DOROTEU de Tiro (Santo). Personagem cuja existência, no século IV, é bastante difícil de justificar por algum testemunho contemporâneo que ateste a presença em Tiro de um bispo desse nome e o seu martírio em 362. Que tenha havido, no século IV, um santo do nome de Doroteu, sabemo-lo por Eusébio, H. E., VII, 1, P. G., t. XX, col. 740: era um camarista do imperador Diocleciano, que morreu mártir em companhia de Górgono, durante a perseguição de 304, em Nicomédia; mas não foi nem bispo de Tiro, nem simples sacerdote, e Blondel errou ao identificá-lo com Doroteu de Antioquia. Que tenha havido um sacerdote desse nome, sabemo-lo igualmente por Eusébio, H. E., VII, 32, P. G., t. XX, col. 721; mas não foi nem bispo de Tiro, nem mártir; pois, certamente, na falta de Eusébio, são Jerônimo não teria deixado de assinalá-lo em seu De viris. Que é, então, esse Doroteu de Tiro? O Martirológio romano, na data de 5 de junho, menciona, em Tiro, são Doroteu, sacerdote, confessor sob Diocleciano, e mártir com 107 anos de idade, sob Juliano o Apóstata. Barônio, retendo essa qualificação de sacerdote, julgou poder identificá-lo com Doroteu de Antioquia, que foi de fato sacerdote, mas sacerdote de Antioquia, e a respeito de quem nada garante que tenha sofrido o martírio. Uma das razões que ele dá, Martyr. rom., Paris, 1645, p. 222, é que a lista dos bispos de Tiro durante o século IV é conhecida e não contém o nome de Doroteu. Nela há menção a são Metódio e ao ariano Paulino, ao qual teria sucedido Zenão, cujo nome e assinatura se encontrariam nas atas do concílio de Niceia em 325 e nas do concílio de Constantinopla em 381. Isso daria uma bela longevidade episcopal. Barônio afirma, além disso, ter lido na crônica manuscrita de Anastásio o Bibliotecário uma passagem em que se diz que são Doroteu morreu em Edessa, na Síria, com 105 anos de idade. A dizer a verdade, a única fonte — e ainda por cima bastante tardia, do fim do século VIII ou do começo do IX — encontra-se em Teófanes (+ por volta de 813), Chronographia, no ano 316, P. G., t. CV, col. 108. É lá que se fala de um são Doroteu, bispo de Tiro, homem muito instruído, conhecedor do grego e do latim, autor de uma história dos bispos de Bizâncio e de outras cidades, confessor sob Diocleciano e Licínio, exilado uma primeira vez, retornado a Tiro, de onde foi assistir ao concílio de Niceia, exilado uma segunda vez em Odissópolis, na Trácia, onde sofreu a perseguição por parte dos oficiais de Juliano o Apóstata, e onde morreu mártir com 107 anos de idade. É nesse testemunho de Teófanes, do qual encontram um eco nas obras de Anastásio o Bibliotecário, no Typicus do abade de Santa-Sabas, no Sinaxário manuscrito de Constantinopla, em 6 de junho, e no Menológio do imperador Basílio, em 9 de outubro, que os bolandistas, Acta sanctorum, Paris, 1867, t. I junii, p. 427-430, se apoiam e inseriram a notícia De sancto Dorotheo, episcope Tyr, Odyssopoli in Thracia martyrizato. Distinguem esse Doroteu, bispo e mártir, seja de Doroteu de Antioquia, seja do eunuco que foi camarista de Diocleciano e mártir, seja do pretenso autor da Synopsis de vita et morte prophetarum, apostolorum et discipulorum Domini, seja de três outras personagens do mesmo nome. Loc. cit., p. 430, 582. Mas resta a dificuldade de lhe arranjar um lugar na lista dos bispos de Tiro; creem resolvê-la dizendo que sucedeu a são Metódio (+ 311), o que também sustenta Le Quien, Oriens christianus, Paris, 1749, t. II, col. 803, que foi substituído durante seu primeiro exílio pelo ariano Paulino, que retomou sua sé quando Paulino foi transferido para Antioquia, que assistiu ao concílio de Niceia, que morreu mártir, sob Juliano o Apóstata, durante seu segundo exílio, em Odissópolis, na Trácia, onde seu túmulo e sua memória são honrados, e que sua festa, no calendário de Constantinopla, está assinalada em 5 de junho, data que é a mesma do Martirológio romano. Teve por sucessor Zenão; sendo nada menos que seguro o nome e a assinatura dos bispos do concílio de Niceia, Zenão, que efetivamente assistiu aos concílios de Roma, em 369, e de Constantinopla, em 381, teria sido indevidamente incluído entre os bispos que tomaram parte no concílio de Niceia. É sobre tais dados, longe de serem absolutamente decisivos, que os bolandistas, com todo o Oriente, como dizem, creem na existência de um bispo de Tiro, do nome de Doroteu, morto mártir em 362, e que lhe consagraram uma notícia. Mas Tillemont, Mémoires, t. V, p. 658, e Cave, Hist. litt., Genebra, 1705, p. 104, formulam as mais expressas reservas sobre o relato de Teófanes, dado o silêncio de Eusébio e de são Jerônimo. Poder-se-ia ir até o ponto de dizer, com Mons. Batiffol, Litt. grecque, Paris, 1897, p. 191, nota 1, que «esse Doroteu, bispo de Tiro, nunca existiu?» Não o pensamos. Sem dúvida, nesse caso particular, os bolandistas não fizeram plena luz e não trazem uma certeza absoluta; mas, apesar das dificuldades que persistem, sua opinião permanece verossímil e pode ser retida até informação mais ampla. Teófanes, Chronographia, P. G., t. CV, col. 108; Barônio, Martyrologium Romanum, Paris, 1645, p. 222; Acta sanctorum, Paris, 1867, t. I junii, p. 427-430, 582; Tillemont, Mémoires pour servir à l'hist. eccl., Paris, 1702, t. V, p. 657-658; Cave, Script. eccl. historia litteraria, Genebra, 1705, p. 104; Le Quien, Oriens christianus, Paris, 1749, t. II, col. 803; Delitzsch, Diatribe de pseudo-Dorothei et pseudo-Epiphanii vitis prophetarum, Leipzig, 1842; Lipsius, Die Apostelgeschichte und Apostellegenden, Brunswick, 1883, t. I, p. 193-205; Krumbacher, Geschichte der byzantinischen Litteratur, Munique, 1890, p. 391; Chevalier, Répertoire. Bio-bibliographie, 2e édit., col. 1232.
Autor original: G. Bareille
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