fará à Espanha para se justificar. Enfim, sua correspondência se tornará mais ativa, servindo-se todavia de pseudônimos e de palavras convencionadas. Há assim como que uma conspiração na origem do jansenismo, e é a isso que se deve ligar o relato difundido por seus inimigos sobre as conferências de Bourg-Fontaine, sobre as quais plena luz não foi feita.

Segundo Filleau, Réfutation juridique de ce qui s'est passé à Poitiers touchant la nouvelle doctrine des jansénistes, in-8°, Poitiers, 1654, seis personagens ter-se-iam encontrado, no verão de 1621, na cartuxa de Bourg-Fontaine, e ter-se-iam posto de acordo para desacreditar os sacramentos da penitência e da eucaristia e chegar ao deísmo. Filleau só dava iniciais, mas logo se designou Saint-Cyran, Jansênio, Cospéan, Camus, Arnauld d'Andilly e Viguier. Era inverossímil. Não obstante, Pascal julgou dever refutar a coisa em sua décima oitava Carta provincial. No século XVIII, a controvérsia recomeçou entre o P. Sauvage, jesuíta lorenês, que escreveu: Réalité du projet de Bourg-Fontaine démontrée par l'exécution, 2 in-12, Paris, 1755, e dom Clémencet, beneditino, que respondeu com La vérité et l'innocence victorieuse de la calomnie ou huit lettres sur le projet de Bourg-Fontaine, 2 in-8°, Paris, 1758. No intervalo, isto é, de 1605 a 1621, Saint-Cyran fez publicar dois folhetos que revelam nele um espírito paradoxal e bizarro: o primeiro, que responde a uma questão posta por Henrique IV a seus cortesãos, tem por título completo: Question royale, ou est montré en quelle extrémité, principalement en temps de paix, le sujet pourrait être obligé de conserver la vie du Prince aux dépens de la sienne, e por título abreviado: Question royale et sa décision, in-12, Paris, 1609, sem nome de autor; du Vergier distingue trinta e quatro casos em que um homem pode matar-se inocentemente!

Os inimigos do jansenismo fizeram reimprimir esse folheto, em 1680, com comentários desfavoráveis e sob este título: Les nouvelles et anciennes répliques de messire Jean du Verger..., in-4°, Paris. O segundo folheto justifica o bispo de Poitiers que, à frente de homens armados, havia combatido os protestantes de sua cidade episcopal sublevados; intitula-se: Apologie sur Henri-Louis Chasteignier de la Rocheposaye, évêque de Poitiers, contre ceux qui disent qu'il n'est pas permis aux ecclésiastiques d'avoir recours aux armes en cas de nécessité, in-12, 1615; os contemporâneos o chamaram o Alcorão do Sr. de Poitiers. Por volta de 1622, termina o primeiro período da vida de Saint-Cyran. Ele sabe a reforma que quer e por quais meios a realizará. É então que se fixa em Paris, onde sua ação pode ser mais fecunda, e recusará sempre afastar-se dali. Em vão Richelieu, em cujas boas graças ele está muito adiantado, lhe oferece em 1625 o posto de primeiro capelão junto à futura rainha da Inglaterra, Henriqueta da França, e mais tarde, sucessivamente, ao menos cinco bispados: ele agradece, mas não aceita. Ele escreve e sobretudo age para preparar o êxito do empreendimento que é o de sua vida.

Em 1626, ele publica sem nome de autor, é uma tática sua, 3 in-4°, a obra completa devendo compreender 4, intitulados: La Somme des fautes et faussetés capitales contenues dans la Somme théologique de François Garasse. Garasse era um jesuíta que atacava os libertinos de seu tempo. Ele os havia denunciado em 1623 em sua Doctrine curieuse des beaux-esprits de ce temps; em 1625, havia pretendido reduzi-los por meio de uma Somme théologique des vérités capitales de la religion chrétienne, in-fol. A Sorbona censurou esse livro; Saint-Cyran declarou que ele "desonrava a majestade de Deus" e Voltaire zombou muito do P. Garasse. Parece bem que o P. Garasse só errava na maneira de dizer, cf. Brunetière, Études critiques, 4e série, Jansénistes et Cartésiens, p. 116-119; mas talvez Saint-Cyran não estivesse mais zangado do que a Sorbona por atingir todos os jesuítas, por trás de um deles. É ainda contra os jesuítas, ou seja, contra os defensores do molinismo e os irredutíveis adversários de Baio, que ele dirige o Petrus Aurelius, cujas diversas partes apareceram em 1632 e 1633, anônimas, mas que se deve atribuir-lhe por inteiro, a menos que se admita que ele o inspirou, até no detalhe, a seu sobrinho Barcos.

Richard Smith, bispo in partibus de Calcedônia, nomeado por Urbano VIII vigário apostólico na Inglaterra, havia sustentado na Sorbona, com de Dominis e Richer, a doutrina galicana e o episcopalismo; na Inglaterra, negou aos beneditinos e aos jesuítas, praticamente o único clero do país, o poder de conferir os sacramentos sem a permissão expressa do ordinário. Os religiosos, notadamente os jesuítas, protestaram. Seguiu-se uma controvérsia que alcançou a França. Foi então que apareceu o Petrus Aurelius: esse livro sustentava os direitos e as pretensões dos bispos, não só em face dos monges, mas em face do papa. Encontram-se já ali, com efeito, no tocante à Igreja, as doutrinas essenciais do jansenismo, tão próximas das doutrinas de Dominis ou de Richer: a Igreja não é uma monarquia, mas uma aristocracia; no meio dos bispos, seus pares pela autoridade, o papa não é o primeiro senão pela dignidade. O Aurelius realçava também a autoridade dos párocos em face da autoridade do bispo, porque eles são, como ele, sujeitos do sacramento da ordem e dispensadores dos sacramentos da penitência e da eucaristia; e, se se acrescenta, segundo Lancelot, Mémoires, t. II, p. 163, que Saint-Cyran era inimigo do concordato de 1516, ver-se-á o quanto ultrapassava os galicanos como Pithou.

Enfim, seu livro proclamava a superioridade do espírito interior, e tendia a libertar os justos e os eleitos da autoridade. Esse livro foi muito discutido. A Assembleia do clero de 1635 o aprovou e concedeu uma soma ao impressor; a de 1641 ordenou sua reimpressão em um só corpo; daí a edição de 1642, com esta inscrição: jussu et impensis cleri gallicani. A assembleia de 1645 ordenou sua reimpressão, donde a edição de 1646 com um Éloge de l'auteur pelo bispo de Grasse, Godeau. Mas o Aurelius encontrava, em contrapartida, uma oposição poderosa, da parte dos jesuítas naturalmente, e também de bispos como o cardeal de La Rochefoucauld, aliás bastante maltratado na obra. Esses adversários obtiveram de Luís XIV a apreensão da edição de 1642, que o clero, diziam eles, só havia votado por surpresa; depois a assembleia de 1656, talvez mais bem informada que a de 1645, condenou formalmente o Aurelius, e os Srs. de Sainte-Marthe tiveram de riscar, no t. IV da Gallia christiana, o elogio que haviam feito do autor presumido, mas não confesso, Saint-Cyran. Cf. Gallia christiana, Paris, 1666, t. IV, col. 881. O Aurelius é o prefácio do Augustinus; o título o indica: santo Agostinho se chamava Aurelius Augustinus; e o Aurelius destina-se a ganhar os bispos, futuros juízes do Augustinus, e a paralisar assim a hostilidade certa e antecipada dos jesuítas.

Esse cálculo está bem de acordo com a atitude geral de Saint-Cyran, a quem, já em 1622, Jansênio felicitava por "administrar tão bem as pessoas qualificadas para o assunto espiritual". Entre aqueles que ele procura ganhar, está o P. de Bérulle e são Vicente de Paulo; com eles, teria adquirido uma praça de armas e um exército. Mas são Vicente de Paulo não se deixou tentar; e se de Bérulle não foi tão firme em defender o Oratório, ao menos a verdadeira conquista de Saint-Cyran não foi essa. Foi Port-Royal e os Arnauld. Desde que conhecia Arnauld d'Andilly, ele não era um estranho para a madre Angélique, a quem pôde escrever, em 1623, uma carta de felicitação, quando ela trazia de Maubuisson para Port-Royal trinta religiosas pobres. A partir daí, relações, ainda raras, se estabeleceram entre ela e Saint-Cyran. Não foi, todavia, senão em 1635 e por um desvio que Saint-Cyran entrou em Port-Royal.

Em 1626, essa abadia havia sido transferida des Champs para Paris, para o hotel de Clagny, no bairro Saint-Jacques; em 1627, um decreto de Urbano VIII a fazia passar da jurisdição de Cister para a jurisdição do ordinário. O homem ouvido ali é então Zamet, bispo de Langres, que parece superior à apreciação que dele faz Sainte-Beuve, depois de todos os amigos de Port-Royal. Cf. Perrens, Sur une page incomplète de l'histoire de Port-Royal, na Revue historique, t. III, p. 265-272. Ele introduz em Port-Royal os oratorianos como confessores, e em 1633, determina as religiosas a abrir, na rua Coquillière, uma casa nova unicamente votada à adoração perpétua. A madre Angélique foi ali superiora. Ora, uma religiosa dessa casa, a madre Agnès, tendo escrito, para si mesma, uma meditação em dezesseis pontos, em memória dos dezesseis séculos decorridos desde a instituição do santíssimo sacramento, essas páginas, conhecidas sob o nome de Chapelet secret, caíram em domínio público, já em 1633. Rivalidades de pessoas desencadearam uma "tempestade" em torno desse escrito. Foi submetido ao exame de um doutor da Sorbona, Duval, que, com sete de seus colegas, o condenou, e de Roma, que o suprimiu.

Por conselho de Zamet, a madre Angélique pediu o parecer de Saint-Cyran, bem conhecido por sua ciência teológica. O Chapelet secret estava mais próximo do quietismo do que do jansenismo; não obstante, Saint-Cyran declarou nada encontrar nele a reprovar. Solicitou a aprovação dos doutores de Lovaina, Jansênio e Fromondus, para opô-la à autoridade dos doutores da Sorbona; fez mesmo publicar, em 1634, uma Réponse aux remarques contre le Chapelet secret, depois uma Réfutation de l'examen de la doctrine du Chapelet secret du Saint-Sacrement. Essa atitude lhe valeu a amizade de Zamet, que logo o introduziu no Institut du Saint-Sacrement, primeiro como amigo, depois como diretor durante uma de suas estadas em sua diocese. Onde quer que Saint-Cyran penetrasse, precisava de uma autoridade incontestada e absoluta. Reservado, taciturno, sem alegria, sem nenhuma das qualidades que atraem, ele transformava rapidamente as relações que tinha numa verdadeira tomada de posse. Assim, levou todas as religiosas a se confessarem com ele; a madre Angélique, todavia, só o fez por último; depois do que ele lhes fez aceitar um de seus fiéis, o Sr. Singlin, como confessor. Zamet, de volta, não reconheceu mais sua casa.

Em fevereiro de 1636, a madre Angélique voltava a Port-Royal como mestra de noviças. Saint-Cyran ali entrou atrás dela. Port-Royal, como Institut du Saint-Sacrement, passou sob sua direção; Zamet, excluído "de toda influência e mesmo da entrada," queixou-se amargamente e lançou suspeita sobre a direção que Saint-Cyran dava. Em todo caso, este logo conseguiu penetrar Port-Royal com seu espírito. Sua reputação de ciência é grande, mas ainda mais atraente é sua reputação de austeridade. Ele atrai também a si a numerosa clientela religiosa de Port-Royal e muito particularmente a da madre Angélique, todos os Arnauld primeiro ou quase. Bispos, ministros de Estado, magistrados, grandes damas pedem seus conselhos. Ele é uma potência pelo ascendente que exerce sobre um numeroso grupo de homens e mulheres, que estão todos muito longe de ser os primeiros que apareçam. Sua obra espiritual que causou mais alvoroço foi a conversão, como se dizia em Port-Royal, de Antoine Le Maître, 1637. Le Maître tinha vinte e nove anos; era o advogado mais reputado de Paris; o chanceler Séguier o protegia e, havia um ano, era conselheiro de Estado.

Mas era um Arnauld por sua mãe, Catherine Arnauld, a qual residia em Port-Royal com sua velha mãe e treze irmãs ou sobrinhas religiosas. Junto ao leito de morte de sua tia d'Andilly, ouviu as exortações de Saint-Cyran. Tomado do temor dos julgamentos de Deus, entregou-se nas mãos desse diretor, recusou o cargo de advogado-geral que Séguier lhe oferecia, renunciou completamente à advocacia e mesmo à vida no mundo. Sua mãe lhe fez construir ao lado de Port-Royal uma pequena casa onde, com seu irmão, de Séricourt, convertido como ele, levou uma vida de penitente. Foi essa a origem dos Solitários, uma das instituições de Saint-Cyran. A direção de Saint-Cyran, com efeito, que pretendia continuar são Francisco de Sales e inspirar-se nos Padres, era singularmente austera e intransigente. Partia evidentemente destes princípios que se convencionou chamar jansenistas: o homem é ou escravo da justiça e livre do pecado, ou livre da justiça e escravo do pecado; não há meio-termo; é a graça eficaz, irresistível, gratuita, que o homem não pode merecer, mas que pode abandoná-lo, que faz dele, escravo do pecado desde a falta original, o escravo da justiça.

Esses princípios conduziam necessariamente a uma vida de isolamento, de penitência e de exceção. Quando um homem é visitado por esse pensamento milagroso da graça eficaz, se não quer ser abandonado por ela e condenar-se, com a grande maioria, às penas eternas, deve trabalhar para transformar sua alma na penitência e pelo amor. Não há outro caminho senão a vida perfeita, incompatível com a vida no mundo. Do trabalho interior depende mesmo a eficácia dos sacramentos; eles exigem uma preparação e afeições perfeitas, uma verdadeira renovação interior. É criminoso recebê-los sem isso. Mas na manhã de 15 de maio de 1638, Saint-Cyran foi preso por ordem de Richelieu e encerrado em Vincennes. Não se conhece de maneira certa o motivo determinante dessa prisão, mas indicam-se uma série de razões políticas, religiosas e pessoais. Saint-Cyran tinha demasiado império sobre as almas, como provavam sua influência em Port-Royal, o caso Le Maître e já, anos antes, o ascendente que tomara sobre as Filhas do Calvário durante uma ausência do P. Joseph; e o alcance dessa influência não fazia senão crescer.

Ora, esse homem era pouco dócil; ao recusar um bispado, havia mostrado que não havia ascendente sobre ele, e sem falar da inverossímil afirmação dos jansenistas de que Saint-Cyran teria recusado servir ao projeto de Richelieu de tornar-se patriarca das Gálias, o cardeal não lhe teria perdoado ter sustentado, em face da afirmação contrária da Assembleia do clero, a validade do casamento de Gaston d'Orléans e Marguerite de Lorraine. Além disso, Saint-Cyran estava ligado aos inimigos da França: não era Jansênio um dos autores do panfleto Mars gallicus, escrito em latim, mas logo traduzido para o francês, no qual eram ridicularizadas as alianças do Rei Cristianíssimo com os hereges e denunciadas as crueldades e as impiedades de seus soldados no saque de Tirlemont, 1635? Por outro lado, a ortodoxia de Saint-Cyran era duvidosa. Já em 1636, Zamet, como se viu, a atacara e denunciara Saint-Cyran por ter desviado as almas da comunhão na casa do Santíssimo Sacramento. Um inquérito havia sido feito pelo chanceler Séguier e pelo arcebispo de Paris, Gondi: não tivera êxito. Mas Zamet havia dirigido, no mesmo sentido, a Richelieu, um Mémoire touchant les filles de Port-Royal et l'abbé de Saint-Cyran, não impresso, cujo manuscrito ainda existe: Bibl. de l'Institut, suplemento ao fundo Godefroy.

A madre Angélique, que permanecera cinco meses sem comungar, tentou justificar-se e justificar Saint-Cyran num Mémoire... contra o do Sr. de Langres; depois Le Maître redigiu uma Réponse générale et particulière au mémoire de M. l'Évêque de Langres, que se publicou em 1645 com uma Apologie pour Messire Jean du Verger de Hauranne..., in-18; Saint-Cyran permaneceu suspeito. Enfim, e aqui teria intervindo o amor-próprio de Richelieu: ele não teria podido perdoar a Saint-Cyran afirmar a necessidade da contrição perfeita no sacramento da penitência, quando em seu catecismo de Luçon havia ensinado, e em seu Traité de la perfection chrétienne, iniciado em 1636, ainda ensinava a suficiência da atrição. Foi mesmo essa questão que teria provocado a prisão: Luís XIII, depois de ler um livro do oratoriano Séguenot sobre a Virgindade, no qual se sustentava a necessidade da contrição perfeita, teria tido perturbações de consciência a respeito de suas alianças heréticas, e Richelieu teria descoberto que Séguenot era o eco de Saint-Cyran. Seja como for, amigos influentes tentaram em vão obter a libertação do prisioneiro.

Haviam-se apreendido seus papéis, neles se encontrou o suficiente para fornecer trinta e dois grossos in-fólios, extratos dos Padres, pensamentos, tratados, etc. E isso não era tudo: o Sr. de Barcos crera dever queimar alguns logo após a prisão de seu tio, para não dar nenhuma arma nem contra seu tio, nem contra qualquer outro. O interrogatório de Saint-Cyran só teve lugar um ano depois. Ele havia recusado Laubardemont, como leigo; foi interrogado por Lescot, doutor da Sorbona, mais tarde bispo de Chartres, que tinha por missão, ao que parece, convencê-lo de heresia. Esse interrogatório não teve outra consequência senão a manutenção de Saint-Cyran em Vincennes, onde permaneceu cinco anos. Foi posto em liberdade em 16 de fevereiro de 1648, dez meses após a morte de Richelieu, após a promessa de que não se ouviria mais falar dele e sob as instâncias do primeiro presidente Molé e do advogado-geral Bignon junto a Chavigny, ministro de Estado.

Sua detenção não fora dura: pudera ver algumas pessoas, continuar por cartas suas direções, operar mesmo conversões, como a de Antoine Arnauld, o grande Arnauld, ver t. 1, col. 1978-1983, e acompanhar os acontecimentos, dos quais o importante a seus olhos foi o aparecimento do Augustinus em Lovaina, 1640, e em Paris, 1641. Jansênio morrera em 6 de maio de 1638; hesitara em publicar seu livro, e segundo uma carta que se preparava para endereçar ao papa Urbano VIII, teria querido obter, antes da publicação, a aprovação de Roma. Seus testamenteiros, Fromondus e Calenus, apressaram-se, ao contrário, a fazer imprimir o livro, em segredo, por causa dos jesuítas que se esforçavam por impedir seu aparecimento, e o publicaram logo, sem aprovação de Roma, naturalmente. Foi uma tempestade em Lovaina, em Paris; críticas vigorosas logo se fizeram ouvir, provocadas pelo teólogo Habert; Richelieu se preparava, dizia-se, para reprimir; enfim, o livro foi denunciado a Roma. Saint-Cyran, que fizera desse livro o objetivo de sua vida e que tudo fizera para preparar seu êxito, mostrava-se muito irritado com esses ataques e essas ameaças; ele próprio ameaçava por sua vez, ao que parece, Richelieu e Roma.

Não podendo estar livre — pois alguns meses antes da publicação do Augustinus, maio de 1640, depois de haver consentido em enviar a Richelieu uma carta explicativa, rompera bruscamente as negociações —, lançou os Arnauld na peleja, e o livro La fréquente communion do grande Arnauld, 1643, será o complemento prático e como que uma defesa do Augustinus. O anúncio da bula In eminenti de Urbano VIII não fará senão irritar Saint-Cyran. Em 16 de fevereiro de 1643, ele saía de Vincennes e dirigia-se a Port-Royal de Paris, onde as religiosas o recebiam com alegria, e a Port-Royal des Champs, onde se haviam instalado os Solitários. Em junho de 1638, com efeito, pouco depois da prisão de Saint-Cyran, o arcebispo de Paris lhes havia ordenado, em nome da corte, que deixassem a vizinhança imediata das religiosas, e os havia autorizado a se refugiarem em Champs. Após algumas semanas, foram expulsos de lá por Laubardemont. Dispersaram-se — eram então uma dúzia — mas a partir do fim do verão de 1639, haviam voltado sucessivamente a Champs. Saint-Cyran não sobreviveu à sua libertação senão alguns meses.

Sofreu ainda tribulações a propósito de uma Théologie familière, espécie de pequeno catecismo que compusera em sua prisão para os filhos de seu amigo Bignon e que aparecera no fim de 1642; viu a primeira acolhida, um sucesso estrondoso, feita ao livro do grande Arnauld La fréquente communion; enfim, para lavar seu partido da acusação de calvinismo, retomou uma obra que começara antes de sua prisão contra a heresia protestante. Morreu de apoplexia em 11 de outubro de 1643, depois de receber os últimos sacramentos do pároco de Saint-Jacques-du-Haut-Pas, dizem seus amigos, sem sequer ter tido tempo de receber completamente a extrema-unção, diz o P. Rapin, um jesuíta. Repartiu-se seu corpo: o coração foi dado ao Sr. d'Andilly, as entranhas a Port-Royal de Paris, as mãos ao Sr. Le Maître; o resto foi enterrado em Saint-Jacques-du-Haut-Pas, em meio a um imenso concurso de fiéis e na presença de todos os arcebispos e bispos então em Paris. Seu túmulo logo se tornou um lugar de peregrinação. O epitáfio gabava "sua alta ciência", "sua profunda humildade, seu zelo muito ardente pela unidade da Igreja, a tradição dos Padres e as verdades que adquirira da antiguidade." Ora, em dezembro de 1643, iria ser publicada a bula In eminenti de Urbano VIII, que condenava o Augustinus e por conseguinte as doutrinas fundamentais e a obra de Saint-Cyran, aguardando a bula Unigenitus.

Além das obras indicadas, Saint-Cyran ainda escreveu: Lettres touchant les dispositions à la prêtrise, in-12, Paris, 1647, intituladas: Pensées de M. de Saint-Cyran sur le sacerdoce, nas Lettres publicadas em 1744; La vie de la sainte Vierge en considérations sur ses fêtes et mystères, sob o nome de Granval, in-12 e in-8°, Lyon, 1664, e vários opúsculos que se encontram numa ou noutra destas 3 coletâneas gerais; 1° Lettres chrétiennes et spirituelles, écrites de sa prison, 2 in-4°, Paris, 1645, várias vezes reimpressas; 2° Lettres chrétiennes et spirituelles qui n'ont pas encore été imprimées, 2 in-12, Paris, 1744; 3° Œuvres chrétiennes et spirituelles de messire Jean du Verger de Hauranne, abbé de Saint-Cyran, nouvelle édition, avec approbation et privilège, 4 in-12, Lyon, 1679. Esta reimpressão traz a aprovação de dezoito bispos franceses. Os três primeiros volumes contêm as Lettres, cuja chave se pode encontrar no Recueil de plusieurs pièces pour servir à l'histoire de Port-Royal, p. 150-166, e na Histoire littéraire de Port-Royal, t. 1, p. 318-343.

Mémoires touchant la vie de M. de Saint-Cyran, par M. Lancelot, pour servir à éclaircissement de l'histoire de Port-Royal, 2 in-12, Cologne, 1738; Mémoires pour servir à l'histoire de Port-Royal par M. Du Fossé, in-12, Utrecht, 1739; Mémoires de Pierre Thomas, sieur Du Fossé, publiés en entier pour la première fois d'après le manuscrit original, avec une introduction et des notes par F. Bouquet, 4 in-8°, Rouen, 1876-1879; Mémoires pour servir à l'histoire de Port-Royal, par M. Fontaine, 2 in-12, Utrecht, 1736; 4 in-12, 1753; Recueil de plusieurs pièces pour servir à l'histoire de Port-Royal, en supplément aux Mémoires de MM. Fontaine, Lancelot et Du Fossé, ou Recueil d'Utrecht, in-12, Utrecht, 1740; Mémoires pour servir à l'histoire de Port-Royal et à la vie de la Révérende mère Marie-Angélique..., 3 in-12, Utrecht, 1742; Mémoires du P. Rapin de la Compagnie de Jésus, sur l'Église et la société, ou la ville et le jansénisme, publiés pour la première fois d'après le manuscrit autographe, par Léon Aubureau, 3 in-8°, Paris, 1865; Mémoires de Godefroi Hermant, docteur de Sorbonne, chanoine de Beauvais,... sur l'Histoire ecclésiastique du XVIIe siècle (1630-1663), publiés pour la première fois sur le manuscrit autographe et sur les anciennes copies authentiques, par A. Gazier, 5 in-8°, Paris, 1905-1908;

Mémoires de messire Robert Arnauld d'Andilly, écrits par lui-même, 2 in-12, Hambourg, 1738; Mémoires du sieur de Pontis, qui a servi dans les armées cinquante-six ans, sous les rois Henri IV, Louis XIII et Louis XIV, contenant plusieurs circonstances remarquables... divisés en deux tomes, Paris, 1715; Nécrologe de l'abbaye de Notre-Dame de Port-Royal des Champs, in-4°, Amsterdam, 1723; Supplément au Nécrologe... première partie, in-4°, 1735; Dictionnaire historique, littéraire et critique contenant une idée abrégée de la Vie et des ouvrages des hommes illustres en tout genre, de tout temps et de tout pays, 4 in-8°, 1758; Histoire générale du jansénisme..., par M. l'abbé *** (dom Gerberon), 3 in-12, Amsterdam, 1700; Histoire de l'abbaye de Port-Royal: première partie: histoire des religieuses; deuxième partie: histoire des messieurs (par Jérome Besoigne), 6 in-12, Cologne, 1752; Histoire générale de Port-Royal, depuis la réforme de l'abbaye jusqu'à son entière destruction (par dom Clémencet), 10 in-12, Amsterdam, 1755-1757; Histoire abrégée de l'abbaye de Port-Royal... première partie (par Jacques Fouillou), in-12, 1710;

Abrégé de l'histoire de Port-Royal par Jean-Baptiste Racine, avec un Avant-propos, un Appendice, des Notes, un Essai bibliographique et trois illustrations, par A. Gazier, in-12, Paris, 1908; Histoire du jansénisme depuis son origine jusqu'en 1644, par le P. Rapin, de la Compagnie de Jésus; ouvrage complétement inédit, revu et publié par l'abbé Domenech, in-8°, Paris, 1861; Histoire littéraire de Port-Royal, par dom Clémencet, bénédictin..., publié pour la première fois sur le manuscrit authentique avec une introduction et la biographie de l'auteur, par M. l'abbé Guettée, in-8°, Paris, 1868, t. 1; Description du pays de Jansénie... par Louys Fontaine, sieur de Saint-Marcel, in-12, 1688; Abrégé historique des détours et des variations du jansénisme depuis son origine jusqu'à présent, in-12, 1739; Fantôme du jansénisme ou justification des prétendus jansénistes... par un docteur de Sorbonne (Arnauld), Cologne, 1686; Lettres de la Révérende Mère Marie Angélique Arnauld, abbesse et réformatrice de Port-Royal, 3 in-12, Utrecht, 1740-1743; Lettres de M. Arnauld d'Andilly, in-12, Paris, 1680;

Bibliothèque janséniste ou Catalogue alphabétique des principaux livres jansénistes ou suspects de jansénisme... avec des notes critiques sur les véritables auteurs de ces livres, sur les erreurs qui y sont contenues et sur les condamnations qui en ont été faites par le saint-siège, ou par l'Église gallicane, ou par les évêques diocésains, 2e édit. corrigée et augmentée de plus de la moitié (par le P. Colomb, jésuite), in-12, 1731; 4e édit., in-12, 1744; Histoire de l'origine des pénitents et solitaires de Port-Royal des Champs, 1733; Sainte-Beuve, Port-Royal, 5e édit., 7 in-12, Paris, 1888, t. 1, II; Fuzet, Les jansénistes et leur dernier historien, in-8°, Paris, 1876; Dr Hermann Reuchlin, Geschichte von Port-Royal..., in-8°, Hambourg, Gotha, 1839, t. 1; A. Maulvault, Répertoire alphabétique des personnes et des choses de Port-Royal, in-8°, Paris, 1902; Pierre Varin, La vérité sur les Arnauld, 2 in-8°, Paris, 1847; Guillaume Dall, La mère Angélique, in-12, Paris, 1893; Monlaur, Angélique Arnauld, in-8°, Paris, 1904; Strowski, Saint François de Sales, in-8°, Paris, 1898; Pascal et son temps, in-18, Paris, 1907, t. I

Autor original: C. Constantin

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